Sesc Jazz: improvisos e humor de Stefano Bollani conquistam a plateia do festival

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Uma das melhores experiências que um festival de música pode proporcionar a uma plateia é a de ser surpreendida pela performance de um artista que ela ainda desconhece. Os sorrisos nos rostos da plateia do Sesc Jundiaí, ao final do show do pianista Stefano Bollani, eram transparentes: muitas daquelas pessoas nem imaginaram, ao saírem de casa, que se emocionariam ou mesmo se divertiriam tanto naquela noite de sábado, que começou com um belo show do trio do pianista Salomão Soares.

Bollani vem cultivando há décadas uma prolífica paixão pela música brasileira, depois de descobrir a bossa nova quando ainda era adolescente. O resultado mais recente dessa afinidade musical é seu álbum “Que Bom” (já lançado no Brasil pelo selo Biscoito Fino), com um delicioso repertório de composições próprias, que ele exibiu em sua apresentação no festival Sesc Jazz.

“Vou tocar a música de um compositor contemporâneo, muito vivo, que sou eu”, brincou, falando à plateia, em bom português. Quem já o conhecia e teve a chance de apreciar alguns de seus discos sabe que esse jazzista nascido em Milão (ele costuma dizer que não se considera um cidadão italiano, propriamente, por acreditar que a divisão do mundo em países é artificial) jamais reproduz nos palcos o que registrou nos estúdios de gravação.

Composições como o baião “Ho Perduto il Mio Pappagalino” (inspirada pela lembrança de um periquito que fugiu de sua casa, quando ainda era menino), a quase bossa “Uomini e Polli” (tema com marcante influência de João Donato), assim como o contagiante samba “Galápagos”, ganharam um tempero mais percussivo no show. Em alguns momentos, como no samba-jazz “Olha a Brita”, Bollani chega a percutir as cordas e o próprio corpo do piano com as mãos.

“Se vocês não gostaram do que tocamos aqui, sugiro que ouçam o disco, porque ele está muito melhor”, brincou novamente, já quase ao final do show. Ele sabe que, em seu caso, não se trata de uma versão ser melhor do que a outra. São apenas diferentes – e no palco a música costuma ganhar um calor que, muitas vezes, não existe nas gravações. Mas Bollani é um músico carismático e engraçado, daqueles que jamais perdem uma oportunidade de fazer sua plateia sorrir.

Bem acompanhado pela percussão de Armando Marçal, pela bateria de Thiago da Serrinha e pelo contrabaixo de João Rafael (trio que em alguns momentos soa como uma compacta escola de samba), Bollani também oferece à plateia boas surpresas, em seus improvisos. Como uma divertida releitura de “Cheek to Cheek” (de Irving Berlin), clássico da canção norte-americana, em andamento acelerado.

Mais inusitada foi a citação da canção-manifesto “Tropicália” (de Caetano Veloso), ao improvisar o clássico choro “Segura Ele”. “Eu gostaria de ter composto essa música. Pixinguinha e eu tivemos a mesma ideia, mas ele nasceu antes de mim”, disparou Bollani, com a maior cara de pau, arrancando risos da plateia.

Ao voltar ao palco para atender os pedidos de bis, cantou a lírica “La Nebbia a Napoli” (“Caetano Veloso não está aqui, então eu mesmo vou canta-la”, brincou), mas ainda reservou outra surpresa. Tocou o choro “Tico-tico no Fubá” (de Zequinha de Abreu), convidando a plateia a participar com palmas, em uma versão tão maluca e hilariante, que chegou a lembrar as estripulias de Chico, o pianista dos comediantes irmãos Marx, nas telas do cinema. A plateia de Jundiaí não vai esquecer dessa noite tão cedo.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)



Sesc Jazz: trompetista Charles Tolliver cultiva legado musical do bebop e do hard bop

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A boina preta, em estilo militar europeu, é sugestiva. O trompetista e compositor norte-americano Charles Tolliver nem precisa tocar uma nota para que sua afinidade musical com a revolucionária geração do bebop (responsável pela introdução do jazz em sua fase moderna) seja notada por quem o vê entrar no palco. A semelhança com as boinas que Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e outros beboppers usavam no final dos anos 1940 não é gratuita.

Atração da quarta noite do festival Sesc Jazz, Tolliver e seu afiado quinteto cativaram a atenção da plateia paulistana que foi à comedoria do Sesc Pompeia, na noite de sexta-feira (17/8). Quem está acostumado aos shows dançantes, que são realizados com frequência nesse espaço, encontrou uma atmosfera mais adequada à música que iria ouvir: a iluminação nebulosa e as mesas instaladas à frente do palco permitiram que a plateia pudesse se sentir em um clube de jazz.

De uma geração musical posterior à de seus ídolos do bebop, o autodidata Tolliver (hoje com 76 anos) ainda teve tempo para tocar e gravar com alguns deles, como o grande baterista Max Roach ou o saxofonista Jackie McLean, na década de 1960. Precoce, aos 17 anos já participava de jam sessions, em clubes do Harlem, o mítico bairro negro de Nova York.

O conhecimento musical e a experiência que acumulou ao longo de seis décadas de carreira profissional se refletem no som denso e compacto de seu quinteto. Além do guitarrista Bruce Edwards, do contrabaixista Devin Starks e do baterista Darrell Green, ótimos músicos que já o acompanham há alguns anos, conta ainda com o talento do pianista Keith Brown.

Tolliver abriu o show com dois temas curtos e rítmicos, característicos do efervescente hard bop dos anos 1950 e 1960, acompanhados por longos improvisos dos músicos do grupo. Nos solos, suas frases também são breves e bem acentuadas, com células melódicas que, repetidas por diversas vezes, levam a um enérgico crescendo.

Numa das poucas vezes em que se dirigiu à plateia, com seu vozeirão rouco, o trompetista provocou risadas. Ao introduzir sua composição “Emperor March”, inspirada pelo popular documentário “A Marcha dos Pinguins”, não só fez questão de esboçar uma sinopse do filme, como imitou um desengonçado pinguim. Mais engraçado, no entanto, é o fato de que, se não tivesse feito essa referência, ninguém poderia imaginar que o contagiante tema que tocou – na linha do soul-jazz dos anos 1960 – teria algo a ver com o filme.

Quando repete em entrevistas que costuma evitar os caminhos musicais mais fáceis, Tolliver não está fazendo jogo de cena: isso é evidente em seus solos. No entanto, nem essa vontade constante de inovar pode justificar a infeliz releitura de “Round Midnight” que tocou quase ao final do show – capaz de fazer Thelonious Monk, seu autor, revirar-se no túmulo. Desfigurar a melodia de uma das baladas mais belas de todos os tempos, e ainda acelerar seu andamento, jamais será uma boa ideia para um arranjo dessa composição. Porém, como errar é humano, melhor esquecermos esse deslize eventual e ficarmos com a memória dos excitantes temas e improvisos que Tolliver e seu quinteto já tinham apresentado.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)


Aretha Franklin: voz poderosa da 'rainha do soul' rompeu fronteiras entre gêneros musicais

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“Que voz é essa”? Muitos ouvintes que escutaram pela primeira vez a voz cortante e poderosa de Aretha Franklin – interpretando sucessos como “Think”, “Call Me” ou “I Say I Little Prayer”, na programação das rádios comerciais durante as décadas de 1960 e 1970 – devem ter se feito essa pergunta. 

Quando a ouviu, em 1960, o experiente produtor norte-americano John Hammond não pensou duas vezes para contratá-la. “Meu Deus, é a voz mais bonita desde Billie Holiday!”, surpreendeu-se o executivo da gravadora Columbia.

Com uma rara extensão de quase quatro oitavas, a voz de Aretha soava como algo fora do comum, uma força da natureza. Poucos são os cantores que, como ela, tinham o poder de arrepiar seus ouvintes – e ela fazia isso com naturalidade.

No caso de Aretha, não se tratava apenas de um atributo físico ou técnico. Como grande intérprete que era, ela transmitia uma dose de sinceridade em suas gravações e performances, que conquistava o ouvinte logo na primeira audição. Bastava ouvir alguns versos de uma balada dolorida, de uma canção de protesto ou mesmo de um hino religioso, para que o ouvinte se sentisse, imediatamente, um confidente daquela intérprete tão carismática.

Com sua voz incomparável, Aretha conseguiu romper as supostas fronteiras entre a soul music, o rhythm & blues, o gospel, o jazz e o rock, numa época em que essas divisões pareceriam reproduzir a segregação racial que predominava na sociedade norte-americana. Seu talento natural e a habilidade como improvisadora lhe permitiam transformar até uma fútil canção pop em algo sedutor e convincente.

Um dos mais influentes e cultuados cantores e compositores da música negra norte-americana, Otis Redding (1941-1967) foi obrigado a se curvar frente ao poder musical da “Queen of Soul” (rainha do soul). Seu sucesso “Respect” alcançou uma repercussão muito maior ao ser regravado por ela.

Ampliado pela voz de Aretha, o efeito dessa canção ganhou duplo sentido ao exigir em seus versos “um pouco de respeito”. “Respect” transformou-se em hino espontâneo da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. E logo foi adotado pelas ativistas do movimento feminista.

Vale lembrar que, mesmo sem ter tido uma educação formal de música, Aretha aprendeu o que precisava em casa e na igreja do pai para seguir a carreira musical. Ali conviveu com grandes intérpretes da música gospel, como Mahalia Jackson e Clara Ward, cujas vozes a estimularam a querer ser cantora.

Embora tenha se dedicado a diversos gêneros musicais, a essência de seu canto estava no gospel. Não foi à toa que, depois de lançar alguns de seus discos mais cultuados, como “I Never Loved a Man” (1967), “Spirit in the Dark” (1970) ou “Young, Gifted and Black” (1971), Aretha gravou “Amazing Grace” (1972). Um retorno revelador às suas raízes musicais.

(Texto publicado na “Folha de S. Paulo”, em 17/8/2018, por ocasião da morte de Aretha Franklin)

Sesc Jazz: música de Henry Threadgill respira em constante processo de recriação

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“Vocês ainda têm tempo pra gente tocar mais um pouquinho?”, sugeriu Henry Threadgill, longe do microfone, sorrindo ao receber os aplausos calorosos da plateia do Sesc Pompeia, na noite de ontem (16/8). Uma pergunta gentil e retórica, que foi respondida prontamente com um sonoro “sim!”, já que os quase 70 minutos de música ouvidos até aquele momento pareceram pouco.

Para alguns fãs desse veterano compositor e instrumentista de Chicago, vê-lo se apresentar pela primeira vez no país, no festival Sesc Jazz, ao lado dos excelentes músicos de seu quinteto Zooid, foi a satisfação de um desejo que durou décadas. Sua vinda chegou a ser cogitada pelo Chivas Jazz, em 2005, mas o festival foi extinto antes de realizar essa edição.

Em plena atividade aos 74 anos, Threadgill é considerado um dos maiores compositores do jazz de vanguarda (aliás, jazz é um termo que ele costuma rejeitar, em suas entrevistas, por considera-lo apenas um rótulo comercial). Ainda no início da carreira ligou-se à lendária AACM (Associação para o Avanço da Música Criativa), liderada pelo pianista Muhal Richard Abrams, outro expoente dessa vertente musical que a plateia do Sesc Pompeia teve o privilégio de ouvir, em 2015.

Como Abrams, Threadgill entra no palco e simplesmente toca. Não tenta se aproximar da plateia, explicando sua música ou contando alguma história que se relaciona com ela. Nem mesmo os títulos de suas composições ele anuncia, antes de toca-las. É a discrição em pessoa.

Antes de tocar “Bells”, peça experimental que escolheu para abrir o concerto, Threadgill sussurrou instruções ao percussionista Elliot Kavee, que a introduziu com um solo. Em “Tomorrow Sunny”, a composição seguinte, foi a guitarra de Liberty Ellman que sobressaiu, inicialmente, até que a improvisação se tornasse fluida e coletiva.

Uma das mais aplaudidas da noite, a nervosa “Off the Prompt Box” (faixa do álbum “In for a Penny, In for a Pound”, de 2015, que contribuiu para que Threadgill recebesse o conceituado prêmio Pulitzer por sua obra) destacou o sax alto do compositor, em um solo expressivo, repleto de harmônicos e outros sons insólitos que extraiu do instrumento.

Aliás, entre os músicos do quinteto, Threadgill é o que menos toca durante todo o concerto. Seus improvisos de flauta ou sax alto são breves e incisivos, como se fossem milimetricamente calculados para entrar no instante certo. E por que teria de ser de outra forma, já que ele é o autor de todo o material do grupo?

Além da formação incomum, que inclui ainda o violoncelo de Christopher Hoffman e a tuba (ou o trombone) de José Davila, também surpreende a hipnótica fluência sonora do Zooid, originalmente um sexteto quando Threadgill o criou há cerca de 18 anos.

Não é por idiossincrasia que o compositor o considera o melhor grupo com o qual já trabalhou até hoje. Mesmo sendo talentosos solistas, nenhum deles busca se sobressair nos improvisos. Todos se unem ao objetivo de criar música com improvisação e liberdade, sem se afastarem da sonoridade idealizada por seu criador. Talvez esteja aí o motivo de essa música soar tão viva e original, em constante processo de recriação.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

Sesc Jazz: um quarteto inspirador e suas releituras de canções de Dorival Caymmi

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                                                                       Mehmari, Stroeter, Tutty e Proveta, no Sesc Jundiaí 


 A plateia de Jundiaí pode se considerar privilegiada. Primeira atração do festival Sesc Jazz nessa cidade paulista, um quarteto exibiu, em primorosas releituras instrumentais de canções do mestre Dorival Caymmi (1914-2008), um grau de inventividade, liberdade e coesão, que só os melhores grupos desse gênero musical são capazes de alcançar. 

“A música do Dorival nos faz navegar. Ela nos leva ao Sol, nos leva para a Lua”, disse o contrabaixista Rodolfo Stroeter, logo ao início da noite da última quarta-feira (15/8), preparando a plateia para acompanhar as inspiradoras viagens sonoras do grupo.

A escolha da radiante versão do samba “MiIagre”, para abrir o show, não é gratuita. Com a experiência que acumulam em décadas de carreira, Tutty Moreno (bateria), Nailor “Proveta” Azevedo (sax alto e clarinete), André Mehmari (piano) e Stroeter (baixo acústico) têm consciência de como é rara a química musical que os une.

“Temos muita sorte. Isso é um milagre que aconteceu na vida da gente”, reconheceu Proveta, emocionado, já quase ao final do show. A própria trajetória do quarteto é incomum: formado em 1998, para gravar o álbum “Forças D’Alma” (hoje um clássico da música instrumental brasileira), o grupo só se reencontrou eventualmente, até gravar o álbum “Dorival”, no ano passado.

Em meio a tantas belezas musicais, chama especial atenção o fato de os improvisos do quarteto serem tecidos de maneira essencialmente coletiva. Nada a ver com o hierárquico ritual de grupos de jazz mais tradicionais, cujos músicos cumprem a função de estender o tapete harmônico e rítmico para que o solista desfile, como centro das atenções.

Um dos arranjos mais inusitados é o de “Samba da Minha Terra”. Na introdução, o sax alto remete, com humor, ao clássico “Voo do Besouro” (de Rimsky-Korsakov). Proveta e Mehmari se divertem, brincando com a melodia, num toma-lá-dá-cá hilariante.

Já na dramática “Sargaço Mar”, Tutty demonstra toda sua sensibilidade musical, ao colorir com os sons de seus tambores e pratos as intervenções do piano e do sax alto. Aliás, quem conhece o estilo desse mestre da bateria sabe que ele é capaz de extrair melodias de seu instrumento. Isso mesmo, Tutty é um baterista melódico e criativo, como muito poucos.

Pensando bem, esse quarteto é uma síntese do que já se produziu de melhor na música instrumental brasileira das últimas décadas. Ainda no final dos anos 1970, Stroeter foi um dos criadores do cultuado grupo Pau Brasil, que segue na ativa, em sua melhor forma. Proveta lidera há duas décadas e meia a sensacional Banda Mantiqueira. E Mehmari, mesmo mais jovem que seus parceiros, já se consagrou como um dos grandes instrumentistas e compositores do país.

Não posso falar por toda a plateia de Jundiaí, mas tenho certeza de que muitos, como eu, devem ter saído do show de ontem com um certo orgulho. Em meio à devastadora crise que nosso país enfrenta, essa música brasileira tocada com tanta inventividade e beleza é capaz de nos deixar um pouco mais otimistas. Talvez o Brasil ainda tenha jeito.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

Stefano Bollani: pianista italiano cultiva paixões pelo jazz e pela MPB no CD 'Que Bom'

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                                                                                     Foto de Valentina Cenni/Divulgação

A paixão de Stefano Bollani pela música brasileira, tudo indica, não vai esfriar tão cedo. O pianista italiano descobriu a cadência do samba ainda na adolescência e agora, aos 45 anos, lança o álbum “Que Bom”, com participações especiais de Caetano Veloso e João Bosco, além de uma compacta seleção de craques da música instrumental brasileira. 

Um dos músicos europeus de maior prestígio na cena atual do jazz, Bollani tem reforçado durante a última década sua intimidade com as harmonias e os ritmos do Brasil. Em 2007, gravou o álbum “Carioca” no Rio, com músicos locais. Já em 2013, dividiu o CD “O Que Será” com o bandolinista Hamilton de Holanda, que também está no novo disco do italiano. 

“Hoje eu sei que existe muita música brasileira que eu ainda não conheço”, diz Bollani, com certa modéstia, falando à Folha por telefone. Quando a conversa se volta para os pianistas brasileiros que admira, por exemplo, ele desfia uma lista extensa: de mestres do choro, como Radamés Gnattali e Carolina Cardoso de Menezes, a expoentes de nossa moderna música instrumental, como João Donato e César Camargo Mariano.

Bollani já tocava piano, aos 15 anos, quando ouviu o clássico disco de bossa nova que João Gilberto gravou com o jazzista Stan Getz (“Getz/Gilberto”, 1963). “Me apaixonei pelas harmonias, parecidas com as do bebop e as do cool jazz, das quais eu já gostava muito”, relembra, em bom português.

“Mais tarde, quando fui ao Brasil para gravar meu disco ‘Carioca’, encontrei o choro, o samba, o forró e outras músicas brasileiras”, diz o italiano, que fez questão de voltar a tocar com Armando Marçal (percussão), Jurim Moreira (bateria) e Jorge Helder (baixo), nas gravações de “Que Bom” (selo Alobar/Biscoito Fino). Esse mesmo trio vai acompanha- lo na turnê de lançamento, além de Thiago da Serrinha (percussão).

No repertório de seu saboroso álbum, Bollani exibe 14 composições próprias, quase todas instrumentais. Inclui também a conhecida “Nação” (de João Bosco, Paulo Emílio e Aldir Blanc), cantada pelo próprio Bosco, e “Michelangelo Antonioni”, que Caetano Veloso, o autor, interpreta em italiano.

“Adoro Caetano cantando em italiano. Ele pode até cantar os itens de uma lista telefônica que eu vou gostar”, brinca o pianista. “No projeto original, ele iria cantar outras coisas em português, mas, na véspera da gravação, escrevi uma letra para a instrumental ‘La Nebbia a Napoli’. Caetano gostou, aprendeu rapidamente e a gravou”.

Bollani lança seu álbum nesta terça (14/8), no Bourbon Street, em São Paulo. Depois toca em Belo Horizonte (15/8) e faz duas apresentações pelo festival Sesc Jazz, no interior paulista, em Ribeirão Preto (17/8) e Jundiaí (18/8). Também toca em Brasília (20/8) e no Rio (21/8).

“Nos shows, tudo é mais improvisado do que no disco. É um grande prazer estar no palco com esses músicos incríveis. Ainda quero tocar muito com eles”, diz o italiano, que voltará a se apresentar com sua banda carioca, na Europa, em novembro.

Bourbon Street Music Club (r. dos Chanés, 194, Moema). Terça (14/8), às 21h30. Couvert artístico: de R$ 95,00 a R$ 150,00. 

(Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 14/8/2018)







Paulo Bellinati & Marco Pereira: violonistas celebram afinidades no álbum 'Xodós'

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                                           Os violonistas Paulo Bellinati e  Marco Pereira / Fotos de Tarita de Souza 

Um encontro de músicos de alto quilate, como Paulo Bellinati e Marco Pereira, já seria por si só um evento especial, mas por trás do álbum “Xodós” (lançamento com o selo de qualidade da gravadora Borandá) há uma amizade de quase cinco décadas. Uma parceria musical marcada por afinidades, perfeccionismo técnico e profunda dedicação a esse instrumento tão essencial na linguagem da música brasileira.

Paulistanos, eles nasceram no mesmo mês de setembro, em 1950, com uma diferença de apenas três dias. Conheceram-se quando cursavam o Conservatório Dramático e Musical do Estado de São Paulo, onde frequentavam aulas de violão com o mesmo mestre: o uruguaio Isaías Sávio.

Também cultivaram praticamente as mesmas referências no violão. “Nosso grande ídolo foi Baden Powell (1937-2000). Naquela época quase não havia partituras de música popular, então o jeito era ralar muito ouvindo os LPs, para tirar de ouvido as músicas que queríamos tocar”, relembra Pereira.

Chegaram a se apresentar algumas vezes em duo, no início dos anos 1970, mas a parceria foi suspensa quando decidiram aprimorar os estudos na Europa. Depois de ingressar no Conservatório de Genebra, na Suíça, Bellinati não demorou a formar um grupo de música instrumental brasileira. Pereira se fixou em Paris, onde obteve o título de mestre em violão clássico e se tornou um conceituado concertista. De vez em quando, um deles convidava o outro para tocarem juntos.

De volta ao Brasil, já em 1981, os dois formaram o trio Pó de Mico, com o percussionista Zé Eduardo Nazário. Apresentaram-se algumas vezes, mas pouco depois Pereira decidiu deixar São Paulo para se tornar professor da Universidade de Brasília. Ali assumiu a recém-criada cadeira de Violão Superior, além de lecionar Harmonia Funcional. Paralelamente, seguiu com sua carreira de solista erudito, mas também gravou elogiados discos de música brasileira.

Já tocando também guitarra, viola caipira e cavaquinho, Bellinati uniu-se ao grupo instrumental Pau Brasil, com o qual se destacou como solista e compositor por cerca de uma década. O interesse pela música do violonista e compositor paulista Garoto (1915-1955) reativou sua ligação com o violão, levando-o a uma bem-sucedida carreira de concertista, especialmente em palcos dos Estados Unidos. Em 2002, voltou a fazer parte do grupo Pau Brasil, com o qual continua tocando até hoje.

“Sempre me surpreendi com o fato de termos continuado nossas carreiras em paralelo”, observa Pereira. “Alguns anos atrás tive a ideia de escrever um concerto para dois violões e orquestra. Passei oito meses feito doido, escrevendo. Estava finalizando o último movimento, quando li a notícia de que o Bellinati ia estrear um concerto para dois violões e orquestra. Era muita coincidência”, relembra o violonista, que sugeriu ao amigo, em meados de 2015, que retomassem a parceria.

A reestreia do duo se deu no Clube do Choro de Brasília (DF), algumas semanas depois. No programa dessa apresentação já figurava boa parte do repertório que viria a compor o álbum “Xodós”. Por sinal, os arranjos da dupla para “Eu Só Quero Um Xodó”, “Isso Aqui Tá Bom Demais”, “De Volta pro Aconchego” e “Gostoso Demais”, sucessos do sanfoneiro Dominguinhos (1941-2013), nasceram para atender a um pedido da produção do Clube do Choro, que costuma homenagear figuras importantes da música brasileira.

“Eles pedem que a gente toque ao menos uma música do homenageado, mas acabamos tocando cinco. Poderíamos fazer até um disco inteiro dedicado a Dominguinhos”, diz Pereira. Só a toada “Lamento Sertanejo” não entrou no disco, mas o duo costuma toca-la nos shows. “É muito legal, porque as pessoas saem cantando, espontaneamente, assim que a reconhecem”, conta Bellinati.

Se o acaso contribuiu para a criação dessas saborosas versões instrumentais de canções de Dominguinhos, as composições do violonista Dilermando Reis (1916-1977) já frequentavam o repertório de Pereira desde cedo. Tanto que este homenageou o influente mestre do violão, recriando com elegância suas composições no álbum “Dois Destinos” (Borandá, 2016).

O batuque “Xodó da Bahiana”, o choro “Magoado” e a valsa “Se Ela Perguntar”, interpretadas por Pereira em seu disco, ganham novos tratamentos e sonoridades nas releituras do duo. Vale lembrar que, nas 14 faixas de “Xodós” (foto da capa abaixo), Pereira toca violão com cordas de nylon no canal esquerdo; o violão com cordas de aço de Bellinati é ouvido no canal direito. A produção do álbum ficou a cargo de Swami Jr., outro grande violonista.


“Já nos ensaios a gente se surpreendia ao notar que rola uma liberdade, uma grande confiança entre nós, algo que não é comum entre qualquer músico. Se você toca completamente relaxado, com a certeza de que seu parceiro está 100% com você, você toca com mais calor. O rendimento é muito maior”, comenta Bellinati.

Pereira concorda com o parceiro e observa que a maturidade traz uma relação diferente com a música. “Quando você tem vinte e poucos anos se preocupa em impressionar o público com sua performance, com exuberância técnica. Mais tarde você amadurece e passa a valorizar o resultado musical. Esse disco também tem um pouco de exuberância, mas nós estamos a serviço da música o tempo todo”, considera.

O repertório de “Xodós” inclui também composições próprias. “Foi difícil escolher”, admite Pereira. “Ficamos com aquelas que poderiam funcionar bem com os dois violões”. De Bellinati entraram a inédita “Fandango” e “Jongo”, composição que se tornou um clássico no repertório do grupo Pau Brasil. Pereira contribuiu com “Choro de Juliana”, “Amigo Leo”, “Santo Amaro” e “Café Compadre”.

Hoje, tanto “Choro de Juliana” como “Jongo” são tocadas por violonistas de diversos países, em gravações mais tradicionais do que a ouvida em “Xodós”. “Algumas de nossas composições entraram no repertório do violão clássico. O cara pega a partitura, decora e a reproduz nos concertos”, observa Pereira. “Como eu e Bellinati também temos em nossa formação a bagagem do jazz, nossas versões acabam ficando diferentes, também por causa das partes improvisadas”.

Os dois admitem terem ficado especialmente satisfeitos com a releitura da lírica valsa “Se Ela Perguntar” (de Dilermando Reis). “Toquei essa música a vida inteira. Minha avó sempre chorava quando a ouvia. Ficamos emocionados ao escutar essa gravação”, conta Bellinati. “Ela possui uma magia que nem a gente consegue entender como conseguiu. É uma coisa rara, uma benção. Talvez tenham baixado alguns anjos no estúdio, na hora em que a tocamos”, brinca Pereira.

Perfeccionistas, eles contam que chegaram a masterizar o disco pela segunda vez, por não terem ficado satisfeitos com o resultado sonoro da primeira versão. “Passei a vida achando que eu era perfeccionista, mas ao fazer esse disco com o Bellinati percebi que eu sou fichinha perto dele. Ele tira até a última gota do som”, diverte-se Pereira. “Esse disco representa a história de nossas vidas, então tínhamos que caprichar”, retruca Bellinati.

Tratando-se desses dois grandes violonistas, que há décadas desenvolvem carreiras consagradas internacionalmente (e já não precisam provar mais nada a ninguém), só poderíamos esperar por algo assim: música brasileira de alta qualidade, tocada com requinte técnico, elegância e emoção.


(Texto escrito a convite da gravadora Borandá)

Paulo Bellinati e Marco Pereira lançam o álbum "Xodós", dia 15/08, às 21h, em show no Sesc 24 de Maio, na região central de São Paulo. Ingressos de R$ 7,50 a R$ 25,00, nas bilheterias das unidades do Sesc SP (a partir de 7/8) e online (a partir de 8/8), no portal do Sesc SP



 

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