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Luciana Souza: cantora radicada nos EUA recria jóias da MPB com uma big band

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Acostumada a uma intensa rotina de concertos, turnês, gravações e aulas, Luciana Souza viu pela primeira vez um disco seu ser lançado sem algum show ou evento especial. Quando “Storytellers”, seu 13.º álbum, chegou ao mercado, no final de março, a cantora e compositora paulistana  hoje uma das intérpretes mais conceituadas na cena mundial do jazz  já estava em quarentena para se proteger do coronavírus. 

“Eu não queria correr mais riscos”, diz ela, de sua casa em Los Angeles, onde vive com o marido, o produtor musical Larry Klein, e o filho Noah. Luciana lembra que tomou a decisão de suspender concertos e viagens logo na primeira semana de março, horas antes de um show com o violonista Chico Pinheiro, em Michigan. Ficou tão assustada com o noticiário da TV, que desistiu de se apresentar com a banda Yellowjackets, em Nebraska, poucos dias depois.

Voltando ao novo disco, ainda não foi desta vez que ela concretizou o sonho de gravar um álbum com canções de seus pais (o violonista Walter Santos e a letrista Tereza Souza, expoentes da bossa nova em São Paulo e fundadores da lendária gravadora Som da Gente). Um projeto mais difícil de realizar, admite a cantora, por causa de “um pequeno problema”: as gravações com orquestra e os arranjos de cordas, assinados por craques como Vince Mendoza e Dori Caymmi, resultariam em um orçamento de pelo menos 100 mil dólares.

Foi o mesmo Mendoza, premiado regente e compositor americano, quem escreveu os arranjos e produziu o álbum “Storytellers”, uma parceria de Luciana com a banda alemã WDR Big Band Cologne. Curiosamente, a gravação desse disco não estava no projeto original. Convidados a fazer alguns concertos com essa big band, em 2017, a cantora e o arranjador selecionaram um sofisticado repertório de música brasileira. Só meses depois surgiu a ideia de lançar o disco, utilizando as ótimas gravações realizadas durante os ensaios.

“A WDR é uma banda que tem fome de tocar”, elogia Luciana, comentando que os músicos dessa big band ensaiam cinco dias por semana durante nove meses do ano. “Eles tocam com um grau de relaxamento que os músicos americanos desconhecem, porque podem se dar ao luxo de passar o dia juntos, ensaiando e tocando. Cantar com uma big band como essa me deixa feliz e relaxada. É só respirar e cantar”.

O repertório do álbum é de primeira linha: canções repletas de lirismo, como “Chora Coração” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque) e “Meu Pai” (Guinga); um inspirado xote de Ivan Lins e Lenine (“Se Acontecer”); um saboroso samba de Gilberto Gil (“Mar de Copacabana”) e uma antiga composição, sem letra, da própria Luciana (“Baião a Tempo”), entre outras.

Na opinião da cantora, entre tantas belezas, “o centro do disco” é a gravação de “Matita Perê” (de Jobim e Paulo Cesar Pinheiro), uma épica declaração de amor à natureza no Brasil. Não à toa, Luciana escolheu para a capa do álbum uma expressiva imagem do Rio Juruá (na Amazônia), clicada em preto e branco pelo fotógrafo Sebastião Salgado. “O trabalho dele, como o de Jobim, repousa como uma das obras mais importantes e impactantes que já surgiram no Brasil”, avalia a intérprete, em um texto no encarte do disco.

Diferentemente do que suspeitam alguns pessimistas, Luciana não teme que a atual pandemia possa ameaçar o futuro da música ao vivo. “Acho que os teatros e clubes vão reabrir quando possível. Algumas pessoas terão medo de ir, inicialmente, mas isso não será definitivo. Até se descobrir uma vacina para essa doença, tudo será transitório”, prevê a cantora, que já tem um concerto agendado, no final do ano, num teatro de Los Angeles, sem a presença de plateia. Essa apresentação será transmitida por streaming.

“Isso é meio triste, mas é o que podemos fazer agora. Não podemos colocar as vidas das pessoas em risco”, comenta a cantora, preocupada com o futuro do Brasil e dos Estados Unidos. “Há uma tragédia política acontecendo hoje no mundo. Como o governo americano, o governo brasileiro optou por um caminho errado, trágico e cruel. Infelizmente, o nosso presidente não tem respeito pela vida do próximo. Se a gente tivesse um presidente mais coerente com a ciência, provavelmente não teríamos tantos mortos no país. Isso me entristece muito”.

Em meio à recorrente discussão sobre como esta longa quarentena poderá alterar nossos hábitos, Luciana sugere que ela seria uma oportunidade para se discutir e modificar o injusto pagamento de direitos autorais aos músicos, nas plataformas digitais. Como exemplo, ela revela seu próprio rendimento, no aplicativo de streaming Spotify, onde seus discos alcançam a média mensal de 50 mil “streams” (a audição de uma música por mais de 30 segundos).

“Se eu ganhasse um centavo de dólar por cada ‘stream’, receberia 5 mil dólares por mês – quantia que já me ajudaria bastante. Só que pelo sistema atual eu recebo uma parcela infinitamente menor: 38 dólares, em média, por mês”, diz a cantora. “Será que a gente não poderia reeducar as novas gerações? Por que não tentarmos convencer as pessoas a pagarem um valor mais justo por um produto que foi criado por um artista?”.


(Texto publicado no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico", em 12/6/2020)




Madeleine Peyroux: cantora americana aborda distopias da era Trump em suas canções

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                                                     A cantora Madeleine Peyroux - Foto: Yann Orhan - Divulgação

Os fãs da cantora americana Madeleine Peyroux já tiveram algumas oportunidades de ouvi-la em palcos brasileiros durante esta década. Seu timbre vocal e sua maneira particular de entoar os versos das canções chamaram atenção, na segunda metade dos anos 1990, pela semelhança com Billie Holiday (1915-1959), a mais cultuada intérprete do universo do jazz. Madeleine volta a se apresentar em cinco capitais do país, de 12 a 22 de setembro.

Desta vez ela traz no repertório canções do disco que, na opinião de alguns críticos, é o mais maduro e antenado com seu tempo entre os oito álbuns de estúdio que já lançou. Tratando-se de uma intérprete conhecida pelo tom intimista ou mesmo confessional das canções que compõe ou escolhe para suas gravações e shows, chega a ser surpreendente o fato de algumas faixas de seu álbum “Anthem” (lançado pela gravadora Verve no final de 2018) terem sido influenciadas pelo ambiente político nos Estados Unidos durante os meses que culminaram com a eleição de Donald Trump.

“Começamos a compor material para um novo álbum em fevereiro de 2016 e, já em novembro, Trump foi eleito para a presidência”, relembra a cantora. “Quando ele assumiu o cargo, no início de 2017, liguei para (o produtor e parceiro) Larry Klein e disse a ele que só precisava fazer mais uma canção para começarmos a gravar um disco. Sem dúvida, Trump foi uma das razões para que esse álbum existisse”.

A arte gráfica de “Anthem”, primeiro disco de Madeleine sem sua imagem na capa, já sugere que ele traz algo de diferente em relação aos trabalhos anteriores da cantora. Dispostas de maneira simbólica na capa, uma faixa vermelha, uma branca e outra azul receberam um efeito de desfoque, como se a bandeira norte-americana tivesse sido desfigurada. Em entrevistas, na época do lançamento do álbum, Madeleine disse que essa foi uma maneira que encontrou para provocar debates.

“Eu queria questionar o significado de democracia para as pessoas e perguntar o que poderíamos fazer para mantê-la”, justifica a cantora, ressaltando que, por outro lado, em momento algum pensou em abordar temas políticos como esse nas novas canções, de maneira literal. Nos shows que fez nos Estados Unidos ao longo de 2016, durante o período da campanha eleitoral e dos debates entre os candidatos, ela sentiu que sua relação com as plateias começou a mudar bastante. “Tornou-se mais íntima e profunda de uma maneira que jamais senti antes”, avalia.

Mesmo sinalizando a preocupação de Madeleine e seus parceiros (David Baerwald, Larry Klein, Brian McLeod e Patrick Warren) com as aberrações da disruptiva era Trump, as canções de “Anthem” estão longe de soar panfletárias, nem oferecem lições típicas de obras de autoajuda. A letra da agridoce “On My Own”, que abre o álbum, parece projetar para um futuro muito próximo um ser humano autocentrado, hostil e completamente solitário. Já a bem-humorada “Down on Me” aborda com leveza e alguma ironia o problema das perdas financeiras enfrentadas por parte da população americana, que viu seus empregos serem extintos em função de mudanças tecnológicas.

Curiosamente, ao ouvir um elogio à qualidade de sua safra atual de canções, Madeleine revela um grau de autocrítica inesperado para uma artista que já compõe a maior parte do material que grava há mais de uma década. “Em geral, eu acho que minhas canções não são tão boas quanto outras que já cantei, mas continuo tentando. Preciso expressar certas coisas que eu sinto, coisas que fazem parte de minha vida. Isso me estimula a seguir compondo, mesmo que, como cantora, eu não goste muito delas”, confessa.

Talvez seja também uma questão de ambição artística, porque ao escolher material de outros autores para acompanhar as dez canções que ela e seus parceiros fizeram para esse disco, Madeleine revela seus altos padrões. “Anthem”, a bela canção que empresta seu título ao álbum, foi composta pelo poeta e cantor canadense Leonard Cohen (1934-2016). Gravada originalmente por ele no álbum “Future” (1992), essa canção traz na letra dois versos (“Há uma rachadura em tudo /É assim que a luz penetra”), que parecem escritos sob encomenda para transmitir um raio de esperança em tempos tão sombrios.

Outro cultuado poeta, o surrealista francês Paul Éluard (1895-1952), é o autor de “Liberté”, poema que escreveu durante a ocupação da França pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial. Musicados por Madeleine, os versos desse poema são cantados por ela, no álbum, em francês. “Originalmente, Éluard o escreveu como um poema de amor para sua companheira, mas acabou percebendo que ele se tornou um protesto pela liberdade”, comenta a cantora.

Incluída no CD como faixa-bônus, “Last Time When We Were Young”, clássico da canção americana que Harold Arlen e E.Y. Harbug compuseram em 1935, ganhou um arranjo moderno e um quê de bossa nova, reforçado pelo solo de Chris Cheek ao sax tenor, que lembra a sonoridade de Stan Getz (o parceiro americano de João Gilberto, em clássicas gravações do gênero). A interpretação de Madeleine, delicada e melancólica, prova que a influência de Billie Holiday já não a assombra mais.

Voltando ao trabalho de composição, segundo Madeleine, a parceria com o produtor Larry Klein, iniciada em 2009 no seu quarto álbum (“Bare Bones”), a ajuda bastante a transformar suas ideias em canções. “Ele tem sido um cara muito especial nessa parceria, porque sempre abriu muito espaço para ouvir minhas ideias. Larry é bastante crítico, o que me agrada, porque eu também sou. Ele gosta de diversos tipos de música, como eu, e possui uma mente bem aberta. Temos muito em comum”.

Na lista de 17 músicos que participaram das gravações de “Anthem”, há uma surpresa: o nome da cantora e compositora paulistana Luciana Souza. Radicada desde os anos 90 nos Estados Unidos, onde desenvolve uma carreira muito bem-sucedida no segmento do jazz, ela é creditada no disco como percussionista 
 outro talento que costuma exibir nos palcos. “Sou fã de Luciana há muito tempo, antes mesmo que ela e Larry se casassem. Adoro os discos dela”, elogia a americana. 

Ao ouvir que as referências às distopias da era Trump, presentes em algumas de suas canções mais recentes, podem soar familiares às plateias brasileiras, Madeleine concorda e se revela otimista. “Sim, acho que isso pode acontecer, porque muitas das canções que escrevemos são universais. Eu sinto por vocês terem que lidar com Bolsonaro no Brasil, assim como eu lamento a vitória de Trump ou lamento o Brexit. Mas eu penso que, se nos mantivermos unidos, podemos superar tudo isso”. 


(Texto publicado no caderno de cultura do "Valor Econômico", em 6/9/2019) 

A turnê de Madeleine Peyroux pelo Brasil: 
Porto Alegre: dia 12/9, às 21h, no Auditório Araújo Viana
Curitiba: dia 13/9, às 21h, no Teatro Guaíra
São Paulo: dia 14/9, às 22h, no Tom Brasil
Belo Horizonte: dia 20/9, às 21h, no Palácio das Artes
Rio de Janeiro: dia 21/9, às 20h30; e dia 22/9, às 20h, no Theatro Municipal








Luciana Souza: cantora recria a atmosfera solitária do jazz de Chet Baker

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                                                                                               Photo by Bob Wolfenson

É preciso um pouco de coragem e muito talento para gravar um álbum como “The Book of Chet” (lançamento Sunnyside/Universal), que acaba de sair no Brasil. Na contramão da histeria dançante que move grande parte da produção musical de hoje, Luciana Souza interpreta dez canções, algumas bem tristes, em versões tão lentas e minimalistas que chegam a causar estranhamento.

Mesmo intrigado, depois de algumas faixas, o ouvinte que se deixou levar pela sutileza das linhas melódicas e pela esparsas intervenções do trio que acompanha a cantora percebe que está encantado pela atmosfera de melancolia e beleza do álbum. Como em um universo paralelo, a sensação de tempo se dissolve.

As letras das canções, como “The Thrill Is Gone” (Henderson & Brown), “The Touch of Your Lips” (Noble) ou “You Go to My Head” (Gillespie & Coats), evocam dores amorosas e muita solidão, mas Luciana jamais perde a elegância, combinando silêncios e notas longas, sem apelar para exageros dramáticos.

É assim que ela, o guitarrista Larry Koonse, o baixista David Piltch e o baterista Jay Bellerose recriam, com muita personalidade, o universo sonoro do trompetista e cantor norte-americano Chet Baker (1929-1988), ícone do “cool jazz”. Em vários momentos, a sensação é quase a de escutar um quarteto, já que os vocais da cantora soam como outro instrumento.

Novos duos de voz e violão

Lançado no final de agosto, nos EUA, onde a paulistana Luciana Souza vive desde a década de 1990, “The Book of Chet” chegou ao mercado junto com “Duos III” (Sunnyside/Universal), o terceiro álbum da série em que ela interpreta clássicos da canção brasileira, no formato voz e violão. Ambos foram produzidos pelo norte-americano Larry Klein.

Nessas gravações, mais uma vez, Luciana tem a companhia dos grandes violonistas Marco Pereira e Romero Lubambo, em releituras de canções de diversas épocas: da triste “Mágoas de Caboclo” (de Cascata e Azevedo), que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves, ao bem sacado medley que une “Lamento Sertanejo” (Gilberto Gil e Dominguinhos) e “Maça do Rosto” (Djavan).

Mesmo ao interpretar algumas canções já gravadas quase à exaustão, Luciana oferece surpresas: como em “Dindi” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), clássico da era da bossa nova que ressurge em versão inovadora, com o violão “bluesy” de Lubambo.

Brilhantes também são os encontros de Luciana com o violonista e compositor Toninho Horta, que contribuiu com duas de suas canções mais belas e estranhas: “Beijo Partido” e “Pedra da Lua” (esta em parceria com o poeta Cacaso).

Assim como já foram indicados para o próximo prêmio Grammy, “The Book of Chet” e “Duos III” merecem frequentar as listas de melhores álbuns do ano. Têm tudo para agradar fãs do jazz ou da MPB.


(resenha publicada parcialmente na “Folha de S. Paulo”, em 26/12/02)

Luciana Souza: cantora e compositora, que vive nos EUA, fecha sua trilogia "Duos"

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Uma década atrás, já estabelecida nos EUA, ela lançou o disco “Brazilian Duos”, cantando clássicos da música brasileira, em português, acompanhada por três violonistas. Saudado pela crítica internacional e indicado ao prêmio Grammy, esse álbum permitiu que Luciana Souza firmasse de vez sua carreira na cena mundial do jazz. Em 2005, ela manteve esse formato, no CD “Duos II”, com o qual acumulou novos elogios e outra indicação ao Grammy.

No entanto, quando vinha se apresentar no Brasil, a cantora paulistana era questionada por seu repertório não incluir compositores brasileiros contemporâneos. “Como saí muito cedo do país, não tenho uma relação com a música brasileira de hoje”, ela reconhece, em entrevista ao "Valor", por telefone, de Los Angeles. “Tenho contato com alguns músicos brasileiros, recebo discos e sei mais ou menos o que acontece no país, mas, na hora de gravar, meu interesse é mesmo pelos clássicos”, admite.

É por isso que, dias antes de vir a São Paulo para gravar seu terceiro álbum da série “Duos” e fazer shows no Sesc Pompéia (em 10 e 11/3), Luciana não esconde uma ponta de desabafo. “Resolvi assumir que gosto de canções mais antigas e vou continuar a gravá-las. Vai ser legal fechar essa trilogia, finalmente, porque quando fiz o segundo ‘Duos’ já tinha o terceiro na cabeça. Cheguei a pensar em usar outros instrumentos, mas refleti melhor e voltei à ideia de cantar só com violão”.

Nas gravações de “Duos III”, Luciana terá outra vez a seu lado dois violonistas que a acompanharam nos primeiros discos da série. “Romero Lubambo é um grande parceiro meu, aqui nos Estados Unidos. E o Marco Pereira tem uma história pessoal comigo, somos amigos desde minha adolescência. A novidade desse disco é que também convidei o Toninho Horta. Vamos gravar ‘Pedra da Lua’, uma música dele, que é estranha e muito bonita”, comenta.

Como nos álbuns anteriores, Luciana vai reler clássicos da música brasileira de diversas épocas. Alguns deles ela aprendeu a cantar com seus pais – a letrista Tereza Souza e o violonista e compositor Walter Santos, expoentes da geração que cultivou a bossa nova durante a década de 1960, em São Paulo. Já nos anos 1980, os dois fundaram o Som da Gente, selo importante no segmento da música instrumental brasileira.
 
"Vou gravar uma canção linda, do repertório do Orlando Silva, que o meu pai cantava muito”, diz ela, referindo-se a “Mágoas de Caboclo” (Leonel Azevedo e J. Cascata). “Também vou cantar um medley, em ritmo de baião, que combina ‘Lamento Sertanejo’, de Gilberto Gil e Dominguinhos, com ‘Maçã do Rosto’, do Djavan. Tem outra ainda do Gil, ‘Eu Vim da Bahia’, que eu já canto por aqui”, revela.

Frequente no repertório de Luciana, Tom Jobim estará representado por três canções: “Chora Coração”, “Dindi” e “Ligia”. “Faz tempo que eu quero muito gravar essas músicas. Como ‘Ligia’, da qual já tentei, mas não consigo escapar”, diverte-se. “Tenho que gravá-la, é uma coisa de paixão. E vai ser com o Toninho Horta, que tem um suingue todo dele”.

Há três anos sem lançar discos, desde o álbum “Tide” (2009), Luciana prepara um retorno em dose dupla. “Duos III” tem lançamento previsto para 28 de agosto, nos EUA, pelo selo Sunnyside. Nesse mesmo dia sai também “The Book of Chet”, homenagem que ela fará ao cantor e trompetista Chet Baker (1929-1988). Nesse CD vão entrar conhecidos standards do repertório do jazzista, como “The Thrill is Gone” e “You Go To My Head”. 

“Ele cantava com uma tristeza absolutamente palpável. Quero evocar um pouco daquela maneira de cantar tão solitária e da intuição que ele tinha no fraseado”, revela Luciana, comentando que a afinidade do estilo cool de Baker com a estética da bossa nova também a estimula a realizar esse projeto. “Eu não parava de ouvir e cantar Chet Baker, na época em que estava cursando o mestrado. Essa é outra obsessão que também preciso tirar do meu organismo”, brinca a intérprete, que terá a seu lado talentosos músicos de jazz da Califórnia: Larry Koose (guitarra), David Piltch (contrabaixo) e Jay Bellerose (bateria).

Embora sua produção musical tenha diminuído, relativamente, nos últimos anos, Luciana não lamenta a mudança de ritmo na carreira, após se casar com o produtor Larry Klein. “Sem querer ser egoísta, acho que tive muita sorte por ter tido meu filho durante essa crise econômica. Como as oportunidades diminuíram para todos os artistas, tanto nos Estados Unidos como na Europa, foi muito bom poder ficar em casa, cuidando do meu filho, sem me sentir culpada por não estar trabalhando”, comenta, pontuando que, mesmo assim, faz cerca de 40 a 50 shows por ano.

“Durante esse período de hibernação, trabalhei com o Paul Simon, com o Herbie Hancock, gravei o ‘Tide’, fiz projetos lindos com música de câmera, que me fizeram crescer em outras áreas”, relembra. “Além disso, ao me casar, mudei de Nova York para Los Angeles, algo fundamental para mim. Em Nova York, havia a pressão diária de estar sempre fazendo e acontecendo. Tem uma hora em que você precisa se voltar para dentro”, diz, lembrando que também teve de lidar com a perda dos pais nesse período.

A morte de Walter e Tereza, três anos atrás, só aumentou sua vontade de homenageá-los. “Eu gostaria muito de fazer um tributo a meu pai, um disco com instrumentos de cordas, com grandes arranjadores. Já falei com Vince Mendoza, Johnny Mandel, Dori Caymmi, Oscar Castro Neves. Todos topam participar, mas um disco como esse custaria pelo menos uns 100 mil dólares e eu não tenho uma gravadora que possa bancar isso. A solução seria conseguir um patrocínio”, comenta.

Para os shows que fará em São Paulo, Luciana estará acompanhada por três conceituados nomes da nova geração da música instrumental brasileira: Fábio Torres (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Marcelo Mariano (baixo). No repertório, segundo ela, estarão várias faixas de seu último álbum, “Tide”, como o medley de sambas “Adeus América/Eu Quero Um Samba” (Haroldo Barbosa, Geraldo Jacques e Janet de Almeida) e “Chuva”, poema de Paulo Leminski que ela mesma musicou. 

Num momento em que muitos brasileiros emigrados retornam ao país, estimulados pela estabilidade econômica, Luciana diz que hoje vive outra fase.  “Já não sinto mais a nostalgia de antes. Voltar a viver no Brasil não cabe mais na minha vida, porque finquei raízes profundas nos Estados Unidos. Mas não preciso de endereço no Brasil, para me sentir brasileira. Hoje me sinto um espécie de diplomata, porque sou conhecida no exterior como uma cantora de jazz brasileira. O Brasil nunca vai sair de mim”.

(entrevista publicada no jornal “Valor Econômico”, edição de 29/2/2012)





Luciana Souza: outras boas doses de samba e jazz com sotaque brasileiro, em "Tide"

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                                                                                                                                      Foto: Gabriel Rinaldi

Um ano após o lançamento no exterior, chega ao mercado brasileiro “Tide” (Verve/Universal), oitavo álbum de Luciana Souza. Radicada há duas décadas nos EUA, onde desfruta de grande prestígio na área do jazz, a cantora e compositora paulistana volta a contar nesse álbum com o violão de Romero Lubambo, seu antigo parceiro, e com o baixo e a produção de Larry Klein, seu marido. Outros jazzistas de renome participaram das gravações, como Larry Goldings (piano e órgão) e Vinnie Colaiuta (bateria).

Filha do compositor e violonista Walter Santos e da letrista Tereza Souza, autores de vários sucessos da bossa nova criada em São Paulo, Luciana retoma no repertório de “Tide” vertentes que marcam seus trabalhos anteriores. Com a sensibilidade e a técnica impecável de sempre, ela relê clássicos da bossa, como “Eu Quero Um Samba” (de Janet de Almeida) e “Sorriu Pra Mim” (de Garoto e Luis Claudio), interpreta poemas musicados de E.E. Cummings e Paulo Leminski, e canta composições inéditas que fez em parceria com Larry Klein e David Batteau.

Falando por telefone de Los Angeles, na Califórnia, onde vive, Luciana relembrou a dificuldade de produzir esse disco, no mesmo período em que perdeu os pais e viu nascer seu filho. Comenta também que a música brasileira continua prestigiada no exterior. E revela que planeja gravar um álbum em homenagem a Walter e Tereza, seus pais.

Esse CD transmite uma sensação de serenidade que não havia em seus primeiros discos. Isso tem a ver com sua experiência recente de maternidade ou com a maturidade dos 44 anos?
Luciana Souza - O processo de feitura desse disco coincidiu com a morte dos meus pais e com o nascimento do Noah, meu filho. Não foi fácil encarar quase ao mesmo tempo dois momentos tão tristes da minha vida e uma das coisas mais lindas que eu poderia experimentar. Sempre conversei com meus pais sobre meus trabalhos. Desta vez, sem os dois, tive que encontrar algo dentro de mim, um centro, para poder continuar, no meio também dessa depressão geral que tomou conta da economia. Apesar de todos os altos e baixos, foi muito legal a sensação de ter conseguido seguir em frente.

Como você escolheu o repertório? 

Luciana - Decidi com o Larry [Klein, baixista e produtor do CD] gravar as coisas que mais gosto: clássicos da bossa nova, sempre homenageando João Gilberto e meu pai, algumas canções originais e poemas de Paulo Leminski e E.E. Cummings. Não sei se esse disco tem a ver com maturidade, mas posso dizer que ele é muito honesto, no sentido de representar tudo o que eu faço ao vivo. Eu canto samba, bossa nova, jazz, canções mais abstratas e uma do Paul Simon, sem letra.

Você abre esse disco com “Adeus América”, samba de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, que fala de um brasileiro que vive nos EUA e morre de vontade de voltar. Essa escolha foi casual ou a saudade apertou mesmo? 

Luciana - Tenho saudade de tudo que vivi no Brasil, mas é saudade de um Brasil utópico, que já não existe mais. O samba que eu conheci 30 anos atrás, por exemplo, já é outra coisa hoje. Vou morrer com essa saudade, mas não penso em voltar. Não por não gostar do país, mas porque nunca me dediquei a construir uma carreira no Brasil.

Como você é classificada hoje, nos EUA, como artista?

Luciana - Acho que ainda sou considerada uma cantora de jazz, por causa dos músicos com os quais me associo ou pelas indicações ao Grammy que recebi nessa área. Não é à toa que me chamam de “cantora brasileira de jazz”. Meu lado brasileiro sempre será o mais forte, é a linguagem mais pura que eu tenho.

A música brasileira foi favorecida pelo aumento do prestígio do Brasil no mundo? 

Luciana - Por onde eu tenho circulado, o Brasil é favorecido. A música brasileira ainda é encarada como “world music”, mas ela é uma coisa distinta. Tanto é que aqui não se inclui o Brasil na música latino-americana. Quando faço shows na Europa, percebo que as pessoas sabem quem é Marisa Monte, Rosa Passos, Céu, Vanessa da Mata, Chico Pinheiro.

Você dedicou “Tide” aos seus pais. Já pensou em gravar um álbum só com canções dos dois?

Luciana - Pensei e gostaria muito. Seria uma homenagem ao meu pai, não só com composições dele, mas também com canções que refletem o que ele e minha mãe gostavam na música: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Francis Hime, Chico Buarque. Para os arranjos de cordas eu chamaria Vince Mendoza e Johnny Mandel. Esse disco já está pronto na minha cabeça. Só tem um pequeno problema (risos): ele custaria uns 100 mil dólares.

(Entrevista publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 27/08/2010)



Melody Gardot: acidente grave levou norte-americana a se tornar cantora

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Quem escuta pela primeira vez as canções sofisticadas e românticas dessa norte-americana de 24 anos, cujo nome aparece com destaque na programação dos melhores festivais de música deste verão, na Europa, jamais poderá imaginar a tragédia pessoal que a vida lhe reservou.

Cinco anos atrás, Melody Gardot pedalava sua bicicleta, na cidade de Filadélfia, onde vivia, quando foi atropelada por uma perua Cherokee, que desrespeitou o sinal vermelho. As seqüelas foram devastadoras: depois de passar um ano presa à cama, ela teve de reaprender a andar. Ainda é obrigada a usar bengala até hoje.

“Eu estava me preparando para ser pintora, mas prefiro não pensar em como minha vida poderia ter sido diferente”, diz ela, por telefone, do quarto de um hotel, em Londres.Ironicamente, o acidente alterou os planos de vida de Melody. Para enfrentar as dores que a medicina convencional não conseguia atenuar sem pesados efeitos colaterais, um médico lhe sugeriu alguma forma de terapia musical.

Ainda impedida de sair da cama, ela decidiu aprender violão, deitada mesmo. Assim nasceu a compositora e cantora, cuja carreira profissional começou a decolar depois que um amigo construiu uma página no MySpace, sem que ela soubesse, com algumas de suas primeiras canções.

Influências musicais
“Amo Duke Ellington, Jacques Brel, James Taylor, Carole King”, diz ela, listando alguns de seus compositores favoritos, entre os quais não faltam brasileiros. “Também adoro Caetano Veloso, Jobim e Astrud Gilberto. Tenho ouvido muito ‘Domingo’, aquele álbum de Gal Costa e Caetano”, emenda, animada.

A quase bossa nova “If the Stars Were Mine”, faixa do segundo CD de Melody (“My One and Only Thrill”, recém-lançado no Brasil pela Universal), prova que ela não está fazendo média com o entrevistador. Outras influências saltam logo aos ouvidos nesse álbum: soul (“Who Will Confort Me”), jazz (“Your Heart Is as Black as Night”), chanson francesa (“Les Etoiles”).

Na produção, a presença de Larry Klein (baixista e compositor norte-americano que já emprestou sua experiência a álbuns de cantoras do primeiro time do pop e do jazz atual, como Joni Mitchell, Madeleine Peyroux e Luciana Souza) parece ter sido útil para que Melody encontrasse o tom certo nos arranjos e interpretações do álbum.

Depois dos elogios que o álbum tem recebido na mídia internacional, ao encarar a atual maratona de viagens e shows, hoje ela se preocupa mais com seu estado físico do que com a possível reação das platéias frente à sua música. “Entrar em um palco não é muito fácil pra mim, porque ainda tenho que ser bastante cuidadosa em relação a certos aspectos de minha saúde, mas vale a pena. Sinto uma grande alegria quando tenho a oportunidade de mostrar minhas canções para as pessoas”, diz.

E já que cinco anos atrás ela nem imaginava que viria a tornar uma cantora e compositora de relativo sucesso, será que ela consegue se ver daqui a outros cinco anos como artista? "Mais velha”, ela responde, quase rindo. “Não faço muitos planos, realmente não sei como estarei. Prefiro esperar para ver o que a vida ainda me reserva”.

(entrevista publicada parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 15/07/2009)





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