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Allen Toussaint: atração do Bourbon Street Fest, compositor faz primeiros shows no país

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Durante cinco décadas ele atuou nos bastidores, compondo canções, escrevendo arranjos e produzindo discos. Por isso, é bem provável que você ainda não tenha ouvido falar em Allen Toussaint, mas pergunte sobre ele a figurões da música pop, como Elvis Costello, Paul Simon ou Paul McCartney, com os quais ele já trabalhou. Todos admiram esse cultuado pianista e compositor de Nova Orleans.

Pela primeira vez no Brasil, Toussaint, 76, será a principal atração da abertura do 12º Bourbon Street Fest, hoje, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Também vai se apresentar no teatro Oi Casa Grande (dia 18, no Rio) e no Bourbon Street Music Club (dia 19, em São Paulo).

“Quando morei em Nova York, ouvi músicos brasileiros e todos eram ótimos”, diz o pianista norte-americano, em entrevista exclusiva ao Música de Alma Negra. “Essa é uma das razões que me deixam ansioso por conhecer esse país. Acho que o Brasil costuma inspirar boa música”.

Toussaint deixou Nova Orleans, em 2005, quando sua cidade foi devastada pelo furacão Katrina. Ironicamente, a tragédia resultou em uma inusitada reviravolta em sua carreira. Em Nova York, passou a fazer shows de piano solo, no clube Joe’s Pub, onde tomou gosto pelo palco. Desde então suas aparições em festivais de jazz ou na TV só têm aumentado.

“Eu sequer imaginei que um dia estaria sozinho num palco, porque sempre me senti confortável nos estúdios de gravação. Só posso dizer que essa nova situação tem sido gratificante e fico feliz por isso”, comenta o produtor, que já trabalhou com músicos de alto quilate, como Eric Clapton, John Mayall, Etta James, Dr. John, Irma Thomas, Aaron Neville e as bandas The Meters e The Band.

O álbum mais recente de Toussaint, “Songbook” (selo Rouder, 2013) tem um tom autobiográfico. Gravado ao vivo, no Joe’s Pub, reúne não só algumas de suas canções mais populares, como “Southern Nights”, “It’s Raining” e “Soul Sister”, mas também revela a diversidade de sua obra, que abrange diversos gêneros, como o rhythm & blues, o soul, o funk e o jazz.

“Acho que esse álbum reflete a variedade musical que sempre marcou a minha vida. É encantador ter a oportunidade de tocar para plateias que me dão licença para exibi-la e sabem apreciar todos esses gêneros musicais”, comenta o compositor.

A modéstia de Toussaint também se manifesta quando a conversa traz à tona o nome de seu mentor musical: o influente pianista e compositor Professor Longhair (1918-1980), pioneiro do rhythm & blues de Nova Orleans.

“Sou um discípulo do Professor Longhair. No que concerne à música de Nova Orleans, ele é uma espécie de rei. Fico feliz quando dizem que fui influenciado por ele, porque através de mim Professor Longhair continua vivo. Eu, Dr. John e Huey Smith, assim como outros discípulos do Professor em Nova Orleans, vamos continuar honrando sua memória”, afirma.

Quase dez anos após toda a destruição e as mortes desencadeadas pelo furacão Katrina, Toussaint se diz bastante otimista em relação ao cenário musical de sua cidade.

“A música produzida hoje em Nova Orleans vive uma fase muito melhor do que em outras épocas. Mexe com o meu coração pensar em quantas pessoas, não só nos EUA, mas em todo o mundo, tentaram ajudar a cidade porque ficaram consternadas. Como seres humanos, saímos rejuvenescidos daquela tragédia. O Katrina foi um batismo e uma benção para nós”, conclui o compositor.

Lincoln Olivetti: arranjador de sucessos da MPB volta com músicos da nova geração

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                                                          Lincoln Olivetti, com Donatinho (ao fundo), no 4º CopaFest

Muitos não o reconhecem, mas na certa já ouviram seus arranjos para trilhas sonoras de novelas de grande sucesso na TV, como “Baila Comigo” (1981) e “Dancin’ Days” (1978), ou para gravações de astros de diversas vertentes da música brasileira. Hoje Lincoln Olivetti traz no rosto as marcas dos altos e baixos da fama. A barba e os cabelos totalmente brancos soam incompatíveis com seus 57 anos de idade.

A imagem de excêntrico e recluso, que já vem da década de 1980, não é gratuita. Seu estúdio de gravação, na casa onde vive, no alto de um morro na estrada do Joá, no Rio de Janeiro, é sombrio como uma caverna. Olivetti falou à Folha, na noite da última quinta-feira, minutos depois de acordar, porque costuma trabalhar só depois que o sol se põe. “Gosto de ficar em casa, trabalhando, produzindo. Nunca dei valor a festas ou eventos, não sinto falta alguma disso”, afirma.

Acusado de ter “pasteurizado” a MPB com arranjos que criou durante a década de 1980, para sucessos de Gal Costa, Tim Maia, Jorge Ben, Emilio Santiago, Maria Bethânia, Marina Lima e Rita Lee, entre muitos outros intérpretes, Olivetti diz que não tinha tempo para se preocupar com essas críticas. “O fato de eu não dar entrevistas, como se esnobasse a imprensa, criou essa antipatia, mas eu não ligava para isso. Na verdade, liguei o foda-se. Tinha trabalho demais para fazer”. 

Não ter o hábito de ler jornais, segundo ele, também contribuiu para que as críticas não o incomodassem tanto. “No começo, até gostei. Achei que aquelas críticas funcionaram de maneira positiva, porque passaram a falar mais de mim. Não esquento com o passado”, diz o tecladista e compositor fluminense, nascido em Nilópolis, que acaba de retornar aos palcos, acompanhado por músicos da nova geração, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista e produtor Kassin. Seu show foi uma das atrações da quarta edição do CopaFest, onde reviveu os bailes de subúrbio que começou a fazer ainda na adolescência.  (veja os videos abaixo)

Hoje, afinal, ele se defende. “Me acusaram de pasteurizar a música brasileira, mas eu fazia exatamente o contrário disso. Para mim, cada arranjo tem que ser diferente do outro. Quando o (produtor Marco) Mazzola me pediu um arranjo para a Elba Ramalho, na mesma linha de ‘Festa no Interior’ (grande sucesso de Gal Costa, em 1981), fiz o arranjo de ‘Banho de Cheiro’, que é totalmente diferente. Sempre busquei derrubar as expectativas dos produtores, mas são eles que dão a forma final a uma gravação”.

Olivetti rebate também a repetida versão de que, nos anos 1990, após o bombardeio crítico que sofreu durante a década anterior, teria sido praticamente alijado da indústria do disco, até retornar à cena por meio de colaborações para discos de Ed Motta e Lulu Santos. “Esse papo de ostracismo não existe. Nunca deixei de trabalhar. Mesmo quando as gravadoras diminuíram suas produções, continuei fazendo muitos trabalhos independentes”, afirma.

                                                                         Lincoln Olivetti, em seu estúdio, no Rio

Ao pedido de que enumere um “top 5” de seus trabalhos favoritos, ele chega a mencionar os arranjos que escreveu para o álbum “Realce” (1979), de Gilberto Gil, e “Fantasia” (1981), de Gal Costa, assim como a canção “Amor Perfeito” (da qual é co-autor com Michael Sullivan, Paulo Massadas e Robson Jorge), gravada por Roberto Carlos, mas desiste de completar a lista. “É difícil escolher um top five, porque o prazer que eu tenho ao ver o resultado final de um arranjo é quase sempre igual. Para mim, um arranjo é tão importante quanto o outro”, justifica.

Pela mesma razão, Olivetti diz também que jamais recusa uma encomenda de arranjo, mesmo que não se identifique com o estilo musical do intérprete. “Se você é profissional tem que saber fazer qualquer música soar bem. Para mim, ao fazer um arranjo, um artista que está começando hoje é tão importante quanto o Roberto Carlos. Nessa hora, não tem ídolo. E quanto menos pronta a música chega pra mim, maior é o desafio de conseguir que ela soe bem”.

Esse não foi o caso do arranjo de “Festa no Interior”, um de seus trabalhos mais populares entre o grande público, na década de 1980. “O Moraes (Moreira) já me entregou essa música com aquela frase, bem mastigada, que usei logo no início do arranjo. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que aquela frase é dele”, reconhece Olivetti, revelando humildade ao creditar ao compositor parte da eficácia de seu inventivo arranjo, que remete ao fraseado das bandinhas interioranas de coreto.

Trinta anos após ter lançado seu cultuado álbum com o guitarrista Robson Jorge (1954-1993), que reuniu hits televisivos da dupla, como “Prêt-à-Porter”, “Squash” e “Eva”, Olivetti ainda demonstra emoção ao falar sobre o ex-parceiro. “O Robson abriu minha cabeça para muitas coisas, e eu abri a dele. Nossa sintonia era total. No início, ele não lia música, mas acabou até escrevendo. Era muito bom trabalhar com ele”.

Admite que já pensou na possibilidade de reunir sua dispersa obra musical numa caixa de CDs ou algo semelhante, mas acabou desistindo de utilizar esse formato, num projeto pessoal que pretende lançar em breve. “Posso até incluir novos arranjos para algumas músicas que deram certo, mas quero mostrar composições inéditas, principalmente. Eu penso mais no futuro”, diz, indeciso quanto à mídia que usará. “Não sei ainda. Talvez eu só lance essas faixas pela internet”.

Sobre sua produção mais recente, Olivetti menciona o arranjo que fez para a cantora Ana Carolina (“Problemas”), veiculada na trilha sonora da novela “Fina Estampa”, ou as vinhetas musicais que criou para a entrega do Prêmio Multishow. “Tenho feito arranjos para vários artistas, mas ainda é cedo para falar sobre esses trabalhos”, esquiva-se. Já o orgulho por trabalhar há alguns anos com Alê Siqueira e Kassin, talentosos produtores da nova geração, ele não esconde. “Eu me sinto muito bem ao lado deles, porque eles são futuristas como eu”.
(entrevista parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/11)






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