Mostrando postagens com marcador swami jr.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador swami jr.. Mostrar todas as postagens

Choraço 2023: Paulo Bellinati lidera homenagem a Garoto, mestre do violão moderno

|

                                        Daniel Murray (da esq. para dir.), Paulo Bellinati e Swami Jr., no tributo a Garoto 

Quase sete décadas após a morte do grande violonista e compositor Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955), mais conhecido como Garoto, o Brasil ainda tem uma dívida com ele. Considerado um fundador do moderno violão brasileiro e precursor da bossa nova, esse “gênio das cordas”, como chegou a ser chamado, jamais foi reconhecido pelo grande público de nosso país na medida em que sua obra musical mereceria.

É provável que ao menos algumas pessoas que foram anteontem (o feriado de 1.º de maio) ao show “Tributo a Garoto” tenham saído do Sesc 24 de Maio, em São Paulo, surpreendidas pela modernidade de sambas como “Lamentos do Morro” e “Sinal dos Tempos” ou pela beleza de choros e valsas, como “Quanto Dói Uma Saudade”, “Tristezas de Um Violão” e “Naqueles Velhos Tempos”, que revelam a maestria desse compositor paulistano.

Incluída na programação do projeto Choraço, essa homenagem não poderia estar em melhores mãos. A começar por Paulo Bellinati, grande violonista e profundo conhecedor da obra de Garoto, que lançou em 1986 um disco integralmente dedicado às composições do mestre (aliás, intitulado “Garoto”, esse álbum foi remasterizado e relançado pelo Selo Sesc, em 2019).

Ao lado de Bellinati estavam outros dois craques das cordas: Swami Jr. (violão de sete cordas) e Daniel Murray (violão), que se alternaram com ele em diferentes formações. A noite contou ainda com a participação especial de Cainã Cavalcante, outra grande revelação do violão brasileiro neste século.

Pena que Garoto, morto precocemente aos 39 anos, não tenha tido o prazer de ouvir suas composições nas interpretações desses brilhantes discípulos de gerações posteriores. Graças a eles, sua música continua encantando plateias.

Zé Miguel Wisnik: compositor aborda horror que assombra o país, em 'Vão', seu novo álbum

|

                                                   Show de Zé Miguel Wisnik, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo 


Disco novo de Zé Miguel Wisnik é sempre boa notícia para aqueles, como eu, que acompanham a trajetória desse original pianista, cantor e compositor, além de conceituado escritor e professor de Literatura. Personalíssimas, suas canções combinam referências eruditas e populares. E costumam ganhar uma camada extra de sensibilidade, quando são interpretadas por ele mesmo, ao vivo.

Quem não conseguiu ingressos para os primeiros shows de lançamento do disco “Vão”, no último final de semana (no Sesc 24 de Maio, em São Paulo), já pode ao menos recorrer às plataformas de streaming para ter acesso às 11 canções desse álbum – 10 delas são inéditas. Outra possibilidade é a edição em CD, que acaba de ser lançada pelo selo Circus.

Se você é paulistano e não se emocionar ao ouvir “O Jequitibá”, a bela canção que abre o álbum, sugiro que procure um terapeuta. A experiência é mais completa ao escutá-la por meio do videoclipe já disponível no YouTube. Dirigido pelo coletivo Bijari, ele inclui centenas de imagens paulistanas em preto-e-branco, captadas pelo fotógrafo Bob Wolfenson. Neste link:




O letrista Carlos Rennó, parceiro de Wisnik, escreveu os versos dessa canção depois de ler uma reportagem sobre um centenário jequitibá, que vive no Parque Trianon, na região da avenida Paulista, em São Paulo. Ícones dessa agitada área da cidade, como o Masp, o Conjunto Nacional ou a Passeata Gay, sem falar nas inúmeras manifestações políticas já realizadas ali, misturam-se na letra de “O Jequitibá”, com certa nostalgia. Pela reação da plateia no show de lançamento, essa canção parece já ter nascido emblemática.

Parceira frequente de Wisnik desde seus primeiros shows, Ná Ozzetti canta com ele na gravação dessa canção e está presente no videoclipe. Já no show de lançamento, o compositor e pianista dividiu os vocais com a filha Marina Wisnik (sua parceira também nas canções “Roma” e “Avesso Vão”) e Celso Sim, ex-integrante do Teatro Oficina.

Ambos se destacam como cantores, no disco e no show, mas a experiência teatral de Celso roubou a cena em um dos momentos mais brilhantes da apresentação do último sábado: sua performance em “Eu Disse Sim” (outra parceria de Wisnik com Rennó), canção inspirada pelo monólogo de Molly Bloom, de “Ulisses”, o romance vanguardista de James Joyce.

Emocionante também é a interpretação de Celso para “Terra Estrangeira”, o fado que Wisnik compôs para o filme homônimo de Walter Salles e Daniela Thomas – já incluído em seu álbum “São Paulo Rio” (2000), na interpretação de Jussara Silveira. Agora apoiada na voz de Celso (cujo timbre lembra o de Caetano Veloso, em algumas passagens), a regravação destaca um inspirado arranjo do violonista João Camarero, que cita a “Bachiana Brasileira nº 5”, de Villa-Lobos.

Outra grande canção do novo álbum de Wisnik é “Chorou e Riu”, samba de sua autoria, influenciado por um clássico da música brasileira. “Meditação” (de Tom Jobim e Newton Mendonça), para quem não se lembra, inclui alguns dos versos mais tristes da era da bossa nova: “Quem acreditou /No amor, no sorriso, na flor /Então sonhou, sonhou /E perdeu a paz /O amor, o sorriso e a flor /Se transformam depressa demais /Quem, no coração” /Abrigou a tristeza de ver /Tudo isto se perder”.

Os versos de Wisnik em "Chorou e Riu" são melancólicos, ainda mais tristes. “Quem acreditou /Ao ver o encanto se quebrar /O coração despedaçar /E despencar /No vão do horror /Sem nem lembrar /O que sonhou /E não sonhou /Ao ver o inferno se rasgar /Pra dar o monstro a se mostrar /E confirmar que estava em nós /Nos nossos nós”. É preciso dizer que essa canção se refere ao sentimento de milhões de brasileiros, que viram, nos últimos anos, seu país ser transformado em pária mundial e ainda correr o risco de retroceder aos tempos da ditadura militar?

Outra ferida atual é cutucada em “Estranha Religião” (parceria do compositor com seu filho, o professor de Arquitetura e crítico de arte Guilherme Wisnik), canção que disseca a mercantilização da vida contemporânea. “Desejo louco de ter e deter /Sem saber pousar /Gostar demais de gastar /E mais de gastar /Do que ter do que gostar”, diz a letra. O arranjo, em ritmo dançante, com teclado, guitarras, batidas eletrônicas e percussão, termina com risos e os vocais improvisados de Zahy Guajajara, em Ze’eng eté, língua do povo Tentehar-Guajajara.

Já que textos longos, nos domínios da internet, hoje são considerados desrespeitosos com os leitores, vou parar por aqui. Mas não sem registrar que “Vão” inclui também saborosas canções de Wisnik com Luiz Tatit, Paulo Neves e Arnaldo Antunes. E ainda destacar a escolha dos ótimos instrumentistas que acompanham o pianista no show: Alê Ribeiro (clarinete), Swami Jr. (baixo), Alexandre Fontanetti (guitarra) e Sérgio Reze (bateria).

Tomara que a canção “Chorou e Riu” seja um mantra para nos acompanhar durante a superação destes angustiantes tempos de insensatez. E que "os imbecis e os imbecis dos imbecis" que hoje desgovernam este país sejam despachados em muito breve para a lata do lixo da História, de onde nunca deveriam ter saído.


Choraço: Alexandre Ribeiro homenageia o grande Paulo Moura com choros de gafieira

|

                                    O clarinetista Alexandre Ribeiro, com Allan Abbadia (trombone) e Cleber Silveira 


Em mais uma noite do projeto Choraço (ontem, no teatro do Sesc 24 de Maio, em São Paulo), o show Baile do Ribeiro resgatou para a alegria da plateia um repertório dançante associado à obra do grande clarinetista, compositor e arranjador Paulo Moura (1932-2010).

Como Moura passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, muitos não sabem que esse mestre da música instrumental brasileira nasceu em São José do Rio Preto, no interior paulista. Além de tocar muito jazz e música clássica, ele tinha paixão pelo universo das gafieiras – os salões de baile periféricos, onde se cultivavam estilos particulares de choro e samba, perfeitos para acompanhar os passos dos dançarinos.

O talentoso clarinetista Alexandre Ribeiro, discípulo de Moura, comandou um octeto de craques instrumentistas, formado por Swami Jr. (baixo e violão), Cainã Cavacante (violão de sete cordas), Celso Almeida (bateria), Henrique Araújo (cavaquinho), 
Allan Abbadia (trombone), Cleber Silveira (acordeon) e Leo Rodrigues (percussão).

 A 
descontraída homenagem incluiu momentos mais líricos, como o emotivo choro “Carinhoso” (de Pixinguinha e Braguinha), que a plateia cantou junto com Verônica Ferriani – cantora convidada da noite. A pandeirista Roberta Valente também fez uma participação especial.  

Se estivesse ontem no Teatro do Sesc 24 de Maio, Paulo Moura certamente se sentiria orgulhoso por constatar que sua paixão pelos choros e pelos sambas de gafieira continua a animar e influenciar novas gerações.


Discos de 2019: música instrumental e jazz do Brasil em 50 álbuns recomendados

|



Já que o ano passado foi tão marcado por polarizações e antagonismos ideológicos, decidi extrapolar por uma boa causa: minha lista de recomendações de álbuns lançados no último ano é dedicada exclusivamente à música instrumental brasileira e suas eventuais conexões com o jazz.

Tomei essa decisão por dois motivos. Como em anos anteriores, as listas de “melhores” discos já publicadas ou postadas tendem a esnobar a música instrumental. Quase todas elas concentram-se em vertentes como o chamado pop “indie”, o hoje hegemônico rap, o combalido rock ou a porção mais alternativa da MPB. Uma exceção, nessas listas, é a eventual presença do bandolinista e compositor Hamilton de Holanda.

Não se trata apenas de defender a merecida inclusão do som instrumental entre o que se faz de melhor na cena musical de hoje, mas também de afirmar a alta qualidade musical dessa vertente. Quem se der a oportunidade de ouvir ao menos alguns dos discos listados e comentados a seguir vai perceber que a produção instrumental brasileira esbanja diversidade musical, beleza, refinamento sonoro e contemporaneidade.

Como as vendas de CDs já não são as mesmas de outros tempos, quase todos esses músicos selecionados aqui disponibilizam seus discos (ou pelo menos algumas faixas) no YouTube. Se você clicar no título de cada um, na lista abaixo, pode conhecer esses discos, assim como se familiarizar com alguns desses instrumentistas. Se gostar, tenho certeza de que esses músicos vão ficar felizes se você comprar seus discos ou for ouvi-los ao vivo, na próxima vez em que eles se apresentarem em sua cidade.

Tomara que esta lista ajude você a ampliar o repertório musical que vai frequentar seus ouvidos e sua sensibilidade em 2020. Aproveite! 

Ademir Cândido - “Ritmos do Brasil” (independente) – Guitarrista e compositor gaúcho, Ademir viveu 20 anos na Suíça antes de voltar ao país. Seu quinto álbum celebra a diversidade da música brasileira, em composições próprias como o samba-jazz “O Fino da Bossa”, o xote “Enxotando” e o samba “Pakito na Gafieira”. Participações de Jaques Morelenbaum (cello) e Marcelo Martins (sax soprano), entre outros.

Alexandre Caldi e Itamar Assiere - “Afro+Sambas” (Biscoito Fino) – Ao reler o cultuado álbum “Os Afro-Sambas” (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, o saxofonista e o pianista tomam a liberdade de acrescentar aos oito sambas do disco original outros três de Baden: “Labareda”, “Samba Novo” e “Consolação”. Essa liberdade se estende também ao tratamento harmônico dos arranjos e aos improvisos do duo.  


Alexandre Carvalho Quartet - “Rio Joy” (independente) – O jazzístico arranjo da bossa nova que dá nome a este álbum revela as referências musicais do excelente guitarrista e compositor carioca, que também desenvolve carreira nos EUA. À frente de seu quarteto, Alexandre recria clássicos da música instrumental brasileira, como “The Dolphin” (de Luiz Eça) e “Samba Jazz” (JT Meirelles), e exibe temas autorais.

Alfredo Dias Gomes - “Solar” (independente) – Depois de tocar com figurões do instrumental brasileiro, o baterista e tecladista carioca tem lançado discos que demonstram sua grande afinidade com o jazz-rock. Autoral, seu novo álbum o reaproxima da música brasileira, em faixas como o baião “Viajante” e a percussiva “Solar”. É praticamente um projeto “eu comigo mesmo”, com participação do saxofonista Widor Santiago.

André Magalhães - “Para Ti - Batuques e Melodias dos Cantos” (Circus) – Um ensaio autobiográfico e étnico-musical. É assim que o produtor e baterista paulista, hoje com 51 anos, define seu primeiro álbum. André criou uma trilha sonora de suas vivências musicais de pesquisador, em composições instrumentais que misturam batuques, vozes, sons da natureza e cantos indígenas. Música imersiva que emociona e faz pensar.

André Mehmari Trio - “Na Esquina do Clube com o Sol, na Cabeça” (Estúdio Monteverdi) – O prolífero multi-instrumentista já tinha flertado com as canções do Clube da Esquina, em 2011, num disco de piano solo para crianças. Agora, ao lado de Neymar Dias (baixo) e Sergio Reze (bateria), vai mais fundo nas releituras de “Tudo Que Você Podia Ser” (Lô e Márcio Borges) e “Canoa Canoa” (Nelson Ângelo), entre outras.

Banda Urbana - “Relatos Suburbanos” (independente) – Ativa há 13 anos, a big band paulistana, que se dedica à música instrumental, chega ao seu terceiro álbum. As seis faixas incluídas no repertório deste disco foram compostas e arranjadas por integrantes da banda. Destaque para o baião “Do Mar” (do saxofonista Raphael Ferreira), que conta com participação especial do acordeonista Toninho Ferragutti.

                                           


Benjamim Taubkin & Ivan Vilela - “Encontro” (Núcleo Contemporâneo) – O pianista paulista e o violeiro mineiro cultivam neste duo um repertório que viaja por diferentes paisagens sonoras, tanto urbanas como interioranas. Belezas de sobra, em composições próprias como “Mantendo a Fé” (de Taubkin) ou “Sertão” (de Vilela), assim como nas releituras de “Milagre dos Peixes” e “Cravo e Canela” (Milton Nascimento).


Bruno E. & Coletivo Superjazz - “São Paulo Jazz Rebels” (Urubu Jazz) – Clubes essenciais na cena instrumental e jazzística paulistana, como o Bourbon Street, o Ó do Borogodó e o JazznosFundos, serviram de inspiração para composições do contrabaixista e vocalista goiano radicado em São Paulo. À frente de seu quinteto, Bruno conta com participações do vibrafonista Beto Montag e do cantor Toinho Melodia.

Café Mestiço (independente) – Álbum de estreia do trio paulistano, formado por Michi Ruzitschka (violão de 7 cordas), Ricardo Araújo (guitarra portuguesa) e Beto Angerosa (percussão). A instrumentação inusitada tem tudo a ver com o repertório eclético, que vai do choro “Eu Quero É Sossego” (de K-Ximbinho) ao novo tango de Piazzolla (“Oblivion”), passando por pérolas musicais de Cabo Verde e do Paraguai.

Carol Panesi - “Em Expansão” (Blaxtream) – Segundo álbum da talentosa multi-instrumentista e vocalista carioca, cujo quarteto inclui Fábio Leal (guitarra), Jackson Silva (baixo) e Guegue Medeiros (bateria). Seguidora da “música universal” de Hermeto Pascoal, Carol exibe uma nova safra de composições próprias recheadas de referências espirituais, como “Transmutação Violeta”, “Cordão Astral” e “Somos Todos Um”.

Cristian Sperandir - “Bons Ventos” (independente) – Álbum de estreia do pianista e tecladista gaúcho. Acompanhado por Antônio Flores (violão e guitarra), Caio Maurente (contrabaixo), Sandro Bonato (bateria) e Bruno Coelho (percussão), Cristian toca composições de sua autoria, como “Aquífero”, “Passeio de Notas” e “Tiro de Brazuca”, que combinam influências da música popular brasileira e do jazz.

Danilo Brito & André Mehmari - “Nosso Brasil” (independente) – Uma pena que o atormentado Brasil de hoje não demonstre a mesma alegria revelada por este duo inspirador. Recriando antigos choros, como “Amoroso” (de Garoto) e “Sedutor” (Pixinguinha), ou a valsa “Terna Saudade” (Anacleto de Medeiros), Brito, ao bandolim, e Mehmari, ao piano, referem-se com afeição a um país que já foi mais sonhador e solidário.

Daniel Murray - “Universo Musical de Egberto Gismonti” (Carmo/ECM) – Um dos grandes violonistas da cena instrumental de hoje, o músico carioca faz seu tributo a Gismonti, cuja obra já frequenta seus concertos há muito tempo. Entre as 13 faixas, 11 arranjos de Daniel para violão solo de preciosidades como “Forrobodó”, “Maracatu”, “Frevo” e “Água e Vinho”. A produção é assinada pelo próprio Gismonti. 


 
                                                 

Duofel, Carlos Malta e Robertinho Silva - “Duo + Dois” (Sesc) – Quem já assistiu a algum show desse inventivo quarteto deve ter notado a alegria que esses instrumentistas de alto quilate demonstram ao tocarem juntos. Entre 13 clássicos da bossa e da MPB, as releituras de “Maracangalha” (Dorival Caymmi), “Água de Beber” (Tom Jobim) e “Canto de Yemanjá” (Baden Powell) são especialmente contagiantes.

Fábio Gouvea - “Decênio” (Blaxtream) – O guitarrista e compositor paulista (integrante do Trio Curupira) criou uma extensa peça instrumental em quatro movimentos, inspirada por suas memórias afetivas da última década. Nas gravações, Fábio tem a seu lado Dô de Carvalho (saxofones e flauta), Gustavo Bugni (piano), Felipe Brisola (contrabaixo), Cleber Almeida (bateria, percussão e vocais) e Amanda Mara (vocais).

Fernando TRZ - “Solstício” (Maion) – Primeiro álbum solo do pianista, compositor e produtor paulista, que já tocou com as bandas Cérebro Eletrônico e Liniker e os Caramellows. As sete faixas são autorais. “Janeiro” remete às trilhas sonoras de filmes da “blacksploitation” dos anos 1970. O baião “Gira” mistura sons eletrônicos com um naipe de sopros. O momento lírico do disco vem em “Flores Noturnas”.

Giba Estebez – “Omni” (independente) – Ativo na cena instrumental de São Paulo, o pianista e compositor sintetiza no genérico título de seu álbum (“tudo”, em latim) as diversas influências que sua música engloba. Em “Dance”, Giba revela afinidades com o jazz elétrico dos anos 1970. Eletrificado também é o seu suingado “Samba da Hora”. Já a romântica “Ballad for Nina” destaca o sax tenor de Nina Novoselecki.  


Gilson Peranzzetta e Mauro Senise - “Cinema a Dois” (Fina Flor) – Parceiros há quase três décadas, o pianista e o flautista dedicam este álbum a temas de clássicos do cinema, como “Over the Rainbow” (do filme “O Mágico de Oz”), “Cinema Paradiso” ou “When You Wish Upon a Star” (de “Pinocchio”). Jazzistas sensíveis que são, Peranzzetta e Senise sabem equilibrar emoção e criatividade nas suas releituras.  


Hamilton de Holanda - “Harmonize” (Brasilianos) – Mesmo depois de lançar quatro discos em 2018, o bandolinista carioca não deixou o ano seguinte passar em branco. Ao lado de Daniel Santiago (violão), Thiago do Espírito Santo (baixo) e Edu Ribeiro (bateria), craques do gênero, Hamilton exibe dez composições próprias que flertam com o jazz, até com a música pop, sem abrir mão do samba e do choro.

Hércules Gomes - “Tia Amélia Para Sempre” (Sesc) – O pianista capixaba homenageia a lendária "pianeira" e compositora goianiense Amélia Brandão Nery, a Tia Amélia (1922-1980). Entre as 14 faixas, Hércules interpreta choros como “Saracoteando” e “Cheio de Truques”, em solos de piano. Em outras conta com craques do choro, como Nailor Proveta (clarinete), Izaías (bandolim) e Gian Correa (violão de 7 cordas).

Igor Willcox Quartet - “Live at The Jazz Room” (Room 73) – O quarteto paulista gravou ao vivo este álbum durante turnê pelo Canadá, em 2019. O líder (bateria), Glécio Nascimento (baixo), Vini Morales (piano e teclados) e Wagner Barbosa (sax tenor) tocam repertório próprio, que destaca o jazz-funk “Brotherhood” (de Willcox), as líricas “Piano Intro” e “Brad Vibe” (Morales) e o jazz-rock “U.F.O” (Willcox).

João Taubkin Grupo - “Kandra” (independente) – Paralelamente à parceria que tem desenvolvido com a cantora moçambicana Lenna Bahule, o contrabaixista e compositor paulistano lança mais um álbum autoral, agora à frente de um quarteto que inclui Rodrigo Bragança (guitarra), Sérgio Reze (bateria) e Zé Godoy (piano). Faixas como “Outlander” e “Miragem” revelam influências do jazz e do rock alternativo. 

                                                  

Joel Nascimento & Fábio Peron - “Jacob do Bandolim 100 Anos: Sentimento & Balanço” (Sesc) – Dois brilhantes bandolinistas de diferentes gerações cultuam a obra desse expoente do choro e compositor carioca, que adotou o bandolim até em seu nome artístico. Joel e Fábio relembram joias do mestre, como “Doce de Coco”, “Gostosinho”, “Assanhado” e “Santa Morena”. Os arranjos são assinados pelo cavaquinista e violonista Henrique Cazes.

Lelo Nazário - “Projeto MI²” (Utopia) – Um dos criadores do experimental Grupo Um, o pianista e compositor paulistano ressalta que produziu este álbum solo integralmente em seu estúdio – das gravações à capa. Tocando teclados e sintetizadores, Lelo exibe oito composições inéditas que utilizam diversas linguagens de vanguarda. Participações especiais do pianista Felix Wagner e da flautista Andrea Ernest Dias.

Letieres Leite Quinteto - “O Enigma Lexeu” (Rocinante) – O compositor e arranjador baiano, líder da cultuada Orkestra Rumpilezz, comanda o primeiro disco de seu quinteto. Autor das sete composições, da encantatória “Casa do Pai” à intensa “Mestre Moa do Katendê”, Letieres toca flautas e saxofones. A percussão de Luizinho do Jejê também é essencial neste projeto de ascendência africana em formato jazzístico.

Ludere - “Live at Bird’s Eye” (Blaxtream) – Gravado ao vivo num clube de jazz de Basel (Suíça), em 2018. Philippe Baden Powell (piano), Rubinho Antunes (trompete), Bruno Barbosa (baixo) e Daniel de Paula (bateria) tocam temas próprios, como a balada “Mirante” (de Rubinho) e o samba “Afro-Tamba” (de Philippe). O mestre do violão Baden Powell (1937-2000) é homenageado nas releituras de “Igarapé” e “Sermão”. 


Maiara Moraes Quinteto - “Cabeça de Vento” (Blaxtream) – Catarinense radicada em São Paulo, a flautista e compositora desponta em seu primeiro álbum autoral, acompanhada por Josué dos Santos (saxofones e flauta), Guilherme Ribeiro (piano), Igor Pimenta (contrabaixo) e Pedro Henning (bateria). Lirismo e diversidade rítmica convivem em belezas como “Maracatu”, “Choro pro Pê” e “Caminho de Volta”.

Manoel Cruz - “Brazilian News” (independente) – A afinidade que o contrabaixista e compositor radicado em São Paulo tem com o chamado “latin jazz” traz sabor especial a seu álbum. Para isso conta também a presença do trompetista italiano Gabriel Rosati. Na faixa “Samba D Boa” e na bela releitura da toada “Lamento Sertanejo” (de Dominguinhos e Gilberto Gil), Manoel mostra a face mais brasileira de seu jazz.

Maogani - “Álbum da Califórnia” (Biscoito Fino) – Engavetado durante uma década, este álbum que o criativo quarteto de violões carioca gravou em Los Angeles, com produção de Sérgio Mendes, finalmente está disponível. No repertório, arranjos de standards do jazz e releituras de clássicos da MPB, como “Chovendo na Roseira” (Tom Jobim), “Folhas Mortas” (Ary Barroso) e “Bananeira” (João Donato e Gilberto Gil).

Mário Sève (Kuarup) – Gravado em 2011, num show em São Paulo, este álbum do saxofonista e flautista carioca foi lançado agora para comemorar seus 60 anos. Ao lado de Gabriel Geszti (acordeom), Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo) e Sérgio Reze (bateria), Sève toca 10 composições autorais. Três delas são canções em parceria com a cantora argentina Cecilia Stanzione, que também participou dessa gravação.  


Nenê Trio - “Primavera” (Blaxtream) – Um dos grandes bateristas do país, o gaúcho Realcino “Nenê” Lima Filho finaliza com este disco sua quadrilogia “Quatro Estações”, iniciada com o álbum “Outono” (2009). Talvez o fato de tocar há mais de uma década com o pianista Írio Júnior e o contrabaixista Alberto Luccas possa explicar a impressionante unidade sonora desse trio ao tocar as abstratas composições do líder.  
                                        


Neymar Dias - “Minhas Canções Instrumentais” (independente) – Ao batizar este álbum, o talentoso violeiro e compositor paulista não estava brincando. Acompanhado por Igor Pimenta (baixo elétrico), Agenor de Lorenzi (piano e teclados) e Gabriel Altério (bateria e percussão), Neymar apresenta, nas 11 faixas autorais, doces e singelas melodias, que estão praticamente pedindo letras para se tornarem canções.

Odésio Jericó - “Disco do Jericó” (independente) – Em 65 anos de carreira, o trompetista pernambucano fez parte de conceituadas orquestras e big bands, como a Banda Mantiqueira, que integra desde os anos 1990. Para seu primeiro disco solo, escolheu clássicos da bossa nova e do samba, como “O Que É Amar” (Johnny Alf) e “Devagar com a Louça” (Haroldo Barbosa e Luiz Reis). Música saborosa para ouvir ou dançar.

Projeto Unknown - “Projeto Unknown II” (independente) – Bruno Migotto (baixo elétrico), Cuca Teixeira (bateria), Djalma Lima (guitarra) e Gustavo Bugni (teclados), craques da cena instrumental paulistana, formam este grupo cujo segundo álbum reúne nove composições autorais. Marcadas por influências do jazz e do rock, elas remetem à chamada “fusion”, estilo eletrificado de jazz que dominou a década de 1970.

Quatro a Zero - “Mesmo Outro” (independente) – O 5.º álbum deste quarteto paulista, que começou tocando choro, em 2001, reflete sua evolução e amadurecimento. Releituras dos chorões Jacob do Bandolim (“Receita de Samba”) e Radamés Gnattali (“Papo de Anjo”) dividem o repertório com composições próprias, como “Nós e Ele” (parceria com Hermeto Pascoal) ou “Ferraguttiana” (do violonista Eduardo Lobo).

Ricardo Herz & Camerata Romeu - “Nova Música Brasileira Para Cordas” (independente) – Uma beleza o encontro do violinista paulistano com essa orquestra feminina de cordas de Cuba. Herz, que assina os arranjos e composições do álbum, explora um aspecto incomum na música clássica: o suingue. No baião “Mourinho”, por exemplo, as violinistas, violistas e violoncelistas da orquestra percutem seus instrumentos.

Rogério Caetano & Gian Correa – “7” (independente) – Por ocasião do centenário de Dino Sete Cordas (1918-2006), grande instrumentista e referência na música brasileira em relação à técnica e à linguagem do violão de sete cordas, dois craques desse instrumento – o goiano Rogério e o paulista Gian – exibem sete composições autorais para prestar tributo ao mestre. Difícil imaginar homenagem mais pertinente.

Salomão Soares Trio - “Colorido Urbano” (Blaxtream) – Uma das grandes revelações desta década na cena instrumental, o pianista e compositor paraibano comanda seu trio, que inclui o baixista Thiago Alves e o baterista Paulo Almeida. Da nervosa “Ponto Cego” à sensível “Ponto de Luz”, Salomão exibe oito temas autorais que afirmam sua inventividade. Inclui também releitura do standard “My Favorite Things”.

San-São Trio - “Novos Caminhos” (Maritaca) – O sensível saxofonista Harvey Wainapel, de San Francisco (EUA), se uniu à flautista Léa Freira e ao pianista Amilton Godoy, brilhantes músicos e compositores de São Paulo. Mais que um simbólico encontro do jazz com a música brasileira, o que se ouve aqui é uma inspiradora e descontraída conversa entre duas das tradições musicais mais ricas e criativas do mundo.

Semiorquestra - “Jogos e Quitutes” (independente) – O bem-humorado álbum de estreia desta compacta orquestra paulistana de formação incomum foi produzido por Cris Scabello (da banda Bixiga 70). O repertório é autoral e eclético: vai do baião “Iguarias do Milho” (de Luca Frasão) ao bolero “Curinga da Canastra” (Fernando Sagawa); da guitarrada “Dibrando” (João Sampaio) ao afoxé “Revoada” (Rodrigo Lima).

Silibrina - “Estandarte” (independente) – Liderado pelo pianista e compositor Gabriel Nóbrega, este septeto paulista é uma boa surpresa na cena instrumental dos últimos anos. O segundo álbum do grupo traz, em faixas como “Frevo Maligno”, “Paratema” e “Rochedo”, todas autorais, contagiantes misturas de ritmos brasileiros com influências do jazz e da música pop. Ao vivo, o Silibrina soa melhor ainda.   
                                                   

Teco Cardoso, Bebê Kramer e Swami Jr. - “Dança do Tempo” (Sesc) – Este trio não nasceu por acaso. Convidado pelo Sesc Pompeia a fazer um show de instrumentistas com os quais ainda não havia tocado, o violonista Swami Jr. formou com Teco (sopros) e Bebê (acordeom) um trio que parece tocar junto há décadas. Faixas como “Dois”, “Choro Esperança” ou “Angulosa” confirmam a empatia que une esses novos parceiros.

Thiago Carreri - “Transição” (Blaxtream) – O guitarrista de São Carlos (SP) não esconde, em entrevistas, que a fonte de seu quarto álbum foi a música do mineiro Toninho Horta. Ao lado de Márcio Bahia (bateria), Breno Mendonça e Marcelo Toledo (saxofones), Rubinho Antunes (trompete) e Bruno Barbosa (baixo), Thiago mostra belos temas sua autoria, como “Obrigado” e “Caminhos”, que parecem pedir letras.

Thiago Espírito Santo - Pra Te Fazer Sonhar” (independente) – Um dos grandes baixistas da nova geração, Thiago tem neste álbum a companhia de Bruno Cardoso (piano e teclados) e Cuca Teixeira (bateria). Do samba “Fogo Baixo, Chapa Quente” (com vocais de Filó Machado) à jazzística balada “Giselle” (com participação do gaitista Grégoire Maret), passando pelo jazz-rock “Classe A”, o repertório é todo autoral.

Toninho Horta & Orquestra Fantasma - “Belo Horizonte” (Minas) – Para comemorar seus 50 anos de carreira, o violonista e compositor mineiro não deixou por menos: lançou este álbum duplo com composições inéditas e alguns de seus sucessos, como “Beijo Partido” e “Aqui Ó” (parceria com Fernando Brant). Entre diversos convidados, a cantora Joyce Moreno, o saxofonista Nivaldo Ornelas e o percussionista Robertinho Silva.

Trio Corrente - “Tem Que Ser Azul” (Abeat) – Gravado na Itália, em 2018, segundo os próprios Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo acústico e elétrico) e Edu Ribeiro (bateria), este álbum resume os 18 anos desse premiado trio paulistano. Clássicos da bossa nova, como “Só Tinha Que Ser com Você” (Tom Jobim) e “Eu e a Brisa” (Johnny Alf), ganham criativas releituras, ao lado de composições próprias.

Trio in Uno - “Ipê” (independente) – As primeiras notas da contagiante “Bate Coxa” (composição de Marco Pereira) já revelam um trio de sonoridade incomum. Radicados na França, os brasileiros José Ferreira (violão de 7 cordas) e Pablo Shinke (violoncelo), mais a italiana Giulia Tamanini (sax soprano), recriam com personalidade pérolas musicais como “Forrobodó” (Egberto Gismonti) e “Cine Baronesa” (Guinga).

Tulio Araujo & Daniel Grajew - “Quantum” (Savassi Festival) – O álbum do pandeirista mineiro com o pianista paulista tende ao onírico. Daniel contribui com “Rios Voadores” e “Choro Vermelho”, entre outros temais autorais. Túlio criou uma colagem inusitada: “Óleo Branco” mistura “Oleo” (do jazzista Sonny Rollins) com as melodias de “Asa Branca” (Luiz Gonzaga) e “Tico Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu).   

Ubaldo Versolato - “Portal” (Kuarup) – Músico da Banda Mantiqueira há mais de 20 anos, o experiente saxofonista paulista já fez centenas de gravações com outros músicos, mas só se aventurou agora a gravar o primeiro disco solo. Do samba-jazz “Tubo de Ensaio” (de sua autoria) à romântica balada “Fefê” (do filho Léo Versolato), Ubaldo reafirma seu conhecido talento musical. Que venham outros discos! 


Borandá: gravadora festeja 10 anos investindo em música de alta qualidade

|

                                                         A cantora Sandra Fidalgo e o acordeonista Toninho Ferragutti

Os felizardos que lotaram ontem as mesas do Bona, em São Paulo, para ver o show comemorativo dos 10 anos da gravadora Borandá, já sabiam que a noite seria especial. Com oito craques da música instrumental e duas cantoras de alto quilate se revezando no pequeno palco, ninguém poderia esperar por menos.

Responsável pela produção e distribuição de dezenas de discos de música brasileira contemporânea, tanto instrumental como vocal, a Borandá manteve durante sua primeira década de vida um padrão de alta qualidade. Com seu catálogo recheado de ótimos discos, não deve ter sido fácil escolher o elenco de ontem.

Num show com mais de duas horas de duração, com tantas belezas musicais e demonstrações de virtuosismo instrumental, só vou destacar algumas surpresas. Como o clássico fado “Estranha Forma de Vida” (de Amália Rodrigues e Alfredo Duarte), interpretado com muita emoção pela cantora portuguesa Sandra Fidalgo e um inusitado toque de tango adicionado pelo acordeonista Toninho Ferragutti. Aliás, essa dupla acaba de lançar, pela Borandá, o CD “Paisagem Verde”. 


Intensa também foi a versão de “Corsário” (de João Bosco), que confirmou o conhecido talento da cantora Verônica Ferriani, muito bem acompanhada pelos violões de Marco Pereira (ambos na foto ao lado) e Swami Jr. Finalmente, encerrando o show, a suíte com quatro composições de Baden Powell, que o acordeonista Bebê Kramer e Marco Pereira tocaram juntos, foi simplesmente sensacional.

Parabéns a Gisella Gonçalves e Fernando Grecco, diretores da Borandá, assim como à sua talentosa equipe. Que essa pequena e corajosa gravadora continue apostando em música brasileira feita com coração e requinte instrumental. 


Gravação do show dos 10 anos da gravadora Borandá, no site da Boxcast TV

"Conexão Brasil-Cuba": espetáculo reativa intercâmbio musical entre esses países

|

                              A cantora Omara Portuondo, no centro, com Toninho Ferragutti e Fabiana Cozza

Ao beijar as mãos da veterana cantora Omara Portuondo (ontem, no encerramento da temporada do espetáculo “Conexão Brasil-Cuba”, no Teatro Alfa, em São Paulo), a cantora brasileira Fabiana Cozza não estava expressando apenas sua admiração por essa carismática intérprete cubana. Seu gesto carinhoso também representou a grande afinidade, praticamente uma ligação ancestral, que une as tradições musicais de Brasil e de Cuba.

Logo no início do espetáculo, a maestrina Zenaide Romeu, líder da excelente Camerata Romeu, referiu-se a essa longeva relação musical com uma referência inusitada. Agradeceu ao Brasil por ter criado a bossa nova, o estilo moderno de samba que se tornou mundialmente conhecido e cultivado na década de 1960. Segundo a regente, a bossa nova teria permitido aos cubanos tocar jazz numa época em que esse gênero musical de origem norte-americana não era bem visto em seu país.

Difícil apontar destaques nesse show tão bem engendrado pela produtora Myriam Taubkin com o violonista Swami Jr., que assinam a curadoria e a direção musical. A composição de Egberto Gismonti, “Sertões Veredas: Tributo à Miscigenação”, interpretada com brilho pela Camerata Romeu; o envolvente bloco de canções do pianista João Donato (“Amazonas”, “Emoriô” e “Nasci Para Bailar”); as vibrantes aparições de Omara Portuondo, interpretando os boleros “Dos Gardenias” e “Lágrimas Negras”; as emotivas versões de Fabiana Cozza para “Ay, Amor” (de Bola de Nieve) e “Estrela, Estrela” (Vitor Ramil); ou ainda o belíssimo arranjo de Edson Alves para “Sanfonema”, composição do acordeonista Toninho Ferragutti, que a interpretou com a Camerata Romeu.

Deve-se destacar também a alta qualidade dos músicos liderados por Swami Jr., que acompanharam os intérpretes: Pepe Cisneros (piano), Julito Padron (trompete), Gastón Joya (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão) e Oliver Valdés (bateria). Tomara que esse espetáculo, idealizado para comemorar os 20 anos do Teatro Alfa, seja o primeiro de uma série.

Fabiana Cozza: cantora se inspira na negritude afro-brasileira, em seu álbum "Partir"

|


A cantora Fabiana Cozza sintetiza, em apenas uma palavra, tanto a essência musical de seu novo disco, como a fase de transição que marca hoje sua carreira. Em “Partir” (lançamento independente), seu quinto álbum, a intérprete paulista reúne canções que exibem a diversidade rítmica da diáspora africana. Esse trabalho reflete também o processo de internacionalização de sua carreira, já esboçado em turnês que tem feito pela Europa, nos últimos anos.

Identificada ainda como uma cantora de samba, Fabiana (filha de Osvaldo dos Santos, sambista da escola paulistana Camisa Verde e Branco) confirma nesse trabalho que tem bagagem musical e sensibilidade interpretativa para se dedicar também a outras vertentes da música de ascendência africana. Um caminho que pode lhe abrir mais portas no cenário internacional.

Curiosamente, “Partir” deriva de um projeto que não chegou ao seu destino: um álbum que a cantora faria só com canções do compositor Roberto Mendes, baiano do Recôncavo que conhece como poucos a música dessa região. O projeto foi interrompido, mas Fabiana saiu com cinco canções, todas presentes neste disco. O samba de roda “Não Pedi” (parceria de Mendes com Nizaldo Costa) é elogiado textualmente pela cantora Maria Bethânia, em um carinhoso bilhete incluído no encarte do CD, no qual declara ser fã de Fabiana, sua assumida discípula.

Outro compositor baiano que se destaca no repertório do álbum é Tiganá Santana. Além de “Mama Kalunga” (recém-gravada também pela cantora baiana Virginia Rodrigues), quase uma prece em forma de canção, ele assina “Le Mali Chez la Carte Invisible”, delicada canção em francês que alude ao preconceito racial enfrentado pelos africanos no continente europeu.

Fabiana também encontrou canções de ascendência negra em outras regiões do país. A reverente “Velhos da Coroa”, que abre o disco, foi composta pelo mineiro Sérgio Pererê, ex-integrante do grupo Tambolelê, conhecido por incursões pelos ritmos afro-brasileiros.

A contagiante “Chigala”, do carioca João Cavalcanti, vai mais longe: o ritmo e os versos remetem à África, em especial à terra dos antepassados paternos da cantora. “Quando a vida é em Angola / Se meu coração rebola / Meu peito já não machuca”, diz a letra.

Carregada de melancolia, “Entre o Mangue e o Mar” (parceria da mato-grossense Alzira E com o poeta paulistano Arruda) ganhou uma releitura bem próxima das mornas de Cabo Verde, que conquistaram o mundo na voz de Cesária Évora. Já a dançante “Borzeguita” (do paraense Leandro Medina), com letra em espanhol e português, vem embalada por um ritmo tipicamente caribenho.

Muito bem produzido e dirigido pelo violonista paulistano Swami Jr., que já assinou trabalhos da cubana Omara Portuondo, o álbum também chama atenção pela elegância despojada dos arranjos, centrados em instrumentos de cordas e percussão – com destaque para as participações de Jurandir Santana (guitarra, violão e viola caipira) e dos percussionistas Douglas Alonso e Felipe Roseno.

Com o original repertório que reúne no álbum “Partir” e a maturidade como intérprete que demonstra nessas gravações, Fabiana Cozza prova que o rótulo de sambista já não se adequa mais à música que faz hoje. Está pronta para se tornar, merecidamente, uma cantora do mundo.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/08/2015)



Ronen Altman: bandolinista exibe seu "Som do Bando", ao vivo, em São Paulo

|

                                                   O bandolinista Ronen Altman / Foto: Anita Kalikies/Divulgação

Um dos melhores discos de música brasileira da safra 2014 ganha, enfim, um show de lançamento à sua altura. O bandolinista e compositor Ronen Altman exibe o repertório de “Som do Bando”, seu álbum de estreia, hoje (26/7), no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

Entre os mais de 30 músicos e arranjadores que participaram desse disco, o pianista e maestro Laercio de Freitas, o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo e o acordeonista Lulinha Alencar estarão presentes no show, assim como um quinteto de sopros e a “cozinha” que acompanhou Altman nas gravações.

“Foi bem difícil”, admite o mineiro radicado em São Paulo, explicando que a agenda desses músicos foi o que mais complicou a realização do espetáculo, que pretende ser fiel ao disco. “Tive que substituir três músicos, mas o resto do bando estará comigo”, festeja.

O desejo de contar com tantos músicos nas gravações não tem nada a ver com mania de grandeza. O instrumentista e compositor quis homenagear os colegas que o estimularam a se dedicar mais intensamente à música. Aliás, o termo “bando”, no título do álbum, possui duplo sentido: Altman refere-se tanto a seu instrumento, como aos colegas que dividem com ele a mesma paixão.

No repertório do show estarão composições de Altman, como a valsante “Nanai” (parceria com Celso Viáfora, arranjada por Nailor Proveta), a lírica “Cristalina” (arranjo de Tiago Costa) e a encantatória “Deserto” (arranjada por Claudio Leal Ferreira).

Há também canções conhecidas entre fãs da MPB, como a romântica “Fim do Ano” (de Zé Miguel Wisnik e Swami Jr., co-produtor do álbum), que foi arranjada por Gilson Peranzzetta, ou ainda “Obsession” e “Rio Amazonas”, belas composições de Dori Caymmi, que ele mesmo arranjou.

Altman se diverte ao lembrar que chegou a ser gozado por Arismar do Espírito Santo, anos atrás, ao prometer que um dia gravaria uma composição do amigo (“Turma Toda”), só que em ritmo mais lento para destacar a beleza da melodia.

A promessa foi cumprida, em “Som do Bando”, por meio de um saboroso arranjo de Laércio de Freitas. “O Arismar morreu de rir da minha cara, mas se ferrou. Teve de aceitar a gravação mais lenta e ainda participou do disco, tocando o baixo”, conta Altman, sorrindo.

No palco do Auditório Ibirapuera, o bandolinista estará acompanhado por Swami Jr. (violão), Daniel Grajew (piano), Ricardo Mosca (bateria) e Pedro Gadelha (baixo), além do quinteto de sopros formado por Sarah Hornsby (flauta), Ricardo Barbosa (oboé), Ovanir Buosi (clarinete), Alexandre Silverio (fagote) e Luiz Garcia (trompa).
 

Quem gosta de música instrumental brasileira, com harmonias sofisticadas e belas melodias tocadas com emoção, precisa conhecer esse trabalho.

(Texto publicado parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 26/7/2015)



 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB