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Sambalanço: livro de Tárik de Souza disseca a vertente dançante da bossa nova

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                                 Marco Mattoli (à esq.), líder da banda Clube do Balanço, e o cantor Orlandivo


Grande referência na crítica musical brasileira, o jornalista Tárik de Souza lança na próxima semana o livro “Sambalanço, a Bossa que Dança: um Mosaico”. Com a riqueza de detalhes e a escrita sofisticada que costumam caracterizar seus textos, ele disseca essa vertente suingada da bossa nova, que contagiou salões de dança durante as décadas de 1960 e 1970.

Orlandivo, Durval Ferreira, Eumir Deodato, Waltel Branco, Elza Soares, Doris Monteiro, Lafayette, João Donato e Marco Mattoli são alguns dos intérpretes, compositores, arranjadores e instrumentistas entrevistados longamente por Tárik para esse livro (o formato pingue-pongue, com perguntas e respostas completas, torna mais saborosa ainda a leitura dessas entrevistas).

O livro inclui também uma breve discografia do sambalanço (que alguns preferem chamar de samba de balanço ou apenas balanço) e uma coleção de verbetes que ilustram as obras e carreiras de outros cultores dessa vertente musical, como Djalma Ferreira, Ed Lincoln, Luiz Antonio, Miltinho e Walter Wanderley.

A pesquisa de Tárik, que se estendeu ao longo de uma década e meia, originou também um documentário. Dirigido pelo cineasta Fabiano Maciel (autor de “Niemeyer - A Vida É um Sopro”), o filme “Sambalanço, a Bossa que Dança” tem lançamento previsto para março de 2017.

Outra obra de Tárik está chegando ao mercado. Dividido em dois volumes, o livro “MPBambas” reúne as transcrições integrais das entrevistas que o jornalista realizou para a homônima série de TV do Canal Brasil, exibida de 2009 a 2014. Entre os entrevistados, no primeiro volume, estão Nana Caymmi, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Hermeto Pascoal, Johnny Alf e Milton Nascimento. Já no volume seguinte entraram Zeca Pagodinho, Dominguinhos, Gal Costa, Inezita Barroso e Carlos Lyra, entre outros.

Noites de autógrafos: dia 12/12 (segunda-feira), às 19h, na Bossa Nova e Companhia (r. Duvivier, 37, Copacabana, Rio); dia 14/12 (quarta), às 19h, na Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, Cerqueira César, São Paulo)



Bourbon Festival Paraty 2016: destaques do evento também tocam em São Paulo

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Só em festivais internacionais de peso você pode encontrar um elenco com esse alto quilate musical. Joshua Redman (na foto ao lado), The Bad Plus, Dianne Reeves, Romero Lubambo, Eumir Deodato, Rosa Passos, Walter “Wolfman” Washington e o o grupo Pau Brasil estarão entre as dezenas de atrações da oitava edição do Bourbon Festival Paraty, de 20 a 22/5, na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Com 19 shows gratuitos ao ar livre, em três palcos, além de aparições de bandas de blues e jazz tradicional pelas ruas da cidade, esse festival também oferece workshops para estudantes de música (com o saxofonista Leo Gandelman e guitarrista Chico Pinheiro), intervenções do DJ Crizz (antes, durante e depois dos shows principais) e uma exposição de fotos de Pedro Guida, na Galeria Zoom.

Entre as atrações musicais do Bourbon Festival Paraty também se destacam o baixista Thiago Espírito Santo, o guitarrista Ricardo Silveira, a banda do guitarrista de blues Igor Prado (que terá como convidado o cantor norte-americano Willie Walker) e o gaitista e cantor de blues Flávio Guimarães.
 

Shows no Bourbon Street

A boa notícia para os paulistanos que não podem se deslocar até Paraty é que cinco das principais atrações do evento também estarão no clube Bourbon Street, em São Paulo, nos próximos dias. O mini festival começa em 17/5, com o show do excelente violonista carioca Romero Lubambo, que terá como convidada especial a cantora norte-americana Dianne Reeves, uma das grandes intérpretes do jazz contemporâneo. 


A atração do dia 18/5 é a cantora Rosa Passos (na foto ao lado), grande intérprete da MPB e da bossa nova, que estará acompanhada pelo grupo Brasilidade Geral. Na noite seguinte, será a vez do cantor e guitarrista Walter “Wolfman” Washington, mestre do blues de Nova Orleans. No dia 20, a banda do baterista norte-americano Anthony King interpreta clássicos da soul music e do funk, com destaque para os vocais de Ms. Monet e Tony Lindsay.

Finalmente, no dia 24, o cultuado trio de jazz norte-americano The Bad Plus divide o palco do Bourbon Street com o saxofonista Joshua Redman, outro expoente da cena atual do jazz. No repertório desse show entram composições originais extraídas do álbum “Bad Plus Joshua Redman”, lançado em 2015.

Mais informações nos sites do Bourbon Festival Paraty e do Bourbon Street Music Club.

Eumir Deodato: dos elogios de Tom Jobim à vitoriosa carreira musical nos EUA

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Naquele ano de 1964, muitos músicos brasileiros devem ter sentido ao menos um pouco de inveja do jovem pianista e arranjador Eumir Deodato. Seu disco de estreia – “Inútil Paisagem”, gravado pelo selo Forma, com arranjos orquestrais que ele escrevera para 12 canções de Tom Jobim – trazia na contracapa um texto de apresentação cheio de elogios, assinado por ninguém menos que o próprio Jobim.

“É incrível que um rapaz de 22 anos possa escrever para orquestra como Eumir escreve. Não basta ser musical, talentoso, habilidoso, sabido ou sábio. Escrever para orquestra é coisa que envolve toda uma técnica, experiência, um passado de erros passados a limpo, e eu não creio que Eumir tenha tido, com 22 anos, tempo para isso”, escreveu Jobim, compositor e músico exigente, que não costumava sair distribuindo elogios fáceis. O texto também incluía mais um de seus achados poéticos: “Meu Deus, quanta coisa Deus deu a Deodato!”

Passados cinquenta anos, Deodato ainda demonstra um certo embaraço ao se lembrar desse episódio, mas o motivo não tem nada a ver com música. “Quando alguém me falou sobre aquele elogio do Tom, tomei um susto. Sou um cara tão distraído que, para falar a verdade, ainda não tinha lido a contracapa do meu disco”, confessa o carioca, nascido no bairro do Catete, que vive nos Estados Unidos desde o final dos anos 1960.

Deodato não se recorda exatamente de quando e como conheceu Jobim. Lembra-se de tê-lo visto de longe algumas vezes, no início da década de 1960, nas animadas reuniões musicais promovidas pela família do letrista Lula Freire, em seu apartamento, no bairro de Copacabana, no Rio. Nesses encontros, frequentados por músicos da bossa nova e apreciadores do cool jazz, era comum se encontrar o violonista Baden Powell, o pianista Luiz Eça ou o flautista Bebeto Castilho, entre outros.

“O Tom já era o mais cobiçado de todos, naquela época. Ele já tinha várias músicas gravadas com sucesso, como ‘Teresa da Praia’ ou as parcerias com Dolores Duran, que eram lindas. Sempre havia muita gente em volta dele, naquelas reuniões de bossa nova. E eu era um cara muito calado, tímido. Demorou para que eu tivesse a oportunidade de conversar com ele”, recorda.

Mesmo admirando as canções e a musicalidade de Jobim, Deodato não considera que tenha sido influenciado diretamente por ele, como pianista e compositor. “Trabalhando com o Tom, eu fui descobrindo o que ele considerava mais importante na música. Ele valorizava muito as melodias – era um ótimo arquiteto de linhas melódicas. Tom também era um grande fã do Villa-Lobos. Muitas das coisas mais clássicas que fez eram influenciadas pelas ideias do Villa-Lobos”, analisa.

A ligação dos dois se consolidou quando Deodato foi convidado por Jobim a fazer arranjos para os temas instrumentais e canções que compusera para o filme “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman, lançado em 1967. Clássicos da obra jobiniana nasceram nesse filme ainda pouco conhecido, como o instrumental “Surfboard”, a canção “Ela É Carioca” e, claro, o megassucesso “Garota de Ipanema”, com letras de Vinicius de Moraes.

“O Tom me deu muita força. Depois desse filme eu trabalhei muito com ele”, credita Deodato, ao relembrar outra parceria da dupla para o cinema: a trilha sonora do filme “Os Aventureiros” (“The Adventurers”), do britânico Lewis Gilbert, com a bela norte-americana Candice Bergen, no elenco. Canções populares de Jobim, como “Olha, Maria” (com letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e a valsa “Chovendo na Roseira”, nasceram como temas instrumentais para essa trilha, ainda intitulados “Amparo” e “Children’s Games”, respectivamente.

Deodato se lembra de que, quando ele e Jobim chegaram a Londres, em 1969, ainda não havia uma edição final do filme para que pudessem iniciar o trabalho. “O Tom ia escrever todos os temas e eu tinha que fazer as orquestrações. Enquanto a edição não ficou pronta, passamos dias sentados na King’s Road, olhando as garotas de minissaia, passando. Ficávamos discutindo o que faríamos com a músicas, tomando aquela cerveja morna que os ingleses servem nos bares”, recorda.

Para muitos críticos e fãs de Jobim, seus discos “Tide” e “Stone Flower” – ambos lançados em 1970, com produção do norte-americano Creed Taylor, por selos diferentes – estão entre os melhores produtos de sua parceria com Deodato. “Naquela época, Creed trabalhava para a gravadora A&M, mas tinha criado seu próprio selo, o CTI. Então pegou a verba da A&M para gravar o disco do Tom e fez dois. E ainda escolheu as melhores faixas para o ‘Stone Flower’, que saiu pelo selo dele”, comenta o arranjador.

Poucos anos depois, já como artista do elenco da gravadora de Taylor, Deodato teve uma surpresa tão grande quanto a provocada pelos elogios de Jobim aos arranjos de seu primeiro disco. O arranjo “crossover” que criou para o poema sinfônico “Also Sprach Zarathustra” (composição de Richard Strauss, que havia se tornado bastante popular, na época, ao integrar a trilha sonora do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick) chegou ao topo das paradas de sucesso, em 1973.

“Foi um arranjo praticamente feito no estúdio, ao vivo, que me deixou quase morto”, diverte-se Deodato, contando que levou para a sessão de gravação apenas um esboço da introdução desse arranjo. ““Eu estava sem ideias, mas, na noite anterior, pouco antes de dormir, lembrei de um baiãozinho que tinha anotado em um caderno. Como a música do Strauss e esse tema eram compostas em dó, achei que valia a pena tentar. Deu certo”.

Desde os anos 1970, o requisitado Deodato atuou em centenas de outros projetos e gravações, com artistas de diversos estilos e gerações: do guitarrista de jazz Wes Montgomery e da banda funk Kool and the Gang às cantoras Gal Costa e Björk. Já no ano passado, reencontrou a obra de Jobim, ao escrever os arranjos para o álbum que a cantora Vanessa da Mata dedicou ao grande maestro da bossa.

“Só fizemos algumas mudanças de ritmo. Depois de trabalhar tantos anos com o Tom, sei que que ele tinha pavor de que trocassem a harmonia de suas composições”, comenta o arranjador, consciente de que tentar fazer a música de Jobim soar melhor ou mesmo mais atual, sem comprometer sua identidade, seria uma tarefa inglória.

(Entrevista publicada no caderno de cultura do “Valor Econômico”, em edição dedicada aos 20 anos da morte de Tom Jobim, em 5/12/2014)


 

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