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Borandá: gravadora festeja 10 anos investindo em música de alta qualidade

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                                                         A cantora Sandra Fidalgo e o acordeonista Toninho Ferragutti

Os felizardos que lotaram ontem as mesas do Bona, em São Paulo, para ver o show comemorativo dos 10 anos da gravadora Borandá, já sabiam que a noite seria especial. Com oito craques da música instrumental e duas cantoras de alto quilate se revezando no pequeno palco, ninguém poderia esperar por menos.

Responsável pela produção e distribuição de dezenas de discos de música brasileira contemporânea, tanto instrumental como vocal, a Borandá manteve durante sua primeira década de vida um padrão de alta qualidade. Com seu catálogo recheado de ótimos discos, não deve ter sido fácil escolher o elenco de ontem.

Num show com mais de duas horas de duração, com tantas belezas musicais e demonstrações de virtuosismo instrumental, só vou destacar algumas surpresas. Como o clássico fado “Estranha Forma de Vida” (de Amália Rodrigues e Alfredo Duarte), interpretado com muita emoção pela cantora portuguesa Sandra Fidalgo e um inusitado toque de tango adicionado pelo acordeonista Toninho Ferragutti. Aliás, essa dupla acaba de lançar, pela Borandá, o CD “Paisagem Verde”. 


Intensa também foi a versão de “Corsário” (de João Bosco), que confirmou o conhecido talento da cantora Verônica Ferriani, muito bem acompanhada pelos violões de Marco Pereira (ambos na foto ao lado) e Swami Jr. Finalmente, encerrando o show, a suíte com quatro composições de Baden Powell, que o acordeonista Bebê Kramer e Marco Pereira tocaram juntos, foi simplesmente sensacional.

Parabéns a Gisella Gonçalves e Fernando Grecco, diretores da Borandá, assim como à sua talentosa equipe. Que essa pequena e corajosa gravadora continue apostando em música brasileira feita com coração e requinte instrumental. 


Gravação do show dos 10 anos da gravadora Borandá, no site da Boxcast TV

Paulo Bellinati & Marco Pereira: violonistas celebram afinidades no álbum 'Xodós'

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                                           Os violonistas Paulo Bellinati e  Marco Pereira / Fotos de Tarita de Souza 

Um encontro de músicos de alto quilate, como Paulo Bellinati e Marco Pereira, já seria por si só um evento especial, mas por trás do álbum “Xodós” (lançamento com o selo de qualidade da gravadora Borandá) há uma amizade de quase cinco décadas. Uma parceria musical marcada por afinidades, perfeccionismo técnico e profunda dedicação a esse instrumento tão essencial na linguagem da música brasileira.

Paulistanos, eles nasceram no mesmo mês de setembro, em 1950, com uma diferença de apenas três dias. Conheceram-se quando cursavam o Conservatório Dramático e Musical do Estado de São Paulo, onde frequentavam aulas de violão com o mesmo mestre: o uruguaio Isaías Sávio.

Também cultivaram praticamente as mesmas referências no violão. “Nosso grande ídolo foi Baden Powell (1937-2000). Naquela época quase não havia partituras de música popular, então o jeito era ralar muito ouvindo os LPs, para tirar de ouvido as músicas que queríamos tocar”, relembra Pereira.

Chegaram a se apresentar algumas vezes em duo, no início dos anos 1970, mas a parceria foi suspensa quando decidiram aprimorar os estudos na Europa. Depois de ingressar no Conservatório de Genebra, na Suíça, Bellinati não demorou a formar um grupo de música instrumental brasileira. Pereira se fixou em Paris, onde obteve o título de mestre em violão clássico e se tornou um conceituado concertista. De vez em quando, um deles convidava o outro para tocarem juntos.

De volta ao Brasil, já em 1981, os dois formaram o trio Pó de Mico, com o percussionista Zé Eduardo Nazário. Apresentaram-se algumas vezes, mas pouco depois Pereira decidiu deixar São Paulo para se tornar professor da Universidade de Brasília. Ali assumiu a recém-criada cadeira de Violão Superior, além de lecionar Harmonia Funcional. Paralelamente, seguiu com sua carreira de solista erudito, mas também gravou elogiados discos de música brasileira.

Já tocando também guitarra, viola caipira e cavaquinho, Bellinati uniu-se ao grupo instrumental Pau Brasil, com o qual se destacou como solista e compositor por cerca de uma década. O interesse pela música do violonista e compositor paulista Garoto (1915-1955) reativou sua ligação com o violão, levando-o a uma bem-sucedida carreira de concertista, especialmente em palcos dos Estados Unidos. Em 2002, voltou a fazer parte do grupo Pau Brasil, com o qual continua tocando até hoje.

“Sempre me surpreendi com o fato de termos continuado nossas carreiras em paralelo”, observa Pereira. “Alguns anos atrás tive a ideia de escrever um concerto para dois violões e orquestra. Passei oito meses feito doido, escrevendo. Estava finalizando o último movimento, quando li a notícia de que o Bellinati ia estrear um concerto para dois violões e orquestra. Era muita coincidência”, relembra o violonista, que sugeriu ao amigo, em meados de 2015, que retomassem a parceria.

A reestreia do duo se deu no Clube do Choro de Brasília (DF), algumas semanas depois. No programa dessa apresentação já figurava boa parte do repertório que viria a compor o álbum “Xodós”. Por sinal, os arranjos da dupla para “Eu Só Quero Um Xodó”, “Isso Aqui Tá Bom Demais”, “De Volta pro Aconchego” e “Gostoso Demais”, sucessos do sanfoneiro Dominguinhos (1941-2013), nasceram para atender a um pedido da produção do Clube do Choro, que costuma homenagear figuras importantes da música brasileira.

“Eles pedem que a gente toque ao menos uma música do homenageado, mas acabamos tocando cinco. Poderíamos fazer até um disco inteiro dedicado a Dominguinhos”, diz Pereira. Só a toada “Lamento Sertanejo” não entrou no disco, mas o duo costuma toca-la nos shows. “É muito legal, porque as pessoas saem cantando, espontaneamente, assim que a reconhecem”, conta Bellinati.

Se o acaso contribuiu para a criação dessas saborosas versões instrumentais de canções de Dominguinhos, as composições do violonista Dilermando Reis (1916-1977) já frequentavam o repertório de Pereira desde cedo. Tanto que este homenageou o influente mestre do violão, recriando com elegância suas composições no álbum “Dois Destinos” (Borandá, 2016).

O batuque “Xodó da Bahiana”, o choro “Magoado” e a valsa “Se Ela Perguntar”, interpretadas por Pereira em seu disco, ganham novos tratamentos e sonoridades nas releituras do duo. Vale lembrar que, nas 14 faixas de “Xodós” (foto da capa abaixo), Pereira toca violão com cordas de nylon no canal esquerdo; o violão com cordas de aço de Bellinati é ouvido no canal direito. A produção do álbum ficou a cargo de Swami Jr., outro grande violonista.


“Já nos ensaios a gente se surpreendia ao notar que rola uma liberdade, uma grande confiança entre nós, algo que não é comum entre qualquer músico. Se você toca completamente relaxado, com a certeza de que seu parceiro está 100% com você, você toca com mais calor. O rendimento é muito maior”, comenta Bellinati.

Pereira concorda com o parceiro e observa que a maturidade traz uma relação diferente com a música. “Quando você tem vinte e poucos anos se preocupa em impressionar o público com sua performance, com exuberância técnica. Mais tarde você amadurece e passa a valorizar o resultado musical. Esse disco também tem um pouco de exuberância, mas nós estamos a serviço da música o tempo todo”, considera.

O repertório de “Xodós” inclui também composições próprias. “Foi difícil escolher”, admite Pereira. “Ficamos com aquelas que poderiam funcionar bem com os dois violões”. De Bellinati entraram a inédita “Fandango” e “Jongo”, composição que se tornou um clássico no repertório do grupo Pau Brasil. Pereira contribuiu com “Choro de Juliana”, “Amigo Leo”, “Santo Amaro” e “Café Compadre”.

Hoje, tanto “Choro de Juliana” como “Jongo” são tocadas por violonistas de diversos países, em gravações mais tradicionais do que a ouvida em “Xodós”. “Algumas de nossas composições entraram no repertório do violão clássico. O cara pega a partitura, decora e a reproduz nos concertos”, observa Pereira. “Como eu e Bellinati também temos em nossa formação a bagagem do jazz, nossas versões acabam ficando diferentes, também por causa das partes improvisadas”.

Os dois admitem terem ficado especialmente satisfeitos com a releitura da lírica valsa “Se Ela Perguntar” (de Dilermando Reis). “Toquei essa música a vida inteira. Minha avó sempre chorava quando a ouvia. Ficamos emocionados ao escutar essa gravação”, conta Bellinati. “Ela possui uma magia que nem a gente consegue entender como conseguiu. É uma coisa rara, uma benção. Talvez tenham baixado alguns anjos no estúdio, na hora em que a tocamos”, brinca Pereira.

Perfeccionistas, eles contam que chegaram a masterizar o disco pela segunda vez, por não terem ficado satisfeitos com o resultado sonoro da primeira versão. “Passei a vida achando que eu era perfeccionista, mas ao fazer esse disco com o Bellinati percebi que eu sou fichinha perto dele. Ele tira até a última gota do som”, diverte-se Pereira. “Esse disco representa a história de nossas vidas, então tínhamos que caprichar”, retruca Bellinati.

Tratando-se desses dois grandes violonistas, que há décadas desenvolvem carreiras consagradas internacionalmente (e já não precisam provar mais nada a ninguém), só poderíamos esperar por algo assim: música brasileira de alta qualidade, tocada com requinte técnico, elegância e emoção.


(Texto escrito a convite da gravadora Borandá)

Paulo Bellinati e Marco Pereira lançam o álbum "Xodós", dia 15/08, às 21h, em show no Sesc 24 de Maio, na região central de São Paulo. Ingressos de R$ 7,50 a R$ 25,00, nas bilheterias das unidades do Sesc SP (a partir de 7/8) e online (a partir de 8/8), no portal do Sesc SP



Marco Pereira: violonista apresenta obra do mestre Dilermando Reis às novas gerações

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                                                                               O violonista e arranjador Marco Pereira  

No ano em que se comemora o centenário de nascimento de Dilermando Reis (1916-1977), esse expoente do violão brasileiro recebe uma homenagem capaz de despertar um novo interesse por sua obra. Com a técnica primorosa e a eclética bagagem musical que o credenciam como um dos maiores violonistas brasileiros, Marco Pereira interpreta composições desse mestre do violão, em arranjos com sabor mais atual, no álbum “Dois Destinos” – lançamento com o selo de qualidade da gravadora Borandá.

“Pensei em manter a brejeirice, a simplicidade da música do Dilermando, mas imaginando como ele trataria esse repertório se tivesse hoje uns 30 ou 40 anos de idade”, explica o violonista e arranjador paulista, que admite ter uma relação afetiva com a obra desse mestre das cordas. “Quando comecei a tocar violão, as primeiras músicas que eu aprendi a solar eram choros e valsas do Dilermando. Cheguei a ter um repertório grande de composições dele”, relembra.

Só o fato de ter sido um dos raros instrumentistas que se apresentavam com frequência em programas de TV, durante os anos 1950, já demonstra a popularidade de Dilermando Reis – músico que desenvolveu uma carreira de sucesso a partir da década de 1940, gravando discos e tocando em emissoras de rádio. Muita gente ainda pensa que a valsa “Abismo de Rosas” (de Américo “Canhoto” Jacomino) ou o maxixe “Sons de Carrilhões” (de João Pernambuco) –- hoje clássicos da música instrumental brasileira, que Dilermando transformou em grandes sucessos naquela época –- seriam de sua autoria.

“Ele era um músico espontâneo, com muita naturalidade para tratar a matéria musical, que ia ao encontro do gosto popular da época com seus choros e valsas”, analisa Pereira, que chama atenção para um aspecto técnico ao tentar explicar porque o interesse das plateias pelo violão de Dilermando teria diminuído a partir da década de 1960 –- justamente quando esse instrumento passou a ocupar um lugar de grande destaque na cena musical brasileira.

“Com o advento da bossa nova, veio também a moda do violão com cordas de nylon. Quem tocava violão com cordas de aço, como o Dilermando, passou a ser visto como ultrapassado”, observa Pereira, dizendo-se surpreso por não saber da existência de outros tributos musicais vinculados ao centenário de Dilermando. “O último violonista que eu me lembro de ter feito uma homenagem a ele foi o Raphael Rabello. E isso se deu há mais de 20 anos”.    


Violonista comenta suas releituras 
 
Para gravar o álbum “Dois Destinos”, Marco Pereira convidou alguns craques da música instrumental brasileira: parceiros e amigos com os quais já toca há bastante tempo, como o acordeonista Toninho Ferragutti, o flautista Toninho Carrasqueira, os baixistas Neymar Dias e Guto Wirtti, o baterista Sergio Reze e o percussionista Amoy Ribas, além dos clarinetistas Luca Raele e Diogo Maia.

“Decidi escrever arranjos para evidenciar o aspecto mais camerístico que existe na obra do Dilermando”, explica o violonista, que trabalhou nesse projeto com diversas formações instrumentais: de um inusitado duo de violão e clarone (na valsa “Dois Destinos”) a um septeto (no choro “Caxinguelê”). Só mesmo as valsas “Se Ela Perguntar” e “Flor de Aguapé” aparecem em formato de violão solo.

A releitura de “Se Ela Perguntar”, primeira faixa do álbum, já demonstra o cuidado de Pereira ao tratar as composições de Dilermando [retratado na foto abaixo]. Nesse arranjo, além de alterar a tonalidade original (mi menor) para ré menor, utilizou um truque na afinação do violão que amplia a sonoridade do instrumento.   


“Assim as notas e os acordes se prolongam mais”, explica o violonista, que também fez pequenas mudanças na harmonia para ressaltar o tom melancólico dessa valsa. “Existe uma certa simplicidade na música do Dilermando, que favorece releituras. Isso dá a você muitas opções. Se fizer com critério, sem invencionices, vai ficar bom”.   

O batuque “Xodó da Bahiana” ganhou uma versão bem-humorada. O fato de Dilermando ter praticamente decalcado o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga, incentivou Pereira a brincar com outras melodias nessa releitura. “Dilermando gostava de fazer empréstimos de outros compositores”, comenta o violonista, que bem ao estilo dos jazzistas se diverte citando em seus improvisos trechos de “Night in Tunisia” (clássico do trompetista norte-americano Dizzy Gillespie) e “Segure o Tchan” (sucesso do grupo baiano Gera Samba). 

 A brincadeira já começa na introdução”, aponta o violonista, ressaltando que utilizou nessa gravação a percussiva técnica do slap (ou “slapping”, que consiste em golpear as cordas do instrumento com a lateral do dedo polegar), mais comum entre instrumentistas que tocam baixo elétrico.

Falando em maxixe, o choro “Gente Boa” aparece em arranjo para trio (com violão, baixolão e percussão), num ritmo bem amaxixado. “Tive que me basear na partitura porque eu não conhecia uma gravação do Dilermando. Acho que essa música ficou quase minimalista, bem gostosa assim”, avalia Pereira, que nas releituras de outros choros, como “Caxinguelê”, “Tempo de Criança” ou “Feitico”, acabou se aproximando do ritmo do samba.

Um dos choros mais populares de Dilermando, “Magoado” ressurge em moderno arranjo de Pereira, com um tratamento rítmico e passagens improvisadas que remetem à linguagem do jazz. “Nos arranjos, sempre procurei manter a exposição dos temas, sem afetações, mas não teria sentido hoje em dia tocar um chorinho como ele foi pensado originalmente”, justifica.

Outro exemplo marcante de como Pereira soube atualizar as composições de Dilermando sem desvirtua-las está no saboroso arranjo de “Dr. Sabe-Tudo”. “Esse é um choro que já foi muito tocado. Tive a ideia de passar por cinco tonalidades diferentes, o que dá a graça desse arranjo. Como achei que ficaria interessante com acordeão, pensei logo em chamar meu parceiro Toninho Ferragutti, um verdadeiro virtuose desse instrumento”, relembra o violonista.

“Defendo há muito tempo a tese de que temos uma grande escola de violão no Brasil. Até hoje você tem violonistas da nova geração fazendo coisas incríveis por aí”, comenta Pereira. “É importante que a gente ressalte o valor de figuras musicais como o Dilermando ou o Garoto, que fizeram parte dessa história”.

Mais que uma homenagem a um mestre do violão já não tão lembrado hoje, o álbum “Dois Destinos” demonstra que, além do grande instrumentista que conhecemos, Marco Pereira é um músico completo. Graças às suas elegantes releituras, novas gerações de ouvintes vão poder descobrir mais facilmente os encantos da obra de Dilermando Reis.


(Texto escrito a convite da gravadora Borandá, por ocasião do lançamento do álbum "Dois Destinos")




Melhores discos de 2014: dez sugestões de jazz, MPB e música instrumental de ótima qualidade

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Como em anos anteriores, aceitei o convite de Juarez Fonseca (crítico musical de Porto Alegre e colega que admiro há décadas) para descascar um imenso abacaxi: escolher os melhores discos lançados no Brasil em 2014. Claro que estou acostumado a participar de enquetes como essa, mas a cada ano que passa essa tentativa se torna mais difícil, graças à crescente pulverização do mercado musical.


Esta é a minha lista (em ordem alfabética), que deixo aqui como uma sugestão para quem quiser aumentar seu repertório de canções brasileiras, jazz e música instrumental de excelente qualidade, ou mesmo para quem quiser conhecer alguns novos e talentosos artistas. Alguns desses álbuns até já foram resenhados neste blog ao longo de 2014. Se quiser ler alguma dessas resenhas , é só clicar no título do CD.


- André Mehmari, “Ernesto Nazareth - Ouro Sobre Azul” (Estúdio Monteverdi)
- David Feldman, “Piano” (independente)
- Jaques Morelenbaum e CelloSambaTrio, “Saudade do Futuro, Futuro da Saudade" (Biscoito Fino)
- Keith Jarrett & Charlie Haden, “Last Dance” (EMC/Borandá)
- Luciano Salvador Bahia, “Abstraia, Baby” (Dubas)
- Marco Pereira e Toninho Ferragutti, “Comum de Dois” (Borandá)
- Marlui Miranda, “Fala de Gente, Fala de Bicho” (Sesc)
- Monica Salmaso, “Corpo de Baile” (Biscoito Fino)
- Paquito D’Rivera e Trio Corrente, “Song for Maura” (Sunnyside/Tratore)
- Ronen Altman, “Som do Bando” (Sonora)

Aqui o link para o resultado dessa enquete, publicada hoje pelo jornal gaúcho "Zero Hora", além das listas dos outros críticos e colegas que participaram: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/01/criticos-de-musica-do-pais-elegem-melhores-discos-de-2014-4673874.html

Luciana Souza: cantora recria a atmosfera solitária do jazz de Chet Baker

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                                                                                               Photo by Bob Wolfenson

É preciso um pouco de coragem e muito talento para gravar um álbum como “The Book of Chet” (lançamento Sunnyside/Universal), que acaba de sair no Brasil. Na contramão da histeria dançante que move grande parte da produção musical de hoje, Luciana Souza interpreta dez canções, algumas bem tristes, em versões tão lentas e minimalistas que chegam a causar estranhamento.

Mesmo intrigado, depois de algumas faixas, o ouvinte que se deixou levar pela sutileza das linhas melódicas e pela esparsas intervenções do trio que acompanha a cantora percebe que está encantado pela atmosfera de melancolia e beleza do álbum. Como em um universo paralelo, a sensação de tempo se dissolve.

As letras das canções, como “The Thrill Is Gone” (Henderson & Brown), “The Touch of Your Lips” (Noble) ou “You Go to My Head” (Gillespie & Coats), evocam dores amorosas e muita solidão, mas Luciana jamais perde a elegância, combinando silêncios e notas longas, sem apelar para exageros dramáticos.

É assim que ela, o guitarrista Larry Koonse, o baixista David Piltch e o baterista Jay Bellerose recriam, com muita personalidade, o universo sonoro do trompetista e cantor norte-americano Chet Baker (1929-1988), ícone do “cool jazz”. Em vários momentos, a sensação é quase a de escutar um quarteto, já que os vocais da cantora soam como outro instrumento.

Novos duos de voz e violão

Lançado no final de agosto, nos EUA, onde a paulistana Luciana Souza vive desde a década de 1990, “The Book of Chet” chegou ao mercado junto com “Duos III” (Sunnyside/Universal), o terceiro álbum da série em que ela interpreta clássicos da canção brasileira, no formato voz e violão. Ambos foram produzidos pelo norte-americano Larry Klein.

Nessas gravações, mais uma vez, Luciana tem a companhia dos grandes violonistas Marco Pereira e Romero Lubambo, em releituras de canções de diversas épocas: da triste “Mágoas de Caboclo” (de Cascata e Azevedo), que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves, ao bem sacado medley que une “Lamento Sertanejo” (Gilberto Gil e Dominguinhos) e “Maça do Rosto” (Djavan).

Mesmo ao interpretar algumas canções já gravadas quase à exaustão, Luciana oferece surpresas: como em “Dindi” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), clássico da era da bossa nova que ressurge em versão inovadora, com o violão “bluesy” de Lubambo.

Brilhantes também são os encontros de Luciana com o violonista e compositor Toninho Horta, que contribuiu com duas de suas canções mais belas e estranhas: “Beijo Partido” e “Pedra da Lua” (esta em parceria com o poeta Cacaso).

Assim como já foram indicados para o próximo prêmio Grammy, “The Book of Chet” e “Duos III” merecem frequentar as listas de melhores álbuns do ano. Têm tudo para agradar fãs do jazz ou da MPB.


(resenha publicada parcialmente na “Folha de S. Paulo”, em 26/12/02)

 

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