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Brazilian Grupo: quinteto mistura bossa, jazz e bom humor em sua receita musical

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                   Clayber (esq. para dir.), Giba, Parahyba, Costita e Aluizio, no Estudio Mosh

O título “Oscaravelhos” pode soar politicamente incorreto, por se tratar de um disco de um quinteto de músicos idosos. Porém, quem já esteve com os instrumentistas do Brazilian Grupo, nos estúdios de gravação ou nos bastidores dos palcos em que se apresentam, logo percebe que essa é apenas uma piada entre amigos. O humor e a autogozação fazem parte da convivência desses antigos colegas de profissão. Assim eles se divertem, celebram a própria vida e tocam a música brasileira de alta qualidade, que cultivam há décadas. 

Não seria muito exagero comparar esses músicos a uma veterana seleção de craques do futebol. Em meados da década de 1960, o contrabaixista/gaitista Clayber de Souza, o pianista Aluízio Pontes e o saxofonista Hector Costita já se destacavam na cena musical de São Paulo, como talentosos instrumentistas da primeira geração do samba-jazz – a vertente instrumental da bossa nova.  

Em 1964, Clayber e o então baterista Airto Moreira sentiram que o promissor trio que haviam formado há pouco com o pianista César Camargo Mariano corria um risco. Após o sucesso de uma longa temporada de shows do Sambalanço Trio com o dançarino e cantor Lennie Dale, na boate carioca Zum Zum, César (recém-casado com a cantora Marisa Gata Mansa) comunicou aos parceiros do trio que decidira morar por algum tempo no Rio de Janeiro.  

Para não falharem no compromisso de acompanhar a cantora Flora Purim, em uma série de shows, Clayber e Airto saíram procurando um pianista às pressas. Por acaso, ao passar pela rua Augusta, o baixista entrou na boate Dim Dim, onde ouviu um jovem pianista que chegara há pouco da interiorana Presidente Prudente. Assim o Sambalanço Trio ganhou um novo pianista.   

Ali começou uma longa amizade e parceria musical, que se mantém há mais de 60 anos. “Aluízio morou na minha casa, estudamos juntos e tocamos muito juntos. Ele é um cara tão fantástico em minha vida, que ao final dos nossos shows até nos beijamos na boca”, diverte-se o paulistano Clayber, com seu jeitão gozador.  

Acompanhando astros da MPB 

Aluízio só tocou por cerca de um ano no Sambalanço Trio. Acabou direcionando sua bem-sucedida carreira a escrever arranjos e acompanhar astros da música popular brasileira, como os cantores Agostinho dos Santos, Maysa, Wilson Simonal, Alaíde Costa e Elizeth Cardoso, entre muitos outros. Também desenvolveu um método próprio de ensino de piano e teoria musical, que segue utilizando com seus alunos.  

Clayber continuou apostando no samba-jazz: tocou com outros conceituados grupos do gênero, como o Sambrasa Trio, o Sambossa 5 e o Jongo Trio. Já no final dos anos 1970, não deixou por menos quando decidiu aposentar seu contrabaixo: tornou-se um excelente gaitista, reconhecido até fora do país.    

Descendente de italianos, Hector “Costita” Bisignani nasceu em Buenos Aires, na Argentina. Tinha 23 anos, em 1958, quando veio ao Brasil pela primeira vez como saxofonista da orquestra de Roberto Inglez – um pianista escocês radicado no Chile. Ao final dessa temporada de shows pelo país, decidiu ficar morando no Brasil, em especial por causa de seu interesse musical pela nascente bossa nova.   

O saxofonista argentino se estabeleceu em São Paulo. Por dois anos tocou na boate Baiuca, ao lado de exímios pianistas daquela cena musical, como Moacir Peixoto, Dick Farney e Luiz Mello. Depois foi solista de algumas das orquestras mais populares da época, como as comandadas por Élcio Alvarez, Simonetti e Carlos Pipper.  

Reconhecimento internacional

Já em 1964, o crescente prestígio de Costita lhe rendeu o convite do pianista Sergio Mendes para integrar o Sexteto Bossa Rio, com o qual gravou o álbum “Você Ainda Não Ouviu Nada” – uma das obras-primas do samba-jazz. O reconhecimento internacional veio no ano seguinte, ao fazer uma temporada de shows na Europa. Acabou vivendo por dez anos naquele continente, onde se apresentou em diversos países. Sorte da música instrumental brasileira, que continuou contando com esse músico de alto quilate, quando ele decidiu retornar ao Brasil.   

Embora pertença a uma geração posterior à dos citados colegas do Brazilian Grupo, o percussionista João Parahyba, hoje aos 75 anos, também conserva uma antiga ligação com o samba jazz. Tanto que, em 2011, lançou pelo Selo Sesc o álbum “O Samba no Balanço do Jazz”, no qual reverencia essa vertente instrumental que marcou o início de sua carreira musical. Chegou a conviver com o baterista Milton Banana e os músicos do Tamba Trio e do Zimbo Trio.  

Hoje é compreensível que Parahyba seja mais conhecido pelos apreciadores do suingado samba-rock do Trio Mocotó, do qual foi um dos fundadores por volta do ano de 1968. Naquela época, ele, Nereu e Fritz acompanhavam o cantor e compositor Jorge Ben, em uma fase de grande sucesso, entre outros bambas do samba, na boate paulistana O Jogral. Passadas seis décadas, com exceção de alguns hiatos fora dos palcos, o Trio Mocotó segue na ativa com Parahyba e Nereu, da formação original, para a alegria de seu fã-clube.  

Giba Pinto – o baixista e músico mais jovem do Brazilian Grupo, atualmente com 59 anos – afirma que sente orgulho ao tocar com quatro de seus ídolos musicais. “Até hoje me surpreendo com cada uma das aventuras do passado contadas por eles, verdadeiras pérolas, que merecem ser registradas. Cada um deles representa um pedaço da história da música brasileira”, comenta.  

Paulistano, durante os primeiros anos de sua carreira, Giba desfrutou o privilégio de acompanhar Johnny Alf, o original pianista e precursor da bossa nova. Já cultiva há três décadas a relação musical com João Parahyba, que conheceu pessoalmente nos anos 1990. Tornou-se integrante da banda que acompanha o Trio Mocotó cerca de 25 anos atrás.

Das boates dos anos 1960 aos ouvidos de hoje

O que logo chama atenção nas oitos faixas do álbum do Brazilian Grupo é a variedade de gêneros musicais que compõem o repertório desse quinteto. Algo até natural tratando-se de instrumentistas de gerações que frequentaram a eclética escola dos bailes, assim como os bares e boates de São Paulo durante as décadas de 1950 e 1960. 

A faixa “El Detective” (composição de Hector Costita) abre o disco com uma atmosfera de trilha sonora de filme de suspense. Apresentado pela expressiva sonoridade de um naipe de saxofones, o tema traz uma levada com sabor de jazz latino. Na seção de improvisos, destaque para os solos de Clayber de Souza (gaita), Aluízio Pontes (piano) e do próprio Costita (sax tenor).  

O saxofonista também contribuiu com a faixa que encerra o disco: “Nano”, um simpático samba que ele dedicou décadas atrás a um de seus filhos. O bem-humorado título da composição remete à dificuldade que o garoto ainda enfrentava para pronunciar o próprio nome. “Quando ele tinha três anos, se alguém perguntava seu nome, ele tentava dizer Mariano, mas as pessoas só conseguiam ouvir ‘nano’”, relembra Costita, rindo da situação. 

A sonoridade do sax, com o timbre do vibrafone do convidado Jota Moraes dobrando algumas frases, empresta um charme especial ao “Samba de Improviso” – tema de autoria de Aluízio. Ele também assina o romântico “Meu Bolero”: a melodia foi entregue a Clayber, que a interpreta com emoção, preparando a cena para um breve e elegante solo do pianista.

A gaita de Clayber também brilha em duas composições de sua autoria. “Forrozinho Pro Campeão” é a recriação de um tema que ele escreveu nos anos 1980, intitulado “Forrozinho”. Decidiu rebatizá-lo e escreveu um novo arranjo para homenagear o grande Hermeto Pascoal, que perdemos neste ano. “Fomos tremendamente amigos. Considero o Campeão meu irmão musical”, diz Clayber, lembrando que foram parceiros no Sambrasa Trio. Convidado a participar da gravação, o guitarrista Nathan Marques contribuiu para que essa homenagem seja mais especial ainda.  

“Choro-Jazz”, outra composição de Clayber, traz uma melodia tão cantável, que até parece pedir versos para uma letra. Entre inspirados solos do gaitista e do saxofonista, o vibrafone de Jota Moraes, com seu timbre metálico, adiciona um tempero pouco comum em um choro.  

“Valente” (composição de João Parahyba e Paulo Muniz Kannec) é um sofisticado samba-canção, que abre espaço para emotivos improvisos de Costita (sax tenor), Clayber (gaita) e Aluízio (piano), além do violão de Natan Marques.

Finalmente, “Valseta”, a valsa-jazz de Janja Gomes que fez parte do repertório do álbum “O Samba no Balanço do Jazz” (gravado por João Parahyba em 2011), reaparece aqui em novo arranjo. “A primeira gravação é linda e perfeita, mas esta é mais emotiva. Foi interpretada com muita emoção pelo quinteto”, compara o percussionista.  

Declarando se sentir um “observador aprendiz”, o baixista Giba Pinto faz uma análise de como seus colegas do quinteto se relacionam entre si e com a arte que cultivam. “Todos eles ainda tocam muito bem, são criativos e tem uma energia fora do comum quando tocam. Nos divertimos muito a cada vez que tocamos juntos, mas também vejo admiração e respeito mútuo entre eles. É impressionante a seriedade, o respeito que eles têm pela música”, comenta.

Depois de passar um dia no estúdio Mosh, em Cotia (SP), onde acompanhei as gravações e me diverti com as conversas e causos que ouvi, assim como pude constatar “in loco” o profissionalismo e a profunda dedicação desses músicos e mestres que admiro há décadas, só posso dizer que concordo integralmente com essas palavras de Giba. 

Também assino embaixo do que observa João Parahyba: “É importante que a gente se lembre desses instrumentistas, que não são tão valorizados como deveriam aqui no Brasil. Precisamos passar essas memórias para as novas gerações. É assim que caminha a humanidade”.  

Texto escrito a convite do Selo Sesc 

Música instrumental brasileira: série 'Sons de um País Continental' estreia na Cultura FM

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                                       A instrumentista Carol Panesi, que abre a série na Cultura FM  

Reconhecido como um país onde se cultiva uma das mais originais e ricas tradições musicais do mundo, o Brasil já viveu fases mais inspiradas e criativas nessa área. Hoje não faltam exceções promissoras, mas é evidente que a produção musical mais recente, especialmente no caso das canções, soa inferior em termos melódicos e poéticos às de gerações anteriores.

A sensação é diferente quando nos depararmos com o universo da música instrumental. Seguindo o exemplo de grandes mestres desse gênero, como Pixinguinha, Moacir Santos, Hermeto Pascoal ou Egberto Gismonti, novas gerações de instrumentistas têm despontado pelo país, apoiando-se no improviso e na criatividade para buscar seus próprios caminhos sonoros musicais.

Os oito programas da série “Sons de um País Continental”, que estreia dia 4 de maio, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo, vão traçar um panorama recente da música instrumental em nosso país. Para demonstrar que esse gênero musical está em constante evolução, o elenco do programa de abertura destaca talentosos instrumentistas e compositores de diversos estados do Brasil, em média, na faixa dos 20 ou 30 anos.   

Esse é o caso da brilhante violinista, pianista e compositora carioca Carol Panesi, que abre a série com sua composição “Forró do Marajó”, tendo a seu lado o mestre Hermeto Pascoal, uma de suas grandes influências. Mais jovem ainda é o explosivo baixista cearense Michael Pipoquinha, que recria um emotivo baião do grande sanfoneiro Dominguinhos, em parceria com o guitarrista brasiliense Pedro Martins, outro destaque dessa nova geração.

O elenco do primeiro programa destaca ainda outras elogiadas revelações do som instrumental brasileiro: a pianista paulistana Louise Wooley, o pianista e cantor carioca Jonathan Ferr, a baixista paulistana Ana Karina Sebastião, o trombonista capixaba Joabe Reis, o trio paulistano Caixa Cubo e os pianistas paulistas Henrique Mota e Gustavo Bugni. Detalhe importante: todos esses músicos também são compositores.

Os programas seguintes vão proporcionar aos ouvintes uma viagem pelas principais capitais e regiões do país, exibindo instrumentistas de diversas gerações. À cada semana será possível constatar que, assim como a língua portuguesa é falada com um sotaque particular nas diferentes regiões brasileiras, nossa música instrumental também assume sotaques locais pelo país adentro.

Este é o roteiro da viagem musical que vamos realizar em seis programas: Rio de Janeiro (11/5); Minas Gerais (18/5); São Paulo (25/5); Região Nordeste (1.º/6); Região Sul (8/6); Região Norte e Centro-Oeste (15/6). Do choro e do samba-jazz do Rio de Janeiro ao carimbó e ao beiradão do Amazonas, passando pela milonga rio-grandense, pela música caipira criada em Brasília e pelo baião nordestino, essa viagem sonora revela aspectos da diversidade musical brasileira.

A série “Sons de Um País Continental” termina em 22/6 com uma homenagem a alguns dos mestres de várias gerações da música instrumental brasileira, como Tom Jobim, Pixinguinha, Paulo Moura, Baden Powell, Moacir Santos, Egberto Gismonti, César Camargo Mariano, Nelson Ayres & Roberto Sion, Benjamim Taubkin & Ivan Vilela, Arismar do Espírito Santo, Guinga e os grupos Quarteto Novo e
Duofel.  

SONS DE UM PAÍS CONTINENTAL - Série de oito programas, que vai ao ar a partir de 4 de maio, aos domingos, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo. Direção de Inez Medaglia. Roteiros e apresentação de Carlos Calado. Ouça os programas dessa série, que já foram ao ar, utilizando este link:

https://cultura.uol.com.br/radio/programas/sons-de-um-pais-continental/

Caixa Cubo: trio paulistano leva seu som jazzístico ao Sesc Pompeia

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                                                                      O trio instrumental Caixa Cubo/Foto Divulgação

Um dos mais talentosos grupos de música instrumental brasileira revelados na última década, o Caixa Cubo se apresenta nesta quinta-feira (29/6), na Comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo. O repertório do show é baseado no recém-lançado álbum “Agôra” (pelo selo alemão Jazz & Milk), oitavo título na discografia desse trio paulistano.

Formado por Henrique Gomide (teclados), Noa Stroeter (baixo) e João Fideles (bateria), o Caixa Cubo começou a se apresentar em palcos europeus em 2012. Desde então já tocou em renomados clubes e festivais de jazz desse continente.

Em seus discos, o grupo já homenageou mestres da música brasileira, como o violonista e compositor Garoto (no álbum “Enigma”, de 2018), o multi-instrumentista Hermeto Pascoal, o maestro Moacir Santos e o compositor Dorival Caymmi (no álbum “Misturada”, de 2014).

Já no recente “Agôra”, o trio reúne composições próprias, com assumidas influências dos jazzistas norte-americanos Herbie Hancock e Miles Davis, assim como do grupo brasileiro Azymuth, pioneiro das fusões do samba com o jazz eletrificado. Entre várias participações especiais, destacam-se o músico sul-africano Bongani Givethanks e os cantores Xênia França e Zé Leônidas.

Caixa Cubo no Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo). Dia 29/6, às 21h30. Ingressos: R$ 20 e R$ 40.



Wayne Shorter (1933-2023): perdemos um grande criador e visionário do jazz

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             Wayne Shorter, no festival Jazz al Parque 2015, em Bogotá, na Colômbia
 

Na época da pandemia, abandonei o costume jornalístico de homenagear músicos ao saber que eles morreram. Até porque, durante aqueles deprimentes anos de 2020 e 2021, eu seria obrigado a fazer isso quase diariamente. Homenagens e tributos a grandes artistas podem ser feitos a qualquer dia e hora, mas hoje prefiro o elogio escrito ou postado enquanto esses artistas ainda estão vivos e produzindo. Muitos deles precisam de estímulos para seguir adiante.

Decidi suspender temporariamente minha decisão ao saber da morte de Wayne Shorter, um dos meus heróis musicais desde os tempos de adolescência. Mas não vou repetir aqui tudo que já escrevi sobre esse grande saxofonista e personalíssimo compositor. Prefiro resgatar um comentário que postei no Facebook, por ocasião de sua última apresentação no Brasil, em 2016. Indignado com as atitudes de alguns imbecis, durante e após o concerto de Shorter e Herbie Hancock no Brasil Jazz Fest, confirmo quase sete anos depois que pressenti no ar o mau cheiro da tendência reacionária que já despontava neste país:

“Ouvir um bobão qualquer gritar ‘Toca Raul!’, durante o concerto de Herbie Hancock e Wayne Shorter, em São Paulo, não chegou a me surpreender. Já no dia seguinte, saber que um sujeito deixou a plateia brandindo seu dedo médio com indignação me fez pensar que a estupidez humana não tem limites.

Eu me sinto um felizardo por pertencer a uma geração que cresceu ouvindo músicos inovadores como Hancock e Shorter, assim como Miles Davis, John Coltrane, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e tantos outros. Com eles aprendi que a música vai muito além dessas canções redundantes e grudentas feitas para serem repetidas nas rádios e vendidas por atacado. Descobri graças a eles que a música também pode ser uma grande aventura, uma viagem ao desconhecido.

Será que daqui a alguns anos, num Brasil inculto e reacionário (tomara que seja apenas um pesadelo), músicos inventivos e corajosos como Shorter e Hancock serão vaiados?”

Aqui o link para a resenha desse revelador concerto de Shorter e Hancock (na Sala São Paulo, em 2016, incluído na programação do Brasil Jazz Fest), que escrevi para a "Folha de S. Paulo":

https://www.carloscalado.com.br/2016/04/wayne-shorter-herbie-hancock-musica.html



Passion4Jazz: podcast aproxima ouvintes do universo do jazz e gêneros afins

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                                                                  O multiinstrumentista e compositor Hermeto Pascoal  

Gosta de jazz e música instrumental brasileira? Então tenho um convite para você: já está disponível no Spotify, no YouTube, na Apple TV e em outras plataformas de streaming o primeiro episódio do podcast Passion4Jazz. Dirigido não só aos fãs do jazz e gêneros afins, mas também àqueles que desejam se iniciar nesse inventivo universo musical, o P4J estreia com um episódio dedicado à música e ao legado da grande cantora e ativista negra Nina Simone (1933-2003), com participações especiais das cantoras Leila Maria e Alma Thomas.

Com oito episódios, a primeira temporada do Passion4Jazz destaca também: a música universal do “bruxo” Hermeto Pascoal comentada por três de seus discípulos; as fusões do jazz contemporâneo com o hip hop assinadas pelo pianista e compositor Robert Glasper; o samba-jazz de ontem e de hoje, com participações especiais do Trio Corrente e do pianista Amilton Godoy; o legado musical do grande maestro pernambucano Moacir Santos; a história e os causos da criativa dupla Airto Moreira e Flora Purim; um panorama da nova geração do jazz em Londres; e um balanço da impactante e mística obra do saxofonista e compositor John Coltrane.

Deu para sentir até onde queremos chegar nessa primeira temporada? Além da conversa descontraída e repleta de informações relevantes, que se espera dos melhores podcasts, contamos ainda com uma atração exclusiva: um quarteto formado pelos craques Gustavo Bugni (piano), Bruno Migotto (baixo), Vitor Cabral (bateria) e Jota P. (sopros), que tocam releituras de clássicos do jazz, em vários episódios.

Como consultor musical desse projeto (e umas coisinhas a mais), tem sido um grande prazer trabalhar ao lado do pianista Jonathan Ferr e da jornalista Debora Pill, nossos hosts, do designer Oga Mendonça e do jornalista Eduardo Roberto. A produção executiva é de Marcelo Pires e Luciana Pavan, à frente da equipe da produtora PlayGround.


3º Sampa Jazz Fest: evento exibe os talentos de Carol Panesi e do grupo Meretrio

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                                                A trompetista e compositora Carol Panesi, no 3º Sampa Jazz Fest 


Primeiro, o show do Meretrio, original grupo instrumental paulista que vem criando há 14 anos um repertório bem pessoal e diversificado. Depois, a apresentação da talentosa multi-instrumentista e compositora carioca Carol Panesi, que lançou há pouco seu disco de estreia, “Primeiras Impressões”. 

Dois shows bem diferentes, mas igualmente saborosos, compuseram a segunda noite do Sampa Jazz Fest, na sexta-feira (21/9), em São Paulo. Sentada confortavelmente nas poltronas de uma das salas de cinema do Espaço Itaú, a plateia que se arriscou a ouvir atrações musicais ainda pouco conhecidas foi premiada com boas surpresas.

Emiliano Sampaio -- o líder, guitarrista e trombonista do Meretrio, que vive desde 2012 na Áustria, onde prepara seu doutorado em Composição para Orquestra Sinfônica -- não escondia sua satisfação por poder exibir sua música, novamente, na capital paulista.  A seu lado estavam os mesmos Gustavo Boni (baixo) e Luís André Gigante (bateria), cuja parceria de quase uma década e meia faz muita diferença.  

Como um bem-humorado cicerone, Emiliano (na foto ao lado) logo conquistou a plateia ao apresentar algumas de suas composições. Provocou sorrisos ao revelar que a lírica “O Casamento” nasceu após um sonho, no qual se viu casando a contragosto. Já ao introduzir a experimental “The Answer”, contou que a criou depois de ouvir uma composição do guitarrista britânico Fred Frith. “Eu adoraria ter composto aquela música. Então decidi fazer uma resposta a ela”, explicou.
    
Em meio a influências bem diversas, que vão do rock e da música pop ao blues e ao funk, o trio paulista não deixou de incluir dois arranjos de clássicos da música brasileira, que fazem parte de seu repertório há muito tempo: uma descontraída releitura do choro “Lamentos” (de Pixinguinha) e um arranjo bem livre de “Tico-tico no Fubá” (Zequinha de Abreu), com mudanças de andamento e improvisos de Emiliano e Gustavo.

Já o repertório autoral de Carol Panesi é todo ele calcado na rica diversidade da música brasileira: do sacudido “Forró do Marajó” ao samba “No Balanço da Léa” (dedicado à compositora e flautista paulistana Léa Freire), passando pelo nervoso choro “Ansiosa”, entre outras composições. No trio que a acompanha, destaque para o baixo de Jackson Silva e a bateria de Guegué Medeiros, também presentes em seu disco.

Não foi à toa que, durante o show, Carol agradeceu ao mestre Hermeto Pascoal, assim como ao baixista Itiberê Zwarg, seu mentor e parceiro na Itiberê Orquestra Família por mais de uma década. Suas composições têm personalidade, mas é fácil perceber nelas a influência da inventiva “música universal” de Hermeto. 

Já quase ao final da noite, a violinista, trompetista e vocalista tentou explicar, sem ser explícita, o vínculo de sua composição “A Cara Dela” com temas que têm mobilizado as mulheres, ultimamente. Mais incisiva, uma garota resumiu o assunto, ao gritar da plateia: “ele não!” (a palavra de ordem que vem sendo repetida por milhões de mulheres contra um inominável candidato à presidência do país, que já as ofendeu várias vezes). 

Com um sorriso, Carol concordou com a garota. Há quem pense que a música, assim como outras artes, são mero entretenimento, mas mesmo o fato de a música instrumental dispensar o uso de palavras não a impede de refletir sobre a nossa realidade. 

Sampa Jazz Fest: terceira edição do evento terá Richard Bona, Hermeto Pascoal e Bixiga 70

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                                                                          O baixista e cantor camaronês Richard Bona

Jazz, música instrumental brasileira e ritmos africanos. Essa diversidade musical valoriza a programação do Sampa Jazz Fest, cuja terceira edição será realizada na próxima semana, de 20 a 22/9 (quinta a sábado), em São Paulo.

O baixista, cantor e compositor camaronês Richard Bona, já conhecido pelo público brasileiro, está entre as atrações principais desse evento, que destaca também o carismático Hermeto Pascoal e seu grupo, a big band do pianista e compositor Nelson Ayres e a banda paulistana Bixiga 70.

O elenco inclui ainda o Meretrio (do guitarrista e compositor paulista Emiliano Sampaio, que vive na Áustria há seis anos), o quinteto da cantora e compositora paulista Dani Gurgel, a multi-instrumentista e compositora carioca Carol Panesi e o saxofonista brasiliense Esdras Nogueira.

Com curadoria de Daniel Nogueira (saxofonista das bandas Bixiga 70 e Projeto Coisa Fina), o Sampa Jazz também vai promover uma roda de negócios, com diretores de festivais, produtores de casas de espetáculos e outros profissionais do mercado musical.

A programação se divide em dois palcos da cidade de São Paulo. No Espaço Itaú de Cinema, apresentam-se: Nelson Ayres Big Band e Dani Gurgel Quinteto (no dia 20/9); Meretrio e Carol Panesi (dia 21/9). O festival termina na Casa das Caldeiras (dia 22/9), com Richard Bona, Hermeto Pascoal, Bixiga 70 e Esdras Nogueira.

Mais informações em www.sampajazzfest.com.br

Duofel: violonistas festejam 40 anos de carreira com convidados especiais

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                                                         Fernando Melo e Luiz Bueno, do Duofel - Foto: Gal Oppido 

São poucos os grupos musicais que conseguem se manter ativos durante 40 anos. Mais raros ainda são aqueles, como o Duofel, que construíram sólidas obras musicais, calcadas em gravações relevantes e projetos criativos. Desde 1978, quando decidiram formar esse duo de violões, os autodidatas Fernando Melo e Luiz Bueno jamais abriram mão de fazer música instrumental com personalidade própria. 

“Não temos preconceitos musicais. A gente gosta de experimentar todos os tipos de música”, observa o paulista Bueno, que conheceu o alagoano Melo em 1976, quando tocavam guitarra e baixo, respectivamente, na banda de rock progressivo Boissucanga. A seriedade da dupla já se mostrava em seu projeto inicial: para se aprofundarem nos meandros da rítmica brasileira, os dois viajaram meses pelo interior de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, pesquisando manifestações folclóricas e ritmos musicais, como o maracatu, o baião e a embolada.

Na década de 1980, a produtiva parceria de sete anos com a cantora Tetê Espíndola deflagrou uma extensa série de encontros que o Duofel tem realizado com instrumentistas e cantores de diversos gêneros musicais: do vanguardista compositor e pianista paranaense Arrigo Barnabé ao percussionista paulista João Parahyba (presente em “As Cores do Brasil”, o primeiro álbum da dupla, gravado em 1990, na Alemanha); do percussionista indiano Badal Roy ao genial multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal, que praticamente adotou o duo, em 1993.

“Hermeto é nosso padrinho. A convivência com ele abriu nossos horizontes musicais”, comenta Melo. Graças aos inventivos arranjos que o “bruxo” de Lagoa da Canoa idealizou para “Kids of Brazil” (álbum que o Duofel gravou nos EUA, em 1996), o interesse da dupla em pesquisar novas sonoridades e diferentes afinações para seus violões cresceu mais ainda.

A maior conquista do Duofel durante essa trajetória de quatro décadas, na opinião de Bueno, foi se dar o direito de abordar qualquer gênero musical, sempre adotando uma linguagem própria. Não foi à toa que, para gravar “Duofel Plays The Beatles” (2009), o disco mais popular lançado até hoje pelo duo, ele e Melo esperaram mais de uma década até imprimir a assinatura musical da dupla nesse projeto de releituras de sucessos do quarteto britânico.

“Só quando sentimos que a gente já poderia se divertir tocando Beatles, nós gravamos o disco”, diz Bueno. Essa “diversão” se apoiou em um método intuitivo de harmonização e arranjo, que ele e o parceiro desenvolveram com o tempo. “Geralmente, os caras que fazem arranjos usam toda a estrutura harmônica da música e traçam um caminho. A gente faz o contrário: lembramos da música e já saímos criando. Gostamos de partir da criatividade, harmonizando a música sem ficarmos presos ao original”, observa Melo.

Hoje, somando mais 150 composições editadas, sete trilhas sonoras, treze álbuns e três DVDs, o Duofel comemora 40 anos de carreira musical, num ambiente em que sempre se sentiu muito à vontade: tocando ao vivo. E como costuma fazer há décadas em seus projetos, não dispensa a companhia inspiradora e criativa de antigos e novos parceiros.

Finalmente, aquela pergunta inevitável: como o próprio Duofel explicaria essa longevidade tão incomum no cenário musical, em meio a tantos artistas e bandas descartáveis? “Nosso envolvimento com a música é muito intenso, até um pouco insano, em relação à vontade de que ela esteja sempre ‘up to date’, seja com instrumentos, sonoridades, experimentações ou repertórios. Nosso grande barato é fazer esse som que só o Fernando e eu sabemos fazer juntos”, conclui Bueno. Sorte dos fãs de diversas gerações do Duofel, que desfrutam essa brilhante parceria musical há quatro décadas.


DUOFEL 40 ANOS

Show no Sesc 24 de Maio (r. 24 de Maio, 109, região central de São Paulo/SP). 
Dia 10/3 (sábado), às 21h; dia 11/3 (domingo), às 20h.
Convidados: Hermeto Pascoal, Carlos Malta, Robertinho Silva, Benjamim Taubkin e Dani Black (no dia 10/3); Hermeto Pascoal, Arismar do Espírito Santo, Simone Soul e Raul Misturada (no dia 11/3).
Ingressos à venda no site do Sesc SP: www.sescsp.org.br  








Jazz na Fábrica 2017: festival do Sesc SP enfoca a diversidade do jazz globalizado

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                                                        O trompetista Roy Hargrove, atração do 7º Jazz na Fábrica

As melodias africanas do pianista Abdullah Ibrahim, o jazz moderno do trompetista Roy Hargrove, a música universal de Hermeto Pascoal, o mix de soul, funk e hip hop do baixista e cantor Thundercat. Essas são algumas das atrações do Jazz na Fábrica, festival que voltará a ocupar três palcos do Sesc Pompeia, em São Paulo, de 10 a 27 de agosto.

Em sua sétima edição, esse evento conserva o perfil que o transformou em um dos maiores e mais antenados festivais do gênero no país. Ao destacar a diversidade de estilos do jazz e suas múltiplas influências na música instrumental de diferentes países, o festival Jazz na Fábrica revela a globalização desse gênero musical.

A programação começa em 10/8, com três apresentações do trompetista norte-americano Eddie Allen. Influenciado pelo jazz de vanguarda de Chicago, ele já tocou com mestres dessa vertente, como Muhal Richard Abrams e Lester Bowie. Virá acompanhado por seu septeto.

Outras duas atrações do evento também se ligam ao universo da vanguarda. Formada em 1966 pelo pianista alemão Alexander von Schlippenbach, a Globe Unity Orchestra manteve acesa a fúria iconoclasta do free jazz durante duas décadas. Nos últimos anos voltou a se reunir em ocasiões especiais.

Considerada uma pioneira da música eletrônica, a cantora e compositora nova-iorquina Annette Peacock se destacou ao lado de jazzistas de renome, como Gary Peacock (seu ex-marido), Paul Bley e Paul Motian. Seus dois concertos no festival serão em formato voz e piano.


A atuação do pianista e compositor Abdullah Ibrahim foi essencial para o estabelecimento de uma original cena jazzística na África do Sul, onde nasceu. Influenciado pelo mestre Duke Ellington (1899-1974), que o introduziu nos Estados Unidos, ele desenvolveu uma obra de grande personalidade, marcada pelo lirismo das melodias de seu país.

Também ligado à tradição do jazz, o trompetista Roy Hargrove já é mais conhecido do público brasileiro. Desde os anos 1990, quando despontou como revelação, tem alternado projetos acústicos e eletrônicos. Além de seu quinteto, trará como convidada a italiana Roberta Gambarini, ótima cantora de jazz.

Badalado na cena pop alternativa, o baixista, compositor e cantor californiano Stephen Bruner, mais conhecido por Thundercat, já tocou com a banda Suicidal Tendencies e com a cantora Erykah Badu. “Drunk”, seu último álbum, traz participações de Pharrell Williams e Kendrick Lamar, entre outros.

O elenco internacional do 7º Jazz na Fábrica inclui ainda o guitarrista moçambicano Jimmy Dludlu, o cantor ganense Pat Thomas, a Debo Band (liderada pelo saxofonista etíope-americano Danny Mekonnen) e o duo dos espanhóis Juan “Chicuelo” Gómez (guitarra flamenca) e Marco Mezquida (piano). Já o jazz de Israel será representado por duas atrações: o trompetista Itamar Borochov e a flautista Hadar Noiberg.

Além do grande Hermeto Pascoal (na foto acima) e seu grupo, que prometem tocar o repertório do novo álbum “No Mundo dos Sons” (selo Sesc), o elenco brasileiro inclui o excelente trio do baterista gaúcho Nenê, a parceria do guitarrista Emiliano Sampaio com a Soundscape Big Band, a banda feminina Jazzmin’s e o pianista pernambucano Amaro Freitas, recém revelado com o belo álbum “Sangue Negro”.

Os ingressos começam a ser vendidos no início de agosto, por meio do site do Sesc SP (
www.sescsp.org.br) e nas bilheterias de suas unidades. 

(Texto publicado originalmente na versão online da "Folha de S. Paulo", em 7/7/17)

Experiência Piazzolla: festival de Buenos Aires pode vir ao Brasil em 2017

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                                                                          O compositor e bandoneonista Astor Piazzolla 

Qualquer fã de Astor Piazzolla (1921-1992) adoraria estar em Buenos Aires durante esta semana. A primeira edição do festival Experiência Piazzolla – de 6 a 11/9, na Ciudad Cultural Konex – reverencia a obra do grande compositor e bandoneonista argentino por meio de uma série de concertos, mostra audiovisual, espetáculos de dança, debates e workshops.

Alguns artistas escalados para essa extensa programação já se apresentaram em palcos brasileiros, como o cantor e compositor Pedro Aznar e o grupo Escalandrum (liderado pelo baterista Daniel “Pipi” Piazzolla, neto do compositor), que estarão juntos, assim como o bandoneonista Néstor Marconi ou a cantora Susana Rinaldi.

Entre outros destaques do evento, o sexteto Vibraphonissimo promete revisitar os repertórios dos álbuns que Piazzolla gravou com dois conceituados jazzistas: o vibrafonista Gary Burton (“The New Tango”, 1986) e o saxofonista Gerry Mulligan (“Reunión Cumbre”, 1974).

O Brasil também está muito bem representado nesse festival por Hermeto Pascoal e seu grupo, que se apresentam na quinta-feira (8/9). Vale lembrar que o imprevisível “bruxo” de Lagoa da Canoa (na foto abaixo) já visitou composições de Piazzolla, como “Libertango” ou “Años de Soledad”, em seus shows e discos.


Edição brasileira

Para os muitos fãs brasileiros de Piazzolla, uma boa notícia: esse festival deve ganhar uma edição em São Paulo e Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2017, com participações de artistas brasileiros. O responsável por trazer o evento ao país é Toy Lima, idealizador e produtor de importantes festivais, como o Chivas Jazz, o Heineken Concerts e o Bridgestone Music.

“Não se trata de uma mostra convencional da obra de Astor Piazzolla, que completaria 95 anos em 2016, mas sim a mais completa imersão no trabalho desse músico realizada até agora em todo o mundo”, avalia o produtor paulista, que também participará de uma das mesas de debates do evento, nesta semana.  


Lima chama atenção para o fato de Piazzolla ter sido criticado durante décadas por parte da imprensa local e argentinos mais conservadores, que não aceitavam sua “música contemporânea da cidade de Buenos Aires” (termo com o qual ele se referia à sua música, por não gostar que a chamassem de tango).

“A intenção da Experiência Piazzolla é mostrar ao público mais jovem a originalidade e o modernismo da obra desse compositor. Na mostra audiovisual a plateia vai conhecer muitas histórias de Piazzolla, um aficionado pela pesca de tubarões, assim como sua habilidade como pugilista, sua aversão à boemia portenha e seu antiperonismo feroz”, comenta o produtor.

Outro aspecto da obra de Piazzolla que Toy Lima destaca é sua contribuição para o cinema. “Poucos sabem que ele compôs uma trilha sonora para o filme “O Último Tango em Paris” (de Bernardo Bertolucci), que foi recusada por ser melancólica demais e substituída pela obra-prima de Gato Barbieri”.

Antecipando sua participação num dos debates do evento, Lima diz que vai comparar a rejeição sofrida por Piazzolla em seu país com as críticas que Tom Jobim enfrentava no Brasil. “Astor está para Buenos Aires como Jobim para o Rio ou Gershwin para Nova York”, observa o produtor, equiparando as contribuições desses grandes expoentes da música do século 20.
 

Mais informações no site do festival Experiência Piazzolla 



50 Anos do Montreux Jazz: figuras estranhas que conheci nesse festival

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                                             Sharon Jones e Charles Bradley, na edição 2014 do Montreux Jazz


O Montreux Jazz, um dos mais influentes, ecléticos e antigos festivais de música no mundo, está comemorando 50 anos. Só o fato de grandes astros de diversos gêneros musicais, como Miles Davis, Hermeto Pascoal, Bill Evans, Ray Charles, João Gilberto ou Stevie Ray Vaughan, terem gravado discos "ao vivo" nesse evento anual suíço já demonstra sua importância.

Embora não conte mais com o carisma de Claude Nobs (1936-2013)
 – seu criador e condutor por mais de quatro décadas, além de maior responsável por transformar essa pequena cidade suíça em referência mundial , a produção do Montreux Jazz se superou na escalação dos artistas para sua 50.ª edição, que começou ontem. 

Quincy Jones, Herbie Hancock, John Scofield, Brad Mehldau, Al Jarreau, John McLaughlin, Dave Holland, Charles Lloyd, Steps Ahead, Randy Weston, Buddy Guy, Shemekia Copeland, Van Morrison, Charles Bradley, Richard Bona, Patti Austin, Robben Ford, Avishai Cohen, Neil Young, Marcus Miller, Santana, Angélique Kidjo e Gonzalo Rubalcaba se destacam na programação.

Presente em Montreux desde 1978, a música brasileira terá mais uma vez sua noite exclusiva, em 10/7. Organizada pelo produtor Marco Mazzola, vai contar neste ano com João Bosco, Ivan Lins, Hamilton de Holanda, Elba Ramalho, Martinho da Vila, Maria Rita, Vanessa da Mata e Ana Carolina.  


No texto abaixo, eu relembro alguns causos curiosos que vivi em Montreux durante a década de 1990, quando cobria o festival como repórter e crítico musical da "Folha de S. Paulo". Escrevi esse artigo a pedido do amigo Claudinê Gonçalves, que na época era jornalista da Rádio Suíça Internacional. Hoje ele é um dos editores do SwissInfo, site que publica notícias e informações sobre a Suíça em 10 idiomas.


Surpresas e esquisitices nos bastidores do Montreux Jazz
Por Carlos Calado

Imagine a excitação de um jornalista brasileiro especializado em música, ao chegar à Suíça para acompanhar pela primeira vez o Montreux Jazz Festival. Quando desci na estação de trem, no final de uma tarde de julho de 1990, sonolento após quase um dia inteiro de viagem, cheguei a pensar por um instante que não estava na lendária Montreux, onde Gilberto Gil, Hermeto Pascoal e Elis Regina, entre outros, gravaram cultuados discos.

Não era fácil acreditar que aquela cidadezinha tão pacata iria receber, durante duas semanas, uma constelação de grandes astros da música como Miles Davis, Ella Fitzgerald, B.B. King, Etta James, Dizzy Gillespie, Nina Simone, John Lee Hooker, Herbie Hancock, George Benson, Neville Brothers, George Clinton e Bob Dylan. Um elenco musical para deixar eufórico qualquer ouvinte sem preconceitos.

Naquela época, a música popular brasileira vivia uma fase de grande prestígio no cenário internacional. Tanto que a habitual “noite brasileira” do Montreux Jazz foi escolhida para abrir a programação daquele ano, com shows dos consagrados Jorge Benjor e Beth Carvalho, além da recente revelação Marisa Monte e Luiz Caldas 
 cantor baiano que vivia seus meses de fama graças aos modismos da lambada e do fricote. 

Caetano Veloso também estava no elenco do festival. Foi escalado para uma noite organizada pelo selo Nonesuch, que lançara seu disco gravado em Nova York, em formato voz e violão. Mesmo sabendo que Caetano evitava falar à imprensa brasileira já havia alguns anos, após as críticas negativas que seu filme “O Cinema Falado” recebera, pedi uma entrevista com ele, sem expectativas.

Minha surpresa foi dupla: Caetano não só aceitou falar à “Folha de S. Paulo” (jornal diário com o qual colaboro até hoje), como fez uma crítica contundente à política cultural do então presidente do Brasil, Fernando Collor. Concluiu a entrevista com uma declaração pessoal que ainda soa forte duas décadas mais tarde.

“Posso estar totalmente fora de moda, mas eu sou socialista. Sou filho de um funcionário público que dedicou toda sua vida a trabalhar pelo bem público. Quero uma sociedade que possa ser baseada nessa ideia estúpida, mas que é a minha sociedade ideal. Se for inerente à natureza humana competir e ser atraído só pelo lucro, foda-se a natureza humana”, disse ele, em tom de indignação.

Durante os 16 dias daquele festival me deparei com outras surpresas, nem todas positivas. Foi triste receber a notícia de que Ella Fitzgerald, a grande diva do jazz, não iria mais a Montreux, por ter sido internada em um hospital na Holanda, com sintomas de esgotamento físico. Como ela já enfrentava problemas de saúde há tempos, as chances que eu teria de ouvi-la ao vivo pela primeira vez seriam mínimas. Ironicamente, foi graças à ausência de Ella que pude conhecer Dee Dee Bridgewater, a sensacional cantora norte-americana, então radicada na Europa, que a substituiu no festival.  


Também foi bem frustrante encontrar o cantor e compositor irlandês Van Morrison (foto ao lado), na recepção do hotel em que eu me hospedara. O Eden au Lac estava a poucos metros do Montreux Casino, que na época ainda servia de palco para o festival. Como eu não sabia que Morrison era pouco sociável, não pensei duas vezes para me aproximar dele. Pedi licença, disse que era jornalista, admirador de suas canções, e perguntei se disporia de alguns minutos para uma breve entrevista.

Morrison me olhou com uma expressão assustada, meio paranoica, como se eu tivesse pedido a ele que me passasse sua carteira ou entregasse a chave de seu carro. “Não, não tenho tempo para entrevistas. Estou muito cansado”, respondeu, quase rosnando. Sem o mínimo de gentileza, virou as costas e saiu pela porta do hotel. Que sujeito estranho!

Felizmente, minha frustração durou pouco. Horas depois, num restaurante italiano em que eu costumava almoçar, encontrei Dave Holland, um dos maiores contrabaixistas do jazz. Típico “gentleman” britânico, ele me recebeu com um grande sorriso, quando o cumprimentei e disse que acompanhava suas gravações desde a época em que tocava com Miles Davis. Talvez amedrontado pelo incidente daquela manhã, não pedi para entrevistá-lo, mas, posteriormente, tive o prazer de conversar com ele algumas vezes.


Jamais esqueci também de um episódio com a cantora Nina Simone (na foto ao lado). Eu a encontrei num dos almoços que Claude Nobs, criador e diretor do festival, promovia no seu sofisticado chalé, em Caux, vilarejo na região mais alta do município de Montreux. Ali, entre muitas obras de arte e os originais dos pôsteres criados para o festival por famosos artistas, estava o grande tesouro de Nobs (na foto abaixo): a videoteca com os registros de todos os concertos do Montreux Jazz desde 1967.

Naquela manhã chegara a notícia de que o Free Jazz, único festival brasileiro do gênero na época, seria cancelado por causa da crise econômica que afligia o país. Depois de conseguir um simpático depoimento de Nobs, lamentando a suspensão do evento, tomei coragem para enfrentar o conhecido mau humor de Nina Simone. Para minha surpresa, fui bem recebido por ela 
 ou quase. 

“O Free Jazz não deveria acabar. Assim, eu e meus músicos poderemos voltar logo ao Brasil”, disse ela, pronunciando as palavras lentamente, depois de comentar que havia gostado de se apresentar no festival brasileiro, dois anos antes. Recostada em uma cadeira de jardim, ela falou todo o tempo sem olhar para mim, como se estivesse conversando consigo mesma. 



Nina Simone parecia viver em um mundo à parte, mas se eu fosse eleger o artista mais esquisito que conheci em Montreux, durante os seis anos em que cobri o festival, sem dúvida, escolheria outro irlandês: o cantor e compositor Shane MacGowan. Ex-integrante da banda punk The Pogues, ele já se apresentava como solista, à frente da banda The Popes, em 1995.  

Longe de ser fã da música de MacGowan, fui entrevista-lo a pedido de um de meus editores na “Folha”. A assessora de imprensa do festival me avisou que ele me receberia após o show, junto com um radialista e uma equipe de TV europeia. Esperamos 35 minutos até que ele abrisse a porta do camarim. Mal nos cumprimentou, desapareceu por mais 10 minutos, deixando todos constrangidos. Voltou de óculos escuros, visivelmente embriagado.

Talvez eu tenha sido duro demais com MacGowan, por não aceitar seu descaso, mas reproduzo aqui um trecho da reportagem que escrevi no dia seguinte: “Seu visual desleixado impressiona. Como parente distante de um homem-elefante, tem orelhas enormes e abertas. Piores são os dentes, que lembram um teclado sujo e torcido, sem as teclas brancas”, descrevi, depois de introduzi-lo como “alcoólatra, debochado e portador da boca mais repugnante de toda a história do rock”.

Juro que não tentei provoca-lo, ao mencionar durante a entrevista, de maneira positiva, o fato de alguns críticos já terem comparado sua música à de Van Morrison. “Tenho a mesma barriga de Van Morrison? Meu cabelo é igual ao dele? Ele tem uma cabeça legal, mas eu não acho que tenha muito em comum com ele”, retrucou, meio irritado. Depois desses encontros com MacGowan e Morrison, eu até poderia pensar que os irlandeses são campeões em bizarrices.

Hoje, ainda tentando exercer a ameaçada profissão de crítico musical, tenho de reconhecer que, graças às coberturas do Montreux Jazz, pude conhecer no palco alguns dos maiores músicos do século XX. Tive outras oportunidades para ouvir vários deles, posteriormente, inclusive no Brasil, mas a primeira vez sempre guardará um sabor especial.


Leia mais sobre os 50 anos do Montreux Jazz Festival no site SwissInfo, no qual esse texto foi publicado originalmente.



 

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