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Sesc Jazz: plateia de São Paulo viaja a Saturno com a Sun Ra Arkestra

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                                                                     Músicos da Sun Ra Arkestra, no festival Sesc Jazz 

Os sorrisos de alguns e os olhares intrigados de outros eram reveladores, na noite de estreia do festival Sesc Jazz (no Sesc Pompeia, ontem, em São Paulo). Não é todo dia que se tem a chance de ver e ouvir uma orquestra tão original, irreverente e vanguardista como a Sun Ra Arkestra, fundada na década de 1950 pelo compositor, tecladista e poeta norte-americano Herman “Sun Ra” Blount (1914-1993).

O conceito de afro-futurismo ainda demoraria décadas a ser criado, quando Blount (seu  codinome Sun Ra refere-se ao deus Sol dos egípcios) e os músicos de sua Arkestra desenvolveram um personalíssimo estilo de jazz orquestral que chegou a ser rotulado de “jazz do espaço”. Vale lembrar que Sun Ra costumava afirmar, em entrevistas, que nascera no planeta Saturno.

Liderada durante as últimas décadas pelo saxofonista e compositor Marshall Allen (com uma vitalidade incrível para alguém de 95 anos), a Sun Ra Arkestra mantém vivo o legado musical de seu lendário músico criador, que sempre reverenciou a diversidade da música de origem negra, desde o blues e o swing até o mambo e o funk.

Essa diversidade também marcou o repertório do show de ontem: da inusitada releitura da canção “Stranger in Paradise” (do musical “Kismet”, de 1953, que ficou conhecida no Brasil pela gravação meio brega da orquestra de Ray Conniff) à quase dramática versão de “When You Wish Upon a Star” (do desenho animado “Pinocchio”, de 1940), que fez a plateia sorrir. Naturalmente, não faltaram clássicos do repertório da Arkestra, como a catártica “Angels and Demons” ou a emblemática “Space Is The Place”.

Para quem é obrigado a viver neste país violento e injusto, comandado por políticos e juízes farsantes, as duas horas de música oferecidas pela Sun Ra Arkestra foram terapêuticas. funcionaram como uma relaxante viagem a Saturno.


Sesc Jazz: a poesia engajada e a música negra do saxofonista Archie Shepp

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                                                       Archie Shepp, cantando no festival Sesc Jazz, em São Paulo 

Vanguardista, radical, revolucionário. Adjetivos como esses são utilizados com frequência ao se traçar o perfil de Archie Shepp – um dos músicos mais ativos e intelectualizados da geração que, na década de 1960, cultivou e difundiu a rebeldia sonora e política do free jazz, ao lado de Cecil Taylor, John Tchicai e Don Cherry, entre outros. Acrescente-se também o fato de Shepp ter sido discípulo e parceiro eventual do messiânico John Coltrane (1926-1967), o jazzista mais cultuado e imitado nas últimas décadas. Pronto, o mito está completo.

Graças a essa imagem divulgada há décadas, qualquer um se surpreende ao ver e ouvir pela primeira vez esse músico, poeta e dramaturgo norte-americano. Na noite de encerramento do festival Sesc Jazz (2/9), na plateia do teatro do Sesc Pompeia, alguns certamente não imaginavam que poderiam ouvir o radical saxofonista tocar uma canção tão romântica como “The Stars Are in Your Eyes” (de sua autoria), quase em ritmo de bossa nova, incluindo uma breve citação de “Nature Boy” (de Eden Ahbez), antigo sucesso do cantor Nat King Cole (1919-1965).

Os mais familiarizados com a obra e a trajetória musical de Shepp sabem que seu ativismo político – na luta pelos direitos civis dos negros ou contra a desigualdade social, entre outras causas – não o impediram de adotar, já na década de 1970, um repertório bem amplo, que inclui diversas vertentes da música negra norte-americana. Para isso contribuiu sua carreira paralela de professor de Estudos Afro-Americanos, em universidades de Massachusetts e Buffalo. Um exemplo: “Goin’ Home” (gravado em 1977) e “Trouble in Mind” (1980)”, álbuns que Shepp dedicou ao gospel, ao blues e ao rhythm & blues, em inspirados duos com o pianista Horace Parlan (1931-2017), são preciosidades musicais que merecem ser descobertas pelos ouvintes de hoje.

Muito bem acompanhado pela percussão de Kahil El’Zabar e seu Ritual Trio, que inclui o baixista Jamaladeen Tacuma e o pianista Henri Morisset, Shepp ofereceu à plateia, praticamente, uma aula sobre a diversidade da música afro-americana. Soprando seu roufenho sax tenor, abriu a noite com o bebop “Hope #2”, que compôs para homenagear o pianista Elmo Hope (1923-1967). Tocou “Don’t Get Around Much Anymore” (de Duke Ellington), com todo o swing que esse clássico da era das big bands pede. Mais inusitada foi a lenta versão de “Summertime” (de George Gershwin), ao sax soprano, com El’Zabar dedilhando uma kalimba (pequeno teclado de origem africana para ser tocado com os polegares).

Já o anunciado tributo a Coltrane não chegou a entusiasmar, talvez porque algumas das músicas escolhidas não são tão representativas de sua obra e ainda foram espalhadas ao longo do show, em vez de formarem um bloco. A serena balada “Naima” ganhou uma versão pouco feliz, com Shepp borrando a melodia, demasiadamente, ao sax tenor. A releitura da romântica “I Want to Talk About You” (de Billy Eckstine) seguiu pelo mesmo caminho, mas foi salva pelo lírico solo de Morisset, ao piano, assim como pelos vocais de Shepp, com seu vozeirão de barítono. Coltrane foi lembrado também por “Cousin Mary”, um animado blues de sua autoria, que Shepp chegou a gravar com El’Zabar e seu Ritual Trio, no álbum “Conversations” (1999).

Entre altos e baixos, o clímax do show veio com “Revolution”, dramática composição baseada em um poema que Shepp dedicou à sua avó, Mama Rose, que viveu na época da escravidão. Acompanhado pelo cajón (instrumento de percussão que consiste em uma caixa de madeira, usado originalmente pelos escravos africanos, no Peru) de El’Zabar, com um ritmo tribal, Shepp expôs o tema com o sax soprano. E emocionou a plateia, ao vocalizar os versos do poema de maneira bem teatral, algo entre um canto falado e um rap. Em nenhum outro momento dessa noite, o músico radical, o poeta engajado e o ativista político estiveram tão próximos.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

Jazz: um curso sobre a história desse gênero musical e a cena atual

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Jamais se viu tantos festivais de jazz e música instrumental no Brasil, como nos últimos anos. Um fato, aliás, que também vem sendo detectado em outros países e continentes, a exemplo do que já acontece há décadas nos Estados Unidos e na Europa.

Esse fenômeno musical será um dos itens abordados no curso “Jazz: Uma Introdução à Grande Arte do Improviso”, que vou ministrar durante quatro segundas-feiras deste mês de novembro (dias 9, 16, 23 e 30, das 16h às 18h), no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo.

Gravações originais e vídeos de festivais e concertos de jazz vão servir de referências para a conversa, dirigida a qualquer interessado por esse gênero musical, tanto um ouvinte como um músico. Para se inscrever não é necessário ter cursado escola de música, nem saber tocar qualquer instrumento.

Além de traçar um abrangente panorama da história do jazz, com ênfase em seus músicos e vertentes principais, vou dedicar bastante espaço à globalizada cena atual desse gênero, destacando instrumentistas, compositores e cantores que têm contribuído para revigorar essa arte musical, nos mais diversos países.

Naturalmente, também vou abordar a moderna música instrumental brasileira, influenciada em maior ou menor medida pela linguagem jazzística, que hoje vive uma fase de grande produção e não deve nada, em termos de qualidade e criatividade, ao jazz norte-americano.

Mais informações pelos telefones (11) 3123-5213 e 3123-5214 ou no site do Centro Universitário Maria Antonia: 

http://mariantonia.prceu.usp.br/?q=encontros/jazz-uma-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-grande-arte-do-improviso

Luiz Macedo: humor fino e canções hilárias no CD "Orchestra Electromagnética"

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Se você acha que humor e música levada a sério não têm nada em comum, precisa ouvir as composições e os arranjos de Luiz Macedo. Especialista em trilhas sonoras, esse ex-integrante das bandas Sossega Leão, Heartbreakers e Karnak exibe no divertido álbum “Orchestra Electromagnética” (lançamento Jukebox/Tratore) uma heterodoxa mistura de gêneros e estilos musicais: rock’n’roll, swing, música eletrônica, xaxado, funk, choro.

O disco inclui algumas canções hilárias, como o suingado samba “Dr. Peçanha in London” (na interpretação malandra de Skowa) ou a eletrônica “Proparoxigênio” (com o vozeirão de André Abujamra modificado por “auto-tune”). O humor fino de Macedo também está presente até em faixas instrumentais, como o sensual bolero eletroacústico “Tantra” (destaque para o acordeom de Toninho Ferragutti e o cello de Adriana Holtz) ou a conceitual “noYESwhy”. Afinal, música não serve apenas para dançar. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/09/2014)





John Clayton: Baixista e arranjador de estrelas do jazz vem com seu grupo ao BMW Festival

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Ele fala com a mesma elegância e precisão que exibe há décadas ao dedilhar as cordas de seu baixo acústico. O nome do jazzista, arranjador e compositor americano John Clayton ainda não é reconhecido entre o grande público, mas se você é um apreciador do jazz, provavelmente, já o ouviu, acompanhando estrelas do gênero, como as cantoras Diana Krall, Natalie Cole ou Dee Dee Bridgewater.

Clayton será uma das atrações da segunda edição do BMW Jazz Festival, em junho, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Virá ao país com o The Clayton Brothers, quinteto que criou com seu irmão saxofonista, Jeff Clayton, em 1977. “Quem for nos ouvir pode esperar por sons bem excitantes”, afirma o contrabaixista. “Não temos receio de tocar jazz com muito swing e um alto nível de intensidade. Mesmo quando tocamos algo mais romântico, não abrimos mão da intensidade sonora”.

Falando com exclusividade ao "Valor", por telefone, Clayton conta que tem boas lembranças de sua primeira visita ao país, em 2007, quando tocou com a banda da cantora e pianista canadense Diana Krall. “Tanto em São Paulo, como no Rio, pude ouvir música de excelente qualidade. Fiquei impressionado ao perceber como a música é tão importante no cotidiano dos brasileiros. Parece até que todo mundo dança e toca violão no Brasil. Foi uma viagem fantástica”.

Graças às amizades que construiu desde então com músicos brasileiros, como o violonista paulistano Chico Pinheiro ou o cantor e compositor carioca Ivan Lins (com o qual gravou um CD ao vivo, regendo a Metropole Orchestra, em 2009), Clayton vem se aproximando mais da música produzida em nosso país. “A convivência com esses amigos tem contribuído para que eu amplie meus conhecimentos sobre a música do Brasil, não só a música de hoje, mas a do passado também”, diz o jazzista americano. 



Nascido em Venice (Califórnia), Clayton tornou-se aos 16 anos aluno de Ray Brown (1926-2002), um dos maiores contrabaixistas do jazz, que passou a orientar sua formação, além de introduzi-lo no meio profissional. “Por meio dele conheci grandes músicos, como Milt Jackson, Henri Mancini, Monty Alexander e Count Basie. Ray foi como um pai para mim, talvez a figura mais importante do jazz na minha vida”, reconhece. Já na década de 1990 chegou a tocar ao lado de seu mestre no Superbass, grupo que também incluía o baixista Christian McBride.

Depois de viver cinco anos na Holanda, Clayton se radicou em Los Angeles, no final de 1984. Seu talento o levou a se tornar músico de estúdio, na concorrida área de trilhas sonoras para Hollywood. “Com o tempo, fui descobrindo que aquela vida não era ideal para mim”, admite. Na mesma época, criou com seu irmão saxofonista e o baterista Jeff Hamilton, a Clayton-Hamilton Jazz Orchestra. Com ela, passou a gravar e a fazer concertos ao lado de conceituadas cantoras, como Carmen McRae, Nancy Wilson e Gladys Knight.

“Gravar música para cinema era fantástico, mas não permitia que eu pudesse me expressar como músico. É por isso que costumo dizer que o jazz salvou minha vida. Talvez eu também pudesse me expressar em outro gênero, como a música clássica ou a música brasileira, mas para mim o jazz é a forma mais simples que eu tenho de me expressar”, diz o líder e contrabaixista.

Desde então, Clayton seguiu tocando com cantores – diferentemente de alguns de seus colegas mais radicais, nos círculos do jazz, que costumam depreciar a música dos intérpretes vocais. “O que realmente me atrai ao tocar com eles é, não só o som da voz do intérprete, mas também o fato de você poder se aproximar mais do significado de uma canção, por meio dos versos”, afirma. “Além disso, não quero apenas tocar em trio ou com os Clayton Brothers pelo resto da minha vida. Também quero fazer outras coisas”, comenta o arranjador, que se considera um discípulo de “band leaders”, como Duke Ellington, Quincy Jones, Gil Evans e Oliver Nelson.

Quem já teve a oportunidade de ouvir os discos do quinteto The Clayton Brothers, ou assistiu a alguma de suas apresentações, deve ter notado a comunicação quase telepática entre John Clayton e seu irmão Jeff. “Quando tocamos alguma coisa, não preciso dizer a ele o que estou procurando, porque ele já sabe. Se ele toca alguma coisa, é fácil para mim reconhecer a base daquilo, porque frequentamos a mesma escola, a mesma igreja, ouvimos nossa mãe tocando piano junto conosco. Acho que realmente pode existir algo parecido com telepatia entre membros de uma família”, reconhece.

Sobre a cena atual do jazz, Clayton tem uma visão bastante positiva. “Acho que este é um bom momento, com músicos jovens fazendo coisas interessantes, especialmente em termos rítmicos. Na área da performance, os músicos jovens sabem muito mais do que eu quando tinha a mesma idade deles”, compara. “Também acho interessante ouvir diferentes influências, como a do hip hop ou da música da Europa Central, nessa geração. Não pretendo, necessariamente, tocar esse tipo de música, mas gosto de ouvi-la”.

A segunda edição do BMW Jazz Festival será realizada de 8 a 10/6, no Via Funchal (São Paulo) e de 11 a 13/6, no Teatro Oi Casagrande (Rio). A programação destaca músicos de jazz de vários estilos e gerações. Entre os veteranos, o trio formado por Chick Corea (piano), Stanley Clarke (baixo elétrico) e Lenny White (bateria) promete resgatar clássicos da fusion dos anos 70 e 80. O quarteto liderado pelo saxofonista Charles Lloyd, reúne talentos mais jovens, como Jason Moran (piano), Reuben Rogers (baixo) e Eric Harland (bateria).

Revelação recente da cena jazzística de Nova York, o trompetista Ambrose Akinmusire virá com seu quinteto. O compositor e arranjador canadense Darcy James Argue, que trará sua orquestra, também se revelou há pouco. Formado no ano passado, o grupo Ninety Miles reúne músicos jovens e criativos: os americanos Stefon Harris (vibrafone) e Christian Scott (trompete), o porto-riquenho David Sánchez (saxofone) e o cubano Harold López Nussa (piano), que buscam aproximar o jazz da música cubana.

Mais perto da black music e do rock, o multi-instrumentista e vocalista Trombone Shorty é uma das surpresas recentes da cena musical de New Orleans. Já o saxofonista Maceo Parker, o trombonista Fred Wesley e o saxofonista Pee Wee Ellis mantém vivos o funk e o rhythm & blues de James Brown, de cuja banda fizeram parte. Única representante nacional, a dupla de acordeonistas Toninho Ferragutti e Bebê Kramer promete fazer um tributo à moderna sanfona brasileira. Outras informações no site do evento:
www.bmwjazzfestival.com.br

(texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana, no jornal "Valor", edição de 25/5/12)

Marcelo Nova: quem diria que o ícone do rock dos anos 80 agora gosta de jazz?

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Acredite se puder: Marcelo Nova, um dos expoentes do rock brasileiro dos anos 1980, virou apreciador de jazz. Nos últimos anos, o cantor, compositor e ex-líder da banda Camisa de Vênus tem comprado com frequência discos de jazz gravados nas décadas de 1930, 40 e 50, aos quais dedica suas horas de lazer.

Nesta entrevista, publicada parcialmente na “Folha de S. Paulo”, Marcelo declara-se fã tardio de mestres do swing e do jazz clássico, como o saxofonista Ben Webster (1909-1973), os trompetistas Harry Edison (1915-1999) e Charlie Shavers (1920-1971) ou o baterista Joe Jones (1911-1985). E faz comentários que revelam sua intimidade com o estilo musical desses jazzistas.

Mas não pense que, nos palcos e estúdios, o irreverente cantor e guitarrista baiano mudou de estilo musical. Ele acaba de lançar “Hoje no Bolshoi”, CD duplo gravado ao vivo, num show em Goiânia, que também chega às lojas na versão DVD e, em breve, Blu-ray. Nessa gravação, Marcelo revê suas três décadas de carreira musical, incluindo alguns de seus sucessos e duas canções inéditas. 




 
É verdade que você tem ouvido muito jazz nos últimos anos?
Marcelo Nova - Sou um jazzmaníaco tardio. No final da década de 70, na Bahia, trabalhei na programação da Aratu FM. Na madrugada, eu tocava um disco de Ben Webster (no video acima), saxofonista com um timbre rude, que eu adorava mesmo sem conhecer nada de jazz. Mas logo comecei a ouvir Sex Pistols, formei o Camisa de Vênus e me afastei do tal do jazz. Uns anos atrás, por acaso, vi numa loja um disco do Ben Webster, que levei para casa. Não sei como pude ficar tanto tempo sem ouvir esse cara. Comecei a comprar todos os discos dele e dos caras que tocavam com ele. Ao contrário do rock and roll, que eu descobri aos 9 anos, descobri o jazz já depois dos 50. Como cheguei ao jazz com muito atraso, passei a comprar disco adoidado.

Que outros músicos de jazz te interessam?

Marcelo - Como eu não era um estudioso do jazz, antes só conhecia o que todo mundo conhece: Miles Davis, John Coltrane, Tommy Dorsey, as coisas mais emblemáticas de cada período. Achei o som do Ben Webster tão interessante, que fui atrás dos caras que tocavam com ele. Comecei a ouvir Harry “Sweets” Edison e Charlie Shavers, no trompete; Ray Bryant, no piano; Jo Jones, na bateria. De certa maneira, havia ali uns 15 ou 20 caras – um gravava com o outro. O mais interessante é que, quando tocavam nos discos que não eram de si próprios, eles demonstravam um grande respeito pelo estilo do líder naquele momento. Quando tocavam com o Ben Webster, por exemplo, todos tocavam pianinho, ficavam ali acompanhando o que ele fazia.

O que os seus colegas do rock acham desse seu interesse tardio pelo jazz? Já te chamaram de traidor?

Marcelo - Detesto roqueiros, esses caras que vão a lojas de vinil, no fim de semana, para ficar discutindo se o som analógico é melhor que o digital. Sempre fui um individualista. Eu gosto é de ir ao shopping center comprar sutiãs meia taça, calcinhas e cintas-ligas pra minha mulher. Sempre fui um romântico. Em 1983, gravei uma canção com um refrão que diz: “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Essa é a frase mais romântica que eu ouvi até hoje. Tenho passado muitas noites ouvindo Ben Webster.

E o que te atrai na música do Ben Webster?

Marcelo - Ele é um apreciador da melodia, um homem que respeita a harmonia, mas nem de longe é um músico meloso. É um cara que toca suas baladas, mas quando resolve enfiar a boca é de uma categoria impressionante. O que fez eu me apaixonar pela música de Ben Webster é essa identidade que ele imprime à sua música.

Alguns fãs do punk têm afinidade com o jazz de vanguarda. Como você explica sua preferência pelo jazz tradicional?

Marcelo - Eu gosto mesmo é de swing, de jazz dos anos 30 aos 50. Sou um homem da tradição, o único cara do rock brasileiro que gravou Adelino Moreira. Jamais suportei as vanguardas. Esse pessoal de vanguarda entrega logo a retaguarda (risos). Sou um cara que veio da tradição. O que faz que o meu rock and roll seja identificável é a minha maneira de interpretar. Não sou um grande cantor, mas consigo dar uma cara minha ao que eu interpreto. Musicalmente, nessa gama de raízes do rock, que vai do rockabilly ao country e ao blues, eu percebo que os artistas que mais aprecio são aqueles que não se afastaram dessas raízes. Talvez por isso eu tenha apreciado o punk, naquela época, por ser uma coisa absolutamente brutal e primitiva. De alguma maneira, Steve Jones retomou Chuck Berry na guitarra.

Seu novo álbum, “Hoje no Bolshoi”, foi gravado ao vivo. Que critério você usou para escolher o repertório?

Marcelo - Sempre gostei de rock, no sentido mais amplo. Esse disco representa o que eu fiz durante 31 anos e tem o vigor que sempre pretendi levar ao palco. Escolhi hits dos meus discos de ouro e algumas canções dos meus discos de couro, aqueles que não venderam nada – aliás, gosto mais deles do que dos discos de ouro. Também coloquei duas músicas inéditas, porque continuo compondo.

“O Galope do Tempo” (de 2006) é seu disco mais maduro e ambicioso, mas foi pouco comentado. Isso te decepcionou?

Marcelo - Se eu tivesse de assinar em baixo de um disco meu, seria esse, sem dúvida. É um trabalho autobiográfico que levei 13 anos para compor. Acho que ele merecia mais exposição, mas eu faço música para mim. Se ela agradar alguém, ótimo. Vou relança-lo em 2012.

Como você encara hoje a geração do rock brasileiro dos anos 80?

Marcelo - Assim como nos Estados Unidos e na Europa, o rock brasileiro foi feito por 10% de gente que tinha valor artístico e 90% sem nenhum talento. Aliás, quando notei que todas as bandas cariocas que tocavam no Circo Voador usavam bermudas e camisetinhas de cores cítricas, criei a expressão “rock de bermudas”, que me custou algumas inimizades (risos). Posso perder uma eventual amizade, mas uma bela piada jamais.

(entrevista publicada parcialmente no “Guia Folha - Livros, Discos e Filmes”, em 26/08/2011)

 

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