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Walmir Gil: a simplicidade de João Donato nas releituras do trompetista da Banda Mantiqueira

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                                       Walmir Gil lança álbum dedicado ao compositor João Donato 

Trompetista, arranjador e educador musical, Walmir Gil já teria garantido um lugar especial na história da música popular brasileira por ser um dos fundadores da cultuada Banda Mantiqueira, com a qual se apresenta há mais de três décadas. Essa original big band de São Paulo, criada em 1991, é motivo de orgulho para os paulistas e fãs de outros estados do país que apreciam música instrumental de alto quilate e jazz com sotaque brasileiro.

A Mantiqueira é a cereja do bolo, na longa folha de serviços prestados por Gil à música brasileira e ao jazz, em suas cinco décadas de carreira. Nos anos 1980, ao integrar o naipe de metais da afiada big band do 150 Night Club do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, ele acompanhou astros do jazz, como Anita O’Day, Benny Carter, Bobby Short e Paquito D’Rivera, entre outros.

Na década de 1990, Gil fez parte da suingada banda que tocava com Djavan em suas turnês, assim como acompanhou nos palcos outros grandes intérpretes e compositores da música brasileira, como Caetano Veloso, Gal Costa, Rosa Passos, João Bosco, César Camargo Mariano, Fafá de Belém, Simone e Milton Nascimento. Já neste século, além de gravar dois discos como solista (“Passaporte” e “Novas Histórias”) e de defender seu mestrado em música pela Unicamp, ele ministrou dezenas de workshops e oficinas de trompete pelo país adentro.

A afinidade de Gil com a música de João Donato remonta à década de 1970, quando já tocava um arranjo de “Lugar Comum”, em bailes na cidade de Santos, no litoral paulista. “As músicas que você gosta de tocar sempre serão tocadas com o coração”, diz ele, explicando que teve a ideia de homenagear Donato, em um disco com arranjos instrumentais de suas composições, não só por admirá-lo como músico e compositor, mas também pelo prazer que sente ao tocar essas músicas.

“Fui convidado a tocar com ele algumas vezes, mas eu sempre estava viajando. Perdi a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente”, lamenta Gil, que diz apreciar a música de Donato, especialmente, por sua simplicidade. “Ele era um cara muito simples, que não usava uma harmonia complexa, mas conseguia transmitir o que queria. Sempre gostei muito dele”.

Elogiando também o suingue de Donato, ao comentar as afinidades que tem com seu homenageado, Gil menciona o princípio minimalista “menos é mais”, que já foi adotado na arquitetura, no design e em diversos campos artísticos. “É como a música do Miles Davis”, compara o músico paulista, referindo-se ao genial trompetista e compositor norte-americano, outra de suas referências musicais.


O álbum: simplicidade com temperos afro-latinos

Para as gravações do álbum, Gil convocou seu Quinteto Afro Latin Jazz, que destaca outros três craques da cena instrumental e jazzística de São Paulo: o tecladista Bruno Cardozo, o baterista Cuca Teixeira e o baixista Carlinhos Noronha, que já tocam com Gil há mais de vinte anos. Mais recente no grupo, a percussionista argentina Caro Cohen traz muita energia e intimidade com o rico universo dos ritmos afro-cubanos e da música latina.

“A ideia é temperar a música do Donato com ritmos afros e latinos”, diz ele, sintetizando o conceito do álbum. Um saboroso exemplo dessa receita sonora é o arranjo de “Emoriô”. Essa faixa é introduzida pela sonoridade grave e etérea do clarone do convidado Nailor Proveta, outro antigo parceiro de Gil e fundador da Banda Mantiqueira. Na sequência, a clave cubana e a percussão de Caro Cohen criam uma atmosfera de polifonia tribal, em ritmo de rumba.

A doce “Lugar Comum” começa com sons de água corrente, como se o quinteto estivesse na beira de um rio. Caro, a percussionista, puxa um hipnótico ritmo de guaguancó e, ao fundo, Gil sopra a conhecida melodia de maneira suave, como se ela flutuasse. Na seção de solos, tanto o trompetista como Bruno Cardozo (piano elétrico) e Carlinhos Noronha (baixo) soam bem jazzísticos.

Outro clássico de Donato, a dançante Bananeira” é introduzida por um breve solo do baterista Cuca Teixeira. Nesta faixa, Gil recebe outro convidado especial: o trombonista François de Lima, também seu parceiro na Mantiqueira. “Nós tocamos juntos há 58 anos”, festeja o trompetista. E chama atenção para um detalhe bem-humorado de seu arranjo: a primeira parte da melodia surge com o ritmo alterado, “com um pé quebrado”, segundo ele, “como se escorregasse numa casca de banana”.

Composição de Donato que deu título a seu último disco, Bluchanga estimulou Gil a fazer um segundo convite a Proveta. “Essa música foi inspirada em ‘Night in Tunisia”, aquele clássico do bebop. Coloquei um ritmo de cha-cha-chá ali no meio e chamei o Proveta para tocar sax alto. Ele mandou muito bem no bebop. Proveta é um grande músico”, elogia o líder, dizendo que gosta de compartilhar seus melhores trabalhos com os amigos. “O François e o Proveta são brothers, meus irmãos. A gente morou junto durante 17 anos”, relembra. 

Um músico de jazz poderia até chamar a canção “Até Quem Sabe” de balada, mas no suave arranjo de Gil, que a interpreta com elegância e emoção contida, ela soa como um romântico bolero, especialmente pelo ritmo e pela sonoridade das congas de Caro. Já em “Minha Saudade”, o pianista Bruno Cardozo sugere na introdução o andamento lento de uma balada, mas o ritmo e o andamento logo mudam: o que se ouve é um suingado samba, sem exageros ou histrionismos.

Walmir Gil já tocava “Quem Diz Que Sabe”, no final dos anos 1970, quando integrava o naipe de metais da orquestra regida pelo maestro Branco, na casa noturna Ópera Cabaré, em São Paulo. Foi naquela época que ele se inspirou para criar o arranjo, em andamento mais rápido. “Optei por fazer assim, com uma influência latina, para o disco não ficar arrastado, com outra balada lenta”, justifica.

Uma das canções mais líricas de Donato, A Paz é a única faixa do álbum sem improvisos mais extensos. “A melodia fala por si só”, justifica Gil, que esboça já ao final da gravação uma breve citação de “A Child Is Born”, clássica balada do repertório jazzístico, assinada pelo trompetista Thad Jones. Em tempo de guerras e tantas mortes sem sentido, a mensagem pacifista de Gil também merece aplausos, nesta bela homenagem ao grande João Donato. Que sua música continue presente em nossos ouvidos e corações.

Texto escrito para o encarte do álbum "João Donato, presente!" a convite do trompetista Walmir Gil. Gravação já disponível nas plataformas musicais.



Sesc Jazz: encontro musical de Dom Salvador com Amaro Freitas foi criativo e inspirador

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                           Amaro Freitas abraça Dom Salvador, em show do festival Sesc Jazz  
 

Não é difícil explicar por que o show do cultuado pianista e compositor paulista Dom Salvador, com participação muito especial do pernambucano Amaro Freitas, também um brilhante pianista e compositor, logo despontou como a atração mais procurada da sexta edição do festival Sesc Jazz, em São Paulo. Os mais de 2 mil ingressos colocados à venda para as três noites desse show se esgotaram em pouco mais de 24 horas.     

Grande expoente da primeira geração do samba-jazz, hoje aos 87 anos de idade, Salvador só se apresenta de vez em quando no Brasil. Vive desde 1973 em Nova York, onde toca piano  regularmente no sofisticado River Café, lidera seu sexteto em festivais e tem desfrutado de prestígio crescente no meio jazzístico.

Aos 34 anos, Freitas é considerado a maior revelação do jazz brasileiro na última década. Em pouco tempo conseguiu ingressar no circuito dos clubes e festivais de jazz da Europa e dos Estados Unidos. Suas turnês pelo mundo têm crescido ano a ano. Quem não gostaria de presenciar um inédito show em parceria de músicos de tão alto quilate?  

Salvador abriu a noite de ontem (15/10), no teatro do Sesc Pompeia, tocando algumas de suas composições mais conhecidas, como “Tematrio”, “Gafieira” e “Meu Fraco É Café Forte”, que já se tornaram clássicos do samba-jazz. A seu lado estavam a saxofonista e flautista Laura Dryer, o baterista Graciliano Zambonin e o contrabaixista Gili Lopes, talentosos parceiros que costumam integrar seus projetos musicais. Depois de alguns números, o quarteto virou sexteto, com as participações de dois craques da cena musical carioca: o percussionista Armando Marçal e o guitarrista Zé Carlos, que tocava com Salvador na lendária banda Abolição, no início dos anos 1970.

Mais falante, Amaro Freitas homenageou Salvador ao declarar que nem teria existido como artista se a música do compositor e pianista paulista não o tivesse antecedido. Estendeu esse tributo a outros grandes intérpretes e compositores negros, que também são referências suas no campo da música popular e instrumental brasileira, citando os nomes de Naná Vasconcelos, Johnny Alf, Alaíde Costa, Elza Soares, Tania Maria, Laercio de Freitas e Milton Nascimento. A emoção de Salvador era evidente, ainda mais quando Freitas se levantou do piano para abraça-lo.

Os improvisos se tornaram mais intensos e abertos à experimentação, na parte do show que destacou composições de Freitas, como a percussiva “Viva Naná” e a vibrante “Encantados”, marcada por sons de diversas flautas. Não faltou também uma reverência à tradição do choro, com os pianistas interpretando em duo o delicado “Choro Lento”, composição de Salvador. 

Criativo e inspirador, o inédito encontro de Dom Salvador e Amaro Freitas encantou os ouvidos e sensibilidades daqueles que tiveram o privilégio de estar na plateia do Sesc Pompeia. Tomara que esse exemplo incentive outros grandes músicos brasileiros a experimentarem novos encontros e parcerias. O diálogo entre as gerações pode ser muito enriquecedor, especialmente quando envolve empatia e admiração mútua. 


                                Amaro Freitas (acima) e Dom Salvador (abaixo, de costas)

Sesc Jazz: festival retorna com atrações da África, dos EUA e da América Latina

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                  Dom Salvador e Amaro Freitas estarão no 6º Sesc Jazz/ Fotos: Carlos Calado   

Um dos festivais de música mais originais de nosso país, o Sesc Jazz anunciou as atrações de sua sexta edição. Agora produzido de dois em dois anos, o sucessor do Jazz na Fábrica (festival realizado na unidade do Sesc Pompeia até 2017) vai levar sua programação de shows de 27 artistas e grupos internacionais e brasileiros a nove unidades do Sesc na capital e no estado de São Paulo, de 14 de outubro a 2 de novembro. 

Entre os destaques de seu eclético cardápio musical, o Sesc Jazz promove um inédito encontro de dois grandes pianistas e compositores: o mestre paulista Dom Salvador, pioneiro do samba-jazz radicado em Nova York desde 1973, e o pernambucano Amaro Freitas, uma das maiores revelações do jazz brasileiro nas últimas décadas. O fato de esse encontro de gerações ocupar três noites na grade de programação (de 15 a 17/10) já sugere que esse show deve ser um dos mais disputados do evento.

Entre outras atrações brasileiras, o festival também oferece um histórico reencontro musical. Radicada há mais de 40 anos na França, a cantora Evinha (ex-vocalista do Trio Esperança) terá a seu lado o cantor e pianista Marcos Valle, expoente da segunda geração da bossa nova. Juntos vão revisitar canções que ele compôs especialmente para ela, na transição dos anos 1960 para os 1970.   

Outro show inédito vai homenagear Leny Andrade, grande estrela do samba-jazz, que perdemos dois anos atrás. Um merecido tributo a seu imenso talento vocal vai reunir três cantoras que transitam com facilidade pelo universo do jazz: a carioca Eliana Pittman, a mineira Rosa Maria Collin e a hondurenha Indiana Nomma. No palco, também estarão dois pianistas que costumavam tocar com a homenageada: João Carlos Coutinho, que assina a direção musical desse show, e Gilson Peranzzetta, em participação especial.      

                                     


Quem abre essa edição do festival (dias 14 e 15/10, no Sesc Pompeia) é o carismático cantor, compositor e guitarrista senegalês Baaba Maal (na foto acima). Conhecido na cena internacional da música desde o final da década de 1980, ele se tornou uma espécie de embaixador cultural de seu país e da própria África. Com o passar dos anos sua música tornou-se mais e mais eclética, revelando até influências do funk, do reggae e do blues. Entre suas gravações mais conhecidas, a canção “Wakanda” fez parte da trilha sonora do filme “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” (de 2022).  

Dos Estados Unidos virão dois conceituados jazzistas, que iniciaram suas carreiras sob a estética experimental da AACM (Associação para o Avanço dos Músicos Criativos), fundada em 1965, em Chicago, Illinois. Dois anos antes, saída do estado do Arkansas, a pianista, vocalista e compositora Amina Claudine Myers (na foto abaixo) se radicou nessa metrópole. Ali desenvolveu parcerias com expoentes do jazz de vanguarda, como Lester Bowie e Henry Threadgill, mas com o passar do tempo suas referências tornaram-se mais amplas, incluindo influências de vertentes tradicionais da música negra, como o blues e o gospel.  



Nascido em Chicago, o percussionista e compositor Kahil El’Zabar lidera há cinco décadas o Ethnic Heritage Ensemble (Conjunto Herança Étnica). Em suas composições e releituras musicais, El’Zabar adapta aos ouvidos de hoje elementos da tradição musical africana. Artista sem preconceitos, ele já dividiu gravações com jazzistas de vanguarda, como os saxofonistas Archie Shepp e Pharoah Sanders, assim como já tocou com artistas da música negra norte-americana, como Stevie Wonder e Nina Simone.

Como já se viu durante as edições anteriores do Sesc Jazz, nesse panorama da música improvisada contemporânea traçado pela equipe de curadores do festival, o conceito de Sul Global confere protagonismo aos músicos que se valem da linguagem jazzística na América Latina, assim como valoriza a tradição da música africana e sua cena mais moderna.

Além do embaixador cultural Baaba Maal (do Senegal), o continente africano está representado nessa edição por Alogte Oho, uma das vozes mais representativas da cena gospel de Ghana, que vem acompanhado pelo grupo His Sounds of Joy. Já a cantora e compositora Gabi Motuba, da África do Sul, dialoga com o jazz e a vanguarda, em sua obra musical, revelando também preocupações sociais e políticas em sua canções.

                               



Entre os destaques da América Latina está a cantora, pianista e atriz Aymée Nuviola (na foto acima), herdeira de estrelas da canção cubana como Celia Cruz e Omara Portuondo, que viu sua carreira internacional decolar na década passada. Conhecido aqui por suas parcerias com Hermeto Pascoal e Airto Moreira, o multi-instrumentista e compositor uruguaio Hugo Fattoruso será acompanhado por seu grupo Barrio Sur. Da Colômbia vem o De Mar y Rio, grupo que resgata a música tradicional de marimba (instrumento de percussão semelhante ao xilofone), com vocais femininos.

O palco externo do Sesc Pompeia, que já funcionava em edições anteriores do festival, oferece uma programação ao ar livre especialmente caprichada neste ano, com entrada franca aos domingos. Essa compacta mostra de projetos inéditos começa no dia 19/10, com a banda paulistana Aláfia revivendo clássicos do funk do norte-americano George Clinton e sua psicodélica banda Parliament.

                                               

O projeto “Coisas Supremas: conexão entre ‘Coisas’ e ‘A Love Supreme’”, do trombonista e arranjador Allan Abbadia, vai revisitar pérolas musicais dos mestres Moacir Santos e John Coltrane, em 26/10. Finalmente, em 2/11, o lendário Trio Mocotó (na foto acima) revisita o suingue do clássico álbum “Força Bruta”, que gravaram ao lado de Jorge Ben, em 1970. A cantora Ellen Oléria fará uma participação especial.

Os curadores do 6.º Sesc Jazz também prepararam, especialmente para estudantes e profissionais de música, uma série de oficinas, cursos, masterclasses e workshops. Confira a relação dessas atividades formativas, assim como a programação completa dos shows e o esquema de venda dos ingressos, no site do festival: 

sescsp.org.br/sescjazz





 

Dom Salvador: pioneiro do samba-jazz e do samba-soul relembra sua banda Abolição

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                                     Dom Salvador (no piano, ao centro) e os músicos do Abolição   

O pianista e compositor Dom Salvador agradeceu os aplausos da plateia paulistana, ao final do show de ontem (7/09), com uma elegante reverência. Não foi por cansaço, muito menos por esnobismo, que ele e os músicos do quarteto Abolição deixaram o palco – na área externa da 36.ª Bienal de Artes de São Paulo, no Parque Ibirapuera – sem atender aos pedidos de bis.

Já fora de cena, agitando as mãos, Salvador explicou a alguns fãs o motivo da indesejada interrupção do show: dores provocadas por câimbras, que o impediram de tocar por mais alguns minutos. Um probleminha físico que esse resiliente pioneiro do samba-jazz (prestes a completar 87 anos na próxima sexta, 12/09) enfrenta de vez em quando, mas não o impede de seguir tocando regularmente.

Os felizardos ali presentes assistiram a um show histórico, que reuniu o líder e dois remanescentes da cultuada banda Abolição, desativada em 1972, após uma breve carreira de dois anos. Seu único disco, “Som, Sangue e Raça” (lançado em 1971), seguiu influenciando as gerações posteriores, com suas misturas de samba, jazz, soul, R&B, funk e outras vertentes da música negra brasileira.

Do quarteto liderado por Salvador fazem parte o baixista Rubão Sabino e o guitarrista Zé Carlos, seus antigos parceiros da banda Abolição, além do saxofonista Tino Jr. No repertório do show não faltaram clássicos da banda, como “Moeda, Reza e Cor”, “Samba do Malandrinho” e “Tema pro Gaguinho”, além de “Uma Vida” e “Hei! Você”, que os fãs cantaram junto com Sabino.   

Na plateia, além de vários músicos, estava o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador desta edição da Bienal (inaugurada anteontem, com entrada franca), que tomou como inspiração o poema “Da Calma e do Silêncio”, da escritora mineira Conceição Evaristo.

Sentada ao lado do curador estava a senegalesa Veronika Châtelain, diretora do programa Jazz Legacies Fellowship, da Jazz Foundation of America, que vai apoiar 50 veteranos músicos de jazz, fornecendo apoio financeiro para seus projetos de gravação e turnês, entre outras atividades, durante os próximos quatro anos.

Salvador foi incluído entre os 20 primeiros contemplados por esse projeto, ao lado de conceituados jazzistas norte-americanos, como o saxofonista George Coleman, a vocalista Carmen Lundy, a pianista Amina Claudine-Myers e o baterista Herlin Riley, entre outros. Um importante reconhecimento aos legados desses artistas.

Para quem perdeu essa rara apresentação de Dom Salvador, que vive em Nova York desde 1973, ele deixa uma mensagem de consolo: vai retornar a São Paulo em outubro, para mais alguns shows, com uma formação instrumental diferente. O local e as datas dessas apresentações serão divulgados em breve.


"Brasileiros do Mundo": nova série da Cultura FM destaca músicos de sucesso no exterior

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             A cantora, pianista e compositora Tânia Maria 
       

Tânia Maria, Dom Salvador, Duduka da Fonseca, Luciana Souza e Romero Lubambo, instrumentistas e intérpretes de alto quilate, têm algo em comum nas suas trajetórias: são brasileiros que, décadas atrás, decidiram viver na Europa ou nos Estados Unidos, onde desenvolveram carreiras bem-sucedidas, tocando e/ou cantando música brasileira e jazz. Ironicamente, hoje esses artistas são mais conhecidos no exterior do que no Brasil.

Essa é a tônica de “Brasileiros do Mundo”, série de cinco programas, que idealizei e vou apresentar na Cultura FM (103,3) de São Paulo. O programa de estreia, que será exibido no dia 29/06 (domingo), às 14h, é dedicado a Tânia Maria. Essa carismática pianista, cantora e compositora decidiu se radicar na França, no início da década de 1970. Graças a seu talento musical, em pouco tempo ela se tornou uma grande estrela da cena internacional do jazz.

Nascida no Maranhão, Tânia tinha apenas dois anos quando sua família se mudou para Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro. Já cantava e tocava piano em casas noturnas, no final dos anos 1960, quando foi vítima de um abuso típico do repressivo regime militar daquela época. Numa noite, ao sair da boate carioca em que se apresentava, foi abordada por uma viatura policial e conduzida a uma delegacia, como se fosse uma prostituta. O policial chegou a rasgar sua carteira de musicista profissional.

“Foi um trauma muito grande, eu tinha 22 anos. Depois daquilo eu não podia ficar mais aqui”, relembrou Tânia, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, em 2005, ao se apresentar no Sesc Pompeia, na capital paulista – suas primeiras apresentações em palcos brasileiros, após três décadas de autoexílio na Europa. O programa de estreia da série “Brasileiros do Mundo” destaca algumas das composições mais aplaudidas dessa sensacional artista, como “Euzinha”, “Come with Me” e “Valeu”.

O pianista e compositor carioca Antonio Adolfo (protagonista do programa de 6/07), também passou anos na Europa e nos Estados Unidos, na década de 1970. “Não fui expulso nem banido, mas saí porque estava com nojo daquela situação”, ele afirmou, em 2019, em entrevista ao site Scream & Yell. Autor de sucessos, como “BR-3” e “Juliana” (ambos em parceria com Tibério Gaspar), Adolfo foi perseguido pela ditadura militar, como outros artistas naquela época.

Ao retornar ao país, ele redirecionou sua carreira, ao se aproximar da música instrumental. Desde a década passada tem alternado períodos no Brasil e nos Estados Unidos, onde tem lançado praticamente um álbum por ano, misturando música brasileira e jazz. Alguns desses discos já receberam indicações para os prêmios Grammy e Grammy Latino.   

O caso da cantora paulista Luciana Souza, que pertence a uma geração posterior à de Antonio Adolfo e Tânia Maria, já é um pouco diferente. Ela foi estudar música nos Estados Unidos, na década de 1990, e desde então só tem retornado ao Brasil de vez em quando, para fazer shows. Filha dos compositores Walter Santos e Tereza Souza, Luciana construiu uma sólida carreira internacional na área do jazz vocal.

Os 15 álbuns que Luciana já lançou como intérprete e compositora, combinando diversos gêneros da música brasileira com influências do jazz contemporâneo e da música de câmara, têm sido elogiados por sua sofisticação. O programa protagonizado por ela vai ao ar em 13/07.

O pianista e compositor paulista Dom Salvador e o baterista carioca Duduka da Fonseca se aproximaram ainda nos anos 1970, quando já viviam na área de Nova York. Ali os dois abraçaram uma missão musical: tornaram-se embaixadores informais do samba-jazz. Não foi à toa que, em 2015, ao festejar os 50 anos de seu Rio 65 Trio, em um concerto no Carnegie Hall, Salvador convidou Duduka para substituir o lendário baterista Edison Machado (1934-1990), da formação original do trio.

Duduka retribuiu o convite do mestre paulista com uma bela homenagem: em 2018, lançou um álbum com repertório integralmente dedicado à obra musical de Dom Salvador, que hoje já reúne mais de 300 composições autorais. O programa que focaliza esses craques da música instrumental brasileira será exibido em 20/07.

Dois grandes violonistas protagonizam o último programa dessa série, que irá ao ar em 27/07. O carioca Romero Lubambo já se destacava na cena instrumental brasileira, em 1985, quando se mudou para Nova York. Hoje é admirado por sua versatilidade, ao se apresentar e gravar com artistas de diversos gêneros musicais, como as cantoras Dianne Reeves e Angélique Kidjo, o saxofonista Paquito D’Rivera ou o violinista Yo-Yo Ma.    

Por outro lado, o paulista Chico Pinheiro já era um instrumentista consagrado, em 2016, quando trocou São Paulo por Nova York. Suas colaborações com astros do jazz, como Ron Carter, Brad Mehldau e Esperanza Spalding, assim como João Donato, Dori Caymmi e outros craques da música brasileira, falam por si. A afinidade musical de Lubambo com Pinheiro é evidente em “Two Brothers”, álbum gravado por eles em 2021. Gravações desse disco em parceria abrem o repertório do programa que vai ao ar em 3/08, na Cultura FM de São Paulo, encerrando a série “Brasileiros do Mundo”.     

BRASILEIROS DO MUNDO - Série de cinco programas, que vai ao ar a partir de 29/06, nos domingos, às 14h, pela Cultura FM (103,3) de São Paulo. Roteiros e apresentação: Carlos Calado. Direção: Inez Medaglia. Se preferir, ouça esses programas ao vivo pelo site da Cultura FM no portal UOL, por meio deste link: https://cultura.uol.com.br/aovivo/4_ao-vivo-radio-cultura-fm.html

                        

Luciana Souza e Trio Corrente: uma parceria muito especial em show e disco

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                                O pianista Fabio Torres, do Trio Corrente, e a cantora Luciana Souza 

Essa é uma parceria musical que pode ser considerada fora de série. Luciana Souza, uma das cantoras brasileiras mais conceituadas na cena internacional do jazz, gravou um disco com o brilhante grupo instrumental paulistano Trio Corrente. Lançado em agosto pelo selo nova-iorquino Sunnyside, “Cometa” já ostenta uma indicação para o prêmio Grammy 2024, na categoria melhor álbum de jazz latino.  

O prazer e a alegria que essa nova parceria está proporcionando aos quatro artistas era evidente no show de lançamento do álbum (em 15/12, no Sesc 24 de Maio), em São Paulo. Ao cumprimentar a plateia, o pianista Fabio Torres chamou atenção para um detalhe que contribui para que esse show seja tão especial. Diferentemente da maioria dos cantores, que costumam ficar postados à frente dos músicos nos palcos, Luciana faz questão de cantar ao lado deles.  

Nada mais adequado, já que ela não é apenas uma grande intérprete vocal. Essa paulistana radicada há décadas nos Estados Unidos é também, na verdade, uma inventiva instrumentista, que utiliza sua voz privilegiada para improvisar, exatamente como fazem os músicos do Trio Corrente. Essa proximidade, no palco, permite que Luciana interaja com seus parceiros durante todo o show, especialmente quando estão improvisando. Como sugeriu o pianista, assim o trio se transforma em quarteto.

O repertório do show foi escolhido, principalmente, entre as faixas do álbum “Cometa”. Além de releituras de clássicas canções de Dorival Caymmi (“Você Já Foi à Bahia?”), Tom Jobim & Vinicius de Moraes (“Sem Você”) e Paulinho da Viola (“Rumo dos Ventos”), entram também composições autorais de Luciana e seus parceiros: Fabio, o contrabaixista Paulo Paulelli e o baterista Edu Ribeiro.

Para quem perdeu esses preciosos shows, Luciana deixou uma boa notícia, na apresentação de sexta. Após uma extensa turnê de shows pelos Estados Unidos que ela e o Trio Corrente farão no primeiro semestre de 2024, seguida por uma turnê europeia, há planos de mais shows pelo Brasil, no segundo semestre. Vale lembrar também que o álbum “Cometa” já está disponível em algumas plataformas. Jazz brasileiro de alto quilate!


Banda Mantiqueira: big band paulista festeja seus 30 anos em turnê pelo Estado

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Grande referência na área da música instrumental e do jazz criados no Brasil, a Banda Mantiqueira abre o ano com uma série de shows em teatros do estado de São Paulo, para comemorar seus 30 anos de atividades.

Liderada pelo clarinetista, saxofonista e arranjador Nailor Proveta, a big band paulista combina em seu repertório arranjos instrumentais de clássicos do samba, do choro, do frevo, do baião, da bossa nova e do jazz.

A turnê comemorativa começa neste sábado (19/2), às 20h, no Teatro Paratodos de Botucatu. Em seguida, a Mantiqueira se apresenta em Limeira (11/3), Santos (20/3), Tatuí (1.º/4), Taubaté (3/4) e São Caetano (24/4). Ingressos a R$ 5 e R$ 10.

Difícil imaginar um grupo musical mais brasileiro do que essa big band nascida no bairro paulistano do Bixiga, que toca, com personalidade e refinamento, gêneros musicais originários de vários cantos do país. Parabéns e vida longa à Banda Mantiqueira!

Tuto Ferraz: os "clássicos" do baterista e compositor no Blue Note de São Paulo

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                                            O baterista Tuto Ferraz e o baixista Rui Barossi, no clube Blue Note SP

Foi assim, em preto e branco, que visualizei a apresentação do sexteto do baterista Tuto Ferraz, ontem (16/5), em São Paulo. Não só por estar no Blue Note, recém-inaugurada franquia do clube nova-iorquino, cujo nome remete à gravadora responsável por muito do que se produziu de melhor no jazz dos anos 1950 e 1960. Foi quase sempre em p&b, que fotógrafos que admiro, como William Claxton, Herman Leonard e Francis Wolff, retrataram essa música.


Seis anos atrás, ao lançar seu saboroso álbum “À Deriva”, Tuto me disse que o jazz produzido entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960 é o seu favorito. Além disso, suas composições têm um quê de clássicos da canção norte-americana, os chamados “standards”, que fazem parte do repertório dos jazzistas: melodias simples e cantáveis, que grudam em nossos ouvidos. Se você ouvir o valsante “Bom Dia” ou o samba “Chorando na Gafieira”, temas que a plateia do Blue Note paulistano aplaudiu calorosamente ontem, vai concordar comigo. 


Ao lado de outros cinco craques da cena instrumental de São Paulo (o pianista Pepe Cisneros, o saxofonista Josué dos Santos, o trompetista Bruno Belasco, o contrabaixista Rui Barossi e o guitarrista Agenor de Lorenzi), Tuto tocou grande parte do repertório do álbum “À Deriva”. Também exibiu um tema inédito, “Tango Russo”, que estará no álbum de jazz que ele promete gravar em breve. A amostra do que vem por aí deixou água na boca.


 

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