Os músicos Roberto Fonseca e Andrés Coayo - Foto de Inez Medaglia
Ontem, no palco do clube Bourbon Street, em São Paulo, uma
bandeira cubana pendurada entre os instrumentos de percussão era um sinal evidente
de orgulho e resiliência. Só que em vez de denunciar as ameaças que seu país vem sofrendo,
o brilhante pianista Roberto Fonseca – admirado pelo público paulistano desde
2001, quando ainda acompanhava os veteranos astros do projeto Buena Vista
Social Club – preferiu convidar a plateia para cantar, descontraidamente, com
ele e o percussionista Andrés Coayo.
A uma semana do segundo turno de nossa eleição presidencial, fiquei pensando
se, caso os reacionários impostores vençam nas urnas, corremos o risco de ver em
breve artistas cubanos serem impedidos de se apresentar no Brasil. Mais triste
ainda é a possibilidade de o patético Tirano Laranja ser covarde o suficiente
para invadir a já combalida ilha de Cuba, que resiste ao desumano embargo
econômico mantido desde os anos 1960 por diversos governos estadunidenses. Vítima de constantes apagões de energia elétrica, atualmente os moradores da ilha enfrentam escassez de água e de gás de cozinha.
Quase 30 anos atrás, quando recebi um convite para ir a Cuba fazer uma longa
reportagem sobre a cena musical do país, fiquei muito comovido ao ver como os
músicos locais resistiam a tantas dificuldades econômicas. Bastava eu me
apresentar como jornalista do Brasil, para receber um largo sorriso e muitas
declarações de amor à música popular brasileira. Presenciei várias cenas de
cortar o coração. Então dói mais ainda imaginar o que a população cubanoa podemestar enfrentando
hoje.
Naquela época, o produtor e letrista Vitor Martins (parceiro de Ivan Lins em
vários clássicos da MPB) lançou no mercado brasileiro, por meio da gravadora Velas, dezenas e dezenas de discos de música cubana. O catálogo desse selo fonográfico ofereceu um rico panorama que abrangia desde gêneros tradicionais da música cubana, como o bolero
e o son, as modernas canções do movimento Nueva Trova até novidades do jazz
afro-cubano e da salsa. Que fique registrado: a Velas foi a única gravadora
brasileira que teve coragem de investir na divulgação música produzida em Cuba.
Voltando a Fonseca, mesmo que ele já tenha realizado diversas turnês pelo
Brasil, esta foi a primeira vez que apresentou aqui um repertório voltado
exclusivamente para solos e duos. Nos solos do show de ontem, ele exibiu sua sólida formação
pianística, baseada na música clássica e no jazz. Já nos duos, chamou atenção especial
o carisma do percussionista Andrés Coayo, cujo estilo histriônico lembra o do mestre Tito
Puente.
Mesmo ser fazer referências explícitas ao universo da política, Fonseca
mandou um recado sutil. Ao comentar que homenagearia dois grandes
pianistas que quase o fizeram desistir da carreira ao conhecê-los, o cubano mencionou dois canadenses: o jazzista Oscar Peterson e o erudito Glen Gould. Como
se dizia tempos atrás, respondeu os frequentes ataques estadunidenses ao seu país com um tapa na cara, mas usando luvas de pelica.
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