Documentário: Gervitz revela qualidades humanas em festival de danças do mundo

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                           O dançarino Hamada Nayel, em cena do filme "Na Dança! Doc" / Foto: Divulgação

No último dia do festival de documentários musicais In-Edit Brasil, recomendo o filme “Na Dança! Doc” (direção de Roberto Gervitz) mesmo para quem não tem interesse especial por dança. À primeira vista, trata-se de um registro cinematográfico do 2º Na Dança!, festival de danças e músicas do mundo que a pesquisadora e dançarina Betty Gervitz (irmã do cineasta) comandou em 2018, em São Paulo. Mas assim que músicos e dançarinos de diversos países e etnias começam a contar suas histórias, o filme logo revela a intenção de ir além dos meneios e passos dessas danças. 

Comoventes, depoimentos de artistas que emigraram para São Paulo, como o egípcio Hamada Nayel, a colombiana Margarida Milagos, o senegalês Ibrahima Saar ou o angolano Ermi Panzo, trazem à tona o problemático tema da imigração. E remetem a duas qualidades humanas que parecem ter sido deixadas de lado, nos últimos anos, depois que essa onda de barbárie e retrocessos sociais tomou conta das esferas de poder neste país: a solidariedade e a compaixão.
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Numa sacada 
bem-humorada (que define o próprio espírito do festival, no qual artistas e participantes dançam e cantam juntos quase todo o tempo), Gabriel Levy, acordeonista e diretor musical do evento, rebate o sentido pejorativo que se costuma atribuir ao termo “promiscuidade”. “Promíscuo significa a favor da mistura. Então viva a promiscuidade!”, ele
 brinca, elogiando a diversidade cultural e racial. Nestes tempos de distanciamento social, o filme de Gervitz é uma estimulante celebração à humanidade.

Veja os documentários do 12.º In-Edit Brasil (com ingressos a R$ 3), até 20/9, neste link: https://br.in-edit.org/ 



"Sambalanço": filme de Tárik de Souza narra a história da bossa dançada nos bailes

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                                   O guitarrista Marco Mattoli e o cantor Orlandivo, em show no CopaFest 2011 

Se você ainda não sabe o que é sambalanço, não precisa ficar constrangido. Logo na primeira cena do filme “Sambalanço - A Bossa Que Dança” (direção de Tárik de Souza e Fabiano Maciel, em exibição online até 20/9, no festival In-Edit Brasil), que narra com bom humor a história dessa vertente musical, o pianista Eumir Deodato também admite não saber o que é sambalanço. Mesmo que tenha tocado esse estilo musical, em bailes, na década de 1950.

Autor do livro homônimo (lançado em 2016), o jornalista Tárik de Souza também assina o roteiro e assume a narração do documentário. “Ao contrário da bossa nova, um movimento estético organizado e acompanhado por vários teóricos de plantão, o sambalanço surgiu em paralelo, na surdina, em boates da zona sul e nos clubes da zona norte do Rio de Janeiro”, define o narrador, no estilo personalíssimo que o transformou em referência na crítica musical brasileira.

“O sambalanço, que não era samba de morro, nem sincopado de gafieira, promoveu mais um movimento de quadris do que um batuque de cabeças pensantes. Espalhou-se como um vírus pelas boates e pistas de dança, na virada dos anos 50 para os anos 60”, ele prossegue, em uma das sacadas que fazem de seu texto uma atração especial nesse documentário.

Contagiantes também são as aparições do cantor e compositor Orlandivo (1937-2017), criador de pérolas do sambalanço, como “Tamanco no Samba” (parceria com Helton Menezes), “Bolinha de Sabão” (com Adilson Azevedo) e “Palladium” (parceria com Ed Lincoln, interpretada no filme pelo paulista Marco Mattoli, líder da banda Clube do Balanço). Não bastassem suas melodias inovadoras, Orlandivo ainda introduziu nesse estilo de samba um novo instrumento de percussão: seu inusitado chaveiro com sete chaves.

Outro expoente do sambalanço que contribui com divertidos causos, em seu depoimento para o filme, é o violonista e arranjador Durval Ferreira (1935-2007), autor de clássicos do repertório da bossa nova, como “Estamos Aí”, “Batida Diferente” e “Tristeza de Nós Dois”. Ao lado dele, relembrando sucessos do sambalanço, também estão o cantor Miltinho, o organista Ed Lincoln e o baterista Wilson das Neves, entre outros. Sem falar em interessantes depoimentos de intérpretes como Elza Soares, Silvio César, Dóris Monteiro e João Roberto Kelly.

Se você gosta de samba e se emocionou com documentários que abordam esse gênero musical no festival In-Edit Brasil 2020, como “Elton Medeiros - O Sol Nascerá” (de Pedro Murat), “Porfírio do Amaral: A Verdade sobre o Samba” (de Caio Rubens) ou “Dom Salvador & Abolition” (de Artur Ratton e Lilka Hara), vai se divertir vendo “Sambalanço - A Bossa que Dança”. Uma saborosa aula de jornalismo musical com a grife Tárik de Souza.

Veja os documentários do 12.º In-Edit Brasil (com ingressos a R$ 3), até 20/9, neste link: https://br.in-edit.org/ 






Dom Salvador e Garoto: músicos brilhantes em documentários do 12.º In-Edit Brasil

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                                                               O pianista Dom Salvador - Foto de Phoebe Landrum / Divulgação

Dois brilhantes instrumentistas e compositores paulistas – ainda pouco conhecidos entre o grande público – chamam atenção na seleção de filmes do festival In-Edit Brasil. Em versão online pela primeira vez, a 12ª edição dessa mostra dedicada a documentários musicais reúne mais de 60 filmes nacionais e internacionais inéditos.

“Garoto - Vivo Sonhando” (projeto de Henrique Gomide, Lucas Nobile e Rafael Veríssimo, que também assina a direção) resgata a breve trajetória musical do paulistano Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto (1915-1955). Em composições de sua autoria, como o samba-canção “Duas Contas” ou o samba “Lamentos do Morro”, esse virtuose do violão (na foto abaixo) antecipou inovações harmônicas e rítmicas consolidadas anos mais tarde pela geração da bossa nova.

Por meio de depoimentos (Paulinho da Viola, João Gilberto, Roberto Menescal, Paulo Bellinati e Zé Menezes, entre vários outros), o filme credita o papel essencial de Garoto na modernização da música popular brasileira. Mas o que surpreende nesse documentário é a sólida construção da narrativa a partir de fotos, gravações de programas de rádio e até anotações das agendas pessoais de Garoto, que as usava como diários de suas realizações musicais.

A narrativa é tão rica em imagens, registros musicais e outros elementos que, provavelmente, muitos espectadores nem vão perceber que o protagonista do documentário só é visto e ouvido, em movimento, uma única vez. Trata-se de uma cena do filme “Serenata Tropical” (Down Argentine Way, de 1940), onde Garoto dedilha seu violão, em segundo plano, atrás de Carmen Miranda, que canta “Bambu, Bambu”. 

Essa cena foi filmada durante a viagem aos Estados Unidos, que Garoto fez para acompanhar a cantora, como integrante do conjunto Bando da Lua, no final dos anos 1930. Frustrado por ser tratado como coadjuvante, o violonista retornou ao Brasil. Chegou a receber propostas para voltar, meses depois, mas não foi. A morte precoce, aos 39 anos (vítima de um infarto), o impediu de realizar o desejo de se estabelecer como músico solista, na terra do jazz. 

O pianista, compositor e arranjador Dom Salvador – paulista de Rio Claro, que completa 82 anos neste sábado (12/9)  – também tinha esse sonho e conseguiu realizá-lo. Expoente do samba-jazz, na década de 1960, e pioneiro das fusões do samba com o soul e o funk à frente de seu grupo Abolição, no início dos anos 1970, ele desembarcou com a cara e a coragem, em Nova York, em 1973. Até se tornar reconhecido na cena do jazz, batalhou muito. Chegou a ficar 30 anos sem tocar em palcos brasileiros.

Artur Ratton e Lilka Hara, brasileiros que vivem em Nova York, enfrentaram um duplo desafio ao filmar e dirigir o documentário “Dom Salvador & Abolition”. Além da difícil tarefa de sintetizar em 88 minutos as seis décadas da diversificada carreira musical de Salvador, a dupla também decidiu registrar, nos últimos anos, cenas de seu cotidiano – do trabalho diário no sofisticado restaurante River Café (onde começou a tocar em 1977) até questões familiares.

Especialmente comoventes são as cenas de Salvador com a cantora Mariá, parceira musical e de vida, com qual se casou, em 1965, e teve dois filhos. Desde 2004, quando ela começou a exibir sintomas de demência, até os últimos meses de vida de sua amada (que morreu em abril deste ano), Salvador fez questão de cuidar dela sozinho.

O acesso ao acervo pessoal do pianista permitiu que os cineastas pudessem incluir na trilha sonora do filme algumas gravações inéditas, como trechos da primeira sessão de ensaio da banda Abolição. Ou uma sessão de gravação de Salvador com o percussionista norte-americano Steve Thornton, que conheceu quando se tornou diretor musical da banda do cantor e ator Harry Belafonte, pouco tempo depois de se instalar em Nova York.

Expoentes de diferentes épocas da música popular brasileira, os inovadores Garoto e Dom Salvador merecem ser mais conhecidos e ouvidos pelas gerações mais jovens. Estes documentários certamente podem contribuir para isso.

Veja os documentários do 12.º In-Edit Brasil (com ingressos a R$ 3), neste link: https://br.in-edit.org/ 



New Orleans: WWOZ FM exibe série de 7 dias com gravações de festivais

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                                   Trombone Shorty (no centro), em show no New Orleans Jazz Fest, em 2019  

Cidade do sul dos Estados Unidos que respira música e tradições afro-americanas, New Orleans costumava oferecer dezenas de festivais de diversos gêneros musicais, até o início da pandemia da covid-19. O maior e mais internacional desses eventos –- o New Orleans Jazz & Heritage Festival -– festejou seus 50 anos em 2019, mas foi obrigado a cancelar a edição deste ano, assim como outros festivais pelo mundo. 

Para consolar os fãs do evento, a WWOZ FM (a emissora de rádio mais tradicional e popular da cidade, que também patrocina o palco de jazz nesse festival) transmitiu, quatro meses atrás, a série “Jazz Festing in Place”. Durante oito dias, no mesmo horário do festival (de 11h às 19h), reuniu gravações de grandes momentos do Jazz Fest (é assim que os moradores locais se referem ao evento).

A repercussão dessa série inspirou uma segunda edição que, além de relembrar gravações históricas do Jazz Fest, também vai incluir registros de outros festivais da cidade, como o French Quarter Fest, o Satchmo Summer Fest e o Blues & BBQ Fest, além de shows em clubes locais, como o Snug Harbor ou o Tipitina’s.

O elenco da nova edição da série “Festing in Place -- The Next Fest Thing” destaca músicos, cantores e bandas do primeiro time da música de New Orleans, como os Neville Brothers e os Meters, as cantoras Irma Thomas, Lillian Boutté e Erica Falls, os trompetistas Terence Blanchard e Kermit Ruffins, os pianistas Ellis Marsalis e Allen Toussaint e os guitarristas Walter "Wolfman" Washington e Little Freddie King, entre muitos outros.

A série será transmitida de 4 a 7/9 (sexta a segunda) e de 11 a 13/9 (sexta a domingo), sempre das 13h às 21h (horário de Brasília). Para ouvir, acesse o site da WWOZ FM neste link: https://www.wwoz.org/listen/player
E a programação dos sete dias você encontra aqui: 

Música na pandemia: projetos instrumentais em tempos de isolamento

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                         O músico Walter Areia, no videoclipe "Ensaio sobre a Distância" / Foto de Pedro Escobar


As incertezas em relação ao futuro ainda preocupam bastante os meios musicais de nosso país, cinco meses após a decretação das primeiras medidas de isolamento social – recurso essencial no combate à pandemia. Com o fechamento dos teatros, auditórios, clubes, bares e casas noturnas, os músicos se viram obrigados a enfrentar uma situação inédita e dramática: impedidos de fazer shows, perderam da noite para o dia, literalmente, sua principal fonte de sustento.

Alguns cantores até conseguiram encontrar nas lives, veiculadas pelo YouTube e pelas redes sociais, uma alternativa financeira temporária. Já os instrumentistas – em especial aqueles que utilizam a improvisação como ferramenta de criação instantânea nos palcos – sofreram mais com o distanciamento social. Por ser essencialmente colaborativa, a música instrumental perde muito sem a proximidade física dos parceiros e o calor do público.

Expoente dessa vertente musical, o pianista e compositor paulistano Benjamim Taubkin encara essa situação com um certo humor. “Se, neste momento, o distanciamento social limitou o contato com outros músicos, por outro lado me pôs em contato diário com meu instrumento, como nunca antes na minha vida. Sentindo o benefício, eu brinco: se a pandemia tivesse acontecido na época em que comecei a tocar, teria estudado mais”.

Envolvido com diversos projetos simultâneos durante estes meses de pandemia, Taubkin é um exemplo inspirador de como os músicos têm usado sua criatividade para enfrentar esse período difícil. Dias antes da decretação da quarentena, em março, ele recebeu a notícia do cancelamento de uma turnê que faria por seis países sul-americanos. Como planejava aproveitar os encontros que teria com músicos locais, para colher depoimentos que farão parte de um complemento de seu livro “Viver de Música” (que reúne conversas com músicos brasileiros de várias vertentes), o jeito foi adaptar o projeto à realidade da quarentena.

Taubkin entrevistou músicos como o uruguaio Hugo Fattoruso, a colombiana Lucia Pulido e o venezuelano Otmaro Ruiz, usando aplicativos de videoconferência. Essas conversas vão compor a série “Vivir de Música”, com alguns vídeos já disponibilizados no canal do selo Núcleo Contemporâneo, no YouTube.

“Vidas de músicos têm muitas semelhanças: a paixão, o sonho, a criação. Os artistas que entrevistei são apaixonados pelo que fazem”, comenta Taubkin. “Nesse aspecto, é quase uma família, uma tribo. Nós nos reconhecemos como se houvesse padrões de desenvolvimento, etapas no processo que acontecem a todos, adaptados à realidade local”.





Afeto em forma de música

Também não deixa de ser uma tribo a criativa equipe do projeto A Nossa Música, que a pianista e compositora Júlia Tygel idealizou e coordena com o objetivo de gerar renda para músicos sem trabalho durante a pandemia. Esse projeto oferece um serviço inusitado: os interessados podem encomendar uma música, tanto instrumental como uma canção, pelo valor mínimo de R$ 300, no site do projeto (www.anossamusica.com.br).

Feita a partir de um mote (pode ser um poema, uma foto, a descrição de alguém), a música ou canção será composta e interpretada por dois integrantes de um coletivo de craques e estrelas da cena musical paulistana, como Ricardo Herz, Salomão Soares, Michi Ruzitschka, Daniel Grajew, Fi Maróstica, Louise Wooley, Fabiana Cozza, Vanessa Moreno e Patrícia Bastos, entre outros e outras. A edição dos vídeos com as composições é feita pela cantora Dani Gurgel. Quem indica os autores e intérpretes das futuras músicas é o curador do projeto, Benjamim Taubkin

“O projeto nasceu um pouco como uma brincadeira, uma forma de aproximar os músicos do público e gerar renda nesse período de isolamento, mas rapidamente seu escopo se mostrou muito maior”, avalia Júlia. Depois de contabilizar 60 músicas produzidas em pouco mais de um mês, ela admite que a equipe não esperava por uma demanda tão grande de pedidos. O tempo de entrega das encomendas chegou a ser aumentado, para que os autores pudessem criar com tranquilidade, sem correrem o risco de não cumprir os prazos prometidos.

Júlia considera que seu projeto tem potencial para ir muito além do período de quarentena. “Ele dá oportunidade para os músicos interagirem de uma forma nova e une artistas e público de uma maneira especial. Tem provocado novos encontros entre músicos que já se admiravam de longe, mas nunca tinham trabalhado juntos, resultando em músicas lindas e cheias de afeto”, comenta a coordenadora. “As pessoas que pedem as músicas têm ficado emocionadas ao verem seus sentimentos, memórias ou desejos tomarem a forma de músicas”.




Uma canção sobre a distância

Depois de tantos meses de quarentena e distanciamento social, já é evidente até nas conversas das redes sociais que as pessoas estão bastante carentes de contato pessoal e afeto. Curiosamente, ao abordar esse tema em um recém-lançado single, sua canção “Ensaio Sobre a Distância”, o contrabaixista e compositor pernambucano Walter Areia (ex-integrante da banda Mundo Livre S/A, que vive Portugal desde 2016) enveredou por um caminho um pouco diferente da música instrumental e do jazz que tem praticado nos últimos anos.

Embora já tenha feito parcerias com artistas da cena musical pernambucana, como Juliano Holanda, Monica Feijó ou Cassio Sette, Walter ainda não havia composto sozinho uma canção. “Era um desejo que já estava a me incomodar. Calhou de ser durante essa pandemia, talvez por eu ter mais tempo livre. Não sei ao certo”, admite. “Só sei que encontrei as pessoas certas e achei que fosse o momento certo. Tenho muita vontade de formatar um concerto que una esses dois caminhos: o da canção com o da música instrumental e o jazz”.

Certamente não foi à toa que, para gravar sua bela e emotiva canção, Areia tenha convidado músicos de Portugal e do Brasil. Aos vocais de Mara e à bateria de Joel Silva, ambos lusitanos, ele acrescentou o clarinete e o violão de 10 cordas do paulista Nilson Dourado e o lírico piano do onipresente Benjamim Taubkin. Para retribuir a camaradagem dos parceiros, que fizeram a gravação sem receber cachê, Areia organizou uma campanha de “compra voluntária” no Facebook. Além de ser lançada como single, nas plataformas digitais, “Ensaio Sobre a Distância” também rendeu um videoclipe, dirigido pelo brasileiro Pedro Escobar: 





O adeus do Duofel? Ou um até breve?

Entre tantas mortes, desemprego e outras lamentáveis perdas provocadas pela pandemia também ficará registrado um fato triste para os apreciadores da música instrumental brasileira: o anunciado fim do duo de violões Duofel, uma das parcerias mais longevas e criativas dessa vertente musical. A notícia – confirmada em uma “live” de despedida da dupla, intitulada “The End”, no final de julho – causou surpresa e comoção entre os fãs.

Além de creditar a separação às dificuldades impostas pela pandemia, o violonista Luiz Bueno também observa que, depois de 44 anos tocando com Fernando Mello, é até natural que essa parceria tenha arrefecido. “Nos tornamos adultos, envelhecemos e tomamos rumos diferentes. Fomos perdendo a alegria, elemento químico necessário para uma parceria criativa”, observa o violonista e compositor.

Ainda assim, felizmente, Bueno avisa que a interrupção da parceria não é definitiva. “Não vamos parar de tocar. Quando recebermos um convite, vamos ensaiar e interpretar a nossa obra. A música continua, nossa amizade continua”, diz. De todo modo, os fãs do Duofel não ficarão sem novidades: Bueno lançou em junho seu álbum solo “De Volta à Velha Casa” e Mello também está preparando um projeto solo.





Mesmo abatida pelas drásticas restrições e dificuldades que a pandemia impôs a todos, a resiliente tribo instrumental segue improvisando e criando, sempre em busca de desafios e belezas musicais. A seguir outros álbuns, vídeos e projetos ligados a essa vertente musical que nasceram ou foram lançados durante a pandemia:


"BruMa", de Antonio Adolfo 

Durante a última década, especialmente, o pianista e arranjador carioca tem se superado ano a ano, lançando projetos de música instrumental calcados na linguagem jazzística. Em “BruMa” (selo AAM/Rob Digital), outro álbum brilhante, Adolfo relê com elegância pérolas da obra de Milton Nascimento, ao lado de craques como Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Jessé Sadoc (trompete) e Rafael Barata (bateria).




Bebê Kramer, em "Vertical"

“Vertical”, ótimo álbum que o acordeonista e compositor gaúcho Bebê Kramer lançou no final de 2019, rendeu um novo produto. O selo Audio Porto disponibilizou um documentário homônimo, com cenas de bastidores das gravações, que revelam a cumplicidade de Kramer com parceiros no projeto, como o percussionista Armando Marçal, o saxofonista Edu Neves e o contrabaixista Guto Wirtti.




Série de podcasts "Choraço Virtual" 

Podcast em 8 episódios, que narram a história do choro contemporâneo. Idealizada e apresentada pela pandeirista e produtora Roberta Valente, a série aborda as influências que o choro recebeu do maxixe, da valsa e da polca. Também compara os diversos sotaques do choro nas regiões do Brasil. E traça um panorama do gênero em outros países, como o Japão, Estados Unidos, França e Portugal. Estreia 2/9, quartas e sextas, às 21h, no canal de YouTube: https://www.youtube.com/c/Sesc24deMaioYouTube


Álbum de Cristovão Bastos e Rogerio Caetano 

Encontro do conceituado pianista carioca Cristovão Bastos com o goiano Rogério Caetano, mestre do violão de sete cordas. No repertório, a tradição do choro dialoga com a diversidade típica da música brasileira. Destaque para o saboroso “Um Chorinho em Cochabamba” (de Caetano e Eduardo Neves) e o moderno choro “Obrigado Rapha”, homenagem de Caetano ao violonista Raphael Rabello (1962-1995). Lançamento Biscoito Fino.




"Entre Mil... Você", de Daniela Spielman e Sheila Zagury 

Parceiras há duas décadas, a saxofonista Daniela Spielmann e a pianista Sheila Zagury mergulham na obra de Jacob do Bandolim (1918-1969), grande expoente do choro, neste álbum intitulado “Entre Mil... Você” (lançamento Kuarup). Do contagiante choro “Receita de Samba” a uma inusitada releitura da valsa “Santa Morena”, que ganhou um sotaque árabe, a dupla injeta frescor nesse clássico repertório.




"Olayá", de Edu Neves 

Delicioso álbum do saxofonista e flautista, “Olayá” (selo Audio Porto) é um tributo à Cidade Maravilhosa, representada no repertório autoral que vai de diversos estilos de samba à bossa nova e ao funk. Destaque para os inventivos arranjos orquestrais de Neves, como o do samba “Caiu Atirando”, que remete a trilhas sonoras de filmes de ação. Participações de Hamilton de Holanda, Raul de Souza, Zeca Pagodinho e Seu Jorge.




Álbum do Ensemble Choro Erudito 

A formação incomum, com o vibrafone de Ricardo Valverde, o violino de Wanessa Dourado e o contrabaixo de Marcos Paiva, empresta uma sonoridade especial a este trio. Entre o popular e o erudito, o repertório combina conhecidos choros, como “Brejeiro” (Ernesto Nazareth) e “Delicado” (Waldir Azevedo), com peças de Villa-Lobos (“O Trenzinho do Caipira”), Camargo Guarnieri (“Dança Negra”) e Dvorák (“Dança Eslava”). Lançamento Kuarup.




"Solitude", de Flávio Franco Araújo

Pianista, arranjador e produtor paulista, que se dedicou durante décadas à área da publicidade, Araújo decidiu gravar seu primeiro disco: um projeto de piano solo. Autoral, “Solitude” (Azul Music) reúne melodias singelas e introspectivas, inspiradas por episódios pessoais, como a faixa “Flávia Jogando Bola”. “For Bill” é dedicada a um dos ídolos do compositor: o pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980).




"Crew in Church", de Joabe Reis 

Se você é um daqueles que criticam a música instrumental por achá-la mais fria ou cerebral do que outros gêneros, vai se surpreender com o primeiro álbum desse talentoso trombonista e compositor capixaba, hoje radicado em São Paulo. A música de Joabe combina os improvisos do jazz e da música instrumental com o balanço e a vibração do funk e do R&B. Tente ficar parado ao ouvir qualquer faixa de “Crew in Church” (selo TFunky Jazz).
Aqui uma entrevista que fiz com Joabe, a convite do Sesc Pinheiros, para o projeto Radar Sonoro:




Álbum de Goio Lima 

A admiração que esse saxofonista, flautista e arranjador paulista demonstra pela música do grande Tom Jobim (1927-1994) é reveladora. Autoral, o repertório de seu primeiro álbum solo inclui composições dedicadas a outros mestres da MPB, como João Donato e Johnny Alf, assim como homenagens aos jazzistas Stan Getz e Charles Mingus. Referências que embasam a consistência musical deste trabalho.




"Sumidouro", de Igor Pimenta 

Conhecido pelas parcerias com Neymar Dias e outros músicos da cena paulistana, o contrabaixista e compositor não deixou por menos. “Sumidouro”, seu primeiro disco solo, surpreende pela arrojada concepção musical, além da diversidade de influências, que vai do Clube da Esquina ao grupo Oregon, passando por Egberto Gismonti, Pat Metheny e até influências do jazz-rock, entre outras. Um disco caleidoscópico que dá vontade de ouvir ao vivo.




"Tempo Sem Tempo", de Joana Queiroz

A clarinetista e compositora carioca, que faz parte do grupo instrumental Quartabê, usa a expressão “sair do caos e olhar para dentro” ao se referir a “Tempo Sem Tempo”, seu quarto álbum solo (lançado pelo selo YB Music, já no auge da pandemia). Música etérea e introspectiva, que reflete este tempo de afastamento social. Participações dos bateristas/percussionistas Mariá Portugal, Domenico Lancellotti e Sergio Krakowski.




Léa Freire, em "CinePoesia" 

A compositora e flautista paulistana inovou ao promover “CinePoesia” (selo Maritaca), seu primeiro álbum que a destaca como pianista. As 12 composições foram lançadas em uma série de “singles” acompanhados por vídeos assinados por Lucas Weglinski, criando assim um diálogo entre os sons e as imagens. “Fazia tempo que eu queria gravar piano-solo, como um desafio pessoal, uma meta a superar”, festeja a multitalentosa Léa.




"De Volta à Velha Casa", de Luiz Bueno 

Finalizado durante a quarentena, com pós-produção de Raul Misturada, este álbum solo do violonista do Duofel nasceu de improvisos (tocar “no fluxo”, como ele costuma dizer). Ao escolher o título “De Volta à Velha Casa” (via selo independente distribuído pela Tratore), Bueno vê este álbum como “uma trilha de cinema, mas sem o filme”. Ela conduz o ouvinte à sua própria experiência de vida, como se voltasse a uma casa, física ou interior.




"Prece", de Noa Stroeter 
O contrabaixista paulistano, que já gravou três discos como integrante do Caixa Cubo Trio, não esconde que as composições de “Prece” (selo Pau Brasil), seu primeiro e promissor álbum solo, têm algo de autobiográficas. A jazzística “Veridiana” e o inusitado “Varanda”, um bolero à Henri Mancini, entre outras faixas, revelam que a cultura musical de Noa é bem mais ampla que a de muitos músicos jovens de sua geração. Ótima estreia.




"Unity", de Paulo Almeida 

O quarto disco do baterista e compositor paulista foi gravado ao vivo, em 2019, no clube de jazz The Bird’s Eye (em Basel, Suíça), durante turnê pela Europa. O quinteto inclui Diego Garbin (trompete), Salomão Soares (piano), Oliver Pellet (guitarra) e Felipe Brisola (baixo). A dramática “From Selma to Montgomery” (composição de Almeida e Pellet) reproduz trecho de um discurso de Martin Luther King. Distribuição Tratore.




Álbum do Shinkansen 

Os craques Toninho Horta (guitarra), Jaques Morelenbaum (cello), Marcos Suzano (percussão) e Liminha (baixo) formaram este supergrupo instrumental, uma década atrás, para se apresentarem no Japão. Sem agenda comum, o projeto ficou interrompido. É retomado agora com o disco do quarteto, que ainda conta com participações especiais de Branford Marsalis (sax), Ryuichi Sakamoto (piano) e Jessé Sadoc (trompete).




(Texto escrito a convite do Sesc SP para o projeto Radar Urbano, com curadoria de Sarah Degelo) 

Duofel: após 42 anos juntos, Luiz Bueno e Fernando Melo anunciam fim da dupla

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Afastados há quase seis meses por causa da pandemia, os violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno anunciaram o final do Duofel – uma das parcerias mais longevas e inventivas da música instrumental brasileira. A despedida oficial será nesta sexta (31/7), às 20h, em uma “live” transmitida pelo YouTube.

Confesso que fiquei surpreso e triste ao saber dessa notícia. Acompanho o Duofel desde o início dos anos 1980, quando ainda era estudante de música. Além do alto quilate das composições e da criatividade dos arranjos da dupla, a empatia que Fernando e Luiz revelam dentro e fora dos palcos sempre chamou minha atenção, nos vários shows que assisti e nas entrevistas que já fiz com eles.

Por isso, fico pensando que, apesar de essa “live” ter sido anunciada com o aparentemente definitivo título “The End”, o suposto adeus tem grandes chances de ser apenas um “até breve”. Uma separação como essa seria um imenso desperdício musical. Não vou perder a “live” de amanhã, naturalmente, mas já estou esperando ver o Duofel de volta aos palcos, em 2021, para comemorar seus 43 anos.





Luciana Souza: cantora radicada nos EUA recria jóias da MPB com uma big band

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Acostumada a uma intensa rotina de concertos, turnês, gravações e aulas, Luciana Souza viu pela primeira vez um disco seu ser lançado sem algum show ou evento especial. Quando “Storytellers”, seu 13.º álbum, chegou ao mercado, no final de março, a cantora e compositora paulistana  hoje uma das intérpretes mais conceituadas na cena mundial do jazz  já estava em quarentena para se proteger do coronavírus. 

“Eu não queria correr mais riscos”, diz ela, de sua casa em Los Angeles, onde vive com o marido, o produtor musical Larry Klein, e o filho Noah. Luciana lembra que tomou a decisão de suspender concertos e viagens logo na primeira semana de março, horas antes de um show com o violonista Chico Pinheiro, em Michigan. Ficou tão assustada com o noticiário da TV, que desistiu de se apresentar com a banda Yellowjackets, em Nebraska, poucos dias depois.

Voltando ao novo disco, ainda não foi desta vez que ela concretizou o sonho de gravar um álbum com canções de seus pais (o violonista Walter Santos e a letrista Tereza Souza, expoentes da bossa nova em São Paulo e fundadores da lendária gravadora Som da Gente). Um projeto mais difícil de realizar, admite a cantora, por causa de “um pequeno problema”: as gravações com orquestra e os arranjos de cordas, assinados por craques como Vince Mendoza e Dori Caymmi, resultariam em um orçamento de pelo menos 100 mil dólares.

Foi o mesmo Mendoza, premiado regente e compositor americano, quem escreveu os arranjos e produziu o álbum “Storytellers”, uma parceria de Luciana com a banda alemã WDR Big Band Cologne. Curiosamente, a gravação desse disco não estava no projeto original. Convidados a fazer alguns concertos com essa big band, em 2017, a cantora e o arranjador selecionaram um sofisticado repertório de música brasileira. Só meses depois surgiu a ideia de lançar o disco, utilizando as ótimas gravações realizadas durante os ensaios.

“A WDR é uma banda que tem fome de tocar”, elogia Luciana, comentando que os músicos dessa big band ensaiam cinco dias por semana durante nove meses do ano. “Eles tocam com um grau de relaxamento que os músicos americanos desconhecem, porque podem se dar ao luxo de passar o dia juntos, ensaiando e tocando. Cantar com uma big band como essa me deixa feliz e relaxada. É só respirar e cantar”.

O repertório do álbum é de primeira linha: canções repletas de lirismo, como “Chora Coração” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque) e “Meu Pai” (Guinga); um inspirado xote de Ivan Lins e Lenine (“Se Acontecer”); um saboroso samba de Gilberto Gil (“Mar de Copacabana”) e uma antiga composição, sem letra, da própria Luciana (“Baião a Tempo”), entre outras.

Na opinião da cantora, entre tantas belezas, “o centro do disco” é a gravação de “Matita Perê” (de Jobim e Paulo Cesar Pinheiro), uma épica declaração de amor à natureza no Brasil. Não à toa, Luciana escolheu para a capa do álbum uma expressiva imagem do Rio Juruá (na Amazônia), clicada em preto e branco pelo fotógrafo Sebastião Salgado. “O trabalho dele, como o de Jobim, repousa como uma das obras mais importantes e impactantes que já surgiram no Brasil”, avalia a intérprete, em um texto no encarte do disco.

Diferentemente do que suspeitam alguns pessimistas, Luciana não teme que a atual pandemia possa ameaçar o futuro da música ao vivo. “Acho que os teatros e clubes vão reabrir quando possível. Algumas pessoas terão medo de ir, inicialmente, mas isso não será definitivo. Até se descobrir uma vacina para essa doença, tudo será transitório”, prevê a cantora, que já tem um concerto agendado, no final do ano, num teatro de Los Angeles, sem a presença de plateia. Essa apresentação será transmitida por streaming.

“Isso é meio triste, mas é o que podemos fazer agora. Não podemos colocar as vidas das pessoas em risco”, comenta a cantora, preocupada com o futuro do Brasil e dos Estados Unidos. “Há uma tragédia política acontecendo hoje no mundo. Como o governo americano, o governo brasileiro optou por um caminho errado, trágico e cruel. Infelizmente, o nosso presidente não tem respeito pela vida do próximo. Se a gente tivesse um presidente mais coerente com a ciência, provavelmente não teríamos tantos mortos no país. Isso me entristece muito”.

Em meio à recorrente discussão sobre como esta longa quarentena poderá alterar nossos hábitos, Luciana sugere que ela seria uma oportunidade para se discutir e modificar o injusto pagamento de direitos autorais aos músicos, nas plataformas digitais. Como exemplo, ela revela seu próprio rendimento, no aplicativo de streaming Spotify, onde seus discos alcançam a média mensal de 50 mil “streams” (a audição de uma música por mais de 30 segundos).

“Se eu ganhasse um centavo de dólar por cada ‘stream’, receberia 5 mil dólares por mês – quantia que já me ajudaria bastante. Só que pelo sistema atual eu recebo uma parcela infinitamente menor: 38 dólares, em média, por mês”, diz a cantora. “Será que a gente não poderia reeducar as novas gerações? Por que não tentarmos convencer as pessoas a pagarem um valor mais justo por um produto que foi criado por um artista?”.


(Texto publicado no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico", em 12/6/2020)




 

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