Banda de metais e a plateia do Festival BB Seguros de Blues e Jazz em 2018
Se você vive na cidade de São Paulo e gosta de blues, de jazz ou de música instrumental não pode reclamar de falta de programas neste último final de semana de julho. Shows gratuitos com músicos conceituados estão na programação de dois festivais que serão realizados em parques paulistanos.
Em sua 5.ª edição, o Festival BB Seguros de Blues e Jazz retorna ao Parque Villa-Lobos, no sábado (27/7), com um cardápio musical de boa qualidade. A principal atração é o guitarrista e cantor americano Robert Cray, um dos grandes responsáveis pela revitalização do blues a partir dos anos 1980.
A música instrumental brasileira está muito bem representada pelo trio do violinista Ricardo Herz e pelo baixista Thiago Espírito Santo, que terá como convidado especial o gaitista Mauricio Einhorn. Os fãs do rock não foram esquecidos: além do encontro dos veteranos guitarristas Sérgio Dias e Luiz Carlini, o programa inclui um tributo ao guitarrista e bluesman Eric Clapton.
Mais diversificada é a programação do 4.º FAM Festival, que será realizado no Parque Burle Marx, no sábado e no domingo (27 e 28/7). Entre várias performances e intervenções artísticas, a programação musical de domingo chama mais atenção. Tem música instrumental com o Septeto Emesp e, na sequência, com o acordeonista Toninho Ferragutti. Mais ligado ao jazz, o saxofonista Marcelo Coelho e seu grupo McLav-In recebem como convidada a talentosa cantora Vanessa Moreno.
Também se destacam no programa uma homenagem ao lendário grupo cubano Buena Vista Social Club, com o pianista Pepe Cisneros e a cantora Teresa Morales. No show de encerramento, a cantora Alma Thomas interpreta clássicos da soul music de Aretha Franklin, com participação especial do cantor Ed Motta.
Mais blues
Muito recomendável também para os fãs do blues é o show do pianista, compositor e cantor Adriano Grineberg, neste sábado (27/7), no teatro do Sesc Belenzinho. Um dos expoentes desse gênero musical em nosso país, ele lança o álbum “108”, que leva adiante o conceito do anterior “Blues for Africa” (2013). Algumas das novas composições de Grineberg resultam de viagens à Índia, ao Paquistão e ao Oriente Médio.
Outras informações nos sites do Festival BB Seguros de Blues e Jazz e do FAM Festival
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Festival BB Seguros e FAM Festival: blues, jazz e música instrumental de graça em São Paulo
Marcadores: adriano grineberg, FAM Festival, Festival BB Seguros, marcelo coelho, mauricio einhorn, pepe cisneros, ricardo herz, robert cray, Septeto Emesp, Thiago Espírito Santo, Toninho Ferragutti, vanessa moreno | author: Carlos Calado4.º POA Jazz: festival gaúcho se consolida como evento de padrão internacional
Marcadores: Edu Ribeiro, gilson peranzzetta, instrumental picumã, Mariano Loiácono, mauricio einhorn, POA Jazz, vitor arantes | author: Carlos Calado
Gilson Peranzzetta, Zeca Assumpção e João Cortez, no POA Jazz
Em meio à crise econômica que tem devastado a produção cultural brasileira e, na área musical, já provocou o cancelamento de vários eventos similares pelo país, o POA Jazz Festival merece muitos aplausos. Não só pelo fato de ter conseguido realizar sua quarta edição, com atrações musicais de alta qualidade, mas também pelo requinte de sua produção -- da curadoria ao cuidadoso trabalho da equipe técnica, que resultou em um evento de padrão internacional. Isso já estava evidente na primeira noite do festival (9/11), que contou com a impactante apresentação do saxofonista Rudresh Mahanthappa, além dos shows do trio vocal argentino Bourbon Sweethearts e do quarteto gaúcho Marmota Jazz.
Dois trios comandados por veteranos instrumentistas brasileiros se destacaram no programa de encerramento (domingo, 11/11), em Porto Alegre. O pianista e compositor carioca Gilson Peranzzetta, muito bem acompanhado por Zeca Assumpção (baixo acústico) e João Cortez (bateria), fechou a noite tocando grande parte do repertório jazzístico de seu recente álbum “Tributo a Oscar Peterson” (selo Fina Flor), recheado de composições de Cole Porter e Leonard Bernstein. Também relembrou sua belíssima composição “Obsession” (parceria com Dori Caymmi). E provocou sorrisos ao colorir o standard “It’s All Right With Me” (Porter) com ritmo de baião.
Quem esperaria que o cultuado gaitista e compositor carioca Maurício Einhorn (hoje com 86 anos) pudesse fazer uma apresentação tão divertida? Tanto que o guitarrista Nelson Faria, seu parceiro, chegou a sugerir, rindo, que se tratava de um show de “stand-up”. Além de contar causos engraçados, Einhorn (na foto acima) também destilou seu humor fazendo inusitadas citações durante os solos -- como ao introduzir trechos do “Hino Nacional Brasileiro” e do “Bolero” (de Ravel) no improviso da clássica bossa “Samba de Uma Nota Só” (Tom Jobim e Newton Mendonça). Contando com o suíngue de Faria e do baixista Guto Wirtti, Einhorn também homenageou o gaitista Toots Thielemans, seu ídolo, ao tocar a conhecida valsa-jazz “Bluesette”, de autoria do músico belga.
A programação do sábado foi aberta pelo quarteto do jovem pianista paulista Vitor Arantes. Ao vencer o Concurso Novos Talentos do Jazz, que é organizado pelos festivais POA Jazz, Sampa Jazz (SP) e Savassi Festival (MG), ele ganhou a oportunidade de se apresentar nesses eventos. Ao lado de Matheus Mota (guitarra), Jackson Lourenço (baixo acústico) e Jonatan Goes (bateria), Vitor exibiu temas autorais, com assumidas influências de expoentes do world jazz atual (como Avishai Cohen ou Shai Maestro), mas também demonstrou personalidade em releituras de “My Favorite Things” (Rodgers e Hammerstein) e “Bebê” (Hermeto Pascoal).
Tomara que as já prenunciadas dificuldades para o setor cultural, no próximo ano, não venham a comprometer a trajetória ascendente do POA Jazz Festival. A cena musical brasileira precisa de eventos com esse padrão de qualidade.
Em meio à crise econômica que tem devastado a produção cultural brasileira e, na área musical, já provocou o cancelamento de vários eventos similares pelo país, o POA Jazz Festival merece muitos aplausos. Não só pelo fato de ter conseguido realizar sua quarta edição, com atrações musicais de alta qualidade, mas também pelo requinte de sua produção -- da curadoria ao cuidadoso trabalho da equipe técnica, que resultou em um evento de padrão internacional. Isso já estava evidente na primeira noite do festival (9/11), que contou com a impactante apresentação do saxofonista Rudresh Mahanthappa, além dos shows do trio vocal argentino Bourbon Sweethearts e do quarteto gaúcho Marmota Jazz.
Dois trios comandados por veteranos instrumentistas brasileiros se destacaram no programa de encerramento (domingo, 11/11), em Porto Alegre. O pianista e compositor carioca Gilson Peranzzetta, muito bem acompanhado por Zeca Assumpção (baixo acústico) e João Cortez (bateria), fechou a noite tocando grande parte do repertório jazzístico de seu recente álbum “Tributo a Oscar Peterson” (selo Fina Flor), recheado de composições de Cole Porter e Leonard Bernstein. Também relembrou sua belíssima composição “Obsession” (parceria com Dori Caymmi). E provocou sorrisos ao colorir o standard “It’s All Right With Me” (Porter) com ritmo de baião.
Quem esperaria que o cultuado gaitista e compositor carioca Maurício Einhorn (hoje com 86 anos) pudesse fazer uma apresentação tão divertida? Tanto que o guitarrista Nelson Faria, seu parceiro, chegou a sugerir, rindo, que se tratava de um show de “stand-up”. Além de contar causos engraçados, Einhorn (na foto acima) também destilou seu humor fazendo inusitadas citações durante os solos -- como ao introduzir trechos do “Hino Nacional Brasileiro” e do “Bolero” (de Ravel) no improviso da clássica bossa “Samba de Uma Nota Só” (Tom Jobim e Newton Mendonça). Contando com o suíngue de Faria e do baixista Guto Wirtti, Einhorn também homenageou o gaitista Toots Thielemans, seu ídolo, ao tocar a conhecida valsa-jazz “Bluesette”, de autoria do músico belga.
A noite de domingo começou com o saboroso show do quinteto gaúcho Instrumental Picumã, formado por Paulinho Goulart (acordeon), Texo Cabral (flauta), Matheus Alves (violão), Miguel Tejera (baixo) e Bruno Coelho (percussão). Composições próprias como “Vanerão Chorado”, “Chacareta” e “Milonguera” já revelam nos próprios títulos o projeto do grupo: fundir ritmos regionais com as linguagens do jazz e da música instrumental brasileira.
Os improvisos do jazz e a diversidade rítmica da música instrumental brasileira também conviveram na noite de sábado (10/11). À frente de um quinteto de formação incomum, com Guilherme Ribeiro (acordeom), Daniel D’Alcântara (trompete e flugelhorn), Bruno Migotto (baixo elétrico) e Fernando Corrêa (guitarra), o baterista e compositor Edu Ribeiro (na foto ao lado), catarinense radicado em São Paulo, deliciou a plateia com o repertório de seu álbum “Na Calada do Dia” (de 2017). Calcadas em ritmos e gêneros musicais brasileiros, como o choro, o maracatu, o frevo e o baião, suas composições exploram sonoridades não usuais, como a opção de dobrar as melodias com o acordeom e o trompete. O prazer de tocar que esse quinteto demonstra no palco é contagiante.
Os improvisos do jazz e a diversidade rítmica da música instrumental brasileira também conviveram na noite de sábado (10/11). À frente de um quinteto de formação incomum, com Guilherme Ribeiro (acordeom), Daniel D’Alcântara (trompete e flugelhorn), Bruno Migotto (baixo elétrico) e Fernando Corrêa (guitarra), o baterista e compositor Edu Ribeiro (na foto ao lado), catarinense radicado em São Paulo, deliciou a plateia com o repertório de seu álbum “Na Calada do Dia” (de 2017). Calcadas em ritmos e gêneros musicais brasileiros, como o choro, o maracatu, o frevo e o baião, suas composições exploram sonoridades não usuais, como a opção de dobrar as melodias com o acordeom e o trompete. O prazer de tocar que esse quinteto demonstra no palco é contagiante.
Antes se apresentou o afiado quinteto do trompetista argentino Mariano Loiácono (na foto ao lado), com Sebastian Loiácono (sax tenor), Ernesto Jodos (piano), Jerônimo Carmona (baixo acústico) e Eloy Michelini (bateria). Vestidos à caráter, como se estivessem tocando em um clube de jazz no final dos anos 1950, os irmãos Loiácono recriam com perfeição a estética sonora do hard bop. Entre os highlights do show desse quinteto, duas sensíveis baladas: “Soul Eyes” (de Mal Waldron) e “You Don’t Know What Love Is” (Gene de Paul e Don Raye). Destaque também para as criativas intervenções de Jodos, ao piano.
A programação do sábado foi aberta pelo quarteto do jovem pianista paulista Vitor Arantes. Ao vencer o Concurso Novos Talentos do Jazz, que é organizado pelos festivais POA Jazz, Sampa Jazz (SP) e Savassi Festival (MG), ele ganhou a oportunidade de se apresentar nesses eventos. Ao lado de Matheus Mota (guitarra), Jackson Lourenço (baixo acústico) e Jonatan Goes (bateria), Vitor exibiu temas autorais, com assumidas influências de expoentes do world jazz atual (como Avishai Cohen ou Shai Maestro), mas também demonstrou personalidade em releituras de “My Favorite Things” (Rodgers e Hammerstein) e “Bebê” (Hermeto Pascoal).
Tomara que as já prenunciadas dificuldades para o setor cultural, no próximo ano, não venham a comprometer a trajetória ascendente do POA Jazz Festival. A cena musical brasileira precisa de eventos com esse padrão de qualidade.
(Cobertura realizada a convite da produção do festival)
4.º POA Jazz: festival gaúcho traz uma prévia de suas atrações musicais a São Paulo
Marcadores: Bourbon Sweethearts, carlos badia, Edu Ribeiro, gilson peranzzetta, Guto Wirtti, instrumental picumã, Marmota Jazz, mauricio einhorn, nelson faria, POA Jazz Festival, rudresh mahanthappa, vitor arantes | author: Carlos Calado
O trio argentino Bourbon Sweethearts / Foto de divulgação
Os paulistas poderão ouvir antes dos gaúchos duas atrações internacionais do próximo POA Jazz Festival. Um dos melhores do gênero no país, esse evento vai oferecer nove shows em sua quarta edição (de 9 a 11 de novembro, no Centro de Eventos do BarraShoppingSul, em Porto Alegre), além de masterclasses, oficinas musicais e lançamento de livros.
A primeira edição do POA Jazz em São Paulo (no dia 7/11, às 21h, no Bourbon Street Music Club) destaca a apresentação de Rudresh Mahanthappa (na foto abaixo), brilhante saxofonista e compositor de origem indiana radicado nos Estados Unidos, além do jovem trio argentino Bourbon Sweethearts, formado por instrumentistas e vocalistas.
Quem teve a oportunidade de ouvir Mahanthappa ainda como integrante do quarteto do pianista Vijay Iyer – em 2008, no extinto festival Bridgestone Music, em São Paulo – certamente ficou impressionado por seu estilo contemporâneo, calcado em improvisos viscerais. Os críticos da revista norte-americana “Down Beat” o elegeram melhor sax alto do ano, nos períodos 2009-2013 e 2015-2018.
Já as garotas do trio Bourbon Sweethearts fazem música de época. Com uma formação instrumental incomum, Mel Muñiz (violão tenor e ukelele), Agustina Ferro (trombone) e Cecilia Bosso (baixo acústico) recriam o jazz tradicional e o swing das primeiras décadas do século 20, em arranjos inspirados em clássicos conjuntos vocais como as Andrew Sisters e os Mills Brothers.
Entre as outras sete atrações que vão se apresentar em Porto Alegre destacam-se também o quinteto do trompetista argentino Mariano Loiácono e conceituados instrumentistas brasileiros, como o pianista e compositor Gilson Peranzzetta, o baterista Edu Ribeiro e o trio formado pelo gaitista Maurício Einhorn com o violonista Nelson Faria e o baixista Guto Wirtti.
O elenco musical do 4º POA Jazz inclui dois destaques da cena musical gaúcha: o quarteto Marmota Jazz e o quinteto Instrumental Picumã. E ainda o quarteto do pianista paulista Vitor Arantes, vencedor do concurso Novos Talentos do Jazz 2017, cujos integrantes tocam também na Orquestra Jovem Tom Jobim.
Neste ano, o festival homenageia o jornalista e escritor Zuza Homem de Melo, que vai autografar seus livros. Já os músicos Edu Ribeiro, Nelson Faria e Gilson Peranzzetta vão ministrar masterclasses de bateria, improvisação e arranjos, respectivamente.
A curadoria do festival é assinada pelo músico e produtor Carlos Badia, com assessoria do produtor Carlos Branco e do músico Rafael Rhoden. Mais informações no site do evento: www.poajazz.com.br/
Os paulistas poderão ouvir antes dos gaúchos duas atrações internacionais do próximo POA Jazz Festival. Um dos melhores do gênero no país, esse evento vai oferecer nove shows em sua quarta edição (de 9 a 11 de novembro, no Centro de Eventos do BarraShoppingSul, em Porto Alegre), além de masterclasses, oficinas musicais e lançamento de livros.
A primeira edição do POA Jazz em São Paulo (no dia 7/11, às 21h, no Bourbon Street Music Club) destaca a apresentação de Rudresh Mahanthappa (na foto abaixo), brilhante saxofonista e compositor de origem indiana radicado nos Estados Unidos, além do jovem trio argentino Bourbon Sweethearts, formado por instrumentistas e vocalistas.
Quem teve a oportunidade de ouvir Mahanthappa ainda como integrante do quarteto do pianista Vijay Iyer – em 2008, no extinto festival Bridgestone Music, em São Paulo – certamente ficou impressionado por seu estilo contemporâneo, calcado em improvisos viscerais. Os críticos da revista norte-americana “Down Beat” o elegeram melhor sax alto do ano, nos períodos 2009-2013 e 2015-2018.
Já as garotas do trio Bourbon Sweethearts fazem música de época. Com uma formação instrumental incomum, Mel Muñiz (violão tenor e ukelele), Agustina Ferro (trombone) e Cecilia Bosso (baixo acústico) recriam o jazz tradicional e o swing das primeiras décadas do século 20, em arranjos inspirados em clássicos conjuntos vocais como as Andrew Sisters e os Mills Brothers.
Entre as outras sete atrações que vão se apresentar em Porto Alegre destacam-se também o quinteto do trompetista argentino Mariano Loiácono e conceituados instrumentistas brasileiros, como o pianista e compositor Gilson Peranzzetta, o baterista Edu Ribeiro e o trio formado pelo gaitista Maurício Einhorn com o violonista Nelson Faria e o baixista Guto Wirtti.
O elenco musical do 4º POA Jazz inclui dois destaques da cena musical gaúcha: o quarteto Marmota Jazz e o quinteto Instrumental Picumã. E ainda o quarteto do pianista paulista Vitor Arantes, vencedor do concurso Novos Talentos do Jazz 2017, cujos integrantes tocam também na Orquestra Jovem Tom Jobim.
Neste ano, o festival homenageia o jornalista e escritor Zuza Homem de Melo, que vai autografar seus livros. Já os músicos Edu Ribeiro, Nelson Faria e Gilson Peranzzetta vão ministrar masterclasses de bateria, improvisação e arranjos, respectivamente.
A curadoria do festival é assinada pelo músico e produtor Carlos Badia, com assessoria do produtor Carlos Branco e do músico Rafael Rhoden. Mais informações no site do evento: www.poajazz.com.br/
David Feldman: jazz, humor e referências clássicas no CD do pianista e compositor
Marcadores: bossa nova, carlos lyra, chopin, david feldman, durval ferreira, jazz, mauricio einhorn, Thelonious Monk, tom jobim | author: Carlos CaladoAs primeiras notas da delicada releitura da canção “Primavera” (de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes) já denotam a excelência do intérprete. Revelação da cena de música instrumental do Rio de Janeiro, o pianista e compositor David Feldman reafirma seu talento no álbum solo “piano” – com minúsculas mesmo, ele ressalta, porque o título deste CD, gravado e distribuído de forma independente, também se refere à atmosfera suave e intimista das gravações.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/12/2014)
Rio das Ostras Jazz & Blues: chuva não impede evento de festejar 10 anos com grandes shows
Marcadores: armand sabal-lecco, big band 190, blues, celso blues boy, duke robillard, helio delmiro, jazz, kenny barron, mauricio einhorn, Mike Stern, orquestra kuarup, rio das ostras, romero lubambo | author: Carlos Calado
Um mar de guarda-chuvas molhados. Essa imagem praticamente acompanhou os cinco dias de shows da 10ª edição do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. A chuva intermitente impediu que o evento repetisse a média de 20 mil espectadores por noite, verificada em 2011. Por outro lado, o mau tempo mostrou também que a população local e muitos turistas, que mais uma vez foram a essa cidade fluminense para ouvir música de alta qualidade, não se incomodaram de enfrentar a chuva e o chão enlameado. Certamente, não se arrependeram.
Mário Sève e David Ganc, solistas da Orquestra Kuarup / Photo by Carlos Calado
A noite de estreia, no palco principal, em Costazul, destacou atrações nacionais. Projeto pedagógico-musical da Fundação Rio das Ostras de Cultura, a Orquestra Kuarup Cordas & Sopros abriu o evento com uma saborosa seleção de arranjos instrumentais de temas da bossa nova, de “Samba do Avião” a “Garota de Ipanema” (Tom Jobim), além de clássicos de outras fases da música popular brasileira, como “O Ovo” (Hermeto Pascoal). À frente da orquestra, o maestro e violonista Nando Carneiro e os solistas convidados, Mário Sève e David Ganc, nos sopros.
Naipe de saxofones da Big Band 190 / Photo by Carlos Calado
Surpresa da noite, a afiada Big Band 190, formada por músicos da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, deliciou a plateia com suingados arranjos de temas de jazz e da música instrumental brasileira, como “Spain” (Chick Corea) e “Melancia” (Rique Pantoja), além do soul-jazz “John Brown’s Other Body” (Woody Herman), com destaque para o solo de sax tenor do sargento Geovani, do Exército. Uma big band muito bem ensaiada, com um repertório moderno, que merece ser ouvida no resto do país.
Helio Delmiro / Photo by Carlos Calado
Com a categoria de sempre, apesar de ter enfrentado há pouco uma cirurgia cardíaca, o mestre do violão Hélio Delmiro foi outro destaque da noite de abertura. Homenageou o saudoso maestro Moacir Santos, tocando “Nanã”. Lembrou também o grande Baden Powell, com uma versão instrumental de “O Morro Não Tem Vez”. Até se arriscou a cantar a sinuosa “Ilusão à Toa” (Johnny Alf). “Como cantor, tenho um ‘handicap’ que outros não têm: o acompanhamento do violão de Hélio Delmiro”, brincou, bem humorado. E não fez feio nos vocais.
Celso Blues Boy / Photo by Carlos Calado
A noite de abertura trouxe ainda o blues-rock de Celso Blues Boy, veterano carioca do gênero, dono de um grande fã clube em seu Estado. Mesmo se movimentando com certa dificuldade no palco, sem o vigor físico de outras épocas, o guitarrista e cantor desfiou seus sucessos, com a plateia bastante animada, acompanhando-o nos vocais. Claro que não faltou o hit “Aumenta Que Isso Aí É Rock’n’Roll”. E para ajudar o colega a recuperar o fôlego, também entraram em cena os ‘bluesmen’ Joe Manfra e Jefferson Gonçalves.
Mauricio Einhorn / Photo by Carlos Calado
A programação de quinta-feira (7/6) foi a mais prejudicada pela chuva, que não deu sossego à plateia, literalmente, encharcada. O grupo instrumental mineiro Plataforma C iniciou a noite, tocando arranjos próprios de sucessos da MPB dos anos 60 e 70, assinados por Milton Nascimento (“Vera Cruz”) e Edu Lobo (“Ponteio”), entre outros. Em seguida, o veterano gaitista e compositor Mauricio Einhorn também viu sua plateia encolher por causa da chuva. Quem ficou deliciou-se com sua bagagem jazzística, exibida tanto em clássicos instrumentais da bossa nova, como “Batida Diferente” (sua parceria com Durval Ferreira), como na emotiva versão da balada “Autumn Leaves”.
Kenny Barron / Photo by Carlos Calado
A chuva aumentou tanto, na hora da apresentação do quarteto de jazz do pianista norte-americano Kenny Barron, que alguns músicos, como o guitarrista Mike Stern e os integrantes de seu grupo, foram ouvi-lo nas laterais do palco. Indiferente aos ruídos provocados pela tempestade, Barron comandou uma das apresentações mais inspiradas do festival, com destaque para os improvisos do trompetista Mike Rodriguez e do furioso baterista Johnathan Blake. Ao recriar dois conhecidos standards jazzísticos, “Softly, as in a Morning Sunrise” e “My Funny Valentine”, o pianista esbanjou sensibilidade musical, deixando muita gente de queixo caído.
Michael Hill / Photo by Carlos Calado
Fechando a noite, o bluesman norte-americano Michael Hill e sua banda Blues Mob, já conhecido pela plateia do festival, fez mais um de seus shows ecléticos. Tocou vários estilos de blues, rock, até o reggae “No Woman No Cry”, de Bob Marley. E ainda chamou ao palco a cantora brasileira Lica Cecato para uma canja, em “Georgia on My Mind”, o hit soul de Ray Charles.
Armand Sabal-Lecco / Photo by Carlos Calado
Na sexta-feira (8/6), nem a lama que já tomara conta de grande parte da área reservada à plateia, frente ao palco em Costazul, impediu os fãs mais decididos de curtirem mais uma noite com atrações eletrizantes. Ainda desconhecido no Brasil, o baixista e cantor camaronês Armand Sabal-Lecco revelou seu potencial como músico e compositor. Variado, seu repertório vai do funk ao rock, do reggae à disco – uma salada pop, que destaca seus vocais e solos ao baixo elétrico, coloridos pela percussiva técnica do slap. Não bastasse seu carisma, Sabal-Lecco ainda chamou ao palco o carioca Romero Lubambo para uma canja. Tocando a funkeada “Cuscuz Clan”, os dois excitaram a plateia.
Mike Stern (à esq.) e Romero Lubambo (à dir.) / Photo by Carlos Calado
Lubambo retornou ao palco, no show seguinte, já à frente do quarteto que lidera com guitarrista norte-americano Mike Stern. Para quem ainda desconhecia o passado roqueiro desse carioca radicado nos Estados Unidos, foi uma preciosa chance de vê-lo tocar guitarra, em sanguíneos duelos com o parceiro. Elementos do jazz e o peso sonoro típico do rock se misturaram, em vários números. O mais original, no set da dupla, foi “Bachião”, um baião instrumental de Lubambo, que serviu de veículo para alguns dos improvisos aplaudidos da noite.
Duke Robillard / Photo by Carlos Calado
Depois de uma apresentação tão quente, só restou ao bluesman e guitarrista norte-americano Duke Robillard diminuir a temperatura em seu set, para tentar conquistar aos poucos a atenção da plateia, que ainda se refazia do show anterior. Com seu toque elegante, ele destaca em seu repertório velhos blues de mestres do gênero que o influenciaram, como T-Bone Walker e B.B. King.
A Big Time Orchestra / Photo by Carlos Calado
Também já conhecida pelo público de Rio das Ostras, a banda curitibana Big Time Orchestra fechou a noite com uma apresentação descontraída, recheada de sucessos do rock, do rhythm’n’blues e do swing, coloridos por divertidas coreografias.
Mais shows e atrações nas próximas edições
Já na manhã do sábado, o idealizador e produtor do festival, Stenio Matos, e o prefeito de Rio das Ostras, Carlos Augusto, fizeram um balanço dos 10 anos do evento, em uma coletiva de imprensa. Inicialmente, o prefeito comentou que o mau tempo serviu para confirmar o sucesso do festival, já que mesmo com a previsão de chuvas, uma semana antes, a cidade voltou a ter seus hotéis totalmente ocupados durante o evento.
“Não fosse o festival, com essas chuvas, muitos turistas teriam mudado seus planos de vir a Rio das Ostras”, observou Matos. “Em nossa cidade, acabou aquele preconceito de dizer que jazz é coisa de rico. O melhor de tudo é ver a alegria do povão, participando e se divertindo”, completou o prefeito.
Carlos Augusto disse também não acreditar que o resultado das eleições deste ano para a prefeitura local possa ameaçar a continuidade do festival. “Ele já está consolidado como um evento de ação cultural”, afirmou o prefeito. Citou também uma pesquisa do Cebrae, que mostra que o evento atraiu cerca de R$ 6 milhões para a economia da cidade, no ano passado.
Já o produtor Stenio Matos disse que tem planos de levar os shows do festival a outros locais da região, além de estender a duração do evento para duas semanas, aumentando também o número de atrações musicais, nas próximas edições.
João Parahyba: percussionista e compositor recria a atmosfera do samba-jazz dos anos 1960
Marcadores: amilton godoy, clayber de souza, durval ferreira, jazz, joão donato, joão parahyba, Laércio de Freitas, mauricio einhorn, moacir santos, samba, samba-jazz, sesc sp, Villa-Lobos | author: Carlos CaladoÉ natural que as gerações mais jovens associem a imagem de João Parahyba ao lendário Trio Mocotó, cujo contagiante samba-rock foi redescoberto e festejado durante a última década. Mas quem acompanha a carreira desse eclético percussionista, compositor e arranjador paulista sabe que ele também já colocou seu talento a serviço da MPB, do jazz, da música instrumental ou até da música eletrônica.
Em "O Samba no Balanço do Jazz" (lançamento SescSP), João Parahyba interpreta com personalidade a atmosfera sonora do samba-jazz – o híbrido subgênero que revigorou a música instrumental brasileira, na década de 1960. “Minha intenção foi fazer uma reverência ao começo de minha vida musical. Fui um privilegiado, porque entrei na música convivendo com Milton Banana, com o Zimbo Trio e o Tamba Trio. Eu era amigo do Luiz Eça, do Bebeto, do César Camargo Mariano e do João Donato. Fui aceito por eles como o caçula dessa seleção”, relembra.
Com a sabedoria de quem conhece a fundo a linguagem do samba-jazz, JP relê aqui alguns clássicos dessa vertente, como “Sambou, Sambou” (João Donato), “Nanã” (Moacir Santos) e “Batida Diferente/Estamos Aí” (Durval Ferreira e Maurício Einhorn). Exibe também saborosas composições próprias que remetem a esse gênero, como “Kurukere” e “Number One”, conduzindo o elegante quinteto que inclui Giba Pinto (baixo), Rudy Arnaut (guitarra), Marcos Romera (piano) e Teco Cardoso (sax barítono e flauta), além das participações de Thiago Costa (piano), Rodrigo Lessa (bandolim), Marcelo Mariano (baixo), Beto Bertrami (piano) e Ubaldo Versolato (flauta e sax barítono).
Três veteranos do gênero também participam do projeto. Mentor musical de JP, Amilton Godoy, o pianista do original Zimbo Trio, contribui com um arranjo de sua composição “Batráquio”, escrito especialmente para o quinteto do percussionista. O compositor e arranjador Laércio “Tio” de Freitas oferece a seu ex-aluno a oportunidade de lançar a inédita bossa “Búzios”. Clayber de Souza, ex-integrante dos cultuados Sambalanço Trio e Jongo Trio, mostra seu virtuosismo à gaita, no jazzístico arranjo que escreveu para o “Trenzinho do Caipira” (Villa-Lobos).
JP também introduz neste álbum seu filho Janja Gomes, autor da sensível valsa-jazz “Valseta”, cuja gravação destaca o emotivo solo de clarinete de Nailor Proveta e um inusitado sample com o argentino Julio Cortázar, declamando um de seus escritos poéticos. Uma bela surpresa que nos faz pensar: embora não seja regra, o talento artístico certamente pode ser transmitido por via genética.
(texto escrito a convite do selo SescSP)
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