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Filó Machado: novo álbum instrumental com melodias contagiantes e muita alegria

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                                  O violonista e compositor paulista Filó Machado - Foto de Dani Gurgel/Divulgação
 

Filó Machado vive um momento especialmente feliz e produtivo, neste final de 2024. No mesmo 20 de dezembro, dia em que seu novo álbum “Cisne Negro” vai estrear nas plataformas de streaming com canções de sua autoria em parceria com o saudoso letrista Aldir Blanc, o compositor e violonista paulista lança também “A Música Negra de Filó Machado” – álbum com 11 temas instrumentais compostos por ele desde meados da década de 1970.

O rótulo “música negra” soa bem adequado ao repertório desse disco, que reúne sambas, baiões, muito swing e improvisos jazzísticos, destacando alguns dos melhores músicos da cena instrumental de São Paulo. Depois de me deliciar ouvindo esse álbum, penso que ele também poderia se chamar “A Música Feliz de Filó Machado”, tamanhas são as doses de alegria e de prazer, que esse mestre da arte musical e sua banda de craques transmitem nessas gravações.

“Para mim, é sempre uma alegria muito grande tocar com esses músicos, porque somos amigos e a gente se diverte muito quando estamos juntos. Faço música pensando numa coisa legal, numa coisa pura. Por isso, nunca fiz sucesso”, brinca Filó, ironizando as dificuldades que enfrentou durante as duas primeiras décadas de sua carreira profissional, quando tocava em bares e boates da noite paulistana.

Reconhecido na Europa

A virada na trajetória musical desse paulista de Ribeirão Preto começou no final dos anos 1980, quando decidiu tentar a sorte na Europa. Durante sete anos ele se apresentou em diversos países daquele continente, incluindo alguns festivais e palcos de prestígio. Na França, especialmente, conquistou muitas plateias e as atenções de dois músicos conceituados: o pianista e compositor de trilhas cinematográficas Michel Legrand e o guitarrista de jazz Sylvain Luc, que se tornaram seus parceiros.

“Michel me valorizava muito como músico. Éramos como irmãos.”, relembra Filó, que dedicou a ele a composição “To My Friend Legrand”, após receber a notícia de sua morte, em 2019. Curiosamente, essa bela e melancólica balada é a única faixa que não adere à alegria predominante no repertório desse disco – aliás, sete das onze faixas são dedicadas a amigos e parceiros musicais de Filó.

Para abrir o álbum, ele escolheu “Jojô”, um tema dançante em ritmo cubano que os músicos das antigas chamariam de chá-chá-chá, apimentado com um naipe de instrumentos de sopro. Essa faixa é dedicada à Dra. Joelma Florencio, sua dentista. “A Jojô se arriscou durante a pandemia, para fazer implantes dentários e cuidar da minha saúde. Fiquei tão grato que decidi fazer essa música para ela”, conta o compositor.

Contagiante também é o baião “Wal”, dedicado a Walquíria, uma fã que ia com frequência ao bar paulistano Boca da Noite, nos anos 1980, para ouvir Filó. Já a jazzística “L’Habitant du Ciel” – com destaque para as exuberantes participações do saxofonista JP Barbosa e do baixista Thiago Espírito Santo – é uma homenagem a Zito Vieira (pai da produtora paulista Lucia Rodrigues), que morreu no período em que Filó vivia na França. O título da composição se refere ao fato de seu amigo ter sido sepultado em um cemitério vertical da cidade de Santos, no litoral paulista.

Sambas para os amigos

Filó também dedicou composições a três músicos que admirava. No samba “Vadeco”, ele relembra o guitarrista de São José do Rio Preto, que o ajudou com muitas dicas musicais, na época em que ainda tocava em bailes, no interior paulista. “Tema pro Macumbinha” é um samba bem suingado, que Filó dedicou ao violonista paulistano, seu compadre, que morreu tragicamente junto com sua família, em 1977, num acidente de vazamento de gás.

Tema Pro Tio” é um descontraído tributo ao pianista e compositor Laércio de Freitas, muito querido na cena musical de São Paulo, que se foi em meados de 2024. De essência jazzística, essa é a faixa mais livre do disco. Para realizar a gravação, Filó convidou Arismar do Espírito Santo para um duo de violões. “Já cheguei com o tema pronto no estúdio e disse pro Arismar: ‘Vâm’bora’, mas ele perguntou: ‘Como é que a gente vai fazer?’. Respondi: ‘Você fez uma pergunta dessas pra mim? Tá envelhecendo, né?’, diverte-se Filó, rindo da provocação que fez ao parceiro. Como ele, Arismar é conhecido por ser um grande improvisador.

Até mesmo ao homenagear Ligia Zveibil, sua esposa, que morreu um ano atrás em decorrência de um câncer, Filó conseguiu driblar a melancolia. “Ela sofreu demais. Fiquei completamente desnorteado”, relembra, emocionado. Ao compor o suingado tema “Zveibil Song”, o compositor preferiu perpetuar a alegria e leveza que caracterizavam sua relação com Lígia. Filó gravou essa música sozinho, improvisando vocais sem palavras e estalando os dedos, além de tocar teclados.  

Mesmo quando não são dedicados a alguém em particular, os temas instrumentais de Filó remetem a lembranças particulares ou mesmo a histórias que ele conta com prazer. Como a do sinuoso “Baião do Porão”, composto na década de 1980, quando o músico morava em uma casa no bairro de Vila Mariana, em São Paulo. “A gente sempre estava ensaiando no porão daquela casa”, comenta Filó, lembrando também que chegou a gravar esse tema com músicos da França e, mais tarde, na Itália, quando vivia na Europa.

Na cabine de um avião

Mais inusitado é o seu relato da criação de “Plano de Voo”, samba com uma melodia que lembra trilhas sonoras de filmes épicos. Em 1979, Filó voltava de um show em Campo Grande (MS), quando a aeromoça do voo o levou até a cabine de comando. O piloto era um fã que costumava ouvi-lo no Boca da Noite e o convidou a apreciar a vista panorâmica. Filó desceu do avião, levando uma irresistível composição, que nasceu durante o voo. 

Finalmente, “Tarde de Novembro” é uma rara incursão de Filó pelo universo da música clássica. Essa sonata pouco convencional, composta por ele em 1975, inclui entre seus seis movimentos um samba, uma mazurca e uma bachiana. No primeiro movimento, destaca-se a voz de Isabela Mestriner Machado, filha de Filó, que é cantora lírica.

Ao comentar essa faixa, Filó relembra que estudou a música clássica de Bach, assim como obras de autores mais contemporâneos, como Stravinski, Bártok e Berg, estimulado por Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), influente compositor e educador alemão, que viveu suas últimas três décadas no Brasil. Filó chegou a cursar um estágio de um mês, com 12 horas diárias, ministrado por ele. “Como eu tocava na noite, só podia dormir duas ou três horas por dia para chegar a tempo nas aulas, que começavam às 8h da manhã”.  

No final de 1996, quando Filó retornou ao país depois sete anos tocando na Europa, este repórter ainda teve que explicar aos editores do caderno de cultura da “Folha de S. Paulo” porque ele merecia ser tema de uma reportagem. “O meu desejo é que dê certo aqui. Nunca pensei em ficar vivendo no exterior”, me disse Filó, ao entrevista-lo. “Durante a fase mais difícil, cheguei até a pensar que havia algum problema com a minha música”, admitiu, já mais consciente do alto conceito que desfruta nos meios musicais.

Banda de craques

Por essas e outras, quase três décadas mais tarde, hoje é um prazer especial sentir a alegria de Filó Machado ao lançar seu 15.º álbum ao lado de craques da música instrumental produzida em São Paulo, como Daniel D’Alcântara e Sidmar Vieira (trompetes), Jorginho Neto (trombone), JP Barbosa (sax tenor), Salomão Soares (teclados), Thiago Espírito Santo (baixo elétrico) e Fábio Leandro (piano acústico). Sem falar no talento musical da família de Filó, que cresce a cada ano, muito bem representada por seu neto Felipe (voz e violão), seu filho Sérgio (bateria) e seu irmão Gera (percussão).

“As coisas mudaram muito, porque antigamente você sempre estava na dependência de alguma coisa”, compara hoje o compositor e cantor, referindo-se às dificuldades que ele e muitos artistas enfrentavam para lidar com as gravadoras e os meios de comunicação, antes do advento da internet e das redes sociais. “Hoje estou muito mais feliz fazendo minha música”, afirma.

Outra mudança trazida pelas redes sociais, segundo Filó, é o acesso direto e mais fácil aos fãs. “Agora eu crio minhas músicas e já não me sinto sozinho como antes. Eu posto alguma coisa minha nas redes e, de repente, já tem 30 mil, 50 mil, 100 mil visualizações. Daí eu me sinto na responsabilidade de continuar fazendo música com mais de cinco acordes”, diverte-se. “Hoje eu sinto que tenho espaço para fazer meu trabalho. Quem gosta da minha música vai curtir no Brasil, na Nova Zelândia, na Inglaterra, na Coreia, na China, em todo lugar”, comemora o hoje realizado compositor e instrumentista.

                                                                 (Texto escrito a convite da produção do artista)

"A Música Negra de Filó Machado" - 15.º álbum do violonista, compositor e cantor paulista chega às plataformas de streaming neste dia 20/12.




Festival BB Seguros e FAM Festival: blues, jazz e música instrumental de graça em São Paulo

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                                  Banda de metais e a plateia do Festival BB Seguros de Blues e Jazz em 2018

Se você vive na cidade de São Paulo e gosta de blues, de jazz ou de música instrumental não pode reclamar de falta de programas neste último final de semana de julho. Shows gratuitos com músicos conceituados estão na programação de dois festivais que serão realizados em parques paulistanos.

Em sua 5.ª edição, o Festival BB Seguros de Blues e Jazz retorna ao Parque Villa-Lobos, no sábado (27/7), com um cardápio musical de boa qualidade. A principal atração é o guitarrista e cantor americano Robert Cray, um dos grandes responsáveis pela revitalização do blues a partir dos anos 1980.

A música instrumental brasileira está muito bem representada pelo trio do violinista Ricardo Herz e pelo baixista Thiago Espírito Santo, que terá como convidado especial o gaitista Mauricio Einhorn. Os fãs do rock não foram esquecidos: além do encontro dos veteranos guitarristas Sérgio Dias e Luiz Carlini, o programa inclui um tributo ao guitarrista e bluesman Eric Clapton.

Mais diversificada é a programação do 4.º FAM Festival, que será realizado no Parque Burle Marx, no sábado e no domingo (27 e 28/7). Entre várias performances e intervenções artísticas, a programação musical de domingo chama mais atenção. Tem música instrumental com o Septeto Emesp e, na sequência, com o acordeonista Toninho Ferragutti. Mais ligado ao jazz, o saxofonista Marcelo Coelho e seu grupo McLav-In recebem como convidada a talentosa cantora Vanessa Moreno.

Também se destacam no programa uma homenagem ao lendário grupo cubano Buena Vista Social Club, com o pianista Pepe Cisneros e a cantora Teresa Morales. No show de encerramento, a cantora Alma Thomas interpreta clássicos da soul music de Aretha Franklin, com participação especial do cantor Ed Motta.  


Mais blues

Muito recomendável também para os fãs do blues é o show do pianista, compositor e cantor Adriano Grineberg, neste sábado (27/7), no teatro do Sesc Belenzinho. Um dos expoentes desse gênero musical em nosso país, ele lança o álbum “108”, que leva adiante o conceito do anterior “Blues for Africa” (2013). Algumas das novas composições de Grineberg resultam de viagens à Índia, ao Paquistão e ao Oriente Médio.

Outras informações nos sites do Festival BB Seguros de Blues e Jazz e do FAM Festival

 

Bourbon Festival Paraty: evento traz Wallace Roney, Joe Louis Walker e Grégoire Maret

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                                                               O trompetista Wallace Roney e o baixista Curtis Lundy

Num ano tão difícil, em que vários eventos culturais têm sido cancelados por falta de patrocínio ou de apoios financeiros, o Bourbon Festival Paraty anuncia sua nona edição. De 9 a 11 de junho (sexta a domingo), a cidade histórica do litoral fluminense recebe conceituadas atrações internacionais, como o trompetista de jazz Wallace Roney, o bluesman Joe Louis Walker e o gaitista Grégoire Maret, além de atrações locais de boa qualidade. Toda a programação é gratuita.

A redução dos três palcos habituais para apenas um, na Praça da Matriz de Paraty, já indica que o evento foi obrigado a encolher. “Por não contarmos com os patrocinadores das últimas edições, tivemos que tomar uma difícil decisão: não realizar o festival ou realizá-lo menor, com menos artistas e palcos, mas mantendo a alta qualidade artística que é a marca registrada do festival”, explica Edgard Radesca, criador e produtor do evento.

Discípulo assumido de Miles Davis (1926-1991), com o qual chegou a se apresentar, o trompetista norte-americano Wallace Roney atualiza o hard bop que seu mentor desenvolveu nos anos 1950 e 1960. Seu quinteto atual inclui Benjamin Solomon (sax tenor), Oscar Williams (piano), Curtis Lundy (baixo acústico) e Eric Allen (bateria).

Astro em ascensão na área do blues, o guitarrista, cantor e compositor californiano Joe Louis Walker tem frequentado os principais festivais internacionais do gênero. A seu lado estarão Murali Illya Coryell (guitarra), John Bradford (baixo) e Anthony Cage (bateria).   

 
Revelação da gaita de boca, também chamada de harmônica, o suíço Grégoire Maret (na foto ao  lado) já acompanhou grandes astros do jazz, como Herbie Hancock, Cassandra Wilson, Pat Metheny e George Benson, entre outros. Em Paraty, ele dividirá o show com o talentoso baixista Thiago Espírito Santo, ao lado de outros dois craques da cena instrumental paulistana: Cuca Teixeira (bateria) e Bruno Cardozo (piano).

No elenco nacional, também se destacam o saxofonista carioca Leo Gandelman, o trio paulistano Hammond Grooves, o trio 3x1 (com o sanfoneiro Mestrinho, o baixista Pipoquinha e o baterista Alex Buck), o guitarrista Marcinho Eiras e a cantora Bell Brazil (com participação do cantor e violonista Filó Machado). Blueseiros como Jefferson Gonçalves, Vasco Faé e John Wesley farão aparições pelas ruas da cidade. 


Os paulistanos podem curtir duas atrações do evento sem precisarem ir a Paraty. Wallace Roney toca dia 6/6 (terça) no Bourbon Street Music Club, onde Joe Louis Walker também vai se apresentar, na noite seguinte (quarta). 

Mais informações: www.bourbonfestivalparaty.com.br
 

Toninho Ferragutti: acordeonista forma quinteto de craques em seu álbum "A Gata Café"

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É muito provável que uma enquete organizada entre especialistas, para eleger o acordeonista brasileiro mais completo, termine com a escolha de Toninho Ferragutti. Ao longo de três décadas de carreira, esse eclético músico e compositor paulista já exibiu seu talento em inúmeros shows e gravações, tocando choros, valsas, sambas, ritmos nordestinos e sulistas, jazz e música instrumental, além da música erudita – algo raro entre os acordeonistas de nosso país.

Essa facilidade de transitar por diversos gêneros e estilos musicais, assim como sua técnica apurada sempre posta a serviço da emoção, são evidentes em “A Gata Café” – o décimo álbum de Ferragutti, lançado com o selo de qualidade da gravadora Borandá, com a qual desenvolve antiga parceria. Gravado em São Paulo, em janeiro de 2016, esse projeto reúne 10 composições do acordeonista e arranjador.

Quem conhece a discografia de Ferragutti sabe que durante a última década ele já experimentou diversas formações camerísticas em seus álbuns: o quinteto de cordas de “Nem Sol Nem Lua” (2006); o noneto de “O Sorriso da Manu” (2012); os duos com o acordeonista Bebê Kramer, com o violeiro Neymar Dias ou com o violonista Marco Pereira, respectivamente, em “Como Manda o Figurino” (2011), “Festa na Roça” (2013) e “Comum de Dois” (2014).

Ao planejar o álbum “A Gata Café”, Ferragutti decidiu formar um quinteto de sonoridade mais próxima do jazz. Para isso convidou quatro jovens talentos da cena da música instrumental, com os quais ainda só havia tocado separadamente: o saxofonista Cássio Ferreira, o baterista Cleber Almeida, o baixista Thiago Espírito Santo e o violonista e guitarrista Vinícius Gomes.

“Quando surgiu a oportunidade de gravar, pensei que eles seriam perfeitos para um projeto como esse”, comenta o acordeonista, destacando as qualidades de seus novos parceiros. “São músicos antenados, na faixa dos 30 e poucos anos de idade, que também produzem, compõem e tocam qualquer estilo musical, sem qualquer dificuldade técnica. Aliás, os quatro também desenvolvem trabalhos próprios. Sou fã dessa geração”.

Como os parceiros de seu quinteto, Ferragutti também cresceu ouvindo diversos gêneros musicais. “Por causa do acordeom tive a possibilidade de entrar em contato com um lado mais tradicional da música. Ao mesmo tempo sempre fui interessado por música erudita e jazz”, afirma o paulista nascido na interiorana cidade de Socorro, cuja formação musical foi bem diferente do padrão seguido por outros acordeonistas.

“Só no final da década de 1980 é que eu fui escutar acordeonistas como o Dominguinhos ou o Luiz Gonzaga. Eu ouvia muitos saxofonistas, porque meu pai tocava saxofone”, conta Ferragutti, admitindo que essa experiência bem particular contribuiu para moldar seu estilo ao acordeom. “O saxofone é um instrumento de sopro com palheta de bambu; já a sanfona tem palhetas de aço. A proximidade entre esses dois instrumentos é grande, inclusive no fraseado, no pensamento melódico”, justifica.   

 
                                                          Vinicius (esq. para dir.), Thiago, Cássio, Toninho e Cleber
 
Ferragutti já havia participado de grupos com formações semelhantes à do atual quinteto, quando tocava em gafieiras, na década de 1980. Não à toa, ao definir o repertório de “A Gata Café”, decidiu regravar duas de suas composições daquela época: os contagiantes choros “O Mancebo” (inspirado no álbum “São Paulo no Balanço do Choro”, do pianista Laercio de Freitas) e “Chapéu Palheta”, gravados originalmente no final dos anos 1990.

“Esses choros foram feitos para dançar. São choros sambados, que amadureceram em salões de gafieira”, comenta o acordeonista, ressaltando a marcante influência que recebeu desse gênero musical. “Sempre toquei choro. Gosto de improvisar, mas sem romper a estrutura, mantendo uma linha tênue entre o floreado típico do choro e a improvisação”.

Outra faixa do álbum que remete aos populares salões de dança é o samba-canção “Santa Gafieira”, que Ferragutti compôs por volta de 2007 para o projeto “Panorama do Choro Contemporâneo Paulista”, já com a formação de quinteto em mente. “Essa é uma daquelas músicas lentas que você toca no final da noite, numa gafieira, quando as pessoas já estão indo embora para casa, como uma despedida”, explica.

Também feito por encomenda, o saltitante frevo “Bipolar” foi composto a pedido do saxofonista e maestro pernambucano Spok. O curioso título se deve, segundo Ferragutti, à sua preferência por músicas mais melancólicas. “Para tocar frevo você tem que estar bem alegre, mas, conforme compunha essa música, eu ia ficando triste e escolhia acordes menores. Daí surgiu a ideia do nome da música”, admite, rindo.

O conhecido lirismo de Ferragutti está muito bem representado pela delicada valsa que empresta seu título ao álbum. “A Gata Café” foi inspirada por um episódio real: uma gata à procura de um novo teto, que despertou a atenção do acordeonista e de seus vizinhos, no bairro paulistano de Pompéia, no final de 2015. “Todo mundo tem um lado bonito dentro de si. Esse bicho fez com que a solidariedade das pessoas se manifestasse. Todos na rua deixavam uma cumbuquinha com ração e outra com água para o bicho. Ai ele começou a entrar em minha casa e hoje dorme lá na cama”.

Curiosamente, só depois de algumas semanas, quando já havia composto e batizado a valsa, Ferragutti veio a perceber que a atraente Café era, na verdade, um gato. “Justo eu que cheguei a estudar veterinária por três anos, em Botucatu, antes de me mudar para São Paulo. Acho que faltei na aula sobre gatos”, diverte-se o compositor. “Mesmo que soubesse disso antes, eu não mudaria nada”.

A dançante “Com a Búlgara Atrás da Orelha”, faixa inicial do disco, foi composta para a trilha sonora da montagem teatral de “Como Ter Sexo a Vida Toda com a Mesma Pessoa”, monólogo da argentina Mónica Salvador, adaptado para o Brasil por Odilon Wagner, em 2012. “A ‘búlgara’ do título é uma referência à presidente Dilma, que na época estava com (um índice de) 90% de popularidade”, explica o acordeonista, que se inspirou na tradição musical do Leste Europeu para criar essa música.

Composição que também remete ao universo da música oriental, “Beduína” é uma homenagem de Ferragutti à sua esposa, a artista plástica Cinthia Camargo, cuja família é de origem árabe. Cinthia assina com ele a produção do álbum, além de ser a autora da bela pintura que ilustra a capa do CD “A Gata Café”.

Embora não tenha sido composta originalmente com essa intenção, a faixa “Egberto” também é uma homenagem. “Chamei essa composição de ‘Egberto’, porque ela acabou ficando com a cara dele. É um forrozão diluído, cheio de respirações, de espaçamentos. Assim como o Hermeto Pascoal, o Egberto Gismonti é um pilar da música instrumental brasileira, que continua inspirando muita gente até hoje”, comenta o compositor, reconhecendo essas influências.

Outro destaque do álbum é “Cortejo do Rio do Peixe”, composição que também já estava pronta ao ser batizada por Ferragutti com uma referência ao rio que atravessa sua cidade natal. “Fui criado olhando para esse rio. A bateria tem uma levada de cortejo, que até lembra um maracatu, mas não é. Cleber puxou para algo mais interiorano. Essa simbiose de uma coisa tradicional com outra mais contemporânea me seduz. O acordeom se presta muito a isso”.

Em meio à diversidade que caracteriza a música de Ferragutti também não poderia faltar um tango. “Nem Sol, Nem Lua” – composição gravada originalmente no álbum homônimo, lançado dez anos atrás – ganhou um arranjo mais jazzístico, que abre espaço para criativos solos de Vinicius Gomes (violão), Cassio Ferreira (sax soprano) e do próprio acordeonista.

“Em minhas composições está o extrato do que eu ouço, do que eu gosto de tocar”, afirma Ferragutti, confirmando que já encontrou um caminho próprio na cena musical. “Tem um lado de urbanidade nesse caminho que eu escolhi. Decidi morar em São Paulo para poder tocar música francesa, música italiana, tocar em sinfônica, em grupo de choro, em gafieira ou em banda de rock. Se eu morasse no Nordeste, no Sul ou no Centro-Oeste, minha sonoridade certamente seria diferente”.

Demonstrando muita consciência do que pretende como instrumentista, compositor e arranjador, Ferragutti é um exemplo a ser seguido – não só por acordeonistas – com sua concepção contemporânea, que dialoga com a tradição e diversos gêneros musicais sem se fechar em regionalismos. Tomara que “A Gata Café” seja apenas o primeiro episódio de uma longa história para Ferragutti e seu novo quinteto de craques da música instrumental.


(Texto escrito a convite da gravadora Borandá por ocasião do lançamento do álbum "A Gata Café", de Toninho Ferragutti)




Bourbon Festival Paraty 2016: destaques do evento também tocam em São Paulo

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Só em festivais internacionais de peso você pode encontrar um elenco com esse alto quilate musical. Joshua Redman (na foto ao lado), The Bad Plus, Dianne Reeves, Romero Lubambo, Eumir Deodato, Rosa Passos, Walter “Wolfman” Washington e o o grupo Pau Brasil estarão entre as dezenas de atrações da oitava edição do Bourbon Festival Paraty, de 20 a 22/5, na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Com 19 shows gratuitos ao ar livre, em três palcos, além de aparições de bandas de blues e jazz tradicional pelas ruas da cidade, esse festival também oferece workshops para estudantes de música (com o saxofonista Leo Gandelman e guitarrista Chico Pinheiro), intervenções do DJ Crizz (antes, durante e depois dos shows principais) e uma exposição de fotos de Pedro Guida, na Galeria Zoom.

Entre as atrações musicais do Bourbon Festival Paraty também se destacam o baixista Thiago Espírito Santo, o guitarrista Ricardo Silveira, a banda do guitarrista de blues Igor Prado (que terá como convidado o cantor norte-americano Willie Walker) e o gaitista e cantor de blues Flávio Guimarães.
 

Shows no Bourbon Street

A boa notícia para os paulistanos que não podem se deslocar até Paraty é que cinco das principais atrações do evento também estarão no clube Bourbon Street, em São Paulo, nos próximos dias. O mini festival começa em 17/5, com o show do excelente violonista carioca Romero Lubambo, que terá como convidada especial a cantora norte-americana Dianne Reeves, uma das grandes intérpretes do jazz contemporâneo. 


A atração do dia 18/5 é a cantora Rosa Passos (na foto ao lado), grande intérprete da MPB e da bossa nova, que estará acompanhada pelo grupo Brasilidade Geral. Na noite seguinte, será a vez do cantor e guitarrista Walter “Wolfman” Washington, mestre do blues de Nova Orleans. No dia 20, a banda do baterista norte-americano Anthony King interpreta clássicos da soul music e do funk, com destaque para os vocais de Ms. Monet e Tony Lindsay.

Finalmente, no dia 24, o cultuado trio de jazz norte-americano The Bad Plus divide o palco do Bourbon Street com o saxofonista Joshua Redman, outro expoente da cena atual do jazz. No repertório desse show entram composições originais extraídas do álbum “Bad Plus Joshua Redman”, lançado em 2015.

Mais informações nos sites do Bourbon Festival Paraty e do Bourbon Street Music Club.

Arismar do Espírito Santo: multi-instrumentista esbanja alegria em seu quarto álbum

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O título "Alegria nos Dedos" é bem apropriado. Qualquer um que já tenha assistido a uma apresentação de Arismar do Espírito Santo sabe que seus improvisos, levadas e melodias costumam transmitir alegria, especialmente seu grande prazer ao tocar diversos instrumentos.

Em seu quarto álbum como solista (lançamento do selo Maritaca), esse paulista da cidade de Santos não economiza: oferece 15 composições próprias, tocando guitarra, baixo acústico e elétrico, violão de 7 e 12 cordas, piano e bateria, ao lado de brilhantes parceiros, como o saxofonista Vinícius Dorin, a flautista Léa Freire e o sanfoneiro Dominguinhos, entre outros.


Da jazzística valsa “Turmalina”, que abre o disco em duo de piano com o sax alto de Dorin, à derradeira “Santos x Corínthians”, um inventivo diálogo improvisado de guitarra com o baixo elétrico de Thiago Espírito Santo, seu filho, o multi-instrumentista mostra toda a sua versatilidade musical, aprimorada em mais de três décadas de carreira. Para Arismar, música e alegria andam sempre juntas.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes, em 26/5/2012)



 

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