Banda Mantiqueira: novo disco da big band festeja 25 anos com Lubambo e Marsalis

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               Os saxofonistas Cássio Ferreira (esq. para dir.), Proveta, Josué dos Santos e Ubaldo Versolato  

Manter uma orquestra ativa durante 25 anos já é por si só uma proeza, mas os músicos da Banda Mantiqueira e seus fãs têm mais a comemorar com o lançamento do álbum "Com Alma". Basta ouvir algumas faixas para comprovar que a aventura iniciada por essa big band paulistana, em 1991, resultou em uma linguagem instrumental brasileira que não se fecha às enriquecedoras influências de outras tradições musicais.

“Nos últimos anos, conseguimos aprimorar uma concepção musical mais aberta, que promove um encontro da música popular brasileira com o jazz e a música clássica”, resume o clarinetista e saxofonista Nailor “Proveta” Azevedo, referindo-se ao período que sucedeu o lançamento de “Terra Amantiquira” (2005), o álbum anterior da orquestra.

Para quem sentiu falta de um novo disco da Banda Mantiqueira, na última década, o fundador e líder explica que vários de seus integrantes, assim como ele, têm dedicado mais tempo ao ensino musical, buscando transmitir a linguagem da banda às novas gerações. Paralelamente, a banda participou de projetos com talentosas intérpretes da canção brasileira, como Mônica Salmaso, Rosa Passos, Fabiana Cozza e Anaí Rosa.

“Passamos esses dez anos sem gravar outro disco, mas, por outro lado, a gente cresceu muito musicalmente. Tocar e conviver com outros músicos ajuda a amadurecer. Os projetos com essas cantoras, assim como nossas atividades pedagógicas, trouxeram mais experiência para os músicos da banda”, avalia Proveta.

“Com Alma” representa o fim de um ciclo musical na trajetória da Banda Mantiqueira. Por isso, segundo seu líder, a necessidade de revisitar no repertório do novo álbum um pouco dessa história. Criada no início dos anos 1990, em um apartamento do bairro paulistano de Bela Vista, onde Proveta morava com o trompetista Walmir Gil e os saxofonistas Cacá Malaquias e Ubaldo Versolato, a Banda Mantiqueira veio coroar as experiências desses músicos em formações anteriores, como a Banda Savana, a Banda Aquarius e a Sambop Brass.

Duas composições incluídas no álbum nasceram durante a fase inicial da banda. O frevo “Forrólins”, de Cacá Malaquias, é uma homenagem ao veterano saxofonista norte-americano Sonny Rollins. O arranjo de Proveta combina o contagiante ritmo do Nordeste brasileiro com fraseado e improvisos típicos do jazz. Também composto por Malaquias, o lírico “Chorinho pra Calazans” é dedicado ao artista plástico pernambucano J. Calazans. Se você sentir algo de impressionista no arranjo de Proveta, saiba que não é mera coincidência.

“Stanats”, composição que o pernambucano Moacir Santos (1926-2006) dedicou ao saxofonista norte-americano Stan Getz (1927-1991), foi arranjada por Proveta, em 1994, como uma homenagem ao nosso genial compositor e maestro que muitos brasileiros só descobriram neste século. “Foi incrível ter tocado esse arranjo para o Moacir, o homem que levou o ritmo afro-brasileiro para o jazz clássico, com o requinte da música clássica europeia”, comenta Proveta.

Padrinho da Banda Mantiqueira, o grande músico e compositor João Bosco também é homenageado com seu samba “De Frente Pro Crime”, em arranjo inédito de Proveta. Ao violão, em participação muito especial, surge o carioca Romero Lubambo, com o qual a banda já planejava fazer algo há tempos. Lubambo também é o solista na gravação de “Desafinado” (obra-prima de Tom Jobim e Newton Mendonça), em belíssimo e inédito arranjo de Edson José Alves, que ressalta a sofisticação harmônica da bossa nova e as influências da música clássica que Jobim assimilou em sua obra.

“Con Alma” – a composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do trompete e do jazz moderno, que inspirou o título deste álbum – ganhou cores de bossa nova e samba-canção, no arranjo de Edson José Alves. Além de contar com o violão de Lubambo, essa gravação destaca outro convidado muito especial: o trompetista norte-americano Wynton Marsalis.

O líder da Jazz at Lincoln Center Orchestra também participa da gravação de “Segura Ele”, clássico choro de Pixinguinha (1897-1973). “Quando convidei o Marsalis, disse a ele que essa música lembra um ragtime do Scott Joplin”, conta Proveta, que escreveu a primeira versão desse arranjo para a orquestra paulista Jazz Sinfônica, ainda na década passada.

“Sentimos a necessidade de revisitar a história da banda, para lembrar de encontros musicais que fizeram a diferença em nossas vidas”, comenta Proveta, sintetizando muito bem o conceito deste álbum, que tem tudo para repercutir tanto em nosso pais, como no exterior. Vivendo hoje uma fase de grande produção e primor artístico, a música instrumental brasileira reflete na original experiência dessa big band um exemplo a ser seguido pelas novas gerações.

Como outros admiradores da Banda Mantiqueira, cuja trajetória tive o prazer de acompanhar desde o início, posso declarar que escutá-la durante estes 25 anos também foi sempre algo muito especial.

(Texto para o encarte do disco "Com Alma", escrito a convite da Banda Mantiqueira)





Discos em 2016: música instrumental, MPB, jazz, soul e blues em 40 álbuns recomendados

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Como já tinha decidido em 2015, não vou postar uma lista de “melhores” discos do ano. A pulverização crescente da indústria fonográfica em inúmeros selos independentes e pequenas gravadoras tornou impraticável a tarefa de se acompanhar todos os lançamentos do mercado musical.

Mesmo no passado, quando aceitei participar de enquetes de “melhores do ano” a pedido de alguns jornais, eu já insistia em não estabelecer um ranking entre os discos ou artistas selecionados. Acho discutível a pretensão de se eleger um vencedor, em enquetes ou concursos, especialmente quando se trata de músicos, de discos ou canções. Por que um escolhido pelo gosto médio dos críticos deveria ser considerado “melhor” do que os outros?

Portanto, segue uma lista comentada de discos de música instrumental, jazz, MPB, soul e blues (em ordem alfabética, naturalmente), lançados em 2016, que eu recomendo. E já que estamos dando adeus a um ano marcado por tantos cortes, restrições e ajustes, decidi ampliar a lista deste ano para 40 recomendados. É uma maneira de fazer justiça à qualidade da produção musical em nosso país, mas também, reconheço, de facilitar um pouco a seleção, porque o número de lançamentos foi imenso.

Aproveito as últimas horas deste ano terrível para desejar a todos os leitores deste blog um 2017 bem melhor. Aliás, ouvir os 40 discos dessa lista pode contribuir para que o próximo ano seja bem mais inspirador. Aproveitem!  



40 discos de 2016 para ouvir mais em 2017  


 Alex Buck - “1011” (Água Forte/Tratore). O baterista e pianista paulistano reúne em álbum duplo composições calcadas nos estilos de 11 mestres da bateria no Brasil – de Edison Machado a Márcio Bahia. O ponto de partida foi uma pesquisa sobre o papel desse instrumento na evolução da linguagem de nossa música instrumental. Trabalho essencial para bateristas, que pode agradar a qualquer apreciador do gênero. 

Alexandre Ribeiro - “De Pé na Proa” (Borandá). Reconhecido como revelação nos círculos do choro, o clarinetista revela ousadia neste projeto solo. Ao utilizar recursos eletrônicos (pedal e harmonizador), Alexandre descobriu um novo universo sonoro para seu instrumento. Lembranças da infância no interior paulista inspiraram composições próprias, que conduzem o ouvinte por inusitadas viagens sonoras.

André Mehmari e Antonio Loureiro - “Mehmari Loureiro Duo” (Estúdio Monteverdi). Quem ouvir este álbum sem informações prévias vai custar a acreditar que se trata de um duo, tal é a variedade de timbres. Mehmari toca piano e outros oito instrumentos; Loureiro, vibrafone ou bateria – sem falar nos vocais de ambos. Entre belas composições próprias, os dois assinam uma espécie de suíte em seis “episódios”.

Arthur Dutra e Zé Nogueira - “Encontros” (Som Livre). O vibrafonista e o saxofonista são protagonistas de etéreos encontros, com participações de Bruno Aguilar (contrabaixo), Marcos Suzano (percussão), Lorrah Cortesi ou Guinga (voz). Além dos timbres incomuns na música instrumental brasileira, faixas como “Nambarai” (Didier Malherbe) ou “Dance with Waves” (Anouar Brahem) nos transportam ao Oriente.

Arthur Verocai - “No Voo do Urubu” (Sesc). Compositor e arranjador que submergiu em décadas de ostracismo, o carioca Arthur Verocai exibe outra bela coleção de canções e arranjos orquestrais. O heterodoxo elenco de parceiros e convidados reflete a eclética combinação de influências que compõem sua música: dos cantores Danilo Caymmi, Vinicius Cantuária e Seu Jorge aos rappers Mano Brown e Criolo.

"Coreia Brasil Project" (Núcleo Contemporâneo). O interesse do pianista Benjamim Taubkin pelas tradições musicais de outros países contribuiu para a realização de um encontro raro: ele, o percussionista Ari Colares e o violinista Ricardo Herz gravaram este álbum com o grupo coreano Jeong Ga Ak Hoe. As releituras da canção “Vera Cruz” (Milton Nascimento) e do baião “O Canto da Ema” chegam a surpreender. 


Dante Ozzetti - “Amazônia Órbita” (Circus). Depois de ser introduzido no universo musical da Amazônia pela cantora Patrícia Bastos, o violonista e arranjador paulista decidiu compor a partir de ritmos locais, como o carimbó, o lundu do Marajó e o samba de cacete, entre outros. Nos arranjos das dez faixas deste álbum, Dante combina sopros, cordas e recursos eletrônicos. O resultado é fascinante.

Duo Saraiva-Murray - “Galope” (Borandá). Excelentes violonistas, Chico Saraiva e Daniel Murray – ambos cariocas radicados em São Paulo – criaram o duo em 2009. Neste álbum, predominam composições de Saraiva, que revisita com personalidade gêneros tradicionais da música brasileira, como o samba, o choro e o baião. O repertório inclui ainda “Veleiros” (Villa-Lobos) e “Di Menor” (Guinga e Celso Viáfora).


Gian Correa - “Remistura7” (independente). Revelação na cena do choro, Gian comanda com seu violão de 7 cordas um sexteto afiado que inclui Josué dos Santos (sax soprano), Jota P (sax tenor), Vítor Alcântara (sax alto), Cesar Roversi (sax barítono) e Rafael Toledo (pandeiro). Uma formação instrumental incomum que realça as composições angulosas do líder e os arranjos com influências jazzísticas.

Gregory Porter - “Take Me to the Alley” (Blue Note/Universal) – Considerado uma das grandes revelações do jazz vocal nesta década, ele mesmo se define como um cantor de jazz com influências de soul, blues e gospel. Meio pregador, meio poeta, Gregory Porter confirma em seu quarto álbum que são mesmo essas influências, em especial o feeling típico da soul music, que mais identificam seu carismático estilo vocal.

Grupo Um - “Uma Lenda ao Vivo” (Sesc). O cultuado grupo instrumental paulistano voltou a se reunir em 2015, após um hiato de três décadas. Ao revisitar faixas do álbum “Marcha Sobre a Cidade”, Lelo Nazário (teclados), Zé Eduardo Nazário (percussão), Mauro Senise (sopros), Felix Wagner (clarone) e Frank Herzberg (baixo) resgatam a fórmula original do Grupo Um, que fundia jazz de vanguarda e música eletroacústica.


Izabel Padovani e Ronaldo Saggiorato - “Aquelas Coisas Todas” (independente). Músicos de alta categoria, a cantora paulista e o baixista gaúcho mantêm este duo surpreendente há uma década e meia. São capazes de deixar o ouvinte sem fôlego, em versões arrebatadoras de sambas, choros, baiões e outros ritmos brasileiros, assinados por Guinga, Jacó do Bandolim e Tom Jobim, entre outros.

João Donato - “Donato Elétrico” (Sesc). O projeto desta aventura musical se consolidou em 2014, quando o pianista acreano revisitou o repertório de seu álbum “Quem É Quem” (1973), no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Naquele show já estavam os músicos da banda Bixiga 70, presentes neste disco de composições inéditas de Donato, com instrumentação e arranjos que remetem a sonoridades dos anos 1970.

Juliana Cortes - “Gris” (Tratore). Adepta da “estética do frio” (idealizada pelo gaúcho Vitor Ramil), a cantora paranaense reúne em seu segundo álbum canções de Paulo Leminski, Leo Minax, Arrigo Barnabé e Dante Ozzetti (produtor do álbum), entre outros, que remetem às cidades de Curitiba, São Paulo e Buenos Aires, onde ocorreram as gravações. Belezas cinzentas realçadas pelo canto sofisticado de Juliana. 


Leandro Cabral - “Alfa” (independente). Um dos mais talentosos pianistas paulistas da nova geração, Leandro revela neste álbum sua intimidade com as linguagens do jazz e da bossa nova. Ao lado de Sidiel Vieira (baixo acústico) e Vitor Cabral (bateria), exibe composições próprias e interpreta com personalidade alguns clássicos, como “Rapaz de Bem” (Johnny Alf) e “Outra Vez” (Tom Jobim).

Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz - “A Saga da Travessia” (Sesc). O compositor e arranjador baiano criou a inovadora Orkestra Rumpilezz, em 2006, para preservar o conhecimento sobre a tradição percussiva afro-baiana. Não menos impactante, o segundo álbum da orquestra remete ao drama das diásporas africanas. Entre as oito composições de Leite, o ijexá “Professor Luminoso” homenageia Gilberto Gil.

Lívia e Arthur Nestrovski - “Pós Você e Eu” (Circus). Na contramão de tantas cantoras desafinadas que ouvimos por aí, Lívia interpreta clássicos da música brasileira e da canção norte-americana, além de parcerias de Luiz Tatit e Arthur Nestrovski – seu pai, que a acompanha ao violão. Com um belo timbre vocal, técnica e abertura para vários gêneros, ela está no caminho para se tornar uma ótima cantora. 


Louise Wooley - “Ressonâncias” (independente). A jovem pianista e compositora paulistana confirma a promissora impressão deixada por seu disco de estreia, em 2013. Ao lado de Jota P (sopros), Paulo Malheiros (trombone), Bruno Migotto (contrabaixo) e Daniel de Paula (bateria), Louise exibe belas composições, que combinam o lirismo das melodias com a liberdade dos improvisos. "A Caminho", tema que abre e encerra o disco, é de arrepiar.


Ludere - “Ludere” (Tratore). O nome (em latim) desse quarteto remete a brincar ou jogar, mas basta ouvir a primeira faixa para saber que o encontro do pianista Philippe Baden Powell (filho do grande violonista brasileiro) com Rubinho Antunes (trompete), Daniel de Paula (bateria) e Bruno Barbosa (baixo) é coisa séria. Em sete composições próprias, o grupo faz música instrumental de primeira linha.

Luiz Tatit - “Palavras e Sonhos” (Dabliú). Os fãs do grupo Rumo podem imaginar o que vão encontrar no sexto álbum do compositor paulistano. Praticando seu original “canto falado” Tatit apresenta, em novas canções, divertidos personagens: como a musa brega de “Diva Silva Reis” ou o centenário Matusalém, num foxtrote em parceria com Arthur Nestrovski. Canções que fazem sorrir e pensar.

Marco Pereira - “Dois Destinos” (Borandá). Um de nossos maiores violonistas, Marco Pereira homenageia um popular expoente do violão brasileiro: Dilermando Reis (1916-1977). Cercado de craques da cena instrumental, Pereira empresta elegância e dá um toque mais contemporâneo a clássicas composições do mestre, como o batuque “Xodó da Bahiana” ou os choros “Magoado” e “Gente Boa”.

Marcos Paiva e Daniel Grajew - “Bailado” (yb). O contrabaixista mineiro e o pianista paulista formam um duo contagiante e nada convencional. Nas nove faixas deste álbum, recriam temas dos clássicos Ernesto Nazareth (“Tenebroso”) e Anacleto de Medeiros (“Araribóia”). Também exibem sofisticadas composições próprias, inspiradas por danças urbanas do início do século 20 e repletas de improvisos.

Mauro Senise e Romero Lubambo - “Todo Sentimento” (Fina Flor). Duas décadas depois de gravarem o álbum “Paraty” (1997), o saxofonista Mauro Senise e o violonista Romero Lubambo reativam a telepática parceria iniciada ainda nos anos 1980. No repertório, além de composições próprias, releituras de clássicos da MPB assinados por Edu Lobo (que canta sua “Candeias”), Chico Buarque e Bororó.

"Mestrinho e Nicolas Krassic" (Biscoito Fino). Os dois se conheceram no início da década, ao tocarem com Gilberto Gil. O interesse comum por choro, samba e forró logo uniu o acordeonista sergipano e o violinista francês, que emprestam uma sonoridade rara a pérolas da música brasileira, como o arrebatado baião “Nilopolitanos”, de Dominguinhos, ou a lírica “Melodia Sentimental”, de Villa-Lobos. 



'Nailor Proveta - “Coreto no Leme” (independente). Como já fizera no belíssimo “Tocando Para o Interior” (2007), o clarinetista rebobina sons da infância passada em Leme, no interior paulista, resgatando a atmosfera dos coretos. Entre várias composições próprias, a “Suíte Encontros” (em três partes) remete a influências de Debussy, Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.

Nó em Pingo D’Água - “Sambantologia" (Biscoito Fino). Formado por craques da música instrumental brasileira, o quarteto carioca não ficou de fora dos festejos pelo centenário oficial do samba. Com arranjos inovadores, Celsinho Silva (percussão), Mário Séve (sopros), Rodrigo Lessa (bandolim) e Rogério Souza (violão) recriam clássicos do samba de várias épocas, de Noel Rosa a Tom Jobim e Moacir Santos.

Norah Jones - “Day Breaks” (Blue Note/Universal). E não é que a cantora e pianista norte-americana decidiu retornar ao jazz? Quatorze anos após seu disco de estreia (mais próximo do country do que do jazz, na verdade), que vendeu surpreendentes 11 milhões de cópias, ela soa mais à vontade ao lado de feras do jazz, como o saxofonista Wayne Shorter e o baterista Brian Blade. Bem-vinda de volta, Norah!

Pedro Miranda - “Samba Original” (independente). Da geração de sambistas associados à revitalização do bairro boêmio da Lapa, no Rio, o cantor e pandeirista interpreta sambas menos conhecidos de Wilson Batista, Nei Lopes e Roberto Mendes, entre outros. Participações dos guitarristas Arto Lindsay e Pedro Sá, em arranjos não convencionais, sugerem que Miranda já encara o samba sem tanta reverência.
 

Quinteto do Zé - “Sem Massagem” (independente). A formação do quinteto de Zé Barbeiro já sugere que seus choros não são tradicionais. Ao lado de César Roversi (saxofones), Makiko Yoneda (piano), Edu Malta (baixo) e Giba Favery (bateria), o inventivo violonista alagoano tem fixação por temas intrincados (não à toa um dos choros se chama “Sinuca de Bico”), em andamentos ligeiros. Isso sim é ser moderno!

Rafael Piccolotto de Lima e Orquestra Urbana - “Pelos Ares” (independente). Formada por craques da cena instrumental paulistana, a Orquestra Urbana interpreta sete composições de Rafael Piccolotto de Lima, maestro e professor assistente na Universidade de Miami. A composição que intitula o álbum destaca solos do saxofonista Ubaldo Versolato e do trompetista norte-americano Brian Lynch.

Raphael Wressing & Igor Prado, “The Soul Connection” (ZYX/Chico Blues). Um ouvinte desavisado vai se surpreender ao saber que este delicioso disco de soul e R&B nasceu do encontro de um organista austríaco com o trio de um guitarrista brasileiro. Aos talentos de Wressing e Prado, que contribuem com composições próprias, somam-se os vocais dos norte-americanos Willie Walker, David Hudson e Leon Beal.

Sandro Haick - “Forró do Haick - vol.1” (independente). Depois de tocar e viajar por 15 anos com o mestre da sanfona Dominguinhos (1941-2013), o guitarrista Sandro Haick decidiu cair de novo no forró. Ao lado de Lulinha Alencar (acordeon), Thiago Espírito Santo (baixo) e Jota P (sopros), entre outros, ele relê clássicos do gênero, com improvisos na linha da música instrumental e do jazz.

Teco Cardoso e Tiago Costa - “Erudito Popular... e Vice-versa” (Maritaca). Parceiros no quinteto Vento em Madeira, o saxofonista/flautista e o pianista também praticam em duo a liberdade de transitar entre os universos supostamente estanques da música popular e da erudita. Entre belas composições próprias, o repertório inclui também peças de Villa-Lobos, Moacir Santos, Carlos Gomes e John Williams. 


Toninho Ferragutti - “ A Gata Café” (Borandá). O eclético acordeonista queria um quinteto com sonoridade jazzística para gravar seu 10º álbum. Acertou em cheio ao reunir Cássio Ferreira (sax), Thiago Espírito Santo (baixo), Cleber Almeida (bateria) e Vinícius Gomes (violão), craques da nova geração. Ferragutti assina as dez faixas, repletas de belezas, diversidade rítmica e uma certa nostalgia.

Trio Corrente - “Volume 3” (independente). Quem já teve a sorte de ouvir ao vivo este trio sensacional sabe que o pianista Fabio Torres, o baterista Edu Ribeiro e o baixista Paulo Paulelli parecem se entender por telepatia. Neste álbum, mais uma coleção de inventivas releituras de clássicos da música popular brasileira, assinados por Dorival Caymmi, Chico Buarque e Tom Jobim, entre outros.

Tom Zé - “Canções Eróticas de Ninar” (Circus). Que outro compositor e cantor teria, aos 80 anos, a coragem de dedicar um disco à temática do sexo e seus tabus? Títulos como “Sobe ni Mim”, “Orgasmo Terceirizado” e “No Tempo em que Ainda Havia Moça Feia” já antecipam que Tom Zé aborda esse espinhoso assunto com a sagacidade, o humor e a irreverência que sempre marcaram suas canções.

Vanessa Moreno e Fi Maróstica - “Cores Vivas” (independente). O duo já existe há seis anos, mas, graças a este álbum dedicado exclusivamente à obra de Gilberto Gil, a cantora Vanessa Moreno e o baixista Fi Maróstica ampliaram suas plateias. Com energia e criatividade, os dois emprestam novos sabores e cores a sucessos do compositor, como “Extra”, “Palco” e “Toda Menina Baiana”.

Vânia Bastos e Marcos Paiva - “Concerto para Pixinguinha” (Atração). Não, não se trata de outro duo. Nesta homenagem a Pixinguinha (1897-1973), os vocais delicados de Vânia Bastos têm a companhia de um quarteto, liderado pelo baixista e arranjador Marcos Paiva, com César Roversi (sopros), Nelton Essi (vibrafone) e Jônatas Sansão (bateria). Aliás, nos choros “Cochichando” e “Displicente”, esse quarteto brilha sozinho.

Vitor Araújo - “Levaguiã Terê” (Natura Musical). De formação clássica, o jovem pianista pernambucano prova, neste ambicioso projeto de instrumentação sinfônica, que evoluiu. Com assumidas inspirações em Villa-Lobos e Tom Jobim, Araújo divide a longa peça que intitula o álbum em seis toques e seis cantos, misturando sons indígenas, percussões de ascendência africana e texturas orquestrais.   



Zéli Silva - “Agora É Sempre” (independente). Neste refinado disco de canções, o baixista e compositor paulistano mostra como os arranjos e um grupo de instrumentistas de alto quilate fazem diferença no resultado final. Ana Luiza, Vanessa Moreno, Lívia Nestrovski, Sergio Santos e Filó Machado são alguns dos intérpretes, muito bem escolhidos, que realçam as belezas do cancioneiro de Zéli Silva.

Sambalanço: livro de Tárik de Souza disseca a vertente dançante da bossa nova

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                                 Marco Mattoli (à esq.), líder da banda Clube do Balanço, e o cantor Orlandivo


Grande referência na crítica musical brasileira, o jornalista Tárik de Souza lança na próxima semana o livro “Sambalanço, a Bossa que Dança: um Mosaico”. Com a riqueza de detalhes e a escrita sofisticada que costumam caracterizar seus textos, ele disseca essa vertente suingada da bossa nova, que contagiou salões de dança durante as décadas de 1960 e 1970.

Orlandivo, Durval Ferreira, Eumir Deodato, Waltel Branco, Elza Soares, Doris Monteiro, Lafayette, João Donato e Marco Mattoli são alguns dos intérpretes, compositores, arranjadores e instrumentistas entrevistados longamente por Tárik para esse livro (o formato pingue-pongue, com perguntas e respostas completas, torna mais saborosa ainda a leitura dessas entrevistas).

O livro inclui também uma breve discografia do sambalanço (que alguns preferem chamar de samba de balanço ou apenas balanço) e uma coleção de verbetes que ilustram as obras e carreiras de outros cultores dessa vertente musical, como Djalma Ferreira, Ed Lincoln, Luiz Antonio, Miltinho e Walter Wanderley.

A pesquisa de Tárik, que se estendeu ao longo de uma década e meia, originou também um documentário. Dirigido pelo cineasta Fabiano Maciel (autor de “Niemeyer - A Vida É um Sopro”), o filme “Sambalanço, a Bossa que Dança” tem lançamento previsto para março de 2017.

Outra obra de Tárik está chegando ao mercado. Dividido em dois volumes, o livro “MPBambas” reúne as transcrições integrais das entrevistas que o jornalista realizou para a homônima série de TV do Canal Brasil, exibida de 2009 a 2014. Entre os entrevistados, no primeiro volume, estão Nana Caymmi, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Hermeto Pascoal, Johnny Alf e Milton Nascimento. Já no volume seguinte entraram Zeca Pagodinho, Dominguinhos, Gal Costa, Inezita Barroso e Carlos Lyra, entre outros.

Noites de autógrafos: dia 12/12 (segunda-feira), às 19h, na Bossa Nova e Companhia (r. Duvivier, 37, Copacabana, Rio); dia 14/12 (quarta), às 19h, na Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, Cerqueira César, São Paulo)



Delfeayo Marsalis: trombonista faz pensar e dançar com seu 'jazz para todos'

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O trombonista e compositor americano Delfeayo (pronuncia-se “delfíou”) Marsalis tem surpreendido fãs e colegas do meio musical com o recém lançado álbum “Make America Great Again”, cujo título remete ao slogan da campanha de Ronald Trump à presidência dos Estados Unidos. Tratando-se de um membro de um dos clãs musicais mais influentes na cena do jazz, conhecido por posições progressistas, o título desse disco causa estranhamento.

“Às vezes é preciso correr algum risco. Espero que as pessoas sejam atraídas pelo título do álbum e se animem a explorar minha música”, diz Marsalis ao "Valor", afirmando que não se preocupou com a possibilidade de ser mal compreendido. “Diferentemente da música pop, que diz logo o que pretende, o jazz é pensado para envolver as pessoas. É preciso mergulhar nessa música para entender o que está acontecendo”, comenta o jazzista de New Orleans, que vai se apresentar no clube paulistano Bourbon Street (em 24/11) e no festival gaúcho Canoas Jazz (26/11).

Ao ouvir a faixa que dá nome ao álbum, com participação especial do ator Wendell Pierce (outro nativo de New Orleans, que se destacou nas séries de TV “Tremé” e “The Wire”), logo se constata que o projeto de Marsalis não se afina com a propaganda republicana. Como um mestre de cerimônias, Pierce lê com ironia uma espécie de editorial do álbum, que desmonta o slogan de Trump para revelar seu oportunismo.

Apesar das alusões sociais e políticas, em termos musicais as composições e os arranjos de Marsalis para a Uptown Jazz Orchestra (que o acompanha no álbum) soam sofisticados e dançantes. Pouco têm a ver, por exemplo, com a música furiosa de Charles Mingus (1922-1979), que se tornou referência no universo jazzístico ao abordar o racismo e a violência contra os negros americanos.

“Meu país mudou muito desde os anos 1950 e 1960, quando Mingus denunciava a segregação racial. Embora eu acredite que ainda existe racismo no país, a sociedade americana evoluiu”, observa Marsalis. “Acho que minha música expressa a complexidade das relações raciais nos Estados Unidos de hoje. Alguns dizem que o jazz representa a liberdade dos negros, mas, na verdade, representa a liberdade de todos, sem distinções raciais. Foi graças a essa atitude que a música de Louis Armstrong se tornou tão grandiosa”.

Não é à toa que Marsalis se refere ao lendário trompetista e pioneiro do jazz, que tanto colaborou para a projeção internacional da cidade natal de ambos. “Meu objetivo principal, ao conceber esse álbum, foi captar o espírito e a alegria de New Orleans e de sua música. New Orleans é a cidade mais original dos Estados Unidos. Essa originalidade vem das tradições africanas que mantemos na música, na dança, na comida, na cultural em geral”, explica o compositor.

Consciente das mudanças enfrentadas pelos habitantes de sua cidade, especialmente após a devastadora passagem do furacão Katrina, em 2005, Marsalis aponta o risco de New Orleans vir a se tornar “uma Disneylândia”, em função da grande ênfase no turismo e do deslocamento das comunidades negras para áreas periféricas da cidade.

“Esse processo de gentrificação tem se manifestado em todo o país. Penso que os verdadeiros músicos de New Orleans buscam entender o que está acontecendo para poderem expressar essas mudanças musicalmente”, observa Marsalis, apontando o fato de certas tradições locais, como os funerais animados por bandas de jazz, não serem compreendidas pelos turistas. “Hoje as gerações mais jovens são egoístas e desrespeitam protocolos, mas temos que nos adaptar ao que acontece”.

Embora a precária situação econômica brasileira tenha impedido que Marsalis trouxesse sua orquestra, ele enfatiza que os shows com seu quinteto serão “grandes festas”. “Vamos tocar um repertório excitante, desde clássicos do jazz até composições mais recentes, inclusive algumas extraídas do novo álbum”, promete.

No grupo que vai acompanha-lo nessa breve turnê estarão o saxofonista Kahri Lee, o pianista Kyle Roussel e o baixista David Pulphus, todos talentosos integrantes da Uptown Jazz Orchestra. O quinteto se completa com o conceituado Marvin ‘Smitty’ Smith. “Ele é um dos grandes mestres da bateria atualmente. Vai ser muito bom tocar com ele”, festeja o líder.

Em São Paulo, a apresentação de Marsalis fará parte da programação comemorativa dos 23 anos do clube Bourbon Street, que também destaca o cantor e compositor Jorge Benjor (em 17 e 18/11), o trompetista James “Boogaloo” Bolden e a cantora Annika Chambers com a Igor Prado Band (23/11). Mais informações no site do Bourbon Street Music Club.


(Entrevista publicada no jornal "Valor Econômico", em 11/11/2016)






 

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