Luciana Souza: cantora radicada nos EUA recria jóias da MPB com uma big band

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Acostumada a uma intensa rotina de concertos, turnês, gravações e aulas, Luciana Souza viu pela primeira vez um disco seu ser lançado sem algum show ou evento especial. Quando “Storytellers”, seu 13.º álbum, chegou ao mercado, no final de março, a cantora e compositora paulistana  hoje uma das intérpretes mais conceituadas na cena mundial do jazz  já estava em quarentena para se proteger do coronavírus. 

“Eu não queria correr mais riscos”, diz ela, de sua casa em Los Angeles, onde vive com o marido, o produtor musical Larry Klein, e o filho Noah. Luciana lembra que tomou a decisão de suspender concertos e viagens logo na primeira semana de março, horas antes de um show com o violonista Chico Pinheiro, em Michigan. Ficou tão assustada com o noticiário da TV, que desistiu de se apresentar com a banda Yellowjackets, em Nebraska, poucos dias depois.

Voltando ao novo disco, ainda não foi desta vez que ela concretizou o sonho de gravar um álbum com canções de seus pais (o violonista Walter Santos e a letrista Tereza Souza, expoentes da bossa nova em São Paulo e fundadores da lendária gravadora Som da Gente). Um projeto mais difícil de realizar, admite a cantora, por causa de “um pequeno problema”: as gravações com orquestra e os arranjos de cordas, assinados por craques como Vince Mendoza e Dori Caymmi, resultariam em um orçamento de pelo menos 100 mil dólares.

Foi o mesmo Mendoza, premiado regente e compositor americano, quem escreveu os arranjos e produziu o álbum “Storytellers”, uma parceria de Luciana com a banda alemã WDR Big Band Cologne. Curiosamente, a gravação desse disco não estava no projeto original. Convidados a fazer alguns concertos com essa big band, em 2017, a cantora e o arranjador selecionaram um sofisticado repertório de música brasileira. Só meses depois surgiu a ideia de lançar o disco, utilizando as ótimas gravações realizadas durante os ensaios.

“A WDR é uma banda que tem fome de tocar”, elogia Luciana, comentando que os músicos dessa big band ensaiam cinco dias por semana durante nove meses do ano. “Eles tocam com um grau de relaxamento que os músicos americanos desconhecem, porque podem se dar ao luxo de passar o dia juntos, ensaiando e tocando. Cantar com uma big band como essa me deixa feliz e relaxada. É só respirar e cantar”.

O repertório do álbum é de primeira linha: canções repletas de lirismo, como “Chora Coração” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque) e “Meu Pai” (Guinga); um inspirado xote de Ivan Lins e Lenine (“Se Acontecer”); um saboroso samba de Gilberto Gil (“Mar de Copacabana”) e uma antiga composição, sem letra, da própria Luciana (“Baião a Tempo”), entre outras.

Na opinião da cantora, entre tantas belezas, “o centro do disco” é a gravação de “Matita Perê” (de Jobim e Paulo Cesar Pinheiro), uma épica declaração de amor à natureza no Brasil. Não à toa, Luciana escolheu para a capa do álbum uma expressiva imagem do Rio Juruá (na Amazônia), clicada em preto e branco pelo fotógrafo Sebastião Salgado. “O trabalho dele, como o de Jobim, repousa como uma das obras mais importantes e impactantes que já surgiram no Brasil”, avalia a intérprete, em um texto no encarte do disco.

Diferentemente do que suspeitam alguns pessimistas, Luciana não teme que a atual pandemia possa ameaçar o futuro da música ao vivo. “Acho que os teatros e clubes vão reabrir quando possível. Algumas pessoas terão medo de ir, inicialmente, mas isso não será definitivo. Até se descobrir uma vacina para essa doença, tudo será transitório”, prevê a cantora, que já tem um concerto agendado, no final do ano, num teatro de Los Angeles, sem a presença de plateia. Essa apresentação será transmitida por streaming.

“Isso é meio triste, mas é o que podemos fazer agora. Não podemos colocar as vidas das pessoas em risco”, comenta a cantora, preocupada com o futuro do Brasil e dos Estados Unidos. “Há uma tragédia política acontecendo hoje no mundo. Como o governo americano, o governo brasileiro optou por um caminho errado, trágico e cruel. Infelizmente, o nosso presidente não tem respeito pela vida do próximo. Se a gente tivesse um presidente mais coerente com a ciência, provavelmente não teríamos tantos mortos no país. Isso me entristece muito”.

Em meio à recorrente discussão sobre como esta longa quarentena poderá alterar nossos hábitos, Luciana sugere que ela seria uma oportunidade para se discutir e modificar o injusto pagamento de direitos autorais aos músicos, nas plataformas digitais. Como exemplo, ela revela seu próprio rendimento, no aplicativo de streaming Spotify, onde seus discos alcançam a média mensal de 50 mil “streams” (a audição de uma música por mais de 30 segundos).

“Se eu ganhasse um centavo de dólar por cada ‘stream’, receberia 5 mil dólares por mês – quantia que já me ajudaria bastante. Só que pelo sistema atual eu recebo uma parcela infinitamente menor: 38 dólares, em média, por mês”, diz a cantora. “Será que a gente não poderia reeducar as novas gerações? Por que não tentarmos convencer as pessoas a pagarem um valor mais justo por um produto que foi criado por um artista?”.


(Texto publicado no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico", em 12/6/2020)




Noa Stroeter: baixista do Caixa Cubo Trio exibe seu trabalho autoral no álbum "Prece"

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Conhecido na cena atual da música instrumental brasileira como contrabaixista do Caixa Cubo Trio, Noa Stroeter encara agora, com mais intensidade, o desafio do trabalho autoral. Em “Prece”, seu primeiro álbum solo, ele assina todas as composições e lidera um quinteto que inclui outros talentosos instrumentistas de São Paulo. 

“Essas músicas são meio autobiográficas, tentam contar algumas coisas que fazem parte da minha história”, revela o instrumentista paulistano, hoje com 32 anos. Seu interesse pela composição musical foi acentuado durante os seis anos em que frequentou como bolsista a graduação e o mestrado no Conservatório Real de Haia, na Holanda.

Além do contato mais próximo com a música clássica, viver na Europa lhe proporcionou um ponto de vista diferente do Brasil. “Essa experiência de poder olhar de longe o lugar onde nasci e cresci foi engrandecedora, porque na Europa nossa música é respeitada de uma maneira muito diferente comparada à que se encontra no Brasil. Perceber essa afinidade do povo europeu com a música brasileira me deu confiança para afirmar minhas raízes e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de encontrar o que é essa raiz em mim”, reflete Noa.

Constatar que a cultura brasileira é reverenciada na Europa, com um olhar focado principalmente na bossa nova e na batucada, trouxe um desafio ao compositor. “Perceber isso provocou em mim a necessidade de produzir um material que proponha uma visão diferente do músico e da música brasileira. A busca de como posso trazer essa característica para o meu trabalho foi e talvez ainda seja meu maior estímulo para criar", completa o compositor.

A ligação de Noa com o contrabaixista e produtor Rodolfo Stroeter – seu pai, que dividiu com ele a produção deste trabalho – também inspirou a faixa que dá título ao álbum. “Prece” começa com um emotivo solo de contrabaixo à capela, que evolui para a sensível melodia tocada pelos sopros. “É uma carta de amor, que se refere à benção de ser filho dele”, comenta Noa. Sentimental também é “Dinda”, bela composição do contrabaixista dedicada a seu avô paterno, que abre o disco.

Foi na Holanda que nasceu a lírica “Ornitorrinco e Tatu”, composição de Noa já gravada pelo grupo Batanga & Cia, em 2018. Idealizada originalmente para um quarteto de saxofones, ela foi adaptada para a nova formação. O compositor a criou pensando em seu irmão caçula, que tinha cinco anos na época. “Kim estava estudando os bichos, na escola, e criou junto com meu pai uma história em quadrinhos. Os heróis eram um ornitorrinco e um tatu”, relembra.

Já a romântica “Isis” traz uma surpresa para o ouvinte. Noa a dedica à sua companheira, cuja “envolvente variação de humor” (em suas palavras) transparece na estrutura da composição. A delicada melodia da introdução, tocada pela flauta, é seguida pelo característico ritmo de marcha-rancho, marcado pelo baterista Vitor Cabral. Bem popular na MPB dos anos 1950 e 1960, infelizmente, esse ritmo foi deixado de lado pelos compositores, com o passar do tempo.

Também não poderia faltar um samba-jazz, uma das referências musicais do Caixa Cubo Trio (vale lembrar que antes de lançar os álbuns “Misturada”, “Enigma” e “Saturno”, o grupo já havia gravado dois discos como duo). No contagiante “Beco das Garrafas”, o piano elétrico de Marcos Romera empresta uma sonoridade mais contemporânea à tradicional instrumentação do quinteto de jazz, com trompete, sax tenor, contrabaixo e bateria. Bem jazzístico também é “Veridiana”, tema em ritmo ternário, que destaca intervenções de Josué dos Santos, ao sax tenor, e Daniel D’Alcântara, ao flugelhorn.

Outra surpresa vem em “Varanda”, um bolero à Henri Mancini, um dos heróis musicais de Noa, inspirado na atmosfera boêmia de decadentes bares do centro de São Paulo. No saboroso arranjo, o ritmo de bolero se transforma em cha-cha-chá. Vale notar que o som volumoso do sax tenor e a surdina do trompete remetem a sonoridades das dançantes orquestras dos anos 1950.

Pergunte a Noa, como fiz, quais são suas maiores influências e vai receber uma lista um tanto inusitada. Ao lado de grandes compositores da música clássica, como Claude Debussy e Sergei Rachmaninnof, mestres da música brasileira, como Dorival Caymmi e Nelson Cavaquinho, ou ainda jazzistas do primeiro time, como Duke Ellington e Charles Mingus, poderão estar o pintor Pablo Picasso e o cineasta Martin Scorsese.

“Seja o que for aquilo que um artista procura em sua arte, o mais importante é a busca e o processo de afirmar sua própria voz, encontrar sua maneira de se expressar artisticamente. Nessa busca não tem atalhos nem fórmula mágica, ela vem conforme nos dedicamos todo dia a ela, com paciência e muito amor. É uma busca por viver uma vida da maneira mais artística possível”, reflete o músico.

Além do alto quilate da música autoral que Noa exibe neste álbum, ao ouvi-lo definir sua filosofia artística com toda essa sabedoria, não tenho dúvida alguma de que ele está no caminho certo.






Goio Lima: uma obra instrumental inspirada nas belezas da moderna música brasileira

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                                                                   O compositor e instrumentista Goio Lima

A experiência de viver durante alguns anos em outro país pode ser reveladora. São frequentes os relatos de artistas que, ao morarem fora de seus países de origem, passaram a valorizar mais sua própria cultura – como muitos brasileiros que só descobriram essa identidade ao se verem na condição de estrangeiros.

O caso do instrumentista e compositor Goio Lima é diferente. O paulista nascido na cidade de Campinas iniciou sua carreira musical em meados dos anos 1980, tocando em grupos de jazz e de música instrumental brasileira, como o Mojave. Também fez parte de bandas pop ou de música afro-cubana, como a Havana Brasil. No entanto, quando decidiu se mudar para a Inglaterra, onde viveu de 2014 a 2018, Goio já somava em seu currículo acadêmico duas décadas de estudos dedicados à música brasileira.

“Ali por 1995, já ao final do meu curso de graduação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), descobri os discos da Nana Caymmi e me aprofundei na obra de Tom Jobim. Voltei toda a atenção, em minhas pesquisas, para a música brasileira”, observa o saxofonista e flautista, que posteriormente concluiu seu mestrado em música, na mesma universidade paulista.

Já como professor assistente da Universidade Federal de Uberlândia (em Minas Gerais), a partir de 2009, Goio acentuou seu vínculo com a moderna música popular brasileira. Criou a Orquestra Popular do Cerrado – espécie de big band com uma sonoridade mais brasileira, para a qual escreveu arranjos e, como solista e regente, se apresentou com ela ao lado de conceituados artistas da MPB, da bossa nova e da música instrumental brasileira, como João Donato, Toninho Horta, Paulo Jobim e Wagner Tiso.

“Chamei-a de orquestra popular porque sua formação é diferente de uma big band de jazz. Ela soa mais próxima dos arranjos do Luiz Eça e do Eumir Deodato, que usam mais flauta em sol, trompa, clarinete e flugelhorn do que trompetes e saxofones. Privilegia também uma seção rítmica com violão e muita percussão”, analisa o fundador da Orquestra Popular do Cerrado, que criou na mesma linha musical, em 2013, a Orquestra Popular de Araxá – o concerto inaugural contou com participação de Ivan Lins.



Influências e homenagens

A admiração que Goio Lima demonstra pela moderna música popular brasileira, assim como a marcante influência que o jazz exerceu sobre sua obra, chamam atenção nas 19 faixas deste que é seu primeiro disco autoral. Sambas e bossas instrumentais, baladas e valsas de ascendência jazzística, sobressaem neste repertório inédito e de alta qualidade, que também inclui um baião, um frevo e até uma marcha.

Nos arranjos, todos assinados pelo compositor e instrumentista, a opção por um quinteto – com sax e/ou flauta, trompete e/ou flugelhorn, piano, baixo e bateria – tem tudo a ver com o repertório do álbum. Essa é uma formação instrumental que se tornou clássica, tanto durante o nascimento e a consolidação do jazz moderno, assim como nos primeiros anos do samba-jazz.

Bem escolhido para abrir este álbum duplo, o saboroso samba “Um Abraço no Donato” é uma homenagem de Goio a João Donato, pioneiro da bossa nova. O tema se baseia em um fragmento melódico de “Lugar Comum”, uma das jóias musicais do pianista e compositor acreano, que recebeu os conhecidos versos de Gilberto Gil.

Diferentemente de algumas homenagens duvidosas que ouvimos por aí, as composições que Goio dedica a diversos músicos que o influenciaram remetem às obras ou aos estilos musicais dos homenageados. Como o inusitado baião “Mingus no Forró”, dedicada ao irreverente jazzista americano Charles Mingus; a sensível balada “Tema pro Johnny Alf”, inspirada nas líricas composições desse original precursor da bossa; ou o samba “Skateboard”, derivado de “Surfboard”, um dos temas instrumentais mais deliciosos de Tom Jobim.

Aliás, a grande admiração que revela pela obra musical de Jobim (autor de valsas belíssimas, como “Chovendo na Roseira” ou “Valsa do Porto das Caixas”) também explica o especial interesse de Goio por esse clássico gênero musical – algo incomum entre os músicos de sua geração. Belezas como “Sul de Minas” e “Valsa do Natal” destacam-se entre as seis valsas de sua autoria incluídas neste álbum.

Goio também escolheu esse gênero (no caso uma valsa de ascendência jazzística) para homenagear o músico mineiro Nivaldo Ornelas, um dos saxofonistas que mais o influenciaram, em sua composição “Nivaldo, Como Está o Tempo em BH?”. Já o norte-americano Stan Getz, outro grande saxofonista que lhe serviu de modelo, inspirou a delicada balada “Pro Getz”, na linha do “cool jazz”.  


“Sempre admirei no Getz o discurso musical, às vezes bem próximo da fala, assim como sua maneira elegante de tocar uma balada. Aliás, outra grande paixão minha que está bem representada neste CD”, comenta Goio, referindo-se a essa outra clássica forma musical que os músicos do jazz costumam cultivar. As românticas “Uma Rosa pra Fátima Guedes” e “Esperando Maria” certamente vão agradar bastante aqueles que sabem apreciar o lirismo das baladas.

Para quem, como eu, teve a oportunidade de acompanhar em clubes e outros palcos de São Paulo alguns dos trabalhos realizados por Goio Lima, ouvir agora seu primeiro álbum permite perceber como ele evoluiu como artista. Suas composições, seus arranjos e solos reunidos neste CD (capa na foto acima), que refletem sua personalidade musical, traçam a imagem de um instrumentista que fez escolhas, que praticou seus instrumentos e estudou muito, até se tornar um compositor refinado e músico completo. Que venham outros discos e projetos!

(Texto escrito para o encarte do CD "Goio Lima", que já pode ser ouvido nas plataformas digitais. Nas gravações, o saxofonista e flautista tem a seu lado os trompetistas Rubinho Antunes e João Lenhari, os pianistas Edmundo Cassis e Gabriel Gaiardo, o contrabaixista Evaldo Guedes e os bateristas Paulinho Vicente e Jorge Savedra)






Rui Carvalho: diretor do Festival Amazonas Jazz rege big band de Manaus

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                                       Rui Carvalho rege a Amazonas Band / Foto de Bruno Zanardo / Divulgação 

Quando desembarcou em São Paulo, em 1978, o jovem músico português Rui Carvalho não imaginava que viveria neste país por mais de quatro décadas. Muito menos que se tornaria regente e arranjador da Amazonas Band, a conceituada big band de Manaus (AM), onde também dirige o Festival Amazonas Jazz, um dos principais eventos desse gênero no Brasil.

“A vida é como ela é, não o que a gente imagina”, reflete hoje o maestro, aos 65 anos. Nascido em Lisboa, ele se interessou pelos improvisos do jazz ainda na adolescência. Ficava acordado até a meia-noite para poder ouvir o programa diário “Cinco Minutos de Jazz”, que o radialista José Duarte, pioneiro divulgador dessa vertente musical em Portugal, produz e apresenta desde 1966.

Carvalho também se lembra de como ficou impressionado ao ver e ouvir Miles Davis, na TV portuguesa, no início dos anos 1970. O trompetista americano provocou os fãs e críticos mais conservadores, na época, por ter eletrificado seu jazz. "Miles chamou minha atenção não apenas pela música, mas também pelo layout de seu grupo. Tinha muito a ver com a minha geração, com o rock 'n' blues, com a soul music, com a contracultura do final dos anos 1960".

Antes de se radicar no Brasil, Carvalho também morou na Suécia – solução que encontrou para fugir do serviço militar obrigatório, na época em que Portugal travava uma guerra contra suas antigas colônias na África. “A Suécia era um dos poucos países na Europa que concediam asilo por razões humanitárias”, explica. Se ficasse em Portugal, teria duas opções: ser soldado em uma guerra absurda ou ir para a prisão.

Na pequena cidade sueca de Lund, ele dividia o aluguel com músicos de uma banda de rock. “Era tudo o que eu queria: morava com um bando de americanos desertores da Guerra do Vietnã e tinha aulas de bateria com um deles. A bateria já ficava montada na sala da casa”, relembra, rindo. Além de iniciar seus estudos musicais, também aproveitou os seis anos na Suécia para se formar em Antropologia.

A vontade de voltar a falar português, no dia a dia, pesou na decisão de deixar a Europa. "O Brasil sempre exerceu um certo fascínio sobre mim. Eu já tinha interesse pela música brasileira, mas depois de ouvir 'Dança das Cabeças', o disco de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, minha vontade de conhecer mais a música e a cultura brasileira aumentou”.

Já vivendo em São Paulo, no início dos anos 1980, Carvalho assumiu a bateria da Salada Mista, orquestra da Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Ali se tornou discípulo de Antonio Duran, maestro e arranjador argentino bastante respeitado nos círculos musicais, que o incentivou a se aprofundar em regência e arranjos para big bands. “Aprendi muito com ele”, reconhece.

Disciplinado e persistente, Carvalho lecionou bateria, percussão sinfônica e prática de big band durante 14 anos, no Conservatório de Tatuí (SP). Nessa fase também regeu e escreveu arranjos para a big band Prata da Casa, trabalho que repercutiu nos meios da música instrumental brasileira. Deixou São Paulo em 2001, ao aceitar o desafio de assumir a regência da Amazonas Band.

“A princípio eu deveria ter ficado 18 meses em Manaus, mas lá vão mais de 18 anos”, comenta o maestro, consciente do legado musical que tem construído à frente da big band. Além de fazer concertos regulares, já lançou dois discos com a Amazonas Band, em parcerias com craques da música instrumental: num deles, o saxofonista Vinícius Dorin; no outro, o pianista Gilson Peranzzetta e o flautista Mauro Senise. Também já dividiu palcos com grandes músicos do jazz, como David Liebman, Bob Mintzer, Cláudio Roditi e Jeremy Pelt.

"Uma big band sustentada pelo Estado, que faz sucesso, é coisa rara”, comenta o maestro. “A Amazonas Band resultou muito bem porque não tem apenas um viés de palco – ela também tem um viés educacional. Todos os músicos da banda são muito ativos e contribuíram bastante para desenvolver a educação, no campo da música popular, aqui em Manaus".

Carvalho não esconde sua animação pela retomada do Festival Amazonas Jazz, evento que criou e comandou desde a edição de estreia, em 2006. Suspenso há cinco anos, esse festival vai realizar sua 10ª edição, em Manaus [Obs: evento adiado por causa da pandemia de coronavírus; novas datas serão anunciadas]. A programação segue o formato de anos anteriores, que combina concertos noturnos com uma extensa série de workshops, oficinas e palestras.

Os trompetistas Randy Brecker e Keyon Harrold, os pianistas Aaron Parks e Edsel Gomez, o baterista Jeff “Tain” Watts, o trombonista John Fedchock e o saxofonista Frode Gjerstad são destaques entre os concertos agendados para o imponente Teatro Amazonas. Também de primeira linha, o elenco brasileiro inclui o Trio Corrente, o Amilton Godoy Trio, Marcelo Coelho & McLav.in, o Daniel D’Alcântara Quinteto, Leila Pinheiro e Amazonas Band, entre outros.

“Eu não imaginava que viveria por tanto tempo em Manaus. Também nunca imaginei que fosse dirigir big bands, mas acabei me apaixonando por elas. Parece quase um sonho”, comenta o maestro, que vai reger a Amazonas Band nas noites de abertura e de encerramento do festival. 


(Texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana do jornal "Valor Econômico", em 13/3/2020)

Branca Lescher: compositora e cantora revela afinidades com a vanguarda paulista

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                                     A compositora Branca Lescher e seu disco "Eu Não Existo" / Foto: Laryssa Fraga

É fácil perceber que Branca Lescher é paulistana. Basta ouvir a canção “Eu Não Existo”, que dá título ao segundo disco autoral dessa cantora, compositora e poeta. Com a voz delicada, ela entoa os versos irônicos (“eu não existo /faça de conta /não perca o sono /dorme tranquilo”), quase como se estivesse falando. Seu canto contido contrasta com os pesados sons eletrônicos do arranjo, que destaca um solitário clarinete. 

Branca comenta que escolheu essa canção para abrir seu disco com uma espécie de provocação, já que a letra se relaciona de maneira paradoxal com as outras 11 canções que a seguem. “Todas elas falam de como eu quero ser livre, de como a mulher tem o direito de fazer o que ela quer”. Não é à toa que a triste canção “Desisto” (parceria com Edmiriam Modolo) termina em tom de redenção: “que se dane o bom senso /só me encontro de novo /com a liberdade”.

Como outros adolescentes paulistanos de sua geração, nos anos 1980, Branca foi a shows e ouviu discos de Arrigo Barnabé, de Itamar Assumpção e dos grupos Premê e Rumo 
expoentes da chamada “vanguarda paulista”. Influência que ela reconhece no seu jeito falado de cantar e em composições de sua autoria marcadas por um certo minimalismo. 

Quem assina a produção musical e os arranjos do disco é Marcelo Segreto, também parceiro de Branca em várias canções. “Como eu convivo com ele há muito tempo, conheço bem sua estética musical. Eu já disse ao Marcelo que este disco é tanto meu como dele”, ela comenta, ciente de que os arranjos com instrumentos de cordas trouxeram unidade e uma sonoridade original ao álbum.

Os dois se conheceram em 2013, nos círculos da Faculdade Santa Marcelina, onde compositores ligados à chamada vanguarda paulista, como Luiz Tatit ou Zé Miguel Wisnik, eram referências constantes. Antes de ingressar no curso de pós-graduação em canção popular, Branca teve aulas de canto com Regina Machado, cantora e compositora também influenciada pela estética dessa vertente musical.

“Sou muito paulistana. Não me sinto uma cantora e compositora de samba ou de música brasileira mais tradicional”, admite Branca, que chegou a gravar canções de Ary Barroso e Tom Jobim, em seu disco de estreia (“Intimidade e Silêncio”, lançado em 2005). Dissonante e quebrado, o único samba no repertório do novo álbum, “Antes de Mim”, confirma a declaração da autora.

Essencial no conceito do álbum, a sombria canção “O Dia da Mulher” (parceria com Segreto) sintetiza a temática feminina presente em várias faixas. Nos versos (“mulher é bicho esquisito /todo mês sangra /a Rita disse uma vez”), Branca expressa a indignação da mulher madura que se sente invisível quando não se submete a certas expectativas sociais, como tingir os cabelos brancos.

Já a divertida “Bigode Chinês” (outra com Segreto) brinca com a “mulherada” que malha nas academias e encara artifícios para reduzir os efeitos do envelhecimento (“contra a lei da gravidade /a idade tá subindo / mas o resto, bem /o resto tá caindo”). O arranjo de Segreto, que divide os vocais com Branca, traz leveza e um toque teatral a esse tema incômodo.

Bem-humorada também é “Dia das Mães”, sobre a frustração das mulheres que, ao terem filhos, se veem obrigadas a abrir mão de aspirações pessoais. “Meus filhos ficaram meio chocados”, comenta Branca, referindo-se ao tom sarcástico de seus versos (“tua mãe não tem tempo pra perder /tua mãe não tem tempo pra você /tua mãe já aguentou teu papai / teu avô, teu bisavô, tataravô e o patrão”).

O contraponto desse desabafo materno vem em outras duas canções. A doce “Violeta” (parceria com Edmiriam Modolo), dedicada à filha recém-casada, ganhou, na gravação, uma dose extra de lirismo graças ao acordeom de Toninho Ferragutti. Com batida de rock e um inusitado clarone no arranjo, “Salvo Conduto” inclui um típico conselho de mãe ao filho (“o teu amor leva contigo /mas não beba, não fume, não sofra, não durma demais”).

O álbum inclui também belas canções de temática amorosa, como “Taj Mahal” e “Lisboa” (parceria com Edmiriam). Mais inusitada, “Bailado” (outra com Edmiriam) é um fado leve cuja letra Branca escreveu ao retornar, ainda inebriada, de uma viagem a Portugal. As participações da cantora Cristina Clara e de Bernardo Couto, na guitarra portuguesa, garantem a sonoridade tipicamente lusitana.

Finalmente, a emotiva “Je Suis Nelson Mandela” ganhou um belo arranjo com quarteto de cordas. Admiradora do líder negro sul-africano, que lutou contra a segregação racial, ela o incluiu nos versos como um exemplo de superação. Em suas canções, Branca sugere que a mulher precisa enfrentar o machismo sem perder o humor e a ternura.

Ao perguntar a ela como compararia as letras de suas canções e seus poemas (“Fibromialgia”, seu primeiro livro, saiu em 2016), acabei ouvindo uma autodefinição pessoal. “Poesia e letra de música são diferentes: a forma é diferente, a preocupação com a métrica é diferente, mas minha poesia, assim como minhas canções, têm uma coisa sucinta, econômica. Até ao cozinhar eu sou assim”, compara Branca, rindo. “Esse é o meu jeito de ser. Acho que quanto mais simples são as coisas mais elas são legais”.


(Texto escrito a convite da assessoria de imprensa da cantora)






Festival Amazonas Jazz: evento retorna com novidades após hiato de cinco anos

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                                  Randy Brecker, atração do 10.º Festival Amazonas Jazz / Foto de divulgação

Um dos grandes festivais de jazz e música instrumental em nosso país volta à ativa após um hiato de cinco anos. A 10ª edição do Festival Amazonas Jazz vai oferecer durante nove dias de programação (de 21 a 29/3), na cidade de Manaus, 16 concertos com renomados músicos do gênero. O evento inclui também uma extensa série de atividades educativas, todas gratuitas, num total de 33 workshops, oficinas e palestras.

Entre expoentes dessa vertente musical que vão se apresentar no imponente Teatro Amazonas destacam-se os trompetistas Randy Brecker, Keyon Harrold e Ed Sarath, o baterista Jeff “Tain” Watts, os pianistas Aaron Parks e Edsel Gomez, o saxofonista Frode Gjerstad e o trombonista e arranjador John Fedchock. Os ingressos para os concertos e shows variam entre R$ 20 e R$ 80.

O elenco nacional também é de alto quilate. O duo do pianista Gilson Peranzzetta com o flautista Mauro Senise, o Trio Corrente, o saxofonista Marcelo Coelho e seu grupo McLav.in, o trio do pianista Amilton Godoy com o gaitista Gabriel Grossi e o quarteto do trompetista Daniel D’Alcântara garantem música instrumental brasileira da melhor qualidade. Bem representadas pela cantora Leila Pinheiro, a bossa nova e a MPB também têm um merecido espaço na série de concertos e shows.

Idealizador e diretor artístico do festival desde a primeira edição, o maestro Rui Carvalho estará mais uma vez à frente da Amazonas Band 
 conceituada big band de Manaus, que vai se apresentar nas noites de abertura e de encerramento do evento. Ele conta que o conceito do festival começou a ser desenvolvido um ano antes de sua estreia (em 2006), com a realização de um projeto intitulado Amazonas Band Convida.

“A ideia era trazer a Manaus músicos de alto calibre, que fomentassem o jazz junto à plateia local, oferecendo espetáculos de alto nível”, relembra Carvalho. “Além disso, esses músicos também deveriam realizar workshops que contribuíssem para aumentar o nível dos estudantes e músicos daqui. Logo percebemos que seria interessante ampliar o escopo dessas atividades”.

Assim surgiu um festival de jazz e música instrumental brasileira, que desde a primeira edição investiu bastante na formação de uma plateia para esse gênero musical, assim como no aprimoramento técnico dos instrumentistas da região 
 uma característica essencial, que o diferencia da maioria dos festivais de jazz brasileiros.

“Além das palestras, workshops e masterclasses no campo específico da música, logo no primeiro festival já tivemos um curso sobre áudio, ministrado pelo engenheiro de gravação Clement Zular, que surgiu em decorrência da necessidade de aprimorar o nível dos nossos técnicos de som”, comenta Carvalho, ressaltando também a iniciativa de o festival focalizar em diversas palestras as relações e afinidades do jazz com outras áreas da cultura, como o cinema, o teatro, a dança ou a pintura.

Uma novidade na edição deste ano é a transformação da Casa das Artes (localizada ao lado do Teatro Amazonas, no centro de Manaus), em Casa do Jazz. Esse espaço já funciona diariamente, das 9h às 21h, com uma programação gratuita de filmes que dialogam com o jazz, além da exibição de episódios da série documental “Jazz”, de Ken Burns, que registra e discute a evolução desse gênero musical.


Inédita também na programação do festival é a realização do Concurso Jovem Instrumentista. Os vencedores, eleitos por um júri especializado, vão se apresentar no Teatro Amazonas, dia 24, antes do show do saxofonista norueguês Frode Gjerstad.

Outras informações no site do Festival Amazonas Jazz



Sérgio Santos: compositor reafirma em show e disco seu talento como intérprete

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                                                   O cantor Sérgio Santos (no centro), em show no Sesc 24 de Maio

No show “São Bonitas as Canções” (ontem, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo), o cantor e compositor Sérgio Santos interpreta um repertório recheado de clássicos de várias épocas da canção brasileira. E tem a seu lado um brilhante quarteto instrumental, formado por André Mehmari (piano), Nailor Proveta (clarinete), Rodolfo Stroeter (baixo acústico) e Tutty Moreno (bateria).

Curiosamente, no meio do show, o compositor mineiro – conhecido na área da MPB por elogiados álbuns autorais, como “Áfrico” (2002), “Iô Sô” (2008) e “Rimanceiro” (2013) – confessa que passou muito tempo resistindo à ideia de gravar um típico “disco de intérprete”. Por isso agradece a Mehmari, idealizador do projeto e produtor do disco que resultou nesse show.

Quem ouviu o álbum, lançado em 2019, sabe que não tinha como dar errado. Sérgio Santos escolheu belas canções que remetem às suas origens musicais e a compositores que o influenciaram, como “Tarde” (de Milton Nascimento e Márcio Borges), “Velho Piano” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) e “Choro Bandido” (Edu Lobo e Chico Buarque), canção cujo verso inspirou o título do álbum e do show, igualmente belos.

O acerto se completa com a escalação do quarteto, o mesmo que gravou o primoroso álbum “Dorival” (2017), com releituras instrumentais de canções do grande Caymmi. Graças à bagagem jazzística e à inventividade de Mehmari, Proveta, Stroeter e Moreno, as versões de Santos para essas pérolas da canção brasileira soam vivas e originais, tanto como disco como no palco.

“Precisamos manter a sensibilidade, especialmente num momento tão difícil como este que vivemos hoje. A sensibilidade leva à consciência e à reflexão”, disse Santos já quase ao final do show. Um recado que, pelo solidário calor das palmas da plateia, foi compreendido e aprovado.







 

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