Jazz, samba, soul, choro, blues, bossa nova, salsa, MPB, instrumental, R&B, funk, hip hop e outras vertentes musicais, em dicas, resenhas, entrevistas e coberturas de festivais
por Carlos Calado
Quem sou
Jornalista, editor e crítico musical, escrevo sobre festivais, shows e discos. Desde meados dos anos 1980 tenho acompanhado profissionalmente a produção fonográfica brasileira e eventos musicais em diversos países. Faço palestras sobre música, curadorias e já dirigi projetos para o Sesc SP. Sou autor dos livros "Tropicália: a História de Uma Revolução Musical", "A Divina Comédia dos Mutantes", "O Jazz como Espetáculo" e "Jazz ao Vivo", entre outros. Colaboro eventualmente para os jornais "Folha de S. Paulo" e "Valor". Nos shows e festivais que acompanho, gosto de fotografar músicos que admiro.
Registrado em janeiro de 2009, num clube de Los Angeles, este DVD com um show de Madeleine Peyroux concentra-se no repertório de “Bare Bones”, seu quarto e recente álbum. Nele, a cantora norte-americana não só se firmou como compositora, como parece enfim ter começado a encontrar sua identidade musical.
No DVD "Somethin' Grand" (lançamento Universal), as conhecidas versões de canções melancólicas de Leonard Cohen (“Dance to the End of the Love”) e Bob Dylan (“You’re Gonna Make Lonesome When You Go”) agora se misturam com composições mais vibrantes, calcadas no soul e no rhythm’n’blues, como “You Can’t Do Me” ou a própria “Bare Bones” (parcerias com o produtor Larry Klein e Walter Becker, da dupla Steely Dan). Além disso, a sombra da forte influência de Billie Holiday, diva do jazz que marcou os primeiros discos de Peyroux, já é bem menor.
Especialmente interessante para os fãs é a inclusão de um documentário que revê a carreira da cantora. Além de destacar flagrantes da época em que Madeleine se apresentou nas ruas e no metrô de Paris, inclui também depoimentos que revelam sua relutância em se adaptar às formalidades e aparências do showbiz. (Resenha publicada parcialmente no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/10/2009)
Nesta entrevista, Luiz Bueno e Fernando Melo, violonistas do Duofel, contam por que resistiram tanto à tentação de gravar um álbum só com releituras instrumentais de canções dos Beatles.
Vocês já tocam releituras de músicas dos Beatles há duas décadas. Por que só decidiram gravar agora esse álbum?
Luiz Bueno – Desde 1988, quando gravamos Beatles pela primeira vez, vários produtores, inclusive fora do Brasil, sugeriram que fizéssemos um disco como esse, mas ainda não nos sentíamos fortes o suficiente para não nos tornarmos escravos dos Beatles. No ano passado, quando o Duofel comemorou 30 anos, organizamos uma pequena enquete com nossos fãs e mais de 80% deles opinaram que deveríamos fazer esse disco. Antes da gravação, fizemos vários shows, onde percebemos que, na platéia, havia muitas pessoas que não conheciam o Duofel. Elas estavam ali para ouvir Beatles com a gente.
Como os Beatles entraram na vida de vocês?
Bueno – Na verdade, nós nos interessamos por música, ainda garotos, justamente por conta dos Beatles. Fernando e eu nos conhecemos num grupo de rock progressivo. Fizemos um caminho diferente da maioria dos instrumentistas, que já começam curtindo jazz. Quando acompanhamos Tetê Espíndola numa turnê pela Europa, em 1988, fomos conhecer a terra dos Beatles. Já naquela época colocamos “Norwegian Wood” em nosso repertório e ela se tornou um dos grandes momentos dos nossos shows.
Que faixas deste CD, em sua opinião, melhor representam a identidade musical do Duofel?
Fernando Melo – Nós sempre utilizamos afinações diferentes nos nossos violões, mas neste disco fizemos uma nova experiência. Eu era baixista, mas deixei de tocar contrabaixo porque quebrava as unhas e, na hora de tocar violão no Duofel, ficava difícil. Então resolvi descobrir uma afinação que misturasse a sonoridade do contrabaixo com a do violão. Eu já vinha tentando isso há algum tempo, mas só nesse disco achei o espaço certo para usar essa afinação. Isso aconteceu em “Eleanor Rigby”, que abre o CD, e em “A Day in the Life”, a última. Outra faixa que ficou com a nossa cara é “The Fool on the Hill”, porque nela utilizamos instrumentos que não estariam presentes na música dos Beatles, como a viola caipira e o violão tenor. Também usamos o arco de rabeca, que aparece em outras faixas do disco.
Hoje, quando o futuro da distribuição da música parece estar associado aos downloads na internet, lançar um álbum focado nos Beatles não é ficar na contramão do mercado?
Bueno – Já nos sentimos na contramão outras vezes, mas temos certeza de que o amante da música que fazemos ainda compra discos. Demos um grande passo em nossa vida profissional, cinco anos atrás, quando criamos a Fine Music. Nossa idéia inicial já era bastante contemporânea: não ser apenas uma gravadora, mas também um ponto de distribuição de nossa música. Em nosso site (www.duofel.com), já vendemos nossos discos por download. E assim que a editora das canções dos Beatles nos der permissão, este CD também será vendido por download. Um álbum reúne não só uma colocação musical e artística, mas um pensamento, toda a filosofia que amarra a vida de um músico ou de um compositor. Eu vejo o álbum como uma galeria de quadros que expressa o momento daquela criação do artista.
(entrevista publicada no "Guia da Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/10/2009)
Acostumados a ouvir as saborosas versões de canções dos Beatles que o Duofel exibia com freqüência em seus shows, muitos fãs não entendiam por que os violonistas Luiz Bueno e Fernando Melo resistiam à idéia de gravar um disco com esse repertório. Ao ouvir “Duofel Plays The Beatles” (lançamento Fine Music), dificilmente algum desses fãs ficará decepcionado.
Como se tivesse esperado o tempo certo para que suas idéias amadurecessem, a dupla se superou nas releituras de clássicos do quarteto britânico. Algumas, como as de “Across the Universe” e “Here, There and Everywhere”, são mais reverentes. Outras escancaram a personalidade musical da dupla, caso de “Mr. Moonlight”, que soa como uma caipira moda de viola, sem perder sua essência melódica. Um álbum para beatlemaníaco algum colocar defeito.
(Resenha publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/10/2009)
Os puristas jamais perdoaram o norte-americano George Benson por sua adesão à música pop, depois de se estabelecer como um dos grandes guitarristas do jazz, na década de 1960. Desde então ele tem preferido colocar sua bagagem jazzística a serviço de gêneros mais populares, como o soul e o R&B.
Em “Songs and Stories” (lançamento Concord/Universal), Benson conta com figurões do jazz, como o produtor e baixista Marcus Miller, a cantora Patti Austin ou mesmo o percussionista brasileiro Paulinho da Costa. Os vocais dobrados com a guitarra, sua marca registrada, também estão presentes em releituras de sucessos do pop, como “Someday We’ll All Be Free” (de Donny Hathaway).
Duas delas, “Don’t Let Me Be Lonely Tonight” (de James Taylor) e “Sailing” (Christopher Cross), foram gravadas no Brasil, com Toninho Horta ao violão. Outra boa surpresa é a dançante “Living in High Definition” (de Lamont Dozier), em extenso arranjo orquestral que remete a trilhas sonoras dos anos 1970. (Resenha publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/10/2009)
Versões de canções de um mesmo autor nas vozes de diversos intérpretes: esse é o conceito da série Letra & Música (lançamento Coqueiro Verde), que agora dedica um volume a Stevie Wonder. De cara, as 19 faixas sugerem o quanto esse original artista, um dos grandes astros da música negra norte-americana, tem sido cultuado no Brasil desde os anos 70, mas o resultado desta compilação soa como uma colcha de retalhos que nem sempre se sustenta.
Começa com a simpática versão (meio bossa nova) de Celso Viáfora para “My Cherie Amour”, na voz de Ivan Lins. Há outros acertos, como “Pé na Tábua” (“Ordinary Pain”), gravada por Marina Lima, ou “Send One Your Love”, na releitura do pianista César Camargo Mariano. Já as versões roqueiras de Márcio Biaso (“Superstition") e Pietros (“Isn’t She Lovely”) disputam a liderança na categoria dispensáveis.
(Resenha publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/10/2009)
No mês em que Itamar Assumpção (1949-2003) completaria 60 anos, o compositor e violonista Sergio Molina finaliza com o lançamento do CD “Sem Pensar, Nem Pensar” (lançamento Cooperativa/Tratore), uma missão que recebeu desse expoente da chamada Vanguarda Paulista, meses antes de sua morte prematura.
Molina, que já havia composto uma canção com ele (“Não Importa”, que abre o disco), recebeu dez letras inéditas para musicar, além da sugestão de gravá-las com Miriam Maria, talentosa cantora que acompanhou Itamar em shows e discos. Antes de gravar “ao vivo” (sem cortes), no Estúdio Zabumba, em São Paulo, Molina e Miriam exibiram essas canções em mais de 20 shows.
Quem acompanhou as primeiras apresentações, em 2008, vai perceber como essa temporada contribuiu para que, burilados a cada noite, os arranjos das composições soem mais fluentes. Clara Bastos (baixo e vocais), Mariô Rebouças (piano) e Priscila Brigante (bateria e percussão) completam o quinteto que gravou o disco.
Com carta branca para dar um tratamento melódico e harmônico diferente daquele que Itamar utilizava em sua obra, Molina foi fundo. Buscou em sua bagagem musical (tanto erudita como popular, incluindo as improvisações do jazz), elementos para aproximar algumas dessas composições das obras de Arrigo Barnabé ou do grupo Rumo, cujas canções, mais do que as de Itamar, atraíram o rótulo Vanguarda Paulista.
Não é à toa que a canção que dá título ao CD traz em sua introdução a voz do próprio Arrigo, com aquele timbre rouco que marcou sua performática “Clara Crocodilo”. Os versos da letra de temática incomum (“enquanto quem pensa que pensa / fala o que pensa sem nem pensar / num canto quem pensa pensa / sem pensar, nem pensar!”), assim como os vocais femininos, remetem aos característicos arranjos de Arrigo, do Rumo ou das próprias bandas de Itamar.
O canto falado (aquela maneira de entoar os versos da canção bem próxima da fala cotidiana, muito utilizada pelo Rumo) também está presente em “Nem James Brown”, baião dissonante que soa mais próximo da música de vanguarda do que da tradição da música popular brasileira.
Estranha também, com um arranjo colorido por notas esparsas do piano e efeitos eletrônicos, a irônica “Caiu a Ficha” tem apenas três versos (“era tão extensa esta letra / que de repente caiu a ficha / pelo tema isso não passa de vinheta”) que lembram a concisão de um haikai.
Não faltam também canções de temática amorosa, frequentes na obra de Itamar, como a insólita “Autorização” (“ninguém vai invadindo / assim meu coração / sem que eu diga que venha / sem uma senha / sem minha expressa permissão”). Ou a pungente “Estranha Ideia”, interpretada com emoção e precisão vocal por Miriam. A dramaticidade dos versos (“que és meu dilúvio / não meu alívio / que és para mim um par afiado de esporas”) é realçada pelos intervalos incomuns da bela melodia criada por Molina. Uma difícil missão musical cumprida com inventividade e elegância.
(Resenha publicada no Guia da Folha de Livros, Discos e Filmes, em 25/09/2009)
Exibida no Brasil pelo canal pago de TV Sony, a série musical “Live From Abbey Road” aposta na atmosfera do lendário estúdio de gravação londrino, onde nasceram os melhores discos dos Beatles, utilizando-o como palco para intérpretes, compositores e bandas da cena musical de hoje, que são retratados também em breves depoimentos.
Trazendo 25 destaques extraídos da primeira temporada da série, este DVD duplo (lançamento Freemantle, distribuído no Brasil pelo selo Coqueiro Verde) reúne um elenco eclético: do pop de John Mayer, Norah Jones e Dave Matthews, ao neo-soul de Corinne Bailey Rae e Amos Lee, passando pelo jazz de Wynton Marsalis, pelo rhythm and blues à New Orleans de Dr. John, pelo funk-disco de Jamiroquai ou ainda pelo rock de Kasabian e Primal Scream. Não chega ser um painel muito representativo, mas por sua relativa abrangência pode interessar aos fãs de gostos diversificados.
(texto publicado no Guia da Folha de Livros, Discos e Filmes, em 25/09/2009)