Duo + Dois: um quarteto que toca com alegria e a liberdade do jazz

|

                                Carlos Malta (da esq. para dir.), Fernando Melo, Luiz Bueno e Robertinho Silva

Quando músicos consagrados decidem se lançar em uma nova parceria, é natural que as expectativas de seus admiradores aumentem. Em agosto de 2016, ao saber que os violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno, do Duofel, iriam estrear um quarteto com o o saxofonista e flautista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva, logo pensei no grande potencial criativo desse projeto. Como não esperar algo especial desses quatro instrumentistas de alto quilate, que há décadas transitam por diversas vertentes musicais?

Mesmo tendo a oportunidade de assistir a uma das primeiras apresentações desse quarteto (ainda em 2016), confesso que, passados dois anos, me surpreendi ao escutar este álbum. Eu não esperava encontrar no repertório tantos clássicos da música popular brasileira, em releituras que chamam atenção pelos inusitados tratamentos harmônicos e rítmicos, sem falar nos criativos improvisos do grupo.

Também fiquei impressionado pelo grau de coesão e empatia sonora que o quarteto revela nessas gravações. Mesmo que Malta e Silva tenham iniciado esse projeto como convidados do Duofel, basta ouvir qualquer faixa deste álbum para se perceber que hoje eles são parceiros ativos. Os quatro tocam como se já estivessem juntos há muitos anos.

Entre vários achados musicais fica difícil destacar uma ou outra gravação. É bem possível que, como eu, você se encante pela onírica releitura do “Canto de Yemanjá” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes), não resista à suingada condução rítmica de “Água de Beber” (Tom Jobim e Vinícius), se emocione com a evanescente versão de “Cais” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) ou sorria ao ouvir a contagiante introdução e os improvisos do grupo em “Maracangalha” (Dorival Caymmi).

“Este projeto é marcante, em nossa história, porque trouxe algo que nunca tínhamos experimentado em quase 40 anos de carreira do Duofel: a liberdade do jazz, no sentido de se criar a música na hora ou de se transformar algo mais ou menos combinado. Essa foi umas das parcerias mais felizes que eu e Fernando já experimentamos”, comenta o violonista Luiz Bueno.

Depois de escutar este disco outras vezes, tenho certeza de que a alegria, a liberdade criativa e a fina musicalidade que o quarteto Duo + Dois transmite nestas gravações também vai contagiar muitos outros ouvintes.


Texto escrito a convite do Selo Sesc para o encarte do CD "Duo + Dois". O show de lançamento acontece na próxima segunda-feira (25/3), às 19h, no teatro do Sesc Consolação, pelo projeto Instrumental Sesc Brasil. Mais informações em:  www.sescsp.org.br/programacao/181792_DUO+DOIS#/content=saiba-mais





Terrie Odabi: cantora de soul e R&B conquista plateia paulistana do Bourbon Street

|

                                                      Terrie Odabi e o guitarrista Fred Sunwalk, no Bourbon Street 

Em sua primeira turnê pelo Brasil, a cantora americana Terrie Odabi demonstrou surpresa ao ver a plateia do Bourbon Street Music Club se levantar para aplaudi-la, no meio do show de ontem. Sabemos que o público paulistano tem o curioso hábito de aplaudir de pé quase qualquer artista, mas no caso dessa intérprete californiana a inflamada reação do público extrapolou o mero ritual.

Bastaram alguns minutos de show, na noite de estreia do The Blues Festival, para que a plateia paulistana logo percebesse que tinha à sua frente uma cantora fora de série, aliás, muito bem acompanhada pela banda brasileira Alabama Johnny. Carismática e bem-humorada, Terrie exibe uma voz poderosa e versátil. É uma intérprete capaz de inflamar seus ouvintes.

Seu repertório é formado, majoritariamente, por clássicos do rhythm’n’blues e da soul music. De cara, esboçou um discurso feminista, cantando “I’m a Woman”, o pesado blues assinado e gravado por Koko Taylor (1928-2009). Fez alguns se mexerem nas cadeiras, ao lembrar a dançante “Chain of Fools”, hit de Aretha Franklin (1942-2018). Emocionou a plateia com a “I’d Rather Be Blind”, pungente balada que ganhou a assinatura vocal de Etta James (1938-2012).

O fato de reunir tantos sucessos de outras intérpretes em seu show não quer dizer que Terrie Odabi seja uma cantora de covers. Assim como faz nas releituras das canções já citadas, ela esbanja personalidade ao interpretar “Ball and Chain”, o blues associado a Janis Joplin (1943-1970), assim como na versão de “Come Together”, hit de John Lennon e Paul McCartney que também já foi muito bem gravado por Tina Turner.

Se você perdeu a chance de ouvir Terrie ao vivo, não precisa se lamentar. Os rasgados elogios que ela fez ao Brasil durante o show, assim como a reação calorosa da plateia que a obrigou a cantar um extenso bis, indicam que esta não será certamente sua única aparição por aqui.

O The Blues Festival prossegue nas próximas semanas, no palco do Bourbon Street. A Cinelli Brothers, banda de blues e r&b radicada em Londres, toca na noite de 20/03. O evento termina com o encontro do gaitista e cantor carioca Flávio Guimarães com o guitarrista norte-americano Little Joe McLerran e os Simi Brothers, em 3/04. O guitarrista Gui Cicarelli também será o anfitrião dessas duas noites.





Festivais em 2019: roteiro de eventos de jazz, blues e música instrumental pelo Brasil

|



Aqui você encontra um roteiro com as atrações musicais dos principais festivais brasileiros já anunciados para 2019. É atualizado regularmente para que fãs do jazz, do blues, da música instrumental brasileira, da bossa nova, do choro, do soul, do r&b e da black music possam se programar com antecedência.


                                                                          Marcos Paiva, atração do Savassi Festival (MG) 


11.º Bourbon Festival Paraty 
Quando e onde: de 10 a 12/05/2019, em Paraty (RJ) 
Atrações: a serem anunciadas
www.facebook.com/bourbonfestivalparaty/  

16.º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 
Quando e onde: de 20 a 23/6/2019, em Rio das Ostras (RJ)
Atrações: Roy Rogers e outras a serem divulgadas
www.facebook.com/rostrasjazzblues/

17.º Savassi Festival
Quando e onde: de 5 a 11/08/2019, em vários espaços de Belo Horizonte (MG)
Atrações: Marcos Paiva, Deangelo Silva e Davi Fonseca, entre outras
www.savassifestival.com.br/home/

10.º Fest Bossa & Jazz
Quando e onde: de 15 a 18/08, em Praia da Pipa (Natal, RN); de 19 a 21/09, em Mossoró (RN); de 10 a 13/10/2019, em São Miguel do Gostoso (RN)
Atrações: a serem divulgadas

Festivais já realizados em 2019:  


20.º Festival Jazz & Blues
Quando e onde: de 2 a 5/3/2019, em Guaramiranga (CE); 2 e 3/3/2019, em Aquiraz (CE); e 9/3/2019, em Fortaleza (CE)
Atrações: Guinga (com Nailor Proveta e Teco Cardoso), Trio Jobim, Terrie Odabi, Jesuton, Kátia Freitas, Mel Mattos, Marcos Maia (com Nono Garcia e Budi Garcia), Vanildo Franco, Eder Rocha, Vivi Pozzebón, Marajazz e Marimbanda, entre outras
www.jazzeblues.com.br   


The Blues Festival
Quando e onde: dias 13/03, 20/03 e 3/04/2019, no Bourbon Street Music Club (São Paulo/SP)  
Atrações: Terrie Odabi & Alabama Johnny; The Cinelli Brothers; Flávio Guimarães com Little Joe McLerran & The Simi Brothers; Gui Cicarelli (hostess e participações especiais)
www.bourbonstreet.com.br/

9.º Nublu Jazz Festival

Quando e onde: de 21 a 23/3/2019, no Sesc Pompeia (São Paulo, SP) e no Sesc São José dos Campos (SP)
Atrações: Tony Allen e Thiago França, Marc Ribot y Los Cubanos Postizos, Georgia Anne Muldrow, The Midnight Hour, GoGo Penguin e Nomade Orquestra, entre outras.
www.sescsp.org.br/programacao/27616_NUBLU+JAZZ+FESTIVAL#/content=programacao


Rafael Martini e Alexandre Andrés: músicos mineiros lançam álbum "Haru" em São Paulo

|

                                                            O pianista Rafael Martini e o violonista Alexandre Andrés

Foi um prazer especial para mim assistir ao show do pianista Rafael Martini e do violonista e flautista Alexandre Andrés, ontem, no Sesc Pinheiros. Conheci esses talentosos instrumentistas e compositores uma década atrás, ao participar por vários anos do júri do Prêmio BDMG Instrumental, em Belo Horizonte. Graças à dedicação e à sensibilidade da produtora Malluh Praxedes, que o criou, esse influente prêmio já contribuiu para revelar dezenas de jovens craques da música instrumental brasileira.

Martini e Andrés estão lançando o álbum “Haru”, recheado de belas canções que compuseram, algumas delas sozinhos, outras em parcerias com os letristas Makely Ka, Bernardo Maranhão e Leonora Weissman. Os fãs de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e outros autores do lendário Clube da Esquina logo vão notar essa natural ascendência, em algumas canções desse disco, que também já foi lançado no Japão.

Reencontrar Martini e Andrés agora, mais maduros e com suas carreiras estabelecidas, trouxe de volta minha surpresa ao ouvi-los pela primeira vez, bem mais jovens, no concurso patrocinado pelo BDMG. Ambos já esbanjavam talento, como músicos que estavam praticamente começando.

Outra boa surpresa foi ver os dois homenagearem agora, no auditório do Sesc Pinheiros, a grande compositora e flautista paulistana Léa Freire, que fez uma participação especial no show. Esse diálogo criativo, essa admiração mútua entre duas diferentes gerações musicais, me fez pensar que ainda temos algo de que podemos nos orgulhar neste país -- coisa rara por aqui, nos últimos tempos.






Bossa 60: Carlos Lyra e Paul Winter relêem clássicos que gravaram nos anos 1960

|

                                                                    O saxofonista Paul Winter e o compositor Carlos Lyra

Uma comemoração dentro de outra. No show de encerramento do projeto “Bossa 60”, ontem, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, o compositor e cantor Carlos Lyra – um dos expoentes da agora sexagenária bossa nova – reencontrou o saxofonista norte-americano Paul Winter, com o qual gravou o histórico álbum “The Sound of Ipanema”, em 1964.

Emocionado, Winter lembrou da primeira vez que esteve no Rio de Janeiro, em 1962, quando participou com seu grupo de jazz de uma turnê por 23 países, bancada pelo Departamento de Estado dos EUA. “Eu me apaixonei pelo Brasil e não via a hora de retornar”, disse o saxofonista, que conheceu Lyra no final do mesmo ano, por ocasião do lendário concerto de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.

Cinquenta e cinco anos após a gravação de “The Sound of Ipanema”, Winter e Lyra revisitaram no palco o repertório desse álbum, lançado no momento em que a bossa nova explodia internacionalmente. Entre as 11 faixas do disco já estavam canções de Lyra que se tornaram clássicos desse estilo musical, como “Você e Eu” e “Coisa Mais Linda” (parcerias com Vinicius de Moraes), “Maria Ninguém” e “Lobo Bobo” (parceria com Ronaldo Bôscoli).

Mesmo sem tocar violão, Lyra cativou a plateia com seu canto meio falado e seus comentários irônicos, como ao introduzir, sorrindo, a divertida “Lobo Bobo” como seu “maior sucesso”. Bem acompanhado, tinha a seu lado um sexteto de craques da música instrumental carioca: Fernando Merlino (piano), Adriano Giffoni (contrabaixo), Ricardo Costa (bateria), Flávio Mendes (violão e guitarra), Dirceu Leite (sax e flauta) e Diogo Gomes (trompete e flugelhorn). 


No programa distribuído à plateia, todo o repertório do concerto tinha a assinatura de Lyra, mas Winter ganhou um espaço para sair um pouco do universo da bossa nova. Emocionou a plateia com seu sax soprano, ao tocar sua lírica composição “Sun Singer”, do álbum homônimo que lançou em 1983, quando já havia trocado o jazz pela música new age. Depois provocou sorrisos da plateia ao interpretar a “Cantata 147” (de J. S. Bach) com sotaque brasileiro. 
 
Para quem ainda recusa a tese de que as influências entre o jazz e a bossa nova foram de mão-dupla, esse reencontro de Lyra e Winter não poderia ser mais didático.



Bossa 60: Dante Ozzetti cria versões instrumentais para canções de Tom Jobim

|


O violonista Dante Ozzetti seguiu as regras de um ousado desafio: criar arranjos puramente instrumentais para canções de Tom Jobim. Uma tarefa que passa pela responsabilidade de lidar com melodias e harmonias de um dos maiores compositores do mundo, abrindo mão de conhecidos versos de letristas de alto quilate, como o poeta Vinicius de Moraes, Chico Buarque ou o próprio Jobim.

A estreia do show “Dante Ozzetti Interpreta Tom Jobim” (apresentado nos dias 26 e 27/1, em São Paulo) fez parte da programação do projeto comemorativo “Bossa 60”, idealizado e produzido pelo Sesc 24 de Maio, cuja equipe de programação apresentou esse desafio musical ao violonista e arranjador paulista.

Dante entrou no palco com uma formação instrumental inusitada, algo entre um conjunto de câmara e uma compacta orquestra, formada por Antonio Loureiro (vibrafone e bateria), Fi Maróstica (contrabaixo e baixo elétrico), Gui Held (guitarra), Nivaldo Ornelas (sax tenor e flauta), Gabriel Grossi (gaitas), Fábio Cury (fagote), Fernando Sagawa (flautas), Ana Chamorro (violoncelo) e Newton Carneiro (viola).

Os arranjos são inventivos, sem jamais soarem desrespeitosos aos originais de Jobim. Explorando bem as combinações permitidas por esses instrumentos de sopro, cordas e percussão, Dante criou texturas e contrapontos que permitem ouvir as belezas jobinianas de outras formas. Entre vários destaques, o arranjo da dramática “Modinha” (de Jobim e Vinicius), com a melodia recriada pela guitarra lancinante de Gui Held, chega a surpreender. A releitura de “Olha Maria” (parceria de Jobim com Vinicius e Chico) ganha uma dose de lirismo tipicamente mineiro graças à flauta de Ornelas. Ou ainda a versão de “Inútil Paisagem”, em duo de Grossi (gaita) e Maróstica (baixo acústico), capaz de tirar o fôlego do ouvinte.

Mas como resistir às palavras de Jobim, que sempre elogiou as belezas da natureza e antecipou em várias de suas canções a questão da ecologia, décadas antes que essa temática entrasse na ordem do dia? Sem quebrar as regras do desafio, Dante também apresentou um arranjo instrumental para a bela canção “Borzeguim” (lançada por Jobim no álbum “Passarim”, em 1987), mas não perdeu a chance de relembrar alguns versos dessa canção, lendo-os antes de tocar.

“Deixa o tatu bola no lugar / Deixa a capivara atravessar / Deixa a anta cruzar o ribeirão / Deixa o índio vivo no sertão / Deixa o índio vivo nu / Deixa o índio vivo / Deixa o índio (...) Deixa a índia criar seu curumim / Vá embora daqui coisa ruim / Some logo, vá embora / Em nome de Deus”. 


Preciso dizer que, três décadas depois, esses versos iluminados de Jobim soam hoje mais atuais ainda?

Bossa 60: Fernanda Takai interpreta Tom Jobim com leveza, em projeto do Sesc

|

                                             Fernanda Takai, em show do projeto "Bossa 60", no Sesc 24 de Maio 

Era fácil notar diferentes gerações na plateia dos dois shows de Fernanda Takai, ontem, em São Paulo. Naturalmente, uma grande parte era composta por fãs que a acompanham há quase duas décadas como vocalista da banda pop Pato Fu, mas também havia gente curiosa por ouvi-la cantar bossa nova. A cantora foi uma das atrações do projeto “Bossa 60”, que prossegue até 3/2, no Sesc 24 de Maio.

O show “O Tom da Takai” empresta o título do álbum que ela lançou em meados de 2018, com repertório extraído do cancioneiro do grande Tom Jobim (1927-1994), que ontem teria comemorado 92 anos. Nessas gravações, Fernanda contou com o apoio essencial de outros dois mestres da bossa nova: Roberto Menescal e Marcos Valle, que dividiram a produção e os saborosos arranjos do álbum.

Vale notar que Fernanda teve o cuidado de esperar uma década para amadurecer a ideia de gravar um álbum que a aproximou de vez do universo da bossa. Já em sua primeira incursão pela MPB (o álbum “Onde Brilhem os Olhos Seus”, com releituras de canções do repertório de Nara Leão, lançado em 2007), ela havia demonstrado a consciência de que não faria sentido gravar aquelas canções como Nara fizera.

Fernanda abre seu novo show com a contagiante beleza da canção “Bonita” (de Jobim, Gene Lees e Ray Gilbert), exatamente como fez no álbum. Bem à vontade, a cantora interpreta com leveza e simpatia tanto canções da fase pré-bossa de Jobim, caso do samba “Outra Vez” e do samba-choro “Ai Quem Me Dera” (parceria com Marino Pinto), assim como as clássicas bossas “Brigas Nunca Mais” (parceria com Vinicius de Moraes) e – já no bis – “Samba de Verão” (de Marcos e Paulo Sergio Valle) e “O Barquinho” (de Menescal e Ronaldo Bôscoli).

Mesmo sob o risco de comprometer a atmosfera do espetáculo, Fernanda fez questão de comentar com a plateia do segundo show a dramática notícia do rompimento da barragem em Brumadinho (MG) -- região onde chegou a gravar um DVD, em 2017. Mas a beleza das canções de Jobim e a leveza dos arranjos e das interpretações da cantora conseguiram fazer com que a plateia se esquecesse, ao menos por uma hora, de mais essa indesculpável tragédia em nosso país. 

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB