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Sesc Jazz: a poesia engajada e a música negra do saxofonista Archie Shepp

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                                                       Archie Shepp, cantando no festival Sesc Jazz, em São Paulo 

Vanguardista, radical, revolucionário. Adjetivos como esses são utilizados com frequência ao se traçar o perfil de Archie Shepp – um dos músicos mais ativos e intelectualizados da geração que, na década de 1960, cultivou e difundiu a rebeldia sonora e política do free jazz, ao lado de Cecil Taylor, John Tchicai e Don Cherry, entre outros. Acrescente-se também o fato de Shepp ter sido discípulo e parceiro eventual do messiânico John Coltrane (1926-1967), o jazzista mais cultuado e imitado nas últimas décadas. Pronto, o mito está completo.

Graças a essa imagem divulgada há décadas, qualquer um se surpreende ao ver e ouvir pela primeira vez esse músico, poeta e dramaturgo norte-americano. Na noite de encerramento do festival Sesc Jazz (2/9), na plateia do teatro do Sesc Pompeia, alguns certamente não imaginavam que poderiam ouvir o radical saxofonista tocar uma canção tão romântica como “The Stars Are in Your Eyes” (de sua autoria), quase em ritmo de bossa nova, incluindo uma breve citação de “Nature Boy” (de Eden Ahbez), antigo sucesso do cantor Nat King Cole (1919-1965).

Os mais familiarizados com a obra e a trajetória musical de Shepp sabem que seu ativismo político – na luta pelos direitos civis dos negros ou contra a desigualdade social, entre outras causas – não o impediram de adotar, já na década de 1970, um repertório bem amplo, que inclui diversas vertentes da música negra norte-americana. Para isso contribuiu sua carreira paralela de professor de Estudos Afro-Americanos, em universidades de Massachusetts e Buffalo. Um exemplo: “Goin’ Home” (gravado em 1977) e “Trouble in Mind” (1980)”, álbuns que Shepp dedicou ao gospel, ao blues e ao rhythm & blues, em inspirados duos com o pianista Horace Parlan (1931-2017), são preciosidades musicais que merecem ser descobertas pelos ouvintes de hoje.

Muito bem acompanhado pela percussão de Kahil El’Zabar e seu Ritual Trio, que inclui o baixista Jamaladeen Tacuma e o pianista Henri Morisset, Shepp ofereceu à plateia, praticamente, uma aula sobre a diversidade da música afro-americana. Soprando seu roufenho sax tenor, abriu a noite com o bebop “Hope #2”, que compôs para homenagear o pianista Elmo Hope (1923-1967). Tocou “Don’t Get Around Much Anymore” (de Duke Ellington), com todo o swing que esse clássico da era das big bands pede. Mais inusitada foi a lenta versão de “Summertime” (de George Gershwin), ao sax soprano, com El’Zabar dedilhando uma kalimba (pequeno teclado de origem africana para ser tocado com os polegares).

Já o anunciado tributo a Coltrane não chegou a entusiasmar, talvez porque algumas das músicas escolhidas não são tão representativas de sua obra e ainda foram espalhadas ao longo do show, em vez de formarem um bloco. A serena balada “Naima” ganhou uma versão pouco feliz, com Shepp borrando a melodia, demasiadamente, ao sax tenor. A releitura da romântica “I Want to Talk About You” (de Billy Eckstine) seguiu pelo mesmo caminho, mas foi salva pelo lírico solo de Morisset, ao piano, assim como pelos vocais de Shepp, com seu vozeirão de barítono. Coltrane foi lembrado também por “Cousin Mary”, um animado blues de sua autoria, que Shepp chegou a gravar com El’Zabar e seu Ritual Trio, no álbum “Conversations” (1999).

Entre altos e baixos, o clímax do show veio com “Revolution”, dramática composição baseada em um poema que Shepp dedicou à sua avó, Mama Rose, que viveu na época da escravidão. Acompanhado pelo cajón (instrumento de percussão que consiste em uma caixa de madeira, usado originalmente pelos escravos africanos, no Peru) de El’Zabar, com um ritmo tribal, Shepp expôs o tema com o sax soprano. E emocionou a plateia, ao vocalizar os versos do poema de maneira bem teatral, algo entre um canto falado e um rap. Em nenhum outro momento dessa noite, o músico radical, o poeta engajado e o ativista político estiveram tão próximos.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

John Coltrane: álbum inédito do saxofonista ainda soa perturbador 55 anos depois

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                                                    O saxofonista e compositor John Coltrane / Foto de Bob Thiele

Para quem não está familiarizado com a obra de John Coltrane (1926-1967), a revelação de 14 gravações inéditas desse saxofonista e compositor, reunidas no álbum “Both Directions at Once: The Lost Album” (lançamento Impulse!, no mercado internacional), poderia ser comparada à descoberta de uma coleção de pinturas de Pablo Picasso. Em outras palavras, um pequeno tesouro para os apreciadores do jazz. 

Trata-se de material inédito do músico de jazz mais cultuado e imitado nas últimas cinco décadas, à frente de um dos quartetos mais perfeitos e inovadores na história desse gênero musical. Ao lado do sax tenor e do sax soprano de Coltrane, também brilham o piano inventivo de McCoy Tyner, a explosiva bateria de Elvin Jones e o contrabaixo propulsor de Jimmy Garrison.

Mesmo que essas gravações soem aquém de consagradas obras-primas de Coltrane, como as que integram seus álbuns “A Love Supreme” (1965), “Giant Steps” (1960) ou “My Favorite Things” (1961), isso não impede que o impacto seja grande, ainda mais no caso de ouvintes que desconhecem sua música.

Entre as duas versões lançadas do álbum (uma básica, com sete faixas, e outra ampliada com sete “takes” alternativos) a segunda oferece aos estudiosos, ou mesmo aos fãs mais curiosos, a possibilidade de se acompanhar “por dentro” um pouco do processo de criação de Coltrane e seus parceiros musicais.

Cada uma das quatro novas versões de “Impressions” (composição própria que Coltrane gravou em diversas formações, tanto em estúdio como ao vivo, durante a década de 1960) tem uma personalidade diferente, seja no andamento adotado pelos músicos, seja na maneira de improvisar.

Não à toa, o take 4 de “Impressions” transmite uma sensação de urgência, uma busca de maior liberdade rítmica e harmônica, que identifica essa fase musical do quarteto de Coltrane. Dois anos mais tarde, ao gravar o vanguardista “Ascension”, o saxofonista ingressou de forma definitiva no universo arrítmico e atonal do chamado free jazz.

O título “Both Directions at Once” (ambas as direções de uma vez) remete ao dilema musical que Coltrane enfrentava na época: entre o jazz mais convencional que praticara no passado e a atração vertiginosa pelo jazz de vanguarda, que parecia contagiá-lo mais e mais.

Curiosamente, quando as 14 faixas desse álbum foram gravadas, em 6 de março de 1963, Coltrane ainda tentava responder de alguma maneira à expectativa de Bob Thiele, produtor do selo Impulse!, no sentido de repetirem o sucesso de seu álbum “My Favorite Things” (1961). Logo no dia seguinte, ele e o quarteto entrariam no mesmo estúdio para gravar um álbum ao lado do sofisticado cantor Johnny Hartman, com um repertório de românticos clássicos da canção norte-americana, bem adequado para atingir um público mais amplo.

É possível, portanto, que as duas versões instrumentais de “Vilia” (singela canção do húngaro Franz Lehár, extraída da opereta “The Merry Widow”), reveladas agora, tenham servido de aquecimento para as gravações com Hartman. No segundo take, o lirismo da melodia ganha mais realce graças à sonoridade branda do sax soprano.

Para os ouvidos de quem já se acostumou à redundância e à falta de substância que marcam grande parte da produção musical de hoje, faixas como a encantatória “Untitled Original 11383” (composição própria que não chegou a ser batizada pelo saxofonista) ou a angustiada versão instrumental de “Nature Boy” (popular canção de Eden Ahbez) podem ser um tanto difíceis de encarar. 
Meio século após a precoce morte de Coltrane, a música desse messiânico jazzista soa ainda mais perturbadora.

(Resenha publicada no caderno "Ilustrada" da "Folha de S. Paulo", edição de 2/07/2018)




Temporada de jazz: festivais ampliam experiência das plateias na era dos smartphones

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                                            O guitarrista Lucky Peterson, no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 

A chegada do verão, no hemisfério norte, não traz apenas sol, calor e dias mais longos. Para muitos apreciadores de música, é neste período do ano que começa a temporada dos grandes festivais de jazz. Embora mais concentrados na América do Norte e na Europa, hoje esses eventos são realizados nos mais diversos cantos do planeta.

Como tem feito nas últimas décadas, a “Down Beat” (publicação especializada em jazz, blues e gêneros musicais afins) destacou em sua edição de maio um roteiro intitulado “204 grandes festivais de verão”. O fato de o número de eventos incluídos nesse levantamento crescer a cada ano é sintomático.

Megafestivais de jazz, como os de Copenhagen (Dinamarca), Vienne (França), Montreal (Canadá) ou Nova Orleans (EUA), realizados ao ar livre, costumam atrair centenas de milhares de frequentadores. A estratégia desses eventos, que chegam a durar até duas semanas, é oferecer centenas de shows simultâneos em diversos palcos.

Para atrair tamanhas multidões, o cardápio desses festivais tornou-se diversificado, incluindo soul, R&B, funk, hip-hop, reggae, rock, pop, música africana ou caribenha, entre outras vertentes musicais. Há quem critique essa aparente diluição do foco musical, mas é fato que, ao longo de mais de um século de evolução, o jazz tem absorvido influências de todos esses gêneros. Essa hibridez faz parte de sua essência.

Na década de 1990, festivais mais puristas, como o italiano Umbria Jazz, ainda resistiam a se abrir. O diretor artístico Carlo Pagnota orgulhava-se de programar somente jazz, com raras exceções feitas a um ou outro artista do universo pop, como Sting ou Caetano Veloso. Isso foi mudando e, na edição deste ano, o jazz de Joshua Redman e Brad Mehldau vai disputar as atenções dos frequentadores com o pop de David Byrne e a música eletrônica da banda Massive Attack.

Sting e Byrne também participaram há pouco do Jazz & Heritage Festival, em Nova Orleans. Realizado há 49 anos, esse tradicional megaevento, que prioriza vertentes da música afro-americana em seus 12 palcos, foi bastante criticado quando começou a incluir medalhões do rock e do pop, mesmo reservando palcos exclusivos ao jazz moderno, ao jazz tradicional e ao blues.

Engana-se quem pensa que os festivais de jazz derivam de lendários eventos de rock, como o Monterey Pop (1967) ou Woodstock (1969). Criado em 1954 pelo pianista e produtor George Wein, o pioneiro Newport Jazz Festival teve como sede a cidade de Rhode Island, balneário norte-americano onde é realizado até hoje.

No Brasil, apreciadores do jazz tiveram que esperar até 1978 para desfrutar seu primeiro festival. Uma parceria com o evento suíço Montreux Jazz permitiu a realização do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, que ainda realizou uma segunda edição em 1980. A transmissão ao vivo desses shows para outras regiões do país, por meio da TV Cultura, contribuiu para a formação de novas plateias para o gênero.

Nas décadas de 1980 e 1990, vieram o Free Jazz Festival e o Heineken Concerts, concentrados, basicamente, no eixo Rio-São Paulo. Já neste século, dezenas de eventos de jazz e blues se estabeleceram em outras regiões do país, formando um circuito que abrange quase todo o ano. O mais antigo é o cearense Festival Jazz & Blues, realizado há 19 anos durante o carnaval, nas cidades de Guaramiranga e Fortaleza.

Alguns desses eventos, como os fluminenses Rio das Ostras Jazz & Blues (cuja 15ª edição termina neste domingo, 17/6) e o Bourbon Festival Paraty (que realizou a 10ª edição em maio), têm relação estreita com as prefeituras dessas cidades. São festivais idealizados como meios para incrementar o turismo nessas regiões, além de estimular a formação cultural dos moradores.

Já o Savassi Festival, que desde 2003 é realizado nas ruas e em teatros de Belo Horizonte (MG), tem um perfil diferente. Em vez de programar jazzistas de renome, o produtor Bruno Golgher optou por estabelecer uma relação direta com os músicos da cena instrumental mineira. Ele incentiva a composição de obras pelos músicos locais e também parcerias com estrangeiros.

Não foi à toa que o número de festivais de jazz cresceu muito desde o início deste século, tanto no exterior como no Brasil, e ainda pode aumentar mais. Esses eventos redefiniram a experiência que as plateias tinham nos clubes ou em teatros: a descontração dos concertos ao ar livre e a possibilidade de se assistir a diversas atrações musicais em um único dia pesam a favor dos festivais.

No caso do jazz, há um diferencial a mais: ver e ouvir um músico, cantor ou instrumentista, em carne e osso, usar o improviso como ferramenta de criação artística. Nesta época em que passamos tantas horas diárias olhando para telinhas de smartphones e tablets, essa é uma experiência especial que nos faz sentir mais vivos.

(Texto publicado no caderno Ilustríssima, da "Folha de S. Paulo", em 17/06/2018)


New Orleans Jazz Fest: Terrace Martin e Archie Shepp dialogam com o passado e o presente

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                                                                  O saxofonista Archie Shepp, no New Orleans Jazz Fest 

Entre as mais de 70 atrações de ontem no New Orleans Jazz & Heritage Festival, dois shows programados para a tenda dedicada ao jazz moderno chamaram atenção por representarem, de certo modo, um diálogo entre o presente e o passado desse centenário gênero musical.

Primeiro foi o show de Terrace Martin, 39, saxofonista, rapper e produtor de Los Angeles, conhecido por suas parcerias com os rappers Kendrick Lamar e Snoop Dog, assim como por colaborações com os jazzistas Kamasi Washington e Billy Higgins.

Em seguida subiu ao palco o lendário saxofonista, cantor e professor universitário Archie Shepp, 80, um dos últimos expoentes da geração que cultivou durante a década de 1960 o politizado “free jazz”, vertente de vanguarda do jazz.

Como bom rapper que é, Martin (na foto abaixo) fala bastante, quase tanto quanto toca seu sax alto ou os teclados eletrônicos. Entre uma música e outra elogiou bastante os colegas da banda, que inclui o extravagante baixista MonoNeon. Também brincou com a plateia e logo a conquistou ao se referir à emoção de tocar pela primeira vez em Nova Orleans.

Não era apenas conversa mole de rapper. Ao anunciar sua composição "Untitled File", chamou ao palco o trompetista Nicholas Payton, um dos jazzistas de Nova Orleans mais respeitados na cena mundial do jazz, cobrindo-o de afagos. 


Outro ponto alto do show foi uma versão bem livre de "Butterfly", composição do pianista Herbie Hancock. Martin já vem trabalhando com esse cultuado jazzista desde 2015, num aguardado álbum que deve incluir o produtor Flying Lotus e o baixista Thunderbird entre outros badalados nomes da geração que mistura jazz com hip hop e música eletrônica.

Num dia pouco feliz, Archie Shepp já entrou no palco ao estilo de Tim Maia, reclamando com os técnicos da sonorização. Para alívio da plateia, sua expressão ranzinza se suavizou um pouco ao abrir o show com uma composição em homenagem ao lendário saxofonista John Coltrane, seu grande mentor musical.

Outro tema que remeteu à fase mais radical da carreira de Shepp foi "Revolution", composição que destaca um raivoso poema de sua autoria. No entanto, em termos de linguagem, hoje sua música está bem distante das arritmias e do atonalismo do free jazz. Daquela época só restou, praticamente, o habito de borrar algumas notas do sax com t
remidos do maxilar. 

Não deixa de ser uma ironia que o número mais aplaudido do show tenha sido justamente o mais tradicional: uma versão de "Don't Get Around Much Anymore", clássico do jazzista Duke Ellington, que Shepp canta com roucos trejeitos vocais de blueseiro.

No programa jazzístico de ontem, em New Orleans, também se destacou uma atração com músicos locais. Intitulado "A Arte da Voz", o show comandado pelo pianista Larry Siebert reuniu saborosos arranjos de clássicos do jazz (a romântica "My Funny Valentine"), da soul music e do funk (a dançante "September", da banda Earth, Wind & Fire”), com destaque para os vocais de Yolanda Robinson, Tonya Boyd-Cannon e JarrellB. O que não falta na cena musical da cosmopolita New Orleans é diversidade. 


Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 4/05/2018. Viagem realizada a convite do New Orleans Visitors Bureau e do B on Canal Hotel.



Annette Peacock: pioneira e vanguardista, compositora canta no Jazz na Fábrica

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                                                   A compositora e vocalista nova-iorquina, em foto de Christian Rose 

Annette Peacock já foi chamada de ícone da vanguarda, de “figura cult do underground”, de “símbolo cult do empoderamento feminino”. Atração do festival Jazz na Fábrica, neste sábado (26) e domingo (27), em São Paulo, a compositora, pianista e vocalista nova-iorquina jamais seguiu padrões convencionais em sua música.

Embora tenha despontado na cena musical dos anos 1960, tocando piano com o expoente do free jazz Albert Ayler, ou tenha composto peças experimentais para o trio de jazz do pianista Paul Bley, ela já não se identificava como jazzista naquela época.

“Eu tinha um grande interesse pela música de vanguarda, pela liberdade, mas não me considerava uma musicista de jazz”, diz ela à Folha. “Sou antes de tudo uma compositora. Gosto de criar ambientes, de tentar romper as fronteiras entre os gêneros musicais”.

Ainda na década de 1960, Annette vivenciou uma experiência radical que alterou sua maneira de encarar a música. Ao se aproximar do psicólogo e neurocientista Timothy Leary, ideólogo do uso criativo do LSD (ácido lisérgico), foi uma das primeiras artistas a experimentá-lo.

“Timothy exerceu uma grande influência sobre mim. Só fiz uma única viagem de ácido e até hoje estou tentando voltar dela. Enfrentar a realidade não tem sido fácil”, ela comenta, rindo. “Quando nos conhecemos, perguntei a ele o que pretendia fazer com o LSD. Timothy me disse que queria influenciar as artes”.

Pioneira também na utilização dos sintetizadores eletrônicos, Annette convenceu o inventor Robert Moog a lhe emprestar um protótipo, antes mesmo de esse instrumento se tornar viável comercialmente. Com ele realizou experimentos sonoros com a própria voz.

Por ser uma artista que, ao criar e gravar sua música, não levava em conta se ela seria ou não rentável, encarou dissabores. “Quando era mais jovem, eu lançava um álbum muito segura de que aquela era a melhor coisa a ser feita naquele momento. No entanto, como eu não conseguia me conectar com o mercado, acabava ficando desiludida, frustrada”, admite.

Depois de passar mais de uma década sem gravar, em 2000 lançou pelo selo europeu de jazz ECM o hoje cultuado “An Acrobat’s Heart”, álbum que reativou o interesse por sua música. Acompanhada por um quarteto de cordas, além de seu piano, ela interpreta nesse disco uma coleção de canções dissonantes e minimalistas, com certa nostalgia.

Algumas dessas canções estarão, segundo ela, no repertório de suas apresentações no Sesc Pompeia. “Vou levar comigo um percussionista (Roger Turner), porque sei que as pessoas valorizam muito de ritmos aí no Brasil”, avisa. “Vamos tocar peças de vários dos meus álbuns. Talvez as pessoas conheçam algumas delas, mas vou rearranjá-las. Será um programa bem diversificado”.

Ao saber que, em São Paulo, deve encontrar uma plateia com jovens interessados em free jazz e música de vanguarda, ela se entusiasma. E conta que se surpreendeu com as reações dos fãs que conheceu após uma apresentação que fez há pouco, em Portugal.

“Tive uma experiência maravilhosa na cidade do Porto. Foi incrível ver aqueles jovens, com os olhos brilhando, me dizerem que adoram minha música”, relembra. “O free jazz e a música que eu faço têm tudo a ver com liberdade – os jovens buscam a liberdade”.

(Entrevista publicada parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 26/8/2017)






 

 

Jazz na Fábrica: Roscoe Mitchell e Anthony Braxton abrem série de CDs do Selo Sesc

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                                                                                  O saxofonista Roscoe Mitchell                        

Gravados ao vivo, em São Paulo, discos dos músicos norte-americanos Roscoe Mitchell e Anthony Braxton inauguram série do Selo Sesc dedicada a registros de concertos do Jazz na Fábrica –- o festival produzido pelo Sesc Pompeia, que já realizou cinco edições. Veteranos saxofonistas e compositores de Chicago, os dois também têm em comum o fato de serem associados à vertente do jazz de vanguarda, embora suas obras sejam bem diversas.

Um dos criadores do Art Ensemble of Chicago, o lendário coletivo de “free jazz” que adotou esse nome no final dos anos 1960, Mitchell se apresentou com ele por quatro décadas. Multi-instrumentista que domina toda a família dos saxofones, ainda na década de 1970 gravou e fez concertos-solos de sax – mesmo formato de suas apresentações no 3º Jazz na Fábrica, em 2013.


As quatro longas faixas do álbum “Sustain and Run” podem até assustar um ouvinte não-familiarizado com suas liberdades sonoras – não se trata de música para embalar reuniões festivas. Tocando um sax soprano ou um sopranino, Mitchell faz seu instrumento gemer, gritar, uivar, chiar, ranger. É preciso relaxar e se concentrar nos sons para poder fruir a expressividade desses solos.

Já a música de Anthony Braxton (na foto à esquerda) é mais conceitual, mais elaborada. Em vez de aderir ao “free jazz”, a exemplo de muitos de seus contemporâneos, ainda na década de 1960 ele se aproximou da música contemporânea de vanguarda. Desenvolveu novas formas de composição, inclusive utilizando inusitadas notações gráficas, sem abrir mão da liberdade da improvisação.


As faixas “Composition nº 366d” e “Composition nº 367b”, com mais de uma hora de duração cada, ocupam os dois CDs do álbum de Braxton, que toca sax alto, soprano e sopranino ao lado de Taylor Ho Bynum (trompete e flugelhorn), Ingrid Laubrock (sax soprano e tenor) e Mary Halvorson (guitarra). Sons acústicos e eletrônicos formam texturas repletas de surpresas e contrastes dinâmicos. Diferentemente do redundante universo da música pop, na música inventiva de Braxton tudo se move e se transforma, sem repetições. 

Esses CDs estão disponíveis nas lojas das unidades e no site do Sesc

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/02/2016)

Jazz: um curso sobre a história desse gênero musical e a cena atual

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Jamais se viu tantos festivais de jazz e música instrumental no Brasil, como nos últimos anos. Um fato, aliás, que também vem sendo detectado em outros países e continentes, a exemplo do que já acontece há décadas nos Estados Unidos e na Europa.

Esse fenômeno musical será um dos itens abordados no curso “Jazz: Uma Introdução à Grande Arte do Improviso”, que vou ministrar durante quatro segundas-feiras deste mês de novembro (dias 9, 16, 23 e 30, das 16h às 18h), no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo.

Gravações originais e vídeos de festivais e concertos de jazz vão servir de referências para a conversa, dirigida a qualquer interessado por esse gênero musical, tanto um ouvinte como um músico. Para se inscrever não é necessário ter cursado escola de música, nem saber tocar qualquer instrumento.

Além de traçar um abrangente panorama da história do jazz, com ênfase em seus músicos e vertentes principais, vou dedicar bastante espaço à globalizada cena atual desse gênero, destacando instrumentistas, compositores e cantores que têm contribuído para revigorar essa arte musical, nos mais diversos países.

Naturalmente, também vou abordar a moderna música instrumental brasileira, influenciada em maior ou menor medida pela linguagem jazzística, que hoje vive uma fase de grande produção e não deve nada, em termos de qualidade e criatividade, ao jazz norte-americano.

Mais informações pelos telefones (11) 3123-5213 e 3123-5214 ou no site do Centro Universitário Maria Antonia: 

http://mariantonia.prceu.usp.br/?q=encontros/jazz-uma-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-grande-arte-do-improviso

 

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