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Sesc Jazz: festival paulista reverencia a arte do saxofonista Gary Bartz

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                                                                             O saxofonista Gary Bartz e o pianista Barney McCall 

Em mais uma noite do festival Sesc Jazz, ontem (20/10, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo), o saxofonista e compositor norte-americano Gary Bartz foi logo avisando à plateia que não costuma interromper seus shows para receber aplausos, nem mesmo para anunciar a próxima música do repertório.

O veterano jazzista não estava brincando. Só interrompeu o show depois de tocar por mais de uma hora, para recuperar o fôlego. Então trocou o sax alto pelo soprano e anunciou uma pérola de seu repertório naquela noite: “Si Tu Vois Ma Mère” 
 a  singela composição de Sidney Bechet, pioneiro do jazz de New Orleans, que Woody Allen resgatou na trilha sonora de filme “Meia-Noite em Paris” (de 2011).

Em seguida, tocou um trecho da melodia de “Ponta de Areia” (de Milton Nascimento), que provocou sorrisos na plateia. Pouco depois veio “Just Friends”, clássica canção americana que os jazzistas tocam com frequência (não à toa gravada por Charlie Parker, o genial saxofonista cuja influência levou Bartz a adotar esse instrumento). Não faltaram também canções compostas pelo próprio Bartz, como “I’ve Known Rivers” e “Precious Energy”, que ele mesmo cantou.

É bem provável que grande parte da plateia estava ali ouvindo Bartz pela primeira vez e que tenha se interessado por ele ao saber de sua parceria com Miles Davis, ainda no final dos anos 1960. Embora seja muito menos conhecido que seu antigo parceiro, Bartz também tocou com outros gigantes do jazz, como Art Blakey, Charles Mingus, Eric Dolphy, McCoy Tyner e Max Roach 
 seu currículo musical é capaz de deixar qualquer jazzista com inveja.    

O que importa mesmo é que Bartz e seus talentosos parceiros – Barney McCall (piano), James King (contrabaixo) e Francisco Mella (bateria) 
 cativaram a plateia durante duas horas de show, sem recorrer a um repertório mais conhecido. Ver um músico de 79 anos exercer seu ofício com tanta dedicação e respeito por sua plateia é algo estimulante.

Sambop Brass: grupo precursor da Banda Mantiqueira ressurge no bar JazznosFundos

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                                                 O Sambop Brass, em um reencontro eventual, na década passada 

Apreciadores da música instrumental brasileira, em especial os fãs da Banda Mantiqueira, não podem perder essa oportunidade rara. O bar e casa de shows paulistana JazznosFundos festeja seu 9.º aniversário, nesta quarta-feira (11/11), com uma apresentação do Sambop Brass –- septeto instrumental de carreira breve, que antecipou a formação da big band dirigida pelo arranjador e clarinetista Nailor Proveta.

Músicos de estúdio, o trompetista Walmir Gil e o trombonista François de Lima tiveram a ideia em 1990, época em que também participavam de shows do grupo de pagode Arte Final. Antes de um ensaio, os dois aquecíam seus os instrumentos tocando temas de bebop em ritmo de samba, quando perceberam que a brincadeira poderia virar coisa séria.

Em novembro do mesmo ano nascia o Sambop Brass, já com Proveta como arranjador e saxofonista. A formação soava inusitada para os padrões musicais da época. Deixando de lado instrumentos harmônicos, como guitarra ou teclados, a “cozinha” do grupo era essencialmente rítmica, com pandeiro, timba e repinique. Identificado em seu próprio nome, o conceito musical do Sambop Brass também era inovador: uma fusão de samba e bebop, com bastante espaço para os improvisos.


“O nosso grande impulso veio através do espírito livre do jazz”, comenta hoje Proveta, observando que, na época, ele e seus parceiros já tinham consciência de que assumir a influência do jazz não significava abandonar a identidade brasileira. “A gente sabia que precisava achar um caminho próprio”, relembra.

No programa do show, no JazznosFundos, estarão os arranjos que deliciaram quem teve a oportunidade (como eu) de ouvir o Sambop Brass, duas décadas atrás: releituras de clássicos do jazz, como “Giant Steps” (de John Coltrane), “Tenor Madness” (Sonny Rollins), “Donna Lee” e “ Ornithology” (Charlie Parker)”, em ritmo de samba; assim como os arranjos de Proveta para o choro “Fogo na Roupa” (Altamiro Carrilho) e o samba “Cerrado” (Djavan), que já preconizavam o repertório da futura Banda Mantiqueira.

A atual formação do Sambop Brass inclui François de Lima (trombone), Walmir Gil (trompete), Nailor Proveta (sax alto e clarinete), Cássio Ferreira (sax tenor), Carlos Roberto (piano), Pedro Ivo Lunardi (baixo) e Celso de Almeida (bateria).

Nesta semana, a programação comemorativa do JazznosFundos destaca também apresentações do Projeto B (dia 12/11), do Pepe Cisneros Quinteto (13/11) e do Gabriel Grossi Quarteto (14/11). 


Mais detalhes no site do JazznosFundos
 

Ornette Coleman (1930-2015): compositor e saxofonista ampliou os horizontes do jazz

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O jazz perdeu um de seus grandes revolucionários. O compositor e saxofonista Ornette Coleman morreu aos 85 anos, na manhã desta quinta-feira (11/6), em Nova York. Segundo sua família, a causa da morte foi uma parada cardíaca.

Foi nessa mesma cidade, em novembro de 1959, que Coleman começou a chamar atenção na cena do jazz. Suas apresentações no clube Five Spot, no bairro boêmio de Greenwich Village, dividiram as plateias e os críticos da época. Para alguns, tratava-se de um gênio, um visionário. Outros o acusaram de ser um charlatão que não dominava a linguagem musical.

Nem mesmo Charlie Parker (1920-1955) ou Thelonious Monk (1917-1982) – expoentes do bebop, estilo que modernizou o jazz na década de 1940 – causaram tamanha polêmica nos meios jazzísticos, como Coleman.

A inovadora concepção musical daquele tímido texano, nascido em 9 de março de 1930, na cidade de Fort Worth, praticamente derrubou um dos pilares do jazz: a harmonia. Os improvisos de seu quarteto deixaram de se basear nas sequências de acordes de clássicos da canção norte-americana – os chamados “standards”.

“Como Ornette me disse, você pode pegar qualquer canção conhecida e tocar a partir da inspiração trazida por ela. Pode espontaneamente criar uma nova estrutura de acordes enquanto você toca”, explicou mais tarde o contrabaixista Charlie Haden (1937-2014), um de seu discípulos mais criativos, que começou a acompanha-lo em 1957.

Filho de um trabalhador na construção civil e uma vendedora de cosméticos, Ornette foi o quarto filho de um casal que valorizava muito a religião. Apesar das dificuldades que enfrentou no período da Grande Depressão (a crise econômica que assolou os EUA a partir de 1929), a humilde família não chegou a passar fome.

Para obter seu primeiro saxofone, ainda adolescente, Ornette precisou trabalhar: engraxou sapatos, raspou tinta de paredes, foi até ajudante de garçom. Sem dinheiro para pagar um professor de música, usava os ouvidos para reproduzir músicas que escutava no rádio.

A falta de ensino formal lhe rendeu alguns vexames, inicialmente, mas isso não diminuiu sua vontade de seguir adiante, convencido que poderia tocar o saxofone a seu modo. “Se você domina um instrumento e consegue senti-lo de maneira a ser capaz de expressar a si mesmo, ele se torna sua própria lei”, refletiu mais tarde.

Seu espírito inventivo foi confirmado, em dezembro de 1960, ao liderar uma das gravações mais radicais na história desse gênero musical. Para as sessões que resultaram no álbum “Free Jazz” (selo Atlantic), idealizou uma inusitada formação: dois quartetos que improvisariam livremente, lado a lado.

Exceto por uma espécie de vinheta que sinalizava a transição de um solo para outro, os oito músicos não tinham que seguir convenções: não havia uma melodia, um ritmo regular, nem mesmo uma sequência de acordes para orientar os improvisos. Liberdade total para criar música de forma coletiva.

Já na década de 1970, Coleman cunhou o termo “harmolodics” (fusão de harmonia e melodia), que sintetiza sua filosofia libertária. Avesso às hierarquias na linguagem musical, ele pretendia, em suas próprias palavras, “remover o sistema de castas na música”.

Em 2005, num depoimento à revista “Down Beat”, ele definiu muito bem sua atitude musical. “Em toda música que escrevo eu sempre dou às pessoas que estão tocando comigo o privilégio de acrescentar algo. Não penso em mim como um líder; eu me vejo como alguém que compartilha”.

Diferentemente de outros jazzistas libertários de sua época, como os saxofonistas John Coltrane (1926-1967) e Albert Ayler (1936-1970), Coleman viveu o suficiente para ver sua música apreciada por gerações posteriores. Foi homenageado pelos principais festivais de jazz, especialmente na Europa, onde sua música sempre foi mais prestigiada do que em seu próprio país.

Em 2007, recebeu até um inusitado prêmio Grammy, por suas realizações ao longo da vida. Uma ironia, tratando-se de um músico que jamais se preocupou em buscar o sucesso fácil, muito menos frequentar os “hit parades” tão valorizados pelo Grammy.

(Colaboração para a “Folha de S. Paulo”, publicada hoje)

BMW Jazz Festival: Ahmad Jamal traz seu piano sintético e elegante a São Paulo

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Aos 83 anos, ele continua a entusiasmar plateias, em festivais pelo mundo. Seus improvisos sintéticos e elegantes influenciaram até um gênio musical como o trompetista Miles Davis, seu declarado admirador.

O pianista e compositor norte-americano Ahmad Jamal é a atração principal da noite de abertura do 4º BMW Jazz Festival, nesta quinta-feira, no HSBC Brasil, em São Paulo. Quem fecha o programa é o talentoso saxofonista Kenny Garrett.

Falando à "Folha de S. Paulo", Jamal relembrou sua primeira e conturbada apresentação no Brasil, em 1978. “O piano Steinway que estava no palco era tão velho que as teclas ainda eram feitas de marfim. Quando algumas se soltaram, eu as atirei para a plateia, que adorou. Nem pude terminar o concerto”, conta, rindo.

Esse incidente não chegou a prejudicar a relação de Jamal com o Brasil. Tanto é que ele retornou outras três vezes – a última em 2010, quando se apresentou no extinto Bridgestone Music Festival. “Eu já não toco mais em clubes, nem viajo muito para tocar, só mesmo em ocasiões especiais. Estou aqui outra vez porque se trata de um evento especial”, justifica.

Seu quarteto já não é exatamente o mesmo de quatro anos atrás. Além do percussionista Manolo Badrena, seu antigo parceiro, e do baterista Herlin Riley, destaque na cena musical de Nova Orleans, desta vez Jamal trouxe o contrabaixista Reginald Veal.

Nascido em Pittsburgh, onde começou a tocar aos 11 anos, Jamal lidera seus próprios grupos desde 1951. O fato de essa cidade da Pensilvânia ter gerado outros grandes músicos do jazz, como Earl Hines, Billy Strayhorn, Erroll Gardner, Ray Brown ou Art Blakey, não é gratuito, segundo ele.

“Há um livro sobre Pittsburgh intitulado ‘There Must Be Something in the Water’ (deve ser alguma coisa na água). Poucas cidades norte-americanas, como Nova Orleans, Saint Louis, Detroit ou Memphis, revelaram tantos grandes músicos. Chamo isso de fenômeno”, define.

Quem acompanha a discografia de Jamal sabe que os standards e clássicos do jazz foram, progressivamente, cedendo espaço às composições próprias. Pergunte a ele quais são as fontes de inspiração para suas composições e a resposta virá em uma única palavra: “vida”.

“Essa proporção já foi inversa, mas hoje eu dedico 80% de meu repertório às minhas composições e apenas 20% a clássicos do cancioneiro norte-americano. Às vezes, para ser notado, você precisa tocar alguma coisa com a qual pessoas estão familiarizadas, mas o que torna tão extraordinárias as canções de Gershwin e outros desses autores é justamente a nossa interpretação”, afirma.

O fato de Jamal raramente tocar ou gravar canções compostas após os anos 1950, como chegou a fazer com “Michelle” (dos Beatles) ou “Superstitious” (Stevie Wonder), seria uma evidencia de que ele considera inferiores as gerações mais recentes de compositores?

“Estávamos discutindo isso ontem mesmo, no avião. Não sei, mas parece que a era dos músicos revolucionários está desaparecendo. Músicos como Duke Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, John Coltrane e Miles Davis eram revolucionários. Eles ainda existem hoje? Eu continuo procurando-os entre músicos mais jovens”, diz, mencionando a promissora pianista japonesa Hiromi, sua afilhada musical.

E o que Jamal acha de o slogan “less is more” (menos é mais), às vezes mencionado para definir a sintética concepção musical de Miles Davis (com o qual jamais se apresentou ou gravou), ser utilizado também para representar seu estilo de tocar piano?

“Esse princípio também se aplica à alimentação. Se você comer uma torta inteira, pode até ficar doente. Mas se você comer apenas uma fatia por dia, durante 50 anos, tudo bem. Ele se aplica a tudo, mas prefiro chamar isso de disciplina”, conclui o sábio pianista.


Mais informações no site do BMW Jazz Festival

(entrevista publicada na edição online da "Folha de São Paulo", em 29/5/2014

 

 

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