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4.º POA Jazz Festival: sax catártico de Rudresh Mahanthappa brilha na primeira noite

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                                                                             O saxofonista Rudresh Mahanthappa

Não é comum se ver, em um festival de jazz, um grupo musical ser recebido aos gritos por uma plateia que, com poucas exceções, mal o conhecia. Foi assim que começou a espetacular apresentação do trio Indo-Pak Coalition, que encerrou a primeira noite do POA Jazz Festival, ontem, no Centro de Eventos BarraShoppingSul, em Porto Alegre (RS).

Liderado pelo energético saxofonista Rudresh Mahanthappa, musico de origem indiana radicado nos Estados Unidos, o trio destaca outros instrumentistas de alto calibre sonoro: o guitarrista paquistanês Rez Abbasi e o baterista norte-americano Dan Weiss, que também brilha ao percutir sua tabla.

O trio excitou e hipnotizou a plateia com composições de Mahanthappa, como a encantatória “Snap” e a meditativa “Showcase”, entre outras. Em alguns momentos, em meio a solos frenéticos que pareciam leva-lo ao transe, as pupilas do saxofonista quase desapareciam, evidenciando o caráter catártico dessa música.

Bastante aplaudido também foi o trio vocal argentino Bourbon Sweethearts. Mel Muñiz (violão e ukelele), Cecilia Bosso (baixo acústico) e Agustina Ferro (trombone) conquistaram a plateia tocando e cantando composições próprias, além de alguns clássicos da canção norte-americana, como “I Cried for You” (Billie Holiday) e “Swing It, Sister” (Mills Brothers), em arranjos que remetem ao estilo de grupos vocais dos anos 1930 e 1940.

O eclético programa da primeira noite do POA Jazz Festival começou com a apresentação do jovem quarteto local Marmota Jazz, formado por André Mendonça (baixo acústico), Pedro Moser (guitarra), Leonardo Bittencourt (piano) e Bruno Braga (bateria). Além de composições próprias, inspiradas em obras de jazzistas contemporâneos (como Aaron Parks ou Shai Maestro), o quarteto também tocou standards como “The Man I Love” (George & Ira Gershwin) e “My Funny Valentine” (Rodgers & Hart), com destaque para a participação de Pedro Veríssimo, nos vocais.

Nos intervalos entre um show e outro, a POA Jazz Band (com formação semelhante às bandas de rua norte-americanas do início do século 20), mantém a animação da plateia, lembrando dançantes clássicos do jazz tradicional. Difícil imaginar uma noite mais variada e bem-sucedida para a abertura do 4.o POA Jazz Festival.


(Cobertura realizada a convite da produção do festival)


4.º POA Jazz: festival gaúcho traz uma prévia de suas atrações musicais a São Paulo

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                                                       O trio argentino Bourbon Sweethearts / Foto de divulgação 

Os paulistas poderão ouvir antes dos gaúchos duas atrações internacionais do próximo POA Jazz Festival. Um dos melhores do gênero no país, esse evento vai oferecer nove shows em sua quarta edição (de 9 a 11 de novembro, no Centro de Eventos do BarraShoppingSul, em Porto Alegre), além de masterclasses, oficinas musicais e lançamento de livros.

A primeira edição do POA Jazz em São Paulo (no dia 7/11, às 21h, no Bourbon Street Music Club) destaca a apresentação de Rudresh Mahanthappa (na foto abaixo), brilhante saxofonista e compositor de origem indiana radicado nos Estados Unidos, além do jovem trio argentino Bourbon Sweethearts, formado por instrumentistas e vocalistas.

Quem teve a oportunidade de ouvir Mahanthappa ainda como integrante do quarteto do pianista Vijay Iyer – em 2008, no extinto festival Bridgestone Music, em São Paulo – certamente ficou impressionado por seu estilo contemporâneo, calcado em improvisos viscerais. Os críticos da revista norte-americana “Down Beat” o elegeram melhor sax alto do ano, nos períodos 2009-2013 e 2015-2018. 

 
Já as garotas do trio Bourbon Sweethearts fazem música de época. Com uma formação instrumental incomum, Mel Muñiz (violão tenor e ukelele), Agustina Ferro (trombone) e Cecilia Bosso (baixo acústico) recriam o jazz tradicional e o swing das primeiras décadas do século 20, em arranjos inspirados em clássicos conjuntos vocais como as Andrew Sisters e os Mills Brothers.

Entre as outras sete atrações que vão se apresentar em Porto Alegre destacam-se também o quinteto do trompetista argentino Mariano Loiácono e conceituados instrumentistas brasileiros, como o pianista e compositor Gilson Peranzzetta, o baterista Edu Ribeiro e o trio formado pelo gaitista Maurício Einhorn com o violonista Nelson Faria e o baixista Guto Wirtti.

O elenco musical do 4º POA Jazz inclui dois destaques da cena musical gaúcha: o quarteto Marmota Jazz e o quinteto Instrumental Picumã. E ainda o quarteto do pianista paulista Vitor Arantes, vencedor do concurso Novos Talentos do Jazz 2017, cujos integrantes tocam também na Orquestra Jovem Tom Jobim.

Neste ano, o festival homenageia o jornalista e escritor Zuza Homem de Melo, que vai autografar seus livros. Já os músicos Edu Ribeiro, Nelson Faria e Gilson Peranzzetta vão ministrar masterclasses de bateria, improvisação e arranjos, respectivamente.

A curadoria do festival é assinada pelo músico e produtor Carlos Badia, com assessoria do produtor Carlos Branco e do músico Rafael Rhoden. Mais informações no site do evento: www.poajazz.com.br/





 

Cape Town Jazz Festival: evento realça a qualidade da cena musical na África do Sul

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                                                                                O saxofonista norte-americano Kamasi Washington 

“Que tal esquecer os políticos por dois dias e nos concentrarmos apenas na música”? Esse convite faria sentido na abertura de qualquer evento musical no Brasil de hoje, mas foi feito pelo apresentador do Cape Town Jazz Festival, que encerrou sua 18ª edição na madrugada de domingo (2/4), na Cidade do Cabo, na África do Sul.

A menção aos políticos tinha a ver com a notícia de que o presidente sul-africano Jacob Zuma havia demitido o ministro das Finanças e outros nove membros de sua equipe. A demissão de Pravin Gordhan, visto por muitos sul-africanos como um símbolo de integridade, provocou uma forte queda no valor da moeda local. 


Pela reação da plateia durante o festival, o convite para se entregar à música foi aceito com animação. Tanto que houve até um pequeno tumulto, no sábado, quando uma multidão se espremeu nas escadas do Centro de Convenções de Cape Town, para entrar no superlotado show da estrela sul-africana Thandiswa Mazwai.  
 
Diferentemente de alguns festivais brasileiros, que oferecem pouco espaço aos artistas locais, o Cape Town Jazz costuma reservar pelo menos metade de sua programação a músicos sul-africanos. Entre as 39 atrações deste ano, 23 incluíam artistas locais, distribuídas entre os cinco palcos do evento.  

Aliás, carismáticas cantoras sul-africanas, como Judith Sephuma, Nomfundo Xaluva e a citada Thandiswa Mazwai atraíram – com suas misturas de ritmos locais, gospel e soul music – plateias mais amplas e excitadas do que, por exemplo, a norte-americana Andra Day. Já comparada a Amy Winehouse, esta cantou uma versão pop da canção de protesto “Mississippi Goddam”, capaz de fazer Nina Simone, autora e sua grande intérprete, se revirar no túmulo.  

 Na porção jazz da programação, três atrações norte-americanas se destacaram. O saxofonista Kamasi Washington (que também está na programação do festival Nublu Jazz, de 6 a 9/4, em São Paulo) comanda uma banda viajandona e divertida, capaz de conquistar tanto apreciadores do jazz hardcore, como fãs bem jovens que até então só se interessavam por rock ou hip hop.

Já o sensacional quinteto do saxofonista Rudresh Mahanthappa impressionou a plateia com suas intrincadas melodias inspiradas pelo bebop de Charlie Parker e pela música indiana. Mais delicada é a concepção musical da cantora Gretchen Parlato (na foto acima), que extrai novas belezas tanto de uma composição do jazzista Herbie Hancock (“Butterfly”), como do sambista Dorival Caymmi (“Doralice”).


Os jazzistas sul-africanos também se destacaram. Não bastasse dar um show de “scat singing”, a cantora e bandleader Siya Makuzeni (na foto ao lado) toca trombone muito bem. E o encontro do trompetista Marcus Wyatt com os indianos Deepak Pandit (violino) e Ranjit Barot (bateria) rendeu improvisos sedutores.

Outro saboroso encontro foi o do veterano saxofonista e vibrafonista camaronês Manu Dibango com o saxofonista moçambicano Moreira Chonguiça. Os dois tocaram faixas do recém-lançado álbum “M&M”, no qual recriam clássicos do jazz, como “Tutu” (Marcus Miller), “Take Five” (Paul Desmond) e “In a Sentimental Mood” (Duke Ellington). 


Finalmente, a bela apresentação do sexteto argentino Escalandrum, comandado pelo baterista Daniel “Pipi” Piazzolla, encerrou o evento deixando uma pergunta no ar. Por que uma música instrumental de tão alta qualidade como a produzida hoje no Brasil não tem estado presente em festivais importantes como o Cape Town Jazz? Será que os órgãos de apoio à divulgação da cultura brasileira no exterior pensam que só a MPB ou o pop indie podem representar o país? 

(Texto publicado parcialmente na versão online da "Folha Online", em 3/4/2017. Viagem realizada a convite do Departamento de Turismo da África do Sul e da South African Airways) 



 

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