Revista do samba: trio de São Paulo projeta alegria em seus sambas e canções

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Ativo desde 1999, o trio Revista do Samba começou fazendo releituras de clássicos do samba, mas já a partir de seu segundo disco (“Outras Bossas”, 2005) deixou claro que a dedicação a esse gênero não seria exclusiva. Essa abertura musical também marca seu quinto álbum, “Samba do Revista” (selo independente), que reúne composições próprias e sambas de Osvaldinho da Cuíca e Seu Maninho da Cuíca, mestres do samba paulista.

Leticia Coura (voz e cavaquinho), Beto Bianchi (violão e vocais) e Vitor da Trindade (percussão e vocais) projetam alegria em quase tudo que cantam e compõem, como nos sambas “Mais uma Cidade”, “Kamzahammidá” e “Rasta-pé do Cercadinho”, que remetem às turnês que o trio tem feito por diversos continentes. Já a marcha-rancho “Cirandinha da Vida” (de Vitor e Solano Trindade) fecha o álbum com beleza e lirismo. 


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 26/7/2014)

Zeca Baleiro: compositor e cantor maranhense vai do funk ao rap, em 'Calma Aí, Coração'

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A primeira faixa soa como um chacoalhão no ouvinte. “Tanta pobreza humilhada / tanto canalha no topo / Você é feliz, ma non tropo / Porque nenhum bem lhe basta”, provocam os ácidos versos de “O Desejo”, um rap que põe os dedos em muitas feridas da sociedade contemporânea. É assim que Zeca Baleiro introduz o álbum “Calma Aí, Coração” (edição da gravadora Som Livre), gravado ao vivo, na casa noturna carioca Viva Rio.

Como grande parte do repertório deste CD foi lançada no anterior “O Disco do Ano” (2012), a versão em DVD oferece vários extras. Além das mesmas 12 faixas do CD, traz clipes das canções “Tatoo”, “Meu Amigo Enock” e “Calma Aí, Coração”, releituras dos sucessos “Babylon” e “Alma Não Tem Cor” (André Abujamra), e ainda entrevistas com parceiros do maranhense, como Frejat, Hyldon e Wado. Um show bem cuidado, em que a verve crítica de Baleiro chega ao clímax no sarcástico “Funk da Lama”, com direito até a uma hilária coreografia.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 26/7/2014)

Zizi Possi: CD 'Tudo se Transformou' registra show que cantora levou aos palcos em 2012

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Registro do show homônimo que Zizi Possi levou aos palcos em 2012, “Tudo se Transformou” (lançamento Eldorado) mantém características de outros discos refinados que ela gravou décadas atrás, como “Sobre Todas as Coisas” (1991), “Valsa Brasileira” (1993) ou “Mais Simples” (1996). Contando com músicos de alta qualidade e arranjos originais, ela imprime mais uma vez seu canto emotivo e elegante, em releituras de clássicos da música brasileira.

Algumas dessas canções, como “Morena dos Olhos D’Água” (Chico Buarque), “Disparada” (Geraldo Vandré e Theo de Barros) e “Explode Coração” (Gonzaguinha), já haviam sido interpretadas por ela. A marcha-rancho “Porta Estandarte” (Fernando Lona e Vandré) e o samba “Tudo se Transformou” (Paulinho da Viola), por outro lado, ganham novas cores na voz da intérprete. Em meio à sensação de terra arrasada que o mercado musical brasileiro de hoje transmite, não deixa de ser um alívio saber que Zizi continua a mesma.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Discos, Livros, Filmes", em 26/7/2014)

12º Bourbon Street Fest: compositor e produtor Allen Toussaint faz primeiros shows no país

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Durante cinco décadas ele atuou nos bastidores, compondo canções, escrevendo arranjos e produzindo discos. Por isso, é bem provável que você ainda não tenha ouvido falar em Allen Toussaint, mas pergunte sobre ele a figurões da música pop, como Elvis Costello, Paul Simon ou Paul McCartney, com os quais ele já trabalhou. Todos admiram esse cultuado pianista e compositor de Nova Orleans.

Pela primeira vez no Brasil, Toussaint, 76, será a principal atração da abertura do 12º Bourbon Street Fest, hoje, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Também vai se apresentar no teatro Oi Casa Grande (dia 18, no Rio) e no Bourbon Street Music Club (dia 19, em São Paulo).

“Quando morei em Nova York, ouvi músicos brasileiros e todos eram ótimos”, diz o pianista norte-americano, em entrevista à "Folha de S. Paulo". “Essa é uma das razões que me deixam ansioso por conhecer esse país. Acho que o Brasil costuma inspirar boa música”.

Toussaint deixou Nova Orleans, em 2005, quando sua cidade foi devastada pelo furacão Katrina. Ironicamente, a tragédia resultou em uma inusitada reviravolta em sua carreira. Em Nova York, passou a fazer shows de piano solo, no clube Joe’s Pub, onde tomou gosto pelo palco. Desde então suas aparições em festivais de jazz ou na TV só têm aumentado.

“Eu sequer imaginei que um dia estaria sozinho num palco, porque sempre me senti confortável nos estúdios de gravação. Só posso dizer que essa nova situação tem sido gratificante e fico feliz por isso”, comenta o produtor, que já trabalhou com músicos de alto quilate, como Eric Clapton, John Mayall, Etta James, Dr. John, Irma Thomas, Aaron Neville e as bandas The Meters e The Band.

O álbum mais recente de Toussaint, “Songbook” (selo Rouder, 2013) tem um tom autobiográfico. Gravado ao vivo, no Joe’s Pub, reúne não só algumas de suas canções mais populares, como “Southern Nights”, “It’s Raining” e “Soul Sister”, mas também revela a diversidade de sua obra, que abrange diversos gêneros, como o rhythm & blues, o soul, o funk e o jazz.

“Acho que esse álbum reflete a variedade musical que sempre marcou a minha vida. É encantador ter a oportunidade de tocar para plateias que me dão licença para exibi-la e sabem apreciar todos esses gêneros musicais”, comenta o compositor.

A modéstia de Toussaint também se manifesta quando a conversa traz à tona o nome de seu mentor musical: o influente pianista e compositor Professor Longhair (1918-1980), pioneiro do rhythm & blues de Nova Orleans.

“Sou um discípulo do Professor Longhair. No que concerne à música de Nova Orleans, ele é uma espécie de rei. Fico feliz quando dizem que fui influenciado por ele, porque através de mim Professor Longhair continua vivo. Eu, Dr. John e Huey Smith, assim como outros discípulos do Professor em Nova Orleans, vamos continuar honrando sua memória”, afirma.

Quase dez anos após toda a destruição e as mortes desencadeadas pelo furacão Katrina, Toussaint se diz bastante otimista em relação ao cenário musical de sua cidade.

“A música produzida hoje em Nova Orleans vive uma fase muito melhor do que em outras épocas. Mexe com o meu coração pensar em quantas pessoas, não só nos EUA, mas em todo o mundo, tentaram ajudar a cidade porque ficaram consternadas. Como seres humanos, saímos rejuvenescidos daquela tragédia. O Katrina foi um batismo e uma benção para nós”, conclui o compositor.

Adriano Grineberg: a trilha de uma viagem em busca das raízes africanas do blues

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Pesquisador de música étnica e folclórica, Adriano Grineberg realiza um projeto arrojado em "Blues for Africa" (lançamento independente), seu segundo álbum: investigar as raízes africanas do blues.

Provando que se pode ir além dos clichês desse gênero musical (como a melancolia das canções dos escravos norte-americanos e de seus descendentes), o pianista, compositor e cantor paulista relê hinos e cantos tradicionais da Nigéria, da África do Sul, de Mali, Zâmbia e Quênia.


Grineberg também inclui composições próprias entre as 14 faixas. Em “Olodumaré”, ele veste um canto iorubá com sonoridades de blues e um afro-brasileiro berimbau. “Tuareg Blues”, cantada em inglês, revela a proximidade da música de Mali com cantos islâmicos. 

Não pense que se trata de um sisudo projeto musicológico: “Blues for Africa” é a trilha sonora de uma ensolarada viagem musical que também pode, simplesmente, servir para dançar.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 26/7/2014)
 



Jazz na Fábrica 2014: festival do Sesc SP explora os limites desse gênero musical

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Quais são os limites do jazz? Até que ponto esse gênero musical pode se aproximar da tradição clássica, do experimentalismo, da música étnica ou mesmo da música pop sem perder sua essência ou deixar de inovar? Questões como estas, que vêm acompanhando as transformações desse gênero musical há décadas, inspiraram a quarta edição do Jazz na Fábrica.

O festival produzido pela equipe de programação do Sesc Pompéia vai trazer à capital paulista, de 6 a 31 de agosto, dezenas de músicos e grupos de diversos estilos jazzísticos e nacionalidades. E com um diferencial importante, numa cidade com custo de vida tão alto como São Paulo: os preços dos ingressos são acessíveis, variando de R$ 12 a R$ 60.

Entre os maiores destaques desta edição está o multi-instrumentista de sopros e compositor norte-americano Anthony Braxton, 64, criativo expoente do jazz de vanguarda de Chicago, que vai se apresentar pela primeira vez no país (dias 7 e 8/8). Seu quarteto, o Diamond Curtain Wall inclui Mary Halvorson (guitarra), Ingrid Laudbrock (sax tenor) e Taylor Ho Bynum (trompete, flugelhorn e trombone).

Quem inicia a programação (de 6 a 8/8) é o pianista nova-iorquino Randy Weston, 88, brilhante discípulo de Thelonious Monk (1917-1982), que já nos anos 1960 abriu seu jazz moderno aos ritmos da África e do Caribe. Weston virá acompanhado pelo septeto African Rhythm, que reúne Talib Kibwe (sax alto e flauta), Bill Saxton (sax tenor), Robert Trowers (trompete), Alex Blake (baixo), Neil Clarke (percussão) e Lewis Nash (bateria).


Outros pianistas de primeira linha estão no elenco desse festival. A japonesa Hiromi Uehara, 35, tem conquistado as plateias com muita energia e um repertório que mistura elementos do rock, da música clássica e da jazz-fusion. Pela primeira vez no Brasil (dias 16 e 17/8), ela trará o trio que destaca também o baixista Anthony Jackson e o baterista Simon Philips.

De Cuba vem Harold López-Nussa, 31, pianista-revelação e compositor que já tocou com astros da música cubana, como Omara Portuondo e Chucho Valdés, além de integrar grupos de destaque na cena do jazz internacional, como o Ninety Miles e o Monterey Latin Jazz All-Stars. Vai tocar nos dias 30 e 31/8.

As fusões do jazz moderno com ritmos latinos também estão representadas pelo quarteto colombiano liderado pelo saxofonista Antonio Arnedo com o pianista Juancho Valencia (9 e 10/8). Os improvisos do grupo são calcados em ritmos locais, como a cumbia e o passillo.


Conhecido integrante das bandas de James Brown e George Clinton, essenciais no soul e no funk dos anos 1960 e 1970, o trombonista Fred Wesley, 71, vai mostrar sua faceta mais jazzística. Terá a seu lado o organista Leonardo Corradi e o baterista Tony March, parceiros no trio Generations (23 e 24/8). 


Um dos músicos africanos mais populares desde a década de 1970, na cena internacional, o saxofonista e vibrafonista Manu Dibango (da República de Camarões), hoje com 80 anos, já fez diversas gerações dançarem com suas fusões de funk, soul, jazz, reggae, afrobeat e outros ritmos da África Ocidental. Ele encerra a programação do festival, dias 30 e 31/8, na Choperia do Sesc Pompéia. 

O jazz europeu também está representado nesta edição. Dia 15/8 toca o experiente trompetista francês Stéphane Belmondo, 47, que já gravou com astros do jazz norte-americano, assim como tocou com Milton Nascimento. O saxofonista finlandês Timo Lassy, 40, cultiva a dançante fusão do jazz com a soul music (22/8). Já a banda norueguesa Jaga Jazzist traz seu jazz experimental com influências do rock progressivo e do afro-beat (16 e 17/8).

Experimentação também é uma constante na obra do trompetista e compositor norte-americano Wadada Leo Smith, 72, que poderá ser ouvido em um inédito encontro com HPrizm (também conhecido como High Priest), um dos fundadores do grupo de hip hop alternativo Antipop Consortium, e o baixista Henri Grimes (dias 9 e 10/8).

 
Ainda na linha mais experimental, o Jazz na Fábrica programou também uma série dedicada à improvisação livre. Os shows destacam: o quinteto do trompetista norte-americano Nate Wooley (28/8); o trio Kock-Rohrer-Gianfratti com o baixista inglês John Edwards (14/8); o duo Flac (o baterista Flávio Lazzarin e o saxofonista André Calixto) com o guitarrista Luiz Galvão e o saxofonista Marcelo Coelho (15/8); e o grupo Rumores (21/8).

Outras atrações nacionais completam o elenco do festival: o sexteto do trombonista Bocato (29/8); o quinteto do saxofonista Felipe Salles (23/8); o grupo do baixista Itiberê Zwarg (29/8); o grupo Meretrio (22/8); e o quinteto Jazz Brothers (dos irmãos Wilson, saxofonista, e Cuca Teixeira, baterista), que terão como convidada a cantora Sarah Chrétien (28/8).

Desta vez 40% dos ingressos para os shows do Jazz na Fábrica serão vendidos online, a partir de 31/7 (quinta-feira), às 17h30, com a limitação de dois ingressos por pessoa/espetáculo. Já nas bilheterias das unidades do Sesc, a venda de ingressos começará no dia seguinte: 1º/8 (sexta-feira), às 17h30. 


Mais detalhes sobre os shows e venda de ingressos no site do Sesc SP:   http://www.sescsp.org.br/programacao/39950_JAZZ+NA+FABRICA#/content=programacao













 

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