Mike Stern & Balaio: guitarrista mostrou em São Paulo que continua em grande forma
Marcadores: adriano 'magoo' oliveira, balaio, blues, jazz, leonardo sui, marco bosco, Mike Stern, música instrumental, paulo calazans, rubem farias | author: Carlos CaladoÉ provável que uma parte da plateia que foi ouvir o quarteto Balaio, ontem, no Sesc Belenzinho (em São Paulo), não saiba até agora que o guitarrista Mike Stern, convidado especial dessa banda paulista, superou há pouco um grave acidente. Tocando com o mesmo brilho que o inscreveu ainda nos anos 1980 entre os grandes guitarristas do jazz contemporâneo, Stern não deixou qualquer dúvida de que voltou à sua melhor forma.
Dois anos atrás, correndo atrás de um táxi numa rua de Nova York, onde vive, Stern tropeçou numa pilha de detritos de construção e fraturou os dois ombros. Sua recuperação é um exemplo admirável de resiliência: dois meses e meio depois, mesmo com uma sequela na mão direita, já tinha voltado a se apresentar no 55 Bar (no bairro de Greenwich Village).
A satisfação que Stern demonstrou ontem no palco foi contagiante. Ao final do show, sorrindo, fez questão de apresentar os afiados parceiros do Balaio, mesmo tropeçando nos nomes de alguns: Marco Bosco (percussão), Rubem Farias (baixo elétrico), Leonardo Susi (bateria), Adriano "Magoo" Oliveira (teclados) e, em participação especial, Paulo Calazans (piano elétrico).
“Vocês querem ouvir mais uma, não querem?”, disparou, antes mesmo que a plateia entusiasmada, de pé, parasse de gritar e aplaudir. Fechou a noite cantando e improvisando uma original versão do blues “Red House”, de Jimi Hendrix. É por momentos especiais como esse que nada substitui a experiência de se ouvir música ao vivo.
Marco Bosco: percussionista revê três décadas de música com essência brasileira
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De volta ao país após longa temporada no Japão, o percussionista e compositor Marco Bosco rebobina três décadas de carreira. Para a compilação “33 Works - 1980-2013” (selo Cendi Music), ele selecionou gravações do grupo instrumental Acarú, que o lançou, além de faixas de sete álbuns individuais gravados no Brasil e no Japão. Inclui ainda a inédita composição “33”, em parceria com o tecladista Paulo Calasans.Como um documentário sonoro, esse CD duplo revela que preconceitos não têm vez na concepção do criativo percussionista. Da contagiante “Aqualouco” (em arranjo de Rogério Duprat) ao lirismo de “Akatombo” (com César Camargo Mariano, nos teclados), passando pelos baiões eletrificados do álbum “Techno Roots” (2001), com participações de Egberto Gismonti, Dominguinhos e Genival Lacerda, o paulista da interiorana Torrinha sintetiza uma obra diversificada e contemporânea, que não abre mão de sua essência brasileira.
O elenco de participações especiais inclui ainda Flora Purim, Airto Moreira, Sebastião Tapajós, Marlui Miranda, Wilson Simoninha, Ruriá Duprat, Walmir Gil, Eiki Nonaka, Casey Rankin, Vicente Barreto, Tsuyoshi Yamamoto, Luhli & Lucina e Belchior, entre outros. O design do album é assinado por Marco Mancini, artista gráfico paulista radicado em Tóquio.
(Resenha publicada parcialmente no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/6/2014)
Oscar Castro-Neves: bossa novista encontra outras gerações da MPB em Tóquio
Marcadores: Airto Moreira, Baden Powell, bossa nova, jazz, Leila Pinheiro, marco bosco, Oscar Castro-Neves, samba | author: Carlos CaladoRadicado há quatro décadas nos EUA, o violonista e compositor carioca Oscar Castro-Neves, 70, foi o anfitrião de um encontro de músicos brasileiros de diversas gerações, que ocupou durante uma semana o clube Blue Note de Tóquio, em 2009, cujo registro está no CD "Live at Blue Note Tokyo" (lançado no Brasil pela gravadora Atração).
A intimidade com a bossa nova, que Castro-Neves viu nascer no Rio de Janeiro e ajudou a divulgar pelo mundo, está bem representada pelas jobinianas “Ela É Carioca”, “Águas de Março” e “Fotografia”. Leila Pinheiro canta a clássica “Rio” (Menescal e Bôscoli), mas relembra também outras vertentes da música brasileira, com o baião “Ponteio” (Edu Lobo e Capinan) e o afro-samba “Canto de Ossanha” (Baden Powell e Vinicius de Moraes).
Já Airto Moreira e Marco Bosco, mestres da percussão que vivem no exterior, destacam a riqueza de nosso som instrumental, em “Misturada/Tombo” (Moreira) e “Tatiando” (Bosco). Música de alta qualidade, que hoje os japoneses valorizam mais até do que muitos brasileiros.
(texto publicado no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes), em 29/10/2010)
Randy Brecker: como ganhar um Grammy tocando música brasileira
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Na recente entrega dos prêmios Grammy, em Los Angeles, o Brasil não viu seu prestígio ser referendado por outra vitória na categoria world music, mas não saiu de mãos abanando. O troféu conferido ao melhor álbum de jazz contemporâneo – “Randy in Brasil”, do trompetista norte-americano Randy Brecker – foi recebido pelo pianista paulista Ruriá Duprat, que produziu a gravação.
“Fiquei surpreso por se tratar de uma categoria do Grammy dominada pelos americanos. Tive que preparar o discurso nos 30 metros que me separavam do palco”, diz Duprat, também autor da maioria dos arranjos do álbum, que foi gravado em São Paulo, com nomes de destaque na música instrumental brasileira, como Teco Cardoso, André Mehmari, Robertinho Silva e Gilson Peranzzetta, entre outros.
Instrumentista conceituado, Brecker despontou com a banda de jazz-funk Brecker Brothers, na década de 70, ao lado do irmão saxofonista Michael (morto em 2007). Bastante requisitado nos estúdios, já participou de centenas de gravações com figurões do jazz, do rock e do r&b.
História curiosa
O álbum “Randy in Brasil” tem uma história curiosa. O projeto dessa gravação nasceu praticamente junto com a gravadora Rainbow Records, que o produtor (sobrinho do maestro tropicalista Rogério Duprat) e o percussionista Marco Bosco (hoje radicado no Japão) fundaram em 2000, em São Paulo.
“A idéia era criarmos uma série com solistas estrangeiros, que viriam ao país para gravar música brasileira com músicos brasileiros. Então surgiu o nome do Randy”, relembra Duprat. “Escolhemos compositores como Gilberto Gil, Djavan, João Bosco e Ivan Lins porque buscávamos um repertório que fosse rico melódica e ritmicamente”.
Algumas das músicas incluídas no CD são bem conhecidas, caso de “Oriente” (Gilberto Gil), “Ai Ai Ai Ai Ai” (Ivan Lins) e “Malásia” (Djavan). Brecker contribuiu com duas composições próprias: a balada “Guarujá” e o suingado “Sambop”, que demonstram sua intimidade com os ritmos e melodias do país.
Brasileiro "em outra vida"
“Há alguma coisa brasileira em mim. Sinto como se tivesse nascido aqui em outra vida”, disse o trompetista à Folha, em novembro de 2000, quando gravou seus solos para o álbum, no estúdio Banda Sonora, em São Paulo. Vale lembrar que Brecker foi casado com a paulista Eliane Elias, pianista de jazz que desde os anos 80 desenvolve uma carreira de sucesso nos EUA.
Porém, segundo Duprat, a crise que abateu o mercado fonográfico, levando à desativação da própria Rainbow Records, impediu que o álbum fosse concluído e lançado naquela época. O projeto só veio a ser retomado já ao final de 2007, quando a percussão e novas texturas de teclados e sopros foram gravadas.
“Essas adições foram concebidas tendo em perspectiva uma ótica mais atual. Como a mixagem também foi realizada em 2008, não seria justo dizer que o CD foi gravado em 2000”, diz o produtor paulista, justificando o fato de a edição do selo norte-americano Mama Records não fazer menção à data das gravações de Brecker.
Por enquanto, o álbum só está disponível no exterior, mas Duprat revela que já negocia com gravadoras locais o lançamento no mercado brasileiro ainda para este semestre. “Estamos inclusive amadurecendo a idéia de gravar um DVD ao vivo deste material”, diz o produtor.
(publicada na “Folha de S. Paulo”, em 3/04/2009)
