41º New Orleans Jazz & Heritage Festival: uma cidade festiva com a auto-estima em ascensão
Marcadores: Bourbon Street Fest, Christian Scott, New Orleans Jazz and Heritage Fest, tremé | author: Carlos CaladoApesar da previsão de chuvas para o último final de semana, o tempo colaborou. Como se tivesse sido programado, o temporal que caiu anteontem sobre a cidade só começou minutos após o encerramento dos shows de Neville Brothers, B.B. King, Maze, Wayne Shorter e Radiators, atrações finais do domingo.
A ausência de Aretha Franklin, que já havia cancelado seu show no ano passado, não chegou a prejudicar o evento. Ao anunciar a banda Earth, Wind & Fire (na foto acima) para substituí-la, o produtor Quint Davis evitou mencionar o novo “forfait” da cantora, mas aproveitou a ocasião para fazer um comentário que excitou a platéia: “Podem tentar nos afogar, podem jogar óleo sobre nós, mas a alma dessa cidade continua viva em sua música”.
Ver músicos locais, como o cantor John Boutté, o trompetista Kermit Ruffins ou o trombonista Troy “Trombone Shorty” Andrews, serem aplaudidos com a mesma euforia dedicada aos astros internacionais, indica que a auto-estima da cidade está em franca ascensão graças à repercussão da série de TV “Tremé”, produção do canal HBO que aborda o período pós-Katrina.
Um exemplo desse momento especial vivido por Nova Orleans e seus músicos é o trompetista Christian Scott, 27, que tocou no sábado como solista da banda do veterano baixista Marcus Miller. Ao recriar faixas do álbum “Tutu” (que Miller gravou com Miles Davis, em 1986), Scott foi tão aplaudido quanto o líder, demonstrando personalidade nos improvisos. Talento que a platéia paulista também poderá conferir no próximo dia 19, já que Scott vai abrir a terceira edição do festival Bridgestone Music.
Outras atrações do festival de Nova Orleans poderão ser apreciadas pelos paulistas em breve. Presente no evento, como faz há mais de duas décadas, o produtor Edgard Radesca já confirmou à Folha os nomes de Trombone Shorty, do pianista Jon Cleary e do acordeonista Terrance Simien, no elenco da próxima edição do Bourbon Street Fest, agendado para agosto.
Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo" em 4/05/2010
Erykah Badu: cantora mistura psicodelismo com soul e funk que remetem ao seu início
Marcadores: erykah badu, funk, New Amerykah, soul | author: Carlos CaladoIronicamente, o CD “New Amerykah - Part Two” (lançamento Motown/Universal) é até mais acessível que o politizado álbum homônimo de 2008. Erykah mantém algo da instrumentação eletrônica e do psicodelismo do trabalho anterior, mas a temática amorosa e as faixas que remetem ao funk e ao soul dos anos 70, como “Turn Me Away”, “Gone Baby, Don’t Be Long” ou “Umm Hmm”, aproximam-se mais de “Baduism” (1997), seu primeiro disco.
Mesmo assim, Erykah fecha este álbum com a longa “Out of Mind, Just in Time”, balada romântica que se transforma em uma canção estranha, suspensa no ar. Seria uma dica camuflada para a parte final de uma trilogia?
(resenha publicada no "Guia da Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/04/2010)
41° New Orleans Jazz & Heritage Festival: Trombone Shorty é um dos destaques
Marcadores: Bourbon Street Fest, New Orleans Jazz and Heritage Fest, tremé, Trombone Shorty | author: Carlos CaladoMais conhecido como Trombone Shorty, o músico Troy Andrews acaba de lançar “Backatown” (selo Verve Forecast/Universal), seu primeiro CD produzido e distribuído por uma gravadora multinacional, com participações do astro pop Lenny Kravitz e do pianista Allen Toussaint, veterano da música local. No próximo domingo, esse trombonista e compositor se apresenta com sua banda Orleans Avenue no encerramento da 41ª edição do New Orleans Jazz & Heritage
Festival, um dos maiores eventos musicais do mundo, onde tocou pela primeira vez com apenas 4 anos de idade.
“O Jazz Fest, como o chamamos em Nova Orleans, é muito importante em vários aspectos, não só para a economia da cidade, mas também para seus músicos”, diz Shorty, em entrevista à Folha. “Centenas de milhares de pessoas, vindas de muitos lugares, freqüentam nosso festival todos os anos. Além de se apaixonar pela cidade, elas descobrem os artistas e bandas locais e assim começam a acompanhar suas carreiras”.
Shorty, que atuou em alguns episódios de “Tremé”, se mostra bastante excitado pela repercussão da série. “Acho que ‘Tremé’ está contribuindo para que Nova Orleans seja colocada de uma vez por todas no mapa. Já era tempo de nossa cultura receber o reconhecimento que ela merece há mais de um século”, afirma o músico, que nasceu e cresceu nas proximidades da área de Tremé, subdistrito de New Orleans, retratada pela série.
Com shows confirmados em São Paulo, no próximo Bourbon Street Fest (de 14 a 22/8), Shorty avisa que trará ao Brasil a mesma banda e basicamente o mesmo repertório que vai exibir no festival de Nova Orleans. “Nosso som é extremamente dançante e energético. Nós o chamamos de ‘supafunkrock’, porque mistura rock, soul e funk com muita energia. Será uma festa tão animada quanto o carnaval do Brasil ou o de Nova Orleans”, compara.
Um dos raros músicos da Louisiana contratado hoje por uma grande gravadora, com distribuição internacional, Shorty também vai participar nesta semana do Sync Up, um simpósio anual sobre o mercado da música, que acontece em Nova Orleans. Sua carreira será debatida como um caso de sucesso.
“Só tenho 24 anos, mas comecei cedo e já tenho bastante para contar”, diz, consciente que já se transformou em um modelo imitado por muitos garotos da cidade que pretendem ser músicos. “Essa é outra razão pela qual quero progredir cada vez mais em minha carreira. Meu instrumento já me abriu muitas portas, é o meu passaporte”.
O New Orleans Jazz & Heritage Festival segue de hoje a domingo, com shows de Aretha Franklin, Elvis Costello, Pearl Jam. B.B. King e Wayne Shorter entre outros destaques. A expectativa é de que o evento bata seu recorde de público, aproximando-se de 600 mil expectadores.
Christian Scott: trompetista revelação do jazz vai tocar no 3º Bridgestone Music Festival
Marcadores: bridgestone, Christian Scott, jazz, miles davis, new orleans, wynton marsalis | author: Carlos Calado
3º Bridgestone Music: festival investe de novo nas conexões do jazz com a black music
Marcadores: Ahmad Jamal, Barbara Walker, bridgestone, Chris Potter, Christian McBride, Dave Holland, Dee Alexander, Don Byron, Jason Moran, jazz, Melissa Walker, Overtone, Piazzolla, Uri Caine | author: Carlos Calado
Jazz, soul, rhythm & blues, gospel, funk. Diversas correntes da música negra norte-americana contemporânea vão estar bem representadas na terceira edição do Bridgestone Music Festival, de 19 a 22 de maio, no Citibank Hall, em São Paulo. Se você foi um dos felizardos que, no ano passado, assistiu aos disputados shows de Jimmy Cobb & The So What Band (na comemoração dos 50 anos do álbum “Kind of Blue”, de Miles Davis), da dupla de soul-jazz Tok Tok Tok, da diva do rhythm & blues Bettye LaVette ou da ótima cantora de jazz René Marie, nem preciso dizer que é melhor garantir já seus ingressos.
Com quatro noites, neste ano o festival destaca outras atrações de prestígio na cena atual do jazz, como o veterano pianista Ahmad Jamal (que já brilhou por aqui no Tim Festival de 2006 e no pioneiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1978). O recém formado The Overtone Quartet reúne instrumentistas de ponta nesse gênero: Dave Holland (contrabaixo), Jason Moran (piano), Chris Potter (sopros) e Eric Harland (bateria).
O pianista Uri Caine e o clarinetista Don Byron, que já tocaram juntos muitas vezes, retornam como líderes de inventivos projetos de fusão do jazz com o soul ou com o gospel, contando com vocalistas inéditas por aqui: Barbara Walker (vale a pena conferir o vídeo acima, com ela e Uri Caine) e DK Dyson. O time de cantoras do festival inclui ainda as talentosas Dee Alexander (revelação da cena jazzística de Chicago) e Melissa Walker, canadense que vai dividir o palco com o maridão Christian McBride, fera do baixo acústico.
De essência jazzística também são as releituras da banda argentina Escalandrum para clássicos do “nuevo tango” do mestre Astor Piazzolla, do qual o líder e baterista Daniel “Pipi” Piazzolla é neto. Para outras informações, ouvir gravações e ver mais vídeos desses artistas, confira o site do evento: www.bridgestonemusic.com.br
Grandpa Elliott: músico de rua de New Orleans estréia em CD aos 64 anos
Marcadores: blues, grandpa elliot, new orleans, playing for change | author: Carlos CaladoMayra Andrade: cantora-revelação de Cabo Verde gravou com músicos brasileiros
Marcadores: Alê Siqueira, andré mehmari, Cabo Verde, Jaques Morelenbaum, mayra andrade, swami jr. | author: Carlos Calado
Revelação recente da música do arquipélago de Cabo Verde, a cantora Mayra Andrade se superou em seu segundo álbum. Para produzi-lo, convidou o brasileiro Alê Siqueira (conhecido por trabalhos com os Tribalistas e Omara Portuondo), que soube ajudá-la a encontrar um formato sonoro leve e sofisticado para realçar sua voz doce.
Eclético, o repertório de Mayra, que também é compositora, mistura gêneros cabo-verdianos, como a delicada morna “Lembránsa” e o encantador funaná que dá título ao álbum, com influências jazzísticas, cubanas e brasileiras. Algumas gravações, por sinal, foram feitas no Rio e em São Paulo, contando com Jaques Morelenbaum (cello), André Mehmari (piano) e Swami Jr. (violão), entre outros craques daqui. Não é à toa que a música dessa cubana de nascimento, que cresceu em Cabo Verde e hoje vive em Paris, deixa no ar uma sensação difusa e agradável de familiaridade, como a de se encontrar um parente desconhecido pela primeira vez.
(resenha publicada no "Guia da Folha - Livros, Discos e Filmes", de 26/03/2010)



