Eumir Deodato: dos elogios de Tom Jobim à vitoriosa carreira musical nos EUA
Marcadores: 2001, bossa nova, creed taylor, crossover, CTI, Eumir Deodato, gal costa, jazz, kool and the gang, richard strauss, stone flower, the adventurers, tide, tom jobim, vanessa da mata | author: Carlos CaladoNaquele ano de 1964, muitos músicos brasileiros devem ter sentido ao menos um pouco de inveja do jovem pianista e arranjador Eumir Deodato. Seu disco de estreia – “Inútil Paisagem”, gravado pelo selo Forma, com arranjos orquestrais que ele escrevera para 12 canções de Tom Jobim – trazia na contracapa um texto de apresentação cheio de elogios, assinado por ninguém menos que o próprio Jobim.
“É incrível que um rapaz de 22 anos possa escrever para orquestra como Eumir escreve. Não basta ser musical, talentoso, habilidoso, sabido ou sábio. Escrever para orquestra é coisa que envolve toda uma técnica, experiência, um passado de erros passados a limpo, e eu não creio que Eumir tenha tido, com 22 anos, tempo para isso”, escreveu Jobim, compositor e músico exigente, que não costumava sair distribuindo elogios fáceis. O texto também incluía mais um de seus achados poéticos: “Meu Deus, quanta coisa Deus deu a Deodato!”
Passados cinquenta anos, Deodato ainda demonstra um certo embaraço ao se lembrar desse episódio, mas o motivo não tem nada a ver com música. “Quando alguém me falou sobre aquele elogio do Tom, tomei um susto. Sou um cara tão distraído que, para falar a verdade, ainda não tinha lido a contracapa do meu disco”, confessa o carioca, nascido no bairro do Catete, que vive nos Estados Unidos desde o final dos anos 1960.
Deodato não se recorda exatamente de quando e como conheceu Jobim. Lembra-se de tê-lo visto de longe algumas vezes, no início da década de 1960, nas animadas reuniões musicais promovidas pela família do letrista Lula Freire, em seu apartamento, no bairro de Copacabana, no Rio. Nesses encontros, frequentados por músicos da bossa nova e apreciadores do cool jazz, era comum se encontrar o violonista Baden Powell, o pianista Luiz Eça ou o flautista Bebeto Castilho, entre outros.
“O Tom já era o mais cobiçado de todos, naquela época. Ele já tinha várias músicas gravadas com sucesso, como ‘Teresa da Praia’ ou as parcerias com Dolores Duran, que eram lindas. Sempre havia muita gente em volta dele, naquelas reuniões de bossa nova. E eu era um cara muito calado, tímido. Demorou para que eu tivesse a oportunidade de conversar com ele”, recorda.
Mesmo admirando as canções e a musicalidade de Jobim, Deodato não considera que tenha sido influenciado diretamente por ele, como pianista e compositor. “Trabalhando com o Tom, eu fui descobrindo o que ele considerava mais importante na música. Ele valorizava muito as melodias – era um ótimo arquiteto de linhas melódicas. Tom também era um grande fã do Villa-Lobos. Muitas das coisas mais clássicas que fez eram influenciadas pelas ideias do Villa-Lobos”, analisa.
A ligação dos dois se consolidou quando Deodato foi convidado por Jobim a fazer arranjos para os temas instrumentais e canções que compusera para o filme “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman, lançado em 1967. Clássicos da obra jobiniana nasceram nesse filme ainda pouco conhecido, como o instrumental “Surfboard”, a canção “Ela É Carioca” e, claro, o megassucesso “Garota de Ipanema”, com letras de Vinicius de Moraes.
“O Tom me deu muita força. Depois desse filme eu trabalhei muito com ele”, credita Deodato, ao relembrar outra parceria da dupla para o cinema: a trilha sonora do filme “Os Aventureiros” (“The Adventurers”), do britânico Lewis Gilbert, com a bela norte-americana Candice Bergen, no elenco. Canções populares de Jobim, como “Olha, Maria” (com letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e a valsa “Chovendo na Roseira”, nasceram como temas instrumentais para essa trilha, ainda intitulados “Amparo” e “Children’s Games”, respectivamente.
Deodato se lembra de que, quando ele e Jobim chegaram a Londres, em 1969, ainda não havia uma edição final do filme para que pudessem iniciar o trabalho. “O Tom ia escrever todos os temas e eu tinha que fazer as orquestrações. Enquanto a edição não ficou pronta, passamos dias sentados na King’s Road, olhando as garotas de minissaia, passando. Ficávamos discutindo o que faríamos com a músicas, tomando aquela cerveja morna que os ingleses servem nos bares”, recorda.
Para muitos críticos e fãs de Jobim, seus discos “Tide” e “Stone Flower” – ambos lançados em 1970, com produção do norte-americano Creed Taylor, por selos diferentes – estão entre os melhores produtos de sua parceria com Deodato. “Naquela época, Creed trabalhava para a gravadora A&M, mas tinha criado seu próprio selo, o CTI. Então pegou a verba da A&M para gravar o disco do Tom e fez dois. E ainda escolheu as melhores faixas para o ‘Stone Flower’, que saiu pelo selo dele”, comenta o arranjador.
Poucos anos depois, já como artista do elenco da gravadora de Taylor, Deodato teve uma surpresa tão grande quanto a provocada pelos elogios de Jobim aos arranjos de seu primeiro disco. O arranjo “crossover” que criou para o poema sinfônico “Also Sprach Zarathustra” (composição de Richard Strauss, que havia se tornado bastante popular, na época, ao integrar a trilha sonora do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick) chegou ao topo das paradas de sucesso, em 1973.
“Foi um arranjo praticamente feito no estúdio, ao vivo, que me deixou quase morto”, diverte-se Deodato, contando que levou para a sessão de gravação apenas um esboço da introdução desse arranjo. ““Eu estava sem ideias, mas, na noite anterior, pouco antes de dormir, lembrei de um baiãozinho que tinha anotado em um caderno. Como a música do Strauss e esse tema eram compostas em dó, achei que valia a pena tentar. Deu certo”.
Desde os anos 1970, o requisitado Deodato atuou em centenas de outros projetos e gravações, com artistas de diversos estilos e gerações: do guitarrista de jazz Wes Montgomery e da banda funk Kool and the Gang às cantoras Gal Costa e Björk. Já no ano passado, reencontrou a obra de Jobim, ao escrever os arranjos para o álbum que a cantora Vanessa da Mata dedicou ao grande maestro da bossa.
“Só fizemos algumas mudanças de ritmo. Depois de trabalhar tantos anos com o Tom, sei que que ele tinha pavor de que trocassem a harmonia de suas composições”, comenta o arranjador, consciente de que tentar fazer a música de Jobim soar melhor ou mesmo mais atual, sem comprometer sua identidade, seria uma tarefa inglória.
(Entrevista publicada no caderno de cultura do “Valor Econômico”, em edição dedicada aos 20 anos da morte de Tom Jobim, em 5/12/2014)
Tributo a Tom Jobim: "Coleção Folha" homenageia o grande compositor da bossa e da MPB
Marcadores: bossa nova, caetano veloso, coleção folha tributo a tom jobim, dorival caymmi, edu lobo, elis regina, gal costa, jazz, João Gilberto, MPB, nana caymmi, Ney Matogrosso, samba, vinicius de moraes | author: Carlos CaladoAlém de ter escrito os livretos dos volumes "Tom Canta Vinicius", "Elis & Tom", "Getz/Gilberto" e "Antonio Carlos Jobim and Friends", para mim foi um grande prazer editar essa coleção, na qual pude contar com as colaborações de alguns dos mais conceituados críticos e repórteres especializados em música popular brasileira: Tárik de Souza, Antônio Carlos Miguel, Lauro Lisboa Garcia, Mauro Ferreira e Lucas Nobile.
Também foi um privilégio passar os últimos meses revendo a trajetória desse grande compositor e artista, além de reouvir suas gravações. Ao contrário de tantas figuras públicas que nos envergonham diariamente, neste país repleto de absurdos, Tom Jobim continua a ser um motivo de orgulho para muitos brasileiros.
Outras informações no site www.folha.com.br/tomjobim
Melhores de 2011: críticos elegem seus álbuns favoritos em enquete do "Valor Econômico"
Marcadores: brad mehldau, celso fonseca, Christian Scott, gal costa, keith jarrett, mônica salmaso, ronaldo bastos, stacey kent, stefon harris, Trombone Shorty, Vento em Madeira, zé miguel wisnik | author: Carlos Calado
Atendendo a um convite do jornal “Valor Econômico”, com o qual tenho colaborado durante a última década, participei de uma enquete para eleger os melhores discos de 2011. Para essa votação também contribuíram os jornalistas e críticos João Marcos Coelho, Luciano Buarque de Hollanda, Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello.
Quem atua na área musical sabe que essa é uma das tarefas mais difíceis, discutíveis até, nesse ramo. Como justificar que um trabalho artístico nos parece melhor do que outro, sem sermos parciais ou mesmo injustos? Até que ponto nosso gosto pessoal pesa decisivamente nessa decisão?
O fato é que aceitei indicar cinco CDs nacionais e cinco internacionais de qualquer gênero, lançados em 2011. O resultado da enquete está no no site do “Valor Econômico”. Estes foram os 10 álbuns que eu selecionei, em ordem alfabética:
ÁLBUNS NACIONAIS
Alma Lírica Brasileira - Mônica Salmaso (Biscoito Fino)
Indivisível - Zé Miguel Wisnik (Circus)
Liebe Paradiso - Celso Fonseca e Ronaldo Bastos (Dubas)
Recanto - Gal Costa (Universal)
Vento em Madeira - Quinteto Vento em Madeira (Maritaca)
ÁLBUNS INTERNACIONAIS
Dreamer in Concert - Stacey Kent (EMI)
For True - Trombone Shorty (Verve/Universal)
Live in Marsiac - Brad Mehldau (Nonesuch/Warner)
Ninety Miles - Stefon Harris, David Sánchez e Christian Scott (Concord)
Rio - Keith Jarrett (ECM/Borandá)
Cesária Évora: diva de Cabo Verde dizia que "a alegria e a tristeza são vizinhas"
Marcadores: angela maria, Cabo Verde, caetano veloso, cesária évora, gal costa, marisa monte, morna | author: Carlos CaladoPelo que representou na cena musical do último século, é justo equipará-la a outras grandes divas do canto, como Amália Rodrigues (1920-1999), principal intérprete do fado português, Bessie Smith (1894-1937), maior cantora do blues clássico norte-americano, ou Celia Cruz (1925-2003), “rainha” da salsa cubana.
Sobrinha do compositor B. Leza, que ajudou a dar forma à moderna canção cabo-verdiana, Cesária nasceu no porto de Mindelo. Sua carreira musical levou décadas para engrenar. Chegou a fazer gravações em Portugal, na década de 1970, mas só alcançou o sucesso quando já era cinquentona. Lançado em 1992, “Miss Perfumado” foi o álbum que a projetou mundialmente.
Nenhum dos gêneros musicais que faziam parte de seu repertório identificou-se tão bem com sua imagem artística como a “morna”. Hoje um símbolo cultural de seu país, essa modalidade de canção em andamento lento caracteriza-se por versos carregados de melancolia, que falam de amores frustrados, saudade e exílio – como “Sodade”, o maior sucesso de Cesária.
O hábito de entrar nos palcos sem sapatos, que a tornou conhecida como “a diva dos pés descalços”, não era apenas uma idiossincrasia. Soava também como um gesto que expressava seu apego às raízes da música que cultivou por toda a vida.
“Quem quiser se afastar da tradição, que se afaste. Sempre cantei e vou continuar cantando música típica de Cabo Verde”, afirmava, quando lhe perguntavam se não pensava em “modernizar” seu repertório ou trocar por instrumentos eletrônicos o cavaquinho, os violões, o piano e a percussão que costumavam acompanhá-la.
Essa determinação não a impediu de se aproximar da música brasileira, pela qual tinha grande admiração. Fã da fluminense Angela Maria, cantora da chamada “era de ouro” do rádio brasileiro, Cesária gravou dois de seus sucessos: o samba-canção “Negue” e o bolero “Beijo Roubado” (ambos de Adelino Moreira). Também fez parcerias com Caetano Veloso, Gal Costa e Marisa Monte.
Em uma entrevista que fiz com ela para a "Folha de S. Paulo", em 2005, ao revelar que gostava das folias do Carnaval, Cesária me disse que não era tão melancólica quanto faziam supor as mornas que cantava. “Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou. A alegria e a tristeza são vizinhas”, filosofou com sabedoria a diva descalça.
(texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 20/12/2011)
Lincoln Olivetti: arranjador de sucessos da MPB volta com músicos da nova geração
Marcadores: copafest, elba ramalho, emilio santiago, entrevista, gal costa, gilberto gil, jorge benjor, lincoln olivetti, maria bethânia, marina lima, MPB, rita lee, roberto Carlos, robson jorge, tim maia | author: Carlos CaladoPela mesma razão, Olivetti diz também que jamais recusa uma encomenda de arranjo, mesmo que não se identifique com o estilo musical do intérprete. “Se você é profissional tem que saber fazer qualquer música soar bem. Para mim, ao fazer um arranjo, um artista que está começando hoje é tão importante quanto o Roberto Carlos. Nessa hora, não tem ídolo. E quanto menos pronta a música chega pra mim, maior é o desafio de conseguir que ela soe bem”.
Esse não foi o caso do arranjo de “Festa no Interior”, um de seus trabalhos mais populares entre o grande público, na década de 1980. “O Moraes (Moreira) já me entregou essa música com aquela frase, bem mastigada, que usei logo no início do arranjo. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que aquela frase é dele”, reconhece Olivetti, revelando humildade ao creditar ao compositor parte da eficácia de seu inventivo arranjo, que remete ao fraseado das bandinhas interioranas de coreto.
Trinta anos após ter lançado seu cultuado álbum com o guitarrista Robson Jorge (1954-1993), que reuniu hits televisivos da dupla, como “Prêt-à-Porter”, “Squash” e “Eva”, Olivetti ainda demonstra emoção ao falar sobre o ex-parceiro. “O Robson abriu minha cabeça para muitas coisas, e eu abri a dele. Nossa sintonia era total. No início, ele não lia música, mas acabou até escrevendo. Era muito bom trabalhar com ele”.
Admite que já pensou na possibilidade de reunir sua dispersa obra musical numa caixa de CDs ou algo semelhante, mas acabou desistindo de utilizar esse formato, num projeto pessoal que pretende lançar em breve. “Posso até incluir novos arranjos para algumas músicas que deram certo, mas quero mostrar composições inéditas, principalmente. Eu penso mais no futuro”, diz, indeciso quanto à mídia que usará. “Não sei ainda. Talvez eu só lance essas faixas pela internet”.
Sobre sua produção mais recente, Olivetti menciona o arranjo que fez para a cantora Ana Carolina (“Problemas”), veiculada na trilha sonora da novela “Fina Estampa”, ou as vinhetas musicais que criou para a entrega do Prêmio Multishow. “Tenho feito arranjos para vários artistas, mas ainda é cedo para falar sobre esses trabalhos”, esquiva-se. Já o orgulho por trabalhar há alguns anos com Alê Siqueira e Kassin, talentosos produtores da nova geração, ele não esconde. “Eu me sinto muito bem ao lado deles, porque eles são futuristas como eu”.
(entrevista parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/11)
Jaques Morelenbaum: violoncelista e arranjador é atração do 2º Festival Telefônica Sonidos
Marcadores: bossa, caetano veloso, Egberto Gismonti, gal costa, gilberto gil, Jaques Morelenbaum, mariza, MPB, omar sosa, riuichi sakamoto, samba, sting, Telefônica Sonidos, tom jobim | author: Carlos CaladoEntre o grande público, o nome do violoncelista e produtor Jaques Morelenbaum costuma ser associado às parcerias que manteve com Tom Jobim ou Caetano Veloso. Muitos não sabem que ele é um dos músicos brasileiros mais produtivos e requisitados durante as últimas três décadas. Sua extensa lista de serviços prestados à música brasileira e internacional inclui mais de 2 mil concertos e shows, cerca de 700 gravações e a produção de mais de 60 discos.
"Não gosto de desperdiçar oportunidades. Adoro ter um tempinho livre para cuidar das minhas plantas, para apreciar a natureza, e acho que muito da inspiração que tenho para a música vem dessa apreciação da vida. Mas, como não costumo recusar bons convites, acabo trabalhando como um workaholic", diz o músico carioca de 57 anos, que vai se apresentar com o pianista cubano Omar Sosa, na quinta-feira, em São Paulo, na segunda edição do festival Telefônica Sonidos.
Morelenbaum e Sosa se conheceram pessoalmente, uma década atrás, num show do cubano, em Paris. "Fiquei alucinado com o que ouvi naquela noite. O Omar tem um conceito musical universalista, sem fronteiras, com o qual me identifico muito", relembra o brasileiro, que se surpreendeu ao saber que Sosa já apreciava seus trabalhos. Depois de se reencontrarem algumas vezes, em meio a turnês por diversos países, Morelenbaum aceitou o convite do cubano para participar como arranjador de um projeto com a Big Band da NDR, a Rádio Estatal de Hamburgo (Alemanha), em 2007.
"Foi um desafio, um projeto bem complexo. Eu já tinha escrito para orquestra sinfônica, mas nunca antes para uma 'big band'. Curtimos muito esse trabalho, porque o resultado ficou bastante saboroso", comenta Morelenbaum, lembrando que também apresentaram esse repertório durante o Festival Internacional de Jazz de Barcelona, no ano passado. E a parceria parece estar só no início. O músico brasileiro aproveita o show da próxima semana, em São Paulo, para gravar um disco que Sosa já começou a produzir, com o trompetista italiano Paolo Fresú.
Outra artista escalada para esta edição do Telefônica Sonidos, que, coincidentemente, também já contou com o know-how de Morelenbaum, é Julieta Venegas, cantora californiana de ascendência mexicana. "Ela tem um lado que toca minha faceta 'beatlemaníaca', um jeito meio Beatles de compor. O trabalho dela me encanta", elogia o carioca, que coproduziu e escreveu arranjos para o CD "Acústico MTV", que Julieta lançou em 2008 e foi premiado com dois Grammys latinos.
Além de arranjar, de produzir gravações e de acompanhar intérpretes e músicos brasileiros de diversos estilos e gerações, como Gal Costa, Vanessa da Mata, Chico Buarque, Marisa Monte, Titãs, Milton Nascimento, João Bosco, Carlinhos Brown e Gilberto Gil (com o qual tem tocado nos últimos anos), Morelenbaum também já colaborou com conceituados artistas de diversos países, como o cantor britânico Sting, os guitarristas americanos John Scofield e Bill Frisell, as cantoras lusitanas Marisa e Dulce Pontes, o compositor angolano Paulo Flores e as cantoras cabo-verdianas Cesária Évora e Mayra Andrade, entre outros.
O produtor e arranjador conta que, em seu primeiro contato com algum artista estrangeiro, costuma ouvir referências a álbuns como "Fina Estampa" (1994) ou "A Foreign Sound" (2004), resultantes de sua parceria de 14 anos com Caetano Veloso, ou aos discos que fez durante os dez anos em que tocou na banda de Tom Jobim. Também ouve com frequência elogios às gravações que fez com o músico e compositor japonês Riuichi Sakamoto - especialmente "Casa" (2001), álbum que inclui a cantora Paula Morelenbaum, sua mulher, e foi gravado na casa em que Tom Jobim (1927-1994) viveu suas últimas décadas, no bairro do Jardim Botânico, no Rio.
"Volta e meia encontro alguém que se refere a ele, dizendo: 'Esse é o disco da minha vida'. 'Casa' é um disco muito emocional, até pelo fato de, anos após a morte do Tom, a gente ter voltado àquele ambiente, ao templo musical onde convivemos com ele por tanto tempo. Essa colaboração com o Sakamoto, que também é fã incondicional do Tom, é um marco na minha vida", afirma o músico carioca, revelando que, no fim de outubro, vai retomar a parceria com ele, integrando seu novo trio.
Após tantas parcerias, Morelenbaum diz que já se acostumou a enfrentar novos desafios a cada experiência musical. 'Tocar com Egberto Gismonti, por exemplo, foi um desafio em termos técnicos. Ele é um virtuose, um músico extremamente dotado. A música concebida por ele exige muito do instrumentista", analisa. Já a parceria com Tom Jobim apresentou outro tipo de desafio. "No primeiro ensaio, perguntei o que ele queria que eu tocasse. Tom respondeu que eu poderia tocar o que quisesse. Então pensei: 'Como posso fazer algo à altura dessa música que eu acho tão perfeita e inatingível?'", relembra.
A facilidade de transitar por diversos gêneros e estilos musicais - do samba ao jazz, passando pelo fado português ou pelo chá-chá-chá cubano - tem a ver, acredita Morelenbaum, com sua formação clássica. "A música erudita e a minha aproximação da música popular, que foi bastante precoce, abriram minha visão no sentido de admirar diversos tipos de música. A música erudita oferece um campo bastante amplo, que inclui músicas de diversas nacionalidades e vários tipos de influências. Isso me proporcionou a visão de que a música é um fenômeno universal. É aí que está a beleza da música."
Em sua segunda edição, que ocupará dois palcos instalados no Jóquei Clube de São Paulo, de quarta a sábado, o festival Telefônica Sonidos mantém o formato de encontros de brasileiros com bandas e músicos de diversos países de ascendência latina. A noite de estreia anuncia, no Palco Jazz Latino, show do pianista cubano Chucho Valdés com o bandolinista carioca Hamilton de Holanda. Para o mesmo espaço também estão programados os encontros do guitarrista cubano Alex Cuba com a cantora paulista Tulipa (dia 26) e do cantor espanhol Pitingo com Marina de la Riva, brasileira de origem cubana (dia 27).
A programação no Palco Pop Urban resume-se ao fim de semana, mas oferece mais atrações por noite. No dia 26, apresentam-se: a banda venezuelana Los Amigos Invisibles com o carioca Seu Jorge; Julieta Venegas e a carioca Marisa Monte; a banda cubana Juan Formell y Los Van Van com o baiano Carlinhos Brown. No dia 27, entram em cena o trio mexicano Camila com a dupla mineira Victor e Leo; a dupla argentina Illya Kuryaki & The Valderramas com a banda mineira Jota Quest. Um programa musical bem heterodoxo.
Mais informações: www.telefonicasonidos.com.br
(texto publicado no caderno “Eu & Fim de Semana”, do jornal “Valor”, em 19/8/2011)
Gal Costa: caixa "Gal Total" reúne 15 primeiros discos da cantora e 28 gravações raras
Marcadores: caetano veloso, divino maravilhoso, gal costa, gilberto gil, janis joplin, jimi hendrix, João Gilberto, música popular brasileira, nana caymmi, roberto Carlos, tropicália, tropicalismo | author: Carlos CaladoAlém dos 15 álbuns, essa caixa também inclui um CD duplo com 28 gravações raras, extraídas de compactos, de discos de festivais ou de projetos especiais. Muitas dessas faixas estavam inéditas até hoje em CD, como “Dadá Maria” (que Gal gravou em duo com o compositor Renato Teixeira) e “Bom Dia” (de Gilberto Gil e Nana Caymmi), ambas produzidas para o LP “3º Festival da Música Popular Brasileira”, lançado em 1967.
A seguir, uma entrevista com a cantora, que fala de sua paixão pela bossa de João Gilberto e relembra o episódio da canção “Divino Maravilhoso” (veja o video abaixo), marco de uma nova atitude em sua carreira, estimulada pelas inovações da Tropicália. Finalmente, Gal anuncia para 2011 a gravação de seu novo álbum com repertório inédito assinado por Caetano Veloso.
Como foi a sensação de ver as duas primeiras décadas de sua obra musical sintetizadas em “Gal Total”?
No encarte da caixa, você comenta que resistiu muito à idéia de cantar iê-iê-iê (o rock dos anos 60), apesar da insistência de seu produtor, Guilherme Araújo. Por quê?
O que a fez mudar de atitude?
Seus fãs mais saudosistas ainda cobram que você mantenha aquela atitude transgressiva dos tempos da Tropicália?
Você sente saudade dos anos 60 ou 70?
No encarte, você relembra que gravava os vocais de seus discos muitas vezes, no início da carreira. Esse perfeccionismo também tinha a ver com a admiração por João Gilberto?
Qual será seu próximo projeto? Vai mesmo gravar em 2011 o disco que Caetano Veloso prometeu produzir?
(Entrevista publicada parcialmente no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 29/10/2010)
Raridades: série Caçadores de Música resgata discos de samba, soul, jazz e MPB
Marcadores: caçadores de música, Cassiano, etta james, Frank Sinatra, gal costa, jackson do pandeiro, joão bosco, pixinguinha, raridades, sarah vaughan, tim maia, Toots Thielemans | author: Carlos CaladoTentando diminuir o prejuizo crescente dos downloads na web, a gravadora Sony Music está distribuindo às lojas 51 CDs de vários gêneros musicais ´"garimpados" em seu arquivo. O elenco da série Caçadores de Música é eclético e cobre diversas épocas: da soul music brasileira de Cassiano ("Cedo ou Tarde") e Tim Maia ("Tim Maia", de 1985) às releituras jazzísticas da MPB pela cantora norte-americana Sarah Vaughan ("O Som Brasileiro de Sarah Vaughan") e pelo gaitista belga Toots Thielemans ("The Brasil Project"), acompanhado por vários intérpretes brasileiros.
Aliás, a música popular brasileira ficou com a maior parcela do pacote, que inclui Pixinguinha ("Os Choros dos Chorões"), Ary Barroso ("Ontem e Hoje"), Martinho da Vila ("Tendinha"), Os Originais do Samba ("É de Lei"), João Bosco ("Galo de Briga" e "O Bêbado e a Equilibrista"), Sergio Mendes ("And the New Brasil 77"), Gal Costa ("Bem Bom" e "Profana") e Jackson do Pandeiro ("O Melhor de Jackson do Pandeiro"), entre outros.
Melody Gardot: acidente grave levou norte-americana a se tornar cantora
Marcadores: bossa nova, caetano veloso, gal costa, jazz, larry klein, Melody Gardot, soul | author: Carlos Calado
Quem escuta pela primeira vez as canções sofisticadas e românticas dessa norte-americana de 24 anos, cujo nome aparece com destaque na programação dos melhores festivais de música deste verão, na Europa, jamais poderá imaginar a tragédia pessoal que a vida lhe reservou.
Cinco anos atrás, Melody Gardot pedalava sua bicicleta, na cidade de Filadélfia, onde vivia, quando foi atropelada por uma perua Cherokee, que desrespeitou o sinal vermelho. As seqüelas foram devastadoras: depois de passar um ano presa à cama, ela teve de reaprender a andar. Ainda é obrigada a usar bengala até hoje.
“Eu estava me preparando para ser pintora, mas prefiro não pensar em como minha vida poderia ter sido diferente”, diz ela, por telefone, do quarto de um hotel, em Londres.Ironicamente, o acidente alterou os planos de vida de Melody. Para enfrentar as dores que a medicina convencional não conseguia atenuar sem pesados efeitos colaterais, um médico lhe sugeriu alguma forma de terapia musical.
Ainda impedida de sair da cama, ela decidiu aprender violão, deitada mesmo. Assim nasceu a compositora e cantora, cuja carreira profissional começou a decolar depois que um amigo construiu uma página no MySpace, sem que ela soubesse, com algumas de suas primeiras canções.
Influências musicais
“Amo Duke Ellington, Jacques Brel, James Taylor, Carole King”, diz ela, listando alguns de seus compositores favoritos, entre os quais não faltam brasileiros. “Também adoro Caetano Veloso, Jobim e Astrud Gilberto. Tenho ouvido muito ‘Domingo’, aquele álbum de Gal Costa e Caetano”, emenda, animada.
A quase bossa nova “If the Stars Were Mine”, faixa do segundo CD de Melody (“My One and Only Thrill”, recém-lançado no Brasil pela Universal), prova que ela não está fazendo média com o entrevistador. Outras influências saltam logo aos ouvidos nesse álbum: soul (“Who Will Confort Me”), jazz (“Your Heart Is as Black as Night”), chanson francesa (“Les Etoiles”).
Na produção, a presença de Larry Klein (baixista e compositor norte-americano que já emprestou sua experiência a álbuns de cantoras do primeiro time do pop e do jazz atual, como Joni Mitchell, Madeleine Peyroux e Luciana Souza) parece ter sido útil para que Melody encontrasse o tom certo nos arranjos e interpretações do álbum.
Depois dos elogios que o álbum tem recebido na mídia internacional, ao encarar a atual maratona de viagens e shows, hoje ela se preocupa mais com seu estado físico do que com a possível reação das platéias frente à sua música. “Entrar em um palco não é muito fácil pra mim, porque ainda tenho que ser bastante cuidadosa em relação a certos aspectos de minha saúde, mas vale a pena. Sinto uma grande alegria quando tenho a oportunidade de mostrar minhas canções para as pessoas”, diz.
E já que cinco anos atrás ela nem imaginava que viria a tornar uma cantora e compositora de relativo sucesso, será que ela consegue se ver daqui a outros cinco anos como artista? "Mais velha”, ela responde, quase rindo. “Não faço muitos planos, realmente não sei como estarei. Prefiro esperar para ver o que a vida ainda me reserva”.
(entrevista publicada parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 15/07/2009)
--> --> -->






