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'O Piano e a Casa': um panorama da música instrumental brasileira por 9 pianistas

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Gravado ao vivo na Casa do Núcleo (pequeno centro cultural paulistano coordenado pelo músico Benjamim Taubkin), o CD “O Piano e a Casa” reúne performances de pianistas brasileiros de diferentes gerações. Do veterano paulista Amilton Godoy, que relê com sua abordagem jazzística o clássico choro “Odeon” (de Ernesto Nazareth), ao capixaba Hercules Gomes, que encara com classe o encrencado “Duda no Frevo” (Senô), as nove faixas desse álbum compõem um panorama de tendências da música instrumental brasileira de hoje.

Várias peças do repertório são autorais. O título da lírica “Caipira” só engana quem não conhece a refinada concepção musical de Taubkin. A técnica e a bagagem erudita de Heloisa Fernandes transparecem em sua extensa composição “Voo”. O elenco inclui ainda cinco pianistas de alto quilate: Tiago Costa, Karin Fernandes, Júlia Tygel, Zé Godoy e Fábio Torres. E o projeto não parou por aí: gravações de outros 19 pianistas, já realizadas na Casa do Núcleo, devem render novos discos da série a serem lançados pelo selo Núcleo Contemporâneo.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos Filmes, edição de 31/10/2015) 



Casa do Núcleo: evento discute a improvisação com debates e shows em São Paulo

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A Casa do Núcleo, misto de casa de espetáculos, centro cultural e loja de discos, anuncia mais um evento que pode interessar bastante a músicos, estudantes e apreciadores da música instrumental e do jazz, em São Paulo. Seu primeiro Encontro de Improvisação Livre vai oferecer, de 5 a 7 de dezembro, palestras, debates, oficinas e apresentações musicais.

Na estreia do evento, em 5/12, o violoncelista Dimos Goudaroulis (na foto acima) e o percussionista Eduardo Contrera vão falar sobre o tema “Música de Câmara Improvisada”, às 15h30, e, em seguida, improvisarão juntos. Depois, às 17h30, o pianista Benjamim Taubkin comanda um bate-papo sobre o tema “Criação Espontânea - Envolvendo a Canção” e também se apresenta ao lado de alguns convidados. A programação desse dia inclui ainda uma oficina (“O Processo Criativo”, às 19h30) com o violonista Pedro Osmar, que depois vai se apresentar em duo com o percussionista Loop B.

Nos dias 6 e 7/12, o Encontro de Improvisação Livre destaca mais palestras, apresentações e debates com o contrabaixista Celio Barros, com o violonista Flavio Apro, com a pianista Silvia Góes (na foto à esquerda), com o violonista Fabio Negrone e com os grupos Mefisto e Coletivo Aguaúna.

Mais informações no site da Casa do Núcleo: www.casadonucleo.com.br

Kenny Werner: expert em improvisação, pianista se apresenta em MG e SP

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                                               Kenny Werner, no Buenos Aires Jazz Fest 2011 / Photo by Carlos Calado

Ainda pouco conhecido no Brasil, o pianista Kenny Werner, 59, é um caso típico do que se costuma chamar de “músico dos músicos”. Mas o fato de ser elogiado por colegas do alto escalão do jazz e da música instrumental, como o megaprodutor Quincy Jones e o gaitista Toots Thielemans, não significa que sua música seja hermética ou cerebral.

Werner – atração de hoje (26/7), na Casa do Núcleo, em São Paulo – é, literalmente, um especialista em criatividade e improvisação. Seu livro “Effortless Mastery” (maestria sem esforço), publicado em 1996, costuma ser recomendado por conceituadas universidades de vários países, não só em cursos de música.

Em entrevista à "Folha de S. Paulo", por telefone, músico o norte-americano revelou que suas investigações no campo da criatividade passaram pelo Brasil. No início da década de 1970, ao cursar a Berklee School of Music, em Boston, fez amizade com o lendário saxofonista Victor Assis Brasil (1945-1981), que o convidou a visitar o Rio de Janeiro. Assim conheceu o pianista João Carlos Assis Brasil, irmão gêmeo de Victor que marcou sua concepção musical.

“Naquela época eu ainda tocava de forma muito tensa. João já tinha desenvolvido uma abordagem mais pessoal, uma maneira quase zen, muito relaxada de tocar. Ele ajudou a mudar meu toque ao piano, corrigindo o modo como eu estudava”, relembra.

Foi nessa viagem também que Werner se aproximou da música brasileira. “Ela é o meu grande amor. A música que faço costuma ser original, não tem a ver com um repertório estabelecido. Mesmo assim toco com muita alegria a música de Tom Jobim ou a de Chico Buarque. Ao tocar música brasileira, não sinto desejo de inovar. Toco apenas para apreciar os acordes e as belas harmonias”.

Premiada com uma bolsa da Fundação Guggenheim, a composição “No Beginning, No End” (lançada em CD pela Half Note, em 2010) é considerada a obra mais ambiciosa de Werner. Escrita para quarteto de cordas, grupo de sopros e coro, num total de 70 músicos participantes, essa peça nasceu a partir de uma tragédia pessoal vivida pelo músico: a morte da filha de 16 anos, Katheryn, em acidente de carro, em 2006.

Após o concerto de ontem (25/), no 10º Savassi Festival, em Belo Horizonte (MG), onde tocou ao lado da Sinfônica de Minas Gerais, Werner traz a São Paulo seu inventivo trio, que destaca o baterista Ari Hoenig e o baixista Johannes Weidenmueller, músicos mais jovens com os quais toca há mais de uma década. 

Werner mostra-se bem otimista, ao se referir à cena atual do jazz. “Este é o momento mais criativo que presenciei em toda minha vida. Os músicos jovens que estão aparecendo são deslumbrantes, não só porque tocam muito bem, mas porque são muito criativos. Não dá para comparar com o que aconteceu no jazz dos anos 40, 50 e 60, porque este é outro momento, mas de alguma maneira a música de hoje soa mais avançada. Isso me estimula muito”, conclui o pianista.

(texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 26/7/2012)



Benjamim Taubkin: tocando piano e atuando no mercado musical com a mente e o coração

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É muito raro encontrar um artista como ele, tão atuante e envolvido com diversos aspectos da atividade musical, no Brasil e no mundo. Pianista, compositor, arranjador, produtor, curador e agitador cultural, o paulista Benjamim Taubkin já esteve em cinco continentes, só neste ano, apresentando-se com músicos de vários países ou participando de encontros e seminários para discutir aspectos do mercado e da produção musical.

Em sua eclética discografia, Taubkin reúne projetos musicais bem diversos. Já lançou gravações instrumentais com formações variadas, dois álbuns com a original Orquestra Popular de Câmara ou ainda parcerias com grupos dedicados a gêneros musicais particulares: choro, com o regional Moderna Tradição; jazz, com o Trio +1; música folclórica, com o Núcleo de Música do Abaçaí; música latino-americana, com o coletivo América Contemporânea, que reúne músicos de vários países deste continente.

“Eu quis, simplesmente, viver da minha música. E o fato de ter iniciado esse movimento acabou me levando a percorrer o planeta e a tocar com músicos de muitos lugares do mundo”, diz o pianista, que lançou há pouco o livro “Viver da Música - Diálogos com Artistas Brasileiros” (ed. Bei, 328 págs). Nele, entrevista músicos de diversos gêneros – do multi-instrumentista Egberto Gismonti ao maestro Jamil Maluf, incluindo também músicos desconhecidos do grande público, como o mineiro Brás da Viola ou o pernambucano Guitinho.

“O desejo de fazer esse livro foi o de estimular, tanto os músicos mais jovens, como os estudantes de música”, explica Taubkin, observando que, nas conversas com parceiros de seus vários projetos, notava que todos viviam de sua arte. “É difícil você encontrar um bom músico, que não esteja vivendo de sua música. Antes era comum se dizer que você precisava ser engenheiro ou médico, para ter alguma garantia na vida, mas hoje eu vejo médicos ganharem mil reais por mês, trabalhando para seguradoras. Há muitos músicos ganhando bem mais que isso. Você pode viver de sua música sem ser uma celebridade”.

Outro projeto mais recente ao qual Taubkin tem dedicado grande parte de seu tempo, quando não está fora do país, é a Casa do Núcleo – um pequeno centro cultural e casa de espetáculos inaugurada em março, em São Paulo. O nome se refere ao Núcleo Contemporâneo, o selo de música instrumental que ele fundou e dirige desde 1997.

“Depois de tantos anos viajando, senti que precisava de um espaço para apresentar trabalhos musicais realizados na cidade, ou que estão de passagem por ela, onde a música possa ser absorvida de um jeito bacana. Também queria um lugar para seminários, oficinas e encontros”, descreve o idealizador desse projeto.

A Casa do Núcleo conta com uma sala multiuso para 70 lugares. O bar funciona separadamente e o consumo de bebidas é interrompido durante as apresentações. O local também inclui uma loja que oferece discos e livros sobre música. Outra atração permanente é o Acervo da Casa, que reúne milhares de discos e publicações internacionais, que Taubkin reuniu durante suas viagens, nas últimas décadas.

“Eu olhava para todo aquele material, guardado em minha casa, e sabia que não há tempo físico para ouvir tudo aquilo de novo. Então decidi compartilhar. Tem muita música da África, da Ásia, da Europa, da América Latina e do Brasil, que estamos acabando de catalogar. Vamos fazer visitas guiadas ao acervo. A ideia é ouvir esses discos junto com os frequentadores da Casa, tomando um copo de vinho”, conta o músico.

Ciente de que realizar esse projeto com recursos financeiros próprios e de alguns amigos envolve riscos, Taubkin explica que tomou essa decisão por não ver nos patrocínios culturais um caminho a ser seguido. “Sei que é um grande desafio. A Casa não tem patrocínio, não tem edital, vivemos de recursos próprios. Defendo muito a autonomia: a música deve estabelecer contatos com outras áreas da sociedade, mas sem dependência. Acho que, neste momento, essa questão dos patrocínios e editais está criando uma enorme dependência para os músicos”, critica.

Taubkin admite não ser fácil conjugar as funções de diretor e produtor da Casa do Núcleo com a dedicação ao piano e suas outras atividades musicais, mas não encara isso como um problema. “Acho que esse equilíbrio é dinâmico. Às vezes, por volta de 1h da manhã, após o final da programação da Casa, sento ao piano e fico tocando até às 3h. Eu tenho essa disciplina”.

E de onde vem essa vontade de se envolver com tantos aspectos da produção musical? “Para mim, isso é orgânico. Não é algo que foi pensado ou elaborado”, diz ele, relembrando que, antes mesmo de se tornar músico, já organizava shows de artistas que admirava. Tinha apenas 17 anos, em 1973, quando produziu com um amigo de colégio – o músico Lino Simão – um show do sanfoneiro Dominguinhos com o grupo Som Imaginário, no Teatro do Colégio Rio Branco, em São Paulo.

“Não tínhamos a menor noção do aspecto financeiro. Mesmo com o teatro cheio, tivemos prejuízo, mas essa experiência acendeu um desejo de seguir por aí”, conta. Um ano depois organizou uma mostra de música instrumental, no bosque do Morumbi. O sucesso desse evento o levou à coordenação de projetos musicais na Secretaria Municipal de Cultura – sua precoce iniciação na área das curadorias.

Foi também aos 18 anos, que Taubkin decidiu enfim procurar um professor de música. “Eu tinha um piano em casa, que tocava de ouvido, mas ainda nem fazia ideia de como tocar um lá menor. Ninguém quis dar aula para mim – achavam que eu já estava velho. Como senti um grande impulso para tocar, resolvi seguir sozinho. Eu tinha uma admiração pelo universo dos músicos da noite, que achava romântico, e quis viver essa fantasia”, conta o autodidata, que durante a década de 80 aprendeu o que precisava, tocando em boates e bares da noite paulistana, como a Baiuca, o Paddock, o Anexo e o Blend.

Hoje, autor de uma obra musical tão diversificada e original, marcada pelo lirismo de suas composições e pela aguda sensibilidade que seu piano evoca, o artista e curador inclui na dedicatória de seu livro um slogan que adotou como filosofia de vida: “sentir com a mente e pensar com o coração”. 


(texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana, do jornal "Valor", em 9/9/2011)




 

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