Brazilian Grupo: quinteto mistura bossa, jazz e bom humor em sua receita musical

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               Clayber (esq. para dir.), Giba, Parahyba, Costita e Aluizio, no Estudio Mosh

O título “Oscaravelhos” pode soar politicamente incorreto, por se tratar de um disco de um quinteto de músicos idosos. Porém, quem já esteve com os instrumentistas do Brazilian Grupo, nos estúdios de gravação ou nos bastidores dos palcos em que se apresentam, logo percebe que essa é apenas uma piada entre amigos. O humor e a autogozação fazem parte da convivência desses antigos colegas de profissão. Assim eles se divertem, celebram a própria vida e tocam a música brasileira de alta qualidade, que cultivam há décadas. 

Não seria muito exagero comparar esses músicos a uma veterana seleção de craques do futebol. Em meados da década de 1960, o contrabaixista/gaitista Clayber de Souza, o pianista Aluízio Pontes e o saxofonista Hector Costita já se destacavam na cena musical de São Paulo, como talentosos instrumentistas da primeira geração do samba-jazz – a vertente instrumental da bossa nova.  

Em 1964, Clayber e o então baterista Airto Moreira sentiram que o promissor trio que haviam formado há pouco com o pianista César Camargo Mariano corria um risco. Após o sucesso de uma longa temporada de shows do Sambalanço Trio com o dançarino e cantor Lennie Dale, na boate carioca Zum Zum, César (recém-casado com a cantora Marisa Gata Mansa) comunicou aos parceiros do trio que decidira morar por algum tempo no Rio de Janeiro.  

Para não falharem no compromisso de acompanhar a cantora Flora Purim, em uma série de shows, Clayber e Airto saíram procurando um pianista às pressas. Por acaso, ao passar pela rua Augusta, o baixista entrou na boate Dim Dim, onde ouviu um jovem pianista que chegara há pouco da interiorana Presidente Prudente. Assim o Sambalanço Trio ganhou um novo pianista.   

Ali começou uma longa amizade e parceria musical, que se mantém há mais de 60 anos. “Aluízio morou na minha casa, estudamos juntos e tocamos muito juntos. Ele é um cara tão fantástico em minha vida, que ao final dos nossos shows até nos beijamos na boca”, diverte-se o paulistano Clayber, com seu jeitão gozador.  

Acompanhando astros da MPB 

Aluízio só tocou por cerca de um ano no Sambalanço Trio. Acabou direcionando sua bem-sucedida carreira a escrever arranjos e acompanhar astros da música popular brasileira, como os cantores Agostinho dos Santos, Maysa, Wilson Simonal, Alaíde Costa e Elizeth Cardoso, entre muitos outros. Também desenvolveu um método próprio de ensino de piano e teoria musical, que segue utilizando com seus alunos.  

Clayber continuou apostando no samba-jazz: tocou com outros conceituados grupos do gênero, como o Sambrasa Trio, o Sambossa 5 e o Jongo Trio. Já no final dos anos 1970, não deixou por menos quando decidiu aposentar seu contrabaixo: tornou-se um excelente gaitista, reconhecido até fora do país.    

Descendente de italianos, Hector “Costita” Bisignani nasceu em Buenos Aires, na Argentina. Tinha 23 anos, em 1958, quando veio ao Brasil pela primeira vez como saxofonista da orquestra de Roberto Inglez – um pianista escocês radicado no Chile. Ao final dessa temporada de shows pelo país, decidiu ficar morando no Brasil, em especial por causa de seu interesse musical pela nascente bossa nova.   

O saxofonista argentino se estabeleceu em São Paulo. Por dois anos tocou na boate Baiuca, ao lado de exímios pianistas daquela cena musical, como Moacir Peixoto, Dick Farney e Luiz Mello. Depois foi solista de algumas das orquestras mais populares da época, como as comandadas por Élcio Alvarez, Simonetti e Carlos Pipper.  

Reconhecimento internacional

Já em 1964, o crescente prestígio de Costita lhe rendeu o convite do pianista Sergio Mendes para integrar o Sexteto Bossa Rio, com o qual gravou o álbum “Você Ainda Não Ouviu Nada” – uma das obras-primas do samba-jazz. O reconhecimento internacional veio no ano seguinte, ao fazer uma temporada de shows na Europa. Acabou vivendo por dez anos naquele continente, onde se apresentou em diversos países. Sorte da música instrumental brasileira, que continuou contando com esse músico de alto quilate, quando ele decidiu retornar ao Brasil.   

Embora pertença a uma geração posterior à dos citados colegas do Brazilian Grupo, o percussionista João Parahyba, hoje aos 75 anos, também conserva uma antiga ligação com o samba jazz. Tanto que, em 2011, lançou pelo Selo Sesc o álbum “O Samba no Balanço do Jazz”, no qual reverencia essa vertente instrumental que marcou o início de sua carreira musical. Chegou a conviver com o baterista Milton Banana e os músicos do Tamba Trio e do Zimbo Trio.  

Hoje é compreensível que Parahyba seja mais conhecido pelos apreciadores do suingado samba-rock do Trio Mocotó, do qual foi um dos fundadores por volta do ano de 1968. Naquela época, ele, Nereu e Fritz acompanhavam o cantor e compositor Jorge Ben, em uma fase de grande sucesso, entre outros bambas do samba, na boate paulistana O Jogral. Passadas seis décadas, com exceção de alguns hiatos fora dos palcos, o Trio Mocotó segue na ativa com Parahyba e Nereu, da formação original, para a alegria de seu fã-clube.  

Giba Pinto – o baixista e músico mais jovem do Brazilian Grupo, atualmente com 59 anos – afirma que sente orgulho ao tocar com quatro de seus ídolos musicais. “Até hoje me surpreendo com cada uma das aventuras do passado contadas por eles, verdadeiras pérolas, que merecem ser registradas. Cada um deles representa um pedaço da história da música brasileira”, comenta.  

Paulistano, durante os primeiros anos de sua carreira, Giba desfrutou o privilégio de acompanhar Johnny Alf, o original pianista e precursor da bossa nova. Já cultiva há três décadas a relação musical com João Parahyba, que conheceu pessoalmente nos anos 1990. Tornou-se integrante da banda que acompanha o Trio Mocotó cerca de 25 anos atrás.

Das boates dos anos 1960 aos ouvidos de hoje

O que logo chama atenção nas oitos faixas do álbum do Brazilian Grupo é a variedade de gêneros musicais que compõem o repertório desse quinteto. Algo até natural tratando-se de instrumentistas de gerações que frequentaram a eclética escola dos bailes, assim como os bares e boates de São Paulo durante as décadas de 1950 e 1960. 

A faixa “El Detective” (composição de Hector Costita) abre o disco com uma atmosfera de trilha sonora de filme de suspense. Apresentado pela expressiva sonoridade de um naipe de saxofones, o tema traz uma levada com sabor de jazz latino. Na seção de improvisos, destaque para os solos de Clayber de Souza (gaita), Aluízio Pontes (piano) e do próprio Costita (sax tenor).  

O saxofonista também contribuiu com a faixa que encerra o disco: “Nano”, um simpático samba que ele dedicou décadas atrás a um de seus filhos. O bem-humorado título da composição remete à dificuldade que o garoto ainda enfrentava para pronunciar o próprio nome. “Quando ele tinha três anos, se alguém perguntava seu nome, ele tentava dizer Mariano, mas as pessoas só conseguiam ouvir ‘nano’”, relembra Costita, rindo da situação. 

A sonoridade do sax, com o timbre do vibrafone do convidado Jota Moraes dobrando algumas frases, empresta um charme especial ao “Samba de Improviso” – tema de autoria de Aluízio. Ele também assina o romântico “Meu Bolero”: a melodia foi entregue a Clayber, que a interpreta com emoção, preparando a cena para um breve e elegante solo do pianista.

A gaita de Clayber também brilha em duas composições de sua autoria. “Forrozinho Pro Campeão” é a recriação de um tema que ele escreveu nos anos 1980, intitulado “Forrozinho”. Decidiu rebatizá-lo e escreveu um novo arranjo para homenagear o grande Hermeto Pascoal, que perdemos neste ano. “Fomos tremendamente amigos. Considero o Campeão meu irmão musical”, diz Clayber, lembrando que foram parceiros no Sambrasa Trio. Convidado a participar da gravação, o guitarrista Nathan Marques contribuiu para que essa homenagem seja mais especial ainda.  

“Choro-Jazz”, outra composição de Clayber, traz uma melodia tão cantável, que até parece pedir versos para uma letra. Entre inspirados solos do gaitista e do saxofonista, o vibrafone de Jota Moraes, com seu timbre metálico, adiciona um tempero pouco comum em um choro.  

“Valente” (composição de João Parahyba e Paulo Muniz Kannec) é um sofisticado samba-canção, que abre espaço para emotivos improvisos de Costita (sax tenor), Clayber (gaita) e Aluízio (piano), além do violão de Natan Marques.

Finalmente, “Valseta”, a valsa-jazz de Janja Gomes que fez parte do repertório do álbum “O Samba no Balanço do Jazz” (gravado por João Parahyba em 2011), reaparece aqui em novo arranjo. “A primeira gravação é linda e perfeita, mas esta é mais emotiva. Foi interpretada com muita emoção pelo quinteto”, compara o percussionista.  

Declarando se sentir um “observador aprendiz”, o baixista Giba Pinto faz uma análise de como seus colegas do quinteto se relacionam entre si e com a arte que cultivam. “Todos eles ainda tocam muito bem, são criativos e tem uma energia fora do comum quando tocam. Nos divertimos muito a cada vez que tocamos juntos, mas também vejo admiração e respeito mútuo entre eles. É impressionante a seriedade, o respeito que eles têm pela música”, comenta.

Depois de passar um dia no estúdio Mosh, em Cotia (SP), onde acompanhei as gravações e me diverti com as conversas e causos que ouvi, assim como pude constatar “in loco” o profissionalismo e a profunda dedicação desses músicos e mestres que admiro há décadas, só posso dizer que concordo integralmente com essas palavras de Giba. 

Também assino embaixo do que observa João Parahyba: “É importante que a gente se lembre desses instrumentistas, que não são tão valorizados como deveriam aqui no Brasil. Precisamos passar essas memórias para as novas gerações. É assim que caminha a humanidade”.  

Texto escrito a convite do Selo Sesc 

Bossa Nova: o movimento musical é reavaliado por Tárik de Souza em um livro essencial

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                                            João Gilberto - Foto de Tuca Vieira/Creative Commons  


O título pode sugerir algo um pouco diferente aos desavisados. “João Gilberto e a insurreição bossa nova: outros lados da história”, novo livro de Tárik de Souza, não é uma biografia do lendário cantor e compositor baiano, que surpreendeu os fãs da música popular brasileira, no final dos anos 1950, com uma inovadora batida ao violão e seu canto minimalista, quase falado. Ao mesclar a influência do jazz com o samba, a bossa nova inaugurou a era moderna da canção brasileira. 

Com esse livro que reavalia a história e os personagens da bossa nova, o conceituado crítico musical e jornalista carioca completa uma trilogia sobre o universo do samba, ao destacar aspectos desse espontâneo movimento musical que ainda não haviam sido devidamente abordados. Em 2003, Tárik lançou “Tem mais samba: das raízes à eletrônica” (Editora 34), um panorama do mais popular gênero musical brasileiro. Já em 2016, no livro “Sambalanço, a bossa que dança” (Kuarup), ele dissecou a vertente suingada da bossa nova, que contagiou os salões de dança durante as décadas de 1960 e 1970.

“Este livro é praticamente autobiográfico”, diz o autor, explicando que essa obra resultou de sua intensa relação pessoal e profissional com a bossa nova, desde as primeiras manifestações desse movimento no cenário musical brasileiro. “Eu vivi a bossa nova. Sempre acompanhei tudo, li tudo, fui a todos os shows. E quando me tornei jornalista, entrevistei o pessoal da bossa diversas vezes”, relembra o jornalista.

Lançada pela editora porto-alegrense L&PM, essa extensa e meticulosa obra de 444 páginas é, na definição de Tárik de Souza, “um livro bossa nova sobre a Bossa Nova”. No prefácio, intitulado “João e a Bossa instalaram o Brasil na vanguarda musical do planeta”, o autor avisa que “para abarcar esse movimento disruptivo de forma coerente com seu objeto de estudo, a abordagem do livro também teria que ser ‘bossa nova’ – fora da linearidade das historinhas com princípio, meio e fim”.

Eixo central da narrativa, o protagonista João Gilberto (1931-2019) está presente desde as primeiras páginas do livro. A começar por uma compilação de versos de canções que o homenageiam, assinadas por discípulos e colegas da música popular brasileira, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Carlos Lyra, João Bosco, Joyce Moreno, Jards Macalé e Tom Zé, entre outros.  

Já no capítulo final, intitulado “Um cantinho, um banquinho, um violão e a voz acoplada – o legado de um divisor de águas”, Tárik reúne reveladores depoimentos de diversos compositores e intérpretes de nossa música: do vanguardista paranaense Arrigo Barnabé à cantora bossa novista paraense Leila Pinheiro; do mestre baiano Dorival Caymmi à intérprete holandesa Josee Koning, um exemplo da internacionalização da bossa, entre muitos outros. De modo geral, esses artistas relatam como receberam a influência avassaladora de João e as inovações dessa tendência musical.

Para realizar sua análise da obra musical de João Gilberto, Tárik utilizou como bússola o material extraído de uma entrevista exclusiva que fez “com a lenda em pessoa”. Trata-se de uma conversa de quatro horas com João, em maio de 1971, quando o autor trabalhava na revista “Veja”, em São Paulo, na qual o compositor comentou a maneira como selecionava seu repertório e o tratamento que dava às canções. O experiente crítico musical também encara nesse livro a missão de analisar todos os discos gravados por João, faixa a faixa, ao longo de suas seis décadas de sua carreira.   

O capítulo “Inclusão, Diversidade e Pluralismo” rebate um preconceito que persegue a bossa nova há décadas. “Um dos mais rombudos clichês pespegados no invólucro mágico da bossa nova é o de um movimento elitista, privilégio restrito a uma rapaziada branca da zona sul carioca. Mentira deslavada, que este capítulo contesta”, afirma o autor. “O fator determinante tem a ver com a geopolítica da cidade, então mandatária capital federal do país e sua sede cultural, aí incluídas as principais emissoras de rádio e TV, casas de shows, imprensa e gravadoras”.

Dirigindo esse capítulo àqueles que chegaram a atribuir uma conotação racista à bossa nova, Tárik destaca com detalhes as importantes contribuições de diversos artistas negros, como a cantora carioca Alaíde Costa (que só recentemente tem recebido a consagração que já merecia nos anos 1960), o pianista e compositor carioca Johnny Alf (considerado um avançado precursor da bossa), o maestro e compositor pernambucano Moacir Santos, o cantor e compositor carioca Jorge Ben e ainda três instrumentistas e compositores paulistas: o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, o pianista e maestro Laércio de Freitas e o pianista e arranjador Dom Salvador, que vive em Nova York desde 1973, mas nos últimos anos vem sendo descoberto pelas gerações mais jovens.    

Só por denunciar preconceitos e rejeitar clichês estabelecidos há décadas na bibliografia que aborda a bossa nova, assim como pela iniciativa de reavaliar importantes contribuições a esse movimento de músicos que foram subestimadas no passado, o livro de Tárik de Souza já seria obrigatório para os fãs dessa vertente musical. É muito mais, é uma leitura essencial para qualquer apreciador da música popular brasileira. Como já definiu e cantou Caetano Veloso, "a bossa nova é foda".

Sesc Jazz: blues e rebeldia nos improvisos da pianista Amina Claudine Myers

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                            A pianista norte-americana Amina Claudine Myers, no Sesc Jazz 2025
 

Os aplausos calorosos da plateia do Sesc Pompeia – no show de encerramento do festival Sesc Jazz, no último domingo (2/10), em São Paulo – demonstraram mais uma vez que, quando se domina um idioma universal como o jazz, os músicos nem precisam utilizar palavras para se comunicarem com pessoas que mal os conheciam até aquele dia.

Entre aqueles que ainda não tinham alguma familiaridade com a música da norte-americana Amina Claudine Myers é possível que alguns tenham se decepcionado um pouco por causa de seu repertório. Com uma carreira musical de seis décadas, na qual se destacam parcerias com vários expoentes do jazz de vanguarda, essa pianista e compositora revelou que hoje está bem mais próxima da tradição do blues e do gospel do que das experimentações jazzísticas dos anos 1960 e 1970.

Mesmo que o início de sua vida profissional tenha se dado na metropolitana cidade de Chicago, onde se filiou à lendária AACM (Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos), Amina, nascida no interior do Arkansas, é uma musicista assumidamente religiosa. O fato de que, em suas apresentações, ela costuma se alternar entre um piano acústico e um órgão já é revelador.

A religiosidade de Amina jamais a impediu de expressar suas convicções pessoais ou políticas. Como em “African Blues”, sua composição mais conhecida, revisitada por ela logo na parte inicial do show no Sesc Jazz, quando tocou piano, acompanhada pelos parceiros Reggie Nicholson (bateria) e Jerome Harris (baixo e vocais).

Essa composição nasceu de um improviso, em 1980, durante as gravações do álbum que a pianista dedicou à cantora Bessie Smith. Como relatou mais tarde em entrevistas, nessa mencionada gravação Amina improvisou por cerca de 15 minutos com vocais sem palavras, como se estivesse possuída por um espírito, pensando no sofrimento dos negros da África do Sul em sua luta contra o injusto regime do apartheid. Pena que a norte-americana não tenha tomado a iniciativa de explicar esse contexto à plateia brasileira, que assim poderia captar totalmente o sentido de sua composição.  

Mesmo quando se sentou ao órgão, para interpretar a seção mais espiritual do repertório de seu show, ela não perdeu a chance de se manifestar como uma rebelde cidadã norte-americana. Ao improvisar os versos do gospel “Have Mercy Upon Us”, sem citar nomes, ela se referiu aos anunciados planos do atual governo dos Estados Unidos de reduzir programas e benefícios sociais, que têm gerado muitos protestos naquele país.

Mostrando que costuma definir o repertório de suas apresentações de acordo com o local e o momento presente, Amina também lembrou outro item costumeiro em seu repertório. Cantou um blues muito adequado para um dia nublado e chuvoso, em São Paulo, como o último domingo: “Standin’ in the Rain”, de Bessie Smith, a famosa Imperatriz do Blues.

Tomara que o Sesc repense a frequência do Sesc Jazz e volte a realizar esse festival anualmente, como fazem os eventos similares no Brasil e pelo mundo. Para os fãs desse gênero musical, como eu, não é fácil esperar dois anos por um festival – talvez o melhor do país nesta década – ao qual já nos acostumamos. 


Walmir Gil: a simplicidade de João Donato nas releituras do trompetista da Banda Mantiqueira

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                                       Walmir Gil lança álbum dedicado ao compositor João Donato 

Trompetista, arranjador e educador musical, Walmir Gil já teria garantido um lugar especial na história da música popular brasileira por ser um dos fundadores da cultuada Banda Mantiqueira, com a qual se apresenta há mais de três décadas. Essa original big band de São Paulo, criada em 1991, é motivo de orgulho para os paulistas e fãs de outros estados do país que apreciam música instrumental de alto quilate e jazz com sotaque brasileiro.

A Mantiqueira é a cereja do bolo, na longa folha de serviços prestados por Gil à música brasileira e ao jazz, em suas cinco décadas de carreira. Nos anos 1980, ao integrar o naipe de metais da afiada big band do 150 Night Club do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, ele acompanhou astros do jazz, como Anita O’Day, Benny Carter, Bobby Short e Paquito D’Rivera, entre outros.

Na década de 1990, Gil fez parte da suingada banda que tocava com Djavan em suas turnês, assim como acompanhou nos palcos outros grandes intérpretes e compositores da música brasileira, como Caetano Veloso, Gal Costa, Rosa Passos, João Bosco, César Camargo Mariano, Fafá de Belém, Simone e Milton Nascimento. Já neste século, além de gravar dois discos como solista (“Passaporte” e “Novas Histórias”) e de defender seu mestrado em música pela Unicamp, ele ministrou dezenas de workshops e oficinas de trompete pelo país adentro.

A afinidade de Gil com a música de João Donato remonta à década de 1970, quando já tocava um arranjo de “Lugar Comum”, em bailes na cidade de Santos, no litoral paulista. “As músicas que você gosta de tocar sempre serão tocadas com o coração”, diz ele, explicando que teve a ideia de homenagear Donato, em um disco com arranjos instrumentais de suas composições, não só por admirá-lo como músico e compositor, mas também pelo prazer que sente ao tocar essas músicas.

“Fui convidado a tocar com ele algumas vezes, mas eu sempre estava viajando. Perdi a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente”, lamenta Gil, que diz apreciar a música de Donato, especialmente, por sua simplicidade. “Ele era um cara muito simples, que não usava uma harmonia complexa, mas conseguia transmitir o que queria. Sempre gostei muito dele”.

Elogiando também o suingue de Donato, ao comentar as afinidades que tem com seu homenageado, Gil menciona o princípio minimalista “menos é mais”, que já foi adotado na arquitetura, no design e em diversos campos artísticos. “É como a música do Miles Davis”, compara o músico paulista, referindo-se ao genial trompetista e compositor norte-americano, outra de suas referências musicais.


O álbum: simplicidade com temperos afro-latinos

Para as gravações do álbum, Gil convocou seu Quinteto Afro Latin Jazz, que destaca outros três craques da cena instrumental e jazzística de São Paulo: o tecladista Bruno Cardozo, o baterista Cuca Teixeira e o baixista Carlinhos Noronha, que já tocam com Gil há mais de vinte anos. Mais recente no grupo, a percussionista argentina Caro Cohen traz muita energia e intimidade com o rico universo dos ritmos afro-cubanos e da música latina.

“A ideia é temperar a música do Donato com ritmos afros e latinos”, diz ele, sintetizando o conceito do álbum. Um saboroso exemplo dessa receita sonora é o arranjo de “Emoriô”. Essa faixa é introduzida pela sonoridade grave e etérea do clarone do convidado Nailor Proveta, outro antigo parceiro de Gil e fundador da Banda Mantiqueira. Na sequência, a clave cubana e a percussão de Caro Cohen criam uma atmosfera de polifonia tribal, em ritmo de rumba.

A doce “Lugar Comum” começa com sons de água corrente, como se o quinteto estivesse na beira de um rio. Caro, a percussionista, puxa um hipnótico ritmo de guaguancó e, ao fundo, Gil sopra a conhecida melodia de maneira suave, como se ela flutuasse. Na seção de solos, tanto o trompetista como Bruno Cardozo (piano elétrico) e Carlinhos Noronha (baixo) soam bem jazzísticos.

Outro clássico de Donato, a dançante Bananeira” é introduzida por um breve solo do baterista Cuca Teixeira. Nesta faixa, Gil recebe outro convidado especial: o trombonista François de Lima, também seu parceiro na Mantiqueira. “Nós tocamos juntos há 58 anos”, festeja o trompetista. E chama atenção para um detalhe bem-humorado de seu arranjo: a primeira parte da melodia surge com o ritmo alterado, “com um pé quebrado”, segundo ele, “como se escorregasse numa casca de banana”.

Composição de Donato que deu título a seu último disco, Bluchanga estimulou Gil a fazer um segundo convite a Proveta. “Essa música foi inspirada em ‘Night in Tunisia”, aquele clássico do bebop. Coloquei um ritmo de cha-cha-chá ali no meio e chamei o Proveta para tocar sax alto. Ele mandou muito bem no bebop. Proveta é um grande músico”, elogia o líder, dizendo que gosta de compartilhar seus melhores trabalhos com os amigos. “O François e o Proveta são brothers, meus irmãos. A gente morou junto durante 17 anos”, relembra. 

Um músico de jazz poderia até chamar a canção “Até Quem Sabe” de balada, mas no suave arranjo de Gil, que a interpreta com elegância e emoção contida, ela soa como um romântico bolero, especialmente pelo ritmo e pela sonoridade das congas de Caro. Já em “Minha Saudade”, o pianista Bruno Cardozo sugere na introdução o andamento lento de uma balada, mas o ritmo e o andamento logo mudam: o que se ouve é um suingado samba, sem exageros ou histrionismos.

Walmir Gil já tocava “Quem Diz Que Sabe”, no final dos anos 1970, quando integrava o naipe de metais da orquestra regida pelo maestro Branco, na casa noturna Ópera Cabaré, em São Paulo. Foi naquela época que ele se inspirou para criar o arranjo, em andamento mais rápido. “Optei por fazer assim, com uma influência latina, para o disco não ficar arrastado, com outra balada lenta”, justifica.

Uma das canções mais líricas de Donato, A Paz é a única faixa do álbum sem improvisos mais extensos. “A melodia fala por si só”, justifica Gil, que esboça já ao final da gravação uma breve citação de “A Child Is Born”, clássica balada do repertório jazzístico, assinada pelo trompetista Thad Jones. Em tempo de guerras e tantas mortes sem sentido, a mensagem pacifista de Gil também merece aplausos, nesta bela homenagem ao grande João Donato. Que sua música continue presente em nossos ouvidos e corações.

Texto escrito para o encarte do álbum "João Donato, presente!" a convite do trompetista Walmir Gil. Gravação já disponível nas plataformas musicais.



Sesc Jazz: trombonista Allan Abbadia cria encontro de John Coltrane e Moacir Santos

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                              O trombonista Allan Abbadia e seus parceiros, no festival Sesc Jazz 

O trombonista e arranjador paulistano Allan Abbadia teve uma ideia inusitada, quando ainda era estudante de música: criou uma espécie de diálogo musical entre dois cultuados discos lançados no mesmo ano de 1965. Um dos álbuns de jazz mais admirados mundialmente, “A Love Supreme” é uma emocionante suíte jazzística em quatro partes, composta e interpretada pelo saxofonista norte-americano John Coltrane (1926-1967), que soa como um testemunho de sua jornada espiritual, assim como uma declaração de sua gratidão a Deus.


“Coisas”, do compositor e saxofonista pernambucano Moacir Santos (1926-2006), que viveu a segunda metade de sua vida nos Estados Unidos, é considerado um marco na história da música instrumental brasileira. Primeiro disco assinado por Moacir, esse álbum reúne composições de sua autoria, recheadas de referências afro-brasileiras e elementos da música erudita. Chamadas de “Coisa” por ele, as dez peças são identificadas por números de 1 a 10.

O antigo projeto de Abbadia resultou agora em um excitante show ao ar livre, “Coisas Supremas”, apresentado na tarde do último domingo (26/10), no Sesc Pompeia, em meio à programação do festival Sesc Jazz, em São Paulo. Ao lado de talentosos músicos de nossa cena instrumental, como o pianista Fábio Leandro, o trompetista Allyson Bruno e o saxofonista Silas Prado, Abbadia exibiu seus arranjos de algumas “Coisas” de Moacir e de seções da suíte de Coltrane, que ganhou uma sonoridade mais brasileira. No naipe de sopros da banda também estava a flautista carioca Andrea Ernest Dias, especialista na obra de Moacir Santos.

Foi só ao final do show que Abbadia apresentou a obra que deflagrou esse corajoso projeto: uma suíte criada quase duas décadas atrás, que mistura trechos das composições de Coltrane e Moacir, extraídos dos dois citados álbuns. Tomara que algum selo fonográfico (quem sabe o próprio Selo Sesc) tome a iniciativa de transformar esse projeto tão inspirador em um disco. Já que esses grandes mestres da música do século 20 não chegaram a se conhecer pessoalmente, esse disco seria uma maneira de realizar esse incrível encontro musical, que alegraria muitos fãs e admiradores.


Sesc Jazz: improvisos de Kahil El’Zabar encantam a plateia do festival

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                                     O baterista norte-americano Kahil El'Zabar, no festival Sesc Jazz
 

Para muitos dos que foram ouvir o multi-instrumentista e compositor norte-americano Kahil El’Zabar (dia 26/10, no festival Sesc Jazz, realizado no Sesc Pompeia e em outras unidades dessa entidade paulista) é provável que essa apresentação tenha sido uma surpresa ou até mesmo uma sedutora revelação musical.

Com uma carreira ligada ao jazz de vanguarda, que se estende por mais de cinco décadas, esse baterista e percussionista de Chicago (EUA) já cultivou parcerias com renomados instrumentistas dessa vertente jazzística, como Archie Shepp, David Murray, Pharoah Sanders e Billy Bang, entre outros.

Quem ainda não o conhecia nos palcos, certamente se surpreendeu ao ouvir sua inusitada releitura da clássica canção “Summertime” (de George Gershwin). Dedilhando uma kalimba (instrumento de origem africana, também conhecido como “piano de polegar”), ele desenvolveu uma extensa e insólita improvisação.

Em vez de entoar os conhecidos versos de DuBose Heyward, como faria qualquer cantor, El’Zabar combina seu talento para os improvisos instrumentais com a expressividade típica de um ator: mistura vocalismos com murmúrios, gemidos e dramáticas expressões faciais. Aliás, seus encantadores solos de bateria também merecem ser vistos, não apenas ouvidos, justamente por causa de sua expressão corporal e senso de humor.  

Bem acompanhado por Alex Harding (sax barítono), Corey Wilkes (trompete) e Ishmael Ali (violoncelo), integrantes de seu Ethnic Heritage Ensemble, El’Zabar faz uma reveladora declaração, em um documentário de curta duração que comemora o cinquentenário desse conjunto musical (disponível em vídeo no YouTube):

“Nunca busquei a perfeição, eu busco a expressão. Não ter medo de errar abre muitas possibilidades de novas descobertas”, afirma o músico de Chicago, que a exemplo de vários de seus parceiros musicais também é ligado à lendária Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos (AACM), fundada nessa cidade, em 1965. Se você ainda não o viu num palco, não perca a próxima oportunidade. É um espetáculo.

  

Sesc Jazz: encontro musical de Dom Salvador com Amaro Freitas foi criativo e inspirador

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                           Amaro Freitas abraça Dom Salvador, em show do festival Sesc Jazz  
 

Não é difícil explicar por que o show do cultuado pianista e compositor paulista Dom Salvador, com participação muito especial do pernambucano Amaro Freitas, também um brilhante pianista e compositor, logo despontou como a atração mais procurada da sexta edição do festival Sesc Jazz, em São Paulo. Os mais de 2 mil ingressos colocados à venda para as três noites desse show se esgotaram em pouco mais de 24 horas.     

Grande expoente da primeira geração do samba-jazz, hoje aos 87 anos de idade, Salvador só se apresenta de vez em quando no Brasil. Vive desde 1973 em Nova York, onde toca piano  regularmente no sofisticado River Café, lidera seu sexteto em festivais e tem desfrutado de prestígio crescente no meio jazzístico.

Aos 34 anos, Freitas é considerado a maior revelação do jazz brasileiro na última década. Em pouco tempo conseguiu ingressar no circuito dos clubes e festivais de jazz da Europa e dos Estados Unidos. Suas turnês pelo mundo têm crescido ano a ano. Quem não gostaria de presenciar um inédito show em parceria de músicos de tão alto quilate?  

Salvador abriu a noite de ontem (15/10), no teatro do Sesc Pompeia, tocando algumas de suas composições mais conhecidas, como “Tematrio”, “Gafieira” e “Meu Fraco É Café Forte”, que já se tornaram clássicos do samba-jazz. A seu lado estavam a saxofonista e flautista Laura Dryer, o baterista Graciliano Zambonin e o contrabaixista Gili Lopes, talentosos parceiros que costumam integrar seus projetos musicais. Depois de alguns números, o quarteto virou sexteto, com as participações de dois craques da cena musical carioca: o percussionista Armando Marçal e o guitarrista Zé Carlos, que tocava com Salvador na lendária banda Abolição, no início dos anos 1970.

Mais falante, Amaro Freitas homenageou Salvador ao declarar que nem teria existido como artista se a música do compositor e pianista paulista não o tivesse antecedido. Estendeu esse tributo a outros grandes intérpretes e compositores negros, que também são referências suas no campo da música popular e instrumental brasileira, citando os nomes de Naná Vasconcelos, Johnny Alf, Alaíde Costa, Elza Soares, Tania Maria, Laercio de Freitas e Milton Nascimento. A emoção de Salvador era evidente, ainda mais quando Freitas se levantou do piano para abraça-lo.

Os improvisos se tornaram mais intensos e abertos à experimentação, na parte do show que destacou composições de Freitas, como a percussiva “Viva Naná” e a vibrante “Encantados”, marcada por sons de diversas flautas. Não faltou também uma reverência à tradição do choro, com os pianistas interpretando em duo o delicado “Choro Lento”, composição de Salvador. 

Criativo e inspirador, o inédito encontro de Dom Salvador e Amaro Freitas encantou os ouvidos e sensibilidades daqueles que tiveram o privilégio de estar na plateia do Sesc Pompeia. Tomara que esse exemplo incentive outros grandes músicos brasileiros a experimentarem novos encontros e parcerias. O diálogo entre as gerações pode ser muito enriquecedor, especialmente quando envolve empatia e admiração mútua. 


                                Amaro Freitas (acima) e Dom Salvador (abaixo, de costas)

 

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