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"Brasileiros do Mundo": nova série da Cultura FM destaca músicos bem-sucedidos no exterior

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             A cantora, pianista e compositora Tânia Maria 
       

Tânia Maria, Dom Salvador, Duduka da Fonseca, Luciana Souza e Romero Lubambo, instrumentistas e intérpretes de alto quilate, têm algo em comum nas suas trajetórias: são brasileiros que, décadas atrás, decidiram viver na Europa ou nos Estados Unidos, onde desenvolveram carreiras bem-sucedidas, tocando e/ou cantando música brasileira e jazz. Ironicamente, hoje esses artistas são mais conhecidos no exterior do que no Brasil.

Essa é a tônica de “Brasileiros do Mundo”, série de cinco programas, que idealizei e vou apresentar na Cultura FM (103,3) de São Paulo. O programa de estreia, que será exibido no dia 29/06 (domingo), às 14h, é dedicado a Tânia Maria. Essa carismática pianista, cantora e compositora decidiu se radicar na França, no início da década de 1970. Graças a seu talento musical, em pouco tempo ela se tornou uma grande estrela da cena internacional do jazz.

Nascida no Maranhão, Tânia tinha apenas dois anos quando sua família se mudou para Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro. Já cantava e tocava piano em casas noturnas, no final dos anos 1960, quando foi vítima de um abuso típico do repressivo regime militar daquela época. Numa noite, ao sair da boate carioca em que se apresentava, foi abordada por uma viatura policial e conduzida a uma delegacia, como se fosse uma prostituta. O policial chegou a rasgar sua carteira de musicista profissional.

“Foi um trauma muito grande, eu tinha 22 anos. Depois daquilo eu não podia ficar mais aqui”, relembrou Tânia, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, em 2005, ao se apresentar no Sesc Pompeia, na capital paulista – suas primeiras apresentações em palcos brasileiros, após três décadas de autoexílio na Europa. O programa de estreia da série “Brasileiros do Mundo” destaca algumas das composições mais aplaudidas dessa sensacional artista, como “Euzinha”, “Come with Me” e “Valeu”.

O pianista e compositor carioca Antonio Adolfo (protagonista do programa de 6/07), também passou anos na Europa e nos Estados Unidos, na década de 1970. “Não fui expulso nem banido, mas saí porque estava com nojo daquela situação”, ele afirmou, em 2019, em entrevista ao site Scream & Yell. Autor de sucessos, como “BR-3” e “Juliana” (ambos em parceria com Tibério Gaspar), Adolfo foi perseguido pela ditadura militar, como outros artistas naquela época.

Ao retornar ao país, ele redirecionou sua carreira, ao se aproximar da música instrumental. Desde a década passada tem alternado períodos no Brasil e nos Estados Unidos, onde tem lançado praticamente um álbum por ano, misturando música brasileira e jazz. Alguns desses discos já receberam indicações para os prêmios Grammy e Grammy Latino.   

O caso da cantora paulista Luciana Souza, que pertence a uma geração posterior à de Antonio Adolfo e Tânia Maria, já é um pouco diferente. Ela foi estudar música nos Estados Unidos, na década de 1990, e desde então só tem retornado ao Brasil de vez em quando, para fazer shows. Filha dos compositores Walter Santos e Tereza Souza, Luciana construiu uma sólida carreira internacional na área do jazz vocal.

Os 15 álbuns que Luciana já lançou como intérprete e compositora, combinando diversos gêneros da música brasileira com influências do jazz contemporâneo e da música de câmara, têm sido elogiados por sua sofisticação. O programa protagonizado por ela vai ao ar em 13/07.

O pianista e compositor paulista Dom Salvador e o baterista carioca Duduka da Fonseca se aproximaram ainda nos anos 1970, quando já viviam na área de Nova York. Ali os dois abraçaram uma missão musical: tornaram-se embaixadores informais do samba-jazz. Não foi à toa que, em 2015, ao festejar os 50 anos de seu Rio 65 Trio, em um concerto no Carnegie Hall, Salvador convidou Duduka para substituir o lendário baterista Edison Machado (1934-1990), da formação original do trio.

Duduka retribuiu o convite do mestre paulista com uma bela homenagem: em 2018, lançou um álbum com repertório integralmente dedicado à obra musical de Dom Salvador, que hoje já reúne mais de 300 composições autorais. O programa que focaliza esses craques da música instrumental brasileira será exibido em 20/07.

Dois grandes violonistas protagonizam o último programa dessa série, que irá ao ar em 27/07. O carioca Romero Lubambo já se destacava na cena instrumental brasileira, em 1985, quando se mudou para Nova York. Hoje é admirado por sua versatilidade, ao se apresentar e gravar com artistas de diversos gêneros musicais, como as cantoras Dianne Reeves e Angélique Kidjo, o saxofonista Paquito D’Rivera ou o violinista Yo-Yo Ma.    

Por outro lado, o paulista Chico Pinheiro já era um instrumentista consagrado, em 2016, quando trocou São Paulo por Nova York. Suas colaborações com astros do jazz, como Ron Carter, Brad Mehldau e Esperanza Spalding, assim como João Donato, Dori Caymmi e outros craques da música brasileira, falam por si. A afinidade musical de Lubambo com Pinheiro é evidente em “Two Brothers”, álbum gravado por eles em 2021. Gravações desse disco em parceria abrem o repertório do programa que vai ao ar em 3/08, na Cultura FM de São Paulo, encerrando a série “Brasileiros do Mundo”.     

BRASILEIROS DO MUNDO - Série de cinco programas, que vai ao ar a partir de 29/06, nos domingos, às 14h, pela Cultura FM (103,3) de São Paulo. Roteiros e apresentação: Carlos Calado. Direção: Inez Medaglia. Se preferir, ouça esses programas ao vivo pelo site da Cultura FM no portal UOL, por meio deste link: https://cultura.uol.com.br/aovivo/4_ao-vivo-radio-cultura-fm.html

                        

Jazz em 2019: 20 álbuns de revelações e veteranos do gênero nos Estados Unidos

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Para quem gosta de acompanhar as novidades e os lançamentos na cena internacional do jazz, aqui vai uma lista comentada de 20 álbuns lançados durante 2019, no mercado norte-americano. Não se trata de uma lista de “melhores do ano”, mas de recomendações de álbuns que tive a oportunidade de ouvir e que me agradaram.

Como o acesso a CDs lançados fora do país torna-se mais difícil a cada ano, você pode ao menos ouvir algumas faixas desses álbuns, se clicar no título de cada disco comentado (em streaming gratuito do YouTube). Espero que você curta, como eu, essas novidades do jazz. Boa audição!


Antonio Adolfo - “Samba Jazz Alley”(AAM) – Mais uma joia musical do pianista carioca, que nos últimos anos tem vivido na ponte aérea Miami-Rio. O título do álbum se refere ao lendário Beco das Garrafas, berço do samba-jazz, que Adolfo frequentou ainda adolescente. No repertório, sofisticadas releituras de clássicos da bossa nova (de Tom Jobim, Johnny Alf e Baden Powell), além de temas de sua autoria.

Benett Paster - “Indivisible” (independente) – As composições desse versátil tecladista radicado em Nova York são bem diversificadas: um contagiante soul-jazz (“Gritty Greens”), funk à New Orleans (“Belgrade Booty Call”), jazz-rock que lembra os Brecker Brothers (“Salamander”), um refinado country (“Murfreesboro Waltz”), até samba (“Indian Summer”). Cardápio saboroso para quem não tem gosto restrito.

Carol Sudhalter - “Live at Saint Peter’s Church” (Alfa Projects) – Mulher que toca sax barítono já é algo incomum, mas esta veterana jazzista vai além: também é ótima flautista, além de cantora eventual. Neste concerto gravado em uma igreja nova-iorquina, Carol interpreta composições de Sonny Rollins (“Valse Hot”), Benny Golson (“Park Avenue Petite”) e Tom Jobim (“Luiza”) à frente de um quarteto.

Chris Pasin - “Ornettiquette” (Planet Arts) – Ao batizar seu quarto álbum, este trompetista residente em Nova York já entrega suas referências. Pasin formou sua concepção musical ainda na adolescência, ouvindo discos dos vanguardistas Ornette Coleman e Don Cherry. Cinco composições de Coleman estão no repertório do sexteto, que inclui o vibrafonista e pianista Karl Berger, veterano do jazz “avant-garde”.

Dave Stryker - “Eight Track III” (Strikezone) – Releituras de hits da soul music, como “Move on Up” (Curtis Mayfield), “Everybody Loves the Sunshine” (Roy Ayers) e “Too High” (Stevie Wonder”), destacam-se neste álbum do criativo guitarrista e seu quinteto, que inclui o vibrafonista Stefon Harris. Stryker também lançou há pouco “Eight Track Christmas”, simpático álbum com versões de clássicos natalinos.

Dave Rudolph Quintet - “Resonance” (independente) – Expressivo álbum de estreia do baterista e compositor da Flórida, que assina as nove faixas. Seu quinteto – formado por ex-colegas de universidade, como o guitarrista Larue Nickelson e o saxofonista Zach Bornheimer – soa coeso e inventivo. Faixas como “Atonement”, “Those Clumsy Words” e “Night Squirrel” chamam atenção pelo sabor contemporâneo.

Duduka da Fonseca & Hélio Alves - “Samba Jazz & Tom Jobim” (Sunnyside) – Radicados há décadas em Nova York, o baterista carioca e o pianista paulista têm conquistado plateias de clubes e festivais de jazz, com o repertório deste álbum. Além dos vocais de Maucha Adnet (em belezas jobinianas, como “Dindi” e “A Correnteza”), destacam-se também participações dos trompetistas Claudio Roditi e Wynton Marsalis.

Ernie Watts - “Home Light” (Flying Dolphin) – Este é um daqueles mestres do sax tenor, cuja sonoridade você pode identificar ouvindo apenas duas ou três notas. Watts desenha aqui cenários sonoros bem diversos: da vanguardista “Frequie Flyers” (de sua autoria) à sensível balada “Horizon” (parceria com o pianista Christof Saenger). Já a faixa que empresta o título ao álbum é um sentimental soul-jazz.

Fabrizzio Sciacca Quartet - “Gettin’ in There” (independente) – Em promissor disco de estreia, o contrabaixista italiano de 29 anos lidera um invejável quarteto, com os conceituados Donald Vega (piano), Billy Drummond (bateria) e Jed Levy (sax tenor). Na suingada “For Sir Ron”, sua única composição no álbum, Sciacca homenageia o grande baixista Ron Carter, seu mentor e professor na Manhattan School.

Gretje Angell - “In Any Key” (Grevlinto) – De uma família de bateristas, essa cantora radicada em Los Angeles desponta em promissor disco de estreia. Com um belo timbre vocal, Gretje relê standards do jazz (“I’m Old Fashioned”, “Tea for Two”) e clássicos da bossa (“One Note Samba”, “Berimbau”), além de demonstrar talento nos improvisos (“Them There Eyes”). A seu lado está o guitarrista Dori Amarilio.

Jelena Jovovic - “Heartbeat” (Universal) – Uma bela surpresa o disco de estreia desta talentosa cantora da Sérvia, que já o abre com uma inusitada versão de “Witch Hunt” (de Wayne Shorter). Autora de seis das dez faixas, Jelena canta em inglês, sem sotaque. Em “The Countless Stars”, ela demonstra intimidade com a linguagem do “scat singing”, tão à vontade quanto no dançante boogaloo “Little Freddie Steps”.

Jordon Dixon - “On” (independente) – Natural da Louisiana e radicado em Washington, o saxofonista assina todo o repertório desse álbum. Em faixas como o hard bop “Lee Lee Dee” ou a balada “What You’ve Done for Me”, Dixon exibe seu som volumoso ao sax tenor, que chega a lembrar o do mestre Dexter Gordon. Já em “Fake Flowers”, com um dançante groove à New Orleans, ele se mostra fiel às suas origens.

Jorge Nila - “Tenor Time” (Ninjazz) – Neste tributo a sete mestres do sax tenor, o saxofonista de Nebraska revela sua afinidade com diversos estilos jazzísticos, sem decalcar seus ídolos. Ao lado de Dave Stryker (guitarra), Mitch Towne (órgão) e Dana Murray (bateria), Jorge demonstra sua intimidade com o soul-jazz, nas saborosas faixas “Our Miss Brooks” (de Harold Vick) e “Soul Station (Hank Mobley).

Karl Berger & Jason Kao Hwang - “Conjure” (True Sound Recordings) – O encontro do veterano vibrafonista e pianista alemão com o violinista sino-americano, nomes de destaque na cena do jazz de vanguarda, rendeu um álbum repleto de atmosferas intrigantes. Hwang definiu bem o resultado das gravações que fizeram no estúdio doméstico de Berger, sem partituras: “música espontânea e imprevisível, como a vida”.

Matthew Snow - “Iridescence” (independente) – Ativo na cena jazzística de Nova York há sete anos, esse contrabaixista e compositor faz uma promissora estreia em disco. À frente de um sexteto jovem tão jovem quanto ele, Snow demonstra personalidade musical nas oito composições que assina. Temas como “Amber Glow”, “The Change Agent” e “The Exit Strategy” indicam sua afinidade com a estética do hard bop.

Ray Blue - “Work” (Jazzheads) – Não é demérito algum para esse articulado saxofonista radicado em Nova York se referir a ele como um músico da velha guarda. Ray Blue é um adepto do jazz que não abre mão do swing, o que ele confirma, tanto em sua composição “Attitude”, como em releituras de temas de craques do jazz moderno, como “Amsterdam After Dark” (de George Coleman) ou “Sweet Emma” (de Nat Adderley).

Roger Kellaway - “The Many Open Minds of Roger Kellaway” (IPO) – Aos 80 anos, este pianista e arranjador já fez muita coisa ao lado de músicos de perfis bem diversos, como Duke Ellington, Elvis Presley ou Yo-Yo Ma. Neste álbum, em trio com o guitarrista Bruce Forman e o baixista Dan Lutz, ele revisita clássicos do jazz, como “52nd Street Theme” (T. Monk), “Take Five” (P. Desmond) e “Doxy” (S. Rollins).

The Doug MacDonald Quartet - “Organisms” (independente) – Bem conhecido nos estúdios e clubes de jazz de Los Angeles, o guitarrista toca neste álbum um repertório de standards e temas próprios, com um quarteto que destaca o sax de Bob Sheppard. Num ano bem produtivo, MacDonald lançou mais dois álbuns: “Califournia Quartet”, com outro quarteto, e “Jazz Marathons 4”, com os 10 músicos do Tarmac Ensemble.

The Gil Evans Orchestra - “Hidden Treasures Monday Nights” (GEO) – Os brasileiros que tiveram o privilégio de ouvi-la ao vivo, nos anos 1980, jamais se esqueceram dessa eletrizante orquestra. Décadas depois, o trompetista Miles Evans e o produtor Noah Evans, filhos do grande arranjador (morto em 1988), resgatam o espírito original da orquestra, que inclui vários craques da cena jazzística nova-iorquina.

Tucker Brothers - “Two Parts” (independente) – Os irmãos Joel (guitarra) e Nick Tucker (baixo) já são bem conhecidos na cena musical de Indianapolis. Como líderes do quarteto Tucker Brothers, eles exibem nove composições próprias, neste que é o terceiro álbum do grupo. Da emotiva “Warm Heart” à encantatória “Return to Balance”, o grupo demonstra personalidade musical e gosto pelas improvisações.


Duduka da Fonseca Trio: tocante homenagem a Dom Salvador, no clube Bourbon Street

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                                                             O baterista Duduka da Fonseca e baixista Guto Wirtti   

A relação entre músicos de diferentes gerações, especialmente no universo do jazz, costuma chamar minha atenção. A admiração que um instrumentista tem por outro mais experiente, que lhe apontou caminhos musicais ou até mesmo o incentivou a se tornar músico profissional, lembra a relação de um discípulo com seu mentor. Quem teve a sorte de conviver com um(a) professor(a) muito especial, que abriu seu horizonte intelectual ou lhe deu o estímulo que faltava para abraçar uma carreira até então inusitada, sabe do que estou falando.

Voltei a pensar nisso durante a apresentação do Duduka da Fonseca Trio, no último domingo (10/11), no clube Bourbon Street, em São Paulo. Grande baterista carioca, radicado em Nova York desde 1975, Duduka aprendeu a tocar acompanhando discos de jazzistas americanos e brasileiros. Por isso, em 1980, quando o pianista e compositor paulista Dom Salvador (pioneiro do samba-jazz, que também já vivia em Nova York) o chamou para substituir o baterista de seu grupo, Duduka, já próximo dos 30 anos, brincou com ele: “Eu toco com você desde os meus 14 anos”. Ali começou uma parceria e uma amizade de quatro décadas, que prossegue até hoje.   


Duduka narra esse episódio no encarte do excelente álbum que gravou em 2018, com 11 composições de Dom Salvador. Nas gravações de “Duduka da Fonseca Trio Plays Dom Salvador” (CD lançado pelo selo Sunnyside), ele já tinha a seu lado o pianista David Feldman (na foto ao lado) e o baixista Guto Wirtti, jovens craques da cena jazzística carioca, que também o acompanharam no Bourbon Street.

Entre várias belezas musicais, os três tocaram “Retrato em Branco e Preto” (de Tom Jobim e Chico Buarque) e “Waiting for Angela” (Toninho Horta), mas a maior parte do repertório do show saiu mesmo do disco dedicado a Dom Salvador: composições como “Gafieira”, “Farjuto” e “Samba do Malandrinho”, que trazem a assinatura rítmica do original pianista de Rio Claro (SP), além da sensível balada “Mariá”, que ele dedicou à sua esposa.

A admiração que Duduka revela ao anunciar as composições de Salvador é inspiradora. Nestes tempos em que o ódio e a violência parecem ter se tornado tão comuns em nosso cotidiano, a homenagem de um músico a outro de uma geração anterior (numa área profissional em que também há muita competição) soa como uma lição de fraternidade e amor. Uma noite especial para quem estava na plateia do Bourbon Street.



Romero Lubambo: um grande músico carioca, mais conhecido nos EUA do que no Brasil

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Romero Lubambo não se surpreende mais quando o confundem, no Brasil, por causa de seu nome, com algum músico da América Central. Até Edu Lobo  um dos grandes compositores brasileiros, com o qual esse violonista carioca radicado nos Estados Unidos tem gravado e tocado nos últimos anos  já comentou em shows que chegou a pensar, antes de se conhecerem, que ele fosse cubano. 

“Já elogiaram meu português, em alguns lugares do Brasil”, diverte-se o carioca do bairro de Engenho de Dentro, que se mudou para Nova York em 1985 e desde então volta ao país com relativa frequência para shows e gravações. Hoje, aos 63 anos, Lubambo não se mostra incomodado pelo fato de, ironicamente, ser mais conhecido no exterior do que no país onde nasceu.

Seu prestígio é evidente entre as principais publicações especializadas em jazz e música instrumental. “Romero Lubambo talvez seja hoje o melhor praticante de seu ofício. Sua facilidade, criatividade e energia são de uma classe única”, elogiou a revista “Jazziz”. “Lubambo é um magistral violonista que compõe canções sedutoras”, escreveu Thomas Conrad, na “Jazz Times”.

Graças à sua imensa habilidade ao transitar por diferentes gêneros musicais, além do primor técnico de suas performances ao violão e à guitarra, Lubambo possui um currículo invejável. Expoentes do jazz, como Mike Stern, Michael Brecker e Paquito D’Rivera, destacam-se numa extensa lista de parcerias, que inclui astros da música clássica, como Yo-Yo Ma e Kathleen Battle, ou outras intérpretes vocais de alto quilate, como Luciana Souza, Diana Krall e Leny Andrade.

Dianne Reeves (na foto abaixo), estrela do jazz com a qual já se apresenta há mais de vinte anos, será sua convidada especial em três shows que farão nos próximos dias, no Brasil: no clube carioca Blue Note Rio (dia 15/6), no clube paulistano Bourbon Street (16/6) e no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (21/6), no litoral fluminense. 



"Acho que a Dianne é muito mais do que uma cantora”, comenta o brasileiro. “Ela é uma musicista cujo instrumento é sua voz. Aliás, a voz dela já é por si só uma coisa maravilhosa. Dianne está sempre ligada no que acontece no palco, o que é muito legal, porque você a instiga de maneira musical e ela sempre responde. Assim acabamos criando coisas novas, mesmo tocando juntos há tanto tempo”.

Outro aspecto que os aproxima é a afinidade com diversos tipos de música. “Dependendo de onde faço um show, posso puxar um pouco mais para um lado ou outro. Eu me sinto feliz tocando blues, jazz, bossa nova, samba, baião. Gosto de música boa em geral”, afirma o violonista. “Aliás, hoje eu toco mais música brasileira nos Estados Unidos do que no Brasil, onde preferem que eu toque alguma coisa mais internacional”.

Foi o baixista paulistano Nilson Matta, com o qual já tocava, que o estimulou a se mudar para Nova York, em meados dos anos 1980. “Naquela época o Brasil era um país muito isolado 
 ainda não havia internet, nem celular  e eu queria muito conhecer de perto a cultura americana. Infelizmente, eu não conseguiria tocar no Brasil a música que queria fazer. Para sobreviver, eu teria que tocar outras coisas”, reflete Lubambo. 

O apoio do baterista carioca Duduka da Fonseca, que já vivia em Nova York e o apresentou a outros músicos, foi essencial. “Quem assinou meu primeiro visto de trabalho foi a cantora Astrud Gilberto. Passei quatro anos tocando com ela. Depois conheci o flautista Herbie Mann, que se tornou meu pai americano. Aprendi muito com ele, inclusive como me portar no palco”, conta Lubambo, que tocou com esse jazzista até sua morte, em 2003.

Mais duradoura tem sido a parceria com Duduka e Nilson Matta, que remonta a 1986, com a formação do Trio da Paz. Embora não se apresente com muita regularidade, esse brilhante trio instrumental já lançou sete álbuns e planeja gravar outro em breve. “Quando a gente se encontra, toda a bagagem que acumulamos em 33 anos juntos ressurge. As pessoas que nos ouvem costumam sentir isso nos shows”.

Outro projeto de Lubambo que deve chegar ao mercado ainda neste ano é um álbum recém-gravado com a RPL Chamber Orchestra, no Lincoln Center, em Nova York. O paulista Rafael Piccolotto de Lima, regente e líder dessa orquestra de câmera, escreveu arranjos para composições do violonista. O álbum conta com participação da cantora Pamela Driggs, esposa de Lubambo, e será lançado pelo selo Sunnyside.

O violonista aproveita a temporada no Brasil para lançar seu segundo disco em parceria com Edu Lobo e o saxofonista Mauro Senise. Os shows de lançamento do álbum “Quase Memória” (selo Biscoito Fino) ocorrem dias 19 e 20/6, no Teatro XP Investimentos, no Rio. O disco anterior desse trio 
 “Dos Navegantes”, que também destaca composições de Lobo  conquistou um Grammy Latino em 2017. 

“Esses shows são completamente diferentes de meus shows com a Dianne. Com ela eu exercito minha flexibilidade na guitarra, fazemos jazz, blues e coisas mais próximas do funk e do pop. Com o Edu, tocamos música totalmente brasileira, com aquelas harmonias maravilhosas e melodias incríveis”, avisa Lubambo.

(Texto escrito para o caderno cultural do jornal "Valor Econômico", publicado em 14/6/2019)










Dom Salvador: pianista radicado em Nova York vai festejar seus 80 anos em São Paulo

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Quando desembarcou nos Estados Unidos, em 1973, o pianista Dom Salvador tinha planejado passar um mês de férias, na casa de uma sobrinha, em Nova York. Reconhecido nos meios musicais da época como um dos expoentes do samba-jazz e experiente músico de estúdio, ele teve enfim a oportunidade de frequentar pela primeira vez os clubes de jazz daquela metrópole. Queria se aprofundar mais no gênero musical que tanto admirava.

Salvador nem imaginava que se tornaria morador de Nova York, onde passou a maior parte de sua vida. Uma parceria com o saxofonista Charlie Rouse (ex-parceiro do genial pianista Thelonious Monk) marcou o início da série de gravações e apresentações que o brasileiro veio a fazer com outros craques do jazz, como Ron Carter, Eddie Gómez e Herbie Mann. Já o convite para assumir a função de diretor musical do cantor e ator Harry Belafonte, em 1977, rendeu a Salvador o visto de permanência nos Estados Unidos.

Assim, passou 30 anos sem se apresentar em palcos brasileiros. Em 2003, quando o Chivas Jazz Festival decidiu homenageá-lo, entusiasmadas plateias de São Paulo e Rio deixaram claro que não queriam mais passar tanto tempo sem ouvir o original samba-jazz e a música instrumental brasileira de Salvador.

“Foram duas noites inesquecíveis. Como eu estava distante do país há muito tempo, já nem esperava encontrar tanta gente interessada em minha música”, relembra o pianista, que desde então voltou a tocar e a gravar no Brasil com alguma frequência. Mais sorte têm os nova-iorquinos, que podem ouvi-lo cinco vezes por semana, há mais de 40 anos, no River Café – sofisticado restaurante às margens do East River.

Às vésperas de completar 80 anos, ele vai festejar essa data especial (12/9) no Brasil. Durante o mês de agosto fará apresentações no Festival Sesc Jazz (dias 25 e 26/9, no Sesc Pompeia, na capital paulista; e dias 22 e 24/8, respectivamente, nas unidades de Birigui e Piracicaba, no interior de São Paulo). Ao lado de Salvador estarão Daniel D’Alcântara (trompete), Jorginho Neto (trombone), Rodrigo Ursaia (sax e flauta), Sérgio Barrozo (contrabaixo) e Mauricio Zottarelli (bateria).

Ele abre um sorriso ao falar sobre o recente lançamento do álbum “Duduka da Fonseca Trio Plays Dom Salvador” (selo Sunnyside), com 11 de suas composições no repertório. Baterista e seu antigo parceiro que também vive em Nova York, Fonseca revisita nesse disco clássicos da obra de Salvador, como a balada “Mariá” ou os sambas “Tematrio” e “Meu Fraco é Café Forte”, ao lado do pianista David Feldman e do contrabaixista Guto Wirtti.   


“Eu me sinto orgulhoso por Duduka ter realizado esse projeto. Ele conhece todas as nuances de minhas músicas e, de certo modo, me tirou do ostracismo em matéria de composição”, comenta Salvador, que calcula ter mais de 300 composições próprias na gaveta. “Sempre compus bastante, mas nunca insisti nisso”, admite, com humildade.

Salvador também elogia o talento do pianista David Feldman, com o qual já gravou um álbum, ainda inédito, com duos de pianos. “David é um músico excelente. Ele foi muito cuidadoso durante essas gravações com o trio do Duduka. Ligava para mim quando tinha dúvidas nas partituras, até enriqueceu algumas de minhas composições. Fiquei muito feliz ao ouvir esse disco”.   


Outra gravação que estará disponível em breve, liderada pelo próprio Salvador, registra a apresentação que ele fez em novembro de 2015, no Zankel Hall, salão de recitais do Carnegie Hall, em Nova York. Trata-se de um concerto comemorativo dos 50 anos do Rio 65 Trio, cultuado grupo liderado por Salvador, que deixou apenas dois álbuns gravados.   

Na resenha desse concerto, publicada pelo “The New York Times”, o crítico Ben Ratliff apontou a “boa forma” de Salvador, além de sintetizar com precisão seu original estilo ao piano: “samba na mão esquerda e fraseado de jazz na mão direita”. Ao lado do pianista estavam o contrabaixista Sergio Barrozo, integrante da formação original do Rio 65 Trio, e Duduka da Fonseca, que assumiu o lugar de Édison Machado (1934-1990), sua grande fonte de inspiração à bateria.  

Apesar da costumeira modéstia, Salvador tem consciência de que seu estilo ao piano é praticamente uma assinatura. Lembra-se da reação do antigo parceiro Sergio Barrozo, quando gravaram o álbum “Dom Salvador Trio” (Biscoito Fino, 2007), seu primeiro disco produzido e lançado no Brasil depois de 35 anos. “Logo no primeiro ensaio, o Sergio me disse que já tinha se esquecido de que ninguém toca samba como eu toco”, conta, rindo.

Nada mais natural para um paulista nascido na interiorana cidade de Rio Claro, que se tornou conhecido nas mais badaladas boates paulistanas, ainda no início dos anos 1960. Já vivendo no Rio, em 1964, não demorou a chamar atenção nas “jam sessions” e nos shows do Beco das Garrafas, reduto da bossa nova, onde tocou ao lado de Jorge Ben e Elis Regina, entre outros.

Os fãs mais jovens de Salvador também valorizam o pioneirismo de seu grupo Abolição, marco na história da black music produzida no Brasil. Por sugestão do produtor Hélcio Milito (baterista do lendário Tamba Trio), ele criou em 1970 um grupo formado exclusivamente por músicos negros, para participar do Festival Internacional da Canção. As roupas africanas e os pés descalços dos integrantes do grupo causaram impacto, numa época em que o movimento “black power” chamava atenção, nos Estados Unidos.

“Em entrevistas, chegavam a nos perguntar se o nosso grupo tinha alguma tendência racista. Hoje eu tenho uma certa vergonha por ter chamado o grupo de Abolição, mas naquela época esse termo parecia fazer sentido”, comenta Salvador, reconhecendo uma certa ingenuidade na maneira como a questão racial ainda era abordada no país, na década de 1970.

Já em relação ao aspecto mais musical do Abolição, vale notar que Salvador aderiu às influências da black music que estavam em voga na época, mas não abriu mão de suas raízes. No repertório do único álbum do grupo, “Som, Sangue e Raça” (CBS, 1971), ao lado do emergente samba-soul (que mais tarde veio a inspirar a criação da Banda Black Rio) também havia pitadas de baião e choro.  

Embora ressalte que, mesmo na fase do Abolição, jamais se envolveu diretamente com política ou alguma forma de ativismo, Salvador se mostra preocupado ao ver no noticiário manifestações pela volta do regime militar no Brasil. “Essas pessoas que estão pedindo a volta dos militares ao poder não sabem o que realmente se passou no país durante aquela época. Ver que isso está acontecendo hoje no Brasil provoca até arrepios”, comenta.


(Texto para o caderno de cultura do jornal "Valor", publicado em 6/7/2018)







Trio da Paz: três brilhantes embaixadores da música instrumental brasileira nos EUA

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                                                           O Trio da Paz, em show no Sesc Consolação, em São Paulo

Talvez o fato de o Brasil ser um país tão diversificado e rico musicalmente possa justificar em parte que o Trio da Paz -- sensacional grupo de música instrumental brasileira e jazz, que Romero Lubambo (violão e guitarra), Duduka da Fonseca (bateria) e Nilson Matta (contrabaixo) criaram 32 anos atrás em Nova York, ondem vivem –- só tenha se apresentado três vezes até hoje, em nosso país.

A plateia que foi ouvi-lo ontem, no teatro do Sesc Consolação, em São Paulo, certamente se sentiu privilegiada. E acompanhou com animação os inventivos improvisos desse trio formado por craques em seus instrumentos, que tocam com intensidade sonora e um admirável senso de conjunto. Os três parecem praticar uma espécie de telepatia musical, uma capacidade de antever ideias dos parceiros, dominada apenas por instrumentistas que tocam juntos há muito tempo.

O repertório do show incluiu composições próprias e clássicos da música brasileira que apontam algumas referências do trio, como a bossa “Wave” e uma eletrizante versão de “Insensatez” (ambas de Tom Jobim), “Vera Cruz” (de Milton Nascimento) e “Baden”, composição de Nilson Matta dedicada ao grande violonista Baden Powell. Não faltou também uma dose de humor, especialmente quando Duduka explicou que sua encrencada composição “Alana”, repleta de mudanças de andamento, foi inspirada no temperamento inconstante de sua filha.

Fosse o Brasil um país sério, capaz de valorizar mais os seus grandes artistas, o Trio da Paz (cujo talento já foi reconhecido nos Estados Unidos, com uma indicação ao prêmio Grammy, por seu álbum “30”), já teria lugar garantido, todos os anos, em nossa agenda cultural.





6º Festival Amazonas Jazz: a consolidação de um evento que estimula o ensino musical

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O imponente Teatro Amazonas, em Manaus, serviu de cenário durante seis noites, na semana passada, para a sexta edição do Festival Amazonas Jazz. Diversos estilos jazzísticos, música instrumental brasileira, bossa nova, salsa e blues compuseram o cardápio musical desse evento, que vem crescendo a cada ano, tanto em número de concertos e atividades de ensino, como em frequência de público.

Mais que isso: em suas seis edições, o FAJ já consolidou um perfil bem original em meio à cena dos festivais internacionais de jazz. Em vez de escolher um elenco óbvio, com artistas que circulam por quase todos os eventos desse gênero, o diretor artístico Rui Carvalho prefere levar a Manaus instrumentistas de ponta, nem sempre reconhecidos pelo grande público, mas que possam transmitir experiências pessoais e ensinamentos técnicos aos estudantes e músicos locais. Além de se apresentarem no teatro, os artistas do elenco também realizam alguma atividade didática, seja uma master class ou ao menos um encontro com os estudantes de música e instrumentistas locais. 

                                                                                            Photos: Carlos Calado


BIG BAND – Quem teve, como eu, a oportunidade de assistir à apresentação da Amazonas Band, na primeira edição do FAJ, em 2006, percebe facilmente a evolução da big band conduzida pelo maestro Rui Carvalho (na foto acima). Neste ano, em dois concertos com programas diferentes e convidados de alta categoria (os trombonistas John Fedchock e Todd Murphy e os trompetistas Daniel Barry e Altair Martins), a banda excitou a plateia que lotou o Teatro Amazonas. Aliás, o arranjo de “Slow Visor”, que Carvalho escreveu para homenagear Eddie Palmieri, pioneiro do jazz latino e da salsa, foi um dos números mais contagiantes desta edição.


JAZZ LATINO – No show de domingo, que encerrou o festival ao ar livre, no Largo de São Sebastião (ao lado do teatro), o simpático Palmieri, hoje com 74 anos, agradeceu duas vezes a oportunidade de poder tocar pela primeira vez no Brasil. Talvez a plateia tivesse participado com mais intensidade, caso ele tivesse optado por um repertório mais dançante, orientado para a salsa. Mesmo assim, os improvisos jazzísticos do líder e de seus parceiros Brian Lynch (trompete), Louis Fouché (sax alto) e Little Johnny Rivero (congas) foram bastante aplaudidos, especialmente em clássicos do jazz latino, como “Picadillo” e “Slow Visor”. 


HERÓIS ESQUECIDOS – Brian Lynch já havia comandado, na noite anterior, um belo concerto, cujo repertório foi extraído de seu recente álbum “Unsung Heroes”. Ao lado de seu sexteto, ele homenageou trompetistas que, embora nem sempre sejam lembrados pelo público ou pelos críticos, deixaram contribuições essenciais para a tradição jazzística, como Joe Gordon, Idrees Sulieman, Tommy Turrentine e Charles Tolliver. Um olhar original para a história desse gênero musical, que, por sinal, tem muito a ver com a própria linha artística seguida pelo FAJ. 

 
HUMOR BRITÂNICO – Também estreando em palcos brasileiros, o jovem quarteto do saxofonista inglês Will Vinson – com destaque para o guitarrista norueguês Lage Lund – exibiu um pós-bebop que evita os clichês desse estilo jazzístico. Ao apresentar composições próprias, como “I Am James Bond” e “The World Through My Shoes”, Vinson revelou também seu típico humor britânico. 


 
SIMPATIA E SUíNGUE– Outra boa surpresa foi a cantora norte-americana Cynthia Scott. Acompanhada pelo eficiente trio do pianista Vana Gierig, ela esbanjou simpatia e suingue, alternando versões de standards do jazz, como “How High the Moon” e “When the Lights Are Low”, com alguns sucessos do genial Ray Charles (1930-2004), de cuja banda chegou a ser vocalista, na década de 1970. Além de dedicar a ele uma composição própria (“Shades of Ray”), a ex-raelette brilhou em sua releitura da balada “Georgia on My Mind”, logo reconhecida e aplaudida pela plateia. 


 
LEMBRANDO JOBIM – Já o pianista norte-americano Aaron Goldberg (à esquerda, na foto acima) não conseguiu esconder sua decepção ao notar que a plateia não reconheceu de cara “Luiza”, nem “Inútil Paisagem”, composições do mestre da bossa, Tom Jobim (1927-1994), presentes no repertório de seu trio, que destaca o exuberante Greg Hutchinson à bateria. Falando em português, o que denota seu interesse pela cultura brasileira, Goldberg exibiu ainda uma delicada versão de “Lambada de Serpente” (de Djavan), entre líricas releituras de standards e composições próprias. 


 
QUARTETO SOFISTICADO - Tom Jobim voltou a ser lembrado pelo quarteto de Hélio Alves, talentoso pianista paulista radicado em Nova York, que tocou a triste “Retrato em Branco e Preto”. Ao lado do brilhante Duduka da Fonseca (bateria), do norte-americano Vic Juris (guitarra) e do austríaco Hans Glawischnig (contrabaixo), Alves recriou outros clássicos da música brasileira, como “Bebê” (Hermeto Pascoal) e “Vera Cruz” (Milton Nascimento), em versões essencialmente jazzísticas. Seu entrosamento com a bateria de Duduka chega a soar telepático. 



DUO INSPIRADO – A música brasileira improvisada também foi muito bem representada pelo duo do pianista André Mehmari com o bandolinista Hamilton de Holanda. Tocando o repertório do álbum “GismontiPascoal”, que lançaram há pouco, os dois recriaram com criatividade e emoção algumas das obras-primas de Hermeto Pascoal (“O Farol que Nos Guia”) e Egberto Gismonti (“Loro”). Pena que a minguada iluminação de cena tenha emprestado um visual soturno a essa parceria musical tão solar e brilhante. 

 
PIANO SOLO – Outra atração nacional foi o pianista Irio Jr., que encarou com talento e determinação a arriscada tarefa de conquistar a plateia do Teatro Amazonas com um recital de piano solo. Sem fazer qualquer concessão, tocou um repertório formado exclusivamente por composições próprias, que mesclam influências eruditas e improvisos jazzísticos, com destaque para a hipnótica “Espera” e a inventiva “Nuance”. 


 
MERCHANDISING - Menos feliz foi a apresentação do quarteto de Kenny Davis, conceituado baixista, conhecido por ter acompanhado cantoras do primeiro time, como Abbey Lincoln, Cassandra Wilson e Carmen Lundy. Nada contra a qualidade de seus músicos, mas o saxofonista Ralph Bowen demonstrava um evidente mau humor e o pianista Onaje Gumbs parecia ter passado a noite anterior em claro. Sem falar no inadequado merchandising de Davis, que depois de tocar alguns compassos de um tema mais dançante, frustrou a plateia, dizendo: “Este groove está no meu CD, vendido lá fora. Se quiserem ouvir mais, comprem o disco”. Se essa moda pega... 


Em meio a tantas atrações de alta qualidade oferecidas neste ano, não se pode deixar de questionar, no entanto, o critério de divulgação do festival. É difícil entender por que a programação só foi divulgada duas semanas antes do início do evento, diferentemente do que acontece no exterior, onde os festivais de jazz divulgam suas atrações com meses de antecedência. Tomara que esse aspecto possa ser revisto na próxima edição, permitindo assim que um número bem maior de pessoas, tanto de outras regiões do país, como do exterior, possa se planejar para ir a Manaus e acompanhar os concertos e atividades didáticas desse ótimo festival.

8º Tudo é Jazz: festival de Ouro Preto promove tributo a Billie Holiday

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O cinquentenário da morte de Billie Holiday (1915-1959), maior cantora de jazz de todos os tempos, será lembrado em alto estilo, na cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Destaque da 8ª edição do festival Tudo É Jazz (de 18 a 20 de setembro), o concerto-tributo vai contar com os vocais de Madeleine Peyroux, assumida discípula de Billie, e da carioca Mart’Nália. Elas serão por uma banda de figurões do gênero, que inclui o baixista Ron Carter, o guitarrista Bucky Pizzarelli e o pianista Mulgrew Miller. Os arranjos são assinados pelo pianista e maestro israelense Oded Lev-Ari

Outros nomes de prestígio na cena do jazz estarão no elenco desse festival mineiro, como o grupo do baixista israelense Avishai Cohen, a Paris Jazz Big Band e o acordeonista francês Richard Galliano, este ao lado dos brasileiros Hamilton de Holanda e Jaques Morelembaum. O elenco destaca ainda os grupos de dois talentosos brazucas radicados em Nova York: o baterista Duduka da Fonseca e o baixista Leonardo Cioglia.

Considerado um dos melhores eventos do gênero no país, o Tudo É Jazz tem uma fórmula irresistível: combina música de alta qualidade com o charme das ladeiras e igrejas barrocas de Ouro Preto. Depois de perder seu principal patrocinador, neste ano marcado pela crise econômica, o Tudo é Jazz assume um novo formato nesta edição: todos os shows serão ao ar livre e gratuitos.

(publicado parcialmente na revista “Homem Vogue”, nº 25)

 

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