O trompetista Wallace Roney e o baixista Curtis Lundy
Num ano tão difícil, em que vários eventos culturais têm sido cancelados por falta de patrocínio ou de apoios financeiros, o Bourbon Festival Paraty anuncia sua nona edição. De 9 a 11 de junho (sexta a domingo), a cidade histórica do litoral fluminense recebe conceituadas atrações internacionais, como o trompetista de jazz Wallace Roney, o bluesman Joe Louis Walker e o gaitista Grégoire Maret, além de atrações locais de boa qualidade. Toda a programação é gratuita.
A redução dos três palcos habituais para apenas um, na Praça da Matriz de Paraty, já indica que o evento foi obrigado a encolher. “Por não contarmos com os patrocinadores das últimas edições, tivemos que tomar uma difícil decisão: não realizar o festival ou realizá-lo menor, com menos artistas e palcos, mas mantendo a alta qualidade artística que é a marca registrada do festival”, explica Edgard Radesca, criador e produtor do evento.
Discípulo assumido de Miles Davis (1926-1991), com o qual chegou a se apresentar, o trompetista norte-americano Wallace Roney atualiza o hard bop que seu mentor desenvolveu nos anos 1950 e 1960. Seu quinteto atual inclui Benjamin Solomon (sax tenor), Oscar Williams (piano), Curtis Lundy (baixo acústico) e Eric Allen (bateria).
Astro em ascensão na área do blues, o guitarrista, cantor e compositor californiano Joe Louis Walker tem frequentado os principais festivais internacionais do gênero. A seu lado estarão Murali Illya Coryell (guitarra), John Bradford (baixo) e Anthony Cage (bateria).
Revelação da gaita de boca, também chamada de harmônica, o suíço Grégoire Maret (na foto ao lado) já acompanhou grandes astros do jazz, como Herbie Hancock, Cassandra Wilson, Pat Metheny e George Benson, entre outros. Em Paraty, ele dividirá o show com o talentoso baixista Thiago Espírito Santo, ao lado de outros dois craques da cena instrumental paulistana: Cuca Teixeira (bateria) e Bruno Cardozo (piano).
No elenco nacional, também se destacam o saxofonista carioca Leo Gandelman, o trio paulistano Hammond Grooves, o trio 3x1 (com o sanfoneiro Mestrinho, o baixista Pipoquinha e o baterista Alex Buck), o guitarrista Marcinho Eiras e a cantora Bell Brazil (com participação do cantor e violonista Filó Machado). Blueseiros como Jefferson Gonçalves, Vasco Faé e John Wesley farão aparições pelas ruas da cidade.
Os paulistanos podem curtir duas atrações do evento sem precisarem ir a Paraty. Wallace Roney toca dia 6/6 (terça) no Bourbon Street Music Club, onde Joe Louis Walker também vai se apresentar, na noite seguinte (quarta).
Mais informações: www.bourbonfestivalparaty.com.br
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Bourbon Festival Paraty: evento traz Wallace Roney, Joe Louis Walker e Grégoire Maret
Marcadores: Alex Buck, Bell Brazil, Bourbon Festival Paraty, Cuca Teixeira, filó machado, Grégoire Maret, hammond grooves, Joe Louis Walker, leo gandelman, Marcinho Eiras, Mestrinho, Thiago Espírito Santo, wallace roney | author: Carlos CaladoJazz na Fábrica: saxofonista Michael Blake traz diversidade ao festival do Sesc SP
Marcadores: ben allison, coleman hawkins, frank kimbrough, Jazz na Fábrica, Lester Young, michael blake, miles davis, wallace roney | author: Carlos Calado
O saxofonista canadense Michael Blake
Na década de 1920, quando fez as gravações que o consolidaram como o primeiro grande solista do jazz, o trompetista norte-americano Louis Armstrong (1901-1971) certamente não imaginou que essa música baseada na improvisação seria cultivada em todo o mundo. Hoje é praticamente uma linguagem universal.
A globalização e a diversidade dessa vertente musical têm norteado a curadoria do Jazz na Fábrica, um dos maiores festivais do gênero no país. Sua sexta edição vai ocupar três palcos no Sesc Pompeia, em São Paulo, do dia 11 a 28 deste mês. Os ingressos começaram a ser vendidos nesta quinta (dia 4), pelo site do Sesc SP, assim como nas unidades do Sesc.
Entre as 21 atrações há músicos, cantores e grupos instrumentais de diferentes países e etnias. Essa diversidade também se reflete na música: vários estilos jazzísticos, do cool ao free jazz, misturam-se com influências da black music, do rock, da música oriental ou da vanguarda europeia.
Quem abre a extensa programação é o trompetista norte-americano Wallace Roney, músico talentoso cuja trajetória tem sido marcada por uma constante polêmica. Alguns críticos jamais o perdoaram pela sonoridade muito semelhante à de Miles Davis (1926-1991), seu ídolo e mentor musical.
Já a obra do saxofonista e compositor canadense Michael Blake, que se apresenta nos dias 20 e 21, reflete como poucas a diversidade contemporânea do jazz. Desde a década de 1980, quando se radicou em Nova York, seus projetos têm revelado as mais variadas influências, do jazz de vanguarda à música oriental.
“Eu amo música de Nova Orleans, rhythm & blues e funk, gosto de cavar raízes e de world music”, diz Blake, 52, em entrevista à Folha. “Meu primeiro álbum já tinha a ver com uma viagem ao Vietnã e eu segui procurando inspiração em minhas experiências pessoais. Tento achar um equilíbrio entre o intelecto e a emoção”.
“Fulfillment”, seu álbum mais recente, destaca uma suíte de sua autoria que remete a um histórico caso de racismo no Canadá: em 1914, centenas de imigrantes indianos foram impedidos de entrar no país pelo porto de Vancouver.
“Eu me inspirei em eventos recentes na Europa e nos Estados Unidos, mas também tenho uma conexão ancestral com aquele incidente no Canadá, porque meu tio-avô foi o responsável pela recusa a receber os imigrantes. Senti que seria importante oferecer, por meio de minha música, um gesto de reparação”, explica o compositor.
Curiosamente, Blake só veio a lançar um disco de jazz sem misturas já em 2014. Nesse trabalho, ao lado de seus costumeiros parceiros Ben Allison (contrabaixo) e Frank Kimbrough (piano), ele rendeu homenagens a dois clássicos mestres do saxofone: Lester Young (1909-1959) e Coleman Hawkins (1904-1969).
“Meu 12º álbum, ‘Tiddy Boom’, foi o primeiro de jazz puro. Esperei 30 anos para fazer um disco como esse porque queria que ele fosse especial, algo atemporal”, justifica o saxofonista.
Blake já esteve duas vezes em São Paulo, na década passada. Em 2008, quando tocou com o quinteto de Ben Allison, numa noite da qual não se esquece, foi levado a um clube para ouvir samba e beber caipirinhas.
“Sou um dançarino terrível, mas uma bela garota me ensinou alguns passos. Aquela foi uma das noites mais prazerosas de minha vida”, relembra o músico, que diz já ter sido fanático pelas canções de Tom Jobim. Chegou até a formar uma banda para tocar bossa nova, em Nova York.
Em meio à conturbada eleição para a presidência dos Estados Unidos, como não perguntar a Blake se já pensou na possibilidade de voltar para o Canadá, caso o falastrão Donald Trump vença?
Ele ri e, dizendo estar otimista, conta que vai votar pela primeira vez na vida. “Nunca votei antes, nem mesmo antes de vir morar em Nova York. Lamentei não ter votado em Obama, mas não vou perder a chance de votar na primeira mulher presidente dos Estados Unidos”, conclui.
(Texto que escrevi para a "Folha de S. Paulo", publica parcialmente em 5/8/2016)
Na década de 1920, quando fez as gravações que o consolidaram como o primeiro grande solista do jazz, o trompetista norte-americano Louis Armstrong (1901-1971) certamente não imaginou que essa música baseada na improvisação seria cultivada em todo o mundo. Hoje é praticamente uma linguagem universal.
A globalização e a diversidade dessa vertente musical têm norteado a curadoria do Jazz na Fábrica, um dos maiores festivais do gênero no país. Sua sexta edição vai ocupar três palcos no Sesc Pompeia, em São Paulo, do dia 11 a 28 deste mês. Os ingressos começaram a ser vendidos nesta quinta (dia 4), pelo site do Sesc SP, assim como nas unidades do Sesc.
Entre as 21 atrações há músicos, cantores e grupos instrumentais de diferentes países e etnias. Essa diversidade também se reflete na música: vários estilos jazzísticos, do cool ao free jazz, misturam-se com influências da black music, do rock, da música oriental ou da vanguarda europeia.
Quem abre a extensa programação é o trompetista norte-americano Wallace Roney, músico talentoso cuja trajetória tem sido marcada por uma constante polêmica. Alguns críticos jamais o perdoaram pela sonoridade muito semelhante à de Miles Davis (1926-1991), seu ídolo e mentor musical.
Já a obra do saxofonista e compositor canadense Michael Blake, que se apresenta nos dias 20 e 21, reflete como poucas a diversidade contemporânea do jazz. Desde a década de 1980, quando se radicou em Nova York, seus projetos têm revelado as mais variadas influências, do jazz de vanguarda à música oriental.
“Eu amo música de Nova Orleans, rhythm & blues e funk, gosto de cavar raízes e de world music”, diz Blake, 52, em entrevista à Folha. “Meu primeiro álbum já tinha a ver com uma viagem ao Vietnã e eu segui procurando inspiração em minhas experiências pessoais. Tento achar um equilíbrio entre o intelecto e a emoção”.
“Fulfillment”, seu álbum mais recente, destaca uma suíte de sua autoria que remete a um histórico caso de racismo no Canadá: em 1914, centenas de imigrantes indianos foram impedidos de entrar no país pelo porto de Vancouver.
“Eu me inspirei em eventos recentes na Europa e nos Estados Unidos, mas também tenho uma conexão ancestral com aquele incidente no Canadá, porque meu tio-avô foi o responsável pela recusa a receber os imigrantes. Senti que seria importante oferecer, por meio de minha música, um gesto de reparação”, explica o compositor.
Curiosamente, Blake só veio a lançar um disco de jazz sem misturas já em 2014. Nesse trabalho, ao lado de seus costumeiros parceiros Ben Allison (contrabaixo) e Frank Kimbrough (piano), ele rendeu homenagens a dois clássicos mestres do saxofone: Lester Young (1909-1959) e Coleman Hawkins (1904-1969).
“Meu 12º álbum, ‘Tiddy Boom’, foi o primeiro de jazz puro. Esperei 30 anos para fazer um disco como esse porque queria que ele fosse especial, algo atemporal”, justifica o saxofonista.
Blake já esteve duas vezes em São Paulo, na década passada. Em 2008, quando tocou com o quinteto de Ben Allison, numa noite da qual não se esquece, foi levado a um clube para ouvir samba e beber caipirinhas.
“Sou um dançarino terrível, mas uma bela garota me ensinou alguns passos. Aquela foi uma das noites mais prazerosas de minha vida”, relembra o músico, que diz já ter sido fanático pelas canções de Tom Jobim. Chegou até a formar uma banda para tocar bossa nova, em Nova York.
Em meio à conturbada eleição para a presidência dos Estados Unidos, como não perguntar a Blake se já pensou na possibilidade de voltar para o Canadá, caso o falastrão Donald Trump vença?
Ele ri e, dizendo estar otimista, conta que vai votar pela primeira vez na vida. “Nunca votei antes, nem mesmo antes de vir morar em Nova York. Lamentei não ter votado em Obama, mas não vou perder a chance de votar na primeira mulher presidente dos Estados Unidos”, conclui.
(Texto que escrevi para a "Folha de S. Paulo", publica parcialmente em 5/8/2016)
Jazz na Fábrica: festival do Sesc SP traz atrações musicais de diversos continentes
Marcadores: donny mccaslin, ester rada, Jazz na Fábrica, lyna nyberg, matthew shipp, michael blake, nik bartsch, omer ovital, phronesis, robert glasper, rumpilezz, sesc sp, wallace roney | author: Carlos CaladoPara quem tinha receio de que a atual crise econômica também pudesse prejudicar a continuidade de um dos maiores festivais de jazz e música instrumental do país, aqui vai a boa notícia: o Jazz na Fábrica volta a tomar conta dos palcos do Sesc Pompeia, em São Paulo, de 11 a 28 de agosto.
O elenco da sexta edição desse festival mantém sua essência original. A curadoria, assinada pela equipe de programação do Sesc Pompeia, enfoca a diversidade do universo jazzístico por meio de vários de seus estilos, além de gêneros musicais com os quais o jazz tem se relacionado.
A noite de abertura, em 11/8, fica por conta do quinteto do trompetista norte-americano Wallace Roney. Discípulo assumido de Miles Davis (1926-1991), ele costuma emular a fase acústica do mestre, tanto no repertório, como na sonoridade “cool” de seu instrumento. Aliás, Miles faria 90 anos neste ano.
Outros músicos norte-americanos vão demonstrar a variedade da cena atual do jazz. Destaque da nova geração, o pianista Robert Glasper dialoga com o hip hop e a black music em suas composições de espírito contemporâneo. Em “Covered”, seu álbum mais recente, ele relê canções de John Legend, Kendrick Lamar e Joni Mitchell, com seu trio. A rapper paulista Tássia Reis e a banda Mental Abstrato também fazem parte do programa dessa noite.
Também pianista e compositor, Matthew Shipp é um expoente do jazz de vanguarda, que alguns preferem chamar de free jazz. Dono de um estilo percussivo ao piano, que já foi comparado ao do mestre Cecyl Taylor, Shipp já tocou em São Paulo, em 2010, em duo com o saxofonista brasileiro Ivo Perelman.
Bem conhecido nos círculos jazzísticos de Nova York, o versátil saxofonista Donny McCaslin fez parte da banda “fusion” Steps Ahead. Depois tocou com as orquestras de Gil Evans e Maria Schneider e, mais tarde, fez parte do quinteto do trompetista Dave Douglas, entre outras parcerias. Recentemente, conquistou a atenção de novos fãs ao participar do último álbum do popstar David Bowie, morto em janeiro.
A exemplo das edições anteriores, o festival também trará instrumentistas de diversos continentes, que sinalizam a globalização do jazz. É o caso do contrabaixista israelense Omer Avital, cujas composições combinam influências de tradições musicais do Oriente Médio com a linguagem do jazz moderno.
Como Avital, o saxofonista canadense Michael Blake também se radicou em Nova York, onde já tocou com conceituados jazzistas de diversos estilos. Em “Fulfillment”, seu álbum recém lançado, ele se refere a um episódio polêmico na história de seu país, cujo governo rejeitou centenas de imigrantes indianos, um século atrás.
Formado em 2005 pelo contrabaixista dinamarquês Jasper Hoiby (na foto ao lado), o cultuado trio Phronesis inclui também o pianista britânico Ivo Neame e o baterista norueguês Anton Eger. Nessa mesma noite, o guitarrista dinamarquês Jakob Bro vai homenagear Tom Jobim (1927-1994), em duo com seu neto, o pianista Daniel Jobim.
Radicado em Paris, o tecladista, cantor e arranjador malinês Cheick Tidiane Seck tem em seu currículo parcerias com figurões do cenário musical africano, como Salif Keita, Fela Kuti e Youssou N’Dour, assim como trabalhou com jazzistas, como o pianista Hank Jones e a cantora Dee Dee Bridgewater.
Da Argentina vem o Pájaro de Fuego, quinteto que funde o jazz com elementos da música eletrônica e do rock instrumental. Seu baterista, Daniel “Pipi” Piazzolla, é neto do grande compositor portenho, o criador do “novo tango”.
Já o pianista e percussionista suíço Nik Bärtsch virá com seu quarteto Ronin, cujo estilo ele mesmo define como “zen-funk”. Com seu piano preparado, ele toca composições próprias que misturam polirritmias com elementos do jazz, do funk e rock.
Há também duas cantoras no elenco internacional. A sueca Lina Nyberg tem um repertório bem eclético, que inclui clássicos da canção norte-americana, jazz de vanguarda europeu e música brasileira. No álbum “Brasil Big Bom” (2007), gravou versões de canções de Caetano Veloso, Edu Lobo, Tom Jobim e Ivan Lins.
De origem israelita e nascida na Etiópia, Ester Rada (na foto ao lado) mistura jazz etíope com soul music, funk e R&B. No seu repertório recente, chamam atenção releituras de clássicos da cantora norte-americana Nina Simone, uma de suas assumidas influências musicais.
Mais sete atrações nacionais completam a programação: os ritmos afro-baianos da big band Rumpilezz, o jazz cigano da dupla Tigres Tristes, os blues e as canções folk do Lonesome Duo, o afrobeat da banda Kubata, o soul-funk do sexteto Wis, as releituras de clássicos do rock pela Cadillacs Jazz Band e o som instrumental da Zarabanda Jazz.
Os ingressos para o 6º Jazz na Fábrica começam a ser vendidos no dia 4/8 (pela internet, a partir das 15h) e no dia 5/8 (nas unidades do Sesc). Os preços variam de R$ 12 a R$ 60, dependendo do show. Para algumas atrações nacionais, a entrada é franca.
Mais detalhes da programação, horários dos shows e venda de ingressos no site do Sesc SP.
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