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Música instrumental brasileira: série 'Sons de um País Continental' estreia na Cultura FM

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                                       A instrumentista Carol Panesi, que abre a série na Cultura FM  

Reconhecido como um país onde se cultiva uma das mais originais e ricas tradições musicais do mundo, o Brasil já viveu fases mais inspiradas e criativas nessa área. Hoje não faltam exceções promissoras, mas é evidente que a produção musical mais recente, especialmente no caso das canções, soa inferior em termos melódicos e poéticos às de gerações anteriores.

A sensação é diferente quando nos depararmos com o universo da música instrumental. Seguindo o exemplo de grandes mestres desse gênero, como Pixinguinha, Moacir Santos, Hermeto Pascoal ou Egberto Gismonti, novas gerações de instrumentistas têm despontado pelo país, apoiando-se no improviso e na criatividade para buscar seus próprios caminhos sonoros musicais.

Os oito programas da série “Sons de um País Continental”, que estreia dia 4 de maio, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo, vão traçar um panorama recente da música instrumental em nosso país. Para demonstrar que esse gênero musical está em constante evolução, o elenco do programa de abertura destaca talentosos instrumentistas e compositores de diversos estados do Brasil, em média, na faixa dos 20 ou 30 anos.   

Esse é o caso da brilhante violinista, pianista e compositora carioca Carol Panesi, que abre a série com sua composição “Forró do Marajó”, tendo a seu lado o mestre Hermeto Pascoal, uma de suas grandes influências. Mais jovem ainda é o explosivo baixista cearense Michael Pipoquinha, que recria um emotivo baião do grande sanfoneiro Dominguinhos, em parceria com o guitarrista brasiliense Pedro Martins, outro destaque dessa nova geração.

O elenco do primeiro programa destaca ainda outras elogiadas revelações do som instrumental brasileiro: a pianista paulistana Louise Wooley, o pianista e cantor carioca Jonathan Ferr, a baixista paulistana Ana Karina Sebastião, o trombonista capixaba Joabe Reis, o trio paulistano Caixa Cubo e os pianistas paulistas Henrique Mota e Gustavo Bugni. Detalhe importante: todos esses músicos também são compositores.

Os programas seguintes vão proporcionar aos ouvintes uma viagem pelas principais capitais e regiões do país, exibindo instrumentistas de diversas gerações. À cada semana será possível constatar que, assim como a língua portuguesa é falada com um sotaque particular nas diferentes regiões brasileiras, nossa música instrumental também assume sotaques locais pelo país adentro.

Este é o roteiro da viagem musical que vamos realizar em seis programas: Rio de Janeiro (11/5); Minas Gerais (18/5); São Paulo (25/5); Região Nordeste (1.º/6); Região Sul (8/6); Região Norte e Centro-Oeste (15/6). Do choro e do samba-jazz do Rio de Janeiro ao carimbó e ao beiradão do Amazonas, passando pela milonga rio-grandense, pela música caipira criada em Brasília e pelo baião nordestino, essa viagem sonora revela aspectos da diversidade musical brasileira.

A série “Sons de Um País Continental” termina em 22/6 com uma homenagem a alguns dos mestres de várias gerações da música instrumental brasileira, como Tom Jobim, Pixinguinha, Paulo Moura, Baden Powell, Moacir Santos, Egberto Gismonti, César Camargo Mariano, Nelson Ayres & Roberto Sion, Benjamim Taubkin & Ivan Vilela, Arismar do Espírito Santo, Guinga e os grupos Quarteto Novo e
Duofel.  

SONS DE UM PAÍS CONTINENTAL - Série de oito programas, que vai ao ar a partir de 4 de maio, aos domingos, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo. Direção de Inez Medaglia. Roteiros e apresentação de Carlos Calado. Ouça os programas dessa série, que já foram ao ar, utilizando este link:

https://cultura.uol.com.br/radio/programas/sons-de-um-pais-continental/

Eliete Negreiros: cantora e filósofa reflete sobre suas paixões na música brasileira

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                                                                 Detalhe da capa do livro de Eliete Negreiros  

O efeito tridimensional criado por Werner Schulz para a capa de “Amor à Música” (lançamento Sesc Edições), o novo livro de Eliete Eça Negreiros, é um engenhoso convite para que o leitor penetre no universo das paixões musicais da ensaísta e doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Nos anos 1980, quando ainda era cantora, Eliete participou ativamente da chamada vanguarda paulista, ao lado de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e dos grupos Rumo e Premeditando o Breque, entre outros.

Esta compilação de textos escritos para as revistas “Caros Amigos” e “piauí”, na década passada, reúne breves ensaios e perfis de expoentes da música popular brasileira, de Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha a Dorival Caymmi e Dominguinhos, passando por outros grandes nomes do samba, da Bossa Nova, da Tropicália e da canção brasileira.

No ensaio “Falar de Música”, Eliete conta uma reveladora experiência pessoal, que a estimulou a escrever sobre compositores e intérpretes que aprecia. Estava se apresentando em cidades do interior paulista, com seu show “Canção brasileira, a nossa bela alma”, quando uma menina emocionada cantarolou alguns versos de “Feitio de Oração” (de Noel Rosa e Vadico) e lhe perguntou se aquela linda canção era de sua autoria.

Surpresa com a ingênua ignorância da garota, Eliete refletiu sobre o que acabara de vivenciar. “As pessoas que estão me ouvindo não fazem ideia do que significam essas canções que estou cantando. Sentem, mas desconhecem as canções, os compositores, toda essa parte tão vital, bela e gostosa de nossa cultura. Não temos memória musical e um mundo pode se perder no esquecimento”, lamentou.

Com esse relato, a ensaísta traça uma alegoria do evidente descaso que existe hoje, em diversas esferas do país, na relação com a nossa cultura. Ao tratar a música popular brasileira com todo o carinho e a sensibilidade que ela merece, Eliete Negreiros faz a sua parte, brilhantemente, nas páginas deste livro.




Banda Mantiqueira: ícone musical paulistano festeja os 466 anos de sua cidade

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                                                 A Banda Mantiqueira, em show no Sesc Bom Retiro, em São Paulo 

Que tal ir a um show de música instrumental hoje à noite (25/1), para festejar o 466.º aniversário da cidade de São Paulo? Minha sugestão é a Banda Mantiqueira, que fez uma apresentação excelente, ontem, no Sesc Bom Retiro, e hoje volta a se apresentar no mesmo palco.

Se você for, torça para que o clarinetista Nailor Proveta e seus talentosos parceiros toquem novamente o belíssimo arranjo de “Insensatez”, clássico da bossa nova, que entrou no programa de ontem como uma homenagem ao grande Tom Jobim, que faria 93 anos amanhã. Deu para ver gente emocionada, na plateia, com lágrimas nos olhos.

Já o emotivo arranjo do samba “Saudosa Maloca” (de Adoniran Barbosa), que entrou como bis no show de ontem, certamente não vai faltar. Aliás, se Adoniran é considerado uma das figuras mais representativas da música de São Paulo, penso que a Banda Mantiqueira também já pode concorrer nesse quesito.

Com quase três décadas de atividade, a Mantiqueira já demonstrou em discos e inúmeros shows seu carinho pela música popular brasileira: seja pelos sublimes choros do carioca Pixinguinha, pelos encrencados sambas do mineiro João Bosco ou pelo afro-jazz do pernambucano Moacir Santos, entre outras pérolas de seu repertório.

Quer algo mais paulistano do que essa big band nascida no bairro do Bixiga, que toca, com tanta personalidade e refinamento, música originária de diversos cantos do Brasil? Viva a Banda Mantiqueira, orgulho musical de São Paulo!

Sesc Jazz: Gismonti encanta plateia paulista e anuncia álbum com clássicos da MPB

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                                                                 O pianista e compositor Egberto Gismonti

Ontem, ao assistir ao emocionante show de Egberto Gismonti (no festival Sesc Jazz, em São Paulo), fiquei pensando como tive sorte. Pertenço a uma geração que cresceu e amadureceu acompanhando de perto os discos e os shows de Gismonti, Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Naná Vasconcelos, Victor Assis Brasil, Cesar Camargo Mariano, Pau Brasil, Cama de Gato e Duofel, entre tantos outros – para ficar apenas no campo de nossa preciosa música instrumental, que tantas belezas produziu desde os anos 1960.

Ao lado do filho Alexandre, talentoso violonista, Gismonti ofereceu à plateia do Sesc Pompeia, praticamente, uma síntese de sua obra musical. Alternando o violão e o piano, como gosta de fazer, sugeriu novas relações entre algumas de suas composições mais conhecidas, misturando-as em inventivas fusões. Também surpreendeu a plateia com belíssimas releituras de “Carinhoso” (talvez a mais emotiva e original versão do choro-canção de Pixinguinha que já ouvi até hoje) e “Retrato em Branco e Preto” (de Tom Jobim e Chico Buarque).

Não bastassem esses dois presentes musicais, Gismonti também revelou durante o show que já está gravando há algum tempo, na Europa, um álbum com releituras de clássicos da música popular brasileira que aprecia. Segundo ele, a sugestão partiu de Manfred Eicher, o produtor do selo alemão ECM, para o qual Gismonti tem gravado desde “Dança das Cabeças”, o cultuado disco que fez em duo com Naná Vasconcelos, em 1976.

Já ao final da noite, ao retornar ao palco, atendeu dois pedidos de bis entre os muitos que partiram da plateia. Primeiro, tocou a lírica “Palhaço”, uma de suas composições mais populares. Depois, uma versão instrumental de “Água e Vinho”, canção cheia de melancolia do seu álbum homônimo de 1972, que encantou muita gente de minha geração. Num país mais sério do que este, um músico do quilate de Gismonti seria homenageado diariamente.



Wynton Marsalis: trompetista revela que suou para gravar choro de Pixinguinha

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                                         O trompetista e educador Wynton Marsalis, em ensaio no Sesc Consolação 

Para um músico de jazz que chegou a ser apontado pela revista “Time” como uma das 25 pessoas mais influentes da América, em meados dos anos 1990 (época em que travou bate-bocas com os trompetistas Miles Davis e Lester Bowie, que o tachavam de conservador), Wynton Marsalis parece estar em uma fase mais “low profile” ao desembarcar em São Paulo, na manhã da última terça-feira (18/6).

A convite do Sesc, o renomado trompetista e educador americano veio cumprir uma extensa série de concertos e atividades educativas à frente da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), da qual se tornou diretor artístico em 1991. Discutidas e planejadas por quase dois anos, as atividades desse projeto serão realizadas em oito unidades do Sesc, até dia 30/6.

“Estamos muitos felizes”, festejou Danilo Miranda, diretor regional do Sesc, ao abrir uma coletiva de imprensa, poucas horas depois, no 17.º andar do Sesc Paulista. “Percorrendo um itinerário que passa por regiões mais pobres da cidade de São Paulo, faremos esse vasto programa que será bastante importante, tanto do ponto de vista artístico, como do ponto de vista educativo”.

Uma rápida consulta à discografia e à agenda de turnês de Wynton mostra que ele tem dedicado mais tempo aos concertos, gravações e atividades educacionais da Jazz at Lincoln Center Orchestra do que à sua própria carreira de solista. Com o passar do tempo, o trompetista virtuose (o primeiro a conquistar, simultaneamente, prêmios Grammy nas áreas do jazz e da música clássica) cedeu espaço para o educador.

Segundo ele, a grande influência para seu envolvimento com a educação musical está na casa de sua própria família, na cidade de New Orleans (no estado da Louisiana, sul dos Estados Unidos), onde nasceu: seu pai, o pianista e educador Ellis Marsalis (hoje com 84 anos), que contribuiu ativamente para a formação de várias gerações de músicos locais.

“Vi meu pai lutando na comunidade por muitos anos, como poucos fizeram. Ele tem uma grande crença na força da música para transformar comunidades e pessoas. Aprendi com ele”, diz Wynton, que recentemente participou de um concerto em homenagem ao pai, na 50.ª edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival, ao lado de três irmãos: o saxofonista Branford, o trombonista Delfeayo e o baterista Jason, que também veio a São Paulo com a JLCO.

Perguntei a ele o que o jazz pode ensinar aos músicos, assim como aos ouvintes, em termos de filosofia de vida. “A arte é uma reencenação simbólica, toda ela. Você pode retornar aos desenhos das cavernas e constatar que eles são uma encenação simbólica”, respondeu, sugerindo que essa música representa, de algum modo, a convivência humana em uma sociedade.

“Quando as pessoas de uma plateia nos veem tocar, elas assistem a uma reencenação do tipo de comunicação que queremos estabelecer. A música nos força a fazer isso um com o outro. Trata-se de um compartilhamento, com certa liberdade, mas também com responsabilidade de um para o outro, inclusive na hora de decidirmos quanto tempo pode durar um solo improvisado”, explicou.

Ainda tratando de educação musical, Wynton contou um episódio saboroso, que marcou os primeiros anos de sua experiência como professor. Tinha cerca de 25 anos, quando um aluno adolescente, desanimado por ver seus erros serem apontados insistentemente, perguntou, com todo o respeito, se não poderia ensiná-lo a partir de aspectos positivos. “Eu não fazia isso por mal, mas porque foi dessa maneira que aprendi a tocar. Esse caso transformou a maneira como eu pensava que deveria ensinar”, admitiu o educador.

Mais divertido é o episódio relacionado ao álbum “Com Alma” (Selo Sesc, 2017), da Banda Mantiqueira, que o convidou a participar da gravação do encrencado choro “Segura Ele”, de Pixinguinha. Wynton revelou que só 
percebeu o quanto essa música é difícil de tocar já no estúdio, em Nova York, onde contou com a ajuda do violonista carioca Romero Lubambo, que também participou dessas gravações.  A cada nova tentativa frustrada de tocar um trecho, ele olhava para Lubambo, que apenas abria os braços, sem dizer nada. “Só duas horas mais tarde ele me disse que estava OK”, concluiu o americano, rindo. 

Claro que essa experiência um tanto frustrante para um músico tão tarimbado só reforçou a admiração que Wynton tem pela música brasileira. Um de seus compositores favoritos é o pernambucano Moacir Santos, cuja música, segundo ele, “é cheia de arte e de vida”. Essa admiração é compartilhada por Ted Nash, músico da JLCO, que também deu um depoimento pessoal durante a entrevista.


“Temos uma conexão incrível, que me faz pensar que o Brasil é como um primo para os Estados Unidos. Temos muitas similaridades em nosso passado: pessoas incríveis, problemas raciais e políticos. Eu sinto que a música pode ajudar a quebrar barreiras. Toda vez que venho ao Brasil, eu me sinto uma pessoa melhor ao voltar para casa. Este país é extraordinário”, disse o saxofonista e flautista.  

Já quase ao final da entrevista, não faltou uma pergunta sobre as críticas que Wynton costuma fazer ao rap e ao hip hop. “Meu problema com o hip hop tem a ver com o uso de certas palavras que não me agradam. Comecei a dizer isso ainda nos anos 1980. Eu sou da época do movimento pelos direitos civis, então voltar a se chamar pessoas de ‘negrinhos’ e ‘putas’ é algo que eu jamais aceitaria. Já mudei de posição sobre outras coisas, mas mantenho essa opinião há 30 anos”, afirmou o líder da JLCO.

Mais informações sobre a programação de Wynton Marsalis e Jazz at Lincoln Center Orchestra, no site do SESC SP



Egberto Gismonti: compositor e instrumentista encantou a platéia do Bourbon Street

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Ver e ouvir um músico de altíssimo quilate a poucos metros de distância já seria por si só um privilégio, mas a apresentação de Egberto Gismonti, ontem, no clube paulistano Bourbon Street, superou qualquer expectativa.

Numa noite especialmente iluminada, o compositor e multi-instrumentista revisitou diversas joias de seu repertório, como “Caravela”, “Raga” e “Dança das Cabeças” –- esta introduzida por uma carinhosa menção ao saudoso percussionista Naná Vasconcelos (1944-2016), com o qual gravou um de seus discos mais cultuados.


Gismonti também divertiu a plateia do Bourbon Street, contando saborosos “causos” extraídos de suas andanças pelo mundo, que envolvem outros grandes músicos e/ou parceiros musicais, como o mestre da bossa nova Tom Jobim, o violonista Baden Powell, o contrabaixista Charlie Haden e o saxofonista Jan Garbarek.


E não bastassem tantas delícias numa única apresentação, o pianista ainda surpreendeu os fãs com uma personalíssima releitura do choro “Carinhoso”, de Pixinguinha. Que noite!





Banda Mantiqueira: novo disco da big band festeja 25 anos com Lubambo e Marsalis

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               Os saxofonistas Cássio Ferreira (esq. para dir.), Proveta, Josué dos Santos e Ubaldo Versolato  

Manter uma orquestra ativa durante 25 anos já é por si só uma proeza, mas os músicos da Banda Mantiqueira e seus fãs têm mais a comemorar com o lançamento do álbum "Com Alma". Basta ouvir algumas faixas para comprovar que a aventura iniciada por essa big band paulistana, em 1991, resultou em uma linguagem instrumental brasileira que não se fecha às enriquecedoras influências de outras tradições musicais.

“Nos últimos anos, conseguimos aprimorar uma concepção musical mais aberta, que promove um encontro da música popular brasileira com o jazz e a música clássica”, resume o clarinetista e saxofonista Nailor “Proveta” Azevedo, referindo-se ao período que sucedeu o lançamento de “Terra Amantiquira” (2005), o álbum anterior da orquestra.

Para quem sentiu falta de um novo disco da Banda Mantiqueira, na última década, o fundador e líder explica que vários de seus integrantes, assim como ele, têm dedicado mais tempo ao ensino musical, buscando transmitir a linguagem da banda às novas gerações. Paralelamente, a banda participou de projetos com talentosas intérpretes da canção brasileira, como Mônica Salmaso, Rosa Passos, Fabiana Cozza e Anaí Rosa.

“Passamos esses dez anos sem gravar outro disco, mas, por outro lado, a gente cresceu muito musicalmente. Tocar e conviver com outros músicos ajuda a amadurecer. Os projetos com essas cantoras, assim como nossas atividades pedagógicas, trouxeram mais experiência para os músicos da banda”, avalia Proveta.

“Com Alma” representa o fim de um ciclo musical na trajetória da Banda Mantiqueira. Por isso, segundo seu líder, a necessidade de revisitar no repertório do novo álbum um pouco dessa história. Criada no início dos anos 1990, em um apartamento do bairro paulistano de Bela Vista, onde Proveta morava com o trompetista Walmir Gil e os saxofonistas Cacá Malaquias e Ubaldo Versolato, a Banda Mantiqueira veio coroar as experiências desses músicos em formações anteriores, como a Banda Savana, a Banda Aquarius e a Sambop Brass.

Duas composições incluídas no álbum nasceram durante a fase inicial da banda. O frevo “Forrólins”, de Cacá Malaquias, é uma homenagem ao veterano saxofonista norte-americano Sonny Rollins. O arranjo de Proveta combina o contagiante ritmo do Nordeste brasileiro com fraseado e improvisos típicos do jazz. Também composto por Malaquias, o lírico “Chorinho pra Calazans” é dedicado ao artista plástico pernambucano J. Calazans. Se você sentir algo de impressionista no arranjo de Proveta, saiba que não é mera coincidência.

“Stanats”, composição que o pernambucano Moacir Santos (1926-2006) dedicou ao saxofonista norte-americano Stan Getz (1927-1991), foi arranjada por Proveta, em 1994, como uma homenagem ao nosso genial compositor e maestro que muitos brasileiros só descobriram neste século. “Foi incrível ter tocado esse arranjo para o Moacir, o homem que levou o ritmo afro-brasileiro para o jazz clássico, com o requinte da música clássica europeia”, comenta Proveta.

Padrinho da Banda Mantiqueira, o grande músico e compositor João Bosco também é homenageado com seu samba “De Frente Pro Crime”, em arranjo inédito de Proveta. Ao violão, em participação muito especial, surge o carioca Romero Lubambo, com o qual a banda já planejava fazer algo há tempos. Lubambo também é o solista na gravação de “Desafinado” (obra-prima de Tom Jobim e Newton Mendonça), em belíssimo e inédito arranjo de Edson José Alves, que ressalta a sofisticação harmônica da bossa nova e as influências da música clássica que Jobim assimilou em sua obra.

“Con Alma” – a composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do trompete e do jazz moderno, que inspirou o título deste álbum – ganhou cores de bossa nova e samba-canção, no arranjo de Edson José Alves. Além de contar com o violão de Lubambo, essa gravação destaca outro convidado muito especial: o trompetista norte-americano Wynton Marsalis.

O líder da Jazz at Lincoln Center Orchestra também participa da gravação de “Segura Ele”, clássico choro de Pixinguinha (1897-1973). “Quando convidei o Marsalis, disse a ele que essa música lembra um ragtime do Scott Joplin”, conta Proveta, que escreveu a primeira versão desse arranjo para a orquestra paulista Jazz Sinfônica, ainda na década passada.

“Sentimos a necessidade de revisitar a história da banda, para lembrar de encontros musicais que fizeram a diferença em nossas vidas”, comenta Proveta, sintetizando muito bem o conceito deste álbum, que tem tudo para repercutir tanto em nosso pais, como no exterior. Vivendo hoje uma fase de grande produção e primor artístico, a música instrumental brasileira reflete na original experiência dessa big band um exemplo a ser seguido pelas novas gerações.

Como outros admiradores da Banda Mantiqueira, cuja trajetória tive o prazer de acompanhar desde o início, posso declarar que escutá-la durante estes 25 anos também foi sempre algo muito especial.

(Texto para o encarte do disco "Com Alma", escrito a convite da Banda Mantiqueira)





André Mehmari e Danilo Brito: choros e risos na estreia de espaço para música instrumental

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                               O pianista André Mehmari e o bandolinista Danilo Brito, em show no CCMI

Se o bem escolhido show de André Mehmari e Danilo Brito servir de modelo ou prévia de sua programação, o Centro Cultural da Música Instrumental (inaugurado ontem, em São Paulo) já pode se considerar um sucesso. Vários detalhes ainda precisam ser melhorados ou finalizados no projeto, que combina dois espaços para shows e um futuro restaurante, mas os convidados que lotaram a Sala do Autor devem ter saído com a sensação de ter presenciado uma estreia bastante promissora.

Por quase duas horas, o duo do pianista com o bandolinista – formado há poucos meses e ainda nem registrado em disco – deliciou a plateia com uma seleção de clássicos da música instrumental brasileira, como os choros “Três Estrelinhas” (de Anacleto Medeiros”) e “Floraux” (Ernesto Nazareth), o maxixe “Bordões ao Luar” (Tia Amélia) e a valsa “Terna Saudade” (outra de Anacleto Medeiros).

Músicos de personalidades e formações diferentes, o eclético André e o chorão convicto Danilo se completam muito bem nesse duo. Até nas releituras mais livres de alguns choros, como “Cochichando” e “Ingênuo” (ambos de Pixinguinha), Danilo dedilha seu bandolim, mantendo ao menos um dos pés no chão. Já André parece sempre disposto a voar mais e mais nas variações melódicas e nos inusitados improvisos.

Bem humorados, os dois também se divertem contando causos ao introduzir as músicas e os autores do repertório. E não bastasse a hilariante releitura do choro “Tenebroso” (Ernesto Nazareth), cheia de efeitos dramáticos, já quase ao final da apresentação a dupla surpreende a plateia com um inesperado duo de bandolins.

E não é que ainda viria mais uma surpresa? Quando alguns já se preparavam para levantar, André anunciou a bela e quase inédita valsa-choro “Impermanências” (veja vídeo abaixo), que compôs em homenagem ao pai de Danilo, morto meses atrás justamente no dia de um show da dupla. Que noite!

Mais um detalhe. Não pude ficar, infelizmente, para o show do Carlos Malta Quarteto, que iria inaugurar a repaginada Sala JazznosFundos, mas em conversa com Miguel Lopez, diretor da casa, soube dos planos para esse espaço, que funciona no subsolo do CCMI. A ideia é transformá-lo em ponto de encontro de músicos e fãs da música instrumental, promovendo “jam sessions” após os shows diários, que podem se estender pelas madrugadas já que essa sala conta com isolamento acústico. 



Nailor Proveta: três álbuns preciosos de um virtuose da música instrumental brasileira

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O apelido Proveta, que virou nome artístico, surgiu durante a adolescência de Nailor Azevedo, nos anos 1970. O então precoce clarinetista e saxofonista, paulista da interiorana Leme, era chamado de “bebê de proveta” pelos colegas da capital, que já o consideravam um prodígio.

Diferentemente de tantos jovens talentos que se perdem pelo caminho, Proveta superou as melhores expectativas. Muito requisitado nos meios da música instrumental e da MPB, tornou-se compositor, arranjador e líder da conceituada Banda Mantiqueira. Eclético, também transita com facilidade pelo jazz e pela música clássica.

Quem conhece seu belíssimo álbum “Tocando para o Interior”, de 2007, vai logo notar que, em “Coreto no Leme” (lançamento independente), ele rebobina novamente imagens e sons de sua infância, resgatando a atmosfera dos coretos interioranos.

A sonoridade do Quarteto de Cordas Ensemble SP, presente na maioria das faixas desse disco, é essencial para traduzir a eclética concepção musical que Proveta exercita há décadas, em sua carreira. Para ele, a plenitude da música só pode ser apreciada quando se supera a limitadora divisão em gêneros, que separa o clássico do popular.


O repertório, quase todo composto pelo clarinetista, soa como uma coleção de emoções e sentimentos: a alegria da “Polca de Coreto”; a nostalgia do choro-habanera “De Manhã, Lembranças”; o romantismo da valsa “Ypê do Cerrado” (composição de Edson José Alves); a admiração revelada pela “Suíte Encontros”, na qual o clarinetista dialoga com as influências de Debussy, Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, entre outras.

A concisa discografia solo de Proveta acaba de ganhar mais dois títulos. O álbum “Velhos Companheiros de K-Ximbinho” (lançamento Maritaca) exibe inovadoras releituras de composições do cultuado clarinetista e saxofonista potiguar Sebastião “K-Ximbinho” de Barros (1917-1980). 


Contando com participações de alguns craques da cena instrumental, com destaque para os flautistas Teco Cardoso (que assina a direção musical) e Lea Freire (responsável pela produção), esse trabalho deixa Proveta à vontade para exibir todo seu virtuosismo como solista. 

Choros com contagiante sabor de gafieira, como “Velhos Companheiros” e “Sempre”, chamam atenção no repertório desse álbum, mas é em choros mais emotivos, de andamento lento, que Proveta se supera nos improvisos. Tratadas como baladas jazzísticas, as releituras de “Eu Quero É Sossego” e “Ternura” são simplesmente de arrepiar. 


em “Brasileiro Saxofone - vol 2” (lançamento Acari), Proveta leva adiante a proposta do álbum lançado em 2009, no qual esboçou a trajetória do sax na música brasileira do século 20. Desta vez o repertório é mais contemporâneo ainda: o próprio Proveta e o saxofonista Pedro Paes – autor do belo choro “Mensageiro”, que abre o disco – compuseram a maioria das faixas. 
 
Num projeto como este, dedicado ao saxofone, a trilogia composta por Proveta com o violonista Mauricio Carrilho, seu frequente parceiro, ganha um significado especial. Os choros “Meu Sax Sumiu”, “Meu Sax Voltou” e “Meu Sax Sorriu” nasceram a partir do verídico episódio do roubo e do resgate do instrumento favorito de Proveta. Um incidente triste que gerou choros radiantes.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes, edição de 30/4/2016)


Marcos Paiva: baixista e compositor busca um jazz brasileiro com mais liberdade

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                                                                                              Foto: Maria Clara Villas/Divulgação

Como fazer música instrumental com identidade brasileira, que não soe como um genérico do jazz? Este é um desafio que já foi encarado com maior ou menor sucesso por músicos de diversas épocas, especialmente a partir da década de 1960, com a primeira geração do samba-jazz, que destaca J.T. Meirellles, Edison Machado e os trios Tamba, Zimbo e Sambalanço, entre outros.

Quando se fala na moderna música instrumental brasileira também é obrigatório pensar nas obras de Moacir Santos, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Paulo Moura, ou de grupos como o Quarteto Novo, Pau Brasil ou Uakti, entre outros. Nas últimas cinco décadas, esses instrumentistas, compositores e conjuntos desenvolveram estilos e repertórios originais, que dialogam com a linguagem do jazz sem abrir mão de sua brasilidade.

Essa seleção de craques de nosso som instrumental acaba de ganhar um talentoso reforço. Depois de lançar o promissor “São Mateus” (2007), álbum que marcou sua estreia como líder e compositor, seguido por “Meu Samba no Prato” (2011), primoroso trabalho autoral dedicado ao baterista Edison Machado e a outros músicos do samba-jazz, o contrabaixista Marcos Paiva comprova, em “Choroso vol. 2”, seu terceiro álbum, que está preparado para assumir um lugar de destaque na cena da música instrumental.

“Eu busco um jazz brasileiro, uma música que eu possa desenvolver com muita liberdade e, ao mesmo tempo, com um sotaque bem característico do Brasil”, afirma, demonstrando consciência de seu horizonte artístico, esse paulista de Tupã, criado em Viçosa (MG), que vive na cidade de São Paulo desde 2000. Aos 38 anos, com um currículo profissional que inclui trabalhos e parcerias com dezenas de músicos e cantores de destaque, ele decidiu enfim investir mais em sua faceta de instrumentista.

Quem já teve a oportunidade de ouvi-lo tocar, especialmente ao vivo, percebe logo que ele é um daqueles músicos que tocam com a emoção à flor da pele. O controle do som do instrumento e a técnica apurada são metas que, em maior ou menor medida, norteiam a formação de qualquer instrumentista, mas, ao tocar seu contrabaixo, Paiva consegue algo menos comum: é capaz de transmitir sentimentos.

Não é à toa que, quando pergunto a ele quais contrabaixistas o influenciaram mais, Paiva menciona Charlie Haden, também compositor e líder do sofisticado grupo Quartet West, além de outros grandes mestres desse instrumento no universo do jazz, como Dave Holland, Scott LaFaro e Paul Chambers. Já entre os baixistas brasileiros, seus favoritos são Sizão Machado e Zeca Assumpção.

“Charlie Haden conquistou um lugar muito especial no jazz, sem ser um virtuose, propriamente. Ele utiliza a técnica a serviço da criatividade. E se entrega totalmente à música, no momento único em que ela está sendo feita”, comenta Paiva, sugerindo algumas de suas afinidades com esse jazzista norte-americano.

Por outro lado, ressalta também a importância do discurso musical, a concepção sonora que deve preceder qualquer projeto, tanto no estúdio de gravação como nos palcos. “Pensar o som antes de fazê-lo fortalece seu universo sonoro. Eu sempre quis ser mais compositor e arranjador do que instrumentista, porque o discurso musical começa na concepção e visualização desse universo. Esse é um dos aspectos que mais me atraem na música”, afirma.

As ideias que levaram à gravação deste álbum surgiram por volta de 2008. Durante os quase dois anos em que viajou por diversos países, como contrabaixista da banda da cantora portuguesa Teresa Salgueiro (ex-Madredeus), Paiva manteve longas conversas sobre a linguagem e os caminhos da música instrumental brasileira com o clarinetista Nailor Proveta (líder da banda Mantiqueira) e o baterista Daniel de Paula, que também faz parte de seu sextexto, o MP6. Estimulado por essas discussões, decidiu enfrentar o desafio de se aventurar mais pelo universo do choro.

“Naquela época comecei a pensar num projeto em que minha música pudesse se abrir mais, tanto harmonicamente, como para o improviso”, recorda. Embora não se considere um músico de choro, Paiva conviveu e tocou com experientes chorões de São Paulo, como o flautista João Poleto e os violonistas Zé Barbeiro e Luizinho 7 Cordas – sem falar em frequentes canjas na casa noturna paulistana Ó do Borogodó, ponto de encontro de músicos e fãs desse clássico gênero da música instrumental brasileira.

“Por que não abrir mais a linguagem do choro? Por que o contrabaixo não pode assumir o papel do violão de sete cordas?”, ele questiona, observando que, pelo fato de não se considerar um chorão, sente-se à vontade para tratar esse gênero musical com mais liberdade do que seus tradicionais adeptos. “Não tenho a pretensão de fazer o choro evoluir. Acredito que só se consegue fazer uma tradição evoluir quando você vem dela, mas não me agrada a ideia de tocar uma música fechada em uma determinada época”.

Outra influência essencial veio do jazz. Na época em que começou a idealizar o projeto “Choroso”, Paiva estava ouvindo discos dos saxofonistas Joe Lovano, Branford Marsalis e Joshua Redman – todos, coincidentemente, gravados com trios sem piano (sax, contrabaixo e bateria), formato instrumental que permite aos músicos tocar com maior liberdade harmônica. Estimulado por essas gravações, Paiva formou seu vibrante trio com o saxofonista Cesar Roversi e o baterista Bruno Tessele.

Essa formação instrumental mais compacta permite que ele se destaque mais como solista, diferentemente do que se ouve nos seus discos anteriores, gravados com seu sexteto. “Sem o piano ou um violão misturando as frequências sonoras, o contrabaixo sobressai. Ele pode solar, tocar melodias, assumir o papel de protagonista – um desafio para mim”, observa Paiva, destacando também as contribuições de seus novos parceiros.

“Eles têm tanta força dentro deste trio quanto eu”, afirma. “Acho que o César é o saxofonista ideal para este projeto, porque ele soma uma vivência profunda do choro com a influência de John Coltrane e de grandes saxofonistas modernos, como Chris Potter e Rudresh Mahanthappa. Com ele, essa mistura de choro e jazz soa natural”.

“Em relação ao Bruno, eu queria um baterista que soasse mais limpo e tivesse muita força no instrumento. Trabalhamos a ausência do bumbo na condução do choro e ele se adaptou rapidamente”, comenta Paiva, destacando a interação do parceiro com os integrantes do trio. “Ele está sempre inteiro dentro do som, sugerindo ideias e reagindo criativamente ao que é criado no momento”.

Autor das oito faixas do álbum, Paiva conta que gosta de compor, ou mesmo de escrever arranjos, já pensando no potencial e nas características dos músicos que vão participar da gravação. Isso ajuda a explicar o fato de seus arranjos para este álbum soarem tão fluidos e naturais, como se os músicos estivessem improvisando quase todo o tempo, com muita liberdade.

“Sopro”, a breve faixa que abre este álbum, nasceu originalmente como uma marcha-rancho, na época em que Paiva ainda estava escrevendo o repertório para o primeiro volume do projeto “Choroso”. Nesta versão mais lenta, dedicada ao grande contrabaixista cubano Cachao López (1918-2008), o baixo acústico e o sax soprano expõem com delicadeza a melodia, como se preparassem a atenção do ouvinte para emoções mais fortes.

Além de serem mais dinâmicas, as duas composições seguintes têm em comum o fato de terem sido inspiradas por clássicos do jazz ou da música brasileira. Do mesmo modo que Charlie Parker, Dizzy Gillespie e outros criadores do bebop faziam durante as décadas de 1940 e 1950, compondo a partir das harmonias de standards da canção norte-americana, para criar “Seu Joaquim” Paiva reescreveu a harmonia de “Fee-Fi-Fo-Fum” (tema que o saxofonista Wayne Shorter compôs e gravou no álbum “Speak no Evil”, em 1964), adaptando-o à linguagem do choro. “Pensei comigo: se essa música tivesse sido feita na década de 1930, como ela seria? Nos improvisos, brincamos de usar diferentes harmonias”, revela.

Em “Duque”, a conhecida melodia do choro “Tico Tico no Fubá” (de Zequinha de Abreu) já surge nos primeiros compassos, bem alterada, seguida pelo nervoso improviso de Roversi, ao sax soprano. Paiva, que adapta nessa faixa o típico fraseado chorão do violão de sete cordas ao contrabaixo, também reescreveu a harmonia de “Tico Tico”, com um resultado bem jazzístico e contemporâneo.

“São Mateus”, composta originalmente em 2001, nasceu como um choro instrumental – só mais tarde ganhou uma letra escrita por Rodrigo de Campos. Comparada à gravação de 2007, que deu título ao primeiro álbum de Paiva, a nova versão soa mais dramática. O timbre do sax soprano de Roversi e o pandeiro que Tessele utiliza sobre a caixa da bateria reforçam a ascendência árabe da melodia. A atmosfera espiritual que perpassa essa gravação tem uma referência que remete ao jazz da década de 1960: o álbum “A Love Supreme”, obra-prima do saxofonista John Coltrane, cuja influência Paiva reconhece em sua composição.

Exemplo de uma vertente da música instrumental brasileira que costuma conviver com o repertório clássico do choro, “Barão” é um samba sincopado, composto por Paiva em homenagem ao mestre violonista Dino 7 Cordas (1918-2006). Durante o extenso improviso de Roversi, ao sax tenor, o baixista desenvolve um inventivo contraponto rítmico, que não deixa de ser, paradoxalmente, um solo feito em duo.

Em “Miquelito”, também escrita especialmente para esse álbum, Paiva assume o desafio de tocar sem um andamento único. “Quando a compus, queria ter a liberdade de dilatar e encurtar o tempo, um procedimento que também está ligado à noção de espaço”, ele explica, revelando que, nessa composição, tinha em mente a avançada concepção rítmica do quinteto que Miles Davis liderou na década de 1960, tendo a seu lado Tony Williams, Ron Carter, Herbie Hancock e Wayne Shorter.

Com seu tema que parece evoluir de uma frenética marcha para um frevo, embora logo desconstruído, “Chefe” nasceu, segundo Paiva, como uma brincadeira com o cachorro de Tessele, “que não para quieto por um instante”. Também desconstruída, num procedimento tipicamente jazzístico, mas resgatada ao longo da faixa que fecha o álbum, a singela melodia de “Chorosa” remete à clássica forma do choro-canção. Composição que, por sinal, sintetiza o bem sucedido projeto desse álbum. Poucas vezes se ouviu, na história da música instrumental brasileira, choros soarem tão naturalmente jazzísticos. Ou, por outro lado, em raras ocasiões o jazz se aproximou de maneira tão íntima da linguagem do choro.

Para terminar, deixo aqui uma dica pessoal. Se você, como eu, apreciar este álbum, não perca a chance de ouvir o trio de Marcos Paiva ao vivo. Depois de me surpreender com a sensacional performance de seu sexteto, tocando as composições e arranjos de “Meu Samba no Prato”, não vou perder por nada a oportunidade de ouvir de novo esse “power trio”, recriando no palco seu excitante repertório. 


(Texto para o encarte do CD "Choroso", que o Marcos Paiva Trio lança dia 11/2, quarta-feira, no SESC Pinheiros, em São Paulo, com participação do clarinetista Nailor  Proveta)

 

 

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