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Sesc Jazz 2021: quinteto Pau Brasil festeja 40 anos, enfim, ao vivo

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                                                                          O quinteto Pau Brasil, em show no festival Sesc Jazz
                                      

A plateia foi chegando aos poucos, meio ressabiada. Em outras épocas, uma apresentação do brilhante quinteto Pau Brasil certamente teria lotado o teatro do Sesc Vila Mariana, provocando até uma descontraída balbúrdia, antes da abertura da sala. Ontem à noite, um sábado, o saguão de espera estava vazio. Outros como eu, que passaram cerca de 20 meses distantes dos shows ao vivo, por causa das necessárias restrições de enfrentamento da pandemia, também devem ter achado esse retorno um tanto estranho.

Já no teatro, um pouco mais de 50% das poltronas estavam cobertas por capas, indicando que as pessoas só poderiam se sentar nos lugares pré-determinados. Além dessa medida para garantir o necessário distanciamento social, vale lembrar, ao entrar na unidade do Sesc todos tiveram que mostrar seus certificados de vacinação contra a Covid-19 e estavam usando máscaras de proteção.

“Gente, que saudade disso tudo”, disparou o saxofonista Teco Cardoso, quebrando de vez o gelo, logo após uma fusão do samba-canção “No Rancho Fundo” (de Lamartine Babo e Ary Barroso) com a clássica “Ária da Bachiana n.º 4”, de Heitor Villa-Lobos. Foi com essa inusitada associação musical que Teco, o pianista Nelson Ayres, o baixista Rodolfo Stroeter, o violonista Paulo Bellinati e o baterista Ricardo Mosca -- evidentemente emocionados -- abriram o show, incluído na programação do festival Sesc Jazz.

“Tocar para celular é horrível. E assistir ‘live’ de pijama, em casa, vocês também não aguentavam mais, não é?”, seguiu Teco, provocando mais risos. E ao comentar que o quinteto está comemorando 40 anos de atividade musical, o bem-humorado saxofonista fez até seus parceiros rirem de si mesmos. “Depois da pandemia tomamos uma decisão muito sábia. A gente não tem mais produtora, agora temos cuidadora”.

Pronto! Após uma explosão geral de risadas, já estávamos mais à vontade para nos deliciarmos com uma combinação de clássicos e belezas do repertório que o grupo acumulou durante essas quatro décadas, como o contagiante “Caixote” (xote de Ayres), a criativa releitura jazzística de “O Pulo do Gato” (composição de Bellinati) ou a lírica “Cidade Encantada” (de Nelson e Milton Nascimento).

E a festa musical não parou por aí. Também entrou no repertório material mais recente que o quinteto paulistano já tinha experimentado em alguns shows. Além do samba “Levada da Breca” (parceria de Rodolfo com seu filho baixista Noa Stroeter), o baião “Juazeiro” (de Luiz Gonzaga) ganhou como introdução a delicada “Aboio” (outra de Rodolfo e Noa), com Teco ao sax alto e ao pífano.

Que bela noite para se comemorar o tão esperado retorno dos shows ao vivo, em São Paulo. Salve o Pau Brasil! Salve o Sesc Jazz!

Esse show foi gravado e está disponível online neste link:
https://www.youtube.com/watch?v=14arLXs65DE&t=4497s





Tuto Ferraz: os "clássicos" do baterista e compositor no Blue Note de São Paulo

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                                            O baterista Tuto Ferraz e o baixista Rui Barossi, no clube Blue Note SP

Foi assim, em preto e branco, que visualizei a apresentação do sexteto do baterista Tuto Ferraz, ontem (16/5), em São Paulo. Não só por estar no Blue Note, recém-inaugurada franquia do clube nova-iorquino, cujo nome remete à gravadora responsável por muito do que se produziu de melhor no jazz dos anos 1950 e 1960. Foi quase sempre em p&b, que fotógrafos que admiro, como William Claxton, Herman Leonard e Francis Wolff, retrataram essa música.


Seis anos atrás, ao lançar seu saboroso álbum “À Deriva”, Tuto me disse que o jazz produzido entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960 é o seu favorito. Além disso, suas composições têm um quê de clássicos da canção norte-americana, os chamados “standards”, que fazem parte do repertório dos jazzistas: melodias simples e cantáveis, que grudam em nossos ouvidos. Se você ouvir o valsante “Bom Dia” ou o samba “Chorando na Gafieira”, temas que a plateia do Blue Note paulistano aplaudiu calorosamente ontem, vai concordar comigo. 


Ao lado de outros cinco craques da cena instrumental de São Paulo (o pianista Pepe Cisneros, o saxofonista Josué dos Santos, o trompetista Bruno Belasco, o contrabaixista Rui Barossi e o guitarrista Agenor de Lorenzi), Tuto tocou grande parte do repertório do álbum “À Deriva”. Também exibiu um tema inédito, “Tango Russo”, que estará no álbum de jazz que ele promete gravar em breve. A amostra do que vem por aí deixou água na boca.


Discos em 2018: 80 recomendações de álbuns de jazz, instrumental, MPB e black music

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Às vésperas de completar 10 anos, este blog oferece a você mais uma lista anual de discos recomendados. Para quem não me conhece e está acessando este blog pela primeira vez, repito algo que já disse em anos anteriores. Não tenho a pretensão de publicar uma lista de “melhores” discos de 2018, pois não concordo com a ideia de que discos de diferentes artistas, que cultivam gêneros musicais diversos, possam ser comparados para se estabelecer um suposto ranking de “melhores”.

Também não acho que o gosto pessoal de um crítico, ou mesmo uma enquete com uma dúzia de supostos experts em música, possam ser utilizados como parâmetros para se afirmar que um disco é superior a outros. Até porque, a cada ano que passa, é maior o número de lançamentos de discos, sejam eles distribuídos em versões físicas (CD ou vinil) ou por meio de plataformas digitais. É praticamente impossível a qualquer crítico especializado ter acesso a toda essa produção fonográfica.

Meu plano inicial era organizar, como no ano passado, uma lista com 50 discos de jazz, música instrumental brasileira, MPB e de algumas vertentes da música negra. Acabei decidindo ampliar esse número para 80 álbuns (listados em ordem alfabética), para não deixar de fora muitos lançamentos de 2018 que merecem atenção.

Finalmente, um aviso importante: como grande parte desses discos que vou recomendar também estão disponíveis no YouTube, se você clicar no título dos discos listados abaixo vai poder ouvi-los ou pelo menos assistir a um vídeo associado a cada um desses álbuns. Se gostar do que ouvir, o artista em questão vai ficar muito contente se você comprar seu disco ou assistir ao seu show quando ele se apresentar em sua cidade.

Aproveito para desejar a você um 2019 repleto de música de boa qualidade. Tomara que esta lista o ajude a descobrir novos artistas e discos. Quem gosta mesmo de música sabe que não há limites para isso. Nossa curiosidade por novos sons sempre se renova. 



                                    
                        

Alexandra Jackson - “Legacy & Alchemy” (Legacy and Alchemy) – Cantando em português quase sem sotaque, essa talentosa intérprete americana declara sua paixão pela música brasileira. Canções de Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento se destacam no repertório de seu disco de estreia.

Amaro Freitas - “Rasif” (Far Out) – Ritmos nordestinos, como o baião, o maracatu e o frevo, revelam a identidade do jazz (ou música instrumental, para quem preferir) cultivado por esse inventivo pianista e compositor pernambucano, em seu segundo álbum. Amaro é uma das grandes revelações recentes na cena musical brasileira.

Anaí Rosa - “Anaí Rosa Atraca Geraldo Pereira” (Sesc) – A cantora paulista homenageia Geraldo Pereira, mestre do samba sincopado, cujo centenário é festejado em 2018. Clássicos do gênero, como “Escurinho”, “Acertei no Milhar” e “Cabritada Malsucedida”, surgem em inusitados arranjos de Cacá Machado e Gilberto Monte.

André Abujamra - “Omindá” (independente) – Conhecido por seus trabalhos com Os Mulheres Negras e a banda Karnak, o compositor dedicou 11 anos ao ambicioso projeto de um show-filme sobre as relações do ser humano com a água. Mesmo sem a companhia das belas imagens do espetáculo, as canções continuam soando encantadoras.

Anelis Assumpção - “Taurina” (Scubidu) – A sombra musical do pai, o grande Itamar Assumpção (1949-2003), já não a ofusca mais. Em seu terceiro álbum, a cantora e compositora aborda o universo feminino de modo bem pessoal. Anelis não esconde a tristeza pela morte da irmã, Serena, mas também revela humor e doçura em suas canções.

Aniel Someillan - “Quilombo” (independente) – Primeiro álbum do contrabaixista cubano, que se radicou no Brasil em 2014. A releitura do samba-afro “Canto de Xangô” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes), que mistura elementos rítmicos da santeria cubana e do candomblé brasileiro, é exemplar de suas pesquisas musicais.

Antonio Adolfo e Orquestra Atlântica - “Encontros” (AAM) – Nos últimos anos, o pianista e compositor carioca tem lançado discos saborosos e este, em parceria com uma big band, não foge à regra. No repertório, uma versão instrumental de “Sá Marina”, seu grande sucesso, e um arranjo de “Milestones” (Miles Davis), em ritmo de frevo.

Antonio Loureiro - “Livre” (YB) – O título do sexto álbum do multi-instrumentista, compositor e cantor mineiro soa como uma afirmação. Da engajada canção “Resistência” à instrumental “Caipira”, passando pela exuberante versão de “Oriente” (de Gilberto Gil), Loureiro parece decidido a romper fronteiras musicais.

Ari Borger Trio - “Rock ‘n’ Jazz” (independente) – Depois de morar na eclética New Orleans, é natural que este pianista e organista paulistano traga diversidade em sua música. Neste álbum, ele exibe releituras jazzísticas e blueseiras de clássicos dos Beatles, dos Stones e dos Doors, entre outras bandas de rock e pop.


Balaio (Cendi Music) – O quarteto formado em 2009 por Rubem Farias (baixo), Adriano Oliveira (teclados), Leonardo Susi (bateria) e Marco Bosco (percussão) tocou bastante na Ásia e na Europa até, enfim, lançar o primeiro álbum. Calcada em ritmos brasileiros, sua música remete às fusões do jazz dos anos 1970 e 1980.   

Benji Kaplan - “Chorando Sete Cores” (Big Apple Batucada) – Apreciador da música brasileira, o violonista, compositor e arranjador nova-iorquino reveste com cores e texturas eruditas ritmos como o samba, o maxixe, o baião e o maracatu. Para isso, utiliza um quinteto com flautas, clarinetes e trompa, além de seu violão.

Bixiga 70 - “Quebra Cabeça” (Deck) – O 4º álbum da compacta big band paulistana soa como virada de página. A forte ascendência do afrobeat, em seus primeiros discos, dá lugar a composições se abrem para influências de Cabo Verde, Cuba, Jamaica, Índia, Bahia e, naturalmente, da África. Música contagiante para dançar e viajar.

Cacá Machado - “Sibilina” (Circus/YB) – Cinco anos depois do inventivo “Eslavosamba” (2013), seu primeiro álbum, o compositor e professor universitário paulistano exibe mais uma coleção de canções que desafiam padrões. A etérea e ruidosa “Sob Neblina” representa bem o álbum, mas a inquietante “Tem Um” soa como obra-prima.

Cainã Cavalcante - “Corrente” (independente) – Saudado como “genial artista” por ninguém menos que Guinga, o violonista e compositor cearense lança aos 38 anos seu primeiro disco de violão solo. No repertório, belezas como a lírica “Mar de Saudade”, o samba “Vento Sul” e “Forró Gaúcho”, dedicado ao violonista Yamandú Costa.

Carlos Badia e Grupo - “0+2” (independente) – Blues, maracatu, baião, samba: o violonista, cantor e compositor gaúcho (ex-grupo de jazz Delicatessen) não parece preocupado em cultivar gêneros ou ritmos de sua região, no seu segundo disco. Até o belo tema “Uruguai”, que poderia ser considerado um chamamé, soa bem jazzístico.

Carol Panesi & Grupo - “Primeiras Impressões” (independente) – Depois de mais de uma década com a Itiberê Orquestra Família e o grupo de Itiberê Zwarg, a violinista e trompetista carioca gravou seu primeiro álbum. A influência da música universal de Hermeto Pascoal é marcante, mas não falta personalidade às suas composições.

Ceumar, Lui Coimbra e Paulo Freire - “Viola Perfumosa” (Natura/Circus) – A cantora mineira, o violoncelista carioca e o violeiro paulista fazem uma emocionante – e divertida – homenagem à cantora Inezita Barroso (1925-2015), expoente da música caipira. Clássicos como “Luar do Sertão” e “Índia” ganham versões camerísticas.

Coladera - “La Dôtu Lado” (Scubidu) – O português João Pires e o brasileiro Vitor Santana, ambos violonistas, encabeçam esse grupo que realiza um inspirador diálogo entre os universos musicais de Cabo Verde, Portugal e Brasil. Nove das 11 faixas do álbum são cantadas em português, mas a diversidade rítmica é ampla.

Conrado Paulino - “A Canção Brasileira” (independente) – Depois do ótimo álbum “4 Climas” (2015), o violonista argentino lança um sofisticado álbum de violão solo. “Todo Sentimento” (de Cristóvão Bastos e Chico Buarque) e “Sim ou Não” (Djavan) estão entre as pérolas da MPB que ganharam inventivos arranjos.   




Cris Delanno & Nelson Faria - “Bossa Is Her Name” (Batuke) – A cantora americana e o violonista mineiro, ambos radicados no Rio, recriam “Julie Is Her Name” (1955), influente álbum da cantora Julie London. A dupla transforma standards do jazz, como “Cry Me a River”, “’S Wonderful” e “I Should Care”, em atraentes bossas.

Dani Gurgel - “Tuqti” (Da Pá Virada) – O título do 2.º disco autoral da cantora paulistana tem a ver com o estilo de canto onomatopaico que os jazzistas chamam de scat. Dani abre o álbum exibindo sua habilidade vocal, no contagiante samba “Cadê a Rita” (com Gabriel Santiago), mas também interpreta canções em português e inglês.

Daniela Spielmann - “Afinidades” (independente) – Primeiro álbum totalmente autoral da saxofonista e flautista carioca, que também faz parte do grupo Rabo de Lagartixa. No repertório, ritmos brasileiros se misturam com a marcante influência do jazz. Participações especiais de Anat Cohen (clarinete) e Silvério Pontes (trompete).

Douglas Braga - “Música Livre” (independente) – Música clássica, jazz e música instrumental brasileira se encontram neste inusitado álbum idealizado pelo saxofonista e compositor paulista. O clarinetista Nailor Proveta e o violonista Gian Correa contribuíram com obras encomendadas especialmente para o projeto.

Duduka da Fonseca Trio - “Plays Dom Salvador” (Sunnyside) – O baterista carioca, radicado em Nova York, faz contagiante homenagem ao pianista Dom Salvador, que festejou seus 80 anos em 2018. Com David Feldman (piano) e Guto Wirtti (baixo), Duduka relembra “Tematrio” e “Farjuto”, entre outros clássicos do mestre do samba-jazz.

Duo Taufik - “D’Anima” (independente) – Para comemorar 10 anos de parceria, os irmãos Eduardo (piano) e Roberto Taufik (violão) gravaram este álbum com inspiradas composições próprias e criativas releituras de “Lôro” (Egberto Gismonti) e “Último Pau de Arara” (Corumba e Venâncio). Esse duo potiguar merece ser mais conhecido.

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle - “Edu, Dori & Marcos” (Biscoito Fino) – O encontro desses três grandes compositores e intérpretes da MPB, de fato, ficou restrito à sessão de fotos para a capa. Ainda assim, nas 12 faixas deste álbum, há belezas de sobra nas releituras que cada um deles faz de composições dos outros.

Edu Ribeiro, Toninho Ferragutti e Fábio Peron - “Folia de Reis” (Blaxtream) – A inusitada formação – bateria, acordeom e bandolim – explica a sonoridade diferente deste trio de craques liderado por Ribeiro. No repertório, composições próprias como o frevo “Procure Saber” (de Peron) e o maracatu “Mogiana” (Ferragutti). 




Elza Soares - “Deus É Mulher” (Deck) – Menos sombrio que o anterior “A Mulher do Fim do Mundo”, este álbum da cantora soa mais político e contundente. Entre ruídos e guitarras distorcidas, canções como “Exu nas Escolas” (de Edgar e Kiko Dinucci) e “Credo” (Douglas Germano) parecem ter sido compostas com os olhos num sinistro 2019.

Escalandrum - “Studio 2” (Warner) – Perto de completar 20 anos, o grupo de jazz argentino gravou seu 11º álbum no lendário estúdio Abbey Road, em Londres, só com repertório autoral. Do frenético tema “Acuático” (Nicolás Guerschberg) à melancolia de “Lolo” (Pipi Piazzolla), o brilhante sexteto tem vários motivos para comemorar. 

Eugénia Melo e Castro - “Mar Virtual” (Sesc) – Pioneira no diálogo entre a música popular brasileira e a canção portuguesa, a cantora e compositora lusitana realiza aqui um belo e ousado projeto. Inspirou-se na obra de seu pai, o poeta Ernesto Melo e Castro, que também dialoga com a poesia concretista brasileira. 

Fabiano Chagas - “Tributum” (independente) – No seu segundo álbum, o violonista e arranjador goiano homenageia em composições próprias músicos que admira, como o bandolinista Hamilton de Holanda e os jazzistas John Coltrane, Bill Frisell e Pat Metheny. Participações de Duduka da Fonseca (bateria) e Bororó (baixo). 

Fotografia Sonora - “Viva Airto!” (independente/Tratore) – O quinteto instrumental paulista tem como convidado especial, em seu quarto álbum, ninguém menos que Airto Moreira, grande mestre da percussão. De essência jazzística, as seis composições são assinadas por músicos do grupo, incluindo a homenagem “Viva Airto!”.  


Gaia Wilmer - Migrations (RPR/Biscoito Fino) – A saxofonista catarinense, hoje radicada em Boston (EUA), estreia bem em disco. Suas composições reciclam influências de músicos do jazz, como a americana Maria Schneider e o argentino Guillermo Klein, assim como de Hermeto Pascoal, cujo tema “Acuri” integra o repertório. 

Gilberto Gil - “OK OK OK” (Biscoito Fino) – É estimulante se ver um artista que já não precisa provar mais nada, aos 76 anos, lançar um disco só de composições inéditas. Entre canções leves que dedica a amigos, familiares e musas ocasionais, destaca-se sua sinceridade ao abordar temas difíceis, como o envelhecimento. 
 

Gilson Peranzzetta - “Tributo a Oscar Peterson” (Fina Flor) – Gravada ao vivo, em 2000, só saiu em 2018 esta bela homenagem do pianista carioca ao canadense Peterson (1925-2007), que despertou seu interesse pelo jazz. Com Paulo Russo (contrabaixo) e João Cortez (bateria), Peranzzetta toca standars de Cole Porter e Henry Mancini. 

Guilherme Dias Gomes - “Trips” (independente) – Jazz acústico de excelente qualidade, nesta sessão de gravação comandada pelo trompetista, compositor e arranjador carioca. Idriss Boudrioua (sax tenor), David Feldman (piano), André Vanconcelos (contrabaixo) Rafael Barata (bateria) e Firmino (percussão) formam o sexteto. 




Hamilton de Holanda - “Toca Jacob do Bandolim” (Deck) – Só mesmo um músico criativo como este bandolinista e compositor poderia encarar um projeto tão audacioso. Hamilton recria em quatro álbuns – cada um com uma abordagem musical diferente – a obra monumental de Jacob do Bandolim (1918-1969), mestre do choro.

Hamleto Stamato - “Ponte Aérea” (Fina Flor) – O pianista paulista continua a cultivar com personalidade o estilo ao qual já dedicou vários álbuns: o samba-jazz. Desta vez revisita clássicos de Tom Jobim (“O Morro Não Tem Vez”), Baden Powell (“Berimbau”) e Moacir Santos (“April Child”), além de tocar composições próprias.

Hércules Gomes - “No Tempo da Chiquinha Gonzaga” (independente) – Sem recorrer a releituras, o talentoso pianista capixaba interpreta clássicos da obra de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) de maneira respeitosa, mas mais palatável aos ouvidos de hoje. Participações da cantora Vanessa Moreno e do flautista Rodrigo Y Castro.

Isca de Polícia - “Irreversível” (Elo Music) – A banda paulistana, que acompanhava Itamar Assumpção (1949-2003) nos anos 1980, lança seu segundo álbum. No repertório, uma nova safra de canções inspiradas pela estética musical de seu inspirador – a maior parte delas é assinada pelo baixista e produtor Paulo Lepetit.

Itiberê Zwarg & Grupo - “Intuitivo” (Sesc) – Depois de tocar com Hermeto Pascoal durante quatro décadas, esse baixista e compositor já se tornou um expoente da chamada “música universal”. Provas disso são composições de sua autoria incluídas neste álbum, como “Partiu”, “Explodindo Pipoca” e “No Galinheiro do Garga”.

Ivans Lins e Gilson Peranzzetta - “Cumplicidade” (Fina Flor) – O título é bem adequado. Ivan (voz e teclado) e Gilson (piano e arranjos) celebram sem pompas essa parceria de mais de quatro décadas. No repertório, “Setembro”, belo tema da dupla, e sucessos como “Abre Alas” e “Começar de Novo” (de Ivan e Vitor Martins).

Jane Duboc - “Duetos” (independente) – Uma das cantoras mais completas do país, a paraense sempre demonstrou interesse por diversas vertentes musicais – da MPB ao jazz. Neste projeto de viés mais romântico, ela canta em duos com Bianca Gismonti, Mafalda Minnozzi, Celso Fonseca e Fábio Jr., entre vários convidados.

John Coltrane - “Both Directions at Once” (Impulse/Verve) – Uma das surpresas de 2018 foi o lançamento de gravações inéditas do mais cultuado saxofonista do jazz. Ouvidos 55 anos depois, esses registros do quarteto de Coltrane, com McCoy Tyner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contrabaixo), ainda soam sublimes.

John Mueller – “Na Linha Torta” (independente) – O cantor, violonista e compositor catarinense aposta em repertório totalmente autoral (com diversos parceiros), em seu segundo álbum. Conta também com participações especiais de Guinga (voz e violão, na faixa-título) e da cantora Ana Paula da Silva, em “Maré Rasa”.  




José James - “Lean on Me” (Blue Note) – Versátil cantor americano, James costuma alternar projetos calcados em diversos gêneros de música negra. Desta vez homenageia Bill Withers, expoente da soul music, que festejou 80 anos em 2018. No repertório, grandes canções, como “Ain’t No Sunshine”, “Just the Two of Us” e “Use Me”.

Joyce Moreno - “50” (Biscoito Fino) – Para comemorar 50 anos de carreira, a cantora e compositora revisita o repertório de “Joyce” (1968), seu disco de estreia. Além das 11 canções assinadas por Paulinho da Viola, Ruy Guerra e Marcos Valle, entre outros, ela inclui a bela “Com o Tempo”, parceria recente com Zélia Duncan. 


Kamasi Washington - “Heaven & Earth” (Young Turks) – Três anos depois de seu cultuado álbum triplo “Epic”, o saxofonista e compositor de jazz se lança em outro ambicioso álbum conceitual de longa duração, que inclui um coro e uma orquestra. Entre as místicas de John Coltrane e Sun Ra, Washington vai erguendo a sua.

Kastrup - “Ponto de Mutação” (independente) – “No Brasil de hoje, precisamos de uma utopia para encarar os próximos anos”, sugere o percussionista, compositor e produtor Guilherme Kastrup. De essência filosófica e experimental, seu álbum reúne um elenco de 25 instrumentistas e vocalistas, como Ná Ozzetti e Arícia Mess.

Leila Maria - “Tempo” (Biscoito Fino) – Quem já ouviu seu disco dedicado ao repertório de Billie Holiday, sabe que ela é uma grande cantora. Mesmo neste álbum, um projeto mais autoral, com canções em português e em parceria com o pianista e produtor Rodrigo Braga, Leila também se vale de seus recursos jazzísticos.

Leny Andrade e Gilson Peranzzetta - “Canções de Cartola e Nelson Cavaquinho” (Fina Flor) – A cantora carioca já havia dedicado álbuns inteiros às obras de Cartola e Nelson Cavaquinho, com arranjos de Peranzzetta. Décadas depois, eles voltam a interpretar sucessos desses preciosos cancioneiros, em emotivos duos de voz e piano.  




Luciana Souza - “The Book of Longing” (Sunnyside) – A refinada cantora e compositora paulistana, que vive nos EUA desde os anos 1990, interpreta poemas de Leonard Cohen e Emily Dickinson, entre outros, que ela mesmo musicou. Tem a seu lado dois craques do jazz: Chico Pinheiro (guitarra) e Scott Colley (contrabaixo).

Luísa Mitre - “Oferenda” (Savassi Festival) – O primeiro álbum da jovem pianista mineira inaugura o selo do Savassi Festival, um dos maiores eventos de música instrumental do país. Influenciada por mestres brasileiros do piano, como Egberto Gismonti e César Camargo Mariano, Luísa também releva referências eruditas em suas composições.

Martin Iaies 4 – “Rewind & FF” (Club del Disco) – Filho do pianista de jazz Adrián Iaies, o guitarrista argentino faz uma promissora estreia em disco. Composições de sua autoria, como “JSV Blues” ou as sensíveis baladas “Sábado” e “Mauri’s Rules” demonstram seu domínio da linguagem do jazz clássico.

Matthew Shipp - “Ao Vivo - Jazz na Fábrica” (Sesc) – Neste concerto solo (registrado em 2016, no festival Jazz na Fábrica, em São Paulo), o inventivo pianista americano toca composições próprias e recria standards. Para fãs do jazz de vanguarda, ouvi-lo descontruir clássicos como “Summertime” (Gershwin) tem um sabor especial.

Mauricio Pereira - “Outono no Sudeste” (independente) – Da bela canção que intitula o álbum à suingada “Quatro Dois Quatro” (sobre o universo do futebol), o compositor e cantor paulistano exibe toda sua versatilidade. “A Mais (Rubião Blues)”, canção que mimetiza os altos e baixos de uma paixão, é um achado.

Música de Montagem (Circus) – O violonista e professor Sergio Molina é também compositor (em parcerias com vários letristas) das nove canções gravadas por esse septeto paulistano. Elas ilustram o procedimento de “montagem” que, segundo tese de Molina, tem sido utilizado na criação da música popular desde 1967.


Nelson Ayres Big Band (independente) – Quase quatro décadas após o impacto de sua pioneira big band na então emergente cena instrumental brasileira, o pianista e compositor paulista voltou a ativá-la e, enfim, lança seu disco de estreia. Não pense que se trata de música orquestral para dançar: é jazz da mais alta qualidade.

Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer - “Tradição Improvisada” (Sesc) – Instrumento medieval, precursor do violino, a rabeca pode ser ouvida em várias regiões brasileiras. Seu som áspero aproxima, neste álbum, representantes de tradições bem diversas: o rabequeiro alagoano e o multi-instrumentista suíço, adepto da improvisação livre.

Orquestra à Base de Sopro de Curitiba e Izabel Padovani - “Passarinhadeira” (Tratore) – É difícil acreditar que este disco dedicado às incríveis canções de Guinga possa ter sido gravado ao vivo. Da formação incomum da orquestra, dos sofisticados arranjos e das sensíveis interpretações da cantora nasceu uma coleção de belezas.

Orquestra Mundana Refugi (Sesc) – Liderada pelo violonista e arranjador Carlinhos Antunes, essa orquestra de instrumentação inusitada (formada por músicos refugiados e imigrantes de diversos países, além de alguns brasileiros) mistura no repertório músicas de diferentes tradições – do Haiti e da Andaluzia ao Irã e à Palestina.

Paula Santoro e Duo Taufik - “Tudo Será Como Antes” (independente) – A talentosa cantora mineira se une aos irmãos Eduardo (piano) e Roberto (violão), do Duo Taufic, para recriar sucessos de Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e outros compositores do chamado Clube da Esquina. A leveza dos arranjos chama atenção.   




Paulo Bellinati & Marco Pereira - “Xodós” (Borandá) – Uma amizade de cinco décadas ajuda a explicar a relação quase telepática que caracteriza o encontro desses grandes violonistas.  O repertório do álbum destaca sucessos do sanfoneiro Dominguinhos e de Dilermando Reis, mestre do violão, além de 
composições próprias. 

Poesia - Canções de Carlos Rennó (Sesc) – Letrista conceituado, com mais de 130 canções gravadas por populares intérpretes, Rennó reúne nesse disco 16 de suas canções, incluindo nove inéditas. Para compor esse painel de sua obra, conta com parceiros como Lenine, João Bosco, Chico César, Zeca Baleiro e Arrigo Barnabé.

Raul de Souza - “Blue Voyage” (Sesc) – Trombonista reconhecido mundialmente e mestre do samba-jazz, o carioca de 84 anos oferece a seus fãs um álbum autoral gravado na França. Do contagiante samba “Vila Mariana” à emotiva balada “Primavera em Paris”, passando pela valsa-jazz “St. Martin”, Raul continua em grande forma.

Renato Gama - “Olhos Negros - Vivo” (independente) – Líder da banda paulistana Nhocuné Soul por mais de duas décadas, o cantor e compositor gravou seu primeiro álbum solo. Fusões do samba com o soul, o funk e o reggae dominam suas canções, que abordam com poesia o cotidiano da periferia. Difícil ouvi-las sem dançar.

Rogerio Boccato Quarteto - “No Old Rain” (RPR) – Radicado em Nova York, o baterista paulista estreia como líder, bem acompanhado por Dan Blake (sax tenor e soprano), Nando Michelin (piano elétrico) e Jay Anderson (contrabaixo). Temas de Milton Nascimento, Egberto Gismonti e Toninho Horta ganham novas cores, em criativas versões.

Ron Carter Quartet & Vitoria Maldonado - “Brasil L.I.K.E” (Summit/Tratore) – O cultuado contrabaixista americano e a cantora paulistana gravaram juntos este disco de jazz e bossa nova. Clássicos de Cole Porter, George Gershwin, Tom Jobim e João Donato destacam-se no repertório. Roberto Menescal é um dos convidados.

Rubinho Antunes - “Expedições” (Blaxtream) – O afiado quinteto do trompetista paulista inclui Vinicius Gomes (guitarra), Fabio Leandro (piano), Daniel de Paula (bateria) e Bruno Barbosa (contrabaixo). Composições próprias, como “Silence” e “Indi”, revelam influências do jazz da Europa, onde Rubinho viveu por três anos. 




Sergio Albach - “Clarone no Choro” (independente) – Líder da original Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, esse virtuose do clarinete realizou um projeto inusitado: gravou clássicos do choro, executando os solos com um clarone (ou clarinete baixo), instrumento raramente utilizado na música popular brasileira.

Sergio Galvão, Lupa Santiago, Clement Landais e Franck Enouf - “2x2” (Origin) – O “2x2” do título não tem nada a ver com competição, mas sim com o fato de esse quarteto incluir dois músicos brasileiros e dois franceses. Gravado na França, combina jazz contemporâneo da melhor qualidade com influências da música brasileira.  


Stefano Bollani - “Que Bom” (Biscoito Fino) – Fã assumido da música brasileira, o pianista italiano se superou nesta gravação. Com participações especiais de Caetano Veloso, Hamilton de Holanda, Jacques Morelenbaum e João Bosco, ele toca sambas, choros e baiões de sua autoria com muita liberdade e bom humor.

Thiago Amud - “O cinema que o sol não apaga” (Rocinante) – O 3.º álbum do compositor, cantor e violonista carioca confirma seu prestígio como grande revelação da MPB nesta década. Inventivo tanto nas letras como nos arranjos, Amud dedica esse disco ao compositor mineiro Nelson Ângelo. As gravações contaram com 73 músicos.

Toninho Ferragutti e Salomão Soares (independente) – Representantes de duas gerações de nossa música instrumental, o acordeonista paulista e o pianista paraibano decidiram gravar este álbum depois de tocarem juntos somente duas vezes. O baião “Alegria de Matuto” (de Soares) é uma das faixas mais contagiantes do repertório.

Trio Corrente & Orquestra Jazz Sinfônica (independente) – É tanta a sintonia entre os músicos desse grupo instrumental, que ele pode até atuar como solista num concerto com orquestra. Mesmo uma canção já interpretada de tantas maneiras, como “Garota de Ipanema”, ganhou frescor na versão desse trio com a Jazz Sinfônica.

Trio Puelli - “Radamés Gnattali - Integral das obras para piano, violino e violoncelo” (Sesc) – A pianista Karin Fernandes, a violinista Ana de Oliveira e a violoncelista Adriana Holtz interpretam cinco peças (duas são inéditas) do grande compositor gaúcho, que ignorou as supostas fronteiras entre a música popular e a erudita.

Van Morrison and Joey DeFrancesco - “You’re Driving Me Crazy” (Exile/Sony) – O que mais chama atenção neste encontro do cantor pop irlandês com o organista americano é o suingue de DeFrancesco, que também toca trompete, em algumas faixas. No repertório, standards como “You’re Driving Me Crazy” e “Have I Told You Lately”.

Vintena Brasileira - “[R]existir” (independente) – Comandada pelo criativo pianista e compositor paulista André Marques, essa pequena orquestra de formação incomum também inclui viola caipira, bandolim e guitarras, além de sopros, baixo e bateria. Exemplo inspirador de como a música universal de Hermeto Pascoal frutificou.

Yamandu Costa e Ricardo Herz (independente) – Baião, xote, milonga, choro, chamamé – a diversidade rítmica brasileira está bem representada neste álbum, que une pela primeira vez o violonista gaúcho e o violinista paulista. O resultado é tão atraente que, na certa, esses grandes instrumentistas podem se reunir outras vezes.

Yaniel Matos - “Carabalí” (independente) – Radicado em São Paulo há quase duas décadas, o eclético pianista e violoncelista cubano comanda seu trio Carabalí, com Aniel Someillan (contrabaixo) e Eduardo Espasande (percussão). No repertório, composições de sua autoria calcadas em ritmos de Santiago de Cuba, onde nasceu.

(Agradeço a Katia Medaglia pela sugestão da foto e pelo auxílio na produção)

3º Sampa Jazz Fest: evento exibe os talentos de Carol Panesi e do grupo Meretrio

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                                                A trompetista e compositora Carol Panesi, no 3º Sampa Jazz Fest 


Primeiro, o show do Meretrio, original grupo instrumental paulista que vem criando há 14 anos um repertório bem pessoal e diversificado. Depois, a apresentação da talentosa multi-instrumentista e compositora carioca Carol Panesi, que lançou há pouco seu disco de estreia, “Primeiras Impressões”. 

Dois shows bem diferentes, mas igualmente saborosos, compuseram a segunda noite do Sampa Jazz Fest, na sexta-feira (21/9), em São Paulo. Sentada confortavelmente nas poltronas de uma das salas de cinema do Espaço Itaú, a plateia que se arriscou a ouvir atrações musicais ainda pouco conhecidas foi premiada com boas surpresas.

Emiliano Sampaio -- o líder, guitarrista e trombonista do Meretrio, que vive desde 2012 na Áustria, onde prepara seu doutorado em Composição para Orquestra Sinfônica -- não escondia sua satisfação por poder exibir sua música, novamente, na capital paulista.  A seu lado estavam os mesmos Gustavo Boni (baixo) e Luís André Gigante (bateria), cuja parceria de quase uma década e meia faz muita diferença.  

Como um bem-humorado cicerone, Emiliano (na foto ao lado) logo conquistou a plateia ao apresentar algumas de suas composições. Provocou sorrisos ao revelar que a lírica “O Casamento” nasceu após um sonho, no qual se viu casando a contragosto. Já ao introduzir a experimental “The Answer”, contou que a criou depois de ouvir uma composição do guitarrista britânico Fred Frith. “Eu adoraria ter composto aquela música. Então decidi fazer uma resposta a ela”, explicou.
    
Em meio a influências bem diversas, que vão do rock e da música pop ao blues e ao funk, o trio paulista não deixou de incluir dois arranjos de clássicos da música brasileira, que fazem parte de seu repertório há muito tempo: uma descontraída releitura do choro “Lamentos” (de Pixinguinha) e um arranjo bem livre de “Tico-tico no Fubá” (Zequinha de Abreu), com mudanças de andamento e improvisos de Emiliano e Gustavo.

Já o repertório autoral de Carol Panesi é todo ele calcado na rica diversidade da música brasileira: do sacudido “Forró do Marajó” ao samba “No Balanço da Léa” (dedicado à compositora e flautista paulistana Léa Freire), passando pelo nervoso choro “Ansiosa”, entre outras composições. No trio que a acompanha, destaque para o baixo de Jackson Silva e a bateria de Guegué Medeiros, também presentes em seu disco.

Não foi à toa que, durante o show, Carol agradeceu ao mestre Hermeto Pascoal, assim como ao baixista Itiberê Zwarg, seu mentor e parceiro na Itiberê Orquestra Família por mais de uma década. Suas composições têm personalidade, mas é fácil perceber nelas a influência da inventiva “música universal” de Hermeto. 

Já quase ao final da noite, a violinista, trompetista e vocalista tentou explicar, sem ser explícita, o vínculo de sua composição “A Cara Dela” com temas que têm mobilizado as mulheres, ultimamente. Mais incisiva, uma garota resumiu o assunto, ao gritar da plateia: “ele não!” (a palavra de ordem que vem sendo repetida por milhões de mulheres contra um inominável candidato à presidência do país, que já as ofendeu várias vezes). 

Com um sorriso, Carol concordou com a garota. Há quem pense que a música, assim como outras artes, são mero entretenimento, mas mesmo o fato de a música instrumental dispensar o uso de palavras não a impede de refletir sobre a nossa realidade. 

Discos de 2017: 50 álbuns recomendados de jazz, música instrumental e MPB

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De cara já vou avisando: esta não é uma lista de “melhores” discos de 2017. São tantos os lançamentos na área musical, pulverizados hoje em inúmeros selos independentes e veiculados por meio de diversas plataformas digitais, que é praticamente impossível a qualquer critico ou jornalista especializado ter acesso a toda essa produção, seja no Brasil, muito menos no exterior. 

Na lista que segue, você também não vai encontrar aqueles artistas que os grandes veículos de informação tanto martelaram e ajudaram a divulgar durante o ano passado, geralmente por causa de seus supostos recordes de vendagem ou exposição massiva nas redes sociais, não por méritos musicais. Em três décadas de atividade como crítico especializado, jamais valorizei números de vendas, atitudes marqueteiras ou orientação sexual. Para mim, música tem a ver, antes de tudo, com melodia, harmonia, ritmo, poesia e sensibilidade.

Por isso, aqui vai uma lista com 50 álbuns de música instrumental brasileira, MPB, jazz ou até de música clássica, aos quais tive acesso durante 2017 e que eu recomendo com ênfase. São discos que merecem figurar nas coleções de qualquer um que aprecia essas vertentes musicais. Ou de quem está aberto a ampliar seus horizontes musicais. Aproveite!





Airto Moreira - “Aluê” (Sesc) – Só o fato de esse grande percussionista, catarinense radicado há cinco décadas nos EUA, jamais ter gravado um disco seu no Brasil, já faz desse projeto algo especial. Além de apresentar três composições inéditas, Airto revisita temas de seus discos, como “Misturada” e “Sea Horse”. 

Alessandro Kramer - “Alessandro Kramer Quarteto” (Borandá) – Não confunda este acordeonista e compositor gaúcho com os “gaiteiros” mais típicos dos pampas. Embora domine essa tradição musical, Alessandro se destaca por sua formação eclética, que inclui o choro, a música clássica e o jazz – aliás, improvisa como poucos.

Amaro Freitas - “Sangue Negro” (independente) – Para quem aprecia música instrumental, é muito estimulante ver surgir um talento como esse pianista e compositor pernambucano de 26 anos, que mistura referências jazzísticas e regionais. Seu inusitado frevo-balada “Subindo o Morro” é de uma beleza encantadora.

Amilton Godoy e Léa Freire - “A Mil Tons” (Maritaca) – A flautista paulista reverencia a obra do pianista e compositor, ex-integrante do lendário Zimbo Trio, tocando com ele em duo. No repertório, belezas de Amilton como “Santa Cecilia” e “Teus Olhos”, além das suingadas “Três Irmãos” e “Teste de Som”.

André Marques Sexteto - “DiverCidades” (independente) – O brilhante pianista paulista (integrante do grupo de Hermeto Pascoal) prossegue sua pesquisa de ritmos brasileiros. Cururu, catira, chacareira e maracatu são alguns dos ritmos que inspiraram as novas composições de André, que ele interpreta com seu sexteto.

Antônio Adolfo - “Hybrido - From Rio to Wayne Shorter” (AAM) – Muito bem acompanhado, o pianista carioca apresenta saborosos arranjos para composições Wayne Shorter, um dos grandes saxofonistas e autores do jazz norte-americano. Pérolas como “Ana Maria” e “Beauty and the Beast” ganham suingue brasileiro.

Antônio Meneses e André Mehmari - “AM 60 AM 40” (Sesc) – Para quem não acredita em fronteiras entre o que se convenciona chamar de música clássica e música popular, nada mais estimulante do que este encontro do cultuado violoncelista com o virtuose do piano. No repertório, peças de Bach, Piazzolla, Jobim e Mehmari.

Arismar do Espírito Santo - “Flor de Sal” (Maritaca) – A verve humorística desse grande músico paulista, multi-instrumentista e compositor, já vem expressa nos títulos de faixas que integram seu álbum. Quem mais batizaria composições como a saltitante “Saci de Crocs” ou o vertiginoso samba-jazz “Tubarão na Coleira”? 





Banda Mantiqueira - “Com Alma” (Sesc) – A big band paulista festeja 25 anos em grande estilo. Revisita composições próprias, homenageia os mestres Moacir Santos, Tom Jobim, João Bosco e Dizzy Gillespie. E conta com participações especiais do trompetista Wynton Marsalis e do violonista Romero Lubambo.

Benjamim Taubkin, Itamar Doari e João Taubkin - “O Pequeno Milagre de Cada Dia” (Núcleo Contemporâneo) – Quem já assistiu ao belo documentário “O Piano que Conversa” (de Marcelo Machado) vai reconhecer algumas destas sensíveis conversas musicais do pianista com a percussão do israelense Doari e o baixo de João.

Breno Ruiz - “Cantilenas Brasileiras” (independente) – Revelação na área da canção, o pianista e cantor de Sorocaba (SP) estreia com uma sólida coleção de composições. Entre choros e valsas, há até lundus e modinhas de sabor moderno, com letras assinadas por ninguém menos que Paulo César Pinheiro.

Carlos Ezequiel - “Circular” (independente/Tratore) – Jazz contemporâneo e música instrumental brasileira da melhor qualidade, no álbum desse baterista e compositor alagoano, que vive em São Paulo. O quinteto de Ezequiel destaca o saxofonista norte-americano David Binney e o guitarrista norueguês Lage Lund.

Chico Buarque - “Caravanas” (Biscoito Fino) – A espera de seis anos valeu. Em composições como a contagiante “Massarandupió” (parceria com o neto Chico Brown) e a impactante “As Caravanas”, que não deve nada às suas obras-primas, Chico Buarque mostrou a fãs e desafetos que continua a ser um craque da canção.

Cibele Codonho - “Afinidade” (Eldorado). A cantora paulistana, ex-integrante do grupo vocal A Três, interpreta com classe conhecidas canções de João Bosco, Milton Nascimento, Dori Caymmi e Ivan Lins, entre outros. Participações do violonista Filó Machado e do cantor Mark Kibble (do grupo vocal Take 6).

Cleber Almeida Septeto - “Música de Baterista” (independente) – Não se iluda pelo título. A música desse inventivo baterista, integrante do Trio Curupira, valoriza bastante melodias e harmonias, além dos ritmos. É o que revelam seus belos arranjos e composições como “Livre”, “Subjetiva” e “Vó Landa Vó Cema”.

David Feldman - “Horizonte” (independente) – Participações de Raul de Souza (trombone) e Toninho Horta (violão e voz) valorizam a arte desse pianista carioca. Faixas como a sensível “Navegar”, a balada “Tetê” e a bossa “Sliding Ways” provam que o talento de Feldman também se estende à área da composição. 



Deangelo Silva - “Downriver” (independente) – Mais uma revelação recente da fértil cena musical de Belo Horizonte (MG). Vencedor do prêmio BDMG Instrumental 2017, o pianista estreia em disco com repertório autoral, marcado por sofisticadas referências jazzísticas e admirável habilidade nos improvisos.

Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise - “Dos Navegantes” (Biscoito Fino) – Belezas de Edu, como “Valsa Brasileira” e “O Circo Místico” (parcerias com Chico Buarque), entre outras, ganham aqui versões despojadas, com o próprio autor e dois craques da música instrumental: Lubambo (violão) e Senise (flauta).

Fabiana Cozza - “Ay Amor!” (Biscoito Fino) – Ao gravar este tributo ao carismático “cantautor” cubano Bola de Nieve (1911-1971), a cantora paulista dá, literalmente, um show de interpretação. Difícil não se emocionar ao ouvir suas versões das pungentes canções “Vete de Mi” ou “Be Careful, It’s My Heart”.

Fábio Torres - “De Cara pro Sol” (independente) – Pianista do premiado Trio Corrente, Fábio reúne 11 composições em seu segundo álbum autoral. Aqui explora formações camerísticas e solos de piano. A balada “Caroline” e a valsante “Pra Esquecer das Coisas Úteis” são apenas algumas das belezas desse projeto.

Grooveria - “Moto Contínuo” (independente/Tratore) – O samba e a black music se misturam no terceiro álbum desse coletivo paulista. Em meio a contagiantes composições próprias, as releituras de “Jorge Maravilha” (Chico Buarque) e “Berimbau” (Baden e Vinicius) já fazem sucesso há anos nos shows da Grooveria.

Guinga + Quarteto Carlos Gomes - “Avenida Atlântica” (Sesc) – As cordas do Quarteto Carlos Gomes emprestam sonoridades clássicas a novos arranjos de composições de Guinga, como “Saci” e “Odalisca”. Reforçam também o tom emotivo de canções mais recentes, como a instrumental “Tom e Vinícius” e a belíssima “Meu Pai”.

Gustavo Bombonato - “Novos Horizontes Apontam” (independente) – Uma boa surpresa a estreia deste pianista de Votuporanga (SP). Tocando composições próprias, como as jazzísticas “Cone de Fogo” e “Mr. Spaik”, ele traz a seu lado músicos de alto quilate, como Nenê (bateria) e Alberto Luccas (contrabaixo). 



Heloísa Fernandes - “Faces” (Borandá) – A talentosa pianista paulista criou o material desse álbum e o gravou depois de enfrentar risco de morte. Assim nasceram composições como “Mergulho” e “As Três Graças”, que revelam a sensibilidade e a habilidade de Heloísa para improvisar, com emoção à flor da pele.

Hermeto Pascoal & Big Band - “Natureza Universal” (Natura Musical) – Ausente dos estúdios havia 15 anos, o genial bruxo de Lagoa da Canoa (AL) lançou dois álbuns em 2017. Aqui sua “música universal” é traduzida para o formato orquestral. A imagem de seu discípulo Jovino Neto é perfeita: uma cachoeira de sons.

Hermeto Pascoal & Grupo - “No Mundo dos Sons” (Sesc) – Neste álbum duplo, Hermeto toca com os ótimos músicos de seu sexteto. Entre as 18 faixas há homenagens a Miles Davis, Tom Jobim, Ron Carter, Chick Corea e Astor Piazzolla. Depois de um longo hiato sem discos do bruxo, nada como ouvi-lo em dose dupla.

Igor Willcox - “#1” (independente) – O jazz de fusão dos anos 1970 e 1980 é a referência para várias das faixas do primeiro álbum do baterista e compositor paulista. Com participação especial do trombonista Bocato e o órgão de Vini Morales, o jazz-soul “Julie’s Blues” é uma das faixas mais contagiantes.

Isca de Polícia - “Isca - Volume 1” (Elo/Tratore) – A banda do incrível Itamar Assumpção (1949-2003) lança o primeiro disco sem ele. Fiel ao espírito musical de seu mentor, mas sem saudosismo, a Isca segue em frente com canções próprias e parcerias com Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro.

Jaques Morelenbaum, Marcos Suzano, Benjamim Taubkin e outros - “Música na Serrinha” (Nucleo Contemporâneo) – Músicos de diversos países criando coletivamente durante o Festival de Artes da Serrinha (2015). Inclui DVD com documentário de Marcelo Machado, que registrou essa vivência artística.  



Jovino Santos Neto e André Mehmari - “Guris” (Adventure Music) – A ideia é inusitada: dois grandes pianistas celebram em duo a música de Hermeto Pascoal. No repertório, clássicos do bruxo, como “Aquela Valsa” e “Igrejinha”, além de composições de Jovino e André. O próprio homenageado surge em três faixas.

Lilian Carmona, “The First” (Sesc) – Primeiro álbum da experiente baterista paulista. Os saborosos arranjos de Débora Gurgel, Julinho Figueiredo, Pablo Zumarán e Bruno Alves para o bem escolhido repertório, assim como as feras que integram a banda, explicam a vontade de se ouvir este disco outras vezes.

Makiko Yoneda - “Brasileirismo” (independente) – Japonesa radicada em São Paulo, a pianista e compositora confirma sua afinidade com a música instrumental brasileira. Acompanhada por Jamil Joanes (baixo) e Marcio Bahia (bateria), craques do gênero, ela mistura ritmos brasileiros e referências clássicas com sensibilidade.

Mani Padme Trio - “Vô o” (Baticum) - Cubano que escolheu São Paulo para viver, o pianista Yaniel Matos integra esse inventivo trio com o baixista Sidiel Vieira e o baterista Ricardo Mosca. Com sentimento e bastante liberdade, eles releem canções de Milton Nascimento e Dorival Caymmi, assim como tocam material autoral.

Mário Adnet - Saudade Maravilhosa” (Sesc) – Uns dos grandes arranjadores brasileiros, Adnet exibe neste álbum belas composições de sua autoria, acompanhado por músicos cariocas do primeiro time. Completando o repertório, arranjos de “Viver de Amor” (Toninho Horta e Ronaldo Bastos) e “Caravan” (Ellington).

Marcus Santurys, Luiz Bueno e Alexandre Lora - “Gangha Indian Groove” (Fine Music). A instrumentação, com cítara e tablas, é típica da música indiana tradicional, mas o repertório é inusitado. “Raga Blues” e “Samba da Áurea” estão entre as surpresas oferecidas por esse trio adepto de fusões contemporâneas. 




Monica Salmaso - “Caipira” (Biscoito Fino) – A cantora paulista garimpou mais uma coleção de pérolas. Canções que remetem ao universo caipira, assinadas por Cartola, Passoca, Gilberto Gil e Roque Ferreira, entre outros, ganham brilho especial graças aos arranjados despojados e ao canto sublime de Monica.

Nelson Ayres e Ricardo Herz - “Duo” (independente) – Um inspirado encontro de duas gerações da música instrumental brasileira. O pianista e o violinista (cujo trio também lançou neste ano o ótimo álbum “Torcendo a Terra”) tocam composições próprias, como a lírica “Céu de Outono” (Ayres) e a “Valsa Tímida” (Herz).

Neymar Dias - “Feels Bach” (Estúdio Monteverdi/ Tratore) – Depois de interpretar canções dos Beatles com sua viola caipira, o virtuoso violeiro e contrabaixista encara o desafio de dedicar um álbum a obras de Bach (1685-1750). E não é que ele consegue que a viola soe barroca sem perder seu sotaque caipira?

Pó de Café - “Terra” (independente) – O grupo instrumental de Ribeirão Preto (SP) tem se superado a cada álbum. Desta vez recria pérolas da canção caipira, usando sonoridades jazzísticas e muita improvisação. A releitura da moda de viola “Rio de Lágrimas” (de Tião Carreiro, Piraci e Santos) é uma delícia.

Prettos - “Essência da Origem” (independente) – Craques do samba paulista, Magnu Sousá e Maurilio de Oliveira comandavam o Quinteto em Branco e Preto. Agora em dupla, eles celebram a diversidade desse gênero musical, em composições que vão do partido alto ao sambalanço, incluindo até influências da black music.

Rafa Castro - “Fronteira” (independente) – “Casulo”, a primeira faixa, já estimula a atenção do ouvinte com sua atmosfera de sonho. Participações especiais de Monica Salmaso (voz) e Teco Cardoso (sax soprano) referendam a música inventiva desse compositor e vocalista mineiro, que traz Milton Nascimento entre suas influências.

Rafael Martini - “Suíte Onírica” (independente) – Este projeto do talentoso compositor mineiro é ambicioso, no melhor sentido do termo: uma suíte em cinco movimentos, que se referem aos estágios do sono. Martini conta com um coral e a Orquestra Sinfônica da Venezuela. O (delirante) texto é assinado por Makely Ka.

Renato Borghetti e Yamandu Costa - “Borghetti Yamandu” (Natura Musical) – Encontro de dois brilhantes instrumentistas gaúchos. O gaiteiro e o violonista mergulham com virtuosismo na tradição musical dos pampas, tocando rancheiras e temas folclóricos, como “Prenda Minha”, além de composições de Borghetti.

Theo de Barros - “Tatanaguê” (independente) – Autor da clássica “Disparada” (com Geraldo Vandré), o compositor carioca mostra outras belas canções – 13 delas letradas por Paulo César Pinheiro. A escolha do cantor Renato Braz para interpretar quase todas soa perfeita, assim como a participação de Monica Salmaso.




Tulio Araujo - “Monduland” (independente) – Na música cosmopolita desse percussionista mineiro, o pandeiro é protagonista. Clássicos choros de Pixinguinha (“Um a Zero”) e Garoto (“Lamentos do Morro”) dividem o repertório do álbum com composições de Araújo, cujos arranjos revelam influências jazzísticas. 

Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta - “Dorival” (Pau Brasil) – Esses craques da música instrumental recriam com muita liberdade clássicos de Dorival Caymmi, como “Dora” e Só Louco”. Vale lembrar que, duas décadas atrás, esse mesmo quarteto gravou o cultuado álbum “Forças D’Alma”.

Vento em Madeira - “Arraial” (Maritaca) – A sensação de prazer ao tocar, que esse quinteto paulista transmite em suas apresentações, também está estampada em seu terceiro álbum. Faixas como “Samba do Lana” e “Pintou Um Grilo” (composições da flautista Lea Freire”) revelam alegria pura em forma de música.

Vinícius Gomes - “Resiliência” (Blaxtream) – À frente de seu quinteto formado por outros craques da cena instrumental paulistana, o talentoso guitarrista e violonista assina as 10 faixas de seu primeiro álbum autoral. Emoções garantidas ao se ouvir a nervosa “Êxodo” (com Fernando Amaro) e a lírica “Ano Novo”.

Xenia França - “Xenia” (Natura Musical) – Baiana radicada em São Paulo, ela ainda é mais conhecida como vocalista da banda Aláfia. Neste estimulante álbum solo, recheado de referências da black music, da percussão afro-baiana e até do jazz, Xênia aborda com leveza temas como racismo e emancipação feminina.

Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum - “Invento +” (Biscoito Fino) – Não leve o título do álbum à risca. A cantora e o violoncelista interpretam 14 canções de Milton Nascimento, num projeto marcado pela simplicidade. Ainda assim as despojadas releituras da dupla realçam belezas menos evidentes desse precioso repertório.


Projeto B: quinteto combina referências do jazz de vanguarda e da música contemporânea

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É provável que você já os tenha ouvido, ao lado de intérpretes do pop nacional ou tocando com outros grupos instrumentais. Mas é como músicos do Projeto B que Yvo Ursini (guitarra), Leonardo Corrêa (saxofones), Amílcar Rodrigues (trompete), Henrique Alves (baixo) e Mauricio Caetano (bateria) se superam. 

Criar uma obra musical de personalidade, combinando referências do jazz de vanguarda, do som instrumental brasileiro e da música erudita contemporânea não é para qualquer um. “Isso”, o quarto álbum do quinteto (lançamento Panela/Tratore), deve ser ouvido com atenção absoluta.

Não bastasse a qualidade do material próprio – como a alucinante “Labirinto” (de Corrêa) ou o quase funk “339” (Ursini), com um poema de Arnaldo Antunes que ele mesmo entoa –, o repertório inclui adaptações de peças de compositores contemporâneos, como György Ligeti (“Música Ricercata nº7”) ou Claude Debussy (“Des Pas Sur la Neige”). Difícil não sorrir ao escutar “Canção de Ninar para Pedro” (Corrêa), que simula um pesadelo. 

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos & Filmes", edição final, em 30/04/2016)

 

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