The ABCD of Boogie Woogie: quarteto britânico se diverte com forma pianística de blues

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 Modalidade de blues calcada no piano, o boogie woogie popularizou-se nos anos 1940 ao frequentar o repertório de expoentes do jazz, como os pianistas Count Basie e Fats Waller. Dançante e de essência rítmica, já na década de 1950 ele contribuiu para a gênese do rock’n’roll.

O nome do quarteto britânico The ABC&D of Boogie Woogie pode dar a impressão de que seu álbum de estreia (lançamento da gravadora ST2) seja uma introdução didática a esse estilo musical, mas, de fato, trata-se apenas de uma sigla com os nomes de seus integrantes. O que os pianistas Axel Zwingenberger e Ben Waters, Charlie Watts, o veterano baterista e membro original da banda Rolling Stones, e o baixista Dave Green querem mesmo é se divertir.

Gravado ao vivo no clube parisiense Duc des Lombards, em 2010, o descontraído CD destaca apenas um clássico do boogie woogie, “Roll’em Pete” (de Pete Johnson e Big Joe Turner), mas composições do grupo, como “Bonsoir Boogie”, “Duc de Woogie Boogie” e “Encore Stomp”, reproduzem bem a forma e a excitação desse estilo musical. 

(resenha publicada originalmente no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/10/2012) 


4º Choro Jazz: festival leva música instrumental a Fortaleza e Jericoacoara

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                                                                                                     O trombonista carioca Raul de Souza
Depois de três bem sucedidas edições, o festival Choro Jazz cresceu: além da costumeira semana de shows na bela praia de Jericoacoara (de 4 a 9/12), neste ano sua programação será estendida à capital do estado, Fortaleza, onde vão ser realizados três dias de shows gratuitos (de 29/11 a 1/12).

O elenco musical do festival Choro Jazz combina mais uma vez expoentes e jovens talentos do choro e da música instrumental brasileira. Alguns, como o conceituado Duo Assad, o violonista e cantor carioca Guinga ou o clarinetista italiano Gabrielle Mirabassi, vão se apresentar nas duas cidades.

Mais extensa, a programação na praça principal de Jericoacoara destaca também o trombonista carioca Raul de Souza, o trio da cantora paulista Monica Salmaso (com o pianista Nelson Ayres e o saxofonista Teco Cardoso), o cantor e dançarino pernambucano Antônio Nobrega, o quinteto paulista Vento em Madeira, o trio carioca Madeira Brasil e o grupo francês Lindigo, entre outras atrações.

Centradas na música instrumental brasileira, as atividades pedagógicas do festival também serão oferecidas aos estudantes de Fortaleza. Incluindo cursos de instrumento e aulas de conjunto, as oficinas vão durar quatro dias, na capital, e toda a semana do evento, em Jericoacoara.

Mais informações no site do festival: www.chorojazz.com

Anita O'Day: uma cantora moderna, arrojada e elegante mesmo 50 anos depois

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Não é fácil acreditar que a sensacional apresentação de Anita O’Day, no Festival de Jazz de Newport (veja o vídeo abaixo), tenha acontecido há mais de 50 anos! Sua elegância, seu estilo vocal e seus improvisos arrojados são capazes, ainda hoje, de envergonhar pretensas cantoras de jazz que ficam posando, algumas até desafinando, por aí...

Deixo aqui um trecho do pequeno livro que escrevi sobre a obra e a turbulenta vida de Anita para a “Coleção Folha Grandes Vozes”, já disponível em bancas de revistas e jornais de quase todo o país. Essa edição inclui um CD com 18 faixas, que sintetizam bem a arte dessa grande intérprete da canção norte-americana e do jazz moderno.

"Qualquer um que ouça e veja Anita O’Day, cantando em ‘Jazz on a Summer’s Day’, o cultuado documentário de Bert Stern, dificilmente resiste a seu charme musical. Flagrada em sua excitante apresentação no Newport Jazz Festival, em uma tarde do verão de 1958, sua imagem tornou-se um ícone eterno da modernidade e da elegância desse gênero musical.

Sem saber que estava sendo filmada, com um sorriso contagiante, vestido preto e um grande chapéu com plumas e luvas brancas, Anita exibiu todo seu suingue e inventividade, ao recriar com improvisos vocais as canções ‘Sweet Georgia Brown’ e ‘Tea For Two’. Graças à repercussão do documentário de Stern, ela conquistou enfim o reconhecimento internacional que merecia, depois de uma conturbada trajetória profissional de duas décadas. Diferentemente de algumas de suas colegas, apesar das dificuldades financeiras e pessoais, ela jamais desistiu de sua paixão pelo jazz".


Mais informações sobre a “Coleção Folha Grandes Vozes”: http://vozes.folha.com.br/



"Intocáveis": filme rejeita 'politicamente correto' e atrai com música negra na trilha

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Se você ainda não assistiu “Intocáveis” (Intouchables, 2011), delicioso filme francês dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano, vá correndo. Fenômeno de bilheteria em alguns países, este é um daqueles filmes, cada vez mais raros nos cinemas, que nos fazem sair da sala pensando que, talvez, a espécie humana ainda tenha alguma saída. 

A sensível trilha sonora composta pelo pianista italiano Ludovico Einaudi, reforçada por alguns clássicos da música negra norte-americana dos anos 1970, contribui para conquistar o espectador logo nas primeiras cenas do fime, assim como as ótimas interpretações dos protagonistas Omar Sy e François Cluzet (lembra-se do fotógrafo que adota o saxofonista Dexter Gordon, no delicado "Round Midnight", de Bertrand Tavernier?). A festiva “September”, da banda Earth, Wind and Fire; a hipnótica “The Guetto”, com George Benson; e “Feeling Good”, com a sempre emotiva Nina Simone, foram muito bem escolhidas. 

Mas o que mais chama atenção, em “Intocáveis” (nada a ver com a antiga série policial de TV ou com o filme homônimo de Brian de Palma), é mesmo a maneira bem humorada e atrevida com a qual esse filme aborda temas problemáticos, como a desigualdade social, a violência urbana, o racismo e outras modalidades de preconceito, sem aderir à comodidade das posições “politicamente corretas”. 

Nada como poder voltar a rir um pouco das relações entre seres humanos, com suas limitações, preconceitos, desejos e sonhos. Ou seja, nada como rir de nós mesmos. Quem ainda aguenta ver tantos heróis violentos e autocentrados, ou mesmo esses adolescentes debilóides, que a cada ano infestam mais e mais o cinema mainstream norte-americano?

Luiz Gonzaga: tributo em CD triplo mostra atualidade da obra do rei do baião

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Só pelo que fez em favor da música popular do Nordeste, exibindo toda sua diversidade rítmica e melódica ao apresenta-la a ouvintes de outras regiões do Brasil durante as décadas de 1940 e 1950, o influente sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989) mereceria ser homenageado diariamente. Porém, em tempo de vacas magras no mercado fonográfico, não fosse a comemoração pelo centenário de nascimento do popular “rei do baião” dificilmente veríamos gravações como estas chegarem agora às lojas.

Com produção de Thiago Marques Luiz, que já conduziu projetos semelhantes centrados nas obras de Adoniran Barbosa (1910-1982) e Ataulfo Alves (1909-1969), o álbum triplo “100 Anos de Gonzagão” (lançamento do selo Lua Music) reúne 50 itens do repertório do mestre da sanfona, entre clássicos sucessos e temas menos conhecidos pelo grande público, relidos por intérpretes de diversas gerações e vertentes da música popular brasileira.

O produtor paulista tem outra vez a seu lado o violonista Rovilson Pascoal e o baixista André Bedurê, responsáveis pela direção musical e arranjos do álbum. Os dois também tocam em várias faixas, contribuindo assim para uma relativa homogeneidade sonora, algo bem vindo em um projeto que envolve tantos artistas e gravações.

O repertório é organizado de maneira temática. Intitulado “Sertão”, o primeiro dos três CDs reúne 17 canções que remetem ao universo dos boiadeiros, da fauna e da flora sertaneja, dos emigrantes da seca. Os veteranos Dominguinhos (consagrado herdeiro de Gonzagão ao qual o projeto também é dedicado), Geraldo Azevedo, Ednardo e Anastácia abrem o álbum com uma animada versão da toada “Asa Branca”, a obra-prima de Gonzaga e Humberto Teixeira. 


 O tom de reverência predomina em diversas versões, como as de Zezé Motta (“A Vida do Viajante”), Amelinha (“Légua Tirana”), Anastácia e Osvaldinho do Acordeon (“A Feira de Caruaru”). Mas também há releituras bem pessoais, como a de Chico César (na foto ao lado), que dialoga com sua guitarra no baião “Pau de Arara”, ou a do grupo Vanguart, que injeta melancolia na toada “Assum Preto”.

“Xamêgo”, o segundo CD, exibe canções de temática amorosa, algumas abordadas com mais liberdade. A começar pela debochada Maria Alcina, que transforma a faixa homônima em um hilariante carimbó de duplo sentido. O grupo nova-iorquino Forró in the Dark também brinca com a sensualidade de “O Cheiro da Carolina”, num arranjo que combina sopros e ruídos eletrônicos. Agrupadas ao final desse volume, as cantoras Vânia Bastos, Célia e Maria Creuza aproximam a marcha “Olha Pro Céu”, o baião “Roendo Unha” e a valsa “Dúvida”, respectivamente, do universo mais sofisticado da MPB. 


É no CD “Baião” que estão as releituras mais livres, ou mesmo mais irreverentes, do álbum. O clássico “Respeita Januário” soa como um blues eletrificado, na descontraída versão de Zeca Baleiro (na foto ao lado). Recriado por Márcia Castro, o baião “Paraíba” ganha batida e sonoridades de rock. Já o coco “Siri Jogando Bola” remete ao som retrô da Jovem Guarda, na releitura de China. Mas a maior surpresa vem em “Baião de Dois”, com a bossa novista Claudette Soares revivendo a época em que foi chamada de “Princesinha do Baião”, em saboroso arranjo do B3 Organ Trio.

O álbum termina com o dançante “Madame Baião”, gravado em Nova York pela banda Nation Beat, num original arranjo que mistura clarinete, rabeca e guitarra. Mais uma prova de que, décadas depois de conquistar o Brasil, o baião de Gonzagão continua a ser cultuado até na terra de Tio Sam.


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/09/2012)

Super Divas: série resgata vozeirões de cantoras brasileiras de outras épocas

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Antes que a Bossa Nova se estabelecesse com sua estética minimalista e contenção “cool”, no final dos anos 1950, cantores com vozeirões, interpretações melodramáticas e repertórios bem ecléticos davam o tom na cena da música popular brasileira. O sopro de modernidade trazido por João Gilberto e sua geração bossa novista praticamente varreu do cenário musical esses artistas, que passaram a soar extemporâneos aos ouvidos mais antenados daquela época. 
 
Até por serem menos lembradas hoje, originais cantoras brasileiras, como Leny Eversong (na foto acima), Eliana Pittman (abaixo), Ademilde Fonseca, Carmélia Alves, Rosana Toledo, Waleska e Cláudia, merecem atenção entre os 13 volumes da série Super Divas (lançamento EMI), que acaba de chegar às lojas. A coleção inclui também intérpretes mais consagradas e de estilos diversos, como Maysa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Angela Maria, Aracy de Almeida e Maria Alcina.

Mesmo quem conheceu durante os anos 1950 ou 1960 a espetacular paulista (nascida em Santos) Leny Eversong, ainda pode se surpreender ao ouvir hoje seu canto grandiloquente. Artista de extremos, ela extraía dramaticidade de tudo que cantava: de sambas canções (“Nunca”, de Lupicinio Rodrigues) a standards do jazz (“Tenderly”, de Lawrence e Gross); de baiões (“Do Pilá”, de Jararaca) a ritmos afro-cubanos.


Sua interpretação para o medley “El Cumbanchero/Tierra va Tembra” (de Hernandez/Merceron; veja o video abaixo) é uma aula quase teatral de kitsch. Num arranjo hiperdramático e repleto de nuances e mudanças inesperadas, Leny grita, dá gargalhadas, repete com seu vozeirão potente as divisões rítmicas da percussão, simula o som estridente dos metais da orquestra. Divertidíssima também é a versão orquestral da canção latina “Jezebel”, seu maior sucesso. Uma intérprete que cantava com o útero.

Também eclética e adepta de efeitos teatrais, a carioca Eliana Pittman mistura sambas (“Esse Mar é Meu”, de João Nogueira), música judaica (“Tzena, Tzena, Tzena”), folclore brasileiro (“Estrela é Lua Nova”, recolhido por Villa-Lobos), pop dos anos 1970 (“Maria Joana”, de Roberto e Erasmo Carlos, canção censurada na época por se referir à maconha) e marcha-rancho (“O Castelo”, de Mara). Enteada do saxofonista norte-americano Booker Pittman, ela também costumava enveredar pelo jazz, como em “Summertime” (dos irmãos Gershwin), num suingado arranjo orquestral de Erlon Chaves.

 
Uma das poucas remanescentes da chamada Era do Rádio, a fluminense Angela Maria estabeleceu-se na década de 1950, cantando sambas-canções e boleros, em geral com um viés melodramático. Já nesta antologia, que focaliza sua carreira durante os anos 1970, ela injeta malicia no cha-cha-chá “Usei Você” (Silvio Cesar), derrama bom humor na marchinha carnavalesca “Casamento da Zezé” (Augusto e Maria) e romantismo na versão de “I’ll Never Love This Way Again”, o hit de Dionne Warwick.

Idealizada e produzida pelo jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, a série inclui cerca de 250 gravações remasterizadas e privilegia algumas faixas mais raras, em vez de se concentrar nos batidos sucessos de cada artista. Dois dos 13 CDs são duplos: o da “rainha do choro” Ademilde Fonseca, que morreu em março último, e o da “rainha da voz” Dalva de Oliveira. Aliás, no quesito excessos, seja de dramaticidade ou de arroubos vocais, a série Super Divas está repleta de gravações de rainhas. Para serem ouvidas sem preconceitos. 


(Texto publicado no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/7/2012)

 

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