Jazz, samba, soul, choro, blues, bossa nova, salsa, MPB, instrumental, R&B, funk, hip hop e outras vertentes musicais, em dicas, resenhas, entrevistas e coberturas de festivais
por Carlos Calado
Quem sou
Jornalista, editor e crítico musical, escrevo sobre festivais, shows e discos. Desde meados dos anos 1980 tenho acompanhado profissionalmente a produção fonográfica brasileira e eventos musicais em diversos países. Faço palestras sobre música, curadorias e já dirigi projetos para o Sesc SP. Sou autor dos livros "Tropicália: a História de Uma Revolução Musical", "A Divina Comédia dos Mutantes", "O Jazz como Espetáculo" e "Jazz ao Vivo", entre outros. Colaboro eventualmente para os jornais "Folha de S. Paulo" e "Valor". Nos shows e festivais que acompanho, gosto de fotografar músicos que admiro.
Sambista e compositora pioneira, em um universo dominado pelos homens, Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a frequentar a tradicional ala de compositores da escola Império Serrano, cinquenta anos atrás. Numa época em que a presença feminina nas escolas de samba era ainda restrita às panelas da cozinha ou aos coros, Dona Ivone foi parceira de Silas de Oliveira e Bacalhau, na autoria do belo samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio”, no carnaval de 1965.
Hoje, aos 94 anos, considerada por muitos a principal figura feminina na história do samba, a carioca do bairro de Botafogo é também a primeira mulher homenageada pelo projeto “Sambabook” (lançamento do selo Musickeria), que veicula sua obra em dois CDs, DVD, blu-ray, um especial de TV e um livro biográfico assinado pelo jornalista Lucas Nóbile, entre outras mídias.
Os dois CDs somam um total de 26 faixas. Trazem os sucessos e sambas menos conhecidos de Dona Ivone, nas vozes de astros da MPB e do samba, como Maria Bethânia (“Sonho Meu”), Martinho da Vila (“Andei pra Curimá”) e Caetano Veloso (“Alguém me Avisou”). Não faltam também intérpretes da nova geração do gênero, como a baiana Mariene de Castro (“Sorriso de Criança”) e a mineira Aline Calixto (“Não Chora, Neném”).
O tom reverente das interpretações e arranjos é compreensível, num tributo como esse. A opção por utilizar a mesma banda e o mesmo coro para acompanhar todos os cantores garante a uniformidade das gravações. Mesmo assim, algumas interpretações se destacam, como o emotivo duo da cantora portuguesa Carminho com o bandolinista Hamilton de Holanda (em “Nasci pra Sonhar e Cantar”) ou a festiva performance do Jongo da Serrinha (“Axé de Ianga”).
Com as mesmas faixas dos CDs, o DVD inclui um extenso “making of” das gravações, que reúne depoimentos dos intérpretes e da própria Dona Ivone. “Jamais pensei que, antes de morrer, tivesse essa alegria”, diz a homenageada, abrindo um sorriso.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 26/9/2015)
Só o fato de homenagear a cantora Nana Caymmi com um documentário, algo que nenhum cineasta brasileiro fez antes dele, já é um inegável mérito do diretor franco-suíço Georges Gachot. Pena que “Rio Sonata” (lançamento em DVD pela Biscoito Fino), filme de produção tumultuada que levou seis anos para ser concluído, seja bem inferior ao sensível retrato que Gachot fez de Maria Bethânia, em “Música É Perfume” (2005).
Ao tentar traçar uma relação direta entre o canto melancólico de Nana e o Rio de Janeiro, o cineasta força demais. Falha também ao incluir depoimentos e trechos de shows que não se sustentam, como os de Mart’nália. Parece até que não tinha material suficiente para um longa-metragem.
Mesmo assim, o filme revela um pouco da complexa personalidade de Nana, grande intérprete, emotiva e de voz sublime, que fora do palco se mostra angustiada, egocêntrica, crítica ou divertida, em meio a um palavrão e outro. Gachot consegue ao menos desconstruir a aparente imagem de diva, que a própria Nana não parece levar a sério.
Na capa, os nomes de 19 intérpretes e compositores de diversas gerações da música popular brasileira, de Adriana Calcanhoto e Vanessa da Mata a Chico Buarque e Dori Caymmi, já sugerem a dimensão da efeméride. Gravado em 2001, no palco do extinto Canecão carioca, o show comemorativo dos 35 anos de carreira de Maria Bethânia assume enfim o formato de um DVD, em "Noite Luzidia" (lançamento da gravadora Biscoito Fino).
Os fãs acostumados aos sofisticados espetáculos da cantora podem se surpreender com o tom mais intimista da produção desse show. Quase como em um programa de TV, ela chama ao palco seus convidados para lembrarem canções que remetem à sua história, como “De Manhã”, com o autor e irmão Caetano Veloso, “Primavera” (Carlos Lyra) ou até compostas para ela, como “Dona do Dom” (Chico César). É justamente na informalidade dessa celebração, com alguns desencontros e olhares surpresos, que está o encanto desse registro: um retrato de como a nata da MPB reverencia uma de suas realezas.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 23/2/2013)
Lincoln Olivetti, com Donatinho (ao fundo), no 4º CopaFest
Muitos não o reconhecem, mas na certa já ouviram seus arranjos para trilhas sonoras de novelas de grande sucesso na TV, como “Baila Comigo” (1981) e “Dancin’ Days” (1978), ou para gravações de astros de diversas vertentes da música brasileira. Hoje Lincoln Olivetti traz no rosto as marcas dos altos e baixos da fama. A barba e os cabelos totalmente brancos soam incompatíveis com seus 57 anos de idade.
A imagem de excêntrico e recluso, que já vem da década de 1980, não é gratuita. Seu estúdio de gravação, na casa onde vive, no alto de um morro na estrada do Joá, no Rio de Janeiro, é sombrio como uma caverna. Olivetti falou à Folha, na noite da última quinta-feira, minutos depois de acordar, porque costuma trabalhar só depois que o sol se põe. “Gosto de ficar em casa, trabalhando, produzindo. Nunca dei valor a festas ou eventos, não sinto falta alguma disso”, afirma.
Acusado de ter “pasteurizado” a MPB com arranjos que criou durante a década de 1980, para sucessos de Gal Costa, Tim Maia, Jorge Ben, Emilio Santiago, Maria Bethânia, Marina Lima e Rita Lee, entre muitos outros intérpretes, Olivetti diz que não tinha tempo para se preocupar com essas críticas. “O fato de eu não dar entrevistas, como se esnobasse a imprensa, criou essa antipatia, mas eu não ligava para isso. Na verdade, liguei o foda-se. Tinha trabalho demais para fazer”.
Não ter o hábito de ler jornais, segundo ele, também contribuiu para que as críticas não o incomodassem tanto. “No começo, até gostei. Achei que aquelas críticas funcionaram de maneira positiva, porque passaram a falar mais de mim. Não esquento com o passado”, diz o tecladista e compositor fluminense, nascido em Nilópolis, que acaba de retornar aos palcos, acompanhado por músicos da nova geração, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista e produtor Kassin. Seu show foi uma das atrações da quarta edição do CopaFest, onde reviveu os bailes de subúrbio que começou a fazer ainda na adolescência. (veja os videos abaixo)
Hoje, afinal, ele se defende. “Me acusaram de pasteurizar a música brasileira, mas eu fazia exatamente o contrário disso. Para mim, cada arranjo tem que ser diferente do outro. Quando o (produtor Marco) Mazzola me pediu um arranjo para a Elba Ramalho, na mesma linha de ‘Festa no Interior’ (grande sucesso de Gal Costa, em 1981), fiz o arranjo de ‘Banho de Cheiro’, que é totalmente diferente. Sempre busquei derrubar as expectativas dos produtores, mas são eles que dão a forma final a uma gravação”.
Olivetti rebate também a repetida versão de que, nos anos 1990, após o bombardeio crítico que sofreu durante a década anterior, teria sido praticamente alijado da indústria do disco, até retornar à cena por meio de colaborações para discos de Ed Motta e Lulu Santos. “Esse papo de ostracismo não existe. Nunca deixei de trabalhar. Mesmo quando as gravadoras diminuíram suas produções, continuei fazendo muitos trabalhos independentes”, afirma.
Lincoln Olivetti, em seu estúdio, no Rio
Ao pedido de que enumere um “top 5” de seus trabalhos favoritos, ele chega a mencionar os arranjos que escreveu para o álbum “Realce” (1979), de Gilberto Gil, e “Fantasia” (1981), de Gal Costa, assim como a canção “Amor Perfeito” (da qual é co-autor com Michael Sullivan, Paulo Massadas e Robson Jorge), gravada por Roberto Carlos, mas desiste de completar a lista. “É difícil escolher um top five, porque o prazer que eu tenho ao ver o resultado final de um arranjo é quase sempre igual. Para mim, um arranjo é tão importante quanto o outro”, justifica.
Pela mesma razão, Olivetti diz também que jamais recusa uma encomenda de arranjo, mesmo que não se identifique com o estilo musical do intérprete. “Se você é profissional tem que saber fazer qualquer música soar bem. Para mim, ao fazer um arranjo, um artista que está começando hoje é tão importante quanto o Roberto Carlos. Nessa hora, não tem ídolo. E quanto menos pronta a música chega pra mim, maior é o desafio de conseguir que ela soe bem”.
Esse não foi o caso do arranjo de “Festa no Interior”, um de seus trabalhos mais populares entre o grande público, na década de 1980. “O Moraes (Moreira) já me entregou essa música com aquela frase, bem mastigada, que usei logo no início do arranjo. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que aquela frase é dele”, reconhece Olivetti, revelando humildade ao creditar ao compositor parte da eficácia de seu inventivo arranjo, que remete ao fraseado das bandinhas interioranas de coreto.
Trinta anos após ter lançado seu cultuado álbum com o guitarrista Robson Jorge (1954-1993), que reuniu hits televisivos da dupla, como “Prêt-à-Porter”, “Squash” e “Eva”, Olivetti ainda demonstra emoção ao falar sobre o ex-parceiro. “O Robson abriu minha cabeça para muitas coisas, e eu abri a dele. Nossa sintonia era total. No início, ele não lia música, mas acabou até escrevendo. Era muito bom trabalhar com ele”.
Admite que já pensou na possibilidade de reunir sua dispersa obra musical numa caixa de CDs ou algo semelhante, mas acabou desistindo de utilizar esse formato, num projeto pessoal que pretende lançar em breve. “Posso até incluir novos arranjos para algumas músicas que deram certo, mas quero mostrar composições inéditas, principalmente. Eu penso mais no futuro”, diz, indeciso quanto à mídia que usará. “Não sei ainda. Talvez eu só lance essas faixas pela internet”.
Sobre sua produção mais recente, Olivetti menciona o arranjo que fez para a cantora Ana Carolina (“Problemas”), veiculada na trilha sonora da novela “Fina Estampa”, ou as vinhetas musicais que criou para a entrega do Prêmio Multishow. “Tenho feito arranjos para vários artistas, mas ainda é cedo para falar sobre esses trabalhos”, esquiva-se. Já o orgulho por trabalhar há alguns anos com Alê Siqueira e Kassin, talentosos produtores da nova geração, ele não esconde. “Eu me sinto muito bem ao lado deles, porque eles são futuristas como eu”. (entrevista parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/11)