Stefano Bollani: pianista italiano cultiva paixões pelo jazz e pela MPB no CD 'Que Bom'

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                                                                                     Foto de Valentina Cenni/Divulgação

A paixão de Stefano Bollani pela música brasileira, tudo indica, não vai esfriar tão cedo. O pianista italiano descobriu a cadência do samba ainda na adolescência e agora, aos 45 anos, lança o álbum “Que Bom”, com participações especiais de Caetano Veloso e João Bosco, além de uma compacta seleção de craques da música instrumental brasileira. 

Um dos músicos europeus de maior prestígio na cena atual do jazz, Bollani tem reforçado durante a última década sua intimidade com as harmonias e os ritmos do Brasil. Em 2007, gravou o álbum “Carioca” no Rio, com músicos locais. Já em 2013, dividiu o CD “O Que Será” com o bandolinista Hamilton de Holanda, que também está no novo disco do italiano. 

“Hoje eu sei que existe muita música brasileira que eu ainda não conheço”, diz Bollani, com certa modéstia, falando à Folha por telefone. Quando a conversa se volta para os pianistas brasileiros que admira, por exemplo, ele desfia uma lista extensa: de mestres do choro, como Radamés Gnattali e Carolina Cardoso de Menezes, a expoentes de nossa moderna música instrumental, como João Donato e César Camargo Mariano.

Bollani já tocava piano, aos 15 anos, quando ouviu o clássico disco de bossa nova que João Gilberto gravou com o jazzista Stan Getz (“Getz/Gilberto”, 1963). “Me apaixonei pelas harmonias, parecidas com as do bebop e as do cool jazz, das quais eu já gostava muito”, relembra, em bom português.

“Mais tarde, quando fui ao Brasil para gravar meu disco ‘Carioca’, encontrei o choro, o samba, o forró e outras músicas brasileiras”, diz o italiano, que fez questão de voltar a tocar com Armando Marçal (percussão), Jurim Moreira (bateria) e Jorge Helder (baixo), nas gravações de “Que Bom” (selo Alobar/Biscoito Fino). Esse mesmo trio vai acompanha- lo na turnê de lançamento, além de Thiago da Serrinha (percussão).

No repertório de seu saboroso álbum, Bollani exibe 14 composições próprias, quase todas instrumentais. Inclui também a conhecida “Nação” (de João Bosco, Paulo Emílio e Aldir Blanc), cantada pelo próprio Bosco, e “Michelangelo Antonioni”, que Caetano Veloso, o autor, interpreta em italiano.

“Adoro Caetano cantando em italiano. Ele pode até cantar os itens de uma lista telefônica que eu vou gostar”, brinca o pianista. “No projeto original, ele iria cantar outras coisas em português, mas, na véspera da gravação, escrevi uma letra para a instrumental ‘La Nebbia a Napoli’. Caetano gostou, aprendeu rapidamente e a gravou”.

Bollani lança seu álbum nesta terça (14/8), no Bourbon Street, em São Paulo. Depois toca em Belo Horizonte (15/8) e faz duas apresentações pelo festival Sesc Jazz, no interior paulista, em Ribeirão Preto (17/8) e Jundiaí (18/8). Também toca em Brasília (20/8) e no Rio (21/8).

“Nos shows, tudo é mais improvisado do que no disco. É um grande prazer estar no palco com esses músicos incríveis. Ainda quero tocar muito com eles”, diz o italiano, que voltará a se apresentar com sua banda carioca, na Europa, em novembro.

Bourbon Street Music Club (r. dos Chanés, 194, Moema). Terça (14/8), às 21h30. Couvert artístico: de R$ 95,00 a R$ 150,00. 

(Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 14/8/2018)







Paulo Bellinati & Marco Pereira: violonistas celebram afinidades no álbum 'Xodós'

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                                           Os violonistas Paulo Bellinati e  Marco Pereira / Fotos de Tarita de Souza 

Um encontro de músicos de alto quilate, como Paulo Bellinati e Marco Pereira, já seria por si só um evento especial, mas por trás do álbum “Xodós” (lançamento com o selo de qualidade da gravadora Borandá) há uma amizade de quase cinco décadas. Uma parceria musical marcada por afinidades, perfeccionismo técnico e profunda dedicação a esse instrumento tão essencial na linguagem da música brasileira.

Paulistanos, eles nasceram no mesmo mês de setembro, em 1950, com uma diferença de apenas três dias. Conheceram-se quando cursavam o Conservatório Dramático e Musical do Estado de São Paulo, onde frequentavam aulas de violão com o mesmo mestre: o uruguaio Isaías Sávio.

Também cultivaram praticamente as mesmas referências no violão. “Nosso grande ídolo foi Baden Powell (1937-2000). Naquela época quase não havia partituras de música popular, então o jeito era ralar muito ouvindo os LPs, para tirar de ouvido as músicas que queríamos tocar”, relembra Pereira.

Chegaram a se apresentar algumas vezes em duo, no início dos anos 1970, mas a parceria foi suspensa quando decidiram aprimorar os estudos na Europa. Depois de ingressar no Conservatório de Genebra, na Suíça, Bellinati não demorou a formar um grupo de música instrumental brasileira. Pereira se fixou em Paris, onde obteve o título de mestre em violão clássico e se tornou um conceituado concertista. De vez em quando, um deles convidava o outro para tocarem juntos.

De volta ao Brasil, já em 1981, os dois formaram o trio Pó de Mico, com o percussionista Zé Eduardo Nazário. Apresentaram-se algumas vezes, mas pouco depois Pereira decidiu deixar São Paulo para se tornar professor da Universidade de Brasília. Ali assumiu a recém-criada cadeira de Violão Superior, além de lecionar Harmonia Funcional. Paralelamente, seguiu com sua carreira de solista erudito, mas também gravou elogiados discos de música brasileira.

Já tocando também guitarra, viola caipira e cavaquinho, Bellinati uniu-se ao grupo instrumental Pau Brasil, com o qual se destacou como solista e compositor por cerca de uma década. O interesse pela música do violonista e compositor paulista Garoto (1915-1955) reativou sua ligação com o violão, levando-o a uma bem-sucedida carreira de concertista, especialmente em palcos dos Estados Unidos. Em 2002, voltou a fazer parte do grupo Pau Brasil, com o qual continua tocando até hoje.

“Sempre me surpreendi com o fato de termos continuado nossas carreiras em paralelo”, observa Pereira. “Alguns anos atrás tive a ideia de escrever um concerto para dois violões e orquestra. Passei oito meses feito doido, escrevendo. Estava finalizando o último movimento, quando li a notícia de que o Bellinati ia estrear um concerto para dois violões e orquestra. Era muita coincidência”, relembra o violonista, que sugeriu ao amigo, em meados de 2015, que retomassem a parceria.

A reestreia do duo se deu no Clube do Choro de Brasília (DF), algumas semanas depois. No programa dessa apresentação já figurava boa parte do repertório que viria a compor o álbum “Xodós”. Por sinal, os arranjos da dupla para “Eu Só Quero Um Xodó”, “Isso Aqui Tá Bom Demais”, “De Volta pro Aconchego” e “Gostoso Demais”, sucessos do sanfoneiro Dominguinhos (1941-2013), nasceram para atender a um pedido da produção do Clube do Choro, que costuma homenagear figuras importantes da música brasileira.

“Eles pedem que a gente toque ao menos uma música do homenageado, mas acabamos tocando cinco. Poderíamos fazer até um disco inteiro dedicado a Dominguinhos”, diz Pereira. Só a toada “Lamento Sertanejo” não entrou no disco, mas o duo costuma toca-la nos shows. “É muito legal, porque as pessoas saem cantando, espontaneamente, assim que a reconhecem”, conta Bellinati.

Se o acaso contribuiu para a criação dessas saborosas versões instrumentais de canções de Dominguinhos, as composições do violonista Dilermando Reis (1916-1977) já frequentavam o repertório de Pereira desde cedo. Tanto que este homenageou o influente mestre do violão, recriando com elegância suas composições no álbum “Dois Destinos” (Borandá, 2016).

O batuque “Xodó da Bahiana”, o choro “Magoado” e a valsa “Se Ela Perguntar”, interpretadas por Pereira em seu disco, ganham novos tratamentos e sonoridades nas releituras do duo. Vale lembrar que, nas 14 faixas de “Xodós” (foto da capa abaixo), Pereira toca violão com cordas de nylon no canal esquerdo; o violão com cordas de aço de Bellinati é ouvido no canal direito. A produção do álbum ficou a cargo de Swami Jr., outro grande violonista.


“Já nos ensaios a gente se surpreendia ao notar que rola uma liberdade, uma grande confiança entre nós, algo que não é comum entre qualquer músico. Se você toca completamente relaxado, com a certeza de que seu parceiro está 100% com você, você toca com mais calor. O rendimento é muito maior”, comenta Bellinati.

Pereira concorda com o parceiro e observa que a maturidade traz uma relação diferente com a música. “Quando você tem vinte e poucos anos se preocupa em impressionar o público com sua performance, com exuberância técnica. Mais tarde você amadurece e passa a valorizar o resultado musical. Esse disco também tem um pouco de exuberância, mas nós estamos a serviço da música o tempo todo”, considera.

O repertório de “Xodós” inclui também composições próprias. “Foi difícil escolher”, admite Pereira. “Ficamos com aquelas que poderiam funcionar bem com os dois violões”. De Bellinati entraram a inédita “Fandango” e “Jongo”, composição que se tornou um clássico no repertório do grupo Pau Brasil. Pereira contribuiu com “Choro de Juliana”, “Amigo Leo”, “Santo Amaro” e “Café Compadre”.

Hoje, tanto “Choro de Juliana” como “Jongo” são tocadas por violonistas de diversos países, em gravações mais tradicionais do que a ouvida em “Xodós”. “Algumas de nossas composições entraram no repertório do violão clássico. O cara pega a partitura, decora e a reproduz nos concertos”, observa Pereira. “Como eu e Bellinati também temos em nossa formação a bagagem do jazz, nossas versões acabam ficando diferentes, também por causa das partes improvisadas”.

Os dois admitem terem ficado especialmente satisfeitos com a releitura da lírica valsa “Se Ela Perguntar” (de Dilermando Reis). “Toquei essa música a vida inteira. Minha avó sempre chorava quando a ouvia. Ficamos emocionados ao escutar essa gravação”, conta Bellinati. “Ela possui uma magia que nem a gente consegue entender como conseguiu. É uma coisa rara, uma benção. Talvez tenham baixado alguns anjos no estúdio, na hora em que a tocamos”, brinca Pereira.

Perfeccionistas, eles contam que chegaram a masterizar o disco pela segunda vez, por não terem ficado satisfeitos com o resultado sonoro da primeira versão. “Passei a vida achando que eu era perfeccionista, mas ao fazer esse disco com o Bellinati percebi que eu sou fichinha perto dele. Ele tira até a última gota do som”, diverte-se Pereira. “Esse disco representa a história de nossas vidas, então tínhamos que caprichar”, retruca Bellinati.

Tratando-se desses dois grandes violonistas, que há décadas desenvolvem carreiras consagradas internacionalmente (e já não precisam provar mais nada a ninguém), só poderíamos esperar por algo assim: música brasileira de alta qualidade, tocada com requinte técnico, elegância e emoção.


(Texto escrito a convite da gravadora Borandá)

Paulo Bellinati e Marco Pereira lançam o álbum "Xodós", dia 15/08, às 21h, em show no Sesc 24 de Maio, na região central de São Paulo. Ingressos de R$ 7,50 a R$ 25,00, nas bilheterias das unidades do Sesc SP (a partir de 7/8) e online (a partir de 8/8), no portal do Sesc SP



4.º Festival BB Seguros: evento aproxima o blues e o jazz do público não-iniciado

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O trio do violonista e compositor norte-americano Al Di Meola encerrou, já no início da noite de ontem, em São Paulo, a quarta edição do Festival BB Seguros de Blues e Jazz. Quem passou a tarde no Parque Villa-Lobos, pôde apreciar um programa musical diversificado e de boa qualidade, além de aproveitar o sol e o calor pouco comuns para um dia de inverno.

Diferentemente de outros festivais do gênero, o BB Seguros não tem a preocupação de trazer revelações ou novas tendências musicais ao país. Como já demonstrou nas edições anteriores, sua curadoria busca oferecer um cardápio musical que possa agradar a diferentes gerações, consciente de que boa parte de seu público é formada por famílias, inclusive adolescentes e crianças.

Oficinas de artes plásticas e outras atividades para os pequenos fazem parte da programação desse festival, que também conta com a música descontraída da BB Seguros Jazz Band, cuja formação decalca as típicas bandas de rua de New Orleans, com instrumentos de sopro e washboard (tábua de lavar roupa), para animar a plateia nos intervalos entre os shows.

Não foi por acaso que, no programa deste ano, o saxofonista carioca Leo Gandelman -- um dos melhores instrumentistas do país -- apresentou versões jazzísticas de clássicos dos Beatles, acompanhado pelo Julio Bittencourt Trio. Ou que a banda mineira O Bando, conhecida na cena nacional do blues, fez um show baseado no repertório do “guitar heroe” Jimi Hendrix. Essas são duas válidas tentativas de aproximar o jazz e o blues de um público não acostumado a ouvir esses gêneros musicais.

Já o blues tradicional esteve bem representado neste ano pelo cantor e guitarrista Lil’ Jimmy Reed, veterano bluesman da Louisiana. Mais eclético foi o show do baiano Pepeu Gomes, craque da guitarra de prestígio internacional, que também homenageou Hendrix e fechou seu show com uma versão roqueira do clássico choro “Tico-Tico no Fubá” (de Zequinha de Abreu), com direito a uma inusitada citação da hispânica “Granada”.

Fechando a noite, Al Di Meola aproveitou a ocasião para exibir composições próprias extraídas de seu álbum “Opus”, recém-lançado no mercado internacional. A seu lado, o acordeonista Fausto Beccalossi e o pianista cubano Kemuel Roig compõem um trio acústico de formação incomum. Talvez esse repertório tenha decepcionado alguns fanáticos pela fase eletrificada de Di Meola, mas até eles devem admitir que assistir a um concerto de um dos mais conceituados violonistas da cena da “world music”, sem gastar um centavo, tem o valor de um presente especial.

Sesc Jazz: novo festival mantém a diversidade e a alta qualidade do Jazz na Fábrica

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                                                              O pianista cubano Omar Sosa, atração do festival Sesc Jazz 

Dois dos melhores festivais brasileiros dedicados ao jazz e à música instrumental se uniram. O Sesc Jazz estreia em agosto, somando a experiência de sete edições do festival paulistano Jazz na Fábrica com os seis anos do Sesc Jazz & Blues, realizado em várias cidades do interior paulista. Quem já se acostumou a frequentar esses eventos anuais pode ficar tranquilo, pois a linha da curadoria é a mesma: diversidade e alta qualidade musical, em uma programação com 22 atrações internacionais e nacionais.

Os shows do Sesc Jazz serão realizados durante três semanas (de 14/8 a 2/9), em oito unidades do Sesc paulista: Pompeia (na capital, que vai receber o maior número de atrações), além das unidades interioranas de Araraquara, Birigui, Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Ribeirão Preto e Sorocaba. A programação já está disponível no portal do Sesc (www.sescsp.org.br/programacao/161482_SESC+JAZZ+2018#/content=programacao). A venda de ingressos começa no dia 26/7, pelo portal, e no dia seguinte também nas bilheterias das unidades do Sesc SP.

Quem abre essa maratona musical, no Sesc Pompeia (dias 14 e 15/8), é o veterano guitarrista norte-americano James “Blood” Ulmer e sua eletrizante fusão de jazz de vanguarda, funk e blues. Além de trazer a Memphis Blood Blues Band, Ulmer também terá a companhia de outro gigante da guitarra: Vernon Reid (líder da banda de funk-metal Living Colour), em participação especial.

Vários estilos de jazz estão representados no cardápio desse festival: o hard bop do trompetista norte-americano Charles Tolliver; o jazz mainstream da pianista canadense Renee Rosnes; as fusões eletrificadas do tecladista nova-iorquino Jason Lindner; o free jazz do saxofonista norte-americano Archie Shepp (na foto baixo), que fará um tributo a seu mentor John Coltrane (1926-1967). E para quem gosta de jazz de vanguarda e/ou experimental, há ainda três craques dessa vertente: o pianista Vijay Iyer (norte-americano de ascendência indiana), o saxofonista Henry Threadgill e o guitarrista (inglês) Fred 
Frith.

Outras atrações comprovam que, ao ser cultivado nos mais diversos cantos do mundo, o jazz se se tornou uma linguagem universal. Isso é evidente na música do pianista Isfar Sarabski (da pequena República do Azerbaijão, entre a Ásia e a Europa), que funde a música folclórica de seu país com elementos do jazz moderno. Já o pianista italiano Stefano Bollani, além de ser um dos mais criativos jazzistas de seu país, cultiva uma íntima relação com a música popular brasileira, exibida em vários de seus discos. 

Diversos gêneros musicais convivem no repertório da cantora espanhola Buika, cujas referências vão do flamenco ao jazz, passando pelo blues, pelo soul e pelo bolero. Multifacetada também é a música do pianista cubano Omar Sosa, que combina a linguagem do jazz com os ritmos afro-cubanos, em meio a influencias da música clássica ou mesmo da música pop.

O Brasil também está muito bem representado nesse festival. A começar pelo brilhante quarteto formado por Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Nailor Proveta (saxofone e clarinete) e André Mehmari (piano), que recria populares canções do mestre baiano Dorival Caymmi.

Outro destaque é o sexteto do pianista e compositor Dom Salvador, paulista radicado há mais de 40 anos em Nova York. Expoente do samba-jazz, ele volta ao país para comemorar seus 80 anos. O elenco nacional inclui ainda o septeto do baixista Itiberê Zwarg (que vai lançar um novo disco pelo Selo Sesc), o pianista paraibano Salomão Soares e o guitarrista paulistano Lourenço Rebetez.


Orquestra Mundana Refugi: imigrantes e refugiados se unem a músicos brasileiros

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                                                                                                  Músicos da Orquestra Mundana Refugi

Não poderia ser mais oportuno o lançamento do primeiro disco da Orquestra Mundana Refugi. Ver músicos refugiados e imigrantes de diversos países se unirem a brasileiros em uma orquestra é um alento, num momento em que mães imigrantes são separadas de suas crianças, nos Estados Unidos. Ou que imigrantes continuam a morrer afogados, no Mar Mediterrâneo, ao buscarem refúgio na Europa.

Por essas e outras razões foi emocionante o concerto da Orquestra Mundana Refugi, ontem, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Além de apresentar o original repertório do CD (lançamento do Selo Sesc), a orquestra surpreendeu a plateia com uma criativa versão de “As Caravanas” -- a perturbadora canção de Chico Buarque, que descreve o medo e o preconceito social da classe média frente aos moradores da periferia do Rio de Janeiro, quando eles se atrevem a frequentar as praias da zona sul.

O encanto dessa orquestra cosmopolita não está apenas no fato de incluir em seu repertório músicas tradicionais de diversos países, mas especialmente no diálogo musical que o diretor e multi-instrumentista Carlinhos Antunes promove em suas composições e arranjos. Como em “Trilogia”, que mistura melodias tradicionais da Palestina, do Irã e da Andaluzia com “Cajuína” (a bela canção de Caetano Veloso). Ou em “Barqueiros do Rio” (parceria de Antunes com Mauro Iasi) que inclui temas originários do Haiti e da Bahia.

Como não pensar em uma estimulante utopia, ao ouvir instrumentos musicais que não existem na tradição brasileira (como o bouzouki do palestino Yousef Saif ou o kemanche do iraniano Arash Azadeh) serem misturados aos saxofones do cubano Luis Cabrera e aos vocais da moçambicana Lenna Bahule e do congolês Hidras Tuale?

Ao demonstrar que músicos de culturas bem diversas podem conviver de maneira tão harmônica, Carlinhos Antunes e seus 22 parceiros dão um exemplo de humanidade, um pouco de esperança para quem não se conforma com um mundo marcado por tantos preconceitos e desigualdades. A música da Orquestra Mundana Refugi emociona e faz refletir. 






Joyce Moreno: compositora e cantora recria sua estreia fonográfica no álbum "50"

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Joyce Moreno pôs em prática uma ideia inusitada. Para comemorar seus 50 anos de carreira, a cantora e violonista decidiu recriar todo o repertório de “Joyce”, seu disco de estreia, gravado no lendário ano de 1968. O resultado desse projeto está no álbum “50” -- lançado em São Paulo, no último final de semana, com shows no Sesc Belenzinho.

O primeiro disco de Joyce já trazia composições próprias, como o irreverente samba “Não Muda Não” e a polêmica canção “Me Disseram” (cuja letra causou celeuma, na época, por utilizar o termo “meu homem”). O repertório incluía também composições de Paulinho da Viola (“Ansiedade”), Marcos Valle e Ruy Guerra (“Bloco do Eu Sozinho”), entre outros jovens colegas de geração da cantora.

Agora Joyce acrescenta àquelas 11 canções a bela “Com o Tempo” (recente parceria com Zélia Duncan), que surge logo ao início do show como um poético flashback. “Com o tempo /Fui ficando mais moça /Mais olhos, menos onça /Mais tempo, menos hora /Fui ficando mais agora /Menos por aí o desejo”, refletem os versos de Zélia.

Formada numa época em que canções também eram usadas para se questionar injustiças e desigualdades, Joyce tem incluído no roteiro de seus shows o samba-afro “Canto de Iansã" (de Ildásio Tavares e Baden Powell). Com ele faz um oportuno desagravo à cultura e às religiões afro-brasileiras, que têm sofrido ataques do atual dublê de pastor e prefeito do Rio e de seus seguidores.

Joyce também não perde a chance de relembrar que sua canção “Superego” foi alvo de preconceito, em 1968. Um crítico-dinossauro chegou a escrever que se tratava de uma “grande música”, mas achava difícil acreditar que ela tivesse sido composta por uma mulher.

Ver e ouvir Joyce, no palco, é uma experiência inspiradora. Além do evidente prazer que exibe ao cantar e tocar seu violão, ela faz questão de apresentar e contextualizar quase todas as canções do show, estabelecendo assim um contato mais direto e enriquecedor com a plateia.

Depois de se ouvir o delicioso samba-jazz “Mingus, Miles & Coltrane”, outra composição da cantora que também faz parte do show, é fácil entender os frequentes sorrisos de Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (baixo) e Tiago Costa (piano), craques que costumam acompanha-la nos palcos e gravações. Que instrumentista não adoraria tocar com uma “cantautora” tão musical, sensível, bem-humorada e ainda fã do jazz como Joyce?




Dom Salvador: pianista radicado em Nova York vai festejar seus 80 anos em São Paulo

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Quando desembarcou nos Estados Unidos, em 1973, o pianista Dom Salvador tinha planejado passar um mês de férias, na casa de uma sobrinha, em Nova York. Reconhecido nos meios musicais da época como um dos expoentes do samba-jazz e experiente músico de estúdio, ele teve enfim a oportunidade de frequentar pela primeira vez os clubes de jazz daquela metrópole. Queria se aprofundar mais no gênero musical que tanto admirava.

Salvador nem imaginava que se tornaria morador de Nova York, onde passou a maior parte de sua vida. Uma parceria com o saxofonista Charlie Rouse (ex-parceiro do genial pianista Thelonious Monk) marcou o início da série de gravações e apresentações que o brasileiro veio a fazer com outros craques do jazz, como Ron Carter, Eddie Gómez e Herbie Mann. Já o convite para assumir a função de diretor musical do cantor e ator Harry Belafonte, em 1977, rendeu a Salvador o visto de permanência nos Estados Unidos.

Assim, passou 30 anos sem se apresentar em palcos brasileiros. Em 2003, quando o Chivas Jazz Festival decidiu homenageá-lo, entusiasmadas plateias de São Paulo e Rio deixaram claro que não queriam mais passar tanto tempo sem ouvir o original samba-jazz e a música instrumental brasileira de Salvador.

“Foram duas noites inesquecíveis. Como eu estava distante do país há muito tempo, já nem esperava encontrar tanta gente interessada em minha música”, relembra o pianista, que desde então voltou a tocar e a gravar no Brasil com alguma frequência. Mais sorte têm os nova-iorquinos, que podem ouvi-lo cinco vezes por semana, há mais de 40 anos, no River Café – sofisticado restaurante às margens do East River.

Às vésperas de completar 80 anos, ele vai festejar essa data especial (12/9) no Brasil. Durante o mês de agosto fará apresentações no Festival Sesc Jazz (dias 25 e 26/9, no Sesc Pompeia, na capital paulista; e dias 22 e 24/8, respectivamente, nas unidades de Birigui e Piracicaba, no interior de São Paulo). Ao lado de Salvador estarão Daniel D’Alcântara (trompete), Jorginho Neto (trombone), Rodrigo Ursaia (sax e flauta), Sérgio Barrozo (contrabaixo) e Mauricio Zottarelli (bateria).

Ele abre um sorriso ao falar sobre o recente lançamento do álbum “Duduka da Fonseca Trio Plays Dom Salvador” (selo Sunnyside), com 11 de suas composições no repertório. Baterista e seu antigo parceiro que também vive em Nova York, Fonseca revisita nesse disco clássicos da obra de Salvador, como a balada “Mariá” ou os sambas “Tematrio” e “Meu Fraco é Café Forte”, ao lado do pianista David Feldman e do contrabaixista Guto Wirtti.

“Eu me sinto orgulhoso por Duduka ter realizado esse projeto. Ele conhece todas as nuances de minhas músicas e, de certo modo, me tirou do ostracismo em matéria de composição”, comenta Salvador, que calcula ter mais de 300 composições próprias na gaveta. “Sempre compus bastante, mas nunca insisti nisso”, admite, com humildade.

Salvador também elogia o talento do pianista David Feldman, com o qual já gravou um álbum, ainda inédito, com duos de pianos. “David é um músico excelente. Ele foi muito cuidadoso durante essas gravações com o trio do Duduka. Ligava para mim quando tinha dúvidas nas partituras, até enriqueceu algumas de minhas composições. Fiquei muito feliz ao ouvir esse disco”.

Outra gravação que estará disponível em breve, liderada pelo próprio Salvador, registra a apresentação que ele fez em novembro de 2015, no Zankel Hall, salão de recitais do Carnegie Hall, em Nova York. Trata-se de um concerto comemorativo dos 50 anos do Rio 65 Trio, cultuado grupo liderado por Salvador, que deixou apenas dois álbuns gravados.

Na resenha desse concerto, publicada pelo “The New York Times”, o crítico Ben Ratliff apontou a “boa forma” de Salvador, além de sintetizar com precisão seu original estilo ao piano: “samba na mão esquerda e fraseado de jazz na mão direita”. Ao lado do pianista estavam o contrabaixista Sergio Barrozo, integrante da formação original do Rio 65 Trio, e Duduka da Fonseca, que assumiu o lugar de Édison Machado (1934-1990), sua grande fonte de inspiração à bateria.

Apesar da costumeira modéstia, Salvador tem consciência de que seu estilo ao piano é praticamente uma assinatura. Lembra-se da reação do antigo parceiro Sergio Barrozo, quando gravaram o álbum “Dom Salvador Trio” (Biscoito Fino, 2007), seu primeiro disco produzido e lançado no Brasil depois de 35 anos. “Logo no primeiro ensaio, o Sergio me disse que já tinha se esquecido de que ninguém toca samba como eu toco”, conta, rindo.

Nada mais natural para um paulista nascido na interiorana cidade de Rio Claro, que se tornou conhecido nas mais badaladas boates paulistanas, ainda no início dos anos 1960. Já vivendo no Rio, em 1964, não demorou a chamar atenção nas “jam sessions” e nos shows do Beco das Garrafas, reduto da bossa nova, onde tocou ao lado de Jorge Ben e Elis Regina, entre outros.

Os fãs mais jovens de Salvador também valorizam o pioneirismo de seu grupo Abolição, marco na história da black music produzida no Brasil. Por sugestão do produtor Hélcio Milito (baterista do lendário Tamba Trio), ele criou em 1970 um grupo formado exclusivamente por músicos negros, para participar do Festival Internacional da Canção. As roupas africanas e os pés descalços dos integrantes do grupo causaram impacto, numa época em que o movimento “black power” chamava atenção, nos Estados Unidos.

“Em entrevistas, chegavam a nos perguntar se o nosso grupo tinha alguma tendência racista. Hoje eu tenho uma certa vergonha por ter chamado o grupo de Abolição, mas naquela época esse termo parecia fazer sentido”, comenta Salvador, reconhecendo uma certa ingenuidade na maneira como a questão racial ainda era abordada no país, na década de 1970.

Já em relação ao aspecto mais musical do Abolição, vale notar que Salvador aderiu às influências da black music que estavam em voga na época, mas não abriu mão de suas raízes. No repertório do único álbum do grupo, “Som, Sangue e Raça” (CBS, 1971), ao lado do emergente samba-soul (que mais tarde veio a inspirar a criação da Banda Black Rio) também havia pitadas de baião e choro.

Embora ressalte que, mesmo na fase do Abolição, jamais se envolveu diretamente com política ou alguma forma de ativismo, Salvador se mostra preocupado ao ver no noticiário manifestações pela volta do regime militar no Brasil. “Essas pessoas que estão pedindo a volta dos militares ao poder não sabem o que realmente se passou no país durante aquela época. Ver que isso está acontecendo hoje no Brasil provoca até arrepios”, comenta.


(Texto para o caderno de cultura do jornal "Valor", publicado em 6/7/2018)







 

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