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Luciana Souza: cantora radicada nos EUA recria jóias da MPB com uma big band

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Acostumada a uma intensa rotina de concertos, turnês, gravações e aulas, Luciana Souza viu pela primeira vez um disco seu ser lançado sem algum show ou evento especial. Quando “Storytellers”, seu 13.º álbum, chegou ao mercado, no final de março, a cantora e compositora paulistana  hoje uma das intérpretes mais conceituadas na cena mundial do jazz  já estava em quarentena para se proteger do coronavírus. 

“Eu não queria correr mais riscos”, diz ela, de sua casa em Los Angeles, onde vive com o marido, o produtor musical Larry Klein, e o filho Noah. Luciana lembra que tomou a decisão de suspender concertos e viagens logo na primeira semana de março, horas antes de um show com o violonista Chico Pinheiro, em Michigan. Ficou tão assustada com o noticiário da TV, que desistiu de se apresentar com a banda Yellowjackets, em Nebraska, poucos dias depois.

Voltando ao novo disco, ainda não foi desta vez que ela concretizou o sonho de gravar um álbum com canções de seus pais (o violonista Walter Santos e a letrista Tereza Souza, expoentes da bossa nova em São Paulo e fundadores da lendária gravadora Som da Gente). Um projeto mais difícil de realizar, admite a cantora, por causa de “um pequeno problema”: as gravações com orquestra e os arranjos de cordas, assinados por craques como Vince Mendoza e Dori Caymmi, resultariam em um orçamento de pelo menos 100 mil dólares.

Foi o mesmo Mendoza, premiado regente e compositor americano, quem escreveu os arranjos e produziu o álbum “Storytellers”, uma parceria de Luciana com a banda alemã WDR Big Band Cologne. Curiosamente, a gravação desse disco não estava no projeto original. Convidados a fazer alguns concertos com essa big band, em 2017, a cantora e o arranjador selecionaram um sofisticado repertório de música brasileira. Só meses depois surgiu a ideia de lançar o disco, utilizando as ótimas gravações realizadas durante os ensaios.

“A WDR é uma banda que tem fome de tocar”, elogia Luciana, comentando que os músicos dessa big band ensaiam cinco dias por semana durante nove meses do ano. “Eles tocam com um grau de relaxamento que os músicos americanos desconhecem, porque podem se dar ao luxo de passar o dia juntos, ensaiando e tocando. Cantar com uma big band como essa me deixa feliz e relaxada. É só respirar e cantar”.

O repertório do álbum é de primeira linha: canções repletas de lirismo, como “Chora Coração” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque) e “Meu Pai” (Guinga); um inspirado xote de Ivan Lins e Lenine (“Se Acontecer”); um saboroso samba de Gilberto Gil (“Mar de Copacabana”) e uma antiga composição, sem letra, da própria Luciana (“Baião a Tempo”), entre outras.

Na opinião da cantora, entre tantas belezas, “o centro do disco” é a gravação de “Matita Perê” (de Jobim e Paulo Cesar Pinheiro), uma épica declaração de amor à natureza no Brasil. Não à toa, Luciana escolheu para a capa do álbum uma expressiva imagem do Rio Juruá (na Amazônia), clicada em preto e branco pelo fotógrafo Sebastião Salgado. “O trabalho dele, como o de Jobim, repousa como uma das obras mais importantes e impactantes que já surgiram no Brasil”, avalia a intérprete, em um texto no encarte do disco.

Diferentemente do que suspeitam alguns pessimistas, Luciana não teme que a atual pandemia possa ameaçar o futuro da música ao vivo. “Acho que os teatros e clubes vão reabrir quando possível. Algumas pessoas terão medo de ir, inicialmente, mas isso não será definitivo. Até se descobrir uma vacina para essa doença, tudo será transitório”, prevê a cantora, que já tem um concerto agendado, no final do ano, num teatro de Los Angeles, sem a presença de plateia. Essa apresentação será transmitida por streaming.

“Isso é meio triste, mas é o que podemos fazer agora. Não podemos colocar as vidas das pessoas em risco”, comenta a cantora, preocupada com o futuro do Brasil e dos Estados Unidos. “Há uma tragédia política acontecendo hoje no mundo. Como o governo americano, o governo brasileiro optou por um caminho errado, trágico e cruel. Infelizmente, o nosso presidente não tem respeito pela vida do próximo. Se a gente tivesse um presidente mais coerente com a ciência, provavelmente não teríamos tantos mortos no país. Isso me entristece muito”.

Em meio à recorrente discussão sobre como esta longa quarentena poderá alterar nossos hábitos, Luciana sugere que ela seria uma oportunidade para se discutir e modificar o injusto pagamento de direitos autorais aos músicos, nas plataformas digitais. Como exemplo, ela revela seu próprio rendimento, no aplicativo de streaming Spotify, onde seus discos alcançam a média mensal de 50 mil “streams” (a audição de uma música por mais de 30 segundos).

“Se eu ganhasse um centavo de dólar por cada ‘stream’, receberia 5 mil dólares por mês – quantia que já me ajudaria bastante. Só que pelo sistema atual eu recebo uma parcela infinitamente menor: 38 dólares, em média, por mês”, diz a cantora. “Será que a gente não poderia reeducar as novas gerações? Por que não tentarmos convencer as pessoas a pagarem um valor mais justo por um produto que foi criado por um artista?”.


(Texto publicado no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico", em 12/6/2020)




Antonia Adnet: violonista e cantora mostra que crescer em ambiente musical faz diferença

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Ela surgiu sete anos atrás, tocando violão na banda da cantora Roberta Sá. Agora, aos 27 anos, a também compositora, arranjadora e cantora Antonia Adnet – filha do conceituado arranjador e violonista Mario Adnet – lança "Pra Dizer Sim" (selo Universal), seu segundo álbum, sugerindo que crescer num ambiente musical pode fazer muita diferença na formação de qualquer artista.

Além de ser autora de oito das doze canções do álbum, com vários parceiros letristas, Antonia também assina quase todos os bem cuidados arranjos. Sambas, toadas e canções dominam o repertório inédito, que ela interpreta com a voz delicada, incluindo também saborosas releituras de “Nanã” (de Moacir Santos) e “Flor de Maracujá” (João Donato e Lysias Ênio).

Participações dos cantores Joyce (no doce “Frevo em Tamandaré”), Pedro Miranda (no bem humorado “Boogie Woogie do Rato”, de Denis Brean) e Lenine (na canção pop “Giz”) referendam o talento de Antonia. Bom presságio para aqueles que ainda preferem consistência musical, em meio a tanta aparência vazia. 

(resenha publicada originalmente no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/6/2012)



Quinteto Violado: show, exposição e livro comemoram os 40 anos do grupo

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Um dos grupos mais originais e longevos na história da música popular brasileira, o Quinteto Violado encerra neste fim de semana, na Caixa Cultural, em São Paulo, a temporada de espetáculos gratuitos em comemoração a seus 40 anos de carreira. Uma exposição multimídia sobre a obra do grupo integra o evento, que já percorreu outras quatro capitais do país.

A trajetória do Quinteto Violado pode ser apreciada também na recém-lançada biografia “Lá Vêm os Violados” (Edições Bagaço), do jornalista e crítico musical paraibano José Teles, autor de “Do Frevo ao Manguebeat” (Editora 34, 2000), entre outros livros sobre a música de Pernambuco.

Apoiando-se em entrevistas e vasto material de arquivo, Teles aborda em sua narrativa os 39 discos (muitos ainda não editados em CD), os espetáculos musicais e as turnês desse grupo pernambucano, que hoje conta com apenas um remanescente da formação original: o violonista e também paraibano Marcelo Melo.

Influenciado pelo seminal Quarteto Novo (de Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Théo de Barros e Airto Moreira), ao qual foi muitas vezes comparado, o Quinteto Violado estreou em disco, em 1972, já em meio a grande expectativa, graças a elogios do tropicalista Gilberto Gil amplificados pela mídia nacional.

“Mas o que é que o Quinteto Violado trazia em seu matulão para atrair tamanha atenção? A música da região nordestina, mais a pernambucana, com um tempero pop, palatável. Somente em Pernambuco poderia ter surgido um conjunto assim”, afirma o autor, destacando que um dos méritos do grupo foi ter divulgado, fora de seu Estado, ritmos pouco conhecidos, como o maracatu, a ciranda ou mesmo o frevo.

Teles também observa ao longo do livro que a música do grupo nem sempre foi bem compreendida pela imprensa do eixo Rio-São Paulo. Eram frequentes, por exemplo, as errôneas associações do Quarteto Violado ao Movimento Armorial, liderado pelo escritor e “guru” Ariano Suassuna. “Com exceção da utilização de elementos da cultura popular, nada convergia para a semelhança estética ou ideológica do QV com os Armoriais”, afirma o jornalista.

De sensação na cena musical brasileira dos anos 1970, o grupo pernambucano se viu relegado à produção independente, nas décadas seguintes, com menor exposição nacional, mas não desistiu. Já nos anos 1990, seu álbum “Quinteto Canta Vandré” (1997) voltou a atrair grande interesse no resto do país.

Bem recebido também foi o CD “Farinha do Mesmo Saco” (1999), no qual o grupo interpretou repertório de compositores da nova cena musical pernambucana, como Chico Science, Jorge Du Peixe, Fred 04, Ortinho e Lenine. Como já fazia desde 1972, o Quinteto Violado misturou mais uma vez, nessas gravações, tradição e contemporaneidade, imprimindo sua estética sonora. Não é à toa que continua a ser uma referência na música popular brasileira.


(texto publicado parcialmente na Folha de S. Paulo, edição de 7/04/2012)

 

 

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