Al Jarreau: cantor homenageia tecladista George Duke em novo álbum

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                                                                                        George Duke e Al Jarreau

Homenagens póstumas costumam ser melancólicas ou mesmo piegas. Al Jarreau não caiu nessa armadilha sentimental: ao dedicar o álbum “My Old Friend” (lançamento Concord/Universal) ao tecladista George Duke (1946-2013), o cantor norte-americano selecionou nove composições de seu antigo parceiro que representam bem a eclética concepção musical de ambos – do jazz ao soul e ao R&B, passando até por ritmos latinos.
 
Ao gravar esse repertório, Jarreau convocou outros intérpretes afinados com seu universo musical, como as cantoras Dianne Reeves, Lalah Hathaway e Kelly Price, o pianista Dr. John e o saxofonista Gerald Albright. Um desavisado talvez nem perceba a intenção da homenagem, ao ouvir a dançante “Every Reason to Smile”, com participação do cantor Jeffrey Osborne, ou a romântica “Bring Me Joy”, com o próprio Duke nos teclados. Um músico como ele, que quase sempre privilegiou a alegria e a dança em sua obra, não poderia ser lembrado de outra forma.

(resenha publicada no "Guia Folha - edição de 27/9/2014)



Luiz Macedo: humor fino e canções hilárias no CD "Orchestra Electromagnética"

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Se você acha que humor e música levada a sério não têm nada em comum, precisa ouvir as composições e os arranjos de Luiz Macedo. Especialista em trilhas sonoras, esse ex-integrante das bandas Sossega Leão, Heartbreakers e Karnak exibe no divertido álbum “Orchestra Electromagnética” (lançamento Jukebox/Tratore) uma heterodoxa mistura de gêneros e estilos musicais: rock’n’roll, swing, música eletrônica, xaxado, funk, choro.

O disco inclui algumas canções hilárias, como o suingado samba “Dr. Peçanha in London” (na interpretação malandra de Skowa) ou a eletrônica “Proparoxigênio” (com o vozeirão de André Abujamra modificado por “auto-tune”). O humor fino de Macedo também está presente até em faixas instrumentais, como o sensual bolero eletroacústico “Tantra” (destaque para o acordeom de Toninho Ferragutti e o cello de Adriana Holtz) ou a conceitual “noYESwhy”. Afinal, música não serve apenas para dançar. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/09/2014)

 

Quatuor Ébène: quarteto de cordas francês se une a dois 'brasilianistas'

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Nos meios da música clássica, um projeto como este é chamado de “crossover”, por misturar repertório e intérpretes originários de diferentes gêneros musicais. Em seu álbum “Brazil” (lançamento Erato/Warner), o talentoso quarteto de cordas francês Quatuor Ébène se une a dois “brasilianistas”: a cantora e jazzista norte-americana Stacey Kent e o cantor e compositor francês Bernard Lavilliers. 

Para quem já aprecia as incursões da doce Stacey pela música brasileira, as versões de “Águas de Março” (Tom Jobim) e “So Nice” (“Samba de Verão”, de Paulo Sérgio e Marcos Valle, que participa dos vocais) podem soar um pouco “déjà-vu”. Não à toa, as faixas do álbum que mais chamam atenção são instrumentais: a bela “Ana Maria” (do jazzista Wayne Shorter), o baião “Bebê” (Hermeto Pascoal) e o dramático “Libertango” (Astor Piazzola), cujas releituras confirmam a inventividade do quarteto. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 29/09/2014) 

Rodrigo Maranhão: fundador da banda Bangalafumenga mostra seu lado intimista

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Há quem aponte uma dissociação entre a música que o compositor e violonista Rodrigo Maranhão faz à frente do festivo grupo (e bloco) Bangalafumenga, um dos responsáveis pela revitalização do carnaval de rua do Rio, e o intimismo das canções próprias que esse talentoso músico carioca exibe em seus discos. 

A gingada “Fuzuê”, que abre em ritmo de samba de roda seu terceiro álbum (“Itinerário”, lançamento MP,B/Universal), parece sugerir que Maranhão convive bem com esses aparentes extremos: na segunda parte da canção, o ritmo é ralentado e abre espaço para improvisos da sanfona de Marcelo Caldi e do violão de Nando Duarte.

Mais lenta ainda é “Maré”, canção doce já interpretada antes pelo cantor português Antonio Zambujo, que participa da gravação da romântica “Madrugada”, emprestando a ela um toque de fado. Tenha ou não Rodrigo Maranhão duas personalidades musicais paralelas, o que conta mesmo é que todos saem ganhando. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/9/2014)

 

Marlui Miranda: álbum de recriações ressalta a beleza de cantos indígenas

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                                                                                            Foto: Gal Oppido/Divulgação

Cantora, violonista e compositora, que há mais de três décadas vem se dedicando à pesquisa e divulgação da música indígena, Marlui Miranda selecionou 15 cantos da tradição Juruna -- oito são cantigas de ninar -- para o repertório do álbum “Fala de Bicho, Fala de Gente” (lançamento do selo SESC). Não se trata de um mero registro sonoro, mas de um projeto de recriação desses cantos, adaptados com a aprovação de membros da tribo. 

Acompanhada por Nelson Ayres (piano), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Caíto Marcondes (percussão) e o inglês John Surman (sax soprano, clarone e flautas), Marlui também usa sua voz expressiva para improvisar junto com o quarteto, na melhor tradição da música instrumental brasileira e do jazz. Um diálogo entre tradição e modernidade, que ressalta a beleza desses cantos indígenas e os aproxima dos ouvidos contemporâneos. 

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 27/9/2014)

 

'Minha Loja de Discos': série documental viaja pelos centros musicais dos EUA

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                                                     Fachada da loja Jazz Record Mart, em Chicago, nos EUA  
 
Se você não vive sem música, como eu, e jamais dispensa uma visita a alguma loja de CDs, DVDs ou vinis mesmo que esteja só de passagem por outro país, vai se interessar pela série documental “Minha Loja de Discos”, que o canal Bis (veiculado por diversas operadoras de TV paga) está exibindo regularmente.

O episódio de hoje, às 19h, focaliza a imensa Jazz Record Mart, de Chicago (EUA), que proclama ser a maior loja de jazz e blues do mundo (já abordada neste blog). A exemplo de episódios anteriores, dedicados a outras lojas de discos norte-americanas como a Louisiana Music Factory (de New Orleans), a Amoeba Music (Los Angeles) e a Somewhere in Detroit, a série parte da história da loja para traçar um panorama da cena musical de Chicago, essencial nas trajetórias do jazz e do blues moderno.

Além de trazer um depoimento do lojista e produtor Bob Koester, que fundou a Jazz Record Mart há quase 70 anos e dirige o selo independente Delmark, o episódio de hoje também exibe entrevistas com diversos músicos, como o cultuado pianista Ahmad Jamal, o trompetista Phil Cohran (ex-integrante da Sun Ra Orchestra) e o bluesman Tail Dragger.

Co-produção do canal Bis com a Ton Ton Filmes, a série é dirigida por Elisa Kriezis e Rodrigo Pinto. Esse episódio será reprisado nesta terça (16h), quarta (9h30 e 16h30), quinta (19h30), sexta (8h30), sábado (18h) e domingo (6h).



Ronen Altman: bandolinista reúne seleção de craques da música instrumental em CD

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Na contracapa do álbum “Som do Bando” (lançamento do selo Sonora), uma lista de músicos e arranjadores do primeiro time da música popular brasileira – André Mehmari, Dori Caymmi, Edson José Alves, Fernando Corrêa, Gilson Peranzzetta, Laércio de Freitas e Nailor Proveta, Renato Borghetti e Tiago Costa – já indica que se trata de um projeto muito especial. 
 
O bandolinista Ronen Altman não deixou por menos ao planejar seu primeiro disco como solista: para as gravações convidou mais de 30 músicos com muitos dos quais já tocou ou gravou durante as últimas décadas. A produção também foi entregue a dois antigos parceiros na música: o violonista Swami Jr. e o irmão Helton Altman.


 “Os momentos mágicos vividos ao lado de tantos artistas é que me incentivaram a realizar este disco. Ele é uma reverência que faço ao bandolim e ao bando de pessoas que me fizeram amar a música de maneira incondicional”, escreve Altman, no encarte do CD, que também inclui participações de Yamandu Costa (violão), Benjamim Taubkin (piano), Celsinho Silva (tamborins), Fábio Torres (piano), Sérgio Reze (bateria), Sylvinho Mazzuca Jr. e Pedro Gadelha (contrabaixo), entre outros.  
 
Diferentemente do que se poderia esperar, essa multidão de instrumentistas e arranjadores, com diferentes concepções musicais, jamais compromete a unidade musical do álbum. Presente em quase todas as faixas, um quinteto de sopros garante certa uniformidade sonora.


Altman não é um daqueles músicos exibicionistas, ansiosos por demonstrar sua destreza técnica ao ouvinte. Ao dedilhar seu bandolim, costuma privilegiar o sentimento, as emoções embutidas nas melodias e harmonias do original repertório que escolheu. 
 
Do contagiante samba-choro “Esperando a Feijoada” – com participação do próprio compositor, o guitarrista Heraldo do Monte – à versão instrumental da sensível canção “Fim do Ano” (de Swami Jr. e José Miguel Wisnik), Altman desfia a cada faixa diversas parcerias e ligações musicais, compondo assim um panorama de sua própria história.

 
Arranjada pelo pianista Laércio de Freitas, “Turma Toda”, do baixista Arismar do Espírito Santo”, revela influências jazzísticas e conta com improvisos de ambos. Em arranjo de Hermeto Pascoal, o “Choro de Amor Vivido”, de Eduardo Gudin, também destaca o violão do compositor. 


Outro craque dos arranjos e composições, o violonista Dori Caymmi comparece com seu vozeirão e suas cordas, em faixa que une “Obsession” (parceria com Gilson Peranzzetta) e “Rio Amazonas”, ao lado do flautista Teco Cardoso.  
 
Altman também inclui cinco composições próprias: da valsante “Nanai” (parceria com Celso Viáfora), que destaca a sanfona de Lulinha Alencar, à envolvente “Parafuso”, em arranjo do pianista André Mehmari.


Em tempos de vaidades e individualismos extremados, ao reunir tantos parceiros e amigos em seu belo disco de estreia, Altman dá uma lição de humildade e amor pela música.

(Resenha publicada parcialmente no caderno Ilustrada, da “Folha de S. Paulo”, em 23/09/2014)




 

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