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Tirando de Letra: octeto recria canções de Dominguinhos em projeto instrumental

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                                Ricardo Herz (2.º da esq. para dir.) e os músicos que o acompanharam no show 

Se você é fã da música de Dominguinhos (1941-2013) e vive em São Paulo, não perca a última chance de ir ao show do projeto Tirando de Letra, hoje, às 18h, no Sesc 24 de Maio. Toadas, xaxados, baiões e valsas do mestre sanfoneiro ganharam cores e timbres inusitados, nas releituras instrumentais que o violinista e arranjador Ricardo Herz criou especialmente para o projeto. 

Para tocar seus inéditos arranjos, Herz formou um octeto com craques da música instrumental brasileira: Jaques Morelenbaum (violoncelo), Léa Freire (flautas), Alexandre Ribeiro (clarinete e clarone), Salomão Soares (piano e teclado), Michi Ruzitschka (violão de sete cordas), Pedro Ito (bateria) e Guegué Medeiros (percussão).

O fato de não incluir uma sanfona nesse grupo é estratégico, num projeto que incentiva o contato com a música instrumental por meio de clássicos do do cancioneiro brasileiro. Herz recorreu a outros instrumentos para emprestar novas tonalidades às melodias de Dominguinhos, como na lindamente triste canção “Contrato de Separação” ou no sacudido baião “Arrebol”. Claro que as melodias mais populares de Dominguinhos, como “Eu Só Quero um Xodó”, “De Volta pro Aconchego” ou “Lamento Sertanejo”, também estão presentes nesse show.

“Dominguinhos é a cara do Brasil que a gente quer”, sintetiza muito bem Herz, no programa distribuído à plateia, observando que, por meio de sua arte, o generoso sanfoneiro se dirigiu tanto aos brasileiros do norte ao sul do país, como aos estrangeiros. Uma lição de diversidade e democracia cultural, que os burrocratas instalados em órgãos governamentais dessa área deveriam aprender urgentemente.



Festival Etapa de Música de Arte: 10ª edição leva Gismonti e João Bosco a Valinhos (SP)

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                              A Nelson Ayres Big Band, que vai abrir o 10º Festival Etapa de Música de Arte 

Se você é um apreciador de música brasileira de alta qualidade, seja ela instrumental ou vocal, não deixe de conferir a programação do Festival Etapa de Música de Arte, que vai realizar sua 10ª edição, de 19 a 28 de agosto, na cidade de Valinhos, no interior paulista.

Astros da chamada MPB, como o violonista e cantor João Bosco (na foto abaixo), o compositor e bossa-novista Carlos Lyra ou a cantora Paula Morelenbaum com o trio do violoncelista Jaques Morelenbaum, estarão no elenco desse evento, que também destaca expoentes da música instrumental e do jazz brasileiro, como o multi-instrumentista Egberto Gismonti, a Nelson Ayres Big Band e o especial encontro dos violonistas do Duofel com o saxofonista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva.

Responsável pela direção e produção desse festival desde a primeira edição, em 2007, o engenheiro Luiz Amaro conta que o projeto surgiu a partir da constatação que a região metropolitana de Campinas –- onde fica a unidade Valinhos do Colégio Etapa –- não contava com eventos musicais de qualidade em sua programação cultural.

“Como o campus do Etapa possui um teatro pensado e construído como todo esmero técnico e infraestrutura, o caminho lógico para uma escola que se preocupa muito com a cultura foi a criação de um evento para ajudar a suprir essa lacuna”, explica o diretor do festival.  

Nessa populosa região paulista, onde um polo de tecnologia convive com universidades, há um público de alto nível cultural e econômico que tem acompanhado assiduamente esse evento. “A resposta da plateia ao longo desses anos tem sido muito estimulante. Nos concertos, vejo um grande número de pessoas que frequentam o festival desde seu início e raramente perdem uma apresentação”, comenta Amaro.

Para quem estranha o termo “música de arte” que denomina o evento, em meio a tantos festivais de jazz, blues ou rock produzidos atualmente nos mais diversos cantos do país, o diretor do Festival Etapa justifica a originalidade de sua marca.

“A proposta, desde o início, foi trazer para a região o que há de melhor na música, especialmente a brasileira, seja ela popular, erudita, instrumental ou vocal. Embora o termo jazz abarque uma gama bastante ampla de manifestações musicais, achamos que ainda assim seria restrito. Música de Arte nos pareceu traduzir a música criativa, de qualidade, feita sem objetivos mercadológicos", explica Amaro.

Se, já na primeira edição, o evento levou a Valinhos o violonista Hélio Delmiro, o saxofonista Roberto Sion ou o grupo Moderna Tradição (com o pianista Benjamim Taubkin e o clarinetista Nailor Proveta), nos anos seguintes o evento manteve seu alto nível musical. Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Zimbo Trio, Pau Brasil, Yamandú Costa, Eumir Deodato, Romero Lubambo, João Donato, Hamilton de Holanda e a Banda Mantiqueira já se apresentaram no Festival Etapa de Música de Arte, entre tantas outras atrações de peso.

Neste ano, a renda obtida com a venda dos ingressos para o festival –- a R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira) –- será revertida para a Orquestra Filarmônica de Valinhos, que vai realizar concertos gratuitos para a população da cidade.

Venda de ingressos e mais informações no site do Festival Etapa de Música de Arte

Savassi Festival 2016: evento de música instrumental terá noite de gala com Edu Lobo

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                              O percussionista Sergio Krakowski, tocando para crianças, no Savassi Festival

Dezenas de shows e concertos em teatros, museus, praças, parques e restaurantes de Belo Horizonte (MG), de 24/6 a 4/7, chamam atenção no programa do 14º Savassi Festival, mas esse evento oferece bem mais. Um dos maiores e mais diversificados festivais brasileiros dedicados à música instrumental e ao jazz, ele também promove workshops, lançamentos de discos, apresentações de DJs e concursos de novos talentos e de fotografia.

A “noite de gala” em homenagem a Edu Lobo (na foto abaixo), em 25/6, promete ser uma das atrações mais disputadas na edição deste ano. Acompanhado pela Orquestra Ouro Preto, o cantor e compositor carioca, expoente da MPB, também terá a seu lado o pianista Gilson Peranzzetta e o saxofonista Mauro Senise – duo instrumental que já lançou um disco dedicado à sua obra.  


Entre os shows já confirmados também se destacam: o do cellista carioca Jaques Morelenbaum e seu CelloSam3aTrio;
o quarteto do guitarrista paulista Chico Pinheiro; o trio do pianista mineiro Rafael Martini; o sexteto do contrabaixista paulista Marcos Paiva; o quarteto do pianista mineiro Zé Namen; o trio do pianista capixaba Hercules Gomes; o trompetista alagoano Joatan Nascimento e o violonista mineiro Geraldo Vianna, entre outros.

Como já fez em edições anteriores, o festival volta a apresentar duos formados por instrumentistas estrangeiros com brasileiros, como o do pianista norte-americano Kevin Hays com o pandeirista Sergio Krakowski (brasileiro radicado em Nova York), ou o duo do pianista israelense Alon Yavnai com o percussionista carioca Joca Perpignan.

Um dos sucessos do ano passado, a programação musical para crianças, agendada para a tarde de 3/7, na praça Floriano Peixoto, também promete atrair um grande público: além dos shows “O Jazz de Snoopy e Charlie Brown”, com o Cliff Korman Quartet, e “Hermeto Pascoal para Crianças de Todas as Idades”, com o multiinstrumentista Felipe José, o pianista Benjamim Taubkin (na foto abaixo) vai exibir releituras instrumentais de canções de Chico Buarque. Nessa noite, Taubkin também se apresenta com seu quarteto, o Trio+1, na Praça da Liberdade.
 

Já neste final de semana, duas atrações antecipam a programação principal do evento, em Belo Horizonte. Ministrado pelo músico e educador Zé Gabriel, no Centro Cultural Venda Nova (sábado, 14/5), o workshop “Raízes do Jazz” oferece vivência de ritmo, expressividade e percepção musical para crianças. Em três shows no Memorial Minas Vale (de 14 a 16/5), a flautista paulista Léa Freire e o pianista mineiro José Namen vão se apresentar em duo.

Vale lembrar que o Savassi Festival também costuma levar atrações para outras cidades de Minas, ou mesmo para outros estados do país. Neste ano ele se estende às cidades de Nova Lima (28 e 29/5) e Uberlândia (28/5), além de programar uma semana de eventos no Rio de Janeiro (de 23 a 30/6).  


Na capital fluminense, a programação destaca shows do Joana Queiroz Sexteto (25/6) e de três duos instrumentais: Gilson Peranzzetta e Mauro Senise (26/6), Kevin Hayes e Sérgio Krakowski (28/6) e Clarice Assad e André Muato (30/6), que fará uma homenagem a Milton Nascimento.

Mais informações no site oficial do festival: http://www.savassifestival.com.br/

Melhores discos de 2014: dez sugestões de jazz, MPB e música instrumental de ótima qualidade

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Como em anos anteriores, aceitei o convite de Juarez Fonseca (crítico musical de Porto Alegre e colega que admiro há décadas) para descascar um imenso abacaxi: escolher os melhores discos lançados no Brasil em 2014. Claro que estou acostumado a participar de enquetes como essa, mas a cada ano que passa essa tentativa se torna mais difícil, graças à crescente pulverização do mercado musical.


Esta é a minha lista (em ordem alfabética), que deixo aqui como uma sugestão para quem quiser aumentar seu repertório de canções brasileiras, jazz e música instrumental de excelente qualidade, ou mesmo para quem quiser conhecer alguns novos e talentosos artistas. Alguns desses álbuns até já foram resenhados neste blog ao longo de 2014. Se quiser ler alguma dessas resenhas , é só clicar no título do CD.


- André Mehmari, “Ernesto Nazareth - Ouro Sobre Azul” (Estúdio Monteverdi)
- David Feldman, “Piano” (independente)
- Jaques Morelenbaum e CelloSambaTrio, “Saudade do Futuro, Futuro da Saudade" (Biscoito Fino)
- Keith Jarrett & Charlie Haden, “Last Dance” (EMC/Borandá)
- Luciano Salvador Bahia, “Abstraia, Baby” (Dubas)
- Marco Pereira e Toninho Ferragutti, “Comum de Dois” (Borandá)
- Marlui Miranda, “Fala de Gente, Fala de Bicho” (Sesc)
- Monica Salmaso, “Corpo de Baile” (Biscoito Fino)
- Paquito D’Rivera e Trio Corrente, “Song for Maura” (Sunnyside/Tratore)
- Ronen Altman, “Som do Bando” (Sonora)

Aqui o link para o resultado dessa enquete, publicada hoje pelo jornal gaúcho "Zero Hora", além das listas dos outros críticos e colegas que participaram: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/01/criticos-de-musica-do-pais-elegem-melhores-discos-de-2014-4673874.html

Jaques Morelenbaum: trio faz viagem sentimental pelo passado do samba

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Muitos trios instrumentais brilharam na história da bossa nova e do samba-jazz, mas nenhum com a singular formação do CelloSambaTrio. Criado em 2004 pelo violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum, esse grupo, que destaca também o violão de Lula Galvão e a percussão de Rafael Barata, parece já ter nascido clássico.

No esperado álbum de estreia do trio, "Saudade do Futuro, Futuro da Saudade" (lançamento Mirante), 
o violoncelista carioca e seus parceiros fazem uma viagem sentimental pelo passado do samba: do gingado choro de Jacob do Bandolim, “Receita de Samba”, ao sestroso “Eu Vim da Bahia” (de Gilberto Gil), em versão calcada na gravação de João Gilberto, cujo “álbum branco” (lançado em 1973) inspirou a criação do próprio CelloSambaTrio.

Faixas autorais, como a lírica “Maracatuesday” (de Morelenbaum) ou o samba “Abaporu” (do violonista Lula Galvão), indicam que esse trio tem um futuro promissor à sua frente. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 25/10/2014)





Tetê Espíndola: seu novo álbum e o cultuado "Pássaros na Garganta" em CD duplo

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Não é justo o ônus que a cantora Tetê Espíndola suporta por possuir uma voz privilegiada, além de ser uma intérprete e compositora diferente dos padrões convencionais da música popular brasileira. Em três décadas de carreira profissional, ela já gravou quase duas dezenas de discos originais e criativos, que combinam influências sertanejas mato-grossenses e da música do mundo com experimentações vanguardistas. 

Chegou a se tornar conhecida em todo o país, em 1985, ao vencer o Festival MPB Shell, como intérprete da canção “Escrito nas Estrelas” (de Arnaldo Black e Carlos Rennó). Porém, até hoje Tetê não desfruta todo o prestígio que uma artista de sua estirpe mereceria. E com o passar do tempo, ironicamente, ainda se tornou alvo de humoristas de segunda categoria, que volta e meia tentam imitar sua voz aguda de soprano em troca de risos amarelos.


Injustiças como essas só aumentam a relevância do projeto “Álbum”, CD duplo produzido pelo selo Sesc que destaca o novo disco da cantora, “Asas do Etéreo”, além da reedição do cultuado “Pássaros na Garganta” (1982). Os shows de lançamento – dias 19 e 20, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo – vão reunir convidados especiais: os multi-instrumentistas Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, o compositor Arrigo Barnabé, os violonistas do Duofel, o violoncelista Jaques Morelembaum e o trombonista Bocato, entre outros conceituados músicos que participaram das gravações do disco “Asas do Etéreo”. 

Inédito até hoje no formato CD, o álbum “Pássaros na Garganta” ainda é capaz de surpreender, ou mesmo intrigar, aqueles que só conhecem Tetê Espíndola como a cantora do sucesso “Escrito nas Estrelas”. Canções de temática interiorana, como “Cunhataiporã” (de Geraldo Espíndola), “Sertaneja” (Rennê Bitencourt) ou “Amor e Guavira” (Tetê e Carlos Rennó), são interpretadas por ela em tons agudíssimos que só vozes excepcionais conseguem alcançar. Por outro lado, também brilham nesse álbum inventivas composições de Arrigo Barnabé, como “Ibiporã”, na qual Tetê reproduz com humor os sons de “uma rã que salta e que ri”, ou a atonal “Jaguadarte”, cujos versos do poeta Augusto de Campos recriam um poema de Lewis Carroll, em contemporâneo arranjo do pianista Félix Wagner. 


Nada mais natural que, três décadas depois dessas gravações, a inquieta Tetê continue a explorar regiões e nuances de sua rara extensão vocal, no novo álbum. Em “Passarinhão” (parceria com Marta Catunda), ela soa como contralto, ao fazer rasantes voos vocais ao lado de Luiz Bueno e Fernando Melo, os inventivos violonistas do Duofel, que a acompanharam na década de 1980. 


Reencontros como esse ocupam boa parte do disco, que reúne material inédito composto por Tetê em diferentes épocas. Como “Amarelando”, canção pop que ela colore com as cordas de sua craviola, em duo descontraído com o trombone de Bocato, seu ex-colega na banda Sabor de Veneno, comandada por Arrigo Barnabé. Este, em participação mais discreta, contribui com seu expressivo vozeirão, criando ruídos vocais, na soturna “Diga Não”. Já a canção “Asas do Etéreo”, uma das mais belas do álbum, conta com os sons inspiradores das flautas de bambu de Teco Cardoso. 

Também há duos com outros instrumentistas que Tetê, sempre acompanhada por sua craviola, convidou especialmente para esse projeto. A doce canção “Acácias” ganha contracantos inusitados graças ao piano de Egberto Gismonti. Beleza também não falta à gravação de “Menina” (parceria da cantora com Arnaldo Black), cuja gravação conta com o sensibilidade musical do violoncelista Jaques Morelenbaum. Já o arranjo do melancólico samba “Triste Acauã” (parceria com Breno Ruiz) assume ares de trilha sonora com a percussão corporal e o insólito berimbau de boca de Marcelo Pretto, do grupo Barbatuques.

A faixa final não poderia soar mais saborosa: em “Crisálida-Borboleta” (parceria de Tetê com o letrista Carlos Rennó), os engenhosos trocadilhos dos versos dialogam com os improvisos que Hermeto Pascoal desenha no teclado de sua escaleta. Quem deixar de lado os estereótipos e preconceitos, que contribuíram para eclipsar a obra musical de Tetê durante as últimas décadas, pode encontrar boas surpresas ao escutar este oportuno “Álbum”. 


(Texto publicado originalmente no jornal "Valor Econômico", em 13/3/2014) 

5º CopaFest: evento carioca celebra a diversidade da música instrumental

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                                                                       Wilson das Neves e sua orquestra / Photo by Carlos Calado

Foram três noites animadas e ecléticas. Quem acompanhou a quinta edição do CopaFest, no último fim de semana, no Rio de Janeiro, ouviu samba, baião, funk, jazz, choro, bossa nova, maracatu, salsa, reggae, até rock. Talvez esta seja a melhor definição desse evento: um festival de música instrumental brasileira sem preconceitos.

Isso ficou mais evidente ainda na última noite, que se estendeu pela madrugada de domingo. Liderando sua pequena orquestra, o veterano baterista e sambista carioca Wilson das Neves recriou sucessos da MPB, como “Zazuêra” (de Jorge Ben), “Irene” (Caetano Veloso) e “Essa Moça Tá Diferente” (Chico Buarque). Os suingados arranjos instrumentais da banda animaram dezenas de casais a sair dançando, nas beiradas do salão do Hotel Copacabana Palace. Tudo a ver, já que o sugerido formato da noite era mesmo o de um baile.

Claro que o repertório essencialmente instrumental, centrado no álbum “O Som Quente É o das Neves” (de 1976), não impediu que o sambista cantasse seu sucesso (e hoje cartão de visita) “O Samba É Meu Dom”, com a plateia fazendo coro com ele, ao entoar os versos de Paulo César Pinheiro.

“Ô, sorte!”, brincou Das Neves, arrancando sorrisos dos fãs com seu popular bordão. Depois, retornou à bateria para comandar uma contagiante versão, em ritmo de samba, do funk “Pick Up the Pieces” (sucesso da escocesa Average White Band). E, no melhor estilo das bandas de New Orleans, fechou a apresentação com a festiva “When the Saints Go Marching In”. 

                                                                    Pepeu Gomes e seu filho Felipe Pascoal (no fundo)

No primeiro show do sábado (3/11), Pepeu Gomes já havia transformado o salão do Copa em uma excitante arena de rock. “Vai ser alto!”, avisou logo o guitarrista baiano, elevando ao máximo o volume de seu instrumento – sem falar no naipe de sopros, que deu mais consistência sonora à sua banda. Ou ainda as presenças do irmão Didi Gomes, no baixo, e de outros dois guitarristas: seu filho Felipe Pascoal e Davi Moraes.

Pepeu exibiu sua pegada roqueira até mesmo em uma seleção de clássicos choros, como “Noites Cariocas” (Jacob do Bandolim), “Brasileirinho” (Waldir Azevedo) e “Lamento” (Pixinguinha). Relembrou também alguns de seus dançantes sucessos dos anos 70 e 80, como “Malacaxeta” e “Cartagena”. Pelas expressões de alguns espectadores mais jovens, que provavelmente só o conheciam pelos discos, o guitarrista foi a surpresa da noite.



                                                   O guitarrista e compositor Kassin / Photo by Carlos Calado

Os shows da sexta-feira (2/11), mesmo bem diferentes entre si, revelaram algo em comum: muitas composições inéditas. À frente da banda Magnética Intergaláctica, o guitarrista e produtor carioca Kassim prendeu a atenção da plateia por quase duas horas com temas que compôs para o animê “Michiko to Hatchin”. Para isso contou com toda a experiência do tecladista Lincoln Olivetti (grande destaque do CopaFest no ano passado) e os eficazes arranjos do flautista Felipe Pinaud.

Atração mais esperada do festival, o “supergrupo” Shinkansen – com o mineiro Toninho Horta (guitarra), o paulista Liminha (baixo elétrico) e os cariocas Marcos Suzano (percussão) e Jaques Morelenbaum (cello e teclado) – mostrou pela primeira vez, num palco, o eclético e quase todo inédito repertório de seu CD de estreia, que será lançado só em 2013.



                             Suzano (esq. para dir), Morelenbaum, Liminha e Horta / Photo by Carlos Calado

 
“Shinkansen é o trem, é a nossa vontade de ir além”, disse Morelenbaum, tentando definir a proposta do quarteto, mas sua música criativa já estava falando por si. Entre várias referências ao Japão, o delicado baião “Hai-Kai”, a hipnótica “Maracatuesday”, a percussiva “Thousand Volts” ou o samba “Shinkansen” combinam lirismo e experimentações sonoras.

O tecladista e compositor carioca Eumir Deodato – expoente da bossa nova radicado nos EUA, que abriu o festival na quinta-feira – trouxe uma panorâmica de sua obra. Lembrou arranjos que escreveu para o cinema e para a TV, como “Peter Gunn” e “Carly & Carole”, uma versão funk-soul de “Summertime” (Gershwin) e ainda fez questão de exibir algumas de suas incursões pelo pop/rock.



                                                          Eumir Deodato (de branco) / Photo by Carlos Calado

Deodato chegou a tocar o pesado rock “Black Dog” (Led Zeppelin) e a suingada “Do It Again” (Steely Dan), mas o clímax de sua apresentação foi mesmo o inventivo arranjo de “Also Sprach Zarathustra” (Richard Strauss), que fez para a trilha do filme “2001”, de Stanley Kubrick, misturando música clássica e pop – não à toa escolhido para o bis exigido pela plateia.

Um país como o nosso, com uma música instrumental tão rica e diversificada, pode certamente inspirar outras saborosas edições do CopaFest por muitos anos.

(resenha publicada parcialmente, na “Folha de S. Paulo”, em 6/11/2012) 


 

5º CopaFest: supergrupo Shinkansen estreia em festival de música instrumental

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                                           Toninho Horta, Liminha, Marcos Suzano e Jaques Morelenbaum 

Bastante requisitados nos estúdios de gravação durante as últimas décadas, esses quatro conceituados músicos nem imaginaram que um dia formariam um “supergrupo” como este. O Shinkansen é uma das atrações da quinta edição do CopaFest, evento de música instrumental brasileira, que vai agitar o salão Cristal do Hotel Copacabana Palace, no Rio, de 1 a 3/11 (quinta a sabado).

O idealizador do quarteto foi o violonista e compositor mineiro Toninho Horta, um dos líderes do lendário Clube da Esquina. No ano passado, durante as gravações de seu novo CD “Harmonia e Vozes”, ele formou o Shinkansen, pensando em levar o baixista e produtor Liminha (ex-Mutantes) ao Japão pela primeira vez.

“Liguei para o Marcos Suzano, que já esteve lá mais de 30 vezes, e gostou logo da ideia”, conta Horta. “Como ele e Liminha são músicos mais percussivos, pensei então que precisava de um companheiro nas harmonias. Daí lembrei do Jaques Morelenbaum, que também já tocou muito no Japão. Logo marcamos uma sessão de uma semana para gravar o disco”.  

Ex-parceiro de Gilberto Gil e Lenine, o percussionista carioca Marcos Suzano diz que as gravações foram estimulantes. “O disco ficou bacana porque tem a cara dos quatro. Não houve uma direção, na hora de gravar. Foi um bate-bola bem maneiro”, compara.

“O mais incrível é a sonoridade desse grupo, por causa das contribuições de cada um. O som é de banda elétrica, um pouco mais pesado, com muito equipamento”, analisa Horta, que encostou seu violão, nesse projeto, para se concentrar na guitarra.

Com lançamento previsto para março de 2013, o CD de estreia do Shinkansen (nome inspirado no trem-bala japonês) reúne composições inéditas dos quatro músicos, algumas feitas especialmente para esse álbum.

É o caso de “Sayonara in Narita”, segundo Horta, “um samba bem carioca”. Já a faixa “Sakura”, inspirada no ritual japonês que festeja o florescer das cerejeiras, “é uma música bem leve”, descreve o compositor de ambas.

“As músicas do Liminha têm aquela coisa do ‘groove’ e melodias simples. O Suzano aparece com um lado eletrônico misturado com percussão real. Já as músicas do Jaquinho, de formação mais erudita, têm contracantos e seguem caminhos diferentes”, revela Horta, animado com as novas parcerias. 

Na primeira noite do CopaFest, o pianista carioca Eumir Deodato faz uma retrospectiva de seus sucessos no mundo, exibindo arranjos que escreveu para figurões do jazz e do pop, acompanhado por um noneto, com alguns dos melhores instrumentistas do Rio.

Produtor atuante na cena atual da música brasileira, o carioca Kassin interpreta a trilha sonora que fez para o animê “Michiko e Hatchin”, na sexta-feira. A noite termina com a estreia oficial do quarteto Shinkansen.

O show de sábado começa com o guitarrista baiano Pepeu Gomes, um dos fundadores dos Novos Baianos e ex-parceiro de Baby Consuelo, que vai se concentrar na faceta instrumental de sua obra. Depois, o veterano Wilson das Neves, mestre da bateria e do samba carioca, revisita o repertório de seu cultuado álbum “O Som Quente É o das Neves” (1976). Para dançar ou só ouvir com prazer.

(texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 1/11/2012

 

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