Mostrando postagens com marcador blue note. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador blue note. Mostrar todas as postagens

Wayne Shorter: saxofonista comanda quarteto de jazz com grandes improvisadores

|

Em entrevistas, nos últimos anos, o saxofonista norte-americano Wayne Shorter tem comparado sua relação com a música a saltar de um precipício sem rede de proteção – imagem literalmente transportada para a capa de “Without a Net” (lançamento da Blue Note/EMI), seu álbum mais recente.

Autor de alguns dos temas mais originais do jazz moderno, como “Footprints” ou “Nefertiti”, hoje ele se interessa mais pelo improviso em si do que pela composição. “Orbits”, a faixa de abertura, é exemplar dessa fase. Ao lado de Danilo Perez (piano), John Patitucci (baixo acústico) e Brian Blade (bateria), improvisadores de alto nível que o acompanham há anos, Shorter só precisa de um tema curto e intrigante, daqueles que grudam no ouvido, para orientar o inventivo bate-rebate do quarteto. Emoções e surpresas não faltarão a quem se dispuser a seguir os desafios desse jogo radical.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 31/8/2013)

Jose James: cantor norte-americano mistura jazz, soul e hip hop, em São Paulo

|

                             Jose James, no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, em 2011/Photo by Carlos Calado


No universo do jazz, assim como na música popular brasileira, as mulheres são maioria entre os vocalistas. Essa hegemonia explica em parte o “frisson” que o norte-americano Jose James, 33, tem provocado nos festivais e clubes de jazz por onde passa, mas o que conta mesmo é seu original timbre de barítono e o repertório diversificado, que combina jazz, soul e hip hop.

Depois de se destacar como revelação do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (RJ), em 2011, James retorna agora ao Brasil para uma turnê que inclui outros festivais desse gênero, em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte. Também se apresenta hoje, no Bourbon Street, em São Paulo.

Contratado pela influente gravadora norte-americana Blue Note, James gravou há pouco seu quarto álbum, “No Beginning, No End”, que tem lançamento previsto para janeiro de 2013. Algumas faixas desse trabalho já têm aparecido em seus shows mais recentes.

“Mesmo que esse álbum misture jazz, soul e R&B, eu acho que ele é o trabalho mais coeso da minha carreira”, diz à "Folha" o cantor e compositor. “É um álbum que preparei durante dois anos e que eu sei que será definitivo para mim”.

Embora seu CD “For All We Know” (2010), calcado em “standards” do jazz, tenha conquistado elogios na imprensa especializada, James rejeita a possibilidade de ficar restrito a um único gênero musical.

“Não quero mais ser tratado como um cantor de jazz. Perceber que o jazz é apenas um rótulo foi algo libertador para mim. Quero que minha música não fique confinada a fronteira alguma”, afirma o intérprete e compositor.

Se, em “For All We Know”, James interpretou clássicos do jazz imortalizados por ídolos do gênero, como Billie Holiday, Dinah Washington e Johnny Hartman, em “No Beginning, No End”, ele revela sua afinidade com o R&B e o soul de astros das décadas de 1960 e 1970, como Marvin Gaye, Donny Hathaway e Roberta Flack.

No palco, James age e se veste quase como um rapper. Mistura, no repertório de seus shows, eletrônica e improvisos vocais na linha do hip hop, com releituras de pérolas do jazz moderno, como “Moanin” (do pianista Bobby Timmons) e uma versão letrada de “Equinox” (do saxofonista John Coltrane).

Por essas e outras, a tradicional revista californiana “Jazz Times” já se referiu a ele, enfaticamente, como “o salvador do jazz”. Na verdade, uma bobagem com aparência de elogio, pois James jamais pretendeu “salvar” o jazz, gênero musical que há mais de um século vem absorvendo elementos de diversos gêneros e estilos da música negra sem se descaracterizar.

Como outros músicos e fãs de sua geração, diretamente influenciada pelo hip hop, James veio a se envolver com o jazz depois de ouvir gravações do rapper Guru e das bandas Digable Planets e A Tribe Called Quest, que fundiram elementos do rap e do jazz, no final dos anos 1980.

“Se aqueles caras estavam dizendo que o jazz era uma música legal, pensei que devia conhece-la mais a fundo. Então fui atrás e percebi que o jazz tem uma história tão rica e imensa sobre a qual pouco se fala por aí. Não é à toa que alguns de seus apreciadores acabam se tornando fanáticos”, observa o cantor e compositor.

(texto publicado originalmente na "Folha de S. Paulo", em 5/09/2012)





Avishai Cohen: hibridismos musicais no CD de um expoente do jazz globalizado

|

Foi-se o tempo em que o jazz era um gênero musical essencialmente norte-americano. Hoje, o processo de globalização dessa vertente artística pode ser verificado em qualquer canto do mundo, em diversos países.

Um dos expoentes internacionais dessa música improvisada a partir de ritmos e gêneros locais é o contrabaixista, compositor e arranjador israelense Avishai Cohen. Em “Seven Seas” (Blue Note/EMI), ele amplia mais ainda o hibridismo que já caracterizava seus álbuns anteriores, misturando melodias folclóricas de origem judaica, vocais em iídiche, referências da música clássica européia e percussão de ascendência mediterrânea e afro-cubana.

Belas composições de Cohen, como a lírica “Halah” ou a encantatória “Ani Aff”, comprovam que, na última década, o formato da canção voltou a se consolidar como veículo para os jazzistas que buscam um vínculo mais efetivo com o público, sem precisar abrir mão da improvisação. 


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em24/6/2011)


Avishai Cohen: baixista israelense mostra seu jazz, em concerto beneficente, em São Paulo

|

O contrabaixista e compositor israelense Avishai Cohen (não confundir com o homônimo trompetista nova-iorquino, que já tocou no Brasil) vai se apresentar na capital paulista, dia 1º de junho, na Sala São Paulo. A venda dos ingressos desse concerto será revertida à TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Talentoso músico de jazz, revelado em meados da década de 1990, na banda do pianista Chick Corea, Cohen já tocou com Herbie Hancock, Roy Hargrove e Paquito D’Rivera, entre outros astros do gênero. “Seven Seas” (Blue Note, 2010), seu álbum mais recente, que deve nortear o repertório do concerto, combina canções com letras em hebraico e belos temas instrumentais.


Wynton Marsalis e Willie Nelson: dupla inusitada se diverte tocando blues

|

Até fãs do trompetista Wynton Marsalis, 47, ou do cantor Willie Nelson, 75, torceram seus narizes, no ano passado, ao saber do lançamento do disco que os dois gravaram juntos. À primeira vista, a inusitada parceria do erudito embaixador do jazz com o veterano medalhão da música country soava como outro daqueles projetos caça-níqueis que volta e meia surgem no mercado musical.

Mas o CD “Two Men With the Blues” (Blue Note/EMI, 2008) provou que não se tratava de armação. O projeto de gravação nasceu após um encontro casual do jazzista com o cantor, em 2003, num show que reuniu diversos astros no lendário Apollo Theatre, em Nova York. Os dois aguardaram as condições ideais para o reencontro, que só se concretizou em janeiro de 2007, na mesma cidade.

Das gravações, realizadas em dois concertos, na sala Frederick P. Rose do imponente Lincoln Center, resultaram as 11 faixas incluídas no álbum, assim como o material que deu origem ao DVD “Live From New York City” (Eagle Vision/ST2), que acaba de ser lançado no mercado brasileiro.

Ao lado de um quinteto de músicos emprestados das bandas de ambos, Marsalis e Nelson deliciam-se interpretando clássicos blues (“Ain’t Nobody’s Business”, “Night Life”, “Rainy Day Blues”) e alguns standards da canção norte-americana, como “Stardust” e “Georgia on My Mind”. O que mais poderiam escolher para que ambos se sentissem em casa?

Além de captar a descontraída atmosfera desse encontro, o DVD inclui três faixas que não aparecem no CD: o gospel “Down By the Riverside” e as jazzísticas “Don’t Get Around Much Anymore” (Ellington e Russel) e “Sweet Georgia Brown” (Bernie e Pinkard). Traz também depoimentos de Marsalis e Nelson, que lembram como se conheceram e refletem sobre suas identidades musicais.

“Os rótulos foram inventados para vender a música. Você tinha que dar um nome a ela antes para poder vendê-la. Mas alguns gêneros musicais englobam tudo e é isso que eu gosto de tocar”, comenta Nelson, sugerindo que há mais afinidades entre o blues, o jazz e a country music do que muitos imaginam.

Reveladores também são os sorrisos que Marsalis troca com os músicos de sua banda, ao ouvir as notas insólitas extraídas por Nelson de seu maltratado violão, que parece recém-saído de uma briga de botequim. “Ele é completamente imprevisível nos improvisos”, comenta o jazzista, elogiando a originalidade do parceiro.

Pena que em vez de se concentrar mais na expressão dos músicos, o diretor Danny Clinch opte com freqüência por inserir imagens noturnas de Nova York, como num documentário turístico. A edição nervosa, que parece querer transformar o registro do concerto em um videoclipe, também incomoda, em alguns momentos. Ainda assim, a música descontraída de Marsalis e Nelson consegue escapar ilesa do exibicionismo do diretor.

(resenha publicada na “Folha de S. Paulo”, em 23/02/2009)

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB