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André Christovam: filme lembra como guitarrista deu ao blues um sotaque brasileiro

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                     O "rei do blues" B.B. King e o brasileiro André Christovam /Acervo do músico 

Expoente do blues com sotaque brasileiro, o guitarrista e compositor paulistano André Christovam é o protagonista do documentário “Mandinga”. Esse longa metragem inédito, que estreia hoje (13/6), será reexibido na próxima semana, em São Paulo, em meio à programação do festival In-Edit Brasil, dedicado a documentários musicais (confira os locais e horários de exibição no link abaixo).

Dirigido por Egler Cordeiro, “Mandinga” aborda o processo de criação e os bastidores das gravações do homônimo álbum de estreia de Christovam, lançado em 1989 pelo selo Eldorado. Um ano especial para os apreciadores do blues, que viram esse gênero musical afro-americano (célula-mãe de todas as vertentes da música negra criada nos Estados Unidos durante o século 20) conquistar uma jovem e fiel legião de fãs brasileiros.
Músico talentoso e perfeccionista, Cristovam se destacou já em sua estreia fonográfica. Na pioneira cena do blues brasileiro (com raras exceções, como o guitarrista e cantor carioca Celso Blues Boy), bandas como Blues Etílicos, Blue Jeans e Baseado em Blues tendiam a cantar em inglês, mesmo em suas composições autorais.
Christovam não deixou por menos: em vez de se limitar à interpretação de clássicos do gênero, ao preparar o repertório de seu primeiro disco mergulhou os ouvidos em inspiradores sambas de Noel Rosa, Cartola e da dupla João Bosco e Aldir Blanc. Nessas fontes de pura brasilidade, encontrou um caminho poético e bem-humorado para criar saborosos blues cantados em português, como “Genuíno Pedaço do Cristo”, “Dados Chumbados”, “Carne de Pescoço”, “Sebo nas Canelas” e, claro, a faixa-título.
O documentário também relembra um evento que, segundo o guitarrista, foi a realização de um sonho. Durante a Virada Cultural de 2014, Christovam comemorou os 30 anos do lançamento do álbum “Mandinga” em um concerto no erudito palco do Theatro Municipal de São Paulo. Foi nesse mesmo ano que ele se mudou para a Escócia, onde vive até hoje.
IN-EDIT BRASIL – O documentário “Mandinga” será exibido hoje (quinta, 13/6), às 18h, no Cine Olido; dia 20/6 (quinta), no centro Matilha Cultural, às 18h; e no SPCine Paulo Emílio, dia 22 (sábado), às 19h30, em São Paulo. Confira a programação no site do festival: https://br.in-edit.org/

Homenagem a Aldir Blanc: João Bosco, Guinga e Banda Mantiqueira em encontro histórico

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                                                        João Bosco, Nailor Proveta e Guinga, no show dedicado a Aldir Blanc 
 

Quem teve a sorte de assistir a algum dos quatro shows dedicados ao grande letrista e escritor Aldir Blanc (1946-2020), com a Banda Mantiqueira, João Bosco e Guinga, neste final de semana, sabe que presenciou um encontro histórico. A última dessas disputadas apresentações, com ingressos já esgotados, será hoje, no teatro do Sesc 24 de Maio, em São Paulo, como parte da programação da Virada Cultural.

“Obrigado, nós somos brasileiros por causa de vocês”, agradeceu emocionado Nailor Proveta, clarinetista e diretor musical da Mantiqueira, falando também em nome dos fãs desses três gigantes da música popular brasileira, no show de sexta-feira (27/5).

É bem provável que a homenagem teria agradado ao irreverente Aldir. Em vez de discursos solenes, o bom humor prevaleceu em vários momentos, especialmente nos divertidos causos contados por seus parceiros. João Bosco relembrou que, no primeiro encontro oficial do então cirurgião-dentista Guinga com o letrista e ex-psiquiatra Aldir, este perguntou se iriam dividir um consultório ou iniciar uma parceria musical.

Guinga não deixou por menos. Bastante emocionado também, disse que não aceita a ideia da morte de Aldir, porque sua obra grandiosa ficará para sempre. E depois de afirmar que não gosta de ir a enterros, confessou que vai tentar fugir de seu próprio funeral.

Foram duas horas de muita emoção, risos e canções sublimes, como “Baião de Lacan”, “Chá de Panela” e “Catavento e Girassol” (parcerias de Aldir com Guinga), assim como “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, “Nação” e “Da África à Sapucaí” (parcerias de Aldir com João Bosco). Sem falar nos sensacionais arranjos da Mantiqueira – que está festejando seus 30 anos – para clássicos como “Incompatibilidade de Gênios” ou “Bala com Bala”.

Uma noite inesquecível. Viva Aldir, João Bosco, Guinga e a Banda Mantiqueira!






Banda Mantiqueira: ícone musical paulistano festeja os 466 anos de sua cidade

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                                                 A Banda Mantiqueira, em show no Sesc Bom Retiro, em São Paulo 

Que tal ir a um show de música instrumental hoje à noite (25/1), para festejar o 466.º aniversário da cidade de São Paulo? Minha sugestão é a Banda Mantiqueira, que fez uma apresentação excelente, ontem, no Sesc Bom Retiro, e hoje volta a se apresentar no mesmo palco.

Se você for, torça para que o clarinetista Nailor Proveta e seus talentosos parceiros toquem novamente o belíssimo arranjo de “Insensatez”, clássico da bossa nova, que entrou no programa de ontem como uma homenagem ao grande Tom Jobim, que faria 93 anos amanhã. Deu para ver gente emocionada, na plateia, com lágrimas nos olhos.

Já o emotivo arranjo do samba “Saudosa Maloca” (de Adoniran Barbosa), que entrou como bis no show de ontem, certamente não vai faltar. Aliás, se Adoniran é considerado uma das figuras mais representativas da música de São Paulo, penso que a Banda Mantiqueira também já pode concorrer nesse quesito.

Com quase três décadas de atividade, a Mantiqueira já demonstrou em discos e inúmeros shows seu carinho pela música popular brasileira: seja pelos sublimes choros do carioca Pixinguinha, pelos encrencados sambas do mineiro João Bosco ou pelo afro-jazz do pernambucano Moacir Santos, entre outras pérolas de seu repertório.

Quer algo mais paulistano do que essa big band nascida no bairro do Bixiga, que toca, com tanta personalidade e refinamento, música originária de diversos cantos do Brasil? Viva a Banda Mantiqueira, orgulho musical de São Paulo!

Stefano Bollani: pianista italiano cultiva paixões pelo jazz e pela MPB no CD 'Que Bom'

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                                                                                     Foto de Valentina Cenni/Divulgação

A paixão de Stefano Bollani pela música brasileira, tudo indica, não vai esfriar tão cedo. O pianista italiano descobriu a cadência do samba ainda na adolescência e agora, aos 45 anos, lança o álbum “Que Bom”, com participações especiais de Caetano Veloso e João Bosco, além de uma compacta seleção de craques da música instrumental brasileira. 

Um dos músicos europeus de maior prestígio na cena atual do jazz, Bollani tem reforçado durante a última década sua intimidade com as harmonias e os ritmos do Brasil. Em 2007, gravou o álbum “Carioca” no Rio, com músicos locais. Já em 2013, dividiu o CD “O Que Será” com o bandolinista Hamilton de Holanda, que também está no novo disco do italiano. 

“Hoje eu sei que existe muita música brasileira que eu ainda não conheço”, diz Bollani, com certa modéstia, falando à Folha por telefone. Quando a conversa se volta para os pianistas brasileiros que admira, por exemplo, ele desfia uma lista extensa: de mestres do choro, como Radamés Gnattali e Carolina Cardoso de Menezes, a expoentes de nossa moderna música instrumental, como João Donato e César Camargo Mariano.

Bollani já tocava piano, aos 15 anos, quando ouviu o clássico disco de bossa nova que João Gilberto gravou com o jazzista Stan Getz (“Getz/Gilberto”, 1963). “Me apaixonei pelas harmonias, parecidas com as do bebop e as do cool jazz, das quais eu já gostava muito”, relembra, em bom português.

“Mais tarde, quando fui ao Brasil para gravar meu disco ‘Carioca’, encontrei o choro, o samba, o forró e outras músicas brasileiras”, diz o italiano, que fez questão de voltar a tocar com Armando Marçal (percussão), Jurim Moreira (bateria) e Jorge Helder (baixo), nas gravações de “Que Bom” (selo Alobar/Biscoito Fino). Esse mesmo trio vai acompanha- lo na turnê de lançamento, além de Thiago da Serrinha (percussão).

No repertório de seu saboroso álbum, Bollani exibe 14 composições próprias, quase todas instrumentais. Inclui também a conhecida “Nação” (de João Bosco, Paulo Emílio e Aldir Blanc), cantada pelo próprio Bosco, e “Michelangelo Antonioni”, que Caetano Veloso, o autor, interpreta em italiano.

“Adoro Caetano cantando em italiano. Ele pode até cantar os itens de uma lista telefônica que eu vou gostar”, brinca o pianista. “No projeto original, ele iria cantar outras coisas em português, mas, na véspera da gravação, escrevi uma letra para a instrumental ‘La Nebbia a Napoli’. Caetano gostou, aprendeu rapidamente e a gravou”.

Bollani lança seu álbum nesta terça (14/8), no Bourbon Street, em São Paulo. Depois toca em Belo Horizonte (15/8) e faz duas apresentações pelo festival Sesc Jazz, no interior paulista, em Ribeirão Preto (17/8) e Jundiaí (18/8). Também toca em Brasília (20/8) e no Rio (21/8).

“Nos shows, tudo é mais improvisado do que no disco. É um grande prazer estar no palco com esses músicos incríveis. Ainda quero tocar muito com eles”, diz o italiano, que voltará a se apresentar com sua banda carioca, na Europa, em novembro.

Bourbon Street Music Club (r. dos Chanés, 194, Moema). Terça (14/8), às 21h30. Couvert artístico: de R$ 95,00 a R$ 150,00. 

(Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 14/8/2018)







Banda Mantiqueira: novo disco da big band festeja 25 anos com Lubambo e Marsalis

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               Os saxofonistas Cássio Ferreira (esq. para dir.), Proveta, Josué dos Santos e Ubaldo Versolato  

Manter uma orquestra ativa durante 25 anos já é por si só uma proeza, mas os músicos da Banda Mantiqueira e seus fãs têm mais a comemorar com o lançamento do álbum "Com Alma". Basta ouvir algumas faixas para comprovar que a aventura iniciada por essa big band paulistana, em 1991, resultou em uma linguagem instrumental brasileira que não se fecha às enriquecedoras influências de outras tradições musicais.

“Nos últimos anos, conseguimos aprimorar uma concepção musical mais aberta, que promove um encontro da música popular brasileira com o jazz e a música clássica”, resume o clarinetista e saxofonista Nailor “Proveta” Azevedo, referindo-se ao período que sucedeu o lançamento de “Terra Amantiquira” (2005), o álbum anterior da orquestra.

Para quem sentiu falta de um novo disco da Banda Mantiqueira, na última década, o fundador e líder explica que vários de seus integrantes, assim como ele, têm dedicado mais tempo ao ensino musical, buscando transmitir a linguagem da banda às novas gerações. Paralelamente, a banda participou de projetos com talentosas intérpretes da canção brasileira, como Mônica Salmaso, Rosa Passos, Fabiana Cozza e Anaí Rosa.

“Passamos esses dez anos sem gravar outro disco, mas, por outro lado, a gente cresceu muito musicalmente. Tocar e conviver com outros músicos ajuda a amadurecer. Os projetos com essas cantoras, assim como nossas atividades pedagógicas, trouxeram mais experiência para os músicos da banda”, avalia Proveta.

“Com Alma” representa o fim de um ciclo musical na trajetória da Banda Mantiqueira. Por isso, segundo seu líder, a necessidade de revisitar no repertório do novo álbum um pouco dessa história. Criada no início dos anos 1990, em um apartamento do bairro paulistano de Bela Vista, onde Proveta morava com o trompetista Walmir Gil e os saxofonistas Cacá Malaquias e Ubaldo Versolato, a Banda Mantiqueira veio coroar as experiências desses músicos em formações anteriores, como a Banda Savana, a Banda Aquarius e a Sambop Brass.

Duas composições incluídas no álbum nasceram durante a fase inicial da banda. O frevo “Forrólins”, de Cacá Malaquias, é uma homenagem ao veterano saxofonista norte-americano Sonny Rollins. O arranjo de Proveta combina o contagiante ritmo do Nordeste brasileiro com fraseado e improvisos típicos do jazz. Também composto por Malaquias, o lírico “Chorinho pra Calazans” é dedicado ao artista plástico pernambucano J. Calazans. Se você sentir algo de impressionista no arranjo de Proveta, saiba que não é mera coincidência.

“Stanats”, composição que o pernambucano Moacir Santos (1926-2006) dedicou ao saxofonista norte-americano Stan Getz (1927-1991), foi arranjada por Proveta, em 1994, como uma homenagem ao nosso genial compositor e maestro que muitos brasileiros só descobriram neste século. “Foi incrível ter tocado esse arranjo para o Moacir, o homem que levou o ritmo afro-brasileiro para o jazz clássico, com o requinte da música clássica europeia”, comenta Proveta.

Padrinho da Banda Mantiqueira, o grande músico e compositor João Bosco também é homenageado com seu samba “De Frente Pro Crime”, em arranjo inédito de Proveta. Ao violão, em participação muito especial, surge o carioca Romero Lubambo, com o qual a banda já planejava fazer algo há tempos. Lubambo também é o solista na gravação de “Desafinado” (obra-prima de Tom Jobim e Newton Mendonça), em belíssimo e inédito arranjo de Edson José Alves, que ressalta a sofisticação harmônica da bossa nova e as influências da música clássica que Jobim assimilou em sua obra.

“Con Alma” – a composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do trompete e do jazz moderno, que inspirou o título deste álbum – ganhou cores de bossa nova e samba-canção, no arranjo de Edson José Alves. Além de contar com o violão de Lubambo, essa gravação destaca outro convidado muito especial: o trompetista norte-americano Wynton Marsalis.

O líder da Jazz at Lincoln Center Orchestra também participa da gravação de “Segura Ele”, clássico choro de Pixinguinha (1897-1973). “Quando convidei o Marsalis, disse a ele que essa música lembra um ragtime do Scott Joplin”, conta Proveta, que escreveu a primeira versão desse arranjo para a orquestra paulista Jazz Sinfônica, ainda na década passada.

“Sentimos a necessidade de revisitar a história da banda, para lembrar de encontros musicais que fizeram a diferença em nossas vidas”, comenta Proveta, sintetizando muito bem o conceito deste álbum, que tem tudo para repercutir tanto em nosso pais, como no exterior. Vivendo hoje uma fase de grande produção e primor artístico, a música instrumental brasileira reflete na original experiência dessa big band um exemplo a ser seguido pelas novas gerações.

Como outros admiradores da Banda Mantiqueira, cuja trajetória tive o prazer de acompanhar desde o início, posso declarar que escutá-la durante estes 25 anos também foi sempre algo muito especial.

(Texto para o encarte do disco "Com Alma", escrito a convite da Banda Mantiqueira)





Toots Thielemans (1922-2016): o jazz perde o lirismo e o sorriso do grande gaitista

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                                         O gaitista e jazzista belga Toots Thielemans, nos anos 1960  

O jazz perdeu o talento de Toots Thielemans, ícone mundial da gaita. O músico e compositor belga morreu na manhã desta segunda-feira (22/8), dormindo em um hospital de Bruxelas, segundo sua produção. Tinha 94 anos e estava internado havia um mês, após sofrer uma queda.

Introdutor da gaita de boca (ou harmônica) na cena internacional do jazz, ele reinou absoluto por cerca de seis décadas. As limitações técnicas desse instrumento não o impediram, ainda nos anos 1950, de dividir shows e gravações com expoentes do gênero. Para isso adotou a harmônica cromática (evolução da gaita diatônica, que é mais utilizada pelos músicos de blues).

“Quando comecei a tocá-la, na década de 1940, os músicos de Bruxelas diziam que eu devia jogá-la fora. A gaita era tratada como um brinquedo, não um instrumento de verdade”, contou Thielemans a este repórter, em entrevista publicada na “Folha de S. Paulo” , em 2007.

Antes de se popularizar como gaitista, já era reconhecido como um promissor guitarrista. Em 1950, excursionou pela Europa com o sexteto do clarinetista Benny Goodman. No ano seguinte emigrou para os Estados Unidos, onde integrou por seis anos o quinteto do pianista George Shearing.

Já atuando como solista, em 1961, lançou “Bluesette” –- delicada valsa de sua autoria, em cuja gravação associou seu assobio ao som da guitarra. Gravada posteriormente por dezenas de músicos de diversos países, essa composição tornou-se um clássico do jazz e jamais saiu do repertório dos shows do gaitista.

Entre tantas parcerias com jazzistas de alto quilate, como Quincy Jones, Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Shirley Horn ou Jaco Pastorious, o disco que Thielemans gravou com o pianista Bill Evans, “Affinity” (1979), é um trabalho um tanto esnobado na época, que merece ser reavaliado.

A expressividade de sua gaita também o levou a ser convidado para gravar trilhas sonoras para filmes, como o hoje cultuado “Perdidos na Noite” (1969), “Os Implacáveis” (1972) e “Jean de Florette” (1986), entre outros. Também participou de trilhas sonoras de programas de TV, como “Vila Sésamo”.

Ao gravar um disco com a cantora Elis Regina (“Aquarela do Brasil”, mais tarde rebatizado de “Elis & Toots”), em 1969, Thielemans expressou sua paixão pela música brasileira, interpretando canções de Ary Barroso, Tom Jobim, Edu Lobo e Egberto Gismonti, entre outros.

Já em 1992, reacendeu o namoro com a MPB no álbum “The Brasil Project”. Produzido pelo violonista Oscar Castro-Neves, este reunia canções de Ivan Lins, Djavan, Chico Buarque, João Bosco, Milton Nascimento, Dori Caymmi, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros, além de participações dos próprios compositores. A repercussão internacional desse disco o levou a lançar “The Brasil Project 2”, no ano seguinte.

Desde 1980, quando se apresentou no 2.º Festival Internacional de Jazz de São Paulo, Thielemans retornou várias vezes ao país –- a última foi em 2009, no Festival Jazz & Blues de Guaramiranga (CE). Um festival de jazz com seu nome foi anunciado para setembro, em La Hulpe (a 25km de Bruxelas), onde vivia.

Quem teve a sorte de vê-lo tocar ao vivo, sabe que, além do lirismo rasgado de sua gaita, no palco ele revelava uma alegria contagiante, quase infantil. O sorriso de Toots também vai fazer muita falta.

(Texto publicado na “Folha de S. Paulo”, em 23/8/2016) 









Festival Etapa de Música de Arte: 10ª edição leva Gismonti e João Bosco a Valinhos (SP)

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                              A Nelson Ayres Big Band, que vai abrir o 10º Festival Etapa de Música de Arte 

Se você é um apreciador de música brasileira de alta qualidade, seja ela instrumental ou vocal, não deixe de conferir a programação do Festival Etapa de Música de Arte, que vai realizar sua 10ª edição, de 19 a 28 de agosto, na cidade de Valinhos, no interior paulista.

Astros da chamada MPB, como o violonista e cantor João Bosco (na foto abaixo), o compositor e bossa-novista Carlos Lyra ou a cantora Paula Morelenbaum com o trio do violoncelista Jaques Morelenbaum, estarão no elenco desse evento, que também destaca expoentes da música instrumental e do jazz brasileiro, como o multi-instrumentista Egberto Gismonti, a Nelson Ayres Big Band e o especial encontro dos violonistas do Duofel com o saxofonista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva.

Responsável pela direção e produção desse festival desde a primeira edição, em 2007, o engenheiro Luiz Amaro conta que o projeto surgiu a partir da constatação que a região metropolitana de Campinas –- onde fica a unidade Valinhos do Colégio Etapa –- não contava com eventos musicais de qualidade em sua programação cultural.

“Como o campus do Etapa possui um teatro pensado e construído como todo esmero técnico e infraestrutura, o caminho lógico para uma escola que se preocupa muito com a cultura foi a criação de um evento para ajudar a suprir essa lacuna”, explica o diretor do festival.  

Nessa populosa região paulista, onde um polo de tecnologia convive com universidades, há um público de alto nível cultural e econômico que tem acompanhado assiduamente esse evento. “A resposta da plateia ao longo desses anos tem sido muito estimulante. Nos concertos, vejo um grande número de pessoas que frequentam o festival desde seu início e raramente perdem uma apresentação”, comenta Amaro.

Para quem estranha o termo “música de arte” que denomina o evento, em meio a tantos festivais de jazz, blues ou rock produzidos atualmente nos mais diversos cantos do país, o diretor do Festival Etapa justifica a originalidade de sua marca.

“A proposta, desde o início, foi trazer para a região o que há de melhor na música, especialmente a brasileira, seja ela popular, erudita, instrumental ou vocal. Embora o termo jazz abarque uma gama bastante ampla de manifestações musicais, achamos que ainda assim seria restrito. Música de Arte nos pareceu traduzir a música criativa, de qualidade, feita sem objetivos mercadológicos", explica Amaro.

Se, já na primeira edição, o evento levou a Valinhos o violonista Hélio Delmiro, o saxofonista Roberto Sion ou o grupo Moderna Tradição (com o pianista Benjamim Taubkin e o clarinetista Nailor Proveta), nos anos seguintes o evento manteve seu alto nível musical. Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Zimbo Trio, Pau Brasil, Yamandú Costa, Eumir Deodato, Romero Lubambo, João Donato, Hamilton de Holanda e a Banda Mantiqueira já se apresentaram no Festival Etapa de Música de Arte, entre tantas outras atrações de peso.

Neste ano, a renda obtida com a venda dos ingressos para o festival –- a R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira) –- será revertida para a Orquestra Filarmônica de Valinhos, que vai realizar concertos gratuitos para a população da cidade.

Venda de ingressos e mais informações no site do Festival Etapa de Música de Arte

Savassi Festival 2015: evento cresce apoiando a cena instrumental de Minas Gerais

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                                                       O cantor e violonista João Bosco (no centro) e seu sexteto
 
Um dos maiores festivais de jazz e música instrumental do país, o Savassi Festival concluiu sua 13ª edição, no último domingo (12/7), em Belo Horizonte (MG), confirmando ser diferente da maioria dos eventos desse gênero. Em vez de exibir um elenco de vistosas atrações internacionais, buscando atrair mais turistas para a cidade, o Savassi Festival cresceu ao longo dos anos estabelecendo uma relação direta com os músicos locais e com a vida cultural da capital mineira.

“Muitas vezes o turismo cultural está ligado a grandes nomes e estrelas que têm uma reverberação mais ampla entre o público. O Savassi Festival não possui essa agenda”, observa o produtor Bruno Golgher, que vem realizando esse evento anualmente desde 2003. “Claro que eu posso trazer uma Esperanza Spalding, por exemplo, mas o festival busca, conscientemente, ser mais orgânico, criar uma relação com a cena musical e as pessoas daqui”.

Antes de criar o Savassi Festival, que neste ano ocupou 24 espaços entre praças, teatros, cafés e bares da cidade, Golgher chegou a produzir dois festivais de jazz menores, também em Belo Horizonte, no início da década passada. Em ambos, seu Café com Letras – misto de café com música ao vivo e espaço para eventos, localizado no bairro central de Savassi – já funcionava como palco.

Segundo Golgher, a estratégia de curadoria do Savassi Festival está diretamente ligada à relação constante que mantém com os músicos da cidade. Isso significa acompanhar os projetos atuais e futuros desses artistas, para poder viabilizá-los como atrações do evento.

Como exemplo, cita o delicioso show de João Bosco, um dos destaques da edição deste ano, que interpretou alguns standards do jazz, como “Blue in Green” e “My Favorite Things”. O cantor, violonista e expoente da MPB tinha a seu lado um sexteto de formação tipicamente jazzística, com destaque para o guitarrista Alexandre Carvalho e o baterista Jimmy Duchowny, norte-americano radicado em Belo Horizonte.

“Essa foi uma ideia do Jimmy, uns cinco anos atrás. Eu trabalho com ele há 19 anos, desde o início do Café com Letras, e os nossos filhos estudam na mesma escola”, conta Golgher. “É de relacionamentos contínuos como esse que surge o diferencial do nosso festival. Esse é nosso jeito de fazer”.  


Outra excelente atração deste ano recebeu o título carinhoso de Jazzinho – uma série de três shows idealizados para o público infantil, ao ar livre, na praça Floriano Peixoto. Após a apresentação do espetáculo musical “Cantigas do Bem Querer”, com a Orquestra Ouro Preto, o pianista André Mehmari hipnotizou crianças e adultos com seus improvisos bastante livres, inspirados em canções do Clube da Esquina, como “Ponta de Areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant) ou “Cravo e Canela” (Milton Nascimento).

Fechando a última noite do festival, o pianista Cliff Korman e o saxofonista Nivaldo Ornelas (na foto acima) revisitaram lúdicas melodias do genial Thelonious Monk, como a balada “Ruby My Dear” e a abstrata “Trinkle Tinkle”. Para terminar, uma aparição-surpresa do explosivo pandeirista Sergio Krakowski (ex-integrante grupo Tira Poeira, hoje radicado nos Estados Unidos). Uma ideia tão boa que deveria ser retomada no próximo ano.

Mehmari também brilhou na noite de estreia de seu "Concerto Duplo para Piano, Vibrafone e Orquestra", composto com a intenção de "borrar as fronteiras entre a música popular e a música clássica" (nas palavras do próprio autor). Interpretada por Mehmari, ao lado do vibrafonista Antonio Loureiro e da Sinfônica de Minas Gerais, com regência de Marcelo Ramos, a peça chama atenção por suas cadências repletas de improvisação – algo raro no universo da música sinfônica. 



Ainda muito pouco conhecido por aqui, o compositor e pianista Guillermo Klein (na foto à esquerda) certamente surpreendeu as plateias que acompanharam seus dois concertos no festival –- aliás, suas primeiras apresentações no Brasil. As melodias sedutoras e os ritmos complexos de composições como “Mariana”, “Venga” ou “Amor Profundo” sugerem que esse argentino radicado nos Estados Unidos é um dos nomes para se acompanhar com muita atenção na cena do jazz e da música instrumental contemporânea.

Emocionante também foi o concerto comandado pelo saxofonista e compositor Nivaldo Ornelas, que regeu a Jazz Mineiro Orquestra – formada por outros craques de diversas gerações da música instrumental mineira, como os guitarristas Juarez Moreira e Magno Alexandre, os saxofonistas Cleber Alves e Chico Amaral, o flautista Mauro Rodrigues, o baixista Kiko Mitre e o baterista Neném, entre outros, além da participação especial do guitarrista Toninho Horta. Em composições de Ornelas, como "Colheita do Trigo", "Eterna Amizade" ou "Choratta Quatuor", se ouviu a essência do lirismo da música de Minas Gerais. 


A música mineira também foi devidamente cultuada pelo guitarrista norte-americano Mike Moreno (na foto abaixo), que exibiu belas releituras de clássicos de Milton Nascimento (“Outubro”) e Toninho Horta (“Manuel, o Audaz”), tendo a seu lado o talentoso baixista Frederico Heliodoro, no show intitulado “NY Meets Minas” (Nova York Encontra Minas).

Outras associações entre músicos estrangeiros e locais, como o duo do baixista dinamarquês Jasper Høiby com o percussionista e compositor Antônio Loureiro ou a parceria do saxofonista Tiago Barros com o argentino Guillermo Klein (seu professor de composição), entre outras, só confirmaram o fato de que Belo Horizonte ostenta hoje uma das cenas de música instrumental mais prolíficas e criativas do país. 


Vale ressaltar que o Savassi Festival tem colaborado ativamente para o fortalecimento dessa cena musical, seja por meio dos workshops e residências artísticas que promove anualmente, assim como tem incentivado bastante o diálogo dos músicos locais com os estrangeiros.

Essencial também para o desenvolvimento das carreiras dos instrumentistas de Minas é a iniciativa de realizar edições do Savassi Festival em Nova York (como já se deu em 2013 e 2014), por meio de intercâmbios com escolas de música e universidades norte-americanas, como a Columbia University e a New York University Steinhardt. A edição nova-iorquina deste ano já está confirmada.

Essa internacionalização do festival, segundo Bruno Golgher, não vai se limitar aos Estados Unidos. Depois de contatos iniciais com o Instituto Cultural da Dinamarca, ele já está preparando um intercâmbio com o Norte Europeu. “Para se fazer um único show na Dinamarca são necessários cinco anos de trabalho. Se fôssemos ricos, isso certamente seria mais rápido, mas somos obrigados a usar estratégias de país de periferia. É o nosso jeito de fazer da pobreza uma virtude”, conclui o produtor, com a característica modéstia dos mineiros. 


No vídeo abaixo a homenagem de André Mehmari ao compositor Fernando Brant (1946-2015), em seu concerto no Palácio das Artes, na 13ª edição do Savassi Festival:



Savassi Festival 2015: evento agita Belo Horizonte com muita música instrumental e jazz

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João Bosco, o violonista, cantor e expoente da MPB, em um raro show jazzístico. A estreia mundial de um concerto do brilhante pianista e compositor André Mehmari, com a Sinfônica de Minas Gerais. Nivaldo Ornelas, mestre dos sopros, improvisando com a Jazz Mineiro Orquestra. O encontro de Gilson Peranzzetta com Cliff Korman, dois conceituados pianistas. Sem falar em apresentações de vários instrumentistas de projeção internacional, como o pianista argentino Guillermo Klein, o guitarrista norte-americano Mike Moreno, o baixista dinamarquês Jasper Høiby ou o pianista israelense Alon Nechushtan.

Esses são alguns destaques da 13ª edição do Savassi Festival, um dos maiores eventos do país dedicados ao jazz e à música instrumental contemporânea, que começa neste sábado (4/7), em Belo Horizonte. Mais de 60 atrações musicais vão ocupar teatros, casas noturnas, cafés, bares e praças da capital mineira até 12/7 (domingo). Grande parte dos ingressos para os concertos e atividades é gratuita.

Também se destacam, entre as atrações do evento, músicos e grupos de expressão na cena da música instrumental mineira, como o Uakti, a Orquestra Ouro Preto, a Big Band Palácio das Artes, o compositor e percussionista Antônio Loureiro, o baixista e guitarrista Frederico Heliodoro, o bandolinista Marcos Frederico e os pianistas Marcelo Magalhães, Bernardo Rodrigues e Igor Neves, entre outros.   


A programação deste ano será dividida em quatro eixos: Jazz no Teatro, com concertos em teatros e palcos consagrados de Belo Horizonte; Jazz Clube, com shows em casas noturnas e cafés; Jazz na Rua, com apresentações em praças e outros espaços públicos da cidade; Jazz Remixed, com DJs fazendo remixes de gravações de jazz ou tocando discos clássicos do gênero.   
Entre novos espaços e formatos, nessa extensa programação musical, até as crianças serão contempladas, na tarde de encerramento do Savassi Festival, em palco instalado na praça Floriano Peixoto. O programa criado especialmente para o público infantil destaca André Mehmari (na foto ao lado), tocando o repertório de seu disco “MPBaby: Clube da Esquina”. Em seguida, o saxofonista Nivaldo Ornelas e o pianista Cliff Korman apresentam o show “Isto É Jazz! Thelonious Monk Para os Pequenos”. Duas atrações que certamente serão disputadas até por adultos sem crianças em casa.

A programação completa está no site do festival: www.savassifestival.com.br




 

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