Os músicos Roberto Fonseca e Andrés Coayo - Foto de Inez Medaglia
Ontem, no palco do clube Bourbon Street, em São Paulo, uma
bandeira cubana pendurada entre os instrumentos de percussão soava como um sinal de orgulho e resiliência. Admirado pelo público paulistano desde
2004, quando veio ao país acompanhando Ibrahim Ferrer (um dos veteranos astros do projeto Buena Vista
Social Club), o brilhante pianista cubano Roberto Fonseca sentiu-se à vontade para convidar a plateia a cantar, descontraidamente, com
ele e o percussionista Andrés Coayo.
A uma semana do segundo turno de nossa eleição presidencial, fiquei pensando que, caso os reacionários impostores vençam nas urnas, corremos o risco de ver em
breve artistas cubanos serem impedidos de se apresentar no Brasil. Mais triste
ainda é a possibilidade de o patético Tirano Laranja ser covarde o suficiente
para invadir a já combalida ilha de Cuba, que resiste ao desumano embargo
econômico mantido desde os anos 1960 por diversos governos estadunidenses. Vítima de constantes apagões de energia elétrica, atualmente os moradores da ilha também enfrentam escassez de água e gás de cozinha.
Quase 30 anos atrás, quando recebi um convite para ir a Cuba fazer uma longa
reportagem sobre a cena musical do país, fiquei muito comovido ao ver como os
músicos locais resistiam a tantas dificuldades econômicas. Em dois ou três dias, eu já me sentia em casa. Bastava me
apresentar como um jornalista do Brasil, para receber largos sorrisos e muitas
declarações de amor à música popular brasileira. Também presenciei várias cenas de
cortar o coração. Então dói mais ainda imaginar o que a população cubana pode estar enfrentando
hoje.
Naquela época, o produtor e letrista Vitor Martins (parceiro de Ivan Lins em
vários clássicos da MPB) lançou no mercado brasileiro, por meio da gravadora Velas, dezenas e dezenas de discos de música cubana. O catálogo desse selo fonográfico ofereceu um rico panorama que abrangia desde gêneros tradicionais da música cubana, como o bolero
e o son, as modernas canções do movimento Nueva Trova até novidades do jazz
afro-cubano e da salsa. Que fique registrado: a Velas foi a única gravadora
brasileira que teve coragem de investir de verdade na divulgação da música produzida em Cuba.
Voltando a Fonseca, mesmo que ele já tenha realizado diversas turnês pelo
Brasil, esta foi a primeira vez que apresentou aqui um repertório voltado
exclusivamente para solos e duos. Nos solos do show de ontem, ele exibiu sua apurada formação
pianística, baseada na música clássica e no jazz. Já nos duos, chamou atenção especial
o carisma do percussionista Andrés Coayo, cujo estilo histriônico lembra o do mestre Tito
Puente.
Mesmo sem fazer referências explícitas ao universo da política, Fonseca
mandou um recado sutil. Ao comentar que homenagearia dois grandes
pianistas que quase o fizeram desistir da carreira ao conhecê-los, o cubano surpreendeu a plateia. Em vez de apontar alguns dos vários estadunidenses que o influenciaram, ele mencionou dois canadenses: o jazzista Oscar Peterson e o erudito Glenn Gould. Como
se dizia tempos atrás, Fonseca respondeu as frequentes agressões dos Estados Unidos ao seu país com um tapa na cara, mas usando luvas de pelica.
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