Izabel Padovani e Ronaldo Saggiorato: dupla tira fôlego do ouvinte com improvisos

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                                                       A cantora Izabel Padovani e o baixista Ronaldo Saggiorato

Parceiros há uma década e meia, a cantora Izabel Padovani e o baixista Ronaldo Saggiorato formam um duo surpreendente. Não bastasse o talento que exibem em suas performances, os arranjos dos dois para o álbum “Aquelas Coisas Todas” (lançamento independente) são capazes de tirar o fôlego do ouvinte. Isso acontece logo na canção de abertura, “Baião de Quatro Toques” (de Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit): voz e baixo elétrico compõem um ágil contraponto que evolui para o final arrebatador.

As 13 canções são revestidas por uma refinada abordagem instrumental, com bastante espaço para improvisos. Do frevo “Vô Alfredo” (de Guinga e Aldir Blanc), com o baixo fraseando como um frenético passista, à percussiva releitura do samba “É Preciso Perdoar” (Alcyvando Luz & Carlos Coqueijo), na qual Izabel improvisa com onomatopeias, a dupla confirma que a canção só tem a ganhar quando se abre para a riqueza harmônica e rítmica da música instrumental. Tomara que esse duo sirva de inspiração a muitos cantores por aí.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 30/04/2016)

Bourbon Festival Paraty 2016: destaques do evento também tocam em São Paulo

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Só em festivais internacionais de peso você pode encontrar um elenco com esse alto quilate musical. Joshua Redman (na foto ao lado), The Bad Plus, Dianne Reeves, Romero Lubambo, Eumir Deodato, Rosa Passos, Walter “Wolfman” Washington e o o grupo Pau Brasil estarão entre as dezenas de atrações da oitava edição do Bourbon Festival Paraty, de 20 a 22/5, na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Com 19 shows gratuitos ao ar livre, em três palcos, além de aparições de bandas de blues e jazz tradicional pelas ruas da cidade, esse festival também oferece workshops para estudantes de música (com o saxofonista Leo Gandelman e guitarrista Chico Pinheiro), intervenções do DJ Crizz (antes, durante e depois dos shows principais) e uma exposição de fotos de Pedro Guida, na Galeria Zoom.

Entre as atrações musicais do Bourbon Festival Paraty também se destacam o baixista Thiago Espírito Santo, o guitarrista Ricardo Silveira, a banda do guitarrista de blues Igor Prado (que terá como convidado o cantor norte-americano Willie Walker) e o gaitista e cantor de blues Flávio Guimarães.
 

Shows no Bourbon Street

A boa notícia para os paulistanos que não podem se deslocar até Paraty é que cinco das principais atrações do evento também estarão no clube Bourbon Street, em São Paulo, nos próximos dias. O mini festival começa em 17/5, com o show do excelente violonista carioca Romero Lubambo, que terá como convidada especial a cantora norte-americana Dianne Reeves, uma das grandes intérpretes do jazz contemporâneo. 


A atração do dia 18/5 é a cantora Rosa Passos (na foto ao lado), grande intérprete da MPB e da bossa nova, que estará acompanhada pelo grupo Brasilidade Geral. Na noite seguinte, será a vez do cantor e guitarrista Walter “Wolfman” Washington, mestre do blues de Nova Orleans. No dia 20, a banda do baterista norte-americano Anthony King interpreta clássicos da soul music e do funk, com destaque para os vocais de Ms. Monet e Tony Lindsay.

Finalmente, no dia 24, o cultuado trio de jazz norte-americano The Bad Plus divide o palco do Bourbon Street com o saxofonista Joshua Redman, outro expoente da cena atual do jazz. No repertório desse show entram composições originais extraídas do álbum “Bad Plus Joshua Redman”, lançado em 2015.

Mais informações nos sites do Bourbon Festival Paraty e do Bourbon Street Music Club.

Dianne Reeves e Romero Lubambo: uma preciosa parceria musical de quase 20 anos

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                                                                      A cantora norte-americana Dianne Reeves 

Voz privilegiada, repertório eclético, elegância e uma grande habilidade para recriar canções ou improvisar. Essas são algumas das qualidades da cantora norte-americana Dianne Reeves, que figura desde a década de 1990 entre os principais interpretes vocais do universo do jazz. Os 16 álbuns lançados por ela, assim como os cinco prêmios Grammy que recebeu, dão uma ideia da amplitude de sua obra e do prestígio que desfruta nos meios musicais.

Nome familiar entre as plateias brasileiras, Dianne virá novamente ao país, desta vez para apresentações como convidada de Romero Lubambo –- conceituado violonista, guitarrista, compositor e arranjador carioca, que vive nos Estados Unidos desde os anos 1980. Eles vão se apresentar em duo, em São Paulo (dia 17/5, no clube Bourbon Street) e em Paraty, no litoral fluminense (dia 20/5, no Bourbon Festival).

“Romero e eu nos conhecemos quase 20 anos atrás e desde então não paramos mais de trabalhar juntos”, diz Dianne ao "Valor", falando por telefone de Denver, onde vive. “Hoje eu o chamo de meu irmão com outra mãe”, diverte-se, lembrando que o primeiro encontro com Lubambo se deu por ocasião de um concerto com César Camargo Mariano e Ivan Lins –- produzido pelo festival Heineken Concerts, em São Paulo, em 1997.

Antes desse show, Dianne já havia se apresentado em outro importante festival brasileiro do gênero: o Free Jazz, em 1992. “Lembro de ter ficado bastante impressionada com a receptividade das plateias, que nos aplaudiram de maneira muito calorosa”, comenta a norte-americana, que estreou em palcos de São Paulo e do Rio, acompanhada pela lendária Duke Ellington Orchestra.

Cantar no Brasil tinha um significado especial para ela, que já mantinha um namoro com a música brasileira desde o início da década de 1980, época em que fez parte do grupo de Sergio Mendes. Esse pianista e arranjador fluminense, que se radicou nos Estados Unidos em meio ao sucesso da bossa nova, nos anos 1960, desenvolve até hoje uma carreira internacional.

“Trabalhar com Sergio foi uma experiência muito enriquecedora”, relembra a cantora. “Quando fiz parte de seu grupo, ele não se preocupava apenas com o que iríamos tocar. Também fazia questão de me apresentar muita música brasileira, e essa era uma das coisas que eu mais gostava durante aquele período. Sergio sempre compartilhava seu conhecimento musical comigo. Graças a ele também vim a conhecer Dori Caymmi, com o qual já fiz vários trabalhos”.

Se você perguntar a Dianne se, ao escolher uma canção para seu repertório, valoriza mais a melodia ou a letra, verá que ela não vai pensar nem por um instante. “Gosto de uma boa melodia, mas as letras das canções têm um valor especial para mim. Como cantora, você tem a possibilidade de contar histórias. E eu gosto especialmente de letras que têm a ver comigo, que refletem o meu jeito de ser”, afirma.

Além dessa relação bem pessoal que mantém com o conteúdo das canções que interpreta, ela também costuma contar divertidos causos entre um número e outro de seus shows. “Venho de uma família cheia de contadores de histórias. Cresci ouvindo meus familiares narrarem muitos causos, isso também faz parte de minha maneira de ser”, diz a cantora, que tem parentesco com outros músicos de prestígio, como o tecladista George Duke (1946-2013), seu primo, ou o contrabaixista Charles Burrell, seu tio.

Entre as grandes cantoras de jazz que a influenciaram, como Ella Fitzgerald (1917-1996) e Billie Holiday (1915-1959), Dianne sempre teve uma favorita: a sofisticada Sarah Vaughan (1924-1990), grande intérprete à qual dedicou um álbum-tributo, “The Calling”, lançado em 2001. Mesmo assim, mais do que destacar a influência recebida de um ou outro artista em particular, ela aponta o eclético espírito dos anos 1970 como essencial para sua formação musical.

“Ninguém falava em ‘gênero’ naquela época. Tudo era simplesmente chamado de música, sem delimitações de fronteiras. Cresci ouvindo e amando vários tipos de música”, diz ela, referindo-se ao primo George Duke –- músico versátil que tocava jazz, funk, rock, música clássica, até música brasileira –- como o responsável por lhe dar a “licença” para experimentar tudo o que quisesse na música. “Ele me disse: ‘Se você gosta de cantar coisas diferentes, vá em frente. Isso é o que você é’ ”.

Dianne encontrou essa mesma abertura musical nas obras de outros expoentes do jazz dos anos 1970. “Muito antes que termos como ‘world music’ ou ‘sociedade global’ surgissem, Sarah Vaughan e Wayne Shorter foram conhecer a música do Brasil, assim como Dizzy Gillespie foi para Cuba ou John McLaughlin viajou para a Índia. A capacidade que alguns músicos têm de integrar suas sensibilidades à sensibilidade de outras culturas é uma das coisas que mais me atraem no universo do jazz”.  


Sobre os shows que fará com Dianne Reeves no Brasil, o violonista Romero Lubambo (na foto ao lado) comenta que, depois de quase duas décadas de parceria, o repertório da dupla é bastante amplo. “Eu e ela gostamos muito de sentir a energia do local, para então decidir o que vamos fazer. A plateia do Bourbon Street certamente será bem diferente do público do festival em Paraty”, compara.

Ainda assim, Romero revela alguns itens desse repertório, com grandes chances de entrarem nos shows: pérolas da canção norte-americana que muitos jazzistas já interpretaram, como “Love for Sale” (de Cole Porter) e “Love Is Here to Stay” (George & Ira Gershwin); ou ainda clássicos do jazz moderno, caso de “All Blues” (Miles Davis) e “Afro Blue” (Mongo Santamaria) –- todos eles em arranjos do próprio violonista.

Referindo-se ao parceiro como “um músico impecável”, Dianne justifica porque desde a gravação de seu álbum “Bridges”, lançado em 1999, convidou Romero para participar de todos seus discos posteriores. “Ele é extremamente intuitivo e tem muita facilidade para criar no calor da hora, o que eu também adoro fazer. Todas as vezes que tocamos juntos criamos algo diferente. Adoro trabalhar com Romero porque ele tem um espírito tão aberto quanto sua música”. 


(Texto publicado no caderno "Eu & Fim de Semana", do jornal "Valor", em 13/05/2016)

 

Savassi Festival 2016: evento de música instrumental terá noite de gala com Edu Lobo

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                              O percussionista Sergio Krakowski, tocando para crianças, no Savassi Festival

Dezenas de shows e concertos em teatros, museus, praças, parques e restaurantes de Belo Horizonte (MG), de 24/6 a 4/7, chamam atenção no programa do 14º Savassi Festival, mas esse evento oferece bem mais. Um dos maiores e mais diversificados festivais brasileiros dedicados à música instrumental e ao jazz, ele também promove workshops, lançamentos de discos, apresentações de DJs e concursos de novos talentos e de fotografia.

A “noite de gala” em homenagem a Edu Lobo (na foto abaixo), em 25/6, promete ser uma das atrações mais disputadas na edição deste ano. Acompanhado pela Orquestra Ouro Preto, o cantor e compositor carioca, expoente da MPB, também terá a seu lado o pianista Gilson Peranzzetta e o saxofonista Mauro Senise – duo instrumental que já lançou um disco dedicado à sua obra.  


Entre os shows já confirmados também se destacam: o do cellista carioca Jaques Morelenbaum e seu CelloSam3aTrio;
o quarteto do guitarrista paulista Chico Pinheiro; o trio do pianista mineiro Rafael Martini; o sexteto do contrabaixista paulista Marcos Paiva; o quarteto do pianista mineiro Zé Namen; o trio do pianista capixaba Hercules Gomes; o trompetista alagoano Joatan Nascimento e o violonista mineiro Geraldo Vianna, entre outros.

Como já fez em edições anteriores, o festival volta a apresentar duos formados por instrumentistas estrangeiros com brasileiros, como o do pianista norte-americano Kevin Hays com o pandeirista Sergio Krakowski (brasileiro radicado em Nova York), ou o duo do pianista israelense Alon Yavnai com o percussionista carioca Joca Perpignan.

Um dos sucessos do ano passado, a programação musical para crianças, agendada para a tarde de 3/7, na praça Floriano Peixoto, também promete atrair um grande público: além dos shows “O Jazz de Snoopy e Charlie Brown” e “Hermeto Pascoal para Crianças de Todas as Idades”, o pianista Benjamim Taubkin (foto abaixo) vai exibir releituras instrumentais de canções de Chico Buarque.
 

Já neste final de semana, duas atrações antecipam a programação principal do evento, em Belo Horizonte. Ministrado pelo músico e educador Zé Gabriel, no Centro Cultural Venda Nova (sábado, 14/5), o workshop “Raízes do Jazz” oferece vivência de ritmo, expressividade e percepção musical para crianças. Em três shows no Memorial Minas Vale (de 14 a 16/5), a flautista paulista Léa Freire e o pianista mineiro José Namen vão se apresentar em duo.

Vale lembrar que o Savassi Festival também costuma levar atrações para outras cidades de Minas, ou mesmo para outros estados do país. Neste ano ele se estende às cidades de Nova Lima (28 e 29/5) e Uberlândia (28/5), além de programar uma semana de eventos no Rio de Janeiro (de 23 a 30/6).

Mais informações no site oficial do festival: http://www.savassifestival.com.br/

Mimo Festival 2016: evento desembarca em Portugal com homenagem a Tom Zé

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                                                                           O cantor e compositor baiano Tom Zé 

Após 13 anos de atividades, período em que levou concertos, mostras de filmes, palestras e workshops musicais a cidades históricas como Olinda (PE), Paraty (RJ) e Ouro Preto (MG), o Mimo Festival vai se tornar internacional.  Um dos maiores eventos brasileiros de música instrumental com programação inteiramente gratuita, esse festival vai realizar sua primeira edição na Europa. 

O duo do contrabaixista Ron Carter (na foto abaixo) com o guitarrista Pat Metheny, expoentes do jazz norte-americano, o cantor e compositor brasileiro Tom Zé e o guitarrista malinês Vieux Farka Touré estarão entre as dezenas de atrações que o Mimo Festival promete levar, de 15 a 17 de julho deste ano, à cidade histórica de Amaranto, no norte de Portugal. 

Além da exibição de filmes, de atividades musicais educativas e de uma exposição comemorativa dos 80 anos de Tom Zé, a plateia de Amarante também será contemplada com a Chuva de Poesia – evento em que milhares de versos de poemas, impressos em papel, serão lançados das torres de igrejas da cidade, em homenagem a poetas lusitanos. 

Quanto à 14ª edição do Mimo no Brasil, a produção do evento vai divulgar, no dia 1º de junho, as datas e a programação das atividades que serão realizadas, neste ano, em Paraty, Olinda, Ouro Preto e Tiradentes (MG), assim como na capital fluminense. 

Para aqueles que, como eu, ficaram interessados no encontro musical de Ron Cartes e Pat Metheny, a produção do festival já avisou que esse concerto só será realizado em Portugal. 

Outras informações no site do Mimo Festival: http://mimo.art.br/

Mike Moreno: guitarrista norte americano retorna ao clube JazzB, em São Paulo

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São Paulo recebe mais uma vez, na próxima semana –- dias 16 e 17/5, no clube JazzB –- um brilhante guitarrista de jazz. Aos 37 anos, Mike Moreno vem desenvolvendo uma sólida carreira musical. Texano radicado em Nova York, já tocou e gravou com destacados instrumentistas do gênero: de Joshua Redman a Wynton Marsalis; de Robert Glasper a Terence Blanchard.

Tive a oportunidade de assistir a uma bela apresentação de Moreno, um ano atrás, no Savassi Festival, em Belo Horizonte. Fã declarado da música brasileira, ele exibiu criativas releituras jazzísticas das canções “Outubro” (de Milton Nascimento) e “Manuel, o Audaz” (Toninho Horta).

Naquele show, ao lado de Moreno estavam os talentosos Frederido Heliodoro (baixo acústico) e Felipe Continentino (bateria), que também vão acompanha-lo desta vez, em São Paulo. No grupo estará ainda o pianista inglês John Escreet, outro jovem destaque da atual cena nova-iorquina de jazz.

Aliás, no mesmo JazzB, quase um ano atrás, Moreno se apresentou com quatro craques da música instrumental de São Paulo: o guitarrista Chico Pinheiro, o pianista Tiago Costa, o baterista Edu Ribeiro e o contrabaixista Bruno Migotto. Ficou curioso? Então confira os vídeos abaixo.

Mais informações sobre os shows de Moreno, no site do JazzB.

 

Projeto B: quinteto combina referências do jazz de vanguarda e da música contemporânea

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É provável que você já os tenha ouvido, ao lado de intérpretes do pop nacional ou tocando com outros grupos instrumentais. Mas é como músicos do Projeto B que Yvo Ursini (guitarra), Leonardo Corrêa (saxofones), Amílcar Rodrigues (trompete), Henrique Alves (baixo) e Mauricio Caetano (bateria) se superam. 

Criar uma obra musical de personalidade, combinando referências do jazz de vanguarda, do som instrumental brasileiro e da música erudita contemporânea não é para qualquer um. “Isso”, o quarto álbum do quinteto (lançamento Panela/Tratore), deve ser ouvido com atenção absoluta.

Não bastasse a qualidade do material próprio – como a alucinante “Labirinto” (de Corrêa) ou o quase funk “339” (Ursini), com um poema de Arnaldo Antunes que ele mesmo entoa –, o repertório inclui adaptações de peças de compositores contemporâneos, como György Ligeti (“Música Ricercata nº7”) ou Claude Debussy (“Des Pas Sur la Neige”). Difícil não sorrir ao escutar “Canção de Ninar para Pedro” (Corrêa), que simula um pesadelo. 

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos & Filmes", edição final, em 30/04/2016)

 

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