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Caixa Cubo: trio paulistano leva seu som jazzístico ao Sesc Pompeia

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                                                                      O trio instrumental Caixa Cubo/Foto Divulgação

Um dos mais talentosos grupos de música instrumental brasileira revelados na última década, o Caixa Cubo se apresenta nesta quinta-feira (29/6), na Comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo. O repertório do show é baseado no recém-lançado álbum “Agôra” (pelo selo alemão Jazz & Milk), oitavo título na discografia desse trio paulistano.

Formado por Henrique Gomide (teclados), Noa Stroeter (baixo) e João Fideles (bateria), o Caixa Cubo começou a se apresentar em palcos europeus em 2012. Desde então já tocou em renomados clubes e festivais de jazz desse continente.

Em seus discos, o grupo já homenageou mestres da música brasileira, como o violonista e compositor Garoto (no álbum “Enigma”, de 2018), o multi-instrumentista Hermeto Pascoal, o maestro Moacir Santos e o compositor Dorival Caymmi (no álbum “Misturada”, de 2014).

Já no recente “Agôra”, o trio reúne composições próprias, com assumidas influências dos jazzistas norte-americanos Herbie Hancock e Miles Davis, assim como do grupo brasileiro Azymuth, pioneiro das fusões do samba com o jazz eletrificado. Entre várias participações especiais, destacam-se o músico sul-africano Bongani Givethanks e os cantores Xênia França e Zé Leônidas.

Caixa Cubo no Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo). Dia 29/6, às 21h30. Ingressos: R$ 20 e R$ 40.



Wayne Shorter (1933-2023): perdemos um grande criador e visionário do jazz

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             Wayne Shorter, no festival Jazz al Parque 2015, em Bogotá, na Colômbia
 

Na época da pandemia, abandonei o costume jornalístico de homenagear músicos ao saber que eles morreram. Até porque, durante aqueles deprimentes anos de 2020 e 2021, eu seria obrigado a fazer isso quase diariamente. Homenagens e tributos a grandes artistas podem ser feitos a qualquer dia e hora, mas hoje prefiro o elogio escrito ou postado enquanto esses artistas ainda estão vivos e produzindo. Muitos deles precisam de estímulos para seguir adiante.

Decidi suspender temporariamente minha decisão ao saber da morte de Wayne Shorter, um dos meus heróis musicais desde os tempos de adolescência. Mas não vou repetir aqui tudo que já escrevi sobre esse grande saxofonista e personalíssimo compositor. Prefiro resgatar um comentário que postei no Facebook, por ocasião de sua última apresentação no Brasil, em 2016. Indignado com as atitudes de alguns imbecis, durante e após o concerto de Shorter e Herbie Hancock no Brasil Jazz Fest, confirmo quase sete anos depois que pressenti no ar o mau cheiro da tendência reacionária que já despontava neste país:

“Ouvir um bobão qualquer gritar ‘Toca Raul!’, durante o concerto de Herbie Hancock e Wayne Shorter, em São Paulo, não chegou a me surpreender. Já no dia seguinte, saber que um sujeito deixou a plateia brandindo seu dedo médio com indignação me fez pensar que a estupidez humana não tem limites.

Eu me sinto um felizardo por pertencer a uma geração que cresceu ouvindo músicos inovadores como Hancock e Shorter, assim como Miles Davis, John Coltrane, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e tantos outros. Com eles aprendi que a música vai muito além dessas canções redundantes e grudentas feitas para serem repetidas nas rádios e vendidas por atacado. Descobri graças a eles que a música também pode ser uma grande aventura, uma viagem ao desconhecido.

Será que daqui a alguns anos, num Brasil inculto e reacionário (tomara que seja apenas um pesadelo), músicos inventivos e corajosos como Shorter e Hancock serão vaiados?”

Aqui o link para a resenha desse revelador concerto de Shorter e Hancock (na Sala São Paulo, em 2016, incluído na programação do Brasil Jazz Fest), que escrevi para a "Folha de S. Paulo":

https://www.carloscalado.com.br/2016/04/wayne-shorter-herbie-hancock-musica.html



Miles Davis: trompetista deflagrou revolução silenciosa, 60 anos atrás, em 'Kind of Blue'

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Em 2009, quando veio ao Brasil para participar de concertos comemorativos do cinquentenário do álbum “Kind of Blue”, o baterista Jimmy Cobb (único remanescente dos sete músicos que participaram das gravações) admitiu, em entrevista que fiz com ele para a “Folha de S. Paulo”, que não tinha uma explicação para a imensa repercussão desse disco, considerado uma das obras-primas da música do século 20.

“Não houve qualquer planejamento, isso simplesmente aconteceu. Ao entrar no estúdio, nossa intenção era apenas fazer mais uma boa sessão de gravação com Miles”, disse Cobb, que fez parte do grupo regular do trompetista e compositor entre os anos de 1958 e 1962, em gravações e concertos.

O alto grau de liberdade que Miles costumava oferecer aos músicos de seus grupos certamente ajuda a explicar o produto dessas gravações. O trompetista entrou no estúdio da gravadora Columbia (na rua East 30th, em Nova York), em março de 1959, levando partituras que não passavam de meros esboços com os quais pretendia estimular a criatividade de seus parceiros musicais.

Se você viveu em uma caverna durante as últimas seis décadas, precisa saber que “Kind of Blue” é composto por cinco longas faixas instrumentais. Ou seja, sem vocais ou qualquer trecho cantado – característica que pode assustar ouvintes mais acostumados à linguagem das canções do universo da música pop. Mas qualquer um que se aventurar a escutar esse disco até o final, com a devida atenção, dificilmente vai se arrepender.

A enigmática introdução de “So What”, faixa que abre o álbum, desperta a atenção do ouvinte, logo conduzida, graças à simplicidade do tema, ao descontraído improviso de Miles, seguido por inventivos solos de John Coltrane (ao sax tenor) e Cannonball Adderley (sax alto). A atmosfera de relaxamento é acentuada pela faixa seguinte, o blues “Freddie Freeloader”, que destaca um radiante solo do pianista Wynton Kelly (sua única participação no disco), sucedido por intervenções de Miles e dos dois saxofonistas.

Faixa mais lírica do álbum, a delicada balada “Blue in Green” (cuja composição o pianista Bill Evans, que fazia parte do quinteto regular do jazzista na época, reivindicou posteriormente ser de sua autoria) envolve o ouvinte com uma calorosa dose de melancolia. Algo que Miles sabia fazer como poucos – especialmente quando alterava o som do trompete, utilizando o recurso da surdina, como se ouve nessa gravação.

Já em estado quase hipnótico, o ouvinte é embalado pelo valsante “All Blues”, outro tema simples e descontraído, que evolui para improvisos mais assertivos de Miles, Coltrane e Adderley. Finalmente, a sensível balada “Flamenco Sketches” encerra o disco com outro solo de trompete tingido de melancolia, além de emotivos improvisos dos saxofonistas e do pianista do sexteto.

Aos ouvidos daquela época, o diferencial desse álbum estava em sua inusitada concepção. Em vez de utilizar as harmonias complexas, a profusão de notas e os ritmos frenéticos que orientaram grande parte do jazz praticado nos anos 1950, Davis decidiu recuperar um pouco da simplicidade que esse gênero perdeu com o advento do bebop – o nervoso e inventivo estilo jazzístico que músicos como Charlie Parker e Dizzy Gillespie desenvolveram na década anterior.

O novo caminho apontado por Miles, já esboçado em seu álbum “Milestones” (1958), foi posteriormente rotulado pelos críticos e estudiosos como jazz modal. Ao substituir por modos (escalas) os improvisos calcados em progressões de acordes, ele encontrou uma maneira mais livre e espontânea de desenvolver melodias que abriu possibilidades até então inéditas para a expressão dos jazzistas.

Uma das melhores definições para o legado musical do álbum “Kind of Blue” foi cunhada por Herbie Hancock, pianista que integrou grupos de Miles nos anos 1960: “um portal para outra era”. Diferentemente do ruidoso free jazz, que quase virou do avesso a cena do jazz durante a mesma década de 1960, a revolução musical sugerida por Davis nesse disco foi mais silenciosa.

Na próxima vez que você decidir encarar uma estrada, seja de carro ou de ônibus, experimente levar “Kind of Blue” para ouvir. Tenho feito isso há décadas e, até hoje, não encontrei uma trilha sonora mais encantadora do que essa para acompanhar uma viagem. 

(Texto escrito para a "Folha de S. Paulo", publicado em 17/8/2019)




New Orleans Jazz Fest: ao festejar 50 anos, evento reforçou seu apoio à diversidade

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                            Trombone Shorty (no centro) se despede da plateia do 50.º New Orleans Jazz Fest 

Talvez só mesmo a orientação progressista da cosmopolita cidade norte-americana de Nova Orleans possa explicar o fato de artistas como a rapper Boyfriend ou a “queen diva” Big Freedia terem se apresentado no New Orleans Jazz & Heritage Festival, cuja 50.ª edição terminou no último domingo (5/5). Quem já as ouviu sabe que as músicas de ambas não têm nada a ver com o jazz.

Difícil imaginar a feminista Boyfriend (personagem que essa rapper nascida em Nashville assume até em entrevistas), num festival mais conservador do gênero. Vestindo lingerie, com caricatos bobes no cabelo, ela transpôs para o palco do Jazz Fest (é assim que os moradores da cidade se referem ao evento) os shows que vem fazendo há alguns anos em boates LGBT de Nova Orleans. Sua versão de “Another Brick in the Wall”, da clássica banda de rock Pink Floyd, é hilariante.

Inusitado também é ver em um dos maiores palcos do Jazz Fest o “bounce” de Big Freedia 
— uma frenética modalidade de música eletrônica, cuja dança acrobática chega a lembrar os rebolados do grupo baiano É o Tchan. Em vários momentos, o show da “queen diva” se transforma praticamente em uma competição. Os dançarinos se esforçam para mostrar que podem fazer seus traseiros tremerem mais que os dos colegas.

“O Jazz Fest está ficando velho”, brincou o instrumentista e cantor Trombone Shorty, 33, hoje um dos artistas de Nova Orleans mais populares mundialmente, quase ao final do show de encerramento do festival. Minutos antes, ele protagonizou um emotivo encontro de gerações ao receber os veteranos músicos da banda Neville Brothers, que até 2012 costumavam encerrar o evento no mesmo palco – o maior dos doze instalados no hipódromo da cidade.  


                                   
Acompanhado pelo irmão Cyril e pelo filho Ivan, o cantor Aaron Neville interpretou uma pungente versão do hino religioso “Amazing Grace”, sob o olhar emocionado de Shorty, que tinha apenas 12 anos quando fez as primeiras aparições ao lado dos Neville Brothers. Tratando-se de um festival que sempre estimulou colaborações entre músicos de diferentes gerações, essa cena já entrou para a história do evento.

As altas temperaturas verificadas durante quase todo o festival podem ajudar a explicar alguns desatinos incomuns, vistos nos oito dias de programação. Ontem, na tenda de jazz moderno, os disputados lugares para assistir ao excelente show do quinteto do pianista e compositor Herbie Hancock (na foto acima) renderam alguns bate-bocas na plateia.  




Pior foi o que se viu no primeiro domingo (28/4), quando um dos clãs musicais mais populares de Nova Orleans homenageou seu líder. A tenda de jazz foi pequena demais para o esperado reencontro dos irmãos Branford, Wynton, Delfeayo e Jason Marsalis (na foto acima) com o pai  o pianista e educador Ellis Marsalis, 84. Não bastassem as ríspidas disputas pelas últimas cadeiras vazias, membros da produção chegaram a perturbar o show várias vezes, gritando para que as pessoas desocupassem os corredores e entradas da tenda.

Entre os destaques mais jazzísticos do festival, a jovem cantora Cécile McLorin Salvant confirmou em um show primoroso 
 com meia sala vazia, ironicamente, mas aplaudida de pé  que é uma das grandes intérpretes da cena atual do gênero. Mais sorte teve o cantor José James, cujo tributo em vida ao soulman Bill Withers (hoje com 80 anos) foi festejado por uma plateia mais ampla e eufórica. Uma boa surpresa foi o jazz cigano dos instrumentistas do grupo europeu Django Festival Allstars.    


Ao final dos oito dias de programação fica a impressão de que a 50ª edição não será tão inesquecível quanto pretendiam seus organizadores. O cancelamento do show dos Rolling Stones (o vocalista Mick Jagger teve de enfrentar uma cirurgia cardíaca), um mês antes, deixou o evento sem sua atração mais famosa. Talvez já não houvesse mais tempo hábil para reforçar a grade de programação, que poderia ter sido mais brilhante, em uma data tão especial.

Mesmo assim, no caso de um festival tão eclético, com mais de 500 atrações que vão do gospel e do blues tradicional ao jazz contemporâneo, passando por quase todas as vertentes da música popular afro-americana, uma avaliação geral é sempre algo muito pessoal. Até porque, no imenso leque de atrações do New Orleans Jazz & Heritage Festival, cada um acaba escolhendo o seu próprio programa.

(Texto publicado parcialmente no website da "Folha de S. Paulo", em 7/05/2019. Viagem realizada a convite da New Orleans & Company e do Cambria Hotel)

New Orleans Jazz Fest: evento festeja 50 anos com Kamasi e Rolling Stones no elenco

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                                     Kamasi Washington, atração do 50º New Orleans Jazz & Heritage Festival

No ano em que o New Orleans Jazz & Heritage Festival comemora seu 50º aniversário, o produtor Quint Davis e sua equipe deram uma demonstração de grande prestígio. Encabeçando as centenas de atrações anunciadas hoje para esse evento – um dos maiores festivais do gênero no mundo, que será realizado de 25 a 28/4 e de 2 a 5/5 – está a veterana banda britânica de rock The Rolling Stones, cuja próxima turnê pelos Estados Unidos pode ser a última.

Outros astros de diversos gêneros musicais também se destacam no elenco desse festival: jazzistas como o pianista Herbie Hancock e os saxofonistas Kamasi Washington e James Carter, o soulman Al Green, os bluesmen Robert Cray, Buddy Guy e John Hammond, a clássica banda de funk Earth, Wind & Fire e cantores de várias vertentes da música negra norte-americana, como Diana Ross, Mavis Staples, Cecile McLorin Salvant, Shirley Caesar, Jose James e Gregory Porter.

Desde novembro, quando surgiram os primeiros rumores de que os Rolling Stones iriam se apresentar em New Orleans e, pouco depois, veio a notícia de que o evento teria um dia a mais (25/4), a polêmica se instalou nas redes sociais. O anúncio de que os habituais apoiadores da rádio pública local WWOZ (que já tinham comprado pacotes com passe livre para todo o festival) não teriam acesso ao dia do show dos Rolling Stones (2/5) irritou muita gente.

Os ingressos para esse dia do festival serão vendidos separadamente, nesta quinta-feira (17/1), com restrições. Só residentes da Louisiana, portando documento oficial, terão direito a comprar dois ingressos ao preço de 185 dólares cada (fora os impostos). No dia seguinte, os ingressos restantes – se sobrarem – serão vendidos ao público em geral. Para os outros dias do festival, quando comprados nas bilheterias do evento, os ingressos custam 85 dólares.  



Também deve causar alguma polêmica, como já acontece há pelo menos duas décadas, a inclusão no elenco de outras atrações da música pop e do rock – como as cantoras Kate Perry e Alanis Morissette, os cantores Dave Matthews e Tom Jones ou o guitarrista Carlos Santana, nesta edição. A exemplo de outros festivais do gênero pelo mundo, a produção do evento tem adotado esse recurso para ampliar as plateias que frequentam o Fair Grounds (o hipódromo local), onde esse festival é realizado desde 1970.

Para quem ainda não conhece New Orleans, uma das cidades mais musicais do mundo, uma observação essencial: o nível dos artistas locais costuma ser tão alto, que é comum durante o festival você se surpreender com shows de músicos sobre os quais nunca ouviu falar antes.

Portanto, para quem vai ao Jazz Fest pela primeira vez (é assim que os moradores da cidade se referem a ele) torna-se praticamente obrigatório assistir a shows de atrações locais, como os músicos da família Marsalis, que neste ano vão homenagear o veterano pianista Ellis Marsalis, ou ainda Terence Blanchard (na foto acima), Trombone Shorty, Jon Cleary, Nicholas Payton, Aaron Neville, Donald Harrison, Kermit Ruffins, Davell Crawford, Irma Thomas e Germaine Bazzle, além das bandas Galactic, Astral Project, Dumpstaphunk, Rebirth Brass Band, The Soul Rebels e Bonerama, entre muitas outras atrações da cidade, que mais uma vez vão se alternar entre os 12 palcos do Jazz Fest.


Atualização - Com o cancelamento da turnê dos Rolling Stones, em 30/3, por causa da cirurgia cardíaca a que Mick Jagger foi submetido (em 5/4), a produção do festival incluiu a veterana banda de rock Fleetwood Mac, no elenco do dia 2/5. Mais informações sobre o New Orleans Jazz & Heritage Festival em www.nojazzfest.com







New Orleans Jazz Fest: Terrace Martin e Archie Shepp dialogam com o passado e o presente

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                                                                  O saxofonista Archie Shepp, no New Orleans Jazz Fest 

Entre as mais de 70 atrações de ontem no New Orleans Jazz & Heritage Festival, dois shows programados para a tenda dedicada ao jazz moderno chamaram atenção por representarem, de certo modo, um diálogo entre o presente e o passado desse centenário gênero musical.

Primeiro foi o show de Terrace Martin, 39, saxofonista, rapper e produtor de Los Angeles, conhecido por suas parcerias com os rappers Kendrick Lamar e Snoop Dog, assim como por colaborações com os jazzistas Kamasi Washington e Billy Higgins.

Em seguida subiu ao palco o lendário saxofonista, cantor e professor universitário Archie Shepp, 80, um dos últimos expoentes da geração que cultivou durante a década de 1960 o politizado “free jazz”, vertente de vanguarda do jazz.

Como bom rapper que é, Martin (na foto abaixo) fala bastante, quase tanto quanto toca seu sax alto ou os teclados eletrônicos. Entre uma música e outra elogiou bastante os colegas da banda, que inclui o extravagante baixista MonoNeon. Também brincou com a plateia e logo a conquistou ao se referir à emoção de tocar pela primeira vez em Nova Orleans.

Não era apenas conversa mole de rapper. Ao anunciar sua composição "Untitled File", chamou ao palco o trompetista Nicholas Payton, um dos jazzistas de Nova Orleans mais respeitados na cena mundial do jazz, cobrindo-o de afagos. 


Outro ponto alto do show foi uma versão bem livre de "Butterfly", composição do pianista Herbie Hancock. Martin já vem trabalhando com esse cultuado jazzista desde 2015, num aguardado álbum que deve incluir o produtor Flying Lotus e o baixista Thunderbird entre outros badalados nomes da geração que mistura jazz com hip hop e música eletrônica.

Num dia pouco feliz, Archie Shepp já entrou no palco ao estilo de Tim Maia, reclamando com os técnicos da sonorização. Para alívio da plateia, sua expressão ranzinza se suavizou um pouco ao abrir o show com uma composição em homenagem ao lendário saxofonista John Coltrane, seu grande mentor musical.

Outro tema que remeteu à fase mais radical da carreira de Shepp foi "Revolution", composição que destaca um raivoso poema de sua autoria. No entanto, em termos de linguagem, hoje sua música está bem distante das arritmias e do atonalismo do free jazz. Daquela época só restou, praticamente, o habito de borrar algumas notas do sax com t
remidos do maxilar. 

Não deixa de ser uma ironia que o número mais aplaudido do show tenha sido justamente o mais tradicional: uma versão de "Don't Get Around Much Anymore", clássico do jazzista Duke Ellington, que Shepp canta com roucos trejeitos vocais de blueseiro.

No programa jazzístico de ontem, em New Orleans, também se destacou uma atração com músicos locais. Intitulado "A Arte da Voz", o show comandado pelo pianista Larry Siebert reuniu saborosos arranjos de clássicos do jazz (a romântica "My Funny Valentine"), da soul music e do funk (a dançante "September", da banda Earth, Wind & Fire”), com destaque para os vocais de Yolanda Robinson, Tonya Boyd-Cannon e JarrellB. O que não falta na cena musical da cosmopolita New Orleans é diversidade. 


Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 4/05/2018. Viagem realizada a convite do New Orleans Visitors Bureau e do B on Canal Hotel.



New Orleans Jazz & Heritage Festival 2016: artistas homenagearam Prince

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                                 A cantora Sharon Jones e sua banda The Dap-Kings, no New Orleans Jazz Fest

A repercussão da morte do cantor Prince marcou o primeiro final de semana do 47.º Jazz & Heritage Festival, em Nova Orleans. Bem ao estilo dessa cosmopolita cidade norte-americana, conhecida pelos funerais animados por bandas de rua, fãs homenagearam seu ídolo sem lágrimas, dançando e cantando sua música.

Foi assim na tarde do último sábado, durante os minutos que antecederam a apresentação do soulman Maxwell, no palco dedicado a atrações da black music. Um DJ tocou sucessos de Prince, como “Kiss” e “When Doves Cry”, festejados por boa parte da plateia.

Sharon Jones e Janelle Monáe, cantoras que chegaram a trabalhar com Prince, também o homenagearam durante seus shows no festival. Até mesmo músicos locais de outros gêneros, como o trompetista Kermit Ruffins e a banda de rock Gov`t Mule, renderam tributos ao cantor.



Diferentemente do ano passado, quando temporais alagaram o hipódromo onde é realizado o Jazz Fest, o sol brilhou durante todo o final de semana – tempo perfeito para um evento ao ar livre, com shows simultâneos em 12 palcos, que chegam a receber até 100 mil pessoas por dia.

Atração principal da sexta-feira no palco dedicado à música pop, a veterana banda Steely Dan conquistou uma multidão de fãs de várias gerações com uma seleção de hits, como “Aja”, “Pretzel Logic” e “Black Friday”, todos com arranjos sofisticados e pinceladas jazzísticas.

Mas nem esses clássicos da dupla Donald Fagen & Walter Becker, nem os dançantes covers de James Brown e Jackson Five interpretados por Janelle Monáe, chegaram perto do impacto causado pelo show da carismática Sharon Jones, na Tenda Blues.

Lutando contra um câncer desde 2013, ela fez uma apresentação furiosa, cantando e dançando como se estivesse fazendo o último show de sua vida. Já ao se despedir, demonstrou confiança: “Tchau, Nova Orleans. Daqui a alguns anos a gente se vê de novo”.



Mais uma vez com uma programação repetitiva, a Tenda Jazz apresentou ao menos um ótimo concerto por dia. Na sexta, a pianista Geri Allen releu composições de Errol Garner, com o brilhante guitarrista Russell Malone a seu lado

No sábado, o baterista Jack DeJohnnette (na foto acima) exibiu seu novo trio com o saxofonista Ravi Coltrane e o baixista Matt Garrison, filhos de lendários jazzistas. Finalmente, o pianista Herbie Hancock e o saxofonista Wayne Shorter hipnotizaram a superlotada plateia com seus solos viajandões, no domingo.

Anunciado só na véspera para encerrar os shows de domingo, na Tenda Blues, o britânico John Mayall (na foto à direita) surpreendeu muitos que ainda não o conheciam. Aos 82 anos, esse influente blueseiro ainda canta e toca guitarra, gaita e piano com uma vitalidade impressionante.

(Viajei a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)

Wayne Shorter & Herbie Hancock: música livre para quem não teme o desconhecido

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                                 Herbie Hancock e Wayne Shorter, no New Orleans Jazz & Heritage Festival 2016

“Uma viagem perigosa“. Foi assim, ainda agradecendo os aplausos eufóricos de parte da plateia da Sala São Paulo, que o pianista Herbie Hancock, 75, se referiu ao concerto que ele e o saxofonista Wayne Shorter, 82, tinham acabado de apresentar, anteontem, na noite de abertura do BrasilJazzFest.

No palco, a presença de um sintetizador eletrônico ao lado do piano de cauda já anunciava um concerto inusitado, antes mesmo da entrada em cena dos veteranos jazzistas norte-americanos. Quem esperava ouvir as composições mais populares de Hancock e Shorter, ou mesmo releituras de clássicos do jazz, certamente se surpreendeu. Ou até se decepcionou.

Fieis ao princípio de não se repetirem, que adotaram ainda na década de 1960 como integrantes do lendário quinteto do trompetista Miles Davis, os velhos parceiros se lançaram em uma longa aventura sonora. Sem recorrer a melodias conhecidas, tocaram por cerca de 70 minutos com um grau de liberdade que só os grandes improvisadores têm coragem de encarar.

Comparada ao que Hancock e Shorter gravaram quase duas décadas atrás, no álbum de duos “1+1” (1997), a música criada hoje por eles é bem mais livre e atmosférica, não segue formas convencionais. E a adição do sintetizador ao piano acústico e ao sax ampliou bastante as opções, em termos de sonoridades e efeitos. Aliás, é impressionante a expressiva variedade de sons que Shorter extrai do sax soprano.

As improvisações da dupla se assemelham, em várias passagens, a trilhas sonoras de filmes de aventura. Climas sombrios evocam situações de suspense, perseguições em ritmo frenético, viagens espaciais. Trata-se de música criada no ato do improviso que apela diretamente à imaginação e à cumplicidade dos ouvintes. Sem essa disposição, alguns insatisfeitos deixaram a sala antes do final do concerto.

Para quem gosta de rótulos, talvez a música desse duo já nem possa mais ser classificada como jazz. Mas é inegável que os dois a fazem utilizando a improvisação como um método de composição instantânea –-algo que os jazzistas sempre fizeram, com maior ou menor dose de liberdade.

Só mesmo ao voltarem ao palco para um bis exigido pela plateia que ficou na sala, Hancock e Shorter fizeram a única concessão da noite. Como assumidos fãs da música brasileira que são há décadas, lembraram a canção “Encontros e Despedidas” (de Milton Nascimento e Fernando Brant). Mesmo assim, o saxofonista esboçou a melodia de uma maneira tão livre que, ao perceber que ela não fora reconhecida, se viu obrigado a anunciá-la.

Compartilhar as fantasias e viagens sonoras desses grandes instrumentistas e compositores faz pensar que a música pode ser algo bem mais enriquecedor e inventivo do que os modismos vazios e “covers” apelativos que ouvimos diariamente por aí.

(Crítica publicada na “Folha de S. Paulo”, em 1/04/2016)

Herbie Hancock: pianista revela em entrevista detalhes de seu próximo projeto

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Raros músicos, como Herbie Hancock, conseguiram sintetizar de maneira tão pessoal a vocação do jazz para absorver influências de outros gêneros. Desde a década de 1960, esse pianista e compositor já fez incursões pela black music, pela música clássica, pelo pop e pela música brasileira, sempre utilizando o recurso criativo da improvisação.

Atração principal do BrasilJazzFest (nesta quarta, 30/3, em São Paulo, com ingressos já esgotados; sexta, no Rio), Hancock vai tocar em duo com o saxofonista Wayne Shorter, seu mais frequente parceiro. Em entrevista à "Folha", por telefone, ele revelou detalhes de seu próximo álbum, comentou sua participação no recente filme sobre Miles Davis e disse que vai votar em Hillary Clinton para a presidência dos EUA.


Quase dez anos atrás, você disse que preferia tocar ao lado de músicos mais velhos com mentes jovens. É por essa razão que Wayne Shorter tem sido o seu parceiro mais constante? 

Sim, ele persegue a criatividade de uma maneira bem característica dos músicos jovens. Na música de Wayne, há sempre uma busca pela infinitude.

Você e ele começaram a tocar juntos cinco décadas atrás, no quinteto de Miles Davis. Como é tocar com Wayne hoje?
Já não precisamos mais de ensaios formais, aquela coisa de ficar repassando temas que compusemos ou algo assim. Meus ensaios com ele são, na verdade, conversas.

Ele diz que tocar com você, hoje, é algo muito confortável, como entrar no palco de pijama…
Isso mesmo (risos). Esse é um exemplo perfeito de como a mente de Wayne funciona. Adoro essa imagem de tocar de pijama!

Como foi participar das filmagens de “Miles Ahead”, o longa ficcional sobre Miles Davis, interpretado e dirigido por Don Cheadle? Já viu o filme finalizado?
Foi muito divertido. Wayne e eu voamos de Los Angeles para Nova York, para participar de algumas cenas. Fiquei surpreso ao ver como Don Cheadle estava tocando bem o trompete. Ele aprendeu bastante rápido. Não vi o filme ainda, só uma espécie de trailer. Achei bem excitante o que vi. É um projeto esperto, que eu acho que deve atrair muita gente aos cinemas.

Seu último álbum, “The Imagine Project”, foi lançado em 2010. Já está preparando um novo projeto?
Sim, comecei a trabalhar com Flying Lotus e o baixista Thundercat, no ano passado. Desta vez vou tocar com músicos jovens, que estão envolvidos não só com jazz, mas também com hip hop e música eletrônica. Alguns deles, como Terrace Martin e Sounwave, colaboraram com o último álbum do rapper Kendrick Lamar. Wayne também vai participar desse disco, além de outros músicos que ainda não posso mencionar porque estamos só no começo desse trabalho.

Como encara as eleições nos Estados Unidos? O que pensa sobre o risco de um candidato racista como Donald Trump se tornar o próximo presidente norte-americano?
Não penso que Trump será o próximo presidente, mas isso é possível, não sabemos o que pode acontecer. Acho que nem tudo que Donald Trump diz reflete o que ele pensa. Não o conheço pessoalmente, mas acho que ele adora chamar atenção e só está interessado em vencer a eleição. Ele diz e faz tudo para vencer, mas eu penso que esse é um cargo muito importante para ser tratado dessa maneira. Não sei ele é mesmo um racista, não sei se ele acredita em tudo o que diz. Quanto mais ele diz essas coisas revoltantes, mais repercussão na mídia ele consegue. Acho que tanto Hillary Clinton como Bernie Sanders são mais competentes para assumir esse cargo. Hillary tem mais experiência, tem uma visão mais completa do que é ser presidente dos Estados Unidos. Por isso ela terá o meu voto.

Semanas atrás, você e Wayne Shorter divulgaram uma carta aberta aos “artistas da nova geração”, pedindo a eles que se tornem veículos da paz, e que não desanimem frente ao terrorismo ou aos sangrentos conflitos que têm dominado o noticiário. Algum fato em particular gerou essa carta?
Na verdade, a iniciativa de escreve-la foi de Wayne. Eu contribuí com algumas observações, mas o mérito é dele. Wayne e eu pensamos da mesma maneira em relação a muitas coisas. Sentimos que a esta altura de nossas vidas seria importante compartilhar nossas experiências, tomar posição frente a certas questões humanas. Fizemos isso não apenas como músicos – antes de tudo, como seres humanos. 


(Entrevista publicada na "Folha de S. Paulo", edição de 29/3/2016)

BrasilJazzFest: evento traz Herbie Hancock e Wayne Shorter a São Paulo e Rio

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                                                                                                                      Wayne Shorter e Herbie Hancock

O duo do pianista Herbie Hancock com o saxofonista Wayne Shorter –- dois dos músicos e compositores mais cultuados em atividade na cena internacional do jazz -– será a principal atração do próximo BrasilJazzFest. O evento volta a ser realizado em São Paulo e Rio, de 30 de março a 3 de abril.

O compacto elenco dessa edição destaca também o criativo baterista e compositor norte-mexicano Antonio Sánchez, com seu grupo Migration, o quarteto do virtuose tunisiano Anouar Brahem (que toca uma espécie de alaúde) e o quinteto norte-americano Kneebody, que recebe o produtor Daedelus para uma sessão de música eletrônica e jazz. Finalmente, o brilhante bandolinista Hamilton de Holanda, que vai se apresentar com seu quinteto Brasilianos.

Na capital paulista, o evento ocupa três espaços: a Sala São Paulo (só o duo de Hancock e Shorter, no dia 30/3), o Auditório Ibirapuera (nos dias 1º e 2/4) e o parque do Ibirapuera, onde Antonio Sánchez vai executar os solos de bateria que criou para a trilha sonora do filme “Birdman” (de Alejandro González Iñarritu), em 3/4. Já no Rio de Janeiro, o único palco será o Vivo Rio, que vai receber as mesmas atrações, de 1º a 3 de abril.

Sucessor de eventos similares produzidos por Monique Gardenberg, como o Free Jazz Festival, o Tim Festival e o BMW Jazz, o BrasilJazzFest tem curadoria de Zuza Homem de Mello, Zé Nogueira e Pedro Albuquerque.

Os preços dos ingressos – que começam a ser vendidos nesta sexta-feira (4/3), às 13h – vão de R$ 10 a R$ 250.

Mais informações no site oficial do evento: www.brasiljazzfest.com.br/wpjazz/


 

 

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