Mostrando postagens com marcador joão donato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador joão donato. Mostrar todas as postagens

Walmir Gil: a simplicidade de João Donato nas releituras do trompetista da Banda Mantiqueira

|

                                       Walmir Gil lança álbum dedicado ao compositor João Donato 

Trompetista, arranjador e educador musical, Walmir Gil já teria garantido um lugar especial na história da música popular brasileira por ser um dos fundadores da cultuada Banda Mantiqueira, com a qual se apresenta há mais de três décadas. Essa original big band de São Paulo, criada em 1991, é motivo de orgulho para os paulistas e fãs de outros estados do país que apreciam música instrumental de alto quilate e jazz com sotaque brasileiro.

A Mantiqueira é a cereja do bolo, na longa folha de serviços prestados por Gil à música brasileira e ao jazz, em suas cinco décadas de carreira. Nos anos 1980, ao integrar o naipe de metais da afiada big band do 150 Night Club do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, ele acompanhou astros do jazz, como Anita O’Day, Benny Carter, Bobby Short e Paquito D’Rivera, entre outros.

Na década de 1990, Gil fez parte da suingada banda que tocava com Djavan em suas turnês, assim como acompanhou nos palcos outros grandes intérpretes e compositores da música brasileira, como Caetano Veloso, Gal Costa, Rosa Passos, João Bosco, César Camargo Mariano, Fafá de Belém, Simone e Milton Nascimento. Já neste século, além de gravar dois discos como solista (“Passaporte” e “Novas Histórias”) e de defender seu mestrado em música pela Unicamp, ele ministrou dezenas de workshops e oficinas de trompete pelo país adentro.

A afinidade de Gil com a música de João Donato remonta à década de 1970, quando já tocava um arranjo de “Lugar Comum”, em bailes na cidade de Santos, no litoral paulista. “As músicas que você gosta de tocar sempre serão tocadas com o coração”, diz ele, explicando que teve a ideia de homenagear Donato, em um disco com arranjos instrumentais de suas composições, não só por admirá-lo como músico e compositor, mas também pelo prazer que sente ao tocar essas músicas.

“Fui convidado a tocar com ele algumas vezes, mas eu sempre estava viajando. Perdi a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente”, lamenta Gil, que diz apreciar a música de Donato, especialmente, por sua simplicidade. “Ele era um cara muito simples, que não usava uma harmonia complexa, mas conseguia transmitir o que queria. Sempre gostei muito dele”.

Elogiando também o suingue de Donato, ao comentar as afinidades que tem com seu homenageado, Gil menciona o princípio minimalista “menos é mais”, que já foi adotado na arquitetura, no design e em diversos campos artísticos. “É como a música do Miles Davis”, compara o músico paulista, referindo-se ao genial trompetista e compositor norte-americano, outra de suas referências musicais.


O álbum: simplicidade com temperos afro-latinos

Para as gravações do álbum, Gil convocou seu Quinteto Afro Latin Jazz, que destaca outros três craques da cena instrumental e jazzística de São Paulo: o tecladista Bruno Cardozo, o baterista Cuca Teixeira e o baixista Carlinhos Noronha, que já tocam com Gil há mais de vinte anos. Mais recente no grupo, a percussionista argentina Caro Cohen traz muita energia e intimidade com o rico universo dos ritmos afro-cubanos e da música latina.

“A ideia é temperar a música do Donato com ritmos afros e latinos”, diz ele, sintetizando o conceito do álbum. Um saboroso exemplo dessa receita sonora é o arranjo de “Emoriô”. Essa faixa é introduzida pela sonoridade grave e etérea do clarone do convidado Nailor Proveta, outro antigo parceiro de Gil e fundador da Banda Mantiqueira. Na sequência, a clave cubana e a percussão de Caro Cohen criam uma atmosfera de polifonia tribal, em ritmo de rumba.

A doce “Lugar Comum” começa com sons de água corrente, como se o quinteto estivesse na beira de um rio. Caro, a percussionista, puxa um hipnótico ritmo de guaguancó e, ao fundo, Gil sopra a conhecida melodia de maneira suave, como se ela flutuasse. Na seção de solos, tanto o trompetista como Bruno Cardozo (piano elétrico) e Carlinhos Noronha (baixo) soam bem jazzísticos.

Outro clássico de Donato, a dançante Bananeira” é introduzida por um breve solo do baterista Cuca Teixeira. Nesta faixa, Gil recebe outro convidado especial: o trombonista François de Lima, também seu parceiro na Mantiqueira. “Nós tocamos juntos há 58 anos”, festeja o trompetista. E chama atenção para um detalhe bem-humorado de seu arranjo: a primeira parte da melodia surge com o ritmo alterado, “com um pé quebrado”, segundo ele, “como se escorregasse numa casca de banana”.

Composição de Donato que deu título a seu último disco, Bluchanga estimulou Gil a fazer um segundo convite a Proveta. “Essa música foi inspirada em ‘Night in Tunisia”, aquele clássico do bebop. Coloquei um ritmo de cha-cha-chá ali no meio e chamei o Proveta para tocar sax alto. Ele mandou muito bem no bebop. Proveta é um grande músico”, elogia o líder, dizendo que gosta de compartilhar seus melhores trabalhos com os amigos. “O François e o Proveta são brothers, meus irmãos. A gente morou junto durante 17 anos”, relembra. 

Um músico de jazz poderia até chamar a canção “Até Quem Sabe” de balada, mas no suave arranjo de Gil, que a interpreta com elegância e emoção contida, ela soa como um romântico bolero, especialmente pelo ritmo e pela sonoridade das congas de Caro. Já em “Minha Saudade”, o pianista Bruno Cardozo sugere na introdução o andamento lento de uma balada, mas o ritmo e o andamento logo mudam: o que se ouve é um suingado samba, sem exageros ou histrionismos.

Walmir Gil já tocava “Quem Diz Que Sabe”, no final dos anos 1970, quando integrava o naipe de metais da orquestra regida pelo maestro Branco, na casa noturna Ópera Cabaré, em São Paulo. Foi naquela época que ele se inspirou para criar o arranjo, em andamento mais rápido. “Optei por fazer assim, com uma influência latina, para o disco não ficar arrastado, com outra balada lenta”, justifica.

Uma das canções mais líricas de Donato, A Paz é a única faixa do álbum sem improvisos mais extensos. “A melodia fala por si só”, justifica Gil, que esboça já ao final da gravação uma breve citação de “A Child Is Born”, clássica balada do repertório jazzístico, assinada pelo trompetista Thad Jones. Em tempo de guerras e tantas mortes sem sentido, a mensagem pacifista de Gil também merece aplausos, nesta bela homenagem ao grande João Donato. Que sua música continue presente em nossos ouvidos e corações.

Texto escrito para o encarte do álbum "João Donato, presente!" a convite do trompetista Walmir Gil. Gravação já disponível nas plataformas musicais.



Goio Lima: uma obra instrumental inspirada nas belezas da moderna música brasileira

|

                                                                   O compositor e instrumentista Goio Lima

A experiência de viver durante alguns anos em outro país pode ser reveladora. São frequentes os relatos de artistas que, ao morarem fora de seus países de origem, passaram a valorizar mais sua própria cultura – como muitos brasileiros que só descobriram essa identidade ao se verem na condição de estrangeiros.

O caso do instrumentista e compositor Goio Lima é diferente. O paulista nascido na cidade de Campinas iniciou sua carreira musical em meados dos anos 1980, tocando em grupos de jazz e de música instrumental brasileira, como o Mojave. Também fez parte de bandas pop ou de música afro-cubana, como a Havana Brasil. No entanto, quando decidiu se mudar para a Inglaterra, onde viveu de 2014 a 2018, Goio já somava em seu currículo acadêmico duas décadas de estudos dedicados à música brasileira.

“Ali por 1995, já ao final do meu curso de graduação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), descobri os discos da Nana Caymmi e me aprofundei na obra de Tom Jobim. Voltei toda a atenção, em minhas pesquisas, para a música brasileira”, observa o saxofonista e flautista, que posteriormente concluiu seu mestrado em música, na mesma universidade paulista.

Já como professor assistente da Universidade Federal de Uberlândia (em Minas Gerais), a partir de 2009, Goio acentuou seu vínculo com a moderna música popular brasileira. Criou a Orquestra Popular do Cerrado – espécie de big band com uma sonoridade mais brasileira, para a qual escreveu arranjos e, como solista e regente, se apresentou com ela ao lado de conceituados artistas da MPB, da bossa nova e da música instrumental brasileira, como João Donato, Toninho Horta, Paulo Jobim e Wagner Tiso.

“Chamei-a de orquestra popular porque sua formação é diferente de uma big band de jazz. Ela soa mais próxima dos arranjos do Luiz Eça e do Eumir Deodato, que usam mais flauta em sol, trompa, clarinete e flugelhorn do que trompetes e saxofones. Privilegia também uma seção rítmica com violão e muita percussão”, analisa o fundador da Orquestra Popular do Cerrado, que criou na mesma linha musical, em 2013, a Orquestra Popular de Araxá – o concerto inaugural contou com participação de Ivan Lins.



Influências e homenagens

A admiração que Goio Lima demonstra pela moderna música popular brasileira, assim como a marcante influência que o jazz exerceu sobre sua obra, chamam atenção nas 19 faixas deste que é seu primeiro disco autoral. Sambas e bossas instrumentais, baladas e valsas de ascendência jazzística, sobressaem neste repertório inédito e de alta qualidade, que também inclui um baião, um frevo e até uma marcha.

Nos arranjos, todos assinados pelo compositor e instrumentista, a opção por um quinteto – com sax e/ou flauta, trompete e/ou flugelhorn, piano, baixo e bateria – tem tudo a ver com o repertório do álbum. Essa é uma formação instrumental que se tornou clássica, tanto durante o nascimento e a consolidação do jazz moderno, assim como nos primeiros anos do samba-jazz.

Bem escolhido para abrir este álbum duplo, o saboroso samba “Um Abraço no Donato” é uma homenagem de Goio a João Donato, pioneiro da bossa nova. O tema se baseia em um fragmento melódico de “Lugar Comum”, uma das jóias musicais do pianista e compositor acreano, que recebeu os conhecidos versos de Gilberto Gil.

Diferentemente de algumas homenagens duvidosas que ouvimos por aí, as composições que Goio dedica a diversos músicos que o influenciaram remetem às obras ou aos estilos musicais dos homenageados. Como o inusitado baião “Mingus no Forró”, dedicada ao irreverente jazzista americano Charles Mingus; a sensível balada “Tema pro Johnny Alf”, inspirada nas líricas composições desse original precursor da bossa; ou o samba “Skateboard”, derivado de “Surfboard”, um dos temas instrumentais mais deliciosos de Tom Jobim.

Aliás, a grande admiração que revela pela obra musical de Jobim (autor de valsas belíssimas, como “Chovendo na Roseira” ou “Valsa do Porto das Caixas”) também explica o especial interesse de Goio por esse clássico gênero musical – algo incomum entre os músicos de sua geração. Belezas como “Sul de Minas” e “Valsa do Natal” destacam-se entre as seis valsas de sua autoria incluídas neste álbum.

Goio também escolheu esse gênero (no caso uma valsa de ascendência jazzística) para homenagear o músico mineiro Nivaldo Ornelas, um dos saxofonistas que mais o influenciaram, em sua composição “Nivaldo, Como Está o Tempo em BH?”. Já o norte-americano Stan Getz, outro grande saxofonista que lhe serviu de modelo, inspirou a delicada balada “Pro Getz”, na linha do “cool jazz”.  


“Sempre admirei no Getz o discurso musical, às vezes bem próximo da fala, assim como sua maneira elegante de tocar uma balada. Aliás, outra grande paixão minha que está bem representada neste CD”, comenta Goio, referindo-se a essa outra clássica forma musical que os músicos do jazz costumam cultivar. As românticas “Uma Rosa pra Fátima Guedes” e “Esperando Maria” certamente vão agradar bastante aqueles que sabem apreciar o lirismo das baladas.

Para quem, como eu, teve a oportunidade de acompanhar em clubes e outros palcos de São Paulo alguns dos trabalhos realizados por Goio Lima, ouvir agora seu primeiro álbum permite perceber como ele evoluiu como artista. Suas composições, seus arranjos e solos reunidos neste CD (capa na foto acima), que refletem sua personalidade musical, traçam a imagem de um instrumentista que fez escolhas, que praticou seus instrumentos e estudou muito, até se tornar um compositor refinado e músico completo. Que venham outros discos e projetos!

(Texto escrito para o encarte do CD "Goio Lima", que já pode ser ouvido nas plataformas digitais. Nas gravações, o saxofonista e flautista tem a seu lado os trompetistas Rubinho Antunes e João Lenhari, os pianistas Edmundo Cassis e Gabriel Gaiardo, o contrabaixista Evaldo Guedes e os bateristas Paulinho Vicente e Jorge Savedra)






"Conexão Brasil-Cuba": espetáculo reativa intercâmbio musical entre esses países

|

                              A cantora Omara Portuondo, no centro, com Toninho Ferragutti e Fabiana Cozza

Ao beijar as mãos da veterana cantora Omara Portuondo (ontem, no encerramento da temporada do espetáculo “Conexão Brasil-Cuba”, no Teatro Alfa, em São Paulo), a cantora brasileira Fabiana Cozza não estava expressando apenas sua admiração por essa carismática intérprete cubana. Seu gesto carinhoso também representou a grande afinidade, praticamente uma ligação ancestral, que une as tradições musicais de Brasil e de Cuba.

Logo no início do espetáculo, a maestrina Zenaide Romeu, líder da excelente Camerata Romeu, referiu-se a essa longeva relação musical com uma referência inusitada. Agradeceu ao Brasil por ter criado a bossa nova, o estilo moderno de samba que se tornou mundialmente conhecido e cultivado na década de 1960. Segundo a regente, a bossa nova teria permitido aos cubanos tocar jazz numa época em que esse gênero musical de origem norte-americana não era bem visto em seu país.

Difícil apontar destaques nesse show tão bem engendrado pela produtora Myriam Taubkin com o violonista Swami Jr., que assinam a curadoria e a direção musical. A composição de Egberto Gismonti, “Sertões Veredas: Tributo à Miscigenação”, interpretada com brilho pela Camerata Romeu; o envolvente bloco de canções do pianista João Donato (“Amazonas”, “Emoriô” e “Nasci Para Bailar”); as vibrantes aparições de Omara Portuondo, interpretando os boleros “Dos Gardenias” e “Lágrimas Negras”; as emotivas versões de Fabiana Cozza para “Ay, Amor” (de Bola de Nieve) e “Estrela, Estrela” (Vitor Ramil); ou ainda o belíssimo arranjo de Edson Alves para “Sanfonema”, composição do acordeonista Toninho Ferragutti, que a interpretou com a Camerata Romeu.

Deve-se destacar também a alta qualidade dos músicos liderados por Swami Jr., que acompanharam os intérpretes: Pepe Cisneros (piano), Julito Padron (trompete), Gastón Joya (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão) e Oliver Valdés (bateria). Tomara que esse espetáculo, idealizado para comemorar os 20 anos do Teatro Alfa, seja o primeiro de uma série.

Vitoria Maldonado: parceria com Ron Carter reativa carreira da cantora paulistana

|


Vitoria Maldonado é uma cantora de sorte. Com dois discos lançados desde os anos 1990, a também pianista e compositora paulistana pode ver sua carreira (até hoje desenvolvida em relativo “low profile”) ganhar um impulso internacional. Ninguém menos que o norte-americano Ron Carter, um dos contrabaixistas mais cultuados na cena do jazz, gostou de sua voz delicada e a convidou a gravar um disco com seu quarteto. Essa parceria pode ser ouvida no CD “Brasil L.I.K.E.” (selo Summit Records), já distribuído pela Tratore no mercado brasileiro.

No repertório, standards do jazz, como “They Can’t Take That Away From Me” (dos irmãos Gershwin) e “Night and Day” (Cole Porter), surgem em versões com sabor de bossa nova, ao lado de clássicos da MPB, como “Lugar Comum” (João Donato e Gilberto Gil) e “Se Todos Fossem Iguais a Você” (Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Gene Lees), em versão para o inglês, além de composições de Carter e Vitoria. A produção do disco é assinada por Ruriá Duprat, que também escreveu os arranjos para sua Brasilian Orchestra.

Três convidados especiais presentes nas gravações voltaram a acompanhar a cantora no show de lançamento do álbum (no Sesc Belenzinho, em São Paulo, no último dia 25/3): o violonista Roberto Menescal, o saxofonista Nailor Proveta e o veterano gaitista Omar Izar. Para a seção rítmica, foram convocados outros três craques da música instrumental paulistana: Michel Freidenson (teclados), Sylvinho Mazzuca (contrabaixo) e Duda Neves (bateria).

O jazzista Ron Carter não participou desse show de lançamento do álbum “Brasil L.I.K.E.”, mas, nos bastidores, comentava-se que um reencontro com Vitoria, em palcos brasileiros, ainda pode acontecer.






Mário Eugenio: violonista paulistano relê clássicos da música popular brasileira

|


Ao convidar o clarinetista Nailor “Proveta” Azevedo e o pianista André Mehmari (dois dos músicos mais versáteis e inventivos na cena atual da música instrumental brasileira) a participarem da faixa que intitula e abre "Contramão" (Tratore), seu quarto álbum, o violonista paulistano Mário Eugênio já indica seu horizonte artístico. De sua autoria, a faixa-título é um choro moderno e intrincado, que alça voos criativos a partir dos diálogos musicais que seu violão desenvolve com os convidados. Nas outras oito faixas, Eugênio exibe técnica e sensibilidade, em releituras instrumentais de clássicos da música brasileira, como a valsa “Rosa” (Pixinguinha), o samba “Incompatibilidade de Gênios” (João Bosco) e “Lugar Comum” (João Donato). Já na versão do samba “Amor até o Fim” (Gilberto Gil), o violonista abre espaço para os bem-vindos vocais da cantora Daisy Cordeiro. Quem disse que a música instrumental deve ser inimiga do canto ou da canção? 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 24/11/2012)





DVDs: a riqueza da música brasileira em videos de Hermeto, Wisnik, Tatit e Raul de Souza

|

                                                                   Luiz Tatit, Zé Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski

Um deles aborda o prenunciado fim da canção; outro revê a obra de um músico da primeira geração da bossa nova; o terceiro é totalmente experimental. A diversidade e a riqueza da música brasileira estão bem representadas por recentes DVDs dos compositores Luiz Tatit, Zé Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, do trombonista Raul de Souza e do multiinstrumentista Hermeto Pascoal.

O título do DVD “O Fim da Canção” (lançamento SESC) tem a ver com a polêmica entrevista de Chico Buarque à "Folha de S. Paulo", em 2004, quando disse que o rap poderia vir a ser “a negação da canção tal como a conhecemos”. Tatit, Wisnik e Nestrovski discutem essa hipótese em entrevistas incluídas nessa edição, mas nenhum argumento soa tão eficaz em defesa da permanência dessa forma musical e poética quanto as próprias canções gravadas pelo trio, em 2011, num show com participação do cantor Celso Sim.


                                                                                             Raul de Souza

“O Universo Musical de Raul de Souza” (lançamento SESC) revive composições e a trajetória desse brilhante trombonista e compositor, que deixou sua marca na bossa nova, no samba-jazz e no jazz-funk. As presenças de grandes instrumentistas, como Altamiro Carrilho (flauta), João Donato (piano) e Hector Costita (sax), reforçam o tom de homenagem ao antigo parceiro, tanto no show como nos depoimentos incluídos nesse DVD como extras.


                                                                                        Hermeto Pascoal
“Brincando de Corpo e Alma” (edição independente) é um projeto que só um artista inquieto e inventivo como Hermeto poderia realizar. Nas 12 performances, ele cria música percutindo diferentes regiões do corpo, rindo, roncando, assobiando, até mesmo friccionando a longa barba. Os recursos de edição permitem que ele utilize sons simultâneos, criando assim surpreendentes texturas sonoras e visuais. Como já disse alguém, Hermeto já não é mais um músico, é a própria música.


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 24/11/2012)

Antonia Adnet: violonista e cantora mostra que crescer em ambiente musical faz diferença

|


Ela surgiu sete anos atrás, tocando violão na banda da cantora Roberta Sá. Agora, aos 27 anos, a também compositora, arranjadora e cantora Antonia Adnet – filha do conceituado arranjador e violonista Mario Adnet – lança "Pra Dizer Sim" (selo Universal), seu segundo álbum, sugerindo que crescer num ambiente musical pode fazer muita diferença na formação de qualquer artista.

Além de ser autora de oito das doze canções do álbum, com vários parceiros letristas, Antonia também assina quase todos os bem cuidados arranjos. Sambas, toadas e canções dominam o repertório inédito, que ela interpreta com a voz delicada, incluindo também saborosas releituras de “Nanã” (de Moacir Santos) e “Flor de Maracujá” (João Donato e Lysias Ênio).

Participações dos cantores Joyce (no doce “Frevo em Tamandaré”), Pedro Miranda (no bem humorado “Boogie Woogie do Rato”, de Denis Brean) e Lenine (na canção pop “Giz”) referendam o talento de Antonia. Bom presságio para aqueles que ainda preferem consistência musical, em meio a tanta aparência vazia. 

(resenha publicada originalmente no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/6/2012)



Vinicius Cantuária: compositor radicado nos EUA volta com saborosas parcerias

|

O compositor e cantor Vinicius Cantuária vai irritar muita gente, por dizer, em um vídeo de divulgação de seu álbum “Samba Carioca” (lançamento no mercado brasileiro da gravadora Biscoito Fino), que “todo samba bom tem que ter americano na parada”. Seja ou não pertinente sua tese, o fato é que as parcerias internacionais desse músico amazonense crescido no Rio, que se radicou em Nova York durante a década de 1990, têm rendido projetos bem originais. Só pela faixa “Berlin”, uma belíssima bossa nova composta por Cantuária, cujo arranjo minimalista conta com o piano do jazzista norte-americano Brad Mehldau, este CD já mereceria atenção. 

Além de contar com a inquietude de Arto Lindsay na produção, Cantuária reúne outros parceiros de peso, como o inventivo guitarrista Bill Frisell (na nostálgica bossa “Só Ficou Saudade”) ou os pianistas João Donato (na sintética “Fugiu”) e Marcos Valle (também parceiro do compositor, na suave “Orla”). Um disco cheio de pequenas surpresas, especialmente para quem não pensa que o samba só existe com cavaquinho, pandeiro e tamborim.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 25/11/2011)



João Parahyba: percussionista e compositor recria a atmosfera do samba-jazz dos anos 1960

|


É natural que as gerações mais jovens associem a imagem de João Parahyba ao lendário Trio Mocotó, cujo contagiante samba-rock foi redescoberto e festejado durante a última década. Mas quem acompanha a carreira desse eclético percussionista, compositor e arranjador paulista sabe que ele também já colocou seu talento a serviço da MPB, do jazz, da música instrumental ou até da música eletrônica.

Em "O Samba no Balanço do Jazz" (lançamento SescSP), João Parahyba interpreta com personalidade a atmosfera sonora do samba-jazz – o híbrido subgênero que revigorou a música instrumental brasileira, na década de 1960. “Minha intenção foi fazer uma reverência ao começo de minha vida musical. Fui um privilegiado, porque entrei na música convivendo com Milton Banana, com o Zimbo Trio e o Tamba Trio. Eu era amigo do Luiz Eça, do Bebeto, do César Camargo Mariano e do João Donato. Fui aceito por eles como o caçula dessa seleção”, relembra.

Com a sabedoria de quem conhece a fundo a linguagem do samba-jazz, JP relê aqui alguns clássicos dessa vertente, como “Sambou, Sambou” (João Donato), “Nanã” (Moacir Santos) e “Batida Diferente/Estamos Aí” (Durval Ferreira e Maurício Einhorn). Exibe também saborosas composições próprias que remetem a esse gênero, como “Kurukere” e “Number One”, conduzindo o elegante quinteto que inclui Giba Pinto (baixo), Rudy Arnaut (guitarra), Marcos Romera (piano) e Teco Cardoso (sax barítono e flauta), além das participações de Thiago Costa (piano), Rodrigo Lessa (bandolim), Marcelo Mariano (baixo), Beto Bertrami (piano) e Ubaldo Versolato (flauta e sax barítono).

Três veteranos do gênero também participam do projeto. Mentor musical de JP, Amilton Godoy, o pianista do original Zimbo Trio, contribui com um arranjo de sua composição “Batráquio”, escrito especialmente para o quinteto do percussionista. O compositor e arranjador Laércio “Tio” de Freitas oferece a seu ex-aluno a oportunidade de lançar a inédita bossa “Búzios”. Clayber de Souza, ex-integrante dos cultuados Sambalanço Trio e Jongo Trio, mostra seu virtuosismo à gaita, no jazzístico arranjo que escreveu para o “Trenzinho do Caipira” (Villa-Lobos).

JP também introduz neste álbum seu filho Janja Gomes, autor da sensível valsa-jazz “Valseta”, cuja gravação destaca o emotivo solo de clarinete de Nailor Proveta e um inusitado sample com o argentino Julio Cortázar, declamando um de seus escritos poéticos. Uma bela surpresa que nos faz pensar: embora não seja regra, o talento artístico certamente pode ser transmitido por via genética.

(texto escrito a convite do selo SescSP)

Paraty Latino: festival gratuito leva atrações internacionais à cidade histórica

|


Da salsa ao tango, passando pelo merengue, pelo bolero e pelo cha-cha-chá, sem esquecer o nosso samba. Esse é o saboroso cardápio de ritmos do festival Paraty Latino, que leva várias atrações musicais ao litoral sul fluminense. Com três noites de shows gratuitos, o evento acontece no próximo final de semana (de 3 a 5/12), na praça da Matriz de Paraty.

A delegação cubana reúne talentosos músicos da nova geração, como o pianista Roberto Fonseca, o cantor Fernando Ferrer (sobrinho do “buena vista” Ibrahim Ferrer), a cantora Haydée Milanés (filha do veterano “cantautor” Pablo Milanés) e o pianista Yaniel Matos, que já vive em São Paulo há alguns anos. Da França vem o cantor e pianista de salsa Deldongo. A Argentina está representada pelo electro-tango da banda Otros Aires.

Já o elenco brasileiro conta com a charmosa cantora Marina de La Riva (também descendente de cubanos), a dupla João Donato e Paula Morelenbaum (que acaba de lançar o delicioso álbum “Água”) e as bandas Lyra Latina e Havana Brasil (na foto acima), conhecidas dos freqüentadores do clube paulistano Bourbon Street, que assina a produção do festival.

O Paraty Latino também vai oferecer oficinas gratuitas de dança, nas tardes de sábado e domingo. Mais informações no site do evento: www.paratylatino.com.br


Enhanced by Zemanta

Paula Morelenbaum e João Donato: uma voz doce para 12 canções sedutoras

|


Quem acompanha a carreira de Paula Morelenbaum já deve ter notado a coerência de seu repertório. Depois de cantar por uma década com Tom Jobim, de interpretar canções de Vinicius de Moraes e sambas do período pré-bossa nova, ela chega a João Donato com a maior propriedade. Para produzir e gravar o álbum “Água” (lançamento Biscoito Fino), escolheu 12 canções desse original pioneiro da bossa, que também a acompanha ao piano e nos vocais.

Além da voz doce e das interpretações sensíveis de Paula, logo chama atenção a riqueza e a diversidade dos arranjos de Jaques Morelenbaum (“Flor de Maracujá”), Donatinho (“Café com Pão”), Marcos “Kusca” Cunha (“A Rã”), Leo Gandelman e Alex Moreira (“Lugar Comum”), Beto Villares (“Ahiê”) ou BossaCucaNova (“E Muito Mais”), que combinam instrumentação acústica e eletrônica.


A cantora ainda se deu ao luxo de resgatar a dançante “Entre Amigos”, obscura parceria de Donato com o percussionista cubano Mongo Santamaria, que agora recebeu versos em português e espanhol. Um disco tão sedutor quanto a voz de Paula ou as melodias de Donato. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/10/2010)

 

Mario Adnet: de volta à composição, com vários parceiros, em "O Samba Vai"

|


Mais conhecido nesta década como arranjador, violonista e produtor, graças aos elogiados discos que dedicou às obras de Moacir Santos (“Ouro Negro” e “Choros & Alegrias”, ambos com Zé Nogueira), Baden Powell (“Afrosambajazz”, com Phillipe Baden Powell) e Tom Jobim (“Jobim Jazz” e “Jobim Sinfônico”), o músico carioca Mario Adnet volta a gravar um álbum autoral.

No CD “O Samba Vai” (lançamento Biscoito Fino), ele retoma parcerias com Joyce, Paulo César Pinheiro, Bernardo Vilhena e Chico Adnet, além de exibir duas recentes canções que fez com João Donato. Nos vocais participam também Mônica Salmaso, Joyce, Pedro Miranda, Muiza Adnet e Antonia Adnet.

A seguir Mario Adnet comenta detalhes desse álbum, fala sobre seus parceiros e relembra a recepção calorosa que o projeto “Ouro Negro” obteve em Nova York, meses atrás, em concerto no conceituado Lincoln Center.

Pergunta - Nos últimos anos você se dedicou a projetos centrados nas obras de Moacir Santos, Baden Powell, Tom Jobim e Villa-Lobos. Como lida com o fato de sua obra autoral ficar em segundo plano?

Mario Adnet - Eu me sinto muito bem por ter seguido esse caminho, que só enriqueceu minha música. Esses projetos foram muito importantes para mim, como um resgate de mim mesmo. Se eu não tivesse as músicas desses compositores à minha volta, minha música não teria razão de existir.

Qual foi sua intenção ao planejar esse disco? 

Adnet - Eu tinha o desejo de fazer um trabalho cantado. Esse disco tem canções divertidas, outras mais sérias, mas foi uma alegria fazê-lo. Eu já tinha parcerias com o Paulo César Pinheiro, como a “Valsa Exaltação e “Dois Orfeus”, compostas há mais de 15 anos. Achei que “Fazer Samba pra Você” era parecida com a Joyce, parceira e amiga de mais de 30 anos. Mostrei a ela e dois dias depois recebi o e-mail com a letra. Com o João Donato também foi engraçado. Liguei pra ele e no mesmo dia fizemos duas músicas: “Um Samba na Madrugada”, que eu já tinha iniciado, e “Domingo de Verão”, que ele começou a compor na hora. Fiquei de botar as letras nas duas, mas depois decidi chamar o Bernardo Vilhena, outro antigo parceiro. Ele acertou a mão na leveza dos versos.

A bem-humorada “Fred Astaire do Samba”, parceria com seu irmão Chico (pai do comediante Marcelo Adnet), é uma faixa que logo se destaca no disco. Vocês têm outras canções? 

Adnet - Fizemos poucas coisas, na época em que ainda éramos garotos. Depois o Chico enveredou pela publicidade e pelas trilhas sonoras. Ele tem esse viés engraçado que o Marcelo herdou. Creio que “Fred Astaire do Samba” será o início de um trabalho maior que já estamos planejando (veja o video abaixo).

Você também gravou “Céu e Mar”, uma das obras-primas de Johnny Alf, que morreu em março. Foi uma homenagem póstuma?  

Adnet - Eu sempre quis gravar Johnny Alf, tinha até ensaiado um projeto só com a música dele. O arranjo de “Céu e Mar” já estava pronto quando ele morreu, mas não deixa de ser uma homenagem. As músicas do Johnny são muito ricas. Tom Jobim foi influenciado por ele. Ao ouvir “Rapaz de Bem”, do Johnny, penso que o “Desafinado” saiu dali.

Você imaginou que “Ouro Negro” (2001), o álbum duplo que você e Zé Nogueira dedicaram à obra de Moacir Santos, se tornaria uma referência inclusive no exterior?

Adnet – Não imaginava isso, mas hoje sinto que vamos continuar fazendo esse trabalho “ad eternum”. Aliás, tocamos o “Ouro Negro” em Nova York, no Lincoln Center, em maio deste ano. O público estava muito quente e aplaudiu de pé. Eu olhava para as primeiras filas da platéia e via o pessoal ouvindo de olhos fechados. Isso dá um gás enorme para que a gente possa acreditar mais no que fazemos e prosseguir, porque o Brasil é uma terra injusta.

O preconceito e a ignorância frente à música instrumental têm diminuído no Brasil?

Adnet – Sim, o interesse do público é cada vez maior. Sinto que hoje você precisa fazer um show muito bem produzido, com músicos de primeira linha, porque isso faz toda a diferença. As pessoas percebem isso, por mais leigas que sejam. Esse é um jeito de voltar a valorizar a música brasileira, que foi muito desvalorizada pela indústria fonográfica nas últimas décadas.

entrevista publicada originalmente no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 24/9/2010)



 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB