Koko-Jean Davis e Raphael Wressnig: destaques nos festivais de Guaramiranga e Gravatá

|

                               Koko-Jean Davis e Raphael Wressnig, no clube Bourbon Street, em São Paulo
 
Os cearenses e pernambucanos que preferem trocar as folias carnavalescas por jazz, blues e música instrumental vão poder conhecer, nos próximos dias, duas brilhantes revelações da cena musical europeia: a cantora Koko-Jean Davis e o organista Raphael Wressnig, que estão entre as atrações do 17º Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga (CE) e do 1º Gravatá Jazz Festival (PE).

Ontem à noite, em São Paulo, a cantora e o organista deram uma prévia do que vão apresentar durante o Carnaval, nesses festivais do Nordeste. No palco do clube Bourbon Street também estava Igor Prado (na foto abaixo), conceituado guitarrista de blues e principal responsável pela primeira turnê brasileira desses artistas. 


Quem foi ao Bourbon Street sem maiores informações deve ter se surpreendido com o talento de todos. A noite começou com a coesa Igor Prado Band, que ofereceu uma generosa base para os solos do organista austríaco. Raphael Wressnig não é apenas um improvisador criativo, que domina as linguagens de gêneros como o rhythm & blues, o soul, o jazz e o gospel. Performático, chegou até a subir no órgão, deixando a plateia excitada.

Já a carismática Koko-Jean –- moçambicana que vive em Barcelona, na Espanha –- só precisou de alguns instantes no palco para conquistar novos fãs. Não à toa já a compararam à elétrica Tina Turner. Como ela, Koko-Jean revela uma energia contagiante, em suas performances. Seu repertório, calcado na soul music e no rhythm & blues, lembra um pouco o de outra diva do gênero: Sharon Jones. Esse é o caso de “I Don’t Love You no More”, canção que Koko-Jean transformou em sucesso, nos palcos europeus, quando ainda se apresentava com a banda The Excitements.

Bem conhecido no circuito dos festivais brasileiros de blues e jazz, o paulista Igor Prado também vive um momento especial em sua carreira. Depois de ver seu álbum “Way Down South” liderar o ranking de execução em rádios norte-americanas dedicadas ao blues, esse disco foi indicado para o Memphis Blues Awards, um dos prêmios mais respeitados do gênero.

Mais informações nos sites do Festival Jazz & Blues e do Gravatá Jazz Festival.



New Orleans Jazz Fest 2016: as atrações de um dos maiores festivais do mundo

|


Stevie Wonder, Steely Dan, Paul Simon, Neil Young, Van Morrison, Red Hot Chili Peppers, Pearl Jam, Beck, Elvis Costello, Los Lobos. Com essas atrações, o New Orleans Jazz & Heritage Festival, que anunciou o programa de sua 47ª edição, pode até parecer um grande festival de música pop e rock, mas é muito mais que isso.

Um dos maiores festivais de música do mundo, com seus 12 palcos dedicados aos diversos gêneros musicais cultivados em New Orleans (jazz moderno, jazz tradicional, blues acústico, blues elétrico, gospel, R&B, soul, funk, hip hop, reggae, salsa, zydeco, cajun, entre outros), o Jazz Fest é, na verdade, uma celebração à diversidade musical dessa cidade da Louisiana. 

Entre astros de vários gêneros, os sete dias de shows no hipódromo local vão oferecer, por exemplo, jazzistas de alto quilate como o pianista Herbie Hancock (na foto abaixo) e o saxofonista Wayne Shorter, que vão tocar em duo, o baterista Jack DeJohnette, o saxofonista Ravi Coltrane, a pianista Geri Allen, o trompetista Arturo Sandoval e o cantor Gregory Porter, entre outros.

Fãs do blues podem se deliciar com shows de medalhões do gênero, como Buddy Guy (na foto ao lado), Taj Mahal, Tedeschi-Trucks Band, Corey Harris, John Hammond e Jonny Lang. O mesmo vale para os apreciadores da black music, bem representada pelos cantores Sharon Jones,
Maxwell, Mavis Staples e Irma Thomas, além da veterana banda de soul Isley Brothers e, claro, Stevie Wonder. 
 
Como já aconteceu em 2015, a programação deste ano destaca vários tributos musicais. Na tarde de abertura (em 22/4), Geri Allen revisita a obra do clássico pianista de jazz Errol Garner. O clarinetista Dr. Michael White e o pianista Henry Butler releem a obra do pioneiro Jelly Roll Morton, em 23/4. No primeiro domingo (24/4), a cantora Ruby Wilson relembra Bessie Smith, a “Imperatriz do Blues”. Já no domingo de encerramento (1/5), os músicos das bandas de B.B. King e de Allen Toussaint rendem tributos a seus líderes, que também morreram em 2015. 
 
Essas atrações compõem apenas a porção mais vistosa do New Orleans Jazz Fest, que costuma oferecer cerca de 400 shows a cada ano. Na verdade, são os artistas locais que garantem a consistência musical do evento. Músicos como Aaron Neville, Dr.John, Trombone Shorty, Walter “Wolfman” Washington, John Boutté, Leah Chase, George Porter, Marcia Ball, Tab Benoit, Nicholas Payton, Donald Harrison, Glen David Andrews, Davell Crawford, Christian Scott e Rockin' Dopsie, ou bandas como Galactic, Preservation Hall Jazz Band, Astral Project, Rebirth Brass Band, Dirty Dozen Brass Band, Soul Rebels e The Wild Magnolias, podem figurar em qualquer grande festival do mundo. 

Outra tradição do evento é a de homenagear países que tenha laços com a cultura musical de New Orleans. Desta vez será o centro-americano Belize, contemplado com uma exposição no Pavilhão de Intercâmbio Cultural.

Mais informações no site do New Orleans Jazz & Heritage Festival: www.nojazzfest.com




Festivais em 2016: roteiro de eventos de jazz, música instrumental e blues pelo Brasil

|

 
Aqui você encontra um roteiro com as atrações musicais dos principais festivais brasileiros já anunciados para 2016. É atualizado regularmente para que os fãs do jazz, da música instrumental brasileira, do blues, da bossa nova e da black music possam se programar com antecedência.

                             Toninho Horta, atração do Festival Jazz & Blues de Guaramiranga (CE)
 


17º Festival Jazz & Blues
Quando e onde: de 6 a 9/02/2016, em Guaramiranga (CE); de 11 a 13/02/2016, em Fortaleza (CE) 
Atrações: Toninho Horta, Roberto Menescal e Danilo Caymmi, Gilson Peranzzetta Trio,
Koko Jean Davis (Moçambique/Espanha), Raphael Wressnig (Áustria), Igor Prado Band, Artur Menezes, Maria Toro (Espanha), Márcio Resende, Pablo Fagundes, Eduardo Holanda e Cainã Cavalcante, Heriberto Porto e Thiago Almeida, Di Ferreira e Claudio Mendes, Lorena Nunes, Thiago Rocha e Sávio Dieb, Mingo Araújo e Adelson Viana, Big Band Unifor, "Giant Steps: Tributo a John Coltrane"  
http://www.jazzeblues.com.br/2016/index.html


1º Gravatá Jazz Festival
Quando e onde: de 6 a 9/02/2016, em Gravatá (PE) 
Atrações: Koko Jean Davis, Igor Prado Band & Raphael Wresnig, Jards Macalé  & Victor Bliglione, Wanda Sá, Roberto Menescal, Tony Tornado, Mark Rapp, Flávio Guimarães, Derico, Arthur Menezes, Vasco Faé, Jefferson Gonçalves e outros

https://www.facebook.com/pages/Garanhuns-Jazz-Festival/201934933154316 

5º Música em Trancoso
Quando e onde: de 5 a 12/03/2016, em Trancoso (BA) 
Atrações: Bobby McFerrin (EUA), César Camargo Mariano, Orquestra Experimental de Repertório, Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e outras a serem anunciadas

http://musicaemtrancoso.org.br/

6º Jurerê Jazz Festival
Quando e onde: de 20/04 a 1º/05/2016, em Florianópolis (SC)
Atrações: Gilson Peranzzetta e Mauro Senise, Carlos Malta & Pife Muderno, Leny Andrade e Banda Sambop, Nuno Mindelis, Flávio Guimarães e Netto Rockfeller, The Ipanemas Convida Izzy Gordon, Bass Groove Brasil, Duo Finlândia, Headcutters e outras a serem anunciadas

http://jurerejazz.com/

8º Bourbon Festival Paraty
Quando e onde: de 20 a 22/05/2016, em Paraty (RJ) 
Atrações: a serem anunciadas

http://www.paraty.com.br/bourbon_festival_paraty.asp  

Santa Teresa Jazz & Bossa
Quando e onde: de 20 a 22/05/2016, no Rio de Janeiro (RJ) 
Atrações: a serem anunciadas  

https://www.facebook.com/FestivalSantaJazz/  

São Paulo Jazz Festival
Quando e onde: de 25 a 28/05/2016, em São Paulo (SP) 
Atrações: a serem anunciadas  

https://www.spjazzfestival.com/  

2º Festival Internacional de Jazz e Vinho
Quando e onde: de 25/06/2016, em Florianópolis (SC); 26/06/2016, em Porto Alegre (RS); 1º/07/2016, em Joinville (SC); 2/07/2016, em Curitiba (PR)
Atrações: David Bennet Cohen Blues Band (EUA), Shuffle Demons (Canadá), Christian Brenner (França), Kora Jazz Band (África) e Assaf Kehati Trio (Israel)
http://www.festivaldevinhoejazz.com.br/index.html

6º Jazz na Fábrica
Quando e onde: em agosto, no Sesc Pompéia, em São Paulo (SP)
Atrações: a serem anunciadas

http://www.sescsp.org.br/unidades/11_POMPEIA/#/content=programacao  

14º Savassi Festival
Quando e onde: de 2 a 10/07/2016, em Belo Horizonte (MG) 
Atrações: a serem anunciadas

http://www.savassifestival.com.br/

14º Bourbon Street Fest
Quando e onde:
em agosto de 2016, em São Paulo (SP) e outros estados a definir 
Atrações: a serem anunciadas

http://www.bourbonstreetfest.com.br

 3º Porto Alegre Jazz Festival
Quando e onde: em outubro de 2016, em Porto Alegre (RS)
Atrações: a serem anunciadas

https://www.facebook.com/portoalegrejazzfestival/





Discos de 2015: música instrumental, jazz e MPB em 30 álbuns de alta qualidade

|


Nos últimos anos, com a chegada do mês de dezembro, tenho ficado aflito ao pensar na obrigação de elaborar outra das habituais listas de melhores discos. A pulverização da indústria fonográfica em milhares de pequenas gravadoras e selos independentes parece tornar mais difícil, a cada ano, a tarefa de acompanhar todos os lançamentos nessa área. 

Acabei aceitando outra vez o convite do colega Juarez Fonseca, que organiza a habitual enquete do jornal gaúcho “Zero Hora”, publicada na edição de hoje, mas já sugeri a ele que, em 2016, pensemos em um novo formato para essa tarefa.

Um pouco descontente com a lista de dez indicações que prometi enviar ao “Zero Hora“, decidi então já esboçar algo diferente neste blog. Em vez de publicar aqui minha discutível lista de “melhores” de 2015, preferi recomendar 30 discos de música instrumental, MPB e jazz. Todos eles foram lançados durante este ano, no mercado brasileiro, e merecem ser prestigiados justamente por estarem bem acima da média dos lançamentos do ano.

Alguns desses discos até já foram resenhados neste blog. Mesmo assim, os 30 títulos da lista são acompanhados por uma pequena resenha que tenta justificar essa escolha. Espero que essa seleção de discos possa ajudar os leitores deste blog a descobrir novos artistas, assim como ampliar suas discotecas com novos discos de alta qualidade. Aqui está a lista, em ordem alfabética:  



30 discos de 2015 para seguir ouvindo em 2016  

Alfredo Del Penho - “Samba Sujo” (independente). Inspirado por Paulinho da Viola, o cantor, letrista, violonista e ator fluminense estreou em disco com uma dose dupla: lançou um álbum instrumental e este outro dedicado à diversidade do samba. Neste, interpreta um repertório saboroso, incluindo composições próprias que confirmam sua profunda intimidade com esse universo musical.  
André Marques - “Viva Hermeto” (Borandá). Pianista do grupo de Hermeto Pascoal há duas décadas, o músico paulista se uniu ao contrabaixista John Patitucci e ao baterista Brian Blade, craques do jazz norte-americano, para visitar 13 composições de seu mestre. Um criativo e jazzístico tributo ao bruxo da música livre, que destaca tanto alguns de seus clássicos como temas pouco conhecidos. 
 
André Mehmari - “As Estações na Mantiqueira” (Estúdio Monteverdi). Mantendo seu hábito de lançar mais de um disco por ano, o eclético pianista e compositor retoma neste projeto seu virtuoso trio com Neymar Dias (contrabaixo e viola caipira) e Sérgio Reze (bateria). Além da faixa-título, bela suíte em quatro movimentos de Mehmari, o álbum inclui homenagens a Dominguinhos, Luiz Gonzaga e Ernesto Nazareth.

Andréa dos Guimarães - “Desvelo” (independente). Uma das surpresas mais animadoras do ano, essa cantora e pianista mineira radicada em São Paulo, integrante do grupo Conversa Ribeira, revela sua bagagem erudita. No repertório, sambas e canções de Chico Buarque, Ivan Lins e Luiz Gonzaga ganham releituras despojadas, ao lado de belas composições próprias, que valorizam o canto expressivo de Andréa.

Antonio Adolfo - “Tema” (AAM). O pianista e compositor carioca revisita melodias menos conhecidas de sua obra, criadas em diversas épocas. Ao lado de craques da música instrumental brasileira, como Marcelo Martins (sax e flauta), Leo Amoedo (guitarra) e Jorge Helder (contrabaixo), Adolfo exercita a faceta de arranjador para que seus saborosos “temas” – alguns até da década de 1960 – soem atuais.

Antonio Arnedo e outros - “Fronteiras Imaginárias” (Núcleo Contemporâneo). Referência na cena instrumental colombiana, o saxofonista e compositor Antonio Arnedo encontra os brasileiros Benjamim Taubkin (piano), Sergio Reze (bateria) e João Taubkin (baixo), em projeto de essência jazzística, com belo repertório autoral. Tomara que sirva de exemplo para outras parcerias entre instrumentistas das Américas. 


Arismar do Espírito Santo - “Roda Gingante” (Maritaca). Além do trocadilho do título, o multi-instrumentista paulistano escolheu uma formação inusitada para o grupo com o qual gravou esse álbum: tocando violão, guitarra e baixo, ele tem a seu lado Bebê Kramer (acordeom), Gabriel Grossi (gaita) e Leo Amuedo (guitarra). O resultado é quase uma “jam session” que mistura belos sambas, baião, coco, valsa, até jazz.

Benjamim Taubkin e outros - “O Piano e a Casa” (Núcleo Contemporâneo). Gravado ao vivo, na Casa do Núcleo, em São Paulo, este álbum traça um panorama de tendências da música instrumental brasileira de hoje. Pianistas de diferentes estilos e gerações, como Amilton Godoy, Hercules Gomes, Heloisa Fernandes, Tiago Costa, Karin Fernandes, Júlia Tygel, Zé Godoy e Fábio Torres, compõem o ótimo elenco.

Carlos Badia - “Zeros” (independente). Ex-integrante do grupo Delicatessen, o violonista, cantor e compositor gaúcho estreia como solista já com álbum duplo – um instrumental e o outro de canções. Neste, o lirismo de Badia se desdobra em vários gêneros: bossa nova, samba, jazz, folk. Aliás, mesmo alguns dos temas instrumentais do álbum deixam a sensação de que ainda podem virar canções, se receberem letras.

Chico César - “Estado de Poesia” (Natura Musical). Depois de seis anos afastado dos palcos para atuar como gestor público de cultura na Paraíba, onde nasceu, o cantor e compositor retoma seu ofício com inspiração e evidente prazer. Seu primeiro disco de inéditas desde 2008 traz canções românticas, assim como uma nova safra de canções de viés social, que abordam o racismo e outras formas de preconceito.  


Conrado Paulino - “4 Climas” (independente). Argentino radicado em São Paulo, o violonista e compositor esbanja sofisticação musical à frente de seu quarteto, que inclui Debora Gurgel (piano), Marinho Andreotti (contrabaixo) e Percio Sapia (bateria). Paulino mergulha com personalidade na diversidade rítmica brasileira, do frevo ao samba, valendo-se de sua bagagem jazzística.   
    
Daniel D’Alcântara - “Canção para Tempos Melhores”  (independente). O afiado quinteto do trompetista paulistano, que inclui Vitor Alcântara (sax tenor e soprano), Edson Sant’Anna (piano elétrico), Bruno Migotto (contrabaixo) e Cuca Teixeira (bateria), traz como referências o hard bop e o samba-jazz dos anos 1960. A irresistível faixa que dá título ao álbum soa como um lenitivo para os dias de hoje.

Daniel Murray - “Autoral” (independente). Depois de revelar seu grande talento como intérprete em diversos grupos e discos, o violonista carioca lança o primeiro álbum dedicado à sua obra autoral. No encarte, rasgados elogios dos craques Guinga e Marcus Tardelli à delicada valsa “Ensimesmada”, entre outros, já dão uma ideia do valor da contribuição de Murray ao repertório para violão. 


Diones Correntino - “Som Mestiço” (independente). Se você pensa que no centro-oeste do país só se cultiva música sertaneja, precisa ouvir este pianista e compositor de Goiânia. Em seu belo álbum de estreia, Correntino combina várias influências: do choro à música clássica, passando pelo jazz e pela moderna música instrumental brasileira. E ainda conta com participação especial do saxofonista Mauro Senise.  

Fabiana Cozza - “Partir” (independente). A cantora paulistana dedica seu quinto álbum à diversidade rítmica da diáspora negra, interpretando canções calcadas em vários ritmos afro-brasileiros, até do Caribe – sinal de que o rótulo de sambista já não se adequa mais ao repertório de Fabiana. A produção do violonista Swami Jr. garante a elegância dos arranjos, baseados em instrumentos de cordas e percussão.

Gilson Peranzzetta e Mauro Senise - “Dois na Rede” (Fina Flor). Comemorando 25 anos de feliz parceria, o pianista e o saxofonista – ambos cariocas – chegam ao 11º álbum, sem apelar para artifícios. Mais uma vez escolheram um repertório de alta qualidade: de temas autorais a clássicos de Baden Powell, Toninho Horta e Dorival Caymmi. O resto fica por conta do talento e da telepatia que os dois revelam ao tocarem juntos.

José Namem - “Identidade” (independente). Tarimbado pianista da cena instrumental de Belo Horizonte (MG), José Namem exibe nesse álbum suas referenciais musicais. Releituras de standards jazzísticos, sambas de Baden Powell e Lupicínio Rodrigues, o clássico bolero “Besame Mucho” e a sublime canção “Outubro” (Milton Nascimento e Fernando Brant) fazem parte dessa espécie de autobiografia musical.  

 
Leo Gandelman - “Velhas Ideias Novas” (Sax Samba). Mais um capítulo do precioso mapeamento da presença do saxofone na história da música brasileira, que Leo Gandelman vem realizando desde a década passada. O saxofonista carioca relembra, neste álbum, grandes estilistas do samba de gafieira e do samba-jazz, como Moacir Santos, Paulo Moura, Casé, Zé Bodega e Juarez Araújo.

Luis Felipe Gama e Ana Luiza - “Vermelho” (Cooperativa). Parceiros há duas décadas, o pianista Luis Felipe Gama e a cantora Ana Luiza não se rendem à mediocridade do mercado musical. Gravaram mais uma coleção de sofisticadas canções que Luis Felipe compôs com diversos parceiros, bem acompanhados por Alberto Luccas (contrabaixo) e Everton Barba (bateria). MPB da mais alta qualidade.

Mario Adnet - “Jobim Jazz ao Vivo” (Biscoito Fino). Gravado ao vivo durante turnê por várias capitais do país, em 2013, este projeto do violonista carioca destaca seus arranjos para uma compacta big band. No repertório, temas instrumentais de Tom Jobim, todos marcados pela elegância do maestro da bossa nova. Em participação bastante emotiva, Nana Caymmi canta alguns clássicos do “songbook” jobiano.  

 
Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik - “Ná e Zé” (Circus). Parceiros há 30 anos, a cantora e o pianista festejam essa associação, gravando 15 canções que Wisnik compôs entre 1978 e 2014. Algumas, ainda inéditas, nasceram a partir de versos de Fernando Pessoa, Oswald de Andrade e Cacaso. A voz doce e cristalina de Ná soa como um instrumento perfeito para expressar o lirismo e as melodias emotivas de Wisnik.

Neymar Dias e Igor Pimenta - “Come Together Project” (Borandá). Muitos músicos já gravaram versões instrumentais de canções dos Beatles, mas a sonoridade do inusitado duo de cordas – viola caipira e baixo acústico – formado por Dias e Pimenta empresta um tom leve e singelo a esses clássicos da música pop universal. Sem falar nos arranjos da dupla, que parecem revelar belezas de canções tão conhecidas.


Orquestra Atlântica - “Orquestra Atlântica” (independente). Uma delícia ouvir uma big band como essa, formada por feras da cena instrumental carioca, como o trompetista Jessé Sadoc e o saxofonista Marcelo Martins. O repertório combina arranjos de clássicos da bossa nova e composições próprias. Para realçar mais ainda esse time musical, surgem convidados especiais, como Nelson Faria (guitarra) e Vittor Santos (trombone).  


Pau Brasil - “Daqui” (Pau Brasil). Villa-Lobos, Tom Jobim, Moacir Santos, Baden Powell, Ary Barroso: composições desses expoentes da música brasileira, seja ela supostamente erudita ou popular, são recriadas pelo quinteto paulista, em novas e refinadas incursões improvisadas. Referência na cena instrumental desde os anos 1980, o Pau Brasil segue provando que nossa música ainda pode ser motivo de muito orgulho.

Pó de Café Quarteto - “Amérika” (independente). Esse grupo de Ribeirão Preto (SP) vai surpreender muitos que ainda não o conhecem. Bruno Barbosa (contrabaixo), Duda Lazarini (bateria), Marcelo Toledo (sax tenor) e Murilo Barbosa (piano) fazem jazz e música instrumental de alta categoria. O repertório do segundo CD do grupo é todo autoral, com melodias e arranjos que conquistam o ouvinte logo à primeira audição.

Quartabê - “Lição #1 Moacir” (independente). Joana Queiroz (sax tenor e clarinete), Maria Bastos (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria), Ana Sebastião (baixo) e Chicão (teclados) formam esse grupo instrumental paulistano que estreia em disco com descontraídas releituras de composições do genial maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006). Nada a ver com tributos musicais cheios de reverências.  


Regina Machado - “Multiplicar-se Única” (Canto). Os criativos arranjos e a produção do violonista Dante Ozzetti são essenciais para que este álbum de Regina Machado, dedicado à obra de Tom Zé, tenha identidade própria. O fato de essa cantora paulista ter integrado a banda do tropicalista, nos anos 1980, certamente a ajudou a ir além das homenagens convencionais tão comuns nesse tipo de projeto.

Renato Braz e Maogani - “Canela” (independente). Belo projeto de releitura de clássicos da canção latino-americana, pouco conhecidos no Brasil. O cantor paulista se une outra vez aos violões do ótimo quarteto carioca Maogani, autor do projeto e dos arranjos. Da folclórica canção venezuela “Pajarillo Verde” à milonga argentina “Vuelvo al Sur” (Astor Piazzola e Fernando Solanas), um mergulho no lirismo de nossos vizinhos. 



Tiganá Santana - “Tempo & Magna” (Ajabú). O terceiro trabalho autoral desse talentoso cantor, violonista e compositor baiano é um álbum duplo, gravado no Senegal com músicos locais. Em busca de suas raízes afro-brasileiras, Santana também compõe em kikongo e kimbundu (idiomas africanos), assim como em francês e inglês. O timbre grave e aerado de sua voz realça seus versos de essência filosófica.   

Zé Manoel - “Canção e Silêncio” (Natura Musical). Uma boa surpresa o segundo disco do cantor e pianista de Petrolina (PE), cujas composições remetem às canções marítimas do mestre Dorival Caymmi (1914-2008). O piano sintético de Zé Manoel e os expressivos arranjos de cordas e sopros de Letieres Leite valorizam o repertório do álbum. Quem acha que a MPB está agonizando tem que ouvir este pernambucano.

Miles Davis: caixa reúne quase 4 horas de gravações inéditas do trompetista

|


Uma surpresa para os apreciadores do jazz, que viram os lançamentos desse gênero musical desaparecerem do mercado brasileiro na última década: a caixa “Miles Davis at Newport 1955-1975” (lançamento Columbia/Sony Music; R$ 130, em média) traz quase quatro horas de gravações inéditas do trompetista norte-americano que marcou a música do século 20 com seu espírito de transformação constante.

Quarto volume de uma série de registros ao vivo desse artista, que vêm sendo lançados nos EUA desde 2011, a caixa reúne em quatro CDs as apresentações de Miles no Newport Jazz Festival, entre 1955 e 1975. Esse pioneiro evento, criado em 1954 pelo produtor e pianista George Wein, na costa leste norte-americana, serviu de modelo para outros festivais de jazz pelo mundo.

Foi de Wein a ideia de promover, já no segundo ano de seu festival, uma apresentação de Miles com o pianista Thelonious Monk e os saxofonistas Gerry Mulligan e Zoot Sims. Como a sonorização de concertos ao ar livre ainda era precária na época, Miles fez algo incomum ao tocar a melancólica “Round Midnight” (de Monk): encostou a campana do trompete no microfone, para que o som fosse reproduzido de maneira mais clara.

No extenso texto que escreveu para o livreto incluído na caixa, o jornalista Ashley Kahn (autor de um ótimo livro sobre “Kind of Blue”, o disco mais cultuado de Miles) observa que a repercussão dessa performance do trompetista estimulou a gravadora Columbia a contratá-lo. Por meio dessa parceria, que durou três décadas, Miles veio a gravar seus melhores álbuns.

Ao retornar a Newport, em 1958, ele já liderava um dos sextetos mais admirados pelos fãs do gênero, com John Coltrane e Cannonball Adderley (saxofones), Bill Evans (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). Oito meses antes de gravar com esse mesmo grupo a obra-prima “Kind of Blue”, Miles ainda trazia no repertório pérolas de sua fase “hard bop”, como a sedutora valsa-jazz “Fran-Dance”, de sua autoria, ou o nervoso tema “Two Bass Hit” (Lewis e Gillespie).

Nos anos 1960, ele voltou três vezes a Newport. Em 1966 e 1967, tinha a seu lado o sensacional quinteto com Wayne Shorter (sax tenor), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria), que deixou parte da plateia perplexa. Duas diferentes versões de “Gingerbread Boy” (Jimmy Heath) revelam como Miles e parceiros caminhavam para um jazz mais experimental, numa época em que o mundo parecia prestes a explodir em conflitos e revoluções.

“Aquele grupo não estava à frente de seu tempo. Eles eram o tempo”, comenta Wein, no texto do encarte. Já em 1969, outra transformação: Miles exibia sua nova banda com Chick Corea (piano elétrico), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), mostrando em faixas como “Miles Runs the Voodoo Down” e “It’s About That Time” seu interesse em se aproximar do universo do rock e da black music.

Para os felizardos que presenciaram as apresentações de Miles no Brasil, em 1974, um concerto produzido meses depois por Wein, em Berlim (também incluído na caixa), pode trazer lembranças. Ao lado de Dave Liebman (sax soprano), Pete Cosey (guitarra) e Michael Henderson (baixo), entre outros, Miles já tinha mergulhado no funk e no rock. As faixas “Turnaroundphrase” e “Tune in 5” revelam um grau de eletrificação e distorções jamais ouvidas antes nos círculos do jazz. Não à toa os paulistanos cinquentões e sessentões que foram ouvir Miles no Theatro Municipal, naquela época, saíram no meio do concerto.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 19/12/2015)

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB