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Música instrumental brasileira: série 'Sons de um País Continental' estreia na Cultura FM

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                                       A instrumentista Carol Panesi, que abre a série na Cultura FM  

Reconhecido como um país onde se cultiva uma das mais originais e ricas tradições musicais do mundo, o Brasil já viveu fases mais inspiradas e criativas nessa área. Hoje não faltam exceções promissoras, mas é evidente que a produção musical mais recente, especialmente no caso das canções, soa inferior em termos melódicos e poéticos às de gerações anteriores.

A sensação é diferente quando nos depararmos com o universo da música instrumental. Seguindo o exemplo de grandes mestres desse gênero, como Pixinguinha, Moacir Santos, Hermeto Pascoal ou Egberto Gismonti, novas gerações de instrumentistas têm despontado pelo país, apoiando-se no improviso e na criatividade para buscar seus próprios caminhos sonoros musicais.

Os oito programas da série “Sons de um País Continental”, que estreia dia 4 de maio, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo, vão traçar um panorama recente da música instrumental em nosso país. Para demonstrar que esse gênero musical está em constante evolução, o elenco do programa de abertura destaca talentosos instrumentistas e compositores de diversos estados do Brasil, em média, na faixa dos 20 ou 30 anos.   

Esse é o caso da brilhante violinista, pianista e compositora carioca Carol Panesi, que abre a série com sua composição “Forró do Marajó”, tendo a seu lado o mestre Hermeto Pascoal, uma de suas grandes influências. Mais jovem ainda é o explosivo baixista cearense Michael Pipoquinha, que recria um emotivo baião do grande sanfoneiro Dominguinhos, em parceria com o guitarrista brasiliense Pedro Martins, outro destaque dessa nova geração.

O elenco do primeiro programa destaca ainda outras elogiadas revelações do som instrumental brasileiro: a pianista paulistana Louise Wooley, o pianista e cantor carioca Jonathan Ferr, a baixista paulistana Ana Karina Sebastião, o trombonista capixaba Joabe Reis, o trio paulistano Caixa Cubo e os pianistas paulistas Henrique Mota e Gustavo Bugni. Detalhe importante: todos esses músicos também são compositores.

Os programas seguintes vão proporcionar aos ouvintes uma viagem pelas principais capitais e regiões do país, exibindo instrumentistas de diversas gerações. À cada semana será possível constatar que, assim como a língua portuguesa é falada com um sotaque particular nas diferentes regiões brasileiras, nossa música instrumental também assume sotaques locais pelo país adentro.

Este é o roteiro da viagem musical que vamos realizar em seis programas: Rio de Janeiro (11/5); Minas Gerais (18/5); São Paulo (25/5); Região Nordeste (1.º/6); Região Sul (8/6); Região Norte e Centro-Oeste (15/6). Do choro e do samba-jazz do Rio de Janeiro ao carimbó e ao beiradão do Amazonas, passando pela milonga rio-grandense, pela música caipira criada em Brasília e pelo baião nordestino, essa viagem sonora revela aspectos da diversidade musical brasileira.

A série “Sons de Um País Continental” termina em 22/6 com uma homenagem a alguns dos mestres de várias gerações da música instrumental brasileira, como Tom Jobim, Pixinguinha, Paulo Moura, Baden Powell, Moacir Santos, Egberto Gismonti, César Camargo Mariano, Nelson Ayres & Roberto Sion, Benjamim Taubkin & Ivan Vilela, Arismar do Espírito Santo, Guinga e os grupos Quarteto Novo e
Duofel.  

SONS DE UM PAÍS CONTINENTAL - Série de oito programas, que vai ao ar a partir de 4 de maio, aos domingos, às 19h, na Cultura FM (103,3) de São Paulo. Direção de Inez Medaglia. Roteiros e apresentação de Carlos Calado. Ouça os programas dessa série, que já foram ao ar, utilizando este link:

https://cultura.uol.com.br/radio/programas/sons-de-um-pais-continental/

Rui Carvalho: diretor do Festival Amazonas Jazz trocou Europa pelo Brasil

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                                       Rui Carvalho rege a Amazonas Band / Foto de Bruno Zanardo / Divulgação 

Quando desembarcou em São Paulo, em 1978, o jovem músico português Rui Carvalho não imaginava que viveria neste país por mais de quatro décadas. Muito menos que se tornaria regente e arranjador da Amazonas Band, a conceituada big band de Manaus (AM), onde também dirige o Festival Amazonas Jazz, um dos principais eventos desse gênero no Brasil.

“A vida é como ela é, não o que a gente imagina”, reflete hoje o maestro, aos 65 anos. Nascido em Lisboa, ele se interessou pelos improvisos do jazz ainda na adolescência. Ficava acordado até a meia-noite para poder ouvir o programa diário “Cinco Minutos de Jazz”, que o radialista José Duarte, pioneiro divulgador dessa vertente musical em Portugal, produz e apresenta desde 1966.

Carvalho também se lembra de como ficou impressionado ao ver e ouvir Miles Davis, na TV portuguesa, no início dos anos 1970. O trompetista americano provocou os fãs e críticos mais conservadores, na época, por ter eletrificado seu jazz. "Miles chamou minha atenção não apenas pela música, mas também pelo layout de seu grupo. Tinha muito a ver com a minha geração, com o rock 'n' blues, com a soul music, com a contracultura do final dos anos 1960".

Antes de se radicar no Brasil, Carvalho também morou na Suécia – solução que encontrou para fugir do serviço militar obrigatório, na época em que Portugal travava uma guerra contra suas antigas colônias na África. “A Suécia era um dos poucos países na Europa que concediam asilo por razões humanitárias”, explica. Se ficasse em Portugal, teria duas opções: ser soldado em uma guerra absurda ou ir para a prisão.

Na pequena cidade sueca de Lund, ele dividia o aluguel com músicos de uma banda de rock. “Era tudo o que eu queria: morava com um bando de americanos desertores da Guerra do Vietnã e tinha aulas de bateria com um deles. A bateria já ficava montada na sala da casa”, relembra, rindo. Além de iniciar seus estudos musicais, também aproveitou os seis anos na Suécia para se formar em Antropologia.

A vontade de voltar a falar português, no dia a dia, pesou na decisão de deixar a Europa. "O Brasil sempre exerceu um certo fascínio sobre mim. Eu já tinha interesse pela música brasileira, mas depois de ouvir 'Dança das Cabeças', o disco de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, minha vontade de conhecer mais a música e a cultura brasileira aumentou”.

Já vivendo em São Paulo, no início dos anos 1980, Carvalho assumiu a bateria da Salada Mista, orquestra da Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Ali se tornou discípulo de Antonio Duran, maestro e arranjador argentino bastante respeitado nos círculos musicais, que o incentivou a se aprofundar em regência e arranjos para big bands. “Aprendi muito com ele”, reconhece.

Disciplinado e persistente, Carvalho lecionou bateria, percussão sinfônica e prática de big band durante 14 anos, no Conservatório de Tatuí (SP). Nessa fase também regeu e escreveu arranjos para a big band Prata da Casa, trabalho que repercutiu nos meios da música instrumental brasileira. Deixou São Paulo em 2001, ao aceitar o desafio de assumir a regência da Amazonas Band.

“A princípio eu deveria ter ficado 18 meses em Manaus, mas lá vão mais de 18 anos”, comenta o maestro, consciente do legado musical que tem construído à frente da big band. Além de fazer concertos regulares, já lançou dois discos com a Amazonas Band, em parcerias com craques da música instrumental: num deles, o saxofonista Vinícius Dorin; no outro, o pianista Gilson Peranzzetta e o flautista Mauro Senise. Também já dividiu palcos com grandes músicos do jazz, como David Liebman, Bob Mintzer, Cláudio Roditi e Jeremy Pelt.

"Uma big band sustentada pelo Estado, que faz sucesso, é coisa rara”, comenta o maestro. “A Amazonas Band resultou muito bem porque não tem apenas um viés de palco – ela também tem um viés educacional. Todos os músicos da banda são muito ativos e contribuíram bastante para desenvolver a educação, no campo da música popular, aqui em Manaus".

Carvalho não esconde sua animação pela retomada do Festival Amazonas Jazz, evento que criou e comandou desde a edição de estreia, em 2006. Suspenso há cinco anos, esse festival vai realizar sua 10ª edição, em Manaus [Obs: evento adiado por causa da pandemia de coronavírus; novas datas serão anunciadas]. A programação segue o formato de anos anteriores, que combina concertos noturnos com uma extensa série de workshops, oficinas e palestras.

Os trompetistas Randy Brecker e Keyon Harrold, os pianistas Aaron Parks e Edsel Gomez, o baterista Jeff “Tain” Watts, o trombonista John Fedchock e o saxofonista Frode Gjerstad são destaques entre os concertos agendados para o imponente Teatro Amazonas. Também de primeira linha, o elenco brasileiro inclui o Trio Corrente, o Amilton Godoy Trio, Marcelo Coelho & McLav.in, o Daniel D’Alcântara Quinteto, Leila Pinheiro e Amazonas Band, entre outros.

“Eu não imaginava que viveria por tanto tempo em Manaus. Também nunca imaginei que fosse dirigir big bands, mas acabei me apaixonando por elas. Parece quase um sonho”, comenta o maestro, que vai reger a Amazonas Band nas noites de abertura e de encerramento do festival. 


(Texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana do jornal "Valor Econômico", em 13/3/2020)

Sesc Jazz: Gismonti encanta plateia paulista e anuncia álbum com clássicos da MPB

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                                                                 O pianista e compositor Egberto Gismonti

Ontem, ao assistir ao emocionante show de Egberto Gismonti (no festival Sesc Jazz, em São Paulo), fiquei pensando como tive sorte. Pertenço a uma geração que cresceu e amadureceu acompanhando de perto os discos e os shows de Gismonti, Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Naná Vasconcelos, Victor Assis Brasil, Cesar Camargo Mariano, Pau Brasil, Cama de Gato e Duofel, entre tantos outros – para ficar apenas no campo de nossa preciosa música instrumental, que tantas belezas produziu desde os anos 1960.

Ao lado do filho Alexandre, talentoso violonista, Gismonti ofereceu à plateia do Sesc Pompeia, praticamente, uma síntese de sua obra musical. Alternando o violão e o piano, como gosta de fazer, sugeriu novas relações entre algumas de suas composições mais conhecidas, misturando-as em inventivas fusões. Também surpreendeu a plateia com belíssimas releituras de “Carinhoso” (talvez a mais emotiva e original versão do choro-canção de Pixinguinha que já ouvi até hoje) e “Retrato em Branco e Preto” (de Tom Jobim e Chico Buarque).

Não bastassem esses dois presentes musicais, Gismonti também revelou durante o show que já está gravando há algum tempo, na Europa, um álbum com releituras de clássicos da música popular brasileira que aprecia. Segundo ele, a sugestão partiu de Manfred Eicher, o produtor do selo alemão ECM, para o qual Gismonti tem gravado desde “Dança das Cabeças”, o cultuado disco que fez em duo com Naná Vasconcelos, em 1976.

Já ao final da noite, ao retornar ao palco, atendeu dois pedidos de bis entre os muitos que partiram da plateia. Primeiro, tocou a lírica “Palhaço”, uma de suas composições mais populares. Depois, uma versão instrumental de “Água e Vinho”, canção cheia de melancolia do seu álbum homônimo de 1972, que encantou muita gente de minha geração. Num país mais sério do que este, um músico do quilate de Gismonti seria homenageado diariamente.



Sesc Jazz: festival traz a Sun Ra Arkestra e o Art Ensemble of Chicago a São Paulo

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O show de abertura, com o jazz vanguardista e a irreverência da lendária Sun Ra Arkestra (na foto acima), já é capaz de deixar fãs desse gênero musical com água na boca. Este será o saboroso aperitivo do 2.º Sesc Jazz, festival que vai oferecer, de 8 a 27 de outubro, um total de 26 atrações de 12 países. Os shows vão circular pelos palcos de nove unidades do Sesc, na capital, no litoral e no interior paulista.

Evento que resultou, no ano passado, da união dos festivais Jazz na Fábrica (realizado por sete anos nos três palcos do Sesc Pompeia) e Sesc Jazz & Blues (que circulou durante seis anos por várias unidades do Sesc no interior paulista), o Sesc Jazz conserva em sua curadoria a essência da diversidade musical e a alta qualidade das atrações dos festivais que o precederam.

Entre as atrações internacionais desta edição destacam-se: o cultuado grupo Art Ensemble of Chicago, outra instituição do jazz de vanguarda, que se mantém ativo há cinco décadas; os ritmos afro-cubanos e o jazz latino do trompetista Arturo Sandoval e da baterista-revelação Yissy Garcia e sua Bandancha (na foto abaixo); o jazz contemporâneo do veterano saxofonista Gary Bartz e o novo projeto da baterista e ativista Terri Lyne Carrington e seu sexteto Social Science Community.   


Outras atrações que devem estar entre as mais disputadas: o jazz influenciado pelo flamenco do quarteto do pianista Chano Dominguez com a flautista Maria Toro (ambos espanhóis); o diálogo do jazz com o rock comandado pelo trompetista israelense Avishai Cohen e seu quarteto Big Vicious; os grooves eletrônicos do tecladista britânico Kamaal Williams; o encontro do free jazz com a música klezmer nos improvisos do saxofonista norte-americano John Zorn e seu New Masada Quartet.

O elenco nacional também é de primeira linha: os duos de violão e piano de Alexandre e Egberto Gismonti; o jazz orquestral da Nelson Ayres Big Band; a música instrumental brasileira do quarteto Duo + Dois (com os violonistas do Duofel, o flautista Carlos Malta e o baterista Robertinho Silva); o quarteto do gaitista Maurício Einhorn; o quinteto do baterista Edu Ribeiro (com o trompetista Daniel D’Alcântara, o acordeonista Guilherme Ribeiro, o baixista Bruno Migotto e o guitarrista Fernando Corrêa); a pianista e compositora Luísa Mitre, entre outras atrações.

A programação inclui 17 atividades formativas, como workshops, encontros musicais e palestras, que também serão realizadas nas unidades Consolação e Vila Mariana, assim como no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. Como já havia feito no Sesc Jazz & Blues 2014, vou ter o prazer de ministrar a palestra “Como Ouvir Jazz Sem Medo”, nas unidades Guarulhos (dia 9/10), Jundiaí (12/10), Araraquara (19/10) e Sorocaba (23/10), com entrada franca.

Os ingressos para os shows começam a ser vendidos a partir das 19h do 1.º de outubro (terça-feira), no portal do Sesc SP. A compra de ingressos também pode ser feita nas bilheterias das unidades do Sesc a partir das 17h30 do dia 2/10 (quarta). A venda é limitada a 4 ingressos por pessoa. Os preços dos ingressos variam entre R$ 15 e R$ 60.


Mais informações no site do festival: sescjazz.sescsp.org.br/
















Egberto Gismonti: compositor e instrumentista encantou a platéia do Bourbon Street

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Ver e ouvir um músico de altíssimo quilate a poucos metros de distância já seria por si só um privilégio, mas a apresentação de Egberto Gismonti, ontem, no clube paulistano Bourbon Street, superou qualquer expectativa.

Numa noite especialmente iluminada, o compositor e multi-instrumentista revisitou diversas joias de seu repertório, como “Caravela”, “Raga” e “Dança das Cabeças” –- esta introduzida por uma carinhosa menção ao saudoso percussionista Naná Vasconcelos (1944-2016), com o qual gravou um de seus discos mais cultuados.


Gismonti também divertiu a plateia do Bourbon Street, contando saborosos “causos” extraídos de suas andanças pelo mundo, que envolvem outros grandes músicos e/ou parceiros musicais, como o mestre da bossa nova Tom Jobim, o violonista Baden Powell, o contrabaixista Charlie Haden e o saxofonista Jan Garbarek.


E não bastassem tantas delícias numa única apresentação, o pianista ainda surpreendeu os fãs com uma personalíssima releitura do choro “Carinhoso”, de Pixinguinha. Que noite!





João Marcos Coelho: crítico analisa e incentiva a 'música de invenção' em novo livro

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O jornalista João Marcos Coelho (foto acima), grande referência no campo da crítica musical em nosso país, apresenta em seu novo livro uma proposta que muitos apreciadores da música contemporânea certamente aplaudiriam. Maestros, orquestras e intérpretes preguiçosos, que insistem em repetir nas salas de concerto os mesmos clichês do repertório clássico, como “As Quatro Estações” de Vivaldi, a “Nona Sinfonia” de Beethoven ou “Quadros de Uma Exposição” de Mussorgsky, deveriam ser taxados com um imposto que seria revertido à realização de projetos de música contemporânea. 

“Sei que extrapolo ao propor um novo imposto”, escreve Coelho, que não abre mão da ironia e do humor fino nos reveladores textos reunidos no livro “Pensando as Músicas no Século XXI” (lançamento da Editora Perspectiva). “Sei também que só me cabe, como crítico jornalístico, a tarefa de desmontar no dia a dia a narcótica engrenagem da vida musical convencional, cuja matriz magna são as instituições maiores, as orquestras sinfônicas, que embalam o público como se fosse composto de crianças sempre a fim de ouvir um milhão de vezes a mesma obra”. 

De cara, em seu texto de apresentação do livro, Coelho sintetiza em que consiste a “duríssima” vida de um crítico musical. “Ele tem de atuar simultaneamente em duas frentes: como catalisador, deve examinar e descartar o lixo sonoro que nos cerca, filtrando e incentivando a música de qualidade; e, como provocador, tem de surpreender os padrões do gosto, tirar os leitores da zona de conforto, levá-los a experimentar, descobrir o novo”. Para os estudantes de jornalismo, ou mesmo colegas de profissão mais jovens que ainda se perguntam qual é exatamente a função de um crítico musical, aí está uma definição prática e precisa. 

Publicados a partir de 2009 originalmente nos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Valor Econômico”, ou nas revistas “Bravo” e Concerto”, os 101 ensaios, resenhas e críticas de discos e concertos reunidos no livro de Coelho não abrangem apenas o universo da música clássica ou contemporânea -- de Brahms e Wagner a Stravinski e Boulez. Abordam também o jazz de Thelonious Monk, John Coltrane, Keith Jarrett e Quincy Jones, assim como abrem espaço para artistas que flertaram com esse gênero musical, como o ator, bailarino e cantor Fred Astaire ou o arranjador e compositor de trilhas sonoras Henry Mancini. 

Praticante da bem-humorada distinção do pianista e compositor Duke Ellington (“Existem dois tipos de música: a boa música e a de outro tipo”), Coelho vai buscar, sem preconceitos, a música que merece ser ouvida e analisada nos mais diversos gêneros --  sejam as canções pungentes do “cantautor” cubano Bola de Nieve (1911-1971), a música instrumental brasileira de Egberto Gismonti ou os blues do cantor e pianista norte-americano Mose Allison (1927-2016). 

Em outras palavras, o que interessa a João Marcos Coelho é a música feita com criatividade, a “música de invenção”, que nada tem a ver, de modo geral, com a música descartável, fabricada para alimentar as paradas de sucesso ou a programação das rádios comerciais. Um exemplo a ser seguido também por aqueles que ainda insistem na preconceituosa e arcaica polêmica das fronteiras entre a música erudita e a popular.


Festival Etapa de Música de Arte: 10ª edição leva Gismonti e João Bosco a Valinhos (SP)

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                              A Nelson Ayres Big Band, que vai abrir o 10º Festival Etapa de Música de Arte 

Se você é um apreciador de música brasileira de alta qualidade, seja ela instrumental ou vocal, não deixe de conferir a programação do Festival Etapa de Música de Arte, que vai realizar sua 10ª edição, de 19 a 28 de agosto, na cidade de Valinhos, no interior paulista.

Astros da chamada MPB, como o violonista e cantor João Bosco (na foto abaixo), o compositor e bossa-novista Carlos Lyra ou a cantora Paula Morelenbaum com o trio do violoncelista Jaques Morelenbaum, estarão no elenco desse evento, que também destaca expoentes da música instrumental e do jazz brasileiro, como o multi-instrumentista Egberto Gismonti, a Nelson Ayres Big Band e o especial encontro dos violonistas do Duofel com o saxofonista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva.

Responsável pela direção e produção desse festival desde a primeira edição, em 2007, o engenheiro Luiz Amaro conta que o projeto surgiu a partir da constatação que a região metropolitana de Campinas –- onde fica a unidade Valinhos do Colégio Etapa –- não contava com eventos musicais de qualidade em sua programação cultural.

“Como o campus do Etapa possui um teatro pensado e construído como todo esmero técnico e infraestrutura, o caminho lógico para uma escola que se preocupa muito com a cultura foi a criação de um evento para ajudar a suprir essa lacuna”, explica o diretor do festival.  

Nessa populosa região paulista, onde um polo de tecnologia convive com universidades, há um público de alto nível cultural e econômico que tem acompanhado assiduamente esse evento. “A resposta da plateia ao longo desses anos tem sido muito estimulante. Nos concertos, vejo um grande número de pessoas que frequentam o festival desde seu início e raramente perdem uma apresentação”, comenta Amaro.

Para quem estranha o termo “música de arte” que denomina o evento, em meio a tantos festivais de jazz, blues ou rock produzidos atualmente nos mais diversos cantos do país, o diretor do Festival Etapa justifica a originalidade de sua marca.

“A proposta, desde o início, foi trazer para a região o que há de melhor na música, especialmente a brasileira, seja ela popular, erudita, instrumental ou vocal. Embora o termo jazz abarque uma gama bastante ampla de manifestações musicais, achamos que ainda assim seria restrito. Música de Arte nos pareceu traduzir a música criativa, de qualidade, feita sem objetivos mercadológicos", explica Amaro.

Se, já na primeira edição, o evento levou a Valinhos o violonista Hélio Delmiro, o saxofonista Roberto Sion ou o grupo Moderna Tradição (com o pianista Benjamim Taubkin e o clarinetista Nailor Proveta), nos anos seguintes o evento manteve seu alto nível musical. Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Zimbo Trio, Pau Brasil, Yamandú Costa, Eumir Deodato, Romero Lubambo, João Donato, Hamilton de Holanda e a Banda Mantiqueira já se apresentaram no Festival Etapa de Música de Arte, entre tantas outras atrações de peso.

Neste ano, a renda obtida com a venda dos ingressos para o festival –- a R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira) –- será revertida para a Orquestra Filarmônica de Valinhos, que vai realizar concertos gratuitos para a população da cidade.

Venda de ingressos e mais informações no site do Festival Etapa de Música de Arte

Naná Vasconcelos (1944-2016): percussionista era capaz até de fazer chover no palco

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Os felizardos que viram o show “O Bater do Coração” dificilmente vão se esquecer. Foi em janeiro de 1992, num dos eventuais retornos ao país do percussionista Naná Vasconcelos, que morava nos Estados Unidos desde os anos 1970. Como um regente informal, ele transformava a plateia em uma orquestra de percussão corporal, dando a todos a nítida sensação de ouvir sons de chuva ou de estar em um barco no meio da selva. Fazia isso utilizando estalos de dedos, palmas e as vozes dos espectadores.

Impossível esquecer também a evidente emoção desse músico pernambucano, nesse mesmo show, ao entoar sua canção “Tu Nem Quer Saber”. Nos versos melancólicos (“Já que tu não quer saber de mim / Canto essa dor / É que tu não quer saber de ti / Falo deste amor”), ele aludia à mágoa que ainda sentia por ser ignorado pelas gravadoras brasileiras, que raramente lançavam seus discos no país.

Detalhe essencial para se avaliar essa injustiça absurda: no início dos anos 1990, Naná já era um músico consagrado na cena internacional, com mais de uma dúzia de álbuns lançados nos Estados Unidos e na Europa. A conceituada revista norte-americana “Down Beat”, por exemplo, já o tinha eleito melhor percussionista do mundo por cinco anos.

“Será que o brasileiro vai querer ouvir aboios, cocos e esse tipo de material da música popular que eu misturo com as minhas coisas?”, perguntou ele a este repórter, dias antes do show em São Paulo, demonstrando insegurança. Naná até tinha motivo para isso: também esnobados durante a década de 1980, os ritmos brasileiros haviam perdido sua hegemonia para o rock, no mercado nacional.

Sem limites

Músico do mundo, ele demonstrou em seus discos e parcerias, especialmente ao longo dos anos 1970, 1980 e 1990, que sua música não tinha limites geográficos, étnicos, muito menos de gêneros ou estilos. Viajou por vários continentes, tocando música instrumental, jazz, rock, música indiana, ritmos africanos, até folclore escandinavo, sem jamais deixar de lado suas profundas ligações com a música brasileira.

Não foram poucos os críticos e compositores que se surpreenderam com o talento de Naná. Usando apenas o berimbau e alguns instrumentos de percussão, além da voz e de seu corpo (eventualmente, chegou a usar fitas gravadas, como no álbum "Amazonas", de 1973), era capaz de criar peças inventivas e sofisticadas, que o aproximavam da música de vanguarda, mesmo que não tivesse essa pretensão.

Provavelmente, seu disco mais cultuado é “Dança das Cabeças” (1977), registro de sua primeira parceria com Egberto Gismonti. Essa excitante suíte, composta por música escrita e improvisada, inclui releituras de peças de Gismonti e a inventiva versão de “Fé Cega, Faca Amolada” (de Milton Nascimento). Outro item festejado pelos fãs é sua fase com o grupo Codona, ao lado do trompetista Don Cherry e do citarista Collin Walcott, que rendeu três álbuns.

Já voltando a se reaproximar do Brasil, em 1995, Naná revelou que também tinha talento para a produção musical. Assumiu a direção artística do festival PercPan (dividida com Gilberto Gil, a partir do ano seguinte), contribuindo para trazer ao país diversos expoentes da percussão internacional.

Em 2002, decidido a proteger uma manifestação típica da cultura pernambucana ameaçada de desaparecimento, aceitou um novo desafio: como coordenador da abertura do carnaval da cidade de Recife, promovia encontros de dezenas de maracatus, que envolviam centenas de batuqueiros, orquestras e astros da MPB.

Por essas e outras, sem o talento e a música de Naná Vasconcelos, o Brasil vai ficar menos inventivo, menos brasileiro.


(Texto publicado na versão online da "Folha de S. Paulo", em 9/03/2016, por ocasião da morte de Naná Vasconcelos)

Festival de Jazz de São Paulo, 1980: Cultura FM põe na web gravações do lendário evento

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                                        Betty Carter, no 2º Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1980

A rádio Cultura FM (103.3) está prestando um precioso serviço de utilidade pública, em especial para os fãs do jazz e da música instrumental brasileira. A emissora paulista disponibilizou em seu site cinco compilações com áudios extraídos de shows do lendário Festival Internacional de Jazz de São Paulo, realizado em 1980. Esse material histórico inclui também álbuns de fotos dos artistas clicadas durante o evento.

Quem teve a sorte de estar na plateia do Palácio das Convenções do Anhembi, nas duas edições do evento realizadas em 1978 e 1980, sabia que jamais esqueceria daqueles festivais – até porque eventos desse gênero ainda eram novidade no Brasil. Também transmitido ao vivo para quase todo o país pela TV Cultura e afiliadas, esse festival permitiu que muitos brasileiros, especialmente jovens, abrissem os ouvidos para um gênero musical que ainda atingia apenas pequenos círculos de apreciadores. 

A parceria com o eclético Montreux Jazz Festival (realizado até hoje, anualmente, na Suíça) permitiu a vinda ao Brasil de um elenco de atrações de primeira linha, não só do jazz, mas também do blues, do R&B, do reggae, até do tango, como Dexter Gordon (na foto à esquerda), o grupo Mingus Dinasty, Betty Carter, Dizzy Gillespie, Chick Corea, Al Jarreau, George Duke, Larry Coryell & Philip Catherine, John McLaughlin, Ahmad Jamal, Stan Getz, Benny Carter, Taj Mahal, Etta James, Peter Tosh e Astor Piazzolla, entre outros. 

Marco na cena cultural paulistana, esse festival estimulou a formação de novas plateias, não só para o jazz e gêneros afins, mas também para a música instrumental brasileira, que vivia naquele momento uma fase de renovação e muita criatividade. Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Mauro Senise, Hélio Delmiro, Gilson Peranzzetta, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Paulo Moura, Maurício Einhorn, Márcio Montarroyos, Wagner Tiso, Nelson Ayres, Roberto Sion e os grupos Azimuth, D’Alma, Divina Increnca e Grupo Um estavam entre as atrações do evento. 

Parabéns a Vilmar Bittencourt, da equipe da Cultura FM, pela iniciativa de recuperar essas gravações. Aliás, tomara que a TV Cultura siga o exemplo e também disponibilize, em som e imagem, os registros daquelas noites inesquecíveis no Anhembi.

Este é o link para ouvir as gravações no site da Cultura FM:

http://culturafm.cmais.com.br/cultura-jazz/jazz-ao-vivo-na-rtc 






Marco Bosco: percussionista revê três décadas de música com essência brasileira

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De volta ao país após longa temporada no Japão, o percussionista e compositor Marco Bosco rebobina três décadas de carreira. Para a compilação “33 Works - 1980-2013” (selo Cendi Music), ele selecionou gravações do grupo instrumental Acarú, que o lançou, além de faixas de sete álbuns individuais gravados no Brasil e no Japão. Inclui ainda a inédita composição “33”, em parceria com o tecladista Paulo Calasans.

Como um documentário sonoro, esse CD duplo revela que preconceitos não têm vez na concepção do criativo percussionista. Da contagiante “Aqualouco” (em arranjo de Rogério Duprat) ao lirismo de “Akatombo” (com César Camargo Mariano, nos teclados), passando pelos baiões eletrificados do álbum “Techno Roots” (2001), com participações de Egberto Gismonti, Dominguinhos e Genival Lacerda, o paulista da interiorana Torrinha sintetiza uma obra diversificada e contemporânea, que não abre mão de sua essência brasileira. 
 
O elenco de participações especiais inclui ainda Flora Purim, Airto Moreira, Sebastião Tapajós, Marlui Miranda, Wilson Simoninha, Ruriá Duprat, Walmir Gil, Eiki Nonaka, Casey Rankin, Vicente Barreto, Tsuyoshi Yamamoto, Luhli & Lucina e Belchior, entre outros. O design do album é assinado por Marco Mancini, artista gráfico paulista radicado em Tóquio.

(Resenha publicada parcialmente no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/6/2014)

 

Tetê Espíndola: seu novo álbum e o cultuado "Pássaros na Garganta" em CD duplo

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Não é justo o ônus que a cantora Tetê Espíndola suporta por possuir uma voz privilegiada, além de ser uma intérprete e compositora diferente dos padrões convencionais da música popular brasileira. Em três décadas de carreira profissional, ela já gravou quase duas dezenas de discos originais e criativos, que combinam influências sertanejas mato-grossenses e da música do mundo com experimentações vanguardistas. 

Chegou a se tornar conhecida em todo o país, em 1985, ao vencer o Festival MPB Shell, como intérprete da canção “Escrito nas Estrelas” (de Arnaldo Black e Carlos Rennó). Porém, até hoje Tetê não desfruta todo o prestígio que uma artista de sua estirpe mereceria. E com o passar do tempo, ironicamente, ainda se tornou alvo de humoristas de segunda categoria, que volta e meia tentam imitar sua voz aguda de soprano em troca de risos amarelos.


Injustiças como essas só aumentam a relevância do projeto “Álbum”, CD duplo produzido pelo selo Sesc que destaca o novo disco da cantora, “Asas do Etéreo”, além da reedição do cultuado “Pássaros na Garganta” (1982). Os shows de lançamento – dias 19 e 20, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo – vão reunir convidados especiais: os multi-instrumentistas Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, o compositor Arrigo Barnabé, os violonistas do Duofel, o violoncelista Jaques Morelembaum e o trombonista Bocato, entre outros conceituados músicos que participaram das gravações do disco “Asas do Etéreo”. 

Inédito até hoje no formato CD, o álbum “Pássaros na Garganta” ainda é capaz de surpreender, ou mesmo intrigar, aqueles que só conhecem Tetê Espíndola como a cantora do sucesso “Escrito nas Estrelas”. Canções de temática interiorana, como “Cunhataiporã” (de Geraldo Espíndola), “Sertaneja” (Rennê Bitencourt) ou “Amor e Guavira” (Tetê e Carlos Rennó), são interpretadas por ela em tons agudíssimos que só vozes excepcionais conseguem alcançar. Por outro lado, também brilham nesse álbum inventivas composições de Arrigo Barnabé, como “Ibiporã”, na qual Tetê reproduz com humor os sons de “uma rã que salta e que ri”, ou a atonal “Jaguadarte”, cujos versos do poeta Augusto de Campos recriam um poema de Lewis Carroll, em contemporâneo arranjo do pianista Félix Wagner. 


Nada mais natural que, três décadas depois dessas gravações, a inquieta Tetê continue a explorar regiões e nuances de sua rara extensão vocal, no novo álbum. Em “Passarinhão” (parceria com Marta Catunda), ela soa como contralto, ao fazer rasantes voos vocais ao lado de Luiz Bueno e Fernando Melo, os inventivos violonistas do Duofel, que a acompanharam na década de 1980. 


Reencontros como esse ocupam boa parte do disco, que reúne material inédito composto por Tetê em diferentes épocas. Como “Amarelando”, canção pop que ela colore com as cordas de sua craviola, em duo descontraído com o trombone de Bocato, seu ex-colega na banda Sabor de Veneno, comandada por Arrigo Barnabé. Este, em participação mais discreta, contribui com seu expressivo vozeirão, criando ruídos vocais, na soturna “Diga Não”. Já a canção “Asas do Etéreo”, uma das mais belas do álbum, conta com os sons inspiradores das flautas de bambu de Teco Cardoso. 

Também há duos com outros instrumentistas que Tetê, sempre acompanhada por sua craviola, convidou especialmente para esse projeto. A doce canção “Acácias” ganha contracantos inusitados graças ao piano de Egberto Gismonti. Beleza também não falta à gravação de “Menina” (parceria da cantora com Arnaldo Black), cuja gravação conta com o sensibilidade musical do violoncelista Jaques Morelenbaum. Já o arranjo do melancólico samba “Triste Acauã” (parceria com Breno Ruiz) assume ares de trilha sonora com a percussão corporal e o insólito berimbau de boca de Marcelo Pretto, do grupo Barbatuques.

A faixa final não poderia soar mais saborosa: em “Crisálida-Borboleta” (parceria de Tetê com o letrista Carlos Rennó), os engenhosos trocadilhos dos versos dialogam com os improvisos que Hermeto Pascoal desenha no teclado de sua escaleta. Quem deixar de lado os estereótipos e preconceitos, que contribuíram para eclipsar a obra musical de Tetê durante as últimas décadas, pode encontrar boas surpresas ao escutar este oportuno “Álbum”. 


(Texto publicado originalmente no jornal "Valor Econômico", em 13/3/2014) 

 

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