Eliete Negreiros: "Outros Sons", clássico da vanguarda paulista, sai enfim em CD

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                 Otávio Fialho (de pé à esquerda, em sentido horário), Mário Manga, Eliete, Bozo Barretti, Azael Rodrigues e Arrigo

 Se você já se acostumou à indigência musical veiculada diariamente por emissoras de TV, rádios e portais da internet, cuidado! Como uma nave sonora que atravessou o tempo, este disco pode surpreender ouvintes desavisados. Com direção musical e produção de Arrigo Barnabé, a cantora Eliete Negreiros combina, neste cultuado disco, composições de Arrigo e outros autores de sua geração com clássicos da canção brasileira e norte-americana, além de vinhetas repletas de dissonâncias, ruídos, referências literárias e influências da música de vanguarda. Nada a ver, portanto, com esses bailões apelativos e baticuns vulgares que hoje maltratam nossos ouvidos por aí.

Para quem teve a sorte de descobrir e apreciar este disco na época de sua primeira edição, mais exatamente em 1982, é difícil acreditar que ele só tenha reaparecido agora, após um hiato de três décadas, em formato CD. Lançado ainda na era da hegemonia do vinil, sem apoio de uma grande gravadora, nem patrocínios, o álbum “Outros Sons” não chegou às paradas de sucessos, mas foi festejado pelos principais jornais e revistas do país como um marco da evolução da linguagem da música brasileira.

Mais até do que os elogios que recebeu, o fato de ter sido comparado a “Tropicália ou Panis et Circensis” (1968) – o álbum-manifesto do inovador movimento tropicalista, que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Rogério Duprat, Mutantes e Nara Leão, entre outros – indica o impacto que este disco provocou nos meios culturais. O próprio Caetano chegou a se referir a ele como “um trabalho lindo”, na época do lançamento, em uma entrevista ao paulistano “Jornal da Tarde”.

A comparação ao manifesto tropicalista se justifica: “Outros Sons” também sintetiza a produção de uma emergente e criativa geração musical, que ficou conhecida como Vanguarda Paulista. Além de Arrigo e Eliete, essa geração inclui os compositores Itamar Assumpção e Luiz Tatit, as cantoras Ná Ozzetti, Vânia Bastos e Suzana Salles, assim como os grupos Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, entre outros.  


“Com Arrigo, aprendi a pensar a música. No começo, isso me parecia uma heresia: como assim, pensar? Música é para sentir! Mas depois fui descobrindo como a música era feita e, com isso, um novo modo de perceber, mais abstrato, mais sutil, foi nascendo em mim”, comenta Eliete, intérprete elegante e de voz suave, que já cantava, tocava violão e estudava Filosofia, ao conhecer esse compositor paranaense radicado em São Paulo, na década de 1970.

Por influência de seu pai, Eliete acostumou-se a ouvir clássicos da música popular brasileira – de Noel Rosa a Assis Valente, interpretados por grandes cantoras da era do rádio, como Aracy de Almeida e Marlene. Também acompanhou a ebulição dos festivais de MPB, assim como a ruptura estética introduzida pela Tropicália, na segunda metade dos anos 1960. Mais tarde, graças à convivência com Arrigo, viu despertar seu interesse pela música erudita de vanguarda.

“Foram se abrindo novas portas da percepção: Stravinsky, Schoenberg, Stockhausen”, relembra a cantora paulistana, hoje doutora em Filosofia e autora do saboroso livro “Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola e Outros Escritos” (2011). “E foi misturando minha formação popular com esta nova visão musical que fui tecendo meu trabalho, aliando elementos tradicionais a elementos da vanguarda, ouvindo com ouvidos mais livres, como aprendi na cartilha sem receita de Oswald de Andrade”.

Entre tantas sacadas musicais e poéticas, é difícil destacar apenas uma ou outra faixa de “Outros Sons”. O ouvinte é seduzido e surpreendido de diversas maneiras – desde a futurista releitura de “Pipoca Moderna” (tema instrumental da Banda de Pífanos de Caruaru letrado por Caetano Veloso) até a vinheta “Tudo Mudou” (criada por Arrigo justamente sobre o último verso da letra de “Pipoca Moderna”), que fecha o álbum com o som do estouro de um saco de pipocas e o riso de Eliete.


Neste álbum-síntese da chamada Vanguarda Paulista não falta também um manifesto: a composição de Arrigo, com letra de Carlos Rennó, que deu título ao disco. Espécie de ritual sonoro, que combina o primitivismo de tambores com a modernidade da música atonal, “Outros Sons” alude à “Sagração da Primavera”, polêmica obra de Stravinsky que propagou a estética modernista, no início do século XX. Já a letra de Rennó foi inspirada pela linguagem experimental do escritor James Joyce, no romance “Finnegans Wake”.

Preste atenção nas fichas técnicas das 15 faixas. Ali aparecem os nomes de músicos de São Paulo, todos bem jovens na época, que depois se destacaram em vários segmentos da música brasileira: o cantor e violeiro Passoca, autor da bela “Sonora Garoa”; o baterista e compositor Paulo Barnabé (líder da Patife Band); o baixista Rodolfo Stroeter, o saxofonista Teco Cardoso, o pianista Lelo Nazário e o baterista Azael Rodrigues (integrantes de diversas formações do grupo Pau Brasil); o guitarrista Mario “Biafra” Manga (do grupo Premeditando o Breque); o trombonista Bocato e os trompetistas Nonô e Farias (da Banda Metalurgia); o guitarrista Tonho Penhasco, o baixista Otávio Fialho e os saxofonistas Mané Silveira e Chico Guedes (da Banda Sabor de Veneno, criada por Arrigo), além do quarteto de sopros Papavento, entre outros.

Sem poder contar com a mesma coragem e a ambição artística de compositores e intérpretes do quilate de Arrigo e Eliete, nas últimas décadas a cena da música brasileira tem se mostrado mais convencional e pragmática. Grande parte da produção atual limita-se a repetir fórmulas já aprovadas pelo mercado, sem qualquer compromisso com a invenção. Tomara que esta nova edição deste álbum estimule não só os novos ouvintes, mas também os músicos mais jovens a experimentar e criar outros sons, a correr mais riscos.


(Texto escrito para o encarte do CD "Outros Sons", da cantora Eliete Negreiros, relançado nesta semana pelo selo Kuarup)




Tony Bennett & Lady Gaga: um encontro artificial, com 'selfies', caras e bocas

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                                                                Tony Bennett, quem diria, babando por Lady Gaga


Depois que as performances bizarras de Lady Gaga deixaram de causar impacto, a cantora pop ítalo-americana segue fazendo o que pode para chamar atenção. A nova tentativa está em “Cheek to Cheek” (lançamento Columbia/Universal), álbum jazzístico que ela gravou em duo com ninguém menos que o veterano Tony Bennett.

Basta ouvir a primeira faixa -- “Anything Goes”, de Cole Porter, em arranjo orquestral –- para se perceber que o grau de empatia musical da dupla se aproxima de zero. A obviedade dos arranjos e do repertório, com conhecidas canções de musicais assinadas por Irving Berlin, Rodgers & Hart e os irmãos Gershwin, entre outras, só perde para as interpretações de Gaga.

Artificial e afetada, ela parece uma corista em teste para papel de protagonista, na medíocre versão de “Lush Life” (Billy Strayhorn). Aliás, todas as versões do álbum não acrescentam nada às gravações de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Johnny Hartman ou outros grandes cantores de jazz para essas mesmas canções. Um artista do quilate de Tony Bennett –- única razão para se ouvir esse disco –- não precisava passar por isso.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 25.10.2014)




Al Jarreau: cantor de jazz homenageia tecladista George Duke em novo álbum

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                                                                                        George Duke e Al Jarreau

Homenagens póstumas costumam ser melancólicas ou mesmo piegas. Al Jarreau não caiu nessa armadilha sentimental: ao dedicar o álbum “My Old Friend” (lançamento Concord/Universal) ao tecladista George Duke (1946-2013), o cantor norte-americano selecionou nove composições de seu antigo parceiro que representam bem a eclética concepção musical de ambos – do jazz ao soul e ao R&B, passando até por ritmos latinos.
 
Ao gravar esse repertório, Jarreau convocou outros intérpretes afinados com seu universo musical, como as cantoras Dianne Reeves, Lalah Hathaway e Kelly Price, o pianista Dr. John e o saxofonista Gerald Albright. Um desavisado talvez nem perceba a intenção da homenagem, ao ouvir a dançante “Every Reason to Smile”, com participação do cantor Jeffrey Osborne, ou a romântica “Bring Me Joy”, com o próprio Duke nos teclados. Um músico como ele, que quase sempre privilegiou a alegria e a dança em sua obra, não poderia ser lembrado de outra forma.

(resenha publicada no "Guia Folha - edição de 27/9/2014)


Luiz Macedo: humor fino e canções hilárias no CD "Orchestra Electromagnética"

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Se você acha que humor e música levada a sério não têm nada em comum, precisa ouvir as composições e os arranjos de Luiz Macedo. Especialista em trilhas sonoras, esse ex-integrante das bandas Sossega Leão, Heartbreakers e Karnak exibe no divertido álbum “Orchestra Electromagnética” (lançamento Jukebox/Tratore) uma heterodoxa mistura de gêneros e estilos musicais: rock’n’roll, swing, música eletrônica, xaxado, funk, choro.

O disco inclui algumas canções hilárias, como o suingado samba “Dr. Peçanha in London” (na interpretação malandra de Skowa) ou a eletrônica “Proparoxigênio” (com o vozeirão de André Abujamra modificado por “auto-tune”). O humor fino de Macedo também está presente até em faixas instrumentais, como o sensual bolero eletroacústico “Tantra” (destaque para o acordeom de Toninho Ferragutti e o cello de Adriana Holtz) ou a conceitual “noYESwhy”. Afinal, música não serve apenas para dançar. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/09/2014)





Quatuor Ébène: quarteto de cordas francês se une a dois 'brasilianistas'

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Nos meios da música clássica, um projeto como este é chamado de “crossover”, por misturar repertório e intérpretes originários de diferentes gêneros musicais. Em seu álbum “Brazil” (lançamento Erato/Warner), o talentoso quarteto de cordas francês Quatuor Ébène se une a dois “brasilianistas”: a cantora e jazzista norte-americana Stacey Kent e o cantor e compositor francês Bernard Lavilliers. 

Para quem já aprecia as incursões da doce Stacey pela música brasileira, as versões de “Águas de Março” (Tom Jobim) e “So Nice” (“Samba de Verão”, de Paulo Sérgio e Marcos Valle, que participa dos vocais) podem soar um pouco “déjà-vu”. Não à toa, as faixas do álbum que mais chamam atenção são instrumentais: a bela “Ana Maria” (do jazzista Wayne Shorter), o baião “Bebê” (Hermeto Pascoal) e o dramático “Libertango” (Astor Piazzola), cujas releituras confirmam a inventividade do quarteto. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 29/09/2014) 

Rodrigo Maranhão: fundador da banda Bangalafumenga mostra seu lado intimista

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Há quem aponte uma dissociação entre a música que o compositor e violonista Rodrigo Maranhão faz à frente do festivo grupo (e bloco) Bangalafumenga, um dos responsáveis pela revitalização do carnaval de rua do Rio, e o intimismo das canções próprias que esse talentoso músico carioca exibe em seus discos. 

A gingada “Fuzuê”, que abre em ritmo de samba de roda seu terceiro álbum (“Itinerário”, lançamento MP,B/Universal), parece sugerir que Maranhão convive bem com esses aparentes extremos: na segunda parte da canção, o ritmo é ralentado e abre espaço para improvisos da sanfona de Marcelo Caldi e do violão de Nando Duarte.

Mais lenta ainda é “Maré”, canção doce já interpretada antes pelo cantor português Antonio Zambujo, que participa da gravação da romântica “Madrugada”, emprestando a ela um toque de fado. Tenha ou não Rodrigo Maranhão duas personalidades musicais paralelas, o que conta mesmo é que todos saem ganhando. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/9/2014)

 

Marlui Miranda: álbum de recriações ressalta a beleza de cantos indígenas

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                                                                                            Foto: Gal Oppido/Divulgação

Cantora, violonista e compositora, que há mais de três décadas vem se dedicando à pesquisa e divulgação da música indígena, Marlui Miranda selecionou 15 cantos da tradição Juruna -- oito são cantigas de ninar -- para o repertório do álbum “Fala de Bicho, Fala de Gente” (lançamento do selo SESC). Não se trata de um mero registro sonoro, mas de um projeto de recriação desses cantos, adaptados com a aprovação de membros da tribo. 

Acompanhada por Nelson Ayres (piano), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Caíto Marcondes (percussão) e o inglês John Surman (sax soprano, clarone e flautas), Marlui também usa sua voz expressiva para improvisar junto com o quarteto, na melhor tradição da música instrumental brasileira e do jazz. Um diálogo entre tradição e modernidade, que ressalta a beleza desses cantos indígenas e os aproxima dos ouvidos contemporâneos. 

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/9/2014)

 

 

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