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Filó Machado: novo álbum instrumental com melodias contagiantes e muita alegria

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                                  O violonista e compositor paulista Filó Machado - Foto de Dani Gurgel/Divulgação
 

Filó Machado vive um momento especialmente feliz e produtivo, neste final de 2024. No mesmo 20 de dezembro, dia em que seu novo álbum “Cisne Negro” vai estrear nas plataformas de streaming com canções de sua autoria em parceria com o saudoso letrista Aldir Blanc, o compositor e violonista paulista lança também “A Música Negra de Filó Machado” – álbum com 11 temas instrumentais compostos por ele desde meados da década de 1970.

O rótulo “música negra” soa bem adequado ao repertório desse disco, que reúne sambas, baiões, muito swing e improvisos jazzísticos, destacando alguns dos melhores músicos da cena instrumental de São Paulo. Depois de me deliciar ouvindo esse álbum, penso que ele também poderia se chamar “A Música Feliz de Filó Machado”, tamanhas são as doses de alegria e de prazer, que esse mestre da arte musical e sua banda de craques transmitem nessas gravações.

“Para mim, é sempre uma alegria muito grande tocar com esses músicos, porque somos amigos e a gente se diverte muito quando estamos juntos. Faço música pensando numa coisa legal, numa coisa pura. Por isso, nunca fiz sucesso”, brinca Filó, ironizando as dificuldades que enfrentou durante as duas primeiras décadas de sua carreira profissional, quando tocava em bares e boates da noite paulistana.

Reconhecido na Europa

A virada na trajetória musical desse paulista de Ribeirão Preto começou no final dos anos 1980, quando decidiu tentar a sorte na Europa. Durante sete anos ele se apresentou em diversos países daquele continente, incluindo alguns festivais e palcos de prestígio. Na França, especialmente, conquistou muitas plateias e as atenções de dois músicos conceituados: o pianista e compositor de trilhas cinematográficas Michel Legrand e o guitarrista de jazz Sylvain Luc, que se tornaram seus parceiros.

“Michel me valorizava muito como músico. Éramos como irmãos.”, relembra Filó, que dedicou a ele a composição “To My Friend Legrand”, após receber a notícia de sua morte, em 2019. Curiosamente, essa bela e melancólica balada é a única faixa que não adere à alegria predominante no repertório desse disco – aliás, sete das onze faixas são dedicadas a amigos e parceiros musicais de Filó.

Para abrir o álbum, ele escolheu “Jojô”, um tema dançante em ritmo cubano que os músicos das antigas chamariam de chá-chá-chá, apimentado com um naipe de instrumentos de sopro. Essa faixa é dedicada à Dra. Joelma Florencio, sua dentista. “A Jojô se arriscou durante a pandemia, para fazer implantes dentários e cuidar da minha saúde. Fiquei tão grato que decidi fazer essa música para ela”, conta o compositor.

Contagiante também é o baião “Wal”, dedicado a Walquíria, uma fã que ia com frequência ao bar paulistano Boca da Noite, nos anos 1980, para ouvir Filó. Já a jazzística “L’Habitant du Ciel” – com destaque para as exuberantes participações do saxofonista JP Barbosa e do baixista Thiago Espírito Santo – é uma homenagem a Zito Vieira (pai da produtora paulista Lucia Rodrigues), que morreu no período em que Filó vivia na França. O título da composição se refere ao fato de seu amigo ter sido sepultado em um cemitério vertical da cidade de Santos, no litoral paulista.

Sambas para os amigos

Filó também dedicou composições a três músicos que admirava. No samba “Vadeco”, ele relembra o guitarrista de São José do Rio Preto, que o ajudou com muitas dicas musicais, na época em que ainda tocava em bailes, no interior paulista. “Tema pro Macumbinha” é um samba bem suingado, que Filó dedicou ao violonista paulistano, seu compadre, que morreu tragicamente junto com sua família, em 1977, num acidente de vazamento de gás.

Tema Pro Tio” é um descontraído tributo ao pianista e compositor Laércio de Freitas, muito querido na cena musical de São Paulo, que se foi em meados de 2024. De essência jazzística, essa é a faixa mais livre do disco. Para realizar a gravação, Filó convidou Arismar do Espírito Santo para um duo de violões. “Já cheguei com o tema pronto no estúdio e disse pro Arismar: ‘Vâm’bora’, mas ele perguntou: ‘Como é que a gente vai fazer?’. Respondi: ‘Você fez uma pergunta dessas pra mim? Tá envelhecendo, né?’, diverte-se Filó, rindo da provocação que fez ao parceiro. Como ele, Arismar é conhecido por ser um grande improvisador.

Até mesmo ao homenagear Ligia Zveibil, sua esposa, que morreu um ano atrás em decorrência de um câncer, Filó conseguiu driblar a melancolia. “Ela sofreu demais. Fiquei completamente desnorteado”, relembra, emocionado. Ao compor o suingado tema “Zveibil Song”, o compositor preferiu perpetuar a alegria e leveza que caracterizavam sua relação com Lígia. Filó gravou essa música sozinho, improvisando vocais sem palavras e estalando os dedos, além de tocar teclados.  

Mesmo quando não são dedicados a alguém em particular, os temas instrumentais de Filó remetem a lembranças particulares ou mesmo a histórias que ele conta com prazer. Como a do sinuoso “Baião do Porão”, composto na década de 1980, quando o músico morava em uma casa no bairro de Vila Mariana, em São Paulo. “A gente sempre estava ensaiando no porão daquela casa”, comenta Filó, lembrando também que chegou a gravar esse tema com músicos da França e, mais tarde, na Itália, quando vivia na Europa.

Na cabine de um avião

Mais inusitado é o seu relato da criação de “Plano de Voo”, samba com uma melodia que lembra trilhas sonoras de filmes épicos. Em 1979, Filó voltava de um show em Campo Grande (MS), quando a aeromoça do voo o levou até a cabine de comando. O piloto era um fã que costumava ouvi-lo no Boca da Noite e o convidou a apreciar a vista panorâmica. Filó desceu do avião, levando uma irresistível composição, que nasceu durante o voo. 

Finalmente, “Tarde de Novembro” é uma rara incursão de Filó pelo universo da música clássica. Essa sonata pouco convencional, composta por ele em 1975, inclui entre seus seis movimentos um samba, uma mazurca e uma bachiana. No primeiro movimento, destaca-se a voz de Isabela Mestriner Machado, filha de Filó, que é cantora lírica.

Ao comentar essa faixa, Filó relembra que estudou a música clássica de Bach, assim como obras de autores mais contemporâneos, como Stravinski, Bártok e Berg, estimulado por Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), influente compositor e educador alemão, que viveu suas últimas três décadas no Brasil. Filó chegou a cursar um estágio de um mês, com 12 horas diárias, ministrado por ele. “Como eu tocava na noite, só podia dormir duas ou três horas por dia para chegar a tempo nas aulas, que começavam às 8h da manhã”.  

No final de 1996, quando Filó retornou ao país depois sete anos tocando na Europa, este repórter ainda teve que explicar aos editores do caderno de cultura da “Folha de S. Paulo” porque ele merecia ser tema de uma reportagem. “O meu desejo é que dê certo aqui. Nunca pensei em ficar vivendo no exterior”, me disse Filó, ao entrevista-lo. “Durante a fase mais difícil, cheguei até a pensar que havia algum problema com a minha música”, admitiu, já mais consciente do alto conceito que desfruta nos meios musicais.

Banda de craques

Por essas e outras, quase três décadas mais tarde, hoje é um prazer especial sentir a alegria de Filó Machado ao lançar seu 15.º álbum ao lado de craques da música instrumental produzida em São Paulo, como Daniel D’Alcântara e Sidmar Vieira (trompetes), Jorginho Neto (trombone), JP Barbosa (sax tenor), Salomão Soares (teclados), Thiago Espírito Santo (baixo elétrico) e Fábio Leandro (piano acústico). Sem falar no talento musical da família de Filó, que cresce a cada ano, muito bem representada por seu neto Felipe (voz e violão), seu filho Sérgio (bateria) e seu irmão Gera (percussão).

“As coisas mudaram muito, porque antigamente você sempre estava na dependência de alguma coisa”, compara hoje o compositor e cantor, referindo-se às dificuldades que ele e muitos artistas enfrentavam para lidar com as gravadoras e os meios de comunicação, antes do advento da internet e das redes sociais. “Hoje estou muito mais feliz fazendo minha música”, afirma.

Outra mudança trazida pelas redes sociais, segundo Filó, é o acesso direto e mais fácil aos fãs. “Agora eu crio minhas músicas e já não me sinto sozinho como antes. Eu posto alguma coisa minha nas redes e, de repente, já tem 30 mil, 50 mil, 100 mil visualizações. Daí eu me sinto na responsabilidade de continuar fazendo música com mais de cinco acordes”, diverte-se. “Hoje eu sinto que tenho espaço para fazer meu trabalho. Quem gosta da minha música vai curtir no Brasil, na Nova Zelândia, na Inglaterra, na Coreia, na China, em todo lugar”, comemora o hoje realizado compositor e instrumentista.

                                                                 (Texto escrito a convite da produção do artista)

"A Música Negra de Filó Machado" - 15.º álbum do violonista, compositor e cantor paulista chega às plataformas de streaming neste dia 20/12.




Sesc Jazz: festival promove noite de tributo musical a Laercio de Freitas

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                      O compositor Laércio de Freitas (no centro, de máscara) abraça o clarinetista Nailor Proveta  


Sentado na plateia, o protagonista da noite dedilhava um piano imaginário, em alguns momentos, como se estivesse acompanhando os instrumentistas do palco. Um dos músicos mais queridos e admirados nos círculos do choro e da música instrumental brasileira, o pianista, compositor e arranjador paulista Laércio de Freitas recebeu uma bela homenagem, ontem (22/10), no festival Sesc Jazz, em São Paulo.  

A noite destacou saborosos arranjos de choros e sambas de Laércio, assinados pelo clarinetista Nailor Proveta, pelo violonista Edmilson Capelupi e pelo próprio compositor. Especialmente divertido foi o "bis" exigido pela plateia, quando os pianistas Cristóvão Bastos, Silvia Góes, Carlos Roberto e Hércules Gomes -- convidados especiais da noite -- retornaram juntos ao palco e se sentaram ao único piano. Entre um improviso bem-humorado e outro ouviu-se uma sucessão de risos, tanto no palco como na plateia.

O show “Laércio de Freitas Eterno e Moderno” volta a ser apresentado hoje, às 17h, no teatro do Sesc Pompeia, com participações especiais de outros pianistas convidados: Amilton Godoi, Leandro Braga e Tiago Costa, além de Carlos Roberto (talentoso sobrinho do grande pianista Dom Salvador), que também tocou na noite de ontem.

Sesc Jazz: 4.ª edição do festival amplia espaço para mulheres e música negra

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                                               A cantora e dançarina Dobet Gnahoré / Foto: Jean Goun - Divulgação

O mais extenso e diversificado dos festivais brasileiros de jazz e música instrumental está de volta, com destaque para vertentes da música negra que a diáspora africana semeou pelas Américas. A quarta edição do Sesc Jazz vai ser realizada de 5 a 23/10, em sete unidades do Sesc São Paulo: Pompeia (na capital), Guarulhos, Jundiaí, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto e São José dos Campos. 

As três semanas de programação oferecem 20 atrações internacionais e nacionais. A noite de estreia, no Sesc Pompeia, ficará por conta da Exploding Star Orchestra, de Chicago (EUA). Liderada pelo cornetista e compositor Rob Mazurek, essa formação instrumental reúne músicos norte-americanos e brasileiros, que produzem um jazz eletrônico e funkeado, com incursões pelo experimentalismo.

O continente africano está muito bem representado no elenco desta edição. De ascendência zulu, o pianista e compositor sul-africano Nduduzo Makhathini também é educador. Seus álbuns mais recentes, “Modes of Communication Letters From the Underworlds” (2020) e “In the Spirit of Ntu” (2022) foram lançados pelo cultuado selo Blue Note. No quinteto de Makhathini chama atenção o baterista nova-iorquino Nasheet Waits, um dos craques desse instrumento no jazz atual.

Congolês radicado na França, o pianista e compositor Ray Lema já se apresentou diversas vezes no Brasil desde a década de 1990. O ecletismo de sua obra musical costuma deixá-lo em uma situação delicada, quando alguém lhe pede que identifique sua música. “Na verdade, quando componho, é acima de tudo uma questão de amor: me apaixono por roqueiros, por reggaeros, por um baterista tradicional. Sempre fico constrangido com esse negócio de classificar minha música”, admite.

O fato de a cantora, percussionista e dançarina Dobet Gnahoré já ter sido comparada a grandes astros da música africana, como a cantora Miriam Makeba ou o trompetista Hugh Masekela, dá uma dimensão de seu talento. Nascida na Costa do Marfim, Dobet se mudou para a França, em 1999. Adepta do panafricanismo, ela canta em diversas línguas faladas no continente africano, como o bété (Costa do Marfim), o fon (Benin), o suaíli (Moçambique, Tanzânia e Quênia) e o wolof (Senegal e Mauritânia).

                                    O quarteto da flautista Nicole Mitchell (no centro) / Foto: Divulgação

Aliás, as mulheres, tanto instrumentistas como cantoras, ganharam mais espaço nesta edição do Sesc Jazz – iniciativa que merece aplausos. Também ligada à cena do jazz experimental de Chicago, a flautista e compositora Nicole Mitchell lidera o Black Earth Sway, quarteto feminino que reúne a tecladista Alexis Lombre, a baterista JoVia Armstrong e a percussionista e atriz Coco Elysses, que toca diddley bow (primitivo instrumento com uma corda, que antecedeu a guitarra).

Do continente europeu virão duas originais pianistas, compositoras e arranjadoras. A francesa Macha Gharibian, que também é cantora, mistura em suas composições influências da música pop e de canções do folclore da Armênia, o país de seus antepassados. A dinamarquesa Kathrine Windfeld combina energia e lirismo em seu jazz. Vai se apresentar aqui em dois formatos diferentes: com a mineira Big Band do Clube, no Pompeia e em Jundiaí; já em Ribeirão Preto, ela toca com seu quarteto.

Revelação da cena alternativa do jazz em Londres, o coletivo Kokoroko é liderado pela trompetista e vocalista Sheila Maurice-Grey. Depois de animar muitas plateias em clubes e festivais por cerca de quatro anos, essa banda britânica lançou em agosto seu primeiro álbum. “Could We Be More” mistura influências africanas e caribenhas, em gêneros musicais como o afrobeat, o highlife, o funk e a soul music.

Dois paulistas que vivem na Europa também estão na programação. A baterista, compositora e cantora Mariá Portugal (ex-integrante da banda Quartabê), que se mudou para a Alemanha dois anos atrás, mostra o repertório de seu álbum “Erosão”, lançado em 2021. Suas canções servem de ponto de partida para improvisos com instrumentos acústicos, que depois são manipulados com recursos eletrônicos.

Radicado na Escócia desde 2014, o guitarrista, cantor e compositor André Christovam tornou-se uma referência no universo do blues com sotaque brasileiro, ainda na década de 1990. Foi também um dos artistas responsáveis, em nosso país, por incentivar uma onda de interesse por essa tradicional raiz do jazz e da música negra norte-americana. Acompanhado por Albino Infantozzi (bateria) e Fábio Zaganim (baixo elétrico), ele promete uma retrospectiva de sua obra musical.

                                                        A cantora peruana Susana Baca / Foto: Divulgação

Nossos “hermanos” latino-americanos também estão representados no elenco deste Sesc Jazz. Pesquisadora da herança artística afro-latina e ex-ministra da cultura de seu país, a cantora Susana Baca é uma das grandes vozes negras deste continente. Em patamar de importância equivalente, a carioca Alaíde Costa vai dividir o palco com outra grande cantora que é sua conterrânea: mais jovem e com uma carreira musical de duas décadas, Ilessi ainda não desfruta do reconhecimento que merece.

Outros shows e projetos especiais são dedicados à música popular brasileira, como a comemoração dos 35 anos de lançamento do álbum “Quarteto Negro” (de 1987), que será reconstituído por três dos músicos participantes da gravação original: a cantora Zezé Motta, o percussionista Djalma Correa e o baixista Jorge Degas; o grande clarinetista Paulo Moura (1932-2010) será substituído por Ivan Sacerdote.

Já o tecladista e compositor Lelo Nazário, pioneiro na introdução de elementos de vanguarda na música instrumental brasileira, festeja seus 40 anos de carreira relendo algumas de suas composições mais significativas, ao lado de antigos parceiros em sua trajetória, como Teco Cardoso (sax e flautas), Nenê (bateria), Zeca Assumpção e Rodolfo Stroeter (baixo acústico e elétrico).

Dois veteranos músicos e compositores brasileiros vão receber homenagens. O show “Moderno e Eterno” é um tributo ao legado do pianista e original chorão paulista Laércio de Freitas, hoje com 81 anos. Dono de uma obra musical admirada internacionalmente, o percussionista catarinense Airto Moreira (com a mesma idade de Laércio) terá seu álbum “Fingers” executado na íntegra, com participação especial do violonista Filó Machado.

A música brasileira também está no centro de dois criativos projetos. O encontro da cantora Juçara Marçal e do guitarrista Lello Bezerra, entre outros brasileiros, com os franceses Nicolas Pointard (bateria) e Christophe Rocher (clarinete), do quarteto de câmara Nautilus Ensemble, foi batizado de Abajur. Já o projeto Tradição Improvisada reúne Thomas Rohrer (rabeca e sopros), Kiko Dinucci (guitarra) e Panda Gianfratti (percussão) com a cantora Dona Benedita, em homenagem a Nelson da Rabeca (1941-2022), mestre da cultura popular de Alagoas.

Finalmente, duas orquestras da Bahia oferecem às plateias do Sesc Jazz a oportunidade de mergulhar, ao vivo, na riqueza da música afro-brasileira. Liderada pelo maestro Ubiratan Marques, que a criou em 2009, a Orquestra Afrosinfônica combina sonoridades afro-brasileiras com a linguagem da música de concerto – daí o conceito de “afrossinfônico”, cunhado pelo próprio regente. Sua formação inclui instrumentos de sopro, metais, percussão e quatro vocalistas.

Foi o maestro, multi-instrumentista, compositor e arranjador Letieres Leite (morto precocemente em 2021), que fundou a Orkestra Rumpilezz, em Salvador, em 2006. O nome dessa big band afro-brasileira já revela suas origens e principal influência: os nomes do três tambores nos rituais do candomblé (rum, rumpi e lê) se fundem com os dois “zês“ da palavra jazz. Em seus concertos no festival, a Rumpilezz exibe o repertório de seu álbum “Moacir de Todos os Santos”, dedicado à obra do grande maestro e compositor pernambucano Moacir Santos (1926-2006).

Confira a programação completa do festival Sesc Jazz e compre seus ingressos no site do Sesc SP: https://sescjazz.sescsp.org.br/programacao/

Choraço: os personalíssimos choros de Laércio de Freitas, em merecida homenagem

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                                                O compositor e pianista Laércio de Freitas, na noite em sua homenagem

Nos círculos do choro e da música instrumental paulista, raros músicos são tão queridos e admirados como ele. O pianista, arranjador, maestro e ator Laércio de Freitas foi homenageado na noite de ontem (6/5), em mais um show do projeto Choraço (no Teatro do Sesc 24 de Maio, em São Paulo).

Compositor com uma assinatura musical personalíssima, esse paulista nascido em Campinas causou impacto entre os fãs do gênero, em 1980, ao lançar seu álbum “São Paulo no Balanço do Choro” (selo Eldorado). Com um repertório quase todo autoral, esse disco já despontou como um clássico instantâneo do choro.

A saúde debilitada não impediu que Laércio participasse, com seu habitual bom humor, do show comemorativo de seus 80 anos. “Estou só ciscando”, brincou, provocando risadas no palco e na plateia, ao se sentar ao piano com Daniel Grajew, já mais ao final da apresentação.

No programa da noite, alguns dos choros mais conhecidos de Laércio, como “Fandangoso”, “Camondongas”, “Sumaré-Pompéia” e “São Paulo no Balanço do Choro”, interpretados por um competente septeto liderado pelo flautista Shen Ribeiro. Não faltou o delicioso “Arabiando”, choro de Esmeraldino Salles (1916-1979), violonista que Laércio credita como uma de suas influências nesse gênero musical .

Salve o maestro e mestre do choro Laercio de Freitas!


Ronen Altman: bandolinista exibe seu "Som do Bando", ao vivo, em São Paulo

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                                                   O bandolinista Ronen Altman / Foto: Anita Kalikies/Divulgação

Um dos melhores discos de música brasileira da safra 2014 ganha, enfim, um show de lançamento à sua altura. O bandolinista e compositor Ronen Altman exibe o repertório de “Som do Bando”, seu álbum de estreia, hoje (26/7), no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

Entre os mais de 30 músicos e arranjadores que participaram desse disco, o pianista e maestro Laercio de Freitas, o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo e o acordeonista Lulinha Alencar estarão presentes no show, assim como um quinteto de sopros e a “cozinha” que acompanhou Altman nas gravações.

“Foi bem difícil”, admite o mineiro radicado em São Paulo, explicando que a agenda desses músicos foi o que mais complicou a realização do espetáculo, que pretende ser fiel ao disco. “Tive que substituir três músicos, mas o resto do bando estará comigo”, festeja.

O desejo de contar com tantos músicos nas gravações não tem nada a ver com mania de grandeza. O instrumentista e compositor quis homenagear os colegas que o estimularam a se dedicar mais intensamente à música. Aliás, o termo “bando”, no título do álbum, possui duplo sentido: Altman refere-se tanto a seu instrumento, como aos colegas que dividem com ele a mesma paixão.

No repertório do show estarão composições de Altman, como a valsante “Nanai” (parceria com Celso Viáfora, arranjada por Nailor Proveta), a lírica “Cristalina” (arranjo de Tiago Costa) e a encantatória “Deserto” (arranjada por Claudio Leal Ferreira).

Há também canções conhecidas entre fãs da MPB, como a romântica “Fim do Ano” (de Zé Miguel Wisnik e Swami Jr., co-produtor do álbum), que foi arranjada por Gilson Peranzzetta, ou ainda “Obsession” e “Rio Amazonas”, belas composições de Dori Caymmi, que ele mesmo arranjou.

Altman se diverte ao lembrar que chegou a ser gozado por Arismar do Espírito Santo, anos atrás, ao prometer que um dia gravaria uma composição do amigo (“Turma Toda”), só que em ritmo mais lento para destacar a beleza da melodia.

A promessa foi cumprida, em “Som do Bando”, por meio de um saboroso arranjo de Laércio de Freitas. “O Arismar morreu de rir da minha cara, mas se ferrou. Teve de aceitar a gravação mais lenta e ainda participou do disco, tocando o baixo”, conta Altman, sorrindo.

No palco do Auditório Ibirapuera, o bandolinista estará acompanhado por Swami Jr. (violão), Daniel Grajew (piano), Ricardo Mosca (bateria) e Pedro Gadelha (baixo), além do quinteto de sopros formado por Sarah Hornsby (flauta), Ricardo Barbosa (oboé), Ovanir Buosi (clarinete), Alexandre Silverio (fagote) e Luiz Garcia (trompa).
 

Quem gosta de música instrumental brasileira, com harmonias sofisticadas e belas melodias tocadas com emoção, precisa conhecer esse trabalho.

(Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 26/7/2015)



Caixa Cubo Trio: grupo paulista relê clássicos do samba-jazz, no CD "Misturada"

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                                             Capa do CD "Misturada", do Caixa Cubo Trio

Parceiros há quase uma década, já com três discos gravados, o pianista Henrique Gomide e o baterista João Fideles expandiram o formato de seu criativo duo Caixa Cubo. Ao lado do contrabaixista Noa Stroeter, eles recuperam no álbum “Misturada” composições de expoentes do samba-jazz e da música instrumental das décadas de 1960 e 1970.

Da jazzística releitura de “Coalhada” (de Hermeto Pascoal), repleta de mudanças rítmicas, à inventiva versão de “Pirambêra” (Laércio de Freitas), passando pela bela interpretação do samba “Amphibious” (Moacir Santos), que destaca a participação especial de Teco Cardoso (sax barítono), o trio paulista trata esse clássico repertório com muita liberdade, sem jamais desvirtuá-lo. Composições próprias como o bem humorado xote “Shot #4” (Gomide e Fideles) e o lírico “Bolero pra Zulma” (Stroeter) sugerem que esse trio tem muito a mostrar, nos próximos anos. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 21/11/2014) 


Erlon Chaves: documentário e musical vão resgatar vida e obra do maestro paulista

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                               Erlon Chaves (atrás), acompanhando Wilson Simonal, em programa de TV


O tributo musical de Max de Castro ao maestro Erlon Chaves, no 6º CopaFest, não deve ser um evento isolado. Duas outras produções, focadas na vida e na obra do injustiçado arranjador e compositor paulista, têm planos de estrear em 2014, ano em que vão se completar 40 anos de sua morte.

Depois de dirigir um documentário sobre o violonista e arranjador paranaense Waltel Branco, o cineasta Alessandro Gamo está preparando há cinco anos um documentário sobre Erlon Chaves. Contando com assessoria musical do pianista Laércio de Freitas, Gamo já entrevistou vários artistas que trabalharam com o maestro.

O dramaturgo e crítico paulista Aimar Labaki está escrevendo a segunda versão de um musical para teatro, também baseado na história de Erlon Chaves. “Ele é um artista e personagem público que merece ocupar seu lugar de direito”, considera Labaki.


Veja aqui um teaser do documentário sobre Erlon Chaves:

http://vimeo.com/39054602

João Parahyba: percussionista e compositor recria a atmosfera do samba-jazz dos anos 1960

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É natural que as gerações mais jovens associem a imagem de João Parahyba ao lendário Trio Mocotó, cujo contagiante samba-rock foi redescoberto e festejado durante a última década. Mas quem acompanha a carreira desse eclético percussionista, compositor e arranjador paulista sabe que ele também já colocou seu talento a serviço da MPB, do jazz, da música instrumental ou até da música eletrônica.

Em "O Samba no Balanço do Jazz" (lançamento SescSP), João Parahyba interpreta com personalidade a atmosfera sonora do samba-jazz – o híbrido subgênero que revigorou a música instrumental brasileira, na década de 1960. “Minha intenção foi fazer uma reverência ao começo de minha vida musical. Fui um privilegiado, porque entrei na música convivendo com Milton Banana, com o Zimbo Trio e o Tamba Trio. Eu era amigo do Luiz Eça, do Bebeto, do César Camargo Mariano e do João Donato. Fui aceito por eles como o caçula dessa seleção”, relembra.

Com a sabedoria de quem conhece a fundo a linguagem do samba-jazz, JP relê aqui alguns clássicos dessa vertente, como “Sambou, Sambou” (João Donato), “Nanã” (Moacir Santos) e “Batida Diferente/Estamos Aí” (Durval Ferreira e Maurício Einhorn). Exibe também saborosas composições próprias que remetem a esse gênero, como “Kurukere” e “Number One”, conduzindo o elegante quinteto que inclui Giba Pinto (baixo), Rudy Arnaut (guitarra), Marcos Romera (piano) e Teco Cardoso (sax barítono e flauta), além das participações de Thiago Costa (piano), Rodrigo Lessa (bandolim), Marcelo Mariano (baixo), Beto Bertrami (piano) e Ubaldo Versolato (flauta e sax barítono).

Três veteranos do gênero também participam do projeto. Mentor musical de JP, Amilton Godoy, o pianista do original Zimbo Trio, contribui com um arranjo de sua composição “Batráquio”, escrito especialmente para o quinteto do percussionista. O compositor e arranjador Laércio “Tio” de Freitas oferece a seu ex-aluno a oportunidade de lançar a inédita bossa “Búzios”. Clayber de Souza, ex-integrante dos cultuados Sambalanço Trio e Jongo Trio, mostra seu virtuosismo à gaita, no jazzístico arranjo que escreveu para o “Trenzinho do Caipira” (Villa-Lobos).

JP também introduz neste álbum seu filho Janja Gomes, autor da sensível valsa-jazz “Valseta”, cuja gravação destaca o emotivo solo de clarinete de Nailor Proveta e um inusitado sample com o argentino Julio Cortázar, declamando um de seus escritos poéticos. Uma bela surpresa que nos faz pensar: embora não seja regra, o talento artístico certamente pode ser transmitido por via genética.

(texto escrito a convite do selo SescSP)

Choro: três lançamentos que vão agradar os fãs desse gênero musical

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Gênero musical tipicamente brasileiro, o choro já enfrentou períodos de ostracismo em sua trajetória de um século e meio, mas segue ativo e criativo, contando hoje com uma nova safra de autores. É o que mostra o CD “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo” (lançamento Pôr do Som), com 16 composições inéditas de talentosos chorões de diferentes gerações.

Produzido por Yves Finzetto e Roberta Valente, percussionistas presentes em várias faixas, este álbum expõe em seu repertório a diversidade de estilos e influências que caracteriza o gênero: do gingado samba-choro “Lá Pelas 9” (de João Poleto) ao acelerado “Não Me Siga que Eu Não Sou Novela” (Zé Barbeiro); do seresteiro “Tocando pra Mariza” (Arnaldinho Silva) ao brejeiro “Do Coreto para Roberta” (Nailor Proveta). 


Esse elenco de compositores inclui outros brilhantes expoentes do choro de São Paulo, como os bandolinistas Danilo Brito e Izaías de Almeida, o acordeonista Toninho Ferragutti e o pianista Laércio de Freitas. Pena que eles não foram lembrados em “Nas Rodas do Choro”, documentário de 2009, lançado agora em DVD (pela gravadora Biscoito Fino), que focaliza apenas chorões do Rio de Janeiro e de Recife.  

O fato não desmerece o filme de Milena Sá, que não pretende traçar um panorama do gênero, mas sim mostrar como as rodas de choro têm uma função pedagógica. Por meio de depoimentos e números musicais de conhecidos chorões cariocas, como a cavaquinhista Luciana Rabello, o violonista Mauricio Carrilho ou o bandolinista Joel Nascimento, entre outros, esse documentário revela que as rodas de choro exercitam e divertem os participantes, assim como educam os músicos mais jovens. 

 
Para os apreciadores desse gênero, a compilação “Choro” (lançamento EMI) também é um lançamento precioso. Com pesquisa de Carlos Alberto Sion e texto do arranjador Henrique Cazes, esse CD duplo resgata gravações das décadas de 1950, 60 e 70, com virtuoses chorões, como o cavaquinhista Waldir Azevedo, o bandolinista Luperce Miranda ou o maestro Radamés Gnattali.
 

Faixas como “Bate Papo” (de Gnattali), em arranjo que destaca o saxofonista Zé Bodega, ou “Xeque-Mate” (do maestro Gaya), que traz Joel Nascimento como solista, surpreendem pela atualidade. Cazes não exagera ao dizer que esses arranjos poderiam ter sido escritos na semana passada. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/9/2011)

 

9º Brasil Instrumental: festival nascido na paulista Tatuí se torna itinerante

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O maestro e pianista Laércio de Freitas e a orquestra Jazz Combo do Conservatório de Tatuí abrem neste domingo, 25/7, com show em Campinas (SP), a nona edição do Festival Brasil Instrumental. Criado e coordenado pelos músicos e educadores Paulo Flores e Paulo Braga, em Tatuí (SP), neste ano o evento tornou-se itinerante e passa a oferecer oficinas de música gratuitas, que acontecem até 31/7.

A programação de shows, com entrada franca, destaca grupos da nova geração da música instrumental, como Trio Jabour, Amanajé, Cumieira, Tambaleio, Choro de Prima, Garimpo e André Marques e a Vintena Brasileira (na foto acima), entre outros. Mais informações sobre os shows e oficinas, você encontra no site do festival: http://www.brasilinstrumental.mus.br/


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