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Choraço 2023: festival do Sesc homenageia Zé Barbeiro, mestre do choro paulista

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O violonista Zé Barbeiro (no centro do palco), seus convidados e seu grupo de choro 
 

O compositor e violonista Zé Barbeiro, mestre do choro paulista, comemorou seus 50 anos de música, ontem (21/4), no teatro do Sesc 24 de Maio, em São Paulo. O show fez parte da extensa programação do Choraço, projeto que desde o ano passado já merecia ser reconhecido como um festival dedicado ao choro, o gênero mais tradicional da música instrumental brasileira.

Além dos 16 shows da edição deste ano, que ocupa três semanas da programação dessa unidade do Sesc paulista, o Choraço também oferece masterclasses ministradas por ótimos instrumentistas e um bate-papo sobre a História do Choro com o músico e pesquisador Henrique Cazes, especialista nesse gênero (dia 27/4, às 14h).

Essas são atividades típicas dos grandes festivais de música, mas o Choraço também merece esse status pela alta qualidade dos solistas e grupos instrumentais de São Paulo, Rio e Bahia, que compõem o elenco deste ano.  

Zé Barbeiro iniciou a carreira musical tocando seu violão de sete cordas em rodas de samba e choro, mas suas polcas e valsas, assim como os maxixes e sambas de sua autoria, não soam tradicionais. Em choros com tempero contemporâneo, ele expande as formas e bagunça as convenções desse gênero com um senso de humor irresistível.  

Só mesmo um gozador com jeitão de mal humorado, como ele, para batizar composições com títulos como “Clarinetista Enchendo o Sax”, “Dias Melhores Não Virão” ou o imbatível “Mais Quebrado que Macarrão em Cesta Básica”.

O Choraço 2023 prossegue até dia 7 de maio. Consulte a programação e adquira ingressos no site do Sesc SP:
https://www.sescsp.org.br/sesc-24-de-maio-celebra-o-mes.../

Dorival Caymmi: compilação mostra que o compositor é um de seus grandes intérpretes

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Tom Jobim referia-se a ele como “gênio universal”. Na canção-retrato que dedicou a esse mestre da música popular brasileira, Gilberto Gil o chamou de “buda nagô”. Já Carlos Drummond de Andrade destacou, em crônica publicada em 1984, a perenidade da obra desse compositor tão original: “Não há dia seguinte para o cancioneiro Caymmi. A flor que o vento joga no colo da morena de Itapoã não murchou ainda. Murchará um dia? Não creio.”

Cultor da espontaneidade e da síntese, Dorival Caymmi compôs pouco mais de cem canções, em seus 94 anos de vida. Algumas dessas joias musicais só foram concluídas por ele depois de passar anos à espera de uma inspiração definitiva – como o samba-canção “João Valentão”, que levou quase uma década para terminar. Sinal de preguiça no entender de detratores insensíveis, esse fato só revela o grau de perfeccionismo praticado por esse ourives da canção.

Para comemorar o centenário do influente baiano nascido em Salvador, o produtor Carlos Alberto Sion e o músico Henrique Cazes criaram a compilação “Dorival Caymmi 100 Anos”, que reúne em dois CDs um total de 28 faixas. Em meio a intérpretes prestigiosos, como Clara Nunes, Dick Farney ou Elza Soares, além dos talentos dos herdeiros Nana, Dori e Danilo, o próprio Caymmi – talvez o melhor intérprete de suas canções – surge como cantor em 17 gravações.

As faixas não estão organizadas por ordem cronológica, mas a seleção começa justamente com a mais antiga. Gravado em 1939, por Carmen Miranda, o requebrado samba “O Que É Que a Baiana Tem” serviu de veículo para apresentar ao público o então jovem compositor (na época com 25 anos), que dividiu os vocais com a cantora, discretamente, nesse histórico registro.

Algumas faixas depois, na gravação de “Saudade da Bahia” (em 1967), já surge o maduro Dorival, com sua voz grave e dicção perfeita, acompanhado pelas garotas do Quarteto em Cy e uma pequena orquestra. Enfatizando a faceta de intérprete de Caymmi, a compilação inclui também suas versões de dois sucessos de Ary Barroso: o desiludido samba-canção “Risque” e o hoje clássico “Na Baixa do Sapateiro”, ambos gravados em 1958.

Naturalmente, não faltam exemplares das canções praieiras de Caymmi, que o projetaram como um grande compositor de essência popular. “O Mar”, “Promessa de Pescador”, “O Vento (Vamos Chamar o Vento)”, “É Doce Morrer no Mar” e “O Bem do Mar” são ouvidas na voz de seu autor, em gravações originais lançadas no final da década de 1950.

Seus filhos o homenageiam em cinco faixas. Nana imprime emoção ao samba-canção “João Valentão”. Dori empresta seu vozeirão potente à trágica “Sargaço Mar”. Danilo divide com o sambista João Nogueira os vocais em “Fiz Uma Viagem”, um dançante ijexá. Já em um show realizado em 1987, na companhia do pai e dos irmãos, Nana relembra o samba- canção “Só Louco”; finalmente, Danilo e Dori se divertem com a sestrosa receita de “Vatapá”.

Há ainda gravações menos conhecidas, como a versão instrumental do samba-canção “Dora”, com Ary Barroso dedilhando o piano, extraída do inusitado álbum “Ary Caymmi / Dorival Barroso: Um Interpreta o Outro” (1958). Ou a hipnótica gravação de “Cala Boca, Menino”, com sons eletrificados, que João Donato incluiu em seu cultuado álbum “Quem É Quem” (1973).

Tomara que outros projetos voltem a lembrar, neste e nos próximos anos, como Caymmi é uma fonte essencial na cultura musical brasileira.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 26/4/2014)


Choro: três lançamentos que vão agradar os fãs desse gênero musical

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Gênero musical tipicamente brasileiro, o choro já enfrentou períodos de ostracismo em sua trajetória de um século e meio, mas segue ativo e criativo, contando hoje com uma nova safra de autores. É o que mostra o CD “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo” (lançamento Pôr do Som), com 16 composições inéditas de talentosos chorões de diferentes gerações.

Produzido por Yves Finzetto e Roberta Valente, percussionistas presentes em várias faixas, este álbum expõe em seu repertório a diversidade de estilos e influências que caracteriza o gênero: do gingado samba-choro “Lá Pelas 9” (de João Poleto) ao acelerado “Não Me Siga que Eu Não Sou Novela” (Zé Barbeiro); do seresteiro “Tocando pra Mariza” (Arnaldinho Silva) ao brejeiro “Do Coreto para Roberta” (Nailor Proveta). 


Esse elenco de compositores inclui outros brilhantes expoentes do choro de São Paulo, como os bandolinistas Danilo Brito e Izaías de Almeida, o acordeonista Toninho Ferragutti e o pianista Laércio de Freitas. Pena que eles não foram lembrados em “Nas Rodas do Choro”, documentário de 2009, lançado agora em DVD (pela gravadora Biscoito Fino), que focaliza apenas chorões do Rio de Janeiro e de Recife.  

O fato não desmerece o filme de Milena Sá, que não pretende traçar um panorama do gênero, mas sim mostrar como as rodas de choro têm uma função pedagógica. Por meio de depoimentos e números musicais de conhecidos chorões cariocas, como a cavaquinhista Luciana Rabello, o violonista Mauricio Carrilho ou o bandolinista Joel Nascimento, entre outros, esse documentário revela que as rodas de choro exercitam e divertem os participantes, assim como educam os músicos mais jovens. 

 
Para os apreciadores desse gênero, a compilação “Choro” (lançamento EMI) também é um lançamento precioso. Com pesquisa de Carlos Alberto Sion e texto do arranjador Henrique Cazes, esse CD duplo resgata gravações das décadas de 1950, 60 e 70, com virtuoses chorões, como o cavaquinhista Waldir Azevedo, o bandolinista Luperce Miranda ou o maestro Radamés Gnattali.
 

Faixas como “Bate Papo” (de Gnattali), em arranjo que destaca o saxofonista Zé Bodega, ou “Xeque-Mate” (do maestro Gaya), que traz Joel Nascimento como solista, surpreendem pela atualidade. Cazes não exagera ao dizer que esses arranjos poderiam ter sido escritos na semana passada. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/9/2011)

 

Relançamentos: bons títulos do selo Kuarup voltam ao mercado

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Nas décadas de 80 e 90, encontrar o selo Kuarup, na capa de um disco de vinil ou de um CD, praticamente garantia que se tratava de música brasileira de boa qualidade. Criada em 1977, no Rio de Janeiro, essa gravadora independente formou um catálogo com mais de 200 títulos, inicialmente centrado em obras de Villa-Lobos e choros. Com o tempo, seu mentor e produtor Mario de Aratanha decidiu investir também na “cultura brasileira de raiz”, gravando música caipira, sambas e música nordestina.

Desativada em 2009, a Kuarup foi adquirida pelos empresários Arthur Fitzgibbon e Alcides Ferreira, que acertaram uma parceria com a Sony Music para reeditar títulos do acervo. O primeiro pacote destaca nove CDs que sintetizam bem a diversidade musical desse catálogo. Inclui ainda o álbum de estréia da cantora Luciana Pires, primeiro lançamento inédito do selo, nesta nova fase.

Uma das jóias do pacote é o CD “Noites Cariocas - Ao Vivo no Municipal” (1988), que reúne uma constelação de astros do choro, como Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola e Chiquinho do Acordeom, para interpretar clássicos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Radamés Gnattali.

Foi tamanha a repercussão desse encontro que, 15 anos depois, o cavaquinhista Henrique Cazes decidiu revivê-lo com outras feras do choro, em “Noites Cariocas - A Alegria do Improviso” (2003). Cazes também co-assina a produção de “Sempre Jacob” (1996), álbum no qual a obra de Jacob do Bandolim é interpretada por Joel Nascimento, Nó em Pingo D’Água e Déo Rian.

Campeão de vendas da Kuarup, “Ao Vivo em Tatuí” (1992) registra o encontro do compositor e cantor Renato Teixeira com a singela dupla vocal Pena Branca e Xavantinho. No repertório, sucessos do universo caipira, como “Amanheceu, Peguei a Viola” e “Romaria”. Teixeira também protagoniza outros CDs do pacote: “Ao Vivo no Rio - 30 Anos de Romaria” (1998) e “Renato Teixeira e Rolando Boldrin” (2004). Mais recente também é “No Balanço do Balaio” (1999), do cantor e compositor mineiro Vander Lee. 


Finalmente, também não poderia faltar nesse pacote de relançamentos a obra magistral de Villa-Lobos, representado pela primeira gravação integral de seus choros (“Os Choros de Câmara”, de 1977), com diversos intérpretes, e “A Floresta do Amazonas” (1988), com Wagner Tiso, João Carlos Assis Brasil e Ney Matogrosso. Tomara que outras preciosidades da Kuarup voltem logo ao mercado.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 24/6/2011)



"Carmen Miranda Hoje": Henrique Cazes atualiza arranjos de sucessos da cantora

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Alguns vão tachar de heresia este CD com 12 sucessos de Carmen Miranda, lançados originalmente na década de 1930. Com a intenção de acrescentar detalhes aos arranjos dessas gravações, que a precária tecnologia da época era incapaz de captar, o produtor e músico Henrique Cazes tomou a liberdade de mixar aos vocais da cantora uma nova base de violões e cavaquinho, além de sopros e percussão.

Pode-se discutir o direito de alguém interferir na obra gravada de outro artista. Porém, quem se der ao trabalho de ouvir o CD "Carmen Miranda Hoje" (lançamento Biscoito Fino) antes de criticá-lo, tem que admitir que as interpretações de Carmen, em faixas como “Adeus Batucada”, “Uva de Caminhão” ou “E o Mundo Não se Acabou”, entre outras, soam realçadas graças à meticulosa intervenção de Cazes, um sério e apaixonado estudioso da música brasileira daquela época.

Boa sacada também a de incluir no disco, em vídeo, depoimentos de Ruy Castro, biógrafo da cantora, e do próprio Cazes, que justifica sua iniciativa com reveladores exemplos sonoros.

(resenha publicada no "Guia da Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/7/2010)

Música instrumental brasileira: site Músicos do Brasil constrói enciclopédia do gênero

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Mesmo sendo considerada uma das mais criativas e diversificadas do mundo, comparável apenas à música cubana ou ao jazz norte-americano, a música instrumental brasileira não é incentivada como merece pela indústria do disco, que nas últimas décadas optou por investir apenas em vertentes de consumo fácil, até descartáveis.

“Ainda temos que aguentar, de vez em quando, um desses poderosos chefões de gravadora dizer que a culpa é da falta de criatividade dos músicos brasileiros”, rebate a pesquisadora Maria Luiza Kfouri, que criou e desenvolveu com Fernando Ximenes o site Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental (www.musicosdobrasil.com.br), na rede desde fevereiro.

O perfil enciclopédico não impediu que o projeto desse site, patrocinado pela Petrobrás, fosse desde o início pensado para a internet. “Sabíamos que um projeto desta magnitude não estaria ‘pronto’ nunca e, por isso, a internet seria seu meio ideal, para que possamos acrescentar aquilo que vai, sempre, estar faltando”, diz a pesquisadora.

O site já reúne cerca de 700 verbetes com muitos dos principais instrumentistas do país, que traçaram nos palcos e estúdios de gravação a história desta corrente musical: do flautista Pixinguinha (1897-1973; no centro da foto acima) ou do violonista Garoto (1915-1955), chegando a talentos da cena atual, como o bandolinista Hamilton de Holanda ou o pianista André Mehmari.

Recenseamento
Para iniciar a pesquisa, em meados de 2006, Kfouri e Ximenes criaram uma espécie de recenseamento, um minucioso questionário, que foi enviado por e-mail a centenas de instrumentistas. Além de levantar o currículo de cada um, a pesquisa também colheu dados sobre a formação e o “pensamento” desses músicos, mapeando assim seus mestres, influências e parceiros.

Os critérios para definir quais músicos devem estar representados nos verbetes do site resumem-se a apenas um: só entram os que gravaram ou participaram de gravações de pelo menos um disco exclusivamente instrumental.

“Não há outro critério, nem de estilo, nem de gênero”, explica Kfouri. “Tivemos que criar essa regra, um tanto draconiana, pois se não teríamos que ter outras vidas para poder cobrir todos os instrumentistas brasileiros. São milhares aqueles que acompanham cantores e que nunca participaram de uma gravação instrumental”.

As respostas vieram em grande volume, mas músicos pouco afeitos ao e-mail, como o flautista Altamiro Carrilho ou o pianista Amilton Godoy, pediram para gravar seus depoimentos. Já o pianista Francis Hime, curiosamente, preferiu responder o questionário à mão e o reenviou por sedex. “Ainda não conseguimos chegar a alguns músicos, como João Donato, Paulinho da Viola e Edu Lobo, mas estamos insistindo”, conta Kfouri.

Driblando dificuldades
Dificuldades não faltam num projeto tão abrangente. No caso de instrumentistas já mortos, por exemplo, a pesquisa fica mais restrita a consultas a familiares, a poucas obras de referência ou a sites que nem sempre trazem dados corretos.

Mesmo assim, Kfouri observa que a situação na área da pesquisa cultural, no Brasil, tem melhorado. “A biblioteca musical cresceu consideravelmente e a internet tem sido uma ferramenta e tanto, embora muitas vezes ainda se tenha que tomar muito cuidado com as informações que se encontram em determinados sites”.

Além dos verbetes, o site oferece também dissertações universitárias e ensaios sobre instrumentos, estilos, grupos musicais ou discos mais significativos, escritos por especialistas. Entre os músicos que assinam ensaios estão Henrique Cazes (“O Cavaquinho”), Maurício Carrilho (“O Violão de Sete Cordas”) e Benjamim Taubkin (“Piano Brasileiro”).

(Reportagem publicada na "Folha de S. Paulo", em 3/03/2009)


 

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