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Luciana Souza e Trio Corrente: uma parceria muito especial em show e disco

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                                O pianista Fabio Torres, do Trio Corrente, e a cantora Luciana Souza 

Essa é uma parceria musical que pode ser considerada fora de série. Luciana Souza, uma das cantoras brasileiras mais conceituadas na cena internacional do jazz, gravou um disco com o brilhante grupo instrumental paulistano Trio Corrente. Lançado em agosto pelo selo nova-iorquino Sunnyside, “Cometa” já ostenta uma indicação para o prêmio Grammy 2024, na categoria melhor álbum de jazz latino.  

O prazer e a alegria que essa nova parceria está proporcionando aos quatro artistas era evidente no show de lançamento do álbum (em 15/12, no Sesc 24 de Maio), em São Paulo. Ao cumprimentar a plateia, o pianista Fabio Torres chamou atenção para um detalhe que contribui para que esse show seja tão especial. Diferentemente da maioria dos cantores, que costumam ficar postados à frente dos músicos nos palcos, Luciana faz questão de cantar ao lado deles.  

Nada mais adequado, já que ela não é apenas uma grande intérprete vocal. Essa paulistana radicada há décadas nos Estados Unidos é também, na verdade, uma inventiva instrumentista, que utiliza sua voz privilegiada para improvisar, exatamente como fazem os músicos do Trio Corrente. Essa proximidade, no palco, permite que Luciana interaja com seus parceiros durante todo o show, especialmente quando estão improvisando. Como sugeriu o pianista, assim o trio se transforma em quarteto.

O repertório do show foi escolhido, principalmente, entre as faixas do álbum “Cometa”. Além de releituras de clássicas canções de Dorival Caymmi (“Você Já Foi à Bahia?”), Tom Jobim & Vinicius de Moraes (“Sem Você”) e Paulinho da Viola (“Rumo dos Ventos”), entram também composições autorais de Luciana e seus parceiros: Fabio, o contrabaixista Paulo Paulelli e o baterista Edu Ribeiro.

Para quem perdeu esses preciosos shows, Luciana deixou uma boa notícia, na apresentação de sexta. Após uma extensa turnê de shows pelos Estados Unidos que ela e o Trio Corrente farão no primeiro semestre de 2024, seguida por uma turnê europeia, há planos de mais shows pelo Brasil, no segundo semestre. Vale lembrar também que o álbum “Cometa” já está disponível em algumas plataformas. Jazz brasileiro de alto quilate!


Sesc Jazz: o encontro autoral dos guitarristas Mike Moreno & Guilherme Monteiro

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                                                          Os guitarristas Mike Moreno (à esq.) e Guilherme Monteiro 

A plateia do Sesc Sorocaba presenciou um inédito encontro musical, na quinta-feira (30/8), que será repetido neste sábado (1.º/9), em Araraquara. Mike Moreno e Guilherme Monteiro, guitarristas e compositores que convivem há quase duas décadas na competitiva cena do jazz em Nova York, uniram forças à frente de um quarteto, em mais uma noite do festival Sesc Jazz.

Uma parceria como essa seria pouco provável, não fosse o interesse que o norte-americano tem demonstrado pela música brasileira. Apontado pela crítica especializada como um dos guitarristas mais criativos do jazz na última década, Moreno já se apresentou em outros importantes festivais brasileiros do gênero, como o Amazonas Jazz, em Manaus (AM), ou o Savassi Festival, em Belo Horizonte (MG).

Não causaria surpresa se ele e Monteiro – carioca que vive há 18 anos em Nova York, onde já tocou com jazzistas do primeiro time, além de integrar a original banda Forró in the Dark – tivessem escolhido um repertório de clássicos do jazz e da música brasileira. Mas os dois guitarristas preferiram encarar o desafio de montar um repertório mais autoral e colaborativo, contando também com os talentos do baixista Alberto Continentino e do baterista Vitor Cabral.

O quarteto abriu o show com “Peace”, uma divagativa composição de Monteiro, bem adequada para que a banda e a plateia entrassem no clima. “Lotus”, faixa-título do álbum que Moreno lançou no final de 2015, tocada em seguida, é um exemplo perfeito do estilo de composição que ele vem desenvolvendo. Vários de seus temas, baseados em células melódicas simples e repetidas com variações sutis, levam o ouvinte a uma espécie de estado de meditação.

Em seus improvisos, o guitarrista texano revela uma abordagem essencialmente melódica. Suas frases são simples e limpas, permitindo se ouvir cada nota com clareza. Embora seja um músico bastante técnico, Moreno não usa sua destreza e fluidez no instrumento para se exibir. Seus solos, às vezes hipnóticos, parecem buscar belezas escondidas nas harmonias das composições.

Além da técnica apurada, Monteiro também demonstra uma sofisticada bagagem harmônica. Seu fraseado, em alguns improvisos, é bastante jazzístico. Talvez por isso, curiosamente, sua composição “Long Road to Paradise” chamou mais atenção. Praticamente uma canção sem versos, ela foi apresentada com uma alusão aos Beatles. “Costumo dizer que essa é a minha ‘Blackbird”, brincou o compositor.

Claro que, mesmo em um show de repertório majoritariamente autoral, Moreno não deixaria de reverenciar a música brasileira. Com sua maneira tão pessoal de burilar melodias, tocou “Outubro” (de Milton Nascimento e Fernando Brant), em uma bela e dramática versão, com destaque para as intervenções de Cabral e Continentino.

Mas a surpresa da noite foi reservada àqueles que, já ao final do show, bateram palmas insistentemente até que os músicos retornassem ao palco. Falando em um razoável português, Moreno contou que veio a conhecer “A Flor e o Espinho”, o clássico samba-canção de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, em 2009, quando uma fã de Manaus o presenteou com um disco da cantora Elizeth Cardoso. Preciso dizer que esse inusitado bis foi um dos momentos mais emocionantes da noite?


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)


Áurea Martins: mais reconhecida, cantora carioca emociona no primeiro DVD

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É difícil não pensar em injustiça, ou mesmo em preconceito, ao ver uma grande cantora, como Áurea Martins, conquistar um reconhecimento mais amplo só após os 70 anos. Para quem ainda não ouviu a voz negra e preciosa dessa intérprete fluminense, que durante meio século brilhou discretamente na noite carioca, o registro do show “Iluminante” (lançamento do selo Biscoito Fino, em DVD e CD) funciona bem como amostra de seu talento.

Em sambas-canções como “Janelas Abertas” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Ilusão à Toa” (Johnny Alf), Áurea revela todo seu potencial como intérprete. Elegante, também desfila a voz expressiva por sambas mais gingados, além de cantar a lírica “Modinha” ao lado de Chico Buarque. Com apresentação da atriz Fernanda Montenegro, a edição em DVD inclui faixas extras e um breve depoimento da cantora. “Quando eu era mais nova tive uma fase de revolta, agora não. O que eu dou está aí, de graça, para quem souber aproveitar. Não tenho mágoa”, diz a generosa veterana da noite.


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/10/2012)

Quinteto Vento em Madeira: a liberdade do improviso em composições e arranjos sofisticados

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Só por ter criado o selo Maritaca, que em 13 anos de atividade vem produzindo um precioso catálogo de música instrumental brasileira, a flautista e compositora Léa Freire já merece muitos aplausos. Seu novo trabalho é o álbum de estréia do Vento em Madeira, quinteto que inclui seu antigo parceiro Teco Cardoso (sax, flautas e produção musical), além de Tiago Costa (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Fernando Demarco (baixo).

Equilíbrio é um conceito-chave neste projeto, que combina a liberdade do improviso com sofisticados arranjos e composições próprias, formação camerística e muita diversidade rítmica. Beleza não falta a composições como “Copenhague”, carregada de melancolia, ou à lírica “Viva Júlia”. Surpresas rítmicas se sucedem em temas inventivos, como “A Fuga da Zabumba” e “Frango no Trevo”. Em criativa releitura, o samba-canção “Luz Negra” (Nelson Cavaquinho) destaca o vocal de Monica Salmaso. Música brasileira de primeira linha.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/5/2011)

Da Do: saxofonista busca (e encontra) linguagem brasileira de improvisação

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                                                                                      Foto: Ding Musa / Divulgação
O nome artístico do instrumentista Da Do sugere algo de oriental, mas seu quarto álbum, “Minha Cidade” (independente), não deixa qualquer dúvida: sua música é brasileira. Versátil, esse paulista de 34 anos toca sax soprano e tenor, flautas, clarinete e piano, compôs as 12 faixas desse CD e também escreveu os arranjos – exceto dois deles, de autoria do maestro Nelson Ayres, que contam com músicos de cordas da Osesp.

Formado pela nova-iorquina Manhattan School of Music, Da Do vem pesquisando há tempos a riqueza da nossa percussão e o fraseado do choro, em busca de uma linguagem de improvisação tipicamente brasileira. Faixas como a valsa “Infância”, a sensível balada “Meditativo” ou o samba-canção “Pra Sempre” provam que ele já encontrou o caminho certo. Sorte dos fãs da música instrumental e do jazz, não importa quais sejam suas nacionalidades. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", edição de 29/4/2011)

Áurea Martins: a melancolia do samba-canção por uma diva da noite carioca

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Pérola negra quase escondida por meio século na noite carioca, a cantora Áurea Martins, 70, vê enfim sua voz preciosa ser mais reconhecida. Em “De Ponta Cabeça” (lançamento Biscoito Fino), quarto álbum de sua carreira, ela interpreta 14 canções do letrista Hermínio Bello de Carvalho com vários parceiros.

Profunda conhecedora da dor de cotovelo que caracteriza o samba-canção, Áurea destila emoção ao abordar temas pungentes, como os de “Judiarias” (de Hermínio com Vital Lima), “Quando o Amor Acaba” (com Moacyr Luz) ou “Cobras e Lagartos” (com Sueli Costa), sem jamais perder a elegância. 

E mesmo que outras faixas também tragam histórias de desilusões amorosas, os arranjos de Lucas Porto reforçam certa variedade rítmica, seja na abolerada “Acho Que É Você” (de Hermínio e Paulo Vak) ou em sambas mais gingados, como “Sete Dias” (outra com Luz) e “Pressentimento” (com Elton Medeiros).

Está longe de ser um disco de samba para se dançar ou festejar, mas quem pediria isso, em sã consciência, a essa diva da melancolia?

(resenha publicada no Guia Folha - Livros, Discos e Filmes, em 25/2/2011)

 
 

 

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