New Orleans Jazz Fest 2018: será que Aretha Franklin vai aparecer desta vez?

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Desde que a produção do New Orleans Jazz & Heritage Festival divulgou a programação oficial de sua 49ª edição, que será realizada de 27/4 a 6/5, os admiradores de Aretha Franklin (a maior intérprete da soul music, na opinião de críticos conceituados) já começaram a se perguntar: “Será que desta vez ela vai aparecer mesmo”?

A dúvida se justifica, já que a cantora (hoje com 75 anos) cancelou apresentações anunciadas nesse festival em 2009 e 2010. Para tranquilizar os frustrados fãs locais, Quint Davis, produtor do evento, avisou que desta vez ela reservou quatro dias de hotel na cidade e que terá a seu lado, no show do dia 28/4, uma banda grande com seção de sopros, piano de cauda, órgão e alguns vocalistas. Mais um detalhe importante: como Aretha tem medo de viajar de avião, segundo Davis, ela fará o percurso Detroit-New Orleans de ônibus.

A programação desta edição do Jazz Fest (é assim que a população de New Orleans o chama) destaca outros nomes de peso na área da soul music e do rhythm & blues, como o veterano compositor e cantor Smokey Robinson, a cantora Anita Baker, a banda Maze e o cantor e compositor Charlie Wilson (ex-The Gap Band). Sem falar em Irma Thomas, estrela local conhecida como “rainha do soul de New Orleans”. É ela quem abre o vídeo de divulgação do Jazz Fest 2018, cujo link está ao final deste texto.

Se você nunca esteve em New Orleans, ao ler entre os destaques do festival os nomes de vários medalhões da pop music e do rock, como Aerosmith, Sting, Jerry Lee Lewis, David Byrne, Beck, Jack White, Steve Miller Band ou Jack Johnson, pode ficar com uma impressão errada. Embora destine grande parte da programação de seus dois palcos maiores a atrações de rock e pop, o Jazz Fest reserva outros oito palcos ao jazz, ao blues, ao gospel, ao soul e ao rhythm and blues, à música caribenha, ao zydeco e outros ritmos da Louisiana -– ou seja, a todas as manifestações musicais que fazem parte da herança afro-americana nos Estados Unidos.

Por isso, entre os mais de 400 shows desta edição, há astros de vários gêneros da música negra: como os jazzistas Ron Carter, Dianne Reeves, Archie Shepp, Charles Lloyd, Marcus Miller, Terence Blanchard e Ellis Marsalis; os bluesmen Buddy Guy, John Mayall e a banda The Fabulous Thunderbirds; ou ainda carismáticas bandas locais, como Galactic, Dirty Dozen Brass Band, Soul Rebels, Big Sam’s Funky Nation, Bonerama e a Rebirth Brass Band, entre outras, que misturam vários ritmos em seus repertórios.

Aliás, é impressionante a variedade de gêneros musicais que são cultivados na cosmopolita New Orleans, quase sempre com alta qualidade. Não é à toa que mais de 90% da programação do Jazz Fest é reservada a atrações locais: do hip-hop da divertida banda Tank & The Bangas ao jazz contemporâneo do excelente quarteto Astral Project; do blues moderno de Walter “Wolfman” Washington ao irresistível funk da Ivan Neville’s Dumpstaphunk, que também estarão no programa desta edição.

No ano em que New Orleans comemora 300 anos, o Jazz Fest vai reservar seu último domingo para festejar essa efeméride. Também vai contar com o Pavilhão do Intercâmbio Cultural, onde acontecerá uma programação diária de shows, exposições e degustação de pratos típicos que remetem à influência de povos europeus, orientais e hispânicos na formação cultural da cidade.

Conheça a programação completa e outras informações sobre o 49º New Orleans Jazz & Heritage Festival no site oficial do evento: www.nojazzfest.com



Festivais em 2018: roteiro de eventos de jazz, música instrumental e blues pelo Brasil

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Aqui você encontra um roteiro com as atrações musicais dos principais festivais brasileiros já anunciados para 2018. É atualizado regularmente para que os fãs do jazz, da música instrumental brasileira, da bossa nova, do choro, do blues, do soul e da black music possam se programar com antecedência.  

                                                 Neneh Cherry, atração do Nublu Jazz Festival, em São Paulo


8.º Nublu Jazz Festival
Quando e onde: de 15 a 17/03/2018, no Sesc Pompeia e no Sesc São José dos Campos (SP)
Atrações:  Neneh Cherry, Morcheeba, Seun Kuti & Egypt 80, Shabaka Hutchings, Ilhan Ersahin, Kenny Wollesen, Dave Harrington, Bebel Gilberto, G T'Aime e outras. 
nublujazzfestival.com/

10.º Bourbon Festival Paraty
Quando e onde: de 25 a 27/05/2018, em Paraty (RJ)
Atrações: a serem divulgadas 
www.facebook.com/bourbonfestivalparaty

7.º Santos Jazz Festival
Quando e onde: de 26 a 29/07/2018, em Santos (SP)
Atrações: a serem divulgadaswww.santosjazzfestival.com.br/


























Festivais já realizados em 2018:


1.º Cunha Fest
Quando e onde: de 25 a 28/1/2018, em Cunha (SP)
Atrações: Serial Funkers convida Ed Motta, Big Time Orchestra convida Tiago Abravanel, Folk It All convida Leo Mancini, Trouble Doll convida Heloá Holanda, Fernando Rios - "Viva Tim e Ben", Vasco Faé, Orleans Street Jazz Band 
www.cunha.sp.gov.br

3.º Gravatá Jazz Festival
Quando e onde: de 10 a 13/02/2018, em Gravatá (PE)
Atrações: Earl Thomas & Just Groove com Igor Prado, Amaro Freitas Trio, Victor Biglione & Alma Thomas, Blues Etílicos, Uptown Blues Band, Blues Explosion (Gustavo Andrade e Jefferson Gonçalves), Quinteto Violado e outras 
www.facebook.com/gravatajazzfestival

19.º Festival Jazz & Blues 
Quando e onde: de 10 a 13/2/2018, em Guaramiranga (CE); 15 e 16/2/2018, em Fortaleza (CE)

Atrações: Dori Caymmi, Juarez Moreira, Arismar do Espírito Santo, Filó Machado, Adriano Grineberg, Gustavo Andrade e Jefferson Gonçalves, Filipe Catto, Waldonys com Big Band Unifor, Duo Estro Cuba, Davi Duarte, Nilton Fiore, André de Sousa, Gustavo Cocentino, Roberto Lessa, Rodrigo Morcego, Trio Guará, Netinho de Sá, Robertinho Marçal, Lu D'Sosa, Rebeca Cãmara, Natanael Pereira, Igor Ribeiro, Marilia Lima, Rafael Barbosa, Divas do Blues e outras

www.jazzeblues.com.br

Discos de 2017: 50 álbuns recomendados de jazz, música instrumental e MPB

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De cara já vou avisando: esta não é uma lista de “melhores” discos de 2017. São tantos os lançamentos na área musical, pulverizados hoje em inúmeros selos independentes e veiculados por meio de diversas plataformas digitais, que é praticamente impossível a qualquer critico ou jornalista especializado ter acesso a toda essa produção, seja no Brasil, muito menos no exterior. 

Na lista que segue, você também não vai encontrar aqueles artistas que os grandes veículos de informação tanto martelaram e ajudaram a divulgar durante o ano passado, geralmente por causa de seus supostos recordes de vendagem ou exposição massiva nas redes sociais, não por méritos musicais. Em três décadas de atividade como crítico especializado, jamais valorizei números de vendas, atitudes marqueteiras ou orientação sexual. Para mim, música tem a ver, antes de tudo, com melodia, harmonia, ritmo, poesia e sensibilidade.

Por isso, aqui vai uma lista com 50 álbuns de música instrumental brasileira, MPB, jazz ou até de música clássica, aos quais tive acesso durante 2017 e que eu recomendo com ênfase. São discos que merecem figurar nas coleções de qualquer um que aprecia essas vertentes musicais. Ou de quem está aberto a ampliar seus horizontes musicais. Aproveite!





Airto Moreira - “Aluê” (Sesc) – Só o fato de esse grande percussionista, catarinense radicado há cinco décadas nos EUA, jamais ter gravado um disco seu no Brasil, já faz desse projeto algo especial. Além de apresentar três composições inéditas, Airto revisita temas de seus discos, como “Misturada” e “Sea Horse”. 

Alessandro Kramer - “Alessandro Kramer Quarteto” (Borandá) – Não confunda este acordeonista e compositor gaúcho com os “gaiteiros” mais típicos dos pampas. Embora domine essa tradição musical, Alessandro se destaca por sua formação eclética, que inclui o choro, a música clássica e o jazz – aliás, improvisa como poucos.

Amaro Freitas - “Sangue Negro” (independente) – Para quem aprecia música instrumental, é muito estimulante ver surgir um talento como esse pianista e compositor pernambucano de 26 anos, que mistura referências jazzísticas e regionais. Seu inusitado frevo-balada “Subindo o Morro” é de uma beleza encantadora.

Amilton Godoy e Léa Freire - “A Mil Tons” (Maritaca) – A flautista paulista reverencia a obra do pianista e compositor, ex-integrante do lendário Zimbo Trio, tocando com ele em duo. No repertório, belezas de Amilton como “Santa Cecilia” e “Teus Olhos”, além das suingadas “Três Irmãos” e “Teste de Som”.

André Marques Sexteto - “DiverCidades” (independente) – O brilhante pianista paulista (integrante do grupo de Hermeto Pascoal) prossegue sua pesquisa de ritmos brasileiros. Cururu, catira, chacareira e maracatu são alguns dos ritmos que inspiraram as novas composições de André, que ele interpreta com seu sexteto.

Antônio Adolfo - “Hybrido - From Rio to Wayne Shorter” (AAM) – Muito bem acompanhado, o pianista carioca apresenta saborosos arranjos para composições Wayne Shorter, um dos grandes saxofonistas e autores do jazz norte-americano. Pérolas como “Ana Maria” e “Beauty and the Beast” ganham suingue brasileiro.

Antônio Meneses e André Mehmari - “AM 60 AM 40” (Sesc) – Para quem não acredita em fronteiras entre o que se convenciona chamar de música clássica e música popular, nada mais estimulante do que este encontro do cultuado violoncelista com o virtuose do piano. No repertório, peças de Bach, Piazzolla, Jobim e Mehmari.

Arismar do Espírito Santo - “Flor de Sal” (Maritaca) – A verve humorística desse grande músico paulista, multi-instrumentista e compositor, já vem expressa nos títulos de faixas que integram seu álbum. Quem mais batizaria composições como a saltitante “Saci de Crocs” ou o vertiginoso samba-jazz “Tubarão na Coleira”? 





Banda Mantiqueira - “Com Alma” (Sesc) – A big band paulista festeja 25 anos em grande estilo. Revisita composições próprias, homenageia os mestres Moacir Santos, Tom Jobim, João Bosco e Dizzy Gillespie. E conta com participações especiais do trompetista Wynton Marsalis e do violonista Romero Lubambo.

Benjamim Taubkin, Itamar Doari e João Taubkin - “O Pequeno Milagre de Cada Dia” (Núcleo Contemporâneo) – Quem já assistiu ao belo documentário “O Piano que Conversa” (de Marcelo Machado) vai reconhecer algumas destas sensíveis conversas musicais do pianista com a percussão do israelense Doari e o baixo de João.

Breno Ruiz - “Cantilenas Brasileiras” (independente) – Revelação na área da canção, o pianista e cantor de Sorocaba (SP) estreia com uma sólida coleção de composições. Entre choros e valsas, há até lundus e modinhas de sabor moderno, com letras assinadas por ninguém menos que Paulo César Pinheiro.

Carlos Ezequiel - “Circular” (independente/Tratore) – Jazz contemporâneo e música instrumental brasileira da melhor qualidade, no álbum desse baterista e compositor alagoano, que vive em São Paulo. O quinteto de Ezequiel destaca o saxofonista norte-americano David Binney e o guitarrista norueguês Lage Lund.

Chico Buarque - “Caravanas” (Biscoito Fino) – A espera de seis anos valeu. Em composições como a contagiante “Massarandupió” (parceria com o neto Chico Brown) e a impactante “As Caravanas”, que não deve nada às suas obras-primas, Chico Buarque mostrou a fãs e desafetos que continua a ser um craque da canção.

Cibele Codonho - “Afinidade” (Eldorado). A cantora paulistana, ex-integrante do grupo vocal A Três, interpreta com classe conhecidas canções de João Bosco, Milton Nascimento, Dori Caymmi e Ivan Lins, entre outros. Participações do violonista Filó Machado e do cantor Mark Kibble (do grupo vocal Take 6).

Cleber Almeida Septeto - “Música de Baterista” (independente) – Não se iluda pelo título. A música desse inventivo baterista, integrante do Trio Curupira, valoriza bastante melodias e harmonias, além dos ritmos. É o que revelam seus belos arranjos e composições como “Livre”, “Subjetiva” e “Vó Landa Vó Cema”.

David Feldman - “Horizonte” (independente) – Participações de Raul de Souza (trombone) e Toninho Horta (violão e voz) valorizam a arte desse pianista carioca. Faixas como a sensível “Navegar”, a balada “Tetê” e a bossa “Sliding Ways” provam que o talento de Feldman também se estende à área da composição. 



Deangelo Silva - “Downriver” (independente) – Mais uma revelação recente da fértil cena musical de Belo Horizonte (MG). Vencedor do prêmio BDMG Instrumental 2017, o pianista estreia em disco com repertório autoral, marcado por sofisticadas referências jazzísticas e admirável habilidade nos improvisos.

Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise - “Dos Navegantes” (Biscoito Fino) – Belezas de Edu, como “Valsa Brasileira” e “O Circo Místico” (parcerias com Chico Buarque), entre outras, ganham aqui versões despojadas, com o próprio autor e dois craques da música instrumental: Lubambo (violão) e Senise (flauta).

Fabiana Cozza - “Ay Amor!” (Biscoito Fino) – Ao gravar este tributo ao carismático “cantautor” cubano Bola de Nieve (1911-1971), a cantora paulista dá, literalmente, um show de interpretação. Difícil não se emocionar ao ouvir suas versões das pungentes canções “Vete de Mi” ou “Be Careful, It’s My Heart”.

Fábio Torres - “De Cara pro Sol” (independente) – Pianista do premiado Trio Corrente, Fábio reúne 11 composições em seu segundo álbum autoral. Aqui explora formações camerísticas e solos de piano. A balada “Caroline” e a valsante “Pra Esquecer das Coisas Úteis” são apenas algumas das belezas desse projeto.

Grooveria - “Moto Contínuo” (independente/Tratore) – O samba e a black music se misturam no terceiro álbum desse coletivo paulista. Em meio a contagiantes composições próprias, as releituras de “Jorge Maravilha” (Chico Buarque) e “Berimbau” (Baden e Vinicius) já fazem sucesso há anos nos shows da Grooveria.

Guinga + Quarteto Carlos Gomes - “Avenida Atlântica” (Sesc) – As cordas do Quarteto Carlos Gomes emprestam sonoridades clássicas a novos arranjos de composições de Guinga, como “Saci” e “Odalisca”. Reforçam também o tom emotivo de canções mais recentes, como a instrumental “Tom e Vinícius” e a belíssima “Meu Pai”.

Gustavo Bombonato - “Novos Horizontes Apontam” (independente) – Uma boa surpresa a estreia deste pianista de Votuporanga (SP). Tocando composições próprias, como as jazzísticas “Cone de Fogo” e “Mr. Spaik”, ele traz a seu lado músicos de alto quilate, como Nenê (bateria) e Alberto Luccas (contrabaixo). 



Heloísa Fernandes - “Faces” (Borandá) – A talentosa pianista paulista criou o material desse álbum e o gravou depois de enfrentar risco de morte. Assim nasceram composições como “Mergulho” e “As Três Graças”, que revelam a sensibilidade e a habilidade de Heloísa para improvisar, com emoção à flor da pele.

Hermeto Pascoal & Big Band - “Natureza Universal” (Natura Musical) – Ausente dos estúdios havia 15 anos, o genial bruxo de Lagoa da Canoa (AL) lançou dois álbuns em 2017. Aqui sua “música universal” é traduzida para o formato orquestral. A imagem de seu discípulo Jovino Neto é perfeita: uma cachoeira de sons.

Hermeto Pascoal & Grupo - “No Mundo dos Sons” (Sesc) – Neste álbum duplo, Hermeto toca com os ótimos músicos de seu sexteto. Entre as 18 faixas há homenagens a Miles Davis, Tom Jobim, Ron Carter, Chick Corea e Astor Piazzolla. Depois de um longo hiato sem discos do bruxo, nada como ouvi-lo em dose dupla.

Igor Willcox - “#1” (independente) – O jazz de fusão dos anos 1970 e 1980 é a referência para várias das faixas do primeiro álbum do baterista e compositor paulista. Com participação especial do trombonista Bocato e o órgão de Vini Morales, o jazz-soul “Julie’s Blues” é uma das faixas mais contagiantes.

Isca de Polícia - “Isca - Volume 1” (Elo/Tratore) – A banda do incrível Itamar Assumpção (1949-2003) lança o primeiro disco sem ele. Fiel ao espírito musical de seu mentor, mas sem saudosismo, a Isca segue em frente com canções próprias e parcerias com Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro.

Jaques Morelenbaum, Marcos Suzano, Benjamim Taubkin e outros - “Música na Serrinha” (Nucleo Contemporâneo) – Músicos de diversos países criando coletivamente durante o Festival de Artes da Serrinha (2015). Inclui DVD com documentário de Marcelo Machado, que registrou essa vivência artística.  



Jovino Santos Neto e André Mehmari - “Guris” (Adventure Music) – A ideia é inusitada: dois grandes pianistas celebram em duo a música de Hermeto Pascoal. No repertório, clássicos do bruxo, como “Aquela Valsa” e “Igrejinha”, além de composições de Jovino e André. O próprio homenageado surge em três faixas.

Lilian Carmona, “The First” (Sesc) – Primeiro álbum da experiente baterista paulista. Os saborosos arranjos de Débora Gurgel, Julinho Figueiredo, Pablo Zumarán e Bruno Alves para o bem escolhido repertório, assim como as feras que integram a banda, explicam a vontade de se ouvir este disco outras vezes.

Makiko Yoneda - “Brasileirismo” (independente) – Japonesa radicada em São Paulo, a pianista e compositora confirma sua afinidade com a música instrumental brasileira. Acompanhada por Jamil Joanes (baixo) e Marcio Bahia (bateria), craques do gênero, ela mistura ritmos brasileiros e referências clássicas com sensibilidade.

Mani Padme Trio - “Vô o” (Baticum) - Cubano que escolheu São Paulo para viver, o pianista Yaniel Matos integra esse inventivo trio com o baixista Sidiel Vieira e o baterista Ricardo Mosca. Com sentimento e bastante liberdade, eles releem canções de Milton Nascimento e Dorival Caymmi, assim como tocam material autoral.

Mário Adnet - Saudade Maravilhosa” (Sesc) – Uns dos grandes arranjadores brasileiros, Adnet exibe neste álbum belas composições de sua autoria, acompanhado por músicos cariocas do primeiro time. Completando o repertório, arranjos de “Viver de Amor” (Toninho Horta e Ronaldo Bastos) e “Caravan” (Ellington).

Marcus Santurys, Luiz Bueno e Alexandre Lora - “Gangha Indian Groove” (Fine Music). A instrumentação, com cítara e tablas, é típica da música indiana tradicional, mas o repertório é inusitado. “Raga Blues” e “Samba da Áurea” estão entre as surpresas oferecidas por esse trio adepto de fusões contemporâneas. 




Monica Salmaso - “Caipira” (Biscoito Fino) – A cantora paulista garimpou mais uma coleção de pérolas. Canções que remetem ao universo caipira, assinadas por Cartola, Passoca, Gilberto Gil e Roque Ferreira, entre outros, ganham brilho especial graças aos arranjados despojados e ao canto sublime de Monica.

Nelson Ayres e Ricardo Herz - “Duo” (independente) – Um inspirado encontro de duas gerações da música instrumental brasileira. O pianista e o violinista (cujo trio também lançou neste ano o ótimo álbum “Torcendo a Terra”) tocam composições próprias, como a lírica “Céu de Outono” (Ayres) e a “Valsa Tímida” (Herz).

Neymar Dias - “Feels Bach” (Estúdio Monteverdi/ Tratore) – Depois de interpretar canções dos Beatles com sua viola caipira, o virtuoso violeiro e contrabaixista encara o desafio de dedicar um álbum a obras de Bach (1685-1750). E não é que ele consegue que a viola soe barroca sem perder seu sotaque caipira?

Pó de Café - “Terra” (independente) – O grupo instrumental de Ribeirão Preto (SP) tem se superado a cada álbum. Desta vez recria pérolas da canção caipira, usando sonoridades jazzísticas e muita improvisação. A releitura da moda de viola “Rio de Lágrimas” (de Tião Carreiro, Piraci e Santos) é uma delícia.

Prettos - “Essência da Origem” (independente) – Craques do samba paulista, Magnu Sousá e Maurilio de Oliveira comandavam o Quinteto em Branco e Preto. Agora em dupla, eles celebram a diversidade desse gênero musical, em composições que vão do partido alto ao sambalanço, incluindo até influências da black music.

Rafa Castro - “Fronteira” (independente) – “Casulo”, a primeira faixa, já estimula a atenção do ouvinte com sua atmosfera de sonho. Participações especiais de Monica Salmaso (voz) e Teco Cardoso (sax soprano) referendam a música inventiva desse compositor e vocalista mineiro, que traz Milton Nascimento entre suas influências.

Rafael Martini - “Suíte Onírica” (independente) – Este projeto do talentoso compositor mineiro é ambicioso, no melhor sentido do termo: uma suíte em cinco movimentos, que se referem aos estágios do sono. Martini conta com um coral e a Orquestra Sinfônica da Venezuela. O (delirante) texto é assinado por Makely Ka.

Renato Borghetti e Yamandu Costa - “Borghetti Yamandu” (Natura Musical) – Encontro de dois brilhantes instrumentistas gaúchos. O gaiteiro e o violonista mergulham com virtuosismo na tradição musical dos pampas, tocando rancheiras e temas folclóricos, como “Prenda Minha”, além de composições de Borghetti.

Theo de Barros - “Tatanaguê” (independente) – Autor da clássica “Disparada” (com Geraldo Vandré), o compositor carioca mostra outras belas canções – 13 delas letradas por Paulo César Pinheiro. A escolha do cantor Renato Braz para interpretar quase todas soa perfeita, assim como a participação de Monica Salmaso.




Tulio Araujo - “Monduland” (independente) – Na música cosmopolita desse percussionista mineiro, o pandeiro é protagonista. Clássicos choros de Pixinguinha (“Um a Zero”) e Garoto (“Lamentos do Morro”) dividem o repertório do álbum com composições de Araújo, cujos arranjos revelam influências jazzísticas. 

Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta - “Dorival” (Pau Brasil) – Esses craques da música instrumental recriam com muita liberdade clássicos de Dorival Caymmi, como “Dora” e Só Louco”. Vale lembrar que, duas décadas atrás, esse mesmo quarteto gravou o cultuado álbum “Forças D’Alma”.

Vento em Madeira - “Arraial” (Maritaca) – A sensação de prazer ao tocar, que esse quinteto paulista transmite em suas apresentações, também está estampada em seu terceiro álbum. Faixas como “Samba do Lana” e “Pintou Um Grilo” (composições da flautista Lea Freire”) revelam alegria pura em forma de música.

Vinícius Gomes - “Resiliência” (Blaxtream) – À frente de seu quinteto formado por outros craques da cena instrumental paulistana, o talentoso guitarrista e violonista assina as 10 faixas de seu primeiro álbum autoral. Emoções garantidas ao se ouvir a nervosa “Êxodo” (com Fernando Amaro) e a lírica “Ano Novo”.

Xenia França - “Xenia” (Natura Musical) – Baiana radicada em São Paulo, ela ainda é mais conhecida como vocalista da banda Aláfia. Neste estimulante álbum solo, recheado de referências da black music, da percussão afro-baiana e até do jazz, Xênia aborda com leveza temas como racismo e emancipação feminina.

Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum - “Invento +” (Biscoito Fino) – Não leve o título do álbum à risca. A cantora e o violoncelista interpretam 14 canções de Milton Nascimento, num projeto marcado pela simplicidade. Ainda assim as despojadas releituras da dupla realçam belezas menos evidentes desse precioso repertório.


14º Bourbon Street Fest: evento enfrenta a crise econômica com edição compacta

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                                                  O guitarrista Kenny Brown, da banda Tony Hall & The Heroes 

Em meio às dificuldades econômicas que continuam abatendo o país, a 14ª edição do Bourbon Street Fest, que começa hoje, é uma demonstração de resistência do setor cultural. Forçado a cancelar sua edição de 2016 por falta de patrocínio, o festival produzido pela casa noturna paulistana Bourbon Street Music Club retorna neste ano com um programa mais compacto, sem abrir mão de sua proposta original: trazer ao país a rica diversidade da música criada em New Orleans.

A atração de hoje (30/11), às 22h30, no palco do Bourbon Street, é o baixista e cantor Tony Hall, que volta a São Paulo à frente de banda The Heroes. Com um currículo invejável, que inclui participações em shows e gravações de grandes ídolos da música negra, de B.B. King e Stevie Wonder a George Clinton e Neville Brothers, Hall traz um repertório dançante e calcado no rhythm & blues e no funk ao estilo de New Orleans. Sua banda inclui outros craques da cena musical dessa cidade da Louisiana, como Kurt Brunus (teclados), Kenny Brown (guitarra) e Raymond Weber (bateria).

Outra atração já bem conhecida pelos frequentadores do Bourbon Street se apresenta na sexta-feira (1º/12), no clube paulistano. O trio vocal Mahogany Blue destaca Lanita May, Doreen Carter e Yadonna West, cantoras com vozes poderosas. Elas interpretam clássicos da soul music, do rhythm & blues e do pop norte-americano, em versões que revelam influências da música gospel que cantavam em igrejas de New Orleans.

Como é de hábito, o encerramento do Bourbon Street Fest 2017 será gratuito e ao ar livre, domingo (3/12), a partir das 16h, no Parque do Ibirapuera. Além de novas apresentações de Tony Hall & The Heroes e do trio Mahogany Blues, o programa inclui ainda a Orleans Street Jazz Band, banda de rua ao estilo de New Orleans, que circula pela plateia tocando temas conhecidos, inclusive da música brasileira.

O festival é produzido pela equipe do Bourbon Street Music Club, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura. Também conta com apoio do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo e do New Orleans Convention & Visitors Bureau.


Outras informações em www.facebook.com/bourbonstreetfest

João Marcos Coelho: crítico analisa e incentiva a 'música de invenção' em novo livro

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O jornalista João Marcos Coelho (foto acima), grande referência no campo da crítica musical em nosso país, apresenta em seu novo livro uma proposta que muitos apreciadores da música contemporânea certamente aplaudiriam. Maestros, orquestras e intérpretes preguiçosos, que insistem em repetir nas salas de concerto os mesmos clichês do repertório clássico, como “As Quatro Estações” de Vivaldi, a “Nona Sinfonia” de Beethoven ou “Quadros de Uma Exposição” de Mussorgsky, deveriam ser taxados com um imposto que seria revertido à realização de projetos de música contemporânea. 

“Sei que extrapolo ao propor um novo imposto”, escreve Coelho, que não abre mão da ironia e do humor fino nos reveladores textos reunidos no livro “Pensando as Músicas no Século XXI” (lançamento da Editora Perspectiva). “Sei também que só me cabe, como crítico jornalístico, a tarefa de desmontar no dia a dia a narcótica engrenagem da vida musical convencional, cuja matriz magna são as instituições maiores, as orquestras sinfônicas, que embalam o público como se fosse composto de crianças sempre a fim de ouvir um milhão de vezes a mesma obra”. 

De cara, em seu texto de apresentação do livro, Coelho sintetiza em que consiste a “duríssima” vida de um crítico musical. “Ele tem de atuar simultaneamente em duas frentes: como catalisador, deve examinar e descartar o lixo sonoro que nos cerca, filtrando e incentivando a música de qualidade; e, como provocador, tem de surpreender os padrões do gosto, tirar os leitores da zona de conforto, levá-los a experimentar, descobrir o novo”. Para os estudantes de jornalismo, ou mesmo colegas de profissão mais jovens que ainda se perguntam qual é exatamente a função de um crítico musical, aí está uma definição prática e precisa. 

Publicados a partir de 2009 originalmente nos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Valor Econômico”, ou nas revistas “Bravo” e Concerto”, os 101 ensaios, resenhas e críticas de discos e concertos reunidos no livro de Coelho não abrangem apenas o universo da música clássica ou contemporânea -- de Brahms e Wagner a Stravinski e Boulez. Abordam também o jazz de Thelonious Monk, John Coltrane, Keith Jarrett e Quincy Jones, assim como abrem espaço para artistas que flertaram com esse gênero musical, como o ator, bailarino e cantor Fred Astaire ou o arranjador e compositor de trilhas sonoras Henry Mancini. 

Praticante da bem-humorada distinção do pianista e compositor Duke Ellington (“Existem dois tipos de música: a boa música e a de outro tipo”), Coelho vai buscar, sem preconceitos, a música que merece ser ouvida e analisada nos mais diversos gêneros --  sejam as canções pungentes do “cantautor” cubano Bola de Nieve (1911-1971), a música instrumental brasileira de Egberto Gismonti ou os blues do cantor e pianista norte-americano Mose Allison (1927-2016). 

Em outras palavras, o que interessa a João Marcos Coelho é a música feita com criatividade, a “música de invenção”, que nada tem a ver, de modo geral, com a música descartável, fabricada para alimentar as paradas de sucesso ou a programação das rádios comerciais. Um exemplo a ser seguido também por aqueles que ainda insistem na preconceituosa e arcaica polêmica das fronteiras entre a música erudita e a popular.


Heloísa Fernandes: a música à flor da pele da pianista e compositora no álbum "Faces"

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                                                                               Heloísa Fernandes - Foto de William Struhs

Heloisa Fernandes viveu uma situação-limite. No final de 2014, poucos meses antes de gravar “Faces”, seu terceiro álbum, a pianista e compositora foi hospitalizada às pressas. Com uma infecção generalizada, por pouco não perdeu a vida. “Depois de passar pelo que passei, hoje valorizo cada novo dia. Este disco é uma luz para mim, porque representa meu renascimento”, ela comemora.

Uma das mais talentosas pianistas reveladas durante este século na cena da música instrumental brasileira, Heloísa nasceu em Presidente Prudente (SP). Paulo Gori e Gilberto Tinetti foram seus principais mestres de piano. Formada em regência pelo Centro de Estudos Tom Jobim, despontou em 2001 como finalista do conceituado Prêmio Visa de Música Brasileira. Já realizou parcerias com músicos de renome, como Naná Vasconcelos, Zeca Assumpção e Gil Jardim. Desde 2004 sua música também vem sendo elogiada no exterior.  

A história do álbum “Faces” (lançamento com o selo de qualidade Borandá) teve início em abril de 2014, quando ela realizou uma turnê pelos Estados Unidos. “Ao tocar em Chicago, na sala de concertos da PianoForte Foundation, encontrei um piano fantástico, um Fazioli. O som daquele piano era tão lindo que fiquei arrepiada quando toquei os primeiros acordes”, conta. Logo após a apresentação, Thomas Zoells (promotor de concertos e dono da sala, que também dispõe de um estúdio de gravação) a convidou a retornar no dia seguinte para gravar um disco. 

“Ninguém jamais havia conduzido nosso Fazioli a sons tão incríveis, nem havíamos tido em nosso programa uma sonoridade tão poética e afetiva”, elogiou o suíço, justificando o convite imediato que fez à pianista, em depoimento incluído no encarte do disco. [

Mais interessada em registrar material inédito, Heloísa sugeriu a Zoells adiar a gravação para março de 2015, quando poderia voltar a Chicago com novas composições. No entanto, a inesperada doença arrefeceu seu ânimo. Sentindo-se sem condições físicas para realizar a gravação, chegou a pensar em desistir do projeto.

“Mas as estrelas já tinham se alinhado e eu não sabia. O querido André Magalhães, produtor dos meus discos ‘Fruto’ e ‘Candeias’, me contou que estaria em Chicago, coincidentemente, no mesmo período da gravação. Ele me convenceu a manter as datas. Disse que iria produzir o disco, que estava tudo certo”, relembra. “Isso me fez acreditar que o universo estava conspirando para que essa gravação acontecesse, desde o meu encantamento com o piano Fazioli e o convite de Thomas Zoells até a presença iluminada do André na produção”. 

Nos quatro meses que precederam as gravações do álbum, Heloisa mergulhou fundo no processo de composição. “Fui construindo vários temas, com total liberdade para improvisar. Eu sabia mais ou menos para onde iria durante as improvisações, mas me dei liberdade absoluta para encontrar novas coisas. Queria fazer uma música viva e para isso tinha que correr riscos”, reflete a pianista, que combina em suas composições influências da música clássica e da música popular brasileira com muita improvisação – o recurso criativo mais característico do jazz. 

As inéditas composições que Heloísa exibe em “Faces” nasceram, segundo ela, a partir de sentimentos que brotaram durante o período em que adoeceu. “Batizei cada peça, no início de sua criação, com o nome de uma emoção, um sentimento”, relembra. Posteriormente, formatou e rebatizou seis dessas composições em duas suítes. A lírica “As Três Graças” refere-se a deusas da mitologia grega que simbolizam o feminino – Aglaia, Thalia e Euphrosyne representam, respectivamente, a claridade, a fertilidade e a alegria. “Rios”, a emotiva suíte que encerra o álbum, retoma alguns elementos das peças anteriores. 

Outra composição inédita é a impactante “Mergulho”, que começa com a pianista extraindo sons inusitados, ao percutir diretamente as cordas do instrumento. É também a única faixa do álbum em que Heloísa utiliza a voz para improvisar, criando belas melodias. A inspiração dessa composição, segundo ela, veio de obras do acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, produto do revolucionário trabalho da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). “Como é que pessoas esquizofrênicas, consideradas loucas, podem fazer coisas tão incríveis?”, comenta a compositora. 

Já a faixa de abertura do álbum combina “Colheita” (releitura de uma composição de Heloísa que fez parte de “Fruto”, seu álbum de estreia, lançado em 2005) com uma delicada releitura instrumental de “Caicó” (canção folclórica já gravada por Milton Nascimento e Dominguinhos, entre outros). 

“Eu estava com a sensibilidade à flor da pele”, comenta a pianista, que durante o processo de criação dessas composições chegou a pensar que seu álbum resultaria em uma espécie de autorretrato musical. “Depois percebi que vivi um processo de transformação: minha vida estava sendo transformada em música”, conclui. 

Versos de um poema do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, que Heloísa utilizou como epígrafe para seu álbum, sintetizam como ela interpreta hoje essas composições, nascidas em um período difícil, mas sublimadas com muita sensibilidade e arte. “Dar uma emoção a cada personagem, a cada estado de alma uma alma”.

Texto escrito a convite da gravadora Borandá




Grooveria: coletivo musical reforça trabalho autoral no contagiante álbum "Moto Contínuo"

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                                        Tuto Ferraz (no centro) e o coletivo Grooveria / Foto de divulgação                    

Quem conheceu a Grooveria nas concorridas jams do clube paulistano Na Mata Café durante a década passada, ou a ouviu mais tarde em apresentações por várias capitais do país, já sabe porque esse coletivo de São Paulo tornou-se uma referência para quem curte música dançante da melhor qualidade.

Essa sólida trajetória de 16 anos está muito bem representada em “Moto Contínuo”, o terceiro álbum do coletivo musical criado e comandado pelo baterista, compositor e arranjador Tuto Ferraz. Releituras dançantes de clássicos da MPB e composições próprias que misturam influências do samba e da black music resultam em uma receita musical aprimorada a cada nova apresentação.

“Acho legal fazer a releitura de um clássico, para que a galera de hoje possa ouvi-lo com uma pegada mais atual”, comenta o líder da Grooveria, referindo-se a faixas do álbum, como o afro-samba “Berimbau” (de Baden Powell e Vinicius de Moraes), que destaca a cantora Fernanda Abreu, ou a popular canção “Ponteio” (de Edu Lobo e Capinan), com participação de Walmir Borges, nos vocais. Ambas reaparecem em novas versões, depois de serem tocadas durante anos nos shows da Grooveria.


Mart’nália e Fernanda Abreu

Já a saborosa releitura do samba “Jorge Maravilha” (de Chico Buarque), cuja base rítmica foi gravada ainda em 2012, ficou anos na gaveta até que Tuto tivesse a ideia de convidar Mart’nália para canta-la. “Era o que estava faltando. Mart’nália arrebentou na gravação”, comenta o arranjador e baterista. Outra boa sacada dessa versão, já quase ao final da faixa, é a citação de um conhecido riff de metais da banda do soulman norte-americano James Brown.

O fã mais atento vai logo notar que, se antes as releituras predominavam no repertório da Grooveria, agora as composições próprias comparecem em número bem maior. “Funky Night”, um irresistível disco-funk instrumental assinado por Tuto que abre o álbum, homenageia o arranjador e tecladista Lincoln Olivetti, craque do gênero. O líder da Grooveria não deixou por menos: para reviver a original sonoridade dos metais nos arranjos de Olivetti, foi buscar no Rio o naipe de sopros que tocou com ele até sua morte prematura, em 2015.

Outra favorita dos dançarinos nos shows da Grooveria durante os últimos anos é “Alright”, funk que aparece no álbum em versões em inglês e em português (“Chapando no Groove”). Essa composição de Tuto também ficou guardada durante alguns anos até 2012, quando ele decidiu procurar Fernanda Abreu (os dois ainda não se conheciam) para convidá-la a escrever a letra. Hoje musa e parceira de vida do baterista, a cantora carioca gravou essa faixa, além de todos os vocais de apoio do álbum.  


Black music e MPB

Assim como reconhece a marcante influência que recebeu da black music, mencionando a banda Earth, Wind and Fire e o guitarrista Nile Rodgers entre seus favoritos no gênero, Tuto também destaca a importância dos ritmos brasileiros em sua formação. Graças às discotecas de seus pais e de sua irmã mais velha, cresceu ouvindo muita MPB, especialmente as canções dos compositores mineiros do Clube da Esquina e os sambas de Chico Buarque, João Bosco e Djavan. Nada mais natural, portanto, que ele inclua no repertório do novo álbum da Grooveria quatro sambas de sua autoria, compostos com diversos parceiros.

Com o próprio Tuto no vocal e versos que remetem à falta de participação da sociedade brasileira na difícil situação que atravessamos (“Eu quero ver você fazer alguma coisa pra virar um sim /eu quero ver você gritar, espernear, mas não deixar barato assim”), o samba “Eu Quero Ver” soa clássico. Poderia até ter sido composto na década de 1970, assim como tem potencial de se tornar um hino para aqueles que realmente desejam um país livre da corrupção e da roubalheira generalizada.

Os sambas-funks “Vim” (com participação especial do guitarrista Claudio Zoli), “Menina Morena” (com vocais de Rogê) e “Sambou” (cantado por Jota Erre) confirmam a profunda intimidade da Grooveria com as pistas de dança. “Essas músicas refletem aqueles anos em que a gente tocava muito em baladas de clubes”, comenta Tuto, consciente de que seu coletivo está preparado para ingressar em uma nova fase.

Muito bem produzido, o terceiro álbum da Grooveria confirma sua evolução musical, assim como o fato de que esse coletivo já possui um trabalho autoral e experiência mais que suficiente para se apresentar em festivais e salas de espetáculos. Essa criativa fábrica de grooves está pronta – e merece – ser ouvida por plateias bem mais amplas. No Brasil e pelo mundo afora.




 

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