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50 Anos do Montreux Jazz: figuras estranhas que conheci nesse festival

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                                             Sharon Jones e Charles Bradley, na edição 2014 do Montreux Jazz


O Montreux Jazz, um dos mais influentes, ecléticos e antigos festivais de música no mundo, está comemorando 50 anos. Só o fato de grandes astros de diversos gêneros musicais, como Miles Davis, Hermeto Pascoal, Bill Evans, Ray Charles, João Gilberto ou Stevie Ray Vaughan, terem gravado discos "ao vivo" nesse evento anual suíço já demonstra sua importância.

Embora não conte mais com o carisma de Claude Nobs (1936-2013)
 – seu criador e condutor por mais de quatro décadas, além de maior responsável por transformar essa pequena cidade suíça em referência mundial , a produção do Montreux Jazz se superou na escalação dos artistas para sua 50.ª edição, que começou ontem. 

Quincy Jones, Herbie Hancock, John Scofield, Brad Mehldau, Al Jarreau, John McLaughlin, Dave Holland, Charles Lloyd, Steps Ahead, Randy Weston, Buddy Guy, Shemekia Copeland, Van Morrison, Charles Bradley, Richard Bona, Patti Austin, Robben Ford, Avishai Cohen, Neil Young, Marcus Miller, Santana, Angélique Kidjo e Gonzalo Rubalcaba se destacam na programação.

Presente em Montreux desde 1978, a música brasileira terá mais uma vez sua noite exclusiva, em 10/7. Organizada pelo produtor Marco Mazzola, vai contar neste ano com João Bosco, Ivan Lins, Hamilton de Holanda, Elba Ramalho, Martinho da Vila, Maria Rita, Vanessa da Mata e Ana Carolina.  


No texto abaixo, eu relembro alguns causos curiosos que vivi em Montreux durante a década de 1990, quando cobria o festival como repórter e crítico musical da "Folha de S. Paulo". Escrevi esse artigo a pedido do amigo Claudinê Gonçalves, que na época era jornalista da Rádio Suíça Internacional. Hoje ele é um dos editores do SwissInfo, site que publica notícias e informações sobre a Suíça em 10 idiomas.


Surpresas e esquisitices nos bastidores do Montreux Jazz
Por Carlos Calado

Imagine a excitação de um jornalista brasileiro especializado em música, ao chegar à Suíça para acompanhar pela primeira vez o Montreux Jazz Festival. Quando desci na estação de trem, no final de uma tarde de julho de 1990, sonolento após quase um dia inteiro de viagem, cheguei a pensar por um instante que não estava na lendária Montreux, onde Gilberto Gil, Hermeto Pascoal e Elis Regina, entre outros, gravaram cultuados discos.

Não era fácil acreditar que aquela cidadezinha tão pacata iria receber, durante duas semanas, uma constelação de grandes astros da música como Miles Davis, Ella Fitzgerald, B.B. King, Etta James, Dizzy Gillespie, Nina Simone, John Lee Hooker, Herbie Hancock, George Benson, Neville Brothers, George Clinton e Bob Dylan. Um elenco musical para deixar eufórico qualquer ouvinte sem preconceitos.

Naquela época, a música popular brasileira vivia uma fase de grande prestígio no cenário internacional. Tanto que a habitual “noite brasileira” do Montreux Jazz foi escolhida para abrir a programação daquele ano, com shows dos consagrados Jorge Benjor e Beth Carvalho, além da recente revelação Marisa Monte e Luiz Caldas 
 cantor baiano que vivia seus meses de fama graças aos modismos da lambada e do fricote. 

Caetano Veloso também estava no elenco do festival. Foi escalado para uma noite organizada pelo selo Nonesuch, que lançara seu disco gravado em Nova York, em formato voz e violão. Mesmo sabendo que Caetano evitava falar à imprensa brasileira já havia alguns anos, após as críticas negativas que seu filme “O Cinema Falado” recebera, pedi uma entrevista com ele, sem expectativas.

Minha surpresa foi dupla: Caetano não só aceitou falar à “Folha de S. Paulo” (jornal diário com o qual colaboro até hoje), como fez uma crítica contundente à política cultural do então presidente do Brasil, Fernando Collor. Concluiu a entrevista com uma declaração pessoal que ainda soa forte duas décadas mais tarde.

“Posso estar totalmente fora de moda, mas eu sou socialista. Sou filho de um funcionário público que dedicou toda sua vida a trabalhar pelo bem público. Quero uma sociedade que possa ser baseada nessa ideia estúpida, mas que é a minha sociedade ideal. Se for inerente à natureza humana competir e ser atraído só pelo lucro, foda-se a natureza humana”, disse ele, em tom de indignação.

Durante os 16 dias daquele festival me deparei com outras surpresas, nem todas positivas. Foi triste receber a notícia de que Ella Fitzgerald, a grande diva do jazz, não iria mais a Montreux, por ter sido internada em um hospital na Holanda, com sintomas de esgotamento físico. Como ela já enfrentava problemas de saúde há tempos, as chances que eu teria de ouvi-la ao vivo pela primeira vez seriam mínimas. Ironicamente, foi graças à ausência de Ella que pude conhecer Dee Dee Bridgewater, a sensacional cantora norte-americana, então radicada na Europa, que a substituiu no festival.  


Também foi bem frustrante encontrar o cantor e compositor irlandês Van Morrison (foto ao lado), na recepção do hotel em que eu me hospedara. O Eden au Lac estava a poucos metros do Montreux Casino, que na época ainda servia de palco para o festival. Como eu não sabia que Morrison era pouco sociável, não pensei duas vezes para me aproximar dele. Pedi licença, disse que era jornalista, admirador de suas canções, e perguntei se disporia de alguns minutos para uma breve entrevista.

Morrison me olhou com uma expressão assustada, meio paranoica, como se eu tivesse pedido a ele que me passasse sua carteira ou entregasse a chave de seu carro. “Não, não tenho tempo para entrevistas. Estou muito cansado”, respondeu, quase rosnando. Sem o mínimo de gentileza, virou as costas e saiu pela porta do hotel. Que sujeito estranho!

Felizmente, minha frustração durou pouco. Horas depois, num restaurante italiano em que eu costumava almoçar, encontrei Dave Holland, um dos maiores contrabaixistas do jazz. Típico “gentleman” britânico, ele me recebeu com um grande sorriso, quando o cumprimentei e disse que acompanhava suas gravações desde a época em que tocava com Miles Davis. Talvez amedrontado pelo incidente daquela manhã, não pedi para entrevistá-lo, mas, posteriormente, tive o prazer de conversar com ele algumas vezes.


Jamais esqueci também de um episódio com a cantora Nina Simone (na foto ao lado). Eu a encontrei num dos almoços que Claude Nobs, criador e diretor do festival, promovia no seu sofisticado chalé, em Caux, vilarejo na região mais alta do município de Montreux. Ali, entre muitas obras de arte e os originais dos pôsteres criados para o festival por famosos artistas, estava o grande tesouro de Nobs (na foto abaixo): a videoteca com os registros de todos os concertos do Montreux Jazz desde 1967.

Naquela manhã chegara a notícia de que o Free Jazz, único festival brasileiro do gênero na época, seria cancelado por causa da crise econômica que afligia o país. Depois de conseguir um simpático depoimento de Nobs, lamentando a suspensão do evento, tomei coragem para enfrentar o conhecido mau humor de Nina Simone. Para minha surpresa, fui bem recebido por ela 
 ou quase. 

“O Free Jazz não deveria acabar. Assim, eu e meus músicos poderemos voltar logo ao Brasil”, disse ela, pronunciando as palavras lentamente, depois de comentar que havia gostado de se apresentar no festival brasileiro, dois anos antes. Recostada em uma cadeira de jardim, ela falou todo o tempo sem olhar para mim, como se estivesse conversando consigo mesma. 



Nina Simone parecia viver em um mundo à parte, mas se eu fosse eleger o artista mais esquisito que conheci em Montreux, durante os seis anos em que cobri o festival, sem dúvida, escolheria outro irlandês: o cantor e compositor Shane MacGowan. Ex-integrante da banda punk The Pogues, ele já se apresentava como solista, à frente da banda The Popes, em 1995.  

Longe de ser fã da música de MacGowan, fui entrevista-lo a pedido de um de meus editores na “Folha”. A assessora de imprensa do festival me avisou que ele me receberia após o show, junto com um radialista e uma equipe de TV europeia. Esperamos 35 minutos até que ele abrisse a porta do camarim. Mal nos cumprimentou, desapareceu por mais 10 minutos, deixando todos constrangidos. Voltou de óculos escuros, visivelmente embriagado.

Talvez eu tenha sido duro demais com MacGowan, por não aceitar seu descaso, mas reproduzo aqui um trecho da reportagem que escrevi no dia seguinte: “Seu visual desleixado impressiona. Como parente distante de um homem-elefante, tem orelhas enormes e abertas. Piores são os dentes, que lembram um teclado sujo e torcido, sem as teclas brancas”, descrevi, depois de introduzi-lo como “alcoólatra, debochado e portador da boca mais repugnante de toda a história do rock”.

Juro que não tentei provoca-lo, ao mencionar durante a entrevista, de maneira positiva, o fato de alguns críticos já terem comparado sua música à de Van Morrison. “Tenho a mesma barriga de Van Morrison? Meu cabelo é igual ao dele? Ele tem uma cabeça legal, mas eu não acho que tenha muito em comum com ele”, retrucou, meio irritado. Depois desses encontros com MacGowan e Morrison, eu até poderia pensar que os irlandeses são campeões em bizarrices.

Hoje, ainda tentando exercer a ameaçada profissão de crítico musical, tenho de reconhecer que, graças às coberturas do Montreux Jazz, pude conhecer no palco alguns dos maiores músicos do século XX. Tive outras oportunidades para ouvir vários deles, posteriormente, inclusive no Brasil, mas a primeira vez sempre guardará um sabor especial.


Leia mais sobre os 50 anos do Montreux Jazz Festival no site SwissInfo, no qual esse texto foi publicado originalmente.



Miles Davis: caixa reúne quase 4 horas de gravações inéditas do trompetista

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Uma surpresa para os apreciadores do jazz, que viram os lançamentos desse gênero musical desaparecerem do mercado brasileiro na última década: a caixa “Miles Davis at Newport 1955-1975” (lançamento Columbia/Sony Music; R$ 130, em média) traz quase quatro horas de gravações inéditas do trompetista norte-americano que marcou a música do século 20 com seu espírito de transformação constante.

Quarto volume de uma série de registros ao vivo desse artista, que vêm sendo lançados nos EUA desde 2011, a caixa reúne em quatro CDs as apresentações de Miles no Newport Jazz Festival, entre 1955 e 1975. Esse pioneiro evento, criado em 1954 pelo produtor e pianista George Wein, na costa leste norte-americana, serviu de modelo para outros festivais de jazz pelo mundo.

Foi de Wein a ideia de promover, já no segundo ano de seu festival, uma apresentação de Miles com o pianista Thelonious Monk e os saxofonistas Gerry Mulligan e Zoot Sims. Como a sonorização de concertos ao ar livre ainda era precária na época, Miles fez algo incomum ao tocar a melancólica “Round Midnight” (de Monk): encostou a campana do trompete no microfone, para que o som fosse reproduzido de maneira mais clara.

No extenso texto que escreveu para o livreto incluído na caixa, o jornalista Ashley Kahn (autor de um ótimo livro sobre “Kind of Blue”, o disco mais cultuado de Miles) observa que a repercussão dessa performance do trompetista estimulou a gravadora Columbia a contratá-lo. Por meio dessa parceria, que durou três décadas, Miles veio a gravar seus melhores álbuns.

Ao retornar a Newport, em 1958, ele já liderava um dos sextetos mais admirados pelos fãs do gênero, com John Coltrane e Cannonball Adderley (saxofones), Bill Evans (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). Oito meses antes de gravar com esse mesmo grupo a obra-prima “Kind of Blue”, Miles ainda trazia no repertório pérolas de sua fase “hard bop”, como a sedutora valsa-jazz “Fran-Dance”, de sua autoria, ou o nervoso tema “Two Bass Hit” (Lewis e Gillespie).

Nos anos 1960, ele voltou três vezes a Newport. Em 1966 e 1967, tinha a seu lado o sensacional quinteto com Wayne Shorter (sax tenor), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria), que deixou parte da plateia perplexa. Duas diferentes versões de “Gingerbread Boy” (Jimmy Heath) revelam como Miles e parceiros caminhavam para um jazz mais experimental, numa época em que o mundo parecia prestes a explodir em conflitos e revoluções.

“Aquele grupo não estava à frente de seu tempo. Eles eram o tempo”, comenta Wein, no texto do encarte. Já em 1969, outra transformação: Miles exibia sua nova banda com Chick Corea (piano elétrico), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), mostrando em faixas como “Miles Runs the Voodoo Down” e “It’s About That Time” seu interesse em se aproximar do universo do rock e da black music.

Para os felizardos que presenciaram as apresentações de Miles no Brasil, em 1974, um concerto produzido meses depois por Wein, em Berlim (também incluído na caixa), pode trazer lembranças. Ao lado de Dave Liebman (sax soprano), Pete Cosey (guitarra) e Michael Henderson (baixo), entre outros, Miles já tinha mergulhado no funk e no rock. As faixas “Turnaroundphrase” e “Tune in 5” revelam um grau de eletrificação e distorções jamais ouvidas antes nos círculos do jazz. Não à toa os paulistanos cinquentões e sessentões que foram ouvir Miles no Theatro Municipal, naquela época, saíram no meio do concerto.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 19/12/2015)

BMW Jazz Festival 2014: Dave Holland, Bobby McFerrin e Ahmad Jamal virão em maio

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O boato sobre a possível suspensão do BMW Jazz Festival, que circulou no ano passado, não se confirmou, felizmente, para os fãs do gênero em nosso país. A produção do evento anunciou hoje que sua quarta edição será realizada em São Paulo (no HSBC Brasil), de 29 a 31/5, e no Rio de Janeiro (no Vivo Rio), de 30/5 a 1º/6.

O contrabaixista e band leader Dave Holland, o cantor Bobby McFerrin (na foto ao lado), o pianista e compositor Ahmad Jamal e o saxofonista Kenny Garrett serão as principais atrações do evento, que também inclui o trompetista Chris Botti, o grupo Snarky Puppy e a pernambucana SpokFrevo Orquestra.

Além dessa programação, a produção também anunciou um show extra em Belo Horizonte (no Cine Theatro Brasil), em 3/6, e o costumeiro show ao ar livre, com entrada franca, no palco externo do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no dia 1º/6.


Os ingressos para o 4º BMW Jazz Festival começarão a ser vendidos em 25/4, a partir do meio-dia, pelo site www.ingressorapido.com.br e em alguns pontos de venda. Mais informações em https://www.facebook.com/bmwjazzfestival.


  

 

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