Sambop Brass: grupo precursor da Banda Mantiqueira ressurge no bar JazznosFundos
Marcadores: altamiro carrilho, banda mantiqueira, bebop, Charlie Parker, djavan, françois de lima, instrumental, jazz, jazznosfundos, john coltrane, nailor proveta, sambop brass, Walmir Gil | author: Carlos CaladoApreciadores da música instrumental brasileira, em especial os fãs da Banda Mantiqueira, não podem perder essa oportunidade rara. O bar e casa de shows paulistana JazznosFundos festeja seu 9.º aniversário, nesta quarta-feira (11/11), com uma apresentação do Sambop Brass –- septeto instrumental de carreira breve, que antecipou a formação da big band dirigida pelo arranjador e clarinetista Nailor Proveta.
Músicos de estúdio, o trompetista Walmir Gil e o trombonista François de Lima tiveram a ideia em 1990, época em que também participavam de shows do grupo de pagode Arte Final. Antes de um ensaio, os dois aquecíam seus os instrumentos tocando temas de bebop em ritmo de samba, quando perceberam que a brincadeira poderia virar coisa séria.
Em novembro do mesmo ano nascia o Sambop Brass, já com Proveta como arranjador e saxofonista. A formação soava inusitada para os padrões musicais da época. Deixando de lado instrumentos harmônicos, como guitarra ou teclados, a “cozinha” do grupo era essencialmente rítmica, com pandeiro, timba e repinique. Identificado em seu próprio nome, o conceito musical do Sambop Brass também era inovador: uma fusão de samba e bebop, com bastante espaço para os improvisos.
“O nosso grande impulso veio através do espírito livre do jazz”, comenta hoje Proveta, observando que, na época, ele e seus parceiros já tinham consciência de que assumir a influência do jazz não significava abandonar a identidade brasileira. “A gente sabia que precisava achar um caminho próprio”, relembra.
No programa do show, no JazznosFundos, estarão os arranjos que deliciaram quem teve a oportunidade (como eu) de ouvir o Sambop Brass, duas décadas atrás: releituras de clássicos do jazz, como “Giant Steps” (de John Coltrane), “Tenor Madness” (Sonny Rollins), “Donna Lee” e “ Ornithology” (Charlie Parker)”, em ritmo de samba; assim como os arranjos de Proveta para o choro “Fogo na Roupa” (Altamiro Carrilho) e o samba “Cerrado” (Djavan), que já preconizavam o repertório da futura Banda Mantiqueira.
A atual formação do Sambop Brass inclui François de Lima (trombone), Walmir Gil (trompete), Nailor Proveta (sax alto e clarinete), Cássio Ferreira (sax tenor), Carlos Roberto (piano), Pedro Ivo Lunardi (baixo) e Celso de Almeida (bateria).
Nesta semana, a programação comemorativa do JazznosFundos destaca também apresentações do Projeto B (dia 12/11), do Pepe Cisneros Quinteto (13/11) e do Gabriel Grossi Quarteto (14/11).
Mais detalhes no site do JazznosFundos
DVDs: a riqueza da música brasileira em videos de Hermeto, Wisnik, Tatit e Raul de Souza
Marcadores: altamiro carrilho, arthur nestrovski, bossa nova, chico buarque, hector costita, hermeto pascoal, instrumental, jazz, joão donato, luiz tatit, raul de souza, samba, zé miguel wisnik | author: Carlos CaladoUm deles aborda o prenunciado fim da canção; outro revê a obra de um músico da primeira geração da bossa nova; o terceiro é totalmente experimental. A diversidade e a riqueza da música brasileira estão bem representadas por recentes DVDs dos compositores Luiz Tatit, Zé Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, do trombonista Raul de Souza e do multiinstrumentista Hermeto Pascoal.
O título do DVD “O Fim da Canção” (lançamento SESC) tem a ver com a polêmica entrevista de Chico Buarque à "Folha de S. Paulo", em 2004, quando disse que o rap poderia vir a ser “a negação da canção tal como a conhecemos”. Tatit, Wisnik e Nestrovski discutem essa hipótese em entrevistas incluídas nessa edição, mas nenhum argumento soa tão eficaz em defesa da permanência dessa forma musical e poética quanto as próprias canções gravadas pelo trio, em 2011, num show com participação do cantor Celso Sim.
Raul de Souza
“O Universo Musical de Raul de Souza” (lançamento SESC) revive composições e a trajetória desse brilhante trombonista e compositor, que deixou sua marca na bossa nova, no samba-jazz e no jazz-funk. As presenças de grandes instrumentistas, como Altamiro Carrilho (flauta), João Donato (piano) e Hector Costita (sax), reforçam o tom de homenagem ao antigo parceiro, tanto no show como nos depoimentos incluídos nesse DVD como extras.
Hermeto Pascoal
“Brincando de Corpo e Alma” (edição independente) é um projeto que só um artista inquieto e inventivo como Hermeto poderia realizar. Nas 12 performances, ele cria música percutindo diferentes regiões do corpo, rindo, roncando, assobiando, até mesmo friccionando a longa barba. Os recursos de edição permitem que ele utilize sons simultâneos, criando assim surpreendentes texturas sonoras e visuais. Como já disse alguém, Hermeto já não é mais um músico, é a própria música.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 24/11/2012)
Relançamentos: bons títulos do selo Kuarup voltam ao mercado
Marcadores: altamiro carrilho, choro, henrique cazes, jacob do bandolim, kuarup, mario de aratanha, paulinho da viola, paulo moura, radamés gnattali, renato teixeira, samba, vander lee, Villa-Lobos, wagner tiso | author: Carlos CaladoNas décadas de 80 e 90, encontrar o selo Kuarup, na capa de um disco de vinil ou de um CD, praticamente garantia que se tratava de música brasileira de boa qualidade. Criada em 1977, no Rio de Janeiro, essa gravadora independente formou um catálogo com mais de 200 títulos, inicialmente centrado em obras de Villa-Lobos e choros. Com o tempo, seu mentor e produtor Mario de Aratanha decidiu investir também na “cultura brasileira de raiz”, gravando música caipira, sambas e música nordestina.
Desativada em 2009, a Kuarup foi adquirida pelos empresários Arthur Fitzgibbon e Alcides Ferreira, que acertaram uma parceria com a Sony Music para reeditar títulos do acervo. O primeiro pacote destaca nove CDs que sintetizam bem a diversidade musical desse catálogo. Inclui ainda o álbum de estréia da cantora Luciana Pires, primeiro lançamento inédito do selo, nesta nova fase.
Uma das jóias do pacote é o CD “Noites Cariocas - Ao Vivo no Municipal” (1988), que reúne uma constelação de astros do choro, como Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola e Chiquinho do Acordeom, para interpretar clássicos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Radamés Gnattali.
Foi tamanha a repercussão desse encontro que, 15 anos depois, o cavaquinhista Henrique Cazes decidiu revivê-lo com outras feras do choro, em “Noites Cariocas - A Alegria do Improviso” (2003). Cazes também co-assina a produção de “Sempre Jacob” (1996), álbum no qual a obra de Jacob do Bandolim é interpretada por Joel Nascimento, Nó em Pingo D’Água e Déo Rian.
Campeão de vendas da Kuarup, “Ao Vivo em Tatuí” (1992) registra o encontro do compositor e cantor Renato Teixeira com a singela dupla vocal Pena Branca e Xavantinho. No repertório, sucessos do universo caipira, como “Amanheceu, Peguei a Viola” e “Romaria”. Teixeira também protagoniza outros CDs do pacote: “Ao Vivo no Rio - 30 Anos de Romaria” (1998) e “Renato Teixeira e Rolando Boldrin” (2004). Mais recente também é “No Balanço do Balaio” (1999), do cantor e compositor mineiro Vander Lee.
Música instrumental brasileira: site Músicos do Brasil constrói enciclopédia do gênero
Marcadores: altamiro carrilho, benjamim Taubkin, free jazz, garoto, hamilton de holanda, henrique cazes, maria luiza kfouri, música cubana, música instrumental, pixinguinha | author: Carlos Calado
Mesmo sendo considerada uma das mais criativas e diversificadas do mundo, comparável apenas à música cubana ou ao jazz norte-americano, a música instrumental brasileira não é incentivada como merece pela indústria do disco, que nas últimas décadas optou por investir apenas em vertentes de consumo fácil, até descartáveis.
“Ainda temos que aguentar, de vez em quando, um desses poderosos chefões de gravadora dizer que a culpa é da falta de criatividade dos músicos brasileiros”, rebate a pesquisadora Maria Luiza Kfouri, que criou e desenvolveu com Fernando Ximenes o site Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental (www.musicosdobrasil.com.br), na rede desde fevereiro.
O perfil enciclopédico não impediu que o projeto desse site, patrocinado pela Petrobrás, fosse desde o início pensado para a internet. “Sabíamos que um projeto desta magnitude não estaria ‘pronto’ nunca e, por isso, a internet seria seu meio ideal, para que possamos acrescentar aquilo que vai, sempre, estar faltando”, diz a pesquisadora.
O site já reúne cerca de 700 verbetes com muitos dos principais instrumentistas do país, que traçaram nos palcos e estúdios de gravação a história desta corrente musical: do flautista Pixinguinha (1897-1973; no centro da foto acima) ou do violonista Garoto (1915-1955), chegando a talentos da cena atual, como o bandolinista Hamilton de Holanda ou o pianista André Mehmari.
Recenseamento
Para iniciar a pesquisa, em meados de 2006, Kfouri e Ximenes criaram uma espécie de recenseamento, um minucioso questionário, que foi enviado por e-mail a centenas de instrumentistas. Além de levantar o currículo de cada um, a pesquisa também colheu dados sobre a formação e o “pensamento” desses músicos, mapeando assim seus mestres, influências e parceiros.
Os critérios para definir quais músicos devem estar representados nos verbetes do site resumem-se a apenas um: só entram os que gravaram ou participaram de gravações de pelo menos um disco exclusivamente instrumental.
“Não há outro critério, nem de estilo, nem de gênero”, explica Kfouri. “Tivemos que criar essa regra, um tanto draconiana, pois se não teríamos que ter outras vidas para poder cobrir todos os instrumentistas brasileiros. São milhares aqueles que acompanham cantores e que nunca participaram de uma gravação instrumental”.
As respostas vieram em grande volume, mas músicos pouco afeitos ao e-mail, como o flautista Altamiro Carrilho ou o pianista Amilton Godoy, pediram para gravar seus depoimentos. Já o pianista Francis Hime, curiosamente, preferiu responder o questionário à mão e o reenviou por sedex. “Ainda não conseguimos chegar a alguns músicos, como João Donato, Paulinho da Viola e Edu Lobo, mas estamos insistindo”, conta Kfouri.
Driblando dificuldades
Dificuldades não faltam num projeto tão abrangente. No caso de instrumentistas já mortos, por exemplo, a pesquisa fica mais restrita a consultas a familiares, a poucas obras de referência ou a sites que nem sempre trazem dados corretos.
Mesmo assim, Kfouri observa que a situação na área da pesquisa cultural, no Brasil, tem melhorado. “A biblioteca musical cresceu consideravelmente e a internet tem sido uma ferramenta e tanto, embora muitas vezes ainda se tenha que tomar muito cuidado com as informações que se encontram em determinados sites”.
Além dos verbetes, o site oferece também dissertações universitárias e ensaios sobre instrumentos, estilos, grupos musicais ou discos mais significativos, escritos por especialistas. Entre os músicos que assinam ensaios estão Henrique Cazes (“O Cavaquinho”), Maurício Carrilho (“O Violão de Sete Cordas”) e Benjamim Taubkin (“Piano Brasileiro”).
(Reportagem publicada na "Folha de S. Paulo", em 3/03/2009)




