Nublu Jazz Festival: evento traz Dom Salvador e Sun Ra Arkestra outra vez a São Paulo

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Duas cultuadas atrações da cena do jazz e da música negra contemporânea voltam a se apresentar em São Paulo. Com shows de 9 a 11 de fevereiro, na Choperia do Sesc Pompéia, a segunda edição do Nublu Jazz Festival destaca o lendário pianista e compositor paulista Dom Salvador (foto ao lado), que vive nos EUA desde a década de 70, e a vanguardista big band norte-americana Sun Ra Arkestra (foto abaixo).
 

Criado pelo clube nova-iorquino Nublu, esse festival reúne um elenco diversificado, que também inclui artistas brasileiros. Na noite de abertura (9/2) apresentam-se a banda nova-iorquina de trip-hop Wax Poetic e o trio paulistano Marginals, além do MC Rodrigo Brandão e da cantora Tulipa Ruiz.
 
A segunda noite (10/2) tem como atração principal Dom Salvador, que promete reeditar o grupo carioca Abolição, pioneiro na história da black music brasileira. Quem abre o programa é a norte-americana N’Dea Davenport, que ficou conhecida na década de 1990 como vocalista da banda inglesa de acid jazz Brand New Heavies.
 

A última noite (11/2) é dedicada aos improvisos e ao free jazz futurista da Sun Ra Arkestra, que após a morte de seu criador, o tecladista e compositor Sun Ra (1914-1993), tem sido dirigida pelo saxofonista Marshall Allen.
 

Os preços dos ingressos vão de R$ 32 (inteira) a R$ 8 (matriculados no SESC e dependentes). Vale lembrar que, para eventos como esse, os ingressos costumam se esgotar rapidamente. Outras informações no portal do SESC SP.

Deixo aqui os links para entrevistas que fiz com Dom Salvador e Marshall Allen, por ocasião de suas apresentações no saudoso Chivas Jazz Festival, publicadas na "Folha de S. Paulo". Confira também trechos desses shows nos videos abaixo.

Dom Salvador tocou em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2003, depois de um hiato de três décadas sem se apresentar no Brasil:
"Pioneiro do samba-soul, Dom Salvador volta ao país para homenagem"

Já dirigida por Marshall Allen, a Sun Ra Orchestra esteve no Brasil pela primeira vez em 2004, para a quinta edição do Chivas Jazz:
"Sun Ra Arkestra aterrissa em São Paulo"








Etta James: uma intérprete explosiva que privilegiava a emoção no palco e na vida

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Na cena da música popular norte-americana, Etta James (1938-2012) foi uma das cantoras que melhor expressaram, na década de 60, a dualidade poética e política da soul music. Em canções repletas de referências a frustrações amorosas, esse gênero musical embutia também o desejo do negro de possuir os mesmos direitos de outros cidadãos, numa sociedade dominada pelos brancos.
 
Etta colocava suas emoções à frente de tudo, tanto nos palcos como na vida. Era uma mulher extremada, capaz de revelar amor ou ódio com a mesma intensidade. Cantava como falava: sabia ser suave, mas ficou mais conhecida pelas explosões, fossem de raiva, ressentimento ou sensualidade.


Quando esteve pela primeira vez no Brasil, no Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1978, deu um show de excessos. Usando roupas espalhafatosas e um cabelão black power, chocou parte da plateia com insinuações sexuais e gestos obscenos, mais apropriados a uma estrela junkie do rock.


Na década seguinte, surpreendeu de novo os fãs paulistanos, em uma temporada no 150 Night Club. Já próxima dos 50 anos, mais sóbria, entrou no palco como uma lady, exibindo jóias e os cabelos alisados, mesmo deixando claro, minutos depois, que não abandonara a atitude intensa e provocadora.


“Sou esquizofrênica até os ossos”, confessou ao escritor David Ritz, que assinou com ela a autobiografia “Rage to Survive”, publicada nos EUA em 1995. “Tive duas mães, duas infâncias e vivi duas vidas diferentes, em duas cidades. Talvez seja por isso que me tornei duas pessoas diferentes”, completou, no primeiro parágrafo.


Nascida em 1938, Jamesetta Hawkins (seu nome verdadeiro) foi criada pelos tios. Sua mãe, grávida aos 14 anos, demorou a revelar à filha a identidade de seu pai. “Eu a via como uma deusa distante, uma estrela que eu não podia tocar, não podia entender, nem mesmo chamar de mãe”, contou a cantora, expondo uma de suas feridas mais profundas.
 

É preciso juntar a isso seu precoce ingresso no showbizz, aos 15 anos, seguido pelo envolvimento com drogas pesadas, para se entender melhor o explosivo contexto de suas interpretações de sucessos como “Tell Mama”, “I’d Rather Go Blind” ou “All I Could Do Was Cry”.
 

Pena que a romântica balada “At Last”, seu maior hit, tenha sido pivô de um episódio constrangedor, já no final de sua vida. Etta não perdoou o fato de Beyoncé, que a interpretou no filme “Cadillac Records” (2008), ter sido convidada a cantar essa música numa festa que comemorou a posse do presidente Obama, no ano seguinte.
 

“Ninguém vai roubar essa canção de mim. Ela é minha”, desabafou, ao se apresentar no Jazz Fest de Nova Orleans, já bastante abatida e cantando sentada, como em outras de suas aparições, naquele ano de 2009. Uma intérprete de sua importância para a música negra não precisaria ter escancarado publicamente esse ressentimento, mas a impulsiva Etta James preferiu dar voz às suas emoções até o fim da vida.
 
(Texto publicado parcialmente na “Folha de S. Paulo”, em 21/1/2012)


Trombone Shorty: instrumentista e cantor é sensação da cena musical de New Orleans

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O apelido Trombone Shorty ficou como herança da época em que Troy Andrews ainda era apenas um garoto baixinho que estudava trombone. Hoje, aos 25 anos, com um currículo invejável, ele é uma das revelações mais festejadas da eclética cena musical da cidade de Nova Orleans (EUA), onde nasceu.

“For True” (lançamento Universal), seu segundo álbum com distribuição mundial, confirma seu enorme potencial como compositor, cantor, trompetista e, claro, trombonista, além das incursões por outros instrumentos, como teclados, bateria e percussão. “Buckjump”, a faixa inicial, anuncia com muita energia o contagiante mix de funk, soul, jazz e hip hop que se desdobra pelo resto do álbum.

A intenção de atrair um público maior pode explicar o grande número de participações especiais, nesse álbum. Algumas, como a da ótima cantora Ledisi, no soul “Then There Was You”, ou a do guitarrista veterano Jeff Beck, na sensual “Do To Me”, se sustentam. Outras, como as dos roqueiros Kid Rock e Lenny Kravitz (tocando baixo), soam meio decorativas. Com talento de sobra, Shorty nem precisaria desse óbvio truque de marketing para vender seu disco.

(resenha publicada parcialmente no “Guia Folha - Livros, Discos, Filmes”, edição de dezembro de 2011)


Rosa Passos: afastada dos palcos, cantora retoma a carreira com o álbum "É Luxo Só"

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O ano de 2011 já se aproximava de seu final, quando o lançamento do álbum “É Luxo Só” (pela gravadora Biscoito Fino) veio acompanhado por uma ótima notícia: depois de três anos de afastamento dos palcos, a doce cantora, violonista e compositora Rosa Passos está retomando sua carreira musical.

Nesse álbum em homenagem à eclética Elizeth Cardoso (1920-1990), uma das grandes intérpretes da música popular brasileira, Rosa imprime seu sofisticado estilo vocal, entre o jazz e a bossa nova, a clássicos de Cartola (“As Rosas Não Falam”, “Acontece”), Noel Rosa (“Ultimo Desejo”, “Três Apitos”), Ary Barroso (“É Luxo Só”) e Zé Ketti ("Diz que Fui por Aí").

Nesta entrevista, ela conta o que a levou a interromper a carreira musical, comenta detalhes dessa homenagem a Elizeth e revela seus próximos projetos, incluindo um disco com canções de Djavan e possíveis parcerias com os jazzistas Ron Carter e Kenny Barron. Rosa também comenta o fato de cantoras das novas gerações já não se preocuparem mais com a afinação ou outros detalhes essenciais numa gravação.

Sua carreira internacional estava a todo vapor, no final de 2008, quando você se afastou da música. O que aconteceu?

Rosa Passos - Tive “síndrome de burnout”, uma estafa muito grande provocada por excesso de trabalho. O pianista Keith Jarrett ficou três anos sem tocar pelo mesmo motivo. Quinze anos atrás minha carreira deslanchou no exterior e eu passei a viajar muito. Como entrei num processo de desgaste e continuei trabalhando, meu organismo começou a reclamar. Eu já estava fazendo tudo mais pela obrigação do que pelo coração, nem conseguia mais olhar para o meu violão. Cheguei a ficar mais tempo viajando, do que em casa. Então tive que parar tudo, por recomendação médica. Fiquei baianíssima, só na rede, em casa, cuidando de três gatos e quatro cachorros (risos).

O que a levou a gravar um tributo a Elizeth Cardoso?

Rosa - Foi presente de um amigo, que sugeriu essa homenagem. Eu me animei com a ideia, pesquisei bastante o repertório e os discos da Elizeth, mas não queria fazer nada óbvio. Coloquei algumas músicas no disco, como uma homenagem pessoal. Escolhi músicas que a maioria das pessoas nem sabe que ela gravou, como “Palhaçada” (Haroldo Barbosa/Luis Reis), “Diz Que Fui Por Aí” (Zé Ketti) e “Acontece”, que Cartola fez para ela. Elizeth abraçou toda a música brasileira, não tinha um repertório característico ou limitado. Ela gravou tudo.

O estilo vocal da Elizeth era bem diferente do seu. O que atrai você na obra dela? Rosa - A versatilidade dela como intérprete, algo que sempre admirei muito. Aprendi a gostar da Elizeth com meu pai, aos oito ou nove anos de idade. Ela tinha aquela elegância, foi uma grande intérprete, que sempre esteve à frente de sua época. Outra coisa que me encantou muito nela foi a decisão de cantar as “Bachianas”, de Villa-Lobos. Ou quando gravou o disco “Canção do Amor Demais” (1958), cantando Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que tem João Gilberto tocando violão, já com aquela coisa do começo da bossa nova. Ali, mais uma vez, ela estava à frente.

Mas o fato de seu estilo vocal e o dela serem diversos não tornou mais difícil se aproximar do repertório dela? 

Rosa - Sempre gostei de desafios. Já fiz um disco muito difícil, o “Amorosa”, em homenagem a João Gilberto. Tudo bem, ele é meu ídolo, teve uma grande influência na minha maneira de tocar e cantar, mas, no caso da Elizeth, eu me identifico com a ousadia dela como grande intérprete que foi. Anos atrás a Zezé Motta já homenageou Elizeth, cantando o repertório mais clássico dela. Minha ideia foi trazer a lembrança da Elizeth, mas fazendo uma homenagem mais pessoal. Eu nem saberia como cantar algumas canções mais conhecidas do repertório dela, como “Barracão” ou a “Canção do Amor Demais”.

Quando você gravou o “É Luxo Só”?  

Rosa - Gravei esse disco entre 1º e 5 de março de 2011, em Brasília, com Lula Galvão (violão e arranjos) e Jorge Helder (baixo acústico), meus amigos e parceiros de muitos anos. Foi muito gostoso porque eles ficaram hospedados em minha casa. Eu fazia comidinha para eles e, à tarde, íamos para o estúdio. O show de lançamento também será em Brasília, dias 2 e 3 de março (de 2012), no Teatro Oi. Depois quero fazer São Paulo e, devagarzinho, viajar pelo Brasil. Estou bem animada com esse recomeço. Tenho recebido um carinho muito grande de meus fãs, especialmente pelo Facebook.

O que você acha dessas cantoras de gerações mais recentes, que já não atentam mais aspectos essenciais do canto, como a afinação ou a dicção? 

Rosa - Pois é, a afinação deveria vir em primeiro lugar (risos). Hoje, gravar um disco é a coisa mais fácil do mundo. Existe toda uma tecnologia para isso, que permite até afinar a voz do cantor numa gravação. Então as pessoas não estão mais preocupadas com a técnica da interpretação, com a divisão, com a respiração e a dicção. Acho que essa mudança tem uma razão cultural. Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas têm aulas de música desde criança, nas escolas. Aqui no Brasil não existe mais isso. Os poucos que têm acesso à formação musical devem isso a seus pais. Eu fui feliz, porque meu pai colocou aulas de música na educação que eu e meus irmãos recebemos. Aqui no Brasil, a criança, o adolescente e o jovem crescem com informação musical da pior qualidade. Só ouvem música de consumo imediato, música popularesca em excesso. Quando dou aulas ou oficinas de música, sempre ressalto o cuidado que você deve ter com a interpretação, com a respiração e a dicção. A estética da música é algo muito importante, que os professores de canto deveriam ensinar.

Você já tem planos para outro disco?  

Rosa - O próximo será uma homenagem ao Djavan, com certeza. Eu amo Djavan de paixão! Quero gravar os clássicos dele com a minha leitura. Quem sabe, ele até dá uma música inédita pra mim (risos). Estou muito feliz, porque cheguei numa fase de minha vida profissional em que me sinto realizada. Em 2008, recebi o título de doutora honoris causa da Berklee School. Já gravei com Ron Carter, gravei e viajei com Yo Yo Ma, toquei com meu amigo Paquito D’Rivera. Me sinto tranquila para poder voltar ao trabalho mais madura.

Como andam os convites para projetos no exterior?  

Rosa - Como plantei meu trabalho com muito carinho e amor, essas portas continuam abertas para mim. Recebi convite para um show com o Wynton Marsalis, em Nova York, em abril, mas não pude ir. Mesmo assim, ele me disse que podemos fazer esse show quando eu quiser. Ron Carter já demonstrou interesse em fazer outro disco comigo. Também recebi a proposta de gravar com outro músico que eu amo de paixão: o pianista Kenny Barron. Ele viria para o Brasil, gravar com músicos brasileiros, e eu seria a cantora convidada. Se isso acontecer mesmo, vou ficar muito feliz, porque ele é um dos meus pianistas preferidos. 

(entrevista publicada parcialmente no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", na edição de dezembro de 2011)

 

Melhores de 2011: críticos elegem seus álbuns favoritos em enquete do "Valor Econômico"

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Atendendo a um convite do jornal “Valor Econômico”, com o qual tenho colaborado durante a última década, participei de uma enquete para eleger os melhores discos de 2011. Para essa votação também contribuíram os jornalistas e críticos João Marcos Coelho, Luciano Buarque de Hollanda, Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello.

Quem atua na área musical sabe que essa é uma das tarefas mais difíceis, discutíveis até, nesse ramo. Como justificar que um trabalho artístico nos parece melhor do que outro, sem sermos parciais ou mesmo injustos? Até que ponto nosso gosto pessoal pesa decisivamente nessa decisão?

O fato é que aceitei indicar cinco CDs nacionais e cinco internacionais de qualquer gênero, lançados em 2011. O resultado da enquete está no no site do “Valor Econômico”. Estes foram os 10 álbuns que eu selecionei, em ordem alfabética:
                           


ÁLBUNS NACIONAIS 
Alma Lírica Brasileira - Mônica Salmaso (Biscoito Fino)
Indivisível - Zé Miguel Wisnik (Circus)
Liebe Paradiso - Celso Fonseca e Ronaldo Bastos (Dubas)
Recanto - Gal Costa (Universal)
Vento em Madeira - Quinteto Vento em Madeira (Maritaca)


ÁLBUNS INTERNACIONAIS
Dreamer in Concert - Stacey Kent (EMI)
For True - Trombone Shorty (Verve/Universal)
Live in Marsiac - Brad Mehldau (Nonesuch/Warner)
Ninety Miles - Stefon Harris, David Sánchez e Christian Scott (Concord)
Rio - Keith Jarrett (ECM/Borandá)


Cesária Évora: diva de Cabo Verde dizia que "a alegria e a tristeza são vizinhas"

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Cesária Évora (1941-2012) foi a maior estrela musical de Cabo Verde. Sem sua voz emotiva e seu discreto carisma, a música popular desse arquipélago africano, ex-colônia de Portugal, não seria hoje tão conhecida mundialmente.

Pelo que representou na cena musical do último século, é justo equipará-la a outras grandes divas do canto, como Amália Rodrigues (1920-1999), principal intérprete do fado português, Bessie Smith (1894-1937), maior cantora do blues clássico norte-americano, ou Celia Cruz (1925-2003), “rainha” da salsa cubana.

Sobrinha do compositor B. Leza, que ajudou a dar forma à moderna canção cabo-verdiana, Cesária nasceu no porto de Mindelo. Sua carreira musical levou décadas para engrenar. Chegou a fazer gravações em Portugal, na década de 1970, mas só alcançou o sucesso quando já era cinquentona. Lançado em 1992, “Miss Perfumado” foi o álbum que a projetou mundialmente.

Nenhum dos gêneros musicais que faziam parte de seu repertório identificou-se tão bem com sua imagem artística como a “morna”. Hoje um símbolo cultural de seu país, essa modalidade de canção em andamento lento caracteriza-se por versos carregados de melancolia, que falam de amores frustrados, saudade e exílio – como “Sodade”, o maior sucesso de Cesária.

O hábito de entrar nos palcos sem sapatos, que a tornou conhecida como “a diva dos pés descalços”, não era apenas uma idiossincrasia. Soava também como um gesto que expressava seu apego às raízes da música que cultivou por toda a vida.

“Quem quiser se afastar da tradição, que se afaste. Sempre cantei e vou continuar cantando música típica de Cabo Verde”, afirmava, quando lhe perguntavam se não pensava em “modernizar” seu repertório ou trocar por instrumentos eletrônicos o cavaquinho, os violões, o piano e a percussão que costumavam acompanhá-la.

Essa determinação não a impediu de se aproximar da música brasileira, pela qual tinha grande admiração. Fã da fluminense Angela Maria, cantora da chamada “era de ouro” do rádio brasileiro, Cesária gravou dois de seus sucessos: o samba-canção “Negue” e o bolero “Beijo Roubado” (ambos de Adelino Moreira). Também fez parcerias com Caetano Veloso, Gal Costa e Marisa Monte.

Em uma entrevista que fiz com ela para a "Folha de S. Paulo", em 2005, ao revelar que gostava das folias do Carnaval, Cesária me disse que não era tão melancólica quanto faziam supor as mornas que cantava. “Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou. A alegria e a tristeza são vizinhas”, filosofou com sabedoria a diva descalça.


(texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 20/12/2011)





Stacey Kent: cantora volta a demonstrar sua paixão pela música brasileira

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Ela não se cansa de declarar seu amor pela música brasileira. Tanto é que, desde 2008, a cantora norte-americana Stacey Kent já esteve quatro vezes no país. Na última visita, em outubro, ao participar do concerto comemorativo dos 80 anos do monumento ao Cristo Redentor, no Rio, ela falou à "Folha de S. Paulo" sobre o CD “Dreamer in Concert”, que a EMI acaba de lançar no Brasil.

“Sempre que meus fãs iam conversar comigo, após os concertos, me perguntavam quando eu faria um disco gravado ao vivo. Eles queriam levar o show para casa”, diz ela, justificando o conceito desse álbum, depois de gravar mais de uma dezena de discos em estúdios, sempre acompanhada pelo saxofonista Jim Tomlinson, seu marido.

No novo CD, registrado em maio último, no La Cigale, em Paris, Stacey interpreta clássicos da canção norte-americana e do jazz, como “If I Were a Bell” (Frank Loesser), “They Can’t Take That Away From Me” (Ira e George Gershwin) e "It Might As Well Be Spring" (Rogers e Hammerstein), além de recentes composições de Tomlinson com o escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

Com sua voz doce e “cool”, ela também passeia com elegância pela moderna canção francesa, em “Ces Petit Riens” (Serge Gainsbourg) e “Jardin D’Hiver” (Biolay e Zeidel). E, naturalmente, reverencia a música brasileira, com três canções de Tom Jobim, “Corcovado”, “Águas de Março” e “Dreamer” (Versão de "Vivo Sonhando"), além do "Samba Saravah" (Pierre Barouh, Vinicius de Moraes e Baden Powell).

“Sei que ainda tenho muita coisa a aprender sobre a cultura do Brasil e isso é um projeto para a vida inteira. Química pessoal é algo raro. Eu me sinto bem demais aqui. É uma sensação muito forte”, diz Stacey, já em português fluente. A admiração pela música brasileira a levou frequentar cursos intensivos de língua portuguesa, nos últimos três verões.

O fato de ser “muito emotiva”, segunda ela, ajuda a explicar sua empatia com os brasileiros. “Vocês não têm medo de falar das coisas tristes ou dolorosas, não têm medo de chorar. Eu também gosto, tanto no estúdio, como no palco, de compartilhar minhas emoções, meu coração, com as pessoas”.

 
A cantora também se mostrou eufórica ao falar de seu encontro com o cantor e compositor carioca Marcos Valle, que conhecera na véspera do concerto em homenagem ao monumento do Cristo Redentor. Juntos, cantaram o clássico “Samba de Verão”, de autoria do brasileiro.

“A química entre nós foi tão incrível que passamos quase a noite inteira falando. Era impossível sair. Quando é que teremos outra oportunidade de cantar e conversar com um músico tão fantástico como Marcos Valle?”, disse Stacey, descrevendo o encontro, que também incluiu Tomlinson, seu parceiro.

(reportagem publicada parcialmente, na "Folha de S. Paulo", em 15/12/2011)



 

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