Mostrando postagens com marcador jorge benjor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jorge benjor. Mostrar todas as postagens

Delfeayo Marsalis: trombonista faz pensar e dançar com seu 'jazz para todos'

|




O trombonista e compositor americano Delfeayo (pronuncia-se “delfíou”) Marsalis tem surpreendido fãs e colegas do meio musical com o recém lançado álbum “Make America Great Again”, cujo título remete ao slogan da campanha de Ronald Trump à presidência dos Estados Unidos. Tratando-se de um membro de um dos clãs musicais mais influentes na cena do jazz, conhecido por posições progressistas, o título desse disco causa estranhamento.

“Às vezes é preciso correr algum risco. Espero que as pessoas sejam atraídas pelo título do álbum e se animem a explorar minha música”, diz Marsalis ao "Valor", afirmando que não se preocupou com a possibilidade de ser mal compreendido. “Diferentemente da música pop, que diz logo o que pretende, o jazz é pensado para envolver as pessoas. É preciso mergulhar nessa música para entender o que está acontecendo”, comenta o jazzista de New Orleans, que vai se apresentar no clube paulistano Bourbon Street (em 24/11) e no festival gaúcho Canoas Jazz (26/11).

Ao ouvir a faixa que dá nome ao álbum, com participação especial do ator Wendell Pierce (outro nativo de New Orleans, que se destacou nas séries de TV “Tremé” e “The Wire”), logo se constata que o projeto de Marsalis não se afina com a propaganda republicana. Como um mestre de cerimônias, Pierce lê com ironia uma espécie de editorial do álbum, que desmonta o slogan de Trump para revelar seu oportunismo.

Apesar das alusões sociais e políticas, em termos musicais as composições e os arranjos de Marsalis para a Uptown Jazz Orchestra (que o acompanha no álbum) soam sofisticados e dançantes. Pouco têm a ver, por exemplo, com a música furiosa de Charles Mingus (1922-1979), que se tornou referência no universo jazzístico ao abordar o racismo e a violência contra os negros americanos.

“Meu país mudou muito desde os anos 1950 e 1960, quando Mingus denunciava a segregação racial. Embora eu acredite que ainda existe racismo no país, a sociedade americana evoluiu”, observa Marsalis. “Acho que minha música expressa a complexidade das relações raciais nos Estados Unidos de hoje. Alguns dizem que o jazz representa a liberdade dos negros, mas, na verdade, representa a liberdade de todos, sem distinções raciais. Foi graças a essa atitude que a música de Louis Armstrong se tornou tão grandiosa”.

Não é à toa que Marsalis se refere ao lendário trompetista e pioneiro do jazz, que tanto colaborou para a projeção internacional da cidade natal de ambos. “Meu objetivo principal, ao conceber esse álbum, foi captar o espírito e a alegria de New Orleans e de sua música. New Orleans é a cidade mais original dos Estados Unidos. Essa originalidade vem das tradições africanas que mantemos na música, na dança, na comida, na cultural em geral”, explica o compositor.

Consciente das mudanças enfrentadas pelos habitantes de sua cidade, especialmente após a devastadora passagem do furacão Katrina, em 2005, Marsalis aponta o risco de New Orleans vir a se tornar “uma Disneylândia”, em função da grande ênfase no turismo e do deslocamento das comunidades negras para áreas periféricas da cidade.

“Esse processo de gentrificação tem se manifestado em todo o país. Penso que os verdadeiros músicos de New Orleans buscam entender o que está acontecendo para poderem expressar essas mudanças musicalmente”, observa Marsalis, apontando o fato de certas tradições locais, como os funerais animados por bandas de jazz, não serem compreendidas pelos turistas. “Hoje as gerações mais jovens são egoístas e desrespeitam protocolos, mas temos que nos adaptar ao que acontece”.

Embora a precária situação econômica brasileira tenha impedido que Marsalis trouxesse sua orquestra, ele enfatiza que os shows com seu quinteto serão “grandes festas”. “Vamos tocar um repertório excitante, desde clássicos do jazz até composições mais recentes, inclusive algumas extraídas do novo álbum”, promete.

No grupo que vai acompanha-lo nessa breve turnê estarão o saxofonista Kahri Lee, o pianista Kyle Roussel e o baixista David Pulphus, todos talentosos integrantes da Uptown Jazz Orchestra. O quinteto se completa com o conceituado Marvin ‘Smitty’ Smith. “Ele é um dos grandes mestres da bateria atualmente. Vai ser muito bom tocar com ele”, festeja o líder.

Em São Paulo, a apresentação de Marsalis fará parte da programação comemorativa dos 23 anos do clube Bourbon Street, que também destaca o cantor e compositor Jorge Benjor (em 17 e 18/11), o trompetista James “Boogaloo” Bolden e a cantora Annika Chambers com a Igor Prado Band (23/11). Mais informações no site do Bourbon Street Music Club.


(Entrevista publicada no jornal "Valor Econômico", em 11/11/2016)






Claude Nobs (1936-2013): criador do Festival de Montreux promoveu a música brasileira

|

                                        Claude Nobs - Photo by by Lionel Flusin - Montreux Jazz Festival Foundation

A cena dos festivais internacionais de música perdeu um de seus líderes mais carismáticos e influentes. Morreu anteontem, na Suíça, o produtor Claude Nobs, 76, que criou o Montreux Jazz Festival, em 1967, e o comandou até seus últimos dias.

Nobs estava internado, em coma, desde a noite de Natal, quando sofreu um acidente ao esquiar perto do vilarejo de Caux, onde vivia. Em seu chalé, guardava o precioso arquivo com os registros sonoros e visuais de concertos do festival.

Só o fato de ter conseguido que muitos medalhões da música internacional, como Miles Davis, B.B. King, Ray Charles, Keith Jarrett ou Carlos Santana, participassem com frequência do evento já demonstra sua influência nos meios musicais. A pequena cidade de Montreux praticamente entrou no mapa graças ao festival.

Nobs imprimiu sua imagem ao Montreux Jazz: fazia questão de apresentar pessoalmente quase todas as atrações do evento à plateia. Sem falar nas eventuais “canjas”, soprando sua gaita ao lado de vários convidados, com bom humor e competência musical.

“Ele comandou o festival até o final, mas tinha ‘fairplay’. Costumava dizer que entre dez ideias loucas que sugeria só uma era aprovada”, relembra a brasileira Marcia Corban, que trabalhou ao lado de Nobs durante 25 anos, como “backstage manager”.

Noites brasileiras
  
Em 1978, ao criar as noites brasileiras, em parceria com o produtor carioca Marco Mazzola, Nobs contribuiu ativamente para divulgar a música brasileira na Europa. Gilberto Gil, João Gilberto, Elis Regina, Hermeto Pascoal e Pepeu Gomes foram alguns dos brasileiros que lançaram discos com registros de suas apresentações no festival.

Entre as décadas de 1970 e 1990, praticamente, todo o primeiro time da música popular brasileira – de Caetano Veloso, Jorge Benjor e João Bosco a Marisa Monte, Paralamas e Daniela Mercury – se apresentou nas concorridas e festivas noites brasileiras em Montreux. Estas se tornaram pontos de encontro dos “brazucas” radicados no velho continente, mas também atraíam a atenção do público europeu.

A partir de 1993, quando se mudou para as confortáveis instalações do Centro de Convenções do Congresso, o Montreux Jazz Festival passou a dividir suas atrações principais entre os palcos do (mais acústico) Auditorium Stravinsky e do (mais eletrificado) Miles Davis Hall, durante 16 noites consecutivas, além dos shows gratuitos no jardim externo.

A participação do megaprodutor norte-americano Quincy Jones, que a partir de 1991 passou a coordenar algumas noites e eventos especiais, também foi essencial para que o festival contasse anualmente com muitos nomes de ponta da música negra norte-americana e do jazz.

                              Herbie Hancock, Quincy Jones e Nobs - Photo by  Daniel Balmat - MJFF
Ex-chef de cozinha

Antes de criar e assumir a direção do Montreux Jazz, Nobs chegou a trabalhar como chef de cozinha. Em 1990, quando fiz a cobertura desse festival pela primeira vez, para a “Folha de S. Paulo”, perguntei a ele qual era sua receita para o evento.

“O que eu aprendi em todo esse tempo é que você nunca deve ter receio de mostrar boa música a um público, mesmo que ele não a conheça. Você pode contar com a qualidade da apresentação, com a emoção, com a musicalidade e com a atmosfera do show”, explicou.

Para veículos de imprensa de diversos países, que anualmente cobriam o evento, Nobs proporcionava experiências raras. Durante o evento, convidava alguns dos jornalistas para descontraídos almoços que promovia em seu chalé, nas montanhas de Caux, com a presença dos principais artistas do festival.

Foi em eventos como esses, nos anos 1990, que tive a oportunidade de entrevistar Quincy Jones, George Benson e a cantora Nina Simone, além de ter a chance de assistir a trechos de fantásticos concertos do festival, nas décadas de 70 e 80, que Nobs exibia com orgulho, para saciar um pouco da curiosidade dos convidados ao conhecerem seu arquivo.

As reações dos apreciadores mais puristas, que criticavam Nobs por incluir outros gêneros musicais na programação do festival, o levaram diversas vezes a pensar na possibilidade de abandonar o rótulo jazz. Em 1976, o evento chegou a assumir o nome Festival Internacional de Montreux, mas o diretor logo se arrependeu e resgatou a grife original.

“Para mim jazz é improvisação e liberdade. A batida que suinga pode ser rápida ou lenta, dançante ou romântica, saltitante ou suave. Pode expressar todos os sentimentos sem qualquer limitação”, sintetizou Nobbs, quando perguntei a ele sua definição pessoal para essa música.

Parceria São Paulo-Montreux

Em 1978, Nobs foi convidado a se tornar consultor do 1º Festival Internacional de Jazz de São Paulo, que trouxe ao Brasil, em setembro daquele ano, dezenas de astros do jazz e da música negra, de Dizzy Gillespie e Chick Corea a Al Jarreau e Etta James, abrindo espaço também para que uma nova geração de instrumentistas brasileiros se estabelecesse.

A parceria entre esse pioneiro festival paulista e o Montreux Jazz prosseguiu em 1980, com a segunda edição do evento. O elenco mais diversificado ainda, com Dexter Gordon, Betty Carter, B.B. King, Peter Tosh, Champion Jack Duprée, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, entre outros, confirmou o sucesso da eclética receita sonora de Nobs.

Já na década de 2000, o Montreux Jazz perdeu parte de sua relevância artística, atingido também pela crise econômica que abateu a indústria fonográfica. Shows como os de Lana Del Rey, Vanessa Paradis ou É o Tchan, entre outros, mostraram que o evento passou a apostar em modismos, premido pela necessidade de conquistar novas plateias.

Ainda é cedo para saber se o Montreux Jazz Festival conseguirá manter seu prestígio sem o carisma de seu criador. Mas o legado de Claude Nobs, felizmente, está registrado em milhares de horas de filmagens e gravações que permitirão às gerações futuras de fãs desfrutar de seu declarado amor pela música.

(texto publicado parcialmente na edição de hoje da “Folha de S. Paulo”)


Lincoln Olivetti: arranjador de sucessos da MPB volta com músicos da nova geração

|

                                                          Lincoln Olivetti, com Donatinho (ao fundo), no 4º CopaFest

Muitos não o reconhecem, mas na certa já ouviram seus arranjos para trilhas sonoras de novelas de grande sucesso na TV, como “Baila Comigo” (1981) e “Dancin’ Days” (1978), ou para gravações de astros de diversas vertentes da música brasileira. Hoje Lincoln Olivetti traz no rosto as marcas dos altos e baixos da fama. A barba e os cabelos totalmente brancos soam incompatíveis com seus 57 anos de idade.

A imagem de excêntrico e recluso, que já vem da década de 1980, não é gratuita. Seu estúdio de gravação, na casa onde vive, no alto de um morro na estrada do Joá, no Rio de Janeiro, é sombrio como uma caverna. Olivetti falou à Folha, na noite da última quinta-feira, minutos depois de acordar, porque costuma trabalhar só depois que o sol se põe. “Gosto de ficar em casa, trabalhando, produzindo. Nunca dei valor a festas ou eventos, não sinto falta alguma disso”, afirma.

Acusado de ter “pasteurizado” a MPB com arranjos que criou durante a década de 1980, para sucessos de Gal Costa, Tim Maia, Jorge Ben, Emilio Santiago, Maria Bethânia, Marina Lima e Rita Lee, entre muitos outros intérpretes, Olivetti diz que não tinha tempo para se preocupar com essas críticas. “O fato de eu não dar entrevistas, como se esnobasse a imprensa, criou essa antipatia, mas eu não ligava para isso. Na verdade, liguei o foda-se. Tinha trabalho demais para fazer”. 

Não ter o hábito de ler jornais, segundo ele, também contribuiu para que as críticas não o incomodassem tanto. “No começo, até gostei. Achei que aquelas críticas funcionaram de maneira positiva, porque passaram a falar mais de mim. Não esquento com o passado”, diz o tecladista e compositor fluminense, nascido em Nilópolis, que acaba de retornar aos palcos, acompanhado por músicos da nova geração, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista e produtor Kassin. Seu show foi uma das atrações da quarta edição do CopaFest, onde reviveu os bailes de subúrbio que começou a fazer ainda na adolescência.  (veja os videos abaixo)

Hoje, afinal, ele se defende. “Me acusaram de pasteurizar a música brasileira, mas eu fazia exatamente o contrário disso. Para mim, cada arranjo tem que ser diferente do outro. Quando o (produtor Marco) Mazzola me pediu um arranjo para a Elba Ramalho, na mesma linha de ‘Festa no Interior’ (grande sucesso de Gal Costa, em 1981), fiz o arranjo de ‘Banho de Cheiro’, que é totalmente diferente. Sempre busquei derrubar as expectativas dos produtores, mas são eles que dão a forma final a uma gravação”.

Olivetti rebate também a repetida versão de que, nos anos 1990, após o bombardeio crítico que sofreu durante a década anterior, teria sido praticamente alijado da indústria do disco, até retornar à cena por meio de colaborações para discos de Ed Motta e Lulu Santos. “Esse papo de ostracismo não existe. Nunca deixei de trabalhar. Mesmo quando as gravadoras diminuíram suas produções, continuei fazendo muitos trabalhos independentes”, afirma.

                                                                         Lincoln Olivetti, em seu estúdio, no Rio

Ao pedido de que enumere um “top 5” de seus trabalhos favoritos, ele chega a mencionar os arranjos que escreveu para o álbum “Realce” (1979), de Gilberto Gil, e “Fantasia” (1981), de Gal Costa, assim como a canção “Amor Perfeito” (da qual é co-autor com Michael Sullivan, Paulo Massadas e Robson Jorge), gravada por Roberto Carlos, mas desiste de completar a lista. “É difícil escolher um top five, porque o prazer que eu tenho ao ver o resultado final de um arranjo é quase sempre igual. Para mim, um arranjo é tão importante quanto o outro”, justifica.

Pela mesma razão, Olivetti diz também que jamais recusa uma encomenda de arranjo, mesmo que não se identifique com o estilo musical do intérprete. “Se você é profissional tem que saber fazer qualquer música soar bem. Para mim, ao fazer um arranjo, um artista que está começando hoje é tão importante quanto o Roberto Carlos. Nessa hora, não tem ídolo. E quanto menos pronta a música chega pra mim, maior é o desafio de conseguir que ela soe bem”.

Esse não foi o caso do arranjo de “Festa no Interior”, um de seus trabalhos mais populares entre o grande público, na década de 1980. “O Moraes (Moreira) já me entregou essa música com aquela frase, bem mastigada, que usei logo no início do arranjo. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que aquela frase é dele”, reconhece Olivetti, revelando humildade ao creditar ao compositor parte da eficácia de seu inventivo arranjo, que remete ao fraseado das bandinhas interioranas de coreto.

Trinta anos após ter lançado seu cultuado álbum com o guitarrista Robson Jorge (1954-1993), que reuniu hits televisivos da dupla, como “Prêt-à-Porter”, “Squash” e “Eva”, Olivetti ainda demonstra emoção ao falar sobre o ex-parceiro. “O Robson abriu minha cabeça para muitas coisas, e eu abri a dele. Nossa sintonia era total. No início, ele não lia música, mas acabou até escrevendo. Era muito bom trabalhar com ele”.

Admite que já pensou na possibilidade de reunir sua dispersa obra musical numa caixa de CDs ou algo semelhante, mas acabou desistindo de utilizar esse formato, num projeto pessoal que pretende lançar em breve. “Posso até incluir novos arranjos para algumas músicas que deram certo, mas quero mostrar composições inéditas, principalmente. Eu penso mais no futuro”, diz, indeciso quanto à mídia que usará. “Não sei ainda. Talvez eu só lance essas faixas pela internet”.

Sobre sua produção mais recente, Olivetti menciona o arranjo que fez para a cantora Ana Carolina (“Problemas”), veiculada na trilha sonora da novela “Fina Estampa”, ou as vinhetas musicais que criou para a entrega do Prêmio Multishow. “Tenho feito arranjos para vários artistas, mas ainda é cedo para falar sobre esses trabalhos”, esquiva-se. Já o orgulho por trabalhar há alguns anos com Alê Siqueira e Kassin, talentosos produtores da nova geração, ele não esconde. “Eu me sinto muito bem ao lado deles, porque eles são futuristas como eu”.
(entrevista parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/11)






Enhanced by Zemanta

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB