Delia Fischer: pianista e cantora revisita fase MPB de Egberto Gismonti
Marcadores: canção, delia fisher, Egberto Gismonti, eugenio dale, MPB, música instrumental | author: Carlos CaladoReferência para várias gerações de instrumentistas brasileiros desde a década de 1970, Egberto Gismonti recebe mais uma homenagem. Em “Saudações Egberto” (distribuído pelo Núcleo Contemporâneo), a pianista e cantora carioca Delia Fischer interpreta com criatividade 13 canções e temas do compositor e multi-instrumentista fluminense.
“A escolha do repertório se deu afetivamente”, assume Delia, num texto do encarte. Canções dos primeiros álbuns de Gismonti, como “O Sonho”, “Pr’um Samba” e “Água e Vinho”, características da época em que ele flertava com a MPB, ressurgem com novos timbres e os vocais corretos da pianista. Até o tema instrumental “Lôro”, um dos mais populares do autor, ganhou versos assinados por Eugenio Dale.
Já ao recriar a lírica “Palhaço”, a pianista vai mais fundo, ressaltando no arranjo com cordas e sopros a essência circense do tema. Outro arranjo inventivo é o de “Frevo”, com percussão bem pernambucana e timbres de cordas. Delia reverencia o mestre, sem deixar de imprimir sua personalidade nessas releituras.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", edição de 28/7/2012)
André Mehmari: pianista e compositor fala sobre 'Canteiro', seu álbum de canções
Marcadores: andré mehmari, canção, Chico Pinheiro, Egberto Gismonti, hermeto pascoal, instrumental, jazz, monica salmaso, ná ozzetti, sergio santos | author: Carlos CaladoEm “Canteiro”, décimo álbum de sua carreira e o primeiro dedicado exclusivamente a canções de sua autoria, você tem 11 letristas como parceiros. Como nasceram essas canções? Em geral, você compõe primeiro a melodia e a envia para o letrista?
André Mehmari - De modo geral a música vem antes, mas há o caso dos poemas de Bernardo Maranhão, que me deu de presente seu livro de poemas "Rejunte" e carta branca para musicar quaisquer deles. As canções foram criadas sempre no piano ou no violão. Este, como se sabe, é instrumento-símbolo da canção. Eu me aproximei dele para me aprofundar ainda mais nesta tradição que tanto adoro e respeito. O piano é o meu instrumento principal. Justamente por isso às vezes é um problema ter tal domínio instrumental. Ele se impõe à natureza da canção, que busca outro tipo de síntese expressiva, de simplicidade direta, que não passa pelo idioma, este complexo gestual inerente a cada instrumento.
Você só compõe por inspiração? Ou é do tipo que trabalha bastante, que transpira para compor?
Mehmari - Eu trabalho bastante e sou muito prolífico. O trabalho me inspira e nutre, assim como o insondável e etéreo. Não acredito muito na imagem romântica da inspiração que vem de cima, de improviso, e chega passivamente. A inspiração existe, sim, e é um estado alterado de consciência, o qual se atinge através de muita procura e esforço. Portanto é um lugar muito bonito aonde se chega por meio de uma caminhada (transpiração) que pode ser inclusive plena de acidentes e erros... Não uma pomba misteriosa que desce dos céus com uma mensagem secreta e insondável destinada ao compositor sortudo que, por acaso, estava sentado no instrumento naquele momento (risos).
Seu processo criativo é o mesmo ao compor uma canção ou, por exemplo, uma extensa peça sinfônica?
Mehmari - São processos diferentes, pois essas criações têm naturezas diferentes. No caso de uma obra sinfônica de fôlego, há de sem pensar numa estrutura coerente e forte que sustente essa obra, além dos detalhes de cada compasso, cada movimento. A canção se aproxima muito mais do gênero conto, ao passo que a grande forma se assemelha mais ao romance.
Você é influenciado por outras artes ou linguagens? Pela literatura?
Mehmari - Leio muito e sempre sinto que gostaria de ter mais tempo para ler mais, pelo menos os clássicos. Adoro Calvino, Dino Buzzatti, Saramago, Guimarães Rosa, Rilke, Fernando Pessoa, Machado, Dostoivski... Também mantenho ativo o hobby da fotografia e este aspecto do imagético vira e mexe aparece bem evidente na minha produção. Até, eventualmente, na capa de um CD.
Até alguns anos atrás, era muito comum instrumentistas chamarem os cantores, pejorativamente, de “canários”. Esse preconceito tem diminuído no meio musical? A música instrumental tem se aproximado mais da canção?
Mehmari - Nunca compartilhei de tal 'poética' rústica. No meu cancioneiro, e nos de compositores que admiro, o instrumental abraça a canção de maneira harmoniosa. Tem sido assim em toda minha obra. Sempre tive grandes e importantes parceiros que têm a voz como instrumento, e são excelentes músicos. Muito melhores inclusive que esses que menosprezam a nobre função de dar vida a uma letra, a uma canção! Monica Salmaso e Ná Ozzetti são exemplos de cantoras geniais, inspiradas e inteligentes, que sabem muito bem o que querem da música e dos músicos com quem trabalham. Acho que há um certo machismo embutido nessa ofensa, sabendo-se da maioria feminina no canto brasileiro. Obviamente, esse tipo de atitude terá cada vez menos espaço em nossa sociedade, já que qualquer deslize é imediatamente reportado e espalhado pelas redes sociais.
Você já gravou vários estilos de valsa, recriou ao piano sucessos dos Beatles e dos mineiros do Clube da Esquina, fez com Hamilton de Holanda um tributo a Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, compôs peças eruditas para orquestra ou grupos de câmera. Que outro gênero ou que formato instrumental gostaria de experimentar em seus próximos discos?
Mehmari - Quero muito registrar minha obra orquestral e de câmara, que é muito extensa. Tenho também um projeto, Música Antiga Música Nova, que idealizei e já estreei no palco, que faz uma ponte entre música barroca e a canção brasileira moderna, sem nenhuma pretensão musicológica, claro. Ele deve ganhar espaço na minha discografia neste ou no próximo ano.
Em que fase está o disco com Chico Pinheiro e Sérgio Santos? Pode adiantar algum detalhe desse projeto?
Mehmari - O projeto está já em fase final de capa e masterização. Estamos felizes demais com essa tríplice parceria, que se mostrou muito frutífera e fluente. O aspecto que o torna bastante singular é o fato de termos composto juntos várias das 13 músicas do CD. A primeira faixa, por exemplo, é um choro canção, cuja primeira parte é minha, a segunda do Chico e a letra do Sérgio. Esse disco se chama “Triz” e será lançado ainda no segundo semestre. Já estamos fazendo planos para circular com esse trio.
(entrevista publicada parcialmente no “Guia Folha - Livros, Discos, Filmes”, em 28/4/2012)
Curupira: recriando clássicos da canção brasileira
Marcadores: canção, curupira, música instrumental | author: Carlos CaladoCom 13 anos de estrada, o trio Curupira é uma referência entre a nova geração da música instrumental brasileira. Formado por André Marques (piano e arranjos), Cleber Almeida (bateria e cavaquinho) e Fabio Gouvêa (baixo e guitarra), em meio a muitas composições próprias, esse grupo paulista já tinha em seu repertório uma saborosa versão instrumental de “Tristeza do Jeca” (Angelino de Oliveira).
Agora dedica grande parte de “Pés no Brasil, Cabeça no Mundo” (selo independente), seu terceiro álbum, a inventivas releituras de outros clássicos da canção brasileira, como “Assum Preto” (Luiz Gonzaga), “As Rosas Não Falam” (Cartola) e “Samba de Uma Nota Só” (Tom Jobim), além da etérea “Certeza”, de Hermeto Pascoal, mentor do trio. Um álbum que pode funcionar muito bem como um canal de acesso para aqueles que ainda encaram a música instrumental com certa resistência. Quem experimentar, dificilmente vai se arrepender.
(resenha parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 10/06/2009)
Guinga e Paulo Sérgio Santos: um duo que explora a beleza da simplicidade
Marcadores: canção, guinga, marcha rancho, música brasileira, música instrumental, paulo sérgio santos | author: Carlos Calado
No CD e no DVD “Saudade do Cordão” (selo Biscoito Fino), o compositor e violonista Guinga relê algumas de suas obras ao lado do clarinetista Paulo Sérgio Santos, seu antigo parceiro, num duo instrumental que combina emoção e simplicidade. Os dois contam como nasceu esse duo e comentam aspectos dessas novas gravações.
Vocês tocam juntos há 16 anos. Por que demoraram tanto a gravar em duo?
Guinga - Tenho tanto respeito pelo Paulo Sérgio, assim como ele tem por mim, que, mesmo querendo muito fazer um disco junto, existia um pouco de medo. Do jeito que somos perfeccionistas, achávamos que teria de ser uma coisa meio sinfônica, super elaborada. Com o passar dos anos acabei gravando o “Graffiando Vento”, com o clarinetista Gabrielle Mirabassi, na Itália. Aí o Paulo comentou que se sentiu como um cara que traiu a si próprio, por não ter feito este disco antes. Paulo Sérgio adora o Gabrielle, os dois até tocam juntos na Europa, mas o Paulo conhece minha obra mais profundamente.
O que vocês pretendiam quando entraram no estúdio para gravar esse disco?
Paulo Sérgio Santos - A intenção foi mostrar a música do Guinga de uma forma camerística, acústica, sem efeitos pirotécnicos. Poderíamos ter sobreposto vozes ou ter usado outros recursos de estúdio, mas isso não refletiria a realidade do que fizemos juntos ao longo de todos estes anos. Minha proposta é ser um mero intérprete de um compositor que representa o que a música popular brasileira tem de melhor.
Como nasceu esse duo?
Guinga - Vi o Paulo Sérgio tocar com o Raphael Rabello, pela primeira vez, 17 anos atrás. Juntos, eles eram uma coisa de enlouquecer. Tocar com o Paulo virou um dos sonhos da minha vida. Eu só pensava em ouvi-lo tocar meu repertório. Acabamos ficando amigos e passamos a tocar juntos. Acho que esse disco saiu no momento certo. É um duo de clarinete e violão, sem pretensão. Foi gravado quase ao vivo, com pouquíssimas emendas. Eu até preferi assumir alguns errinhos ao violão, porque ficou mais humano, como se a gente estivesse tocando numa roda de choro ou em nossas casas.
Há duas composições inéditas nesse trabalho. “Saudade do Cordão”, que dá nome ao disco, soa como uma inusitada marcha-rancho...
Guinga - Sim, ela é uma marcha-rancho, é carnavalesca, mas no fundo eu a sinto mais como um choro-rancho. Pensei no bloco que o Villa-Lobos batizou de Sôdade do Cordão, mas fiz “Saudade do Cordão” com um sentido mais amplo, porque hoje quase já não se fazem mais marchas-ranchos. Sem nenhum cabotinismo, posso dizer que ela é uma composição que transgride a harmonia tradicional da marcha-rancho. Tem uns intervalos melódicos que provocam estranhamento, mas sempre procurando a beleza. Gostei muito de gravá-la, porque eu não fazia uma marcha-rancho há 30 anos.
João Donato diz que sua carreira só decolou de vez quando começou a entregar suas composições instrumentais para diversos letristas. Isso também aconteceu com você?
Guinga - Juro que eu não me sinto um instrumentista. O violão passou a fazer parte da minha intimidade, é uma extensão do meu braço, mas eu sou um compositor de canção. A melodia me domina, sou um escravo da melodia. Mal comparando, você pode tocar instrumentalmente uma canção do Cole Porter que ela fica bonita. O mesmo acontece com as canções do Tom Jobim ou do Edu Lobo. Não vejo diferença alguma entre ouvir minha música cantada ou tocada pelo Paulo Sérgio. Até porque o clarinete, para mim, é o instrumento que mais se aproxima da voz humana.
Como a música instrumental é recebida hoje no mercado? Vocês ainda enfrentam ignorância e preconceito?
Santos - Eu penso que hoje existe uma indústria projetada para suprir a necessidade das pessoas em relação ao entretenimento. Aí um diretor de cinema tem que fazer um filme que renda um mínimo de bilheteria ou não fará seu segundo filme. Hoje quase tudo é ditado pela moda. Sou um cara que nada na contramão, assim como o Guinga. Não faço música regida pelas leis do mercado. Faço a mesma coisa há 45 anos: tento passar emoção através do som de meu instrumento. E para minha satisfação, viajando por aí, percebo que muita gente gosta do que fazemos.
(entrevista publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 29/05/2009)
Wagner Tiso: samba e jazz com tratamento erudito
Marcadores: canção, jazz, samba, standard, wagner tiso | author: Carlos Calado
Não espere ouvir pagodes cheios de malandragem, nem longos improvisos jazzísticos em ritmos frenéticos. Ao render tributo às influências que recebeu do samba e do jazz, Wagner Tiso, 63, segue a personalíssima estética que identifica sua obra musical há décadas.
Vestidos com orquestrações que destacam naipes de cordas e sopros, sambas como “Inquietação” (Ary Barroso), “Folhas Secas” (Nelson Cavaquinho) e “Samba de Um Grande Amor” (Chico Buarque) soam mais sofisticados, clássicos. Standards da canção norte-americana e do jazz, como “April in Paris” (Duke e Harburd), “Naima” (John Coltrane) e “Solar” (Miles Davis) recebem um tratamento harmônico e timbrístico que os aproxima da tradição erudita.
O fato de improvisos instrumentais serem pouco freqüentes na linguagem do samba, assim como arranjos para cordas serem incomuns no jazz moderno, não impede Tiso de quebrar essas convenções, sempre com equilíbrio e bom gosto. Samba e jazz com a assinatura pessoal de um dos grandes músicos brasileiros.
(resenha publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos & Filmes”, em 24/04/2009)

