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Sesc Jazz: blues e rebeldia nos improvisos da pianista Amina Claudine Myers

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                            A pianista norte-americana Amina Claudine Myers, no Sesc Jazz 2025
 

Os aplausos calorosos da plateia do Sesc Pompeia – no show de encerramento do festival Sesc Jazz, no último domingo (2/10), em São Paulo – demonstraram mais uma vez que, quando se domina um idioma universal como o jazz, os músicos nem precisam utilizar palavras para se comunicarem com pessoas que mal os conheciam até aquele dia.

Entre aqueles que ainda não tinham alguma familiaridade com a música da norte-americana Amina Claudine Myers é possível que alguns tenham se decepcionado um pouco por causa de seu repertório. Com uma carreira musical de seis décadas, na qual se destacam parcerias com vários expoentes do jazz de vanguarda, essa pianista e compositora revelou que hoje está bem mais próxima da tradição do blues e do gospel do que das experimentações jazzísticas dos anos 1960 e 1970.

Mesmo que o início de sua vida profissional tenha se dado na metropolitana cidade de Chicago, onde se filiou à lendária AACM (Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos), Amina, nascida no interior do Arkansas, é uma musicista assumidamente religiosa. O fato de que, em suas apresentações, ela costuma se alternar entre um piano acústico e um órgão já é revelador.

A religiosidade de Amina jamais a impediu de expressar suas convicções pessoais ou políticas. Como em “African Blues”, sua composição mais conhecida, revisitada por ela logo na parte inicial do show no Sesc Jazz, quando tocou piano, acompanhada pelos parceiros Reggie Nicholson (bateria) e Jerome Harris (baixo e vocais).

Essa composição nasceu de um improviso, em 1980, durante as gravações do álbum que a pianista dedicou à cantora Bessie Smith. Como relatou mais tarde em entrevistas, nessa mencionada gravação Amina improvisou por cerca de 15 minutos com vocais sem palavras, como se estivesse possuída por um espírito, pensando no sofrimento dos negros da África do Sul em sua luta contra o injusto regime do apartheid. Pena que a norte-americana não tenha tomado a iniciativa de explicar esse contexto à plateia brasileira, que assim poderia captar totalmente o sentido de sua composição.  

Mesmo quando se sentou ao órgão, para interpretar a seção mais espiritual do repertório de seu show, ela não perdeu a chance de se manifestar como uma rebelde cidadã norte-americana. Ao improvisar os versos do gospel “Have Mercy Upon Us”, sem citar nomes, ela se referiu aos anunciados planos do atual governo dos Estados Unidos de reduzir programas e benefícios sociais, que têm gerado muitos protestos naquele país.

Mostrando que costuma definir o repertório de suas apresentações de acordo com o local e o momento presente, Amina também lembrou outro item costumeiro em seu repertório. Cantou um blues muito adequado para um dia nublado e chuvoso, em São Paulo, como o último domingo: “Standin’ in the Rain”, de Bessie Smith, a famosa Imperatriz do Blues.

Tomara que o Sesc repense a frequência do Sesc Jazz e volte a realizar esse festival anualmente, como fazem os eventos similares no Brasil e pelo mundo. Para os fãs desse gênero musical, como eu, não é fácil esperar dois anos por um festival – talvez o melhor do país nesta década – ao qual já nos acostumamos. 


Sesc Jazz: improvisos de Kahil El’Zabar encantam a plateia do festival

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                                     O baterista norte-americano Kahil El'Zabar, no festival Sesc Jazz
 

Para muitos dos que foram ouvir o multi-instrumentista e compositor norte-americano Kahil El’Zabar (dia 26/10, no festival Sesc Jazz, realizado no Sesc Pompeia e em outras unidades dessa entidade paulista) é provável que essa apresentação tenha sido uma surpresa ou até mesmo uma sedutora revelação musical.

Com uma carreira ligada ao jazz de vanguarda, que se estende por mais de cinco décadas, esse baterista e percussionista de Chicago (EUA) já cultivou parcerias com renomados instrumentistas dessa vertente jazzística, como Archie Shepp, David Murray, Pharoah Sanders e Billy Bang, entre outros.

Quem ainda não o conhecia nos palcos, certamente se surpreendeu ao ouvir sua inusitada releitura da clássica canção “Summertime” (de George Gershwin). Dedilhando uma kalimba (instrumento de origem africana, também conhecido como “piano de polegar”), ele desenvolveu uma extensa e insólita improvisação.

Em vez de entoar os conhecidos versos de DuBose Heyward, como faria qualquer cantor, El’Zabar combina seu talento para os improvisos instrumentais com a expressividade típica de um ator: mistura vocalismos com murmúrios, gemidos e dramáticas expressões faciais. Aliás, seus encantadores solos de bateria também merecem ser vistos, não apenas ouvidos, justamente por causa de sua expressão corporal e senso de humor.  

Bem acompanhado por Alex Harding (sax barítono), Corey Wilkes (trompete) e Ishmael Ali (violoncelo), integrantes de seu Ethnic Heritage Ensemble, El’Zabar faz uma reveladora declaração, em um documentário de curta duração que comemora o cinquentenário desse conjunto musical (disponível em vídeo no YouTube):

“Nunca busquei a perfeição, eu busco a expressão. Não ter medo de errar abre muitas possibilidades de novas descobertas”, afirma o músico de Chicago, que a exemplo de vários de seus parceiros musicais também é ligado à lendária Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos (AACM), fundada nessa cidade, em 1965. Se você ainda não o viu num palco, não perca a próxima oportunidade. É um espetáculo.

  

Sesc Jazz: encontro musical de Dom Salvador com Amaro Freitas foi criativo e inspirador

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                           Amaro Freitas abraça Dom Salvador, em show do festival Sesc Jazz  
 

Não é difícil explicar por que o show do cultuado pianista e compositor paulista Dom Salvador, com participação muito especial do pernambucano Amaro Freitas, também um brilhante pianista e compositor, logo despontou como a atração mais procurada da sexta edição do festival Sesc Jazz, em São Paulo. Os mais de 2 mil ingressos colocados à venda para as três noites desse show se esgotaram em pouco mais de 24 horas.     

Grande expoente da primeira geração do samba-jazz, hoje aos 87 anos de idade, Salvador só se apresenta de vez em quando no Brasil. Vive desde 1973 em Nova York, onde toca piano  regularmente no sofisticado River Café, lidera seu sexteto em festivais e tem desfrutado de prestígio crescente no meio jazzístico.

Aos 34 anos, Freitas é considerado a maior revelação do jazz brasileiro na última década. Em pouco tempo conseguiu ingressar no circuito dos clubes e festivais de jazz da Europa e dos Estados Unidos. Suas turnês pelo mundo têm crescido ano a ano. Quem não gostaria de presenciar um inédito show em parceria de músicos de tão alto quilate?  

Salvador abriu a noite de ontem (15/10), no teatro do Sesc Pompeia, tocando algumas de suas composições mais conhecidas, como “Tematrio”, “Gafieira” e “Meu Fraco É Café Forte”, que já se tornaram clássicos do samba-jazz. A seu lado estavam a saxofonista e flautista Laura Dryer, o baterista Graciliano Zambonin e o contrabaixista Gili Lopes, talentosos parceiros que costumam integrar seus projetos musicais. Depois de alguns números, o quarteto virou sexteto, com as participações de dois craques da cena musical carioca: o percussionista Armando Marçal e o guitarrista Zé Carlos, que tocava com Salvador na lendária banda Abolição, no início dos anos 1970.

Mais falante, Amaro Freitas homenageou Salvador ao declarar que nem teria existido como artista se a música do compositor e pianista paulista não o tivesse antecedido. Estendeu esse tributo a outros grandes intérpretes e compositores negros, que também são referências suas no campo da música popular e instrumental brasileira, citando os nomes de Naná Vasconcelos, Johnny Alf, Alaíde Costa, Elza Soares, Tania Maria, Laercio de Freitas e Milton Nascimento. A emoção de Salvador era evidente, ainda mais quando Freitas se levantou do piano para abraça-lo.

Os improvisos se tornaram mais intensos e abertos à experimentação, na parte do show que destacou composições de Freitas, como a percussiva “Viva Naná” e a vibrante “Encantados”, marcada por sons de diversas flautas. Não faltou também uma reverência à tradição do choro, com os pianistas interpretando em duo o delicado “Choro Lento”, composição de Salvador. 

Criativo e inspirador, o inédito encontro de Dom Salvador e Amaro Freitas encantou os ouvidos e sensibilidades daqueles que tiveram o privilégio de estar na plateia do Sesc Pompeia. Tomara que esse exemplo incentive outros grandes músicos brasileiros a experimentarem novos encontros e parcerias. O diálogo entre as gerações pode ser muito enriquecedor, especialmente quando envolve empatia e admiração mútua. 


                                Amaro Freitas (acima) e Dom Salvador (abaixo, de costas)

Sesc Jazz: pianista sul-africano Nduduzo Makhathini traz ritual sonoro ao festival

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                                                         O pianista e compositor Nduduzo Makhathini, no festival Sesc Jazz 

Mais uma noite emocionante na quarta edição do festival Sesc Jazz, em São Paulo. Quem foi ao teatro do Sesc Pompeia, no feriado de 12/10, para assistir à apresentação do pianista e compositor Nduduzo Makhathini, logo percebeu que não se tratava propriamente de um show, mas de um ritual sonoro.

A disposição no palco do quinteto do jazzista sul-africano era reveladora. Em vez de se voltarem para os dois lados da plateia, os cinco músicos formaram um círculo para que todos do grupo pudessem se olhar durante a apresentação. Ao final, antes mesmo de agradecerem os aplausos eufóricos da plateia, os músicos do quinteto se abraçaram, sorrindo, ainda numa roda.

Carismático, Makhathini lidera o grupo com muita simpatia. Não à toa, ele e o circunspecto saxofonista Linda Sikhakhane costumam citar o mítico jazzista norte-americano John Coltrane entre suas principais influências, ao lado de outros grandes músicos do jazz da África do Sul, como Abdullah Ibrahim e Bheki Mseleku. Como no “spiritual jazz” de Coltrane, as composições de Makhathini alternam momentos líricos e outros mais dramáticos, com amplos espaços para improvisações.

Dois anos atrás, por ocasião do lançamento de seu álbum “Modes of Communication: Letters from the Underworlds” (selo Blue Note), o compositor e pianista explicou que sua intenção musical é criar pontes e canais para dialogar com os reinos de seus ancestrais. Por isso compara suas composições a cartas que, graças aos sons e silêncios, lhe servem de veículos para essa mística comunicação.

Mesmo que a relação de Makhathini com seus ancestrais não tenha ficado clara para parte da plateia, a beleza e o magnetismo de sua música já foram suficientes para que muitos saíssem dali com a impressão de tinham acabado de presenciar uma das grandes noites deste Sesc Jazz. Neste sábado (15/10), o sul-africano e seu quinteto voltam a se apresentar no Sesc Presidente Prudente, no interior paulista. 


Hamilton de Holanda: bandolinista toca repertório do álbum "Harmonize" em SP

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                       Hamilton de Holanda (bandolim), Thiago Espírito Santo (baixo) e Mestrinho (acordeom) 


As chuvas insistentes de ontem (sábado, 1/02), que chegaram a alagar alguns pontos da cidade de São Paulo, não desanimaram a calorosa plateia que foi à comedoria do Sesc Pompeia. Não é todo dia que se tem o privilégio de ouvir ao vivo um brilhante quarteto de craques da música instrumental como o liderado pelo bandolinista Hamilton de Holanda.

Ao lado de Thiago Espírito Santo (baixo elétrico), Daniel Santiago (guitarra) e Edu Ribeiro (bateria), Hamilton exibiu o repertório de “Harmonize” (2019), seu primeiro álbum autoral lançado após os discos que dedicou à obra do mestre chorão Jacob do Bandolim e às belas canções de Milton Nascimento e Chico Buarque.

Composições como a doce “Canto da Siriema”, o samba “Alô Arlindo”, a lírica “Nasceu o Amor” ou a inventiva faixa que dá título ao álbum serviram de veículos para improvisos de Hamilton e seu quarteto, alguns bem descontraídos, outros mais nervosos.

Já com a entrada do sanfoneiro Mestrinho, em participação especial, a temperatura da noite chegou ao grau máximo. Na contagiante “Samba Blues”, os cinco brincaram com o parentesco e as afinidades musicais que o samba e o choro têm com o jazz e o blues. Uma “jam” com tempero nordestino que fez a plateia vibrar e pedir mais.



Sesc Jazz: plateia de São Paulo viaja a Saturno com a Sun Ra Arkestra

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                                                                     Músicos da Sun Ra Arkestra, no festival Sesc Jazz 

Os sorrisos de alguns e os olhares intrigados de outros eram reveladores, na noite de estreia do festival Sesc Jazz (no Sesc Pompeia, ontem, em São Paulo). Não é todo dia que se tem a chance de ver e ouvir uma orquestra tão original, irreverente e vanguardista como a Sun Ra Arkestra, fundada na década de 1950 pelo compositor, tecladista e poeta norte-americano Herman “Sun Ra” Blount (1914-1993).

O conceito de afro-futurismo ainda demoraria décadas a ser criado, quando Blount (seu  codinome Sun Ra refere-se ao deus Sol dos egípcios) e os músicos de sua Arkestra desenvolveram um personalíssimo estilo de jazz orquestral que chegou a ser rotulado de “jazz do espaço”. Vale lembrar que Sun Ra costumava afirmar, em entrevistas, que nascera no planeta Saturno.

Liderada durante as últimas décadas pelo saxofonista e compositor Marshall Allen (com uma vitalidade incrível para alguém de 95 anos), a Sun Ra Arkestra mantém vivo o legado musical de seu lendário músico criador, que sempre reverenciou a diversidade da música de origem negra, desde o blues e o swing até o mambo e o funk.

Essa diversidade também marcou o repertório do show de ontem: da inusitada releitura da canção “Stranger in Paradise” (do musical “Kismet”, de 1953, que ficou conhecida no Brasil pela gravação meio brega da orquestra de Ray Conniff) à quase dramática versão de “When You Wish Upon a Star” (do desenho animado “Pinocchio”, de 1940), que fez a plateia sorrir. Naturalmente, não faltaram clássicos do repertório da Arkestra, como a catártica “Angels and Demons” ou a emblemática “Space Is The Place”.

Para quem é obrigado a viver neste país violento e injusto, comandado por políticos e juízes farsantes, as duas horas de música oferecidas pela Sun Ra Arkestra foram terapêuticas. funcionaram como uma relaxante viagem a Saturno.


Sesc Jazz: banda mineira iconili traz sua música instrumental dançante a São Paulo

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                                                 A banda mineira Iconili, em show no Sesc Pompeia, em São Paulo

Acostumados a se apresentarem para plateias predominantemente jovens, em festivais, teatros ou casas noturnas pelo país, os músicos da banda Iconili encontraram um público inédito em sua trajetória, no show gratuito e ao ar livre que fizeram durante o último dia de programação do festival Sesc Jazz. Naquela ensolarada tarde de domingo (2/9), o ambiente era bastante familiar no deck do Sesc Pompeia. Sentados, vários pais e mães tentavam relaxar um pouco, de olho em suas crianças, que aproveitavam o espaço amplo para se divertirem, correndo.

Depois de uma bem-sucedida carreira de 10 anos, durante a qual lançou três discos, essa banda de Belo Horizonte (MG) vive um período de transição. Sua formação – hoje com 11 integrantes, incluindo um naipe de instrumentos de sopro – chega a lembrar uma big band, mas sua música tem muito pouco em comum com as tradicionais orquestras do jazz. Idealizada como um coletivo musical em que todos participam ativamente, sem líderes assumidos, a Iconili já se definiu como um “laboratório de experimentação sonora”.

Com novos integrantes, a banda mineira vem preparando desde o ano passado o seu quarto álbum, ainda em processo de gravação. Durante esse período, as apresentações têm servido para testar o efeito do material inédito, no contato direto com as plateias. Esse processo de criação revela o objetivo do grupo: fazer uma música de essência instrumental, calcada em “grooves” que levem a plateia a dançar, mas que também possa ser ouvida com prazer, sem longos improvisos ou demonstrações de virtuosismo instrumental.

No repertório apresentado agora, já se pode sentir que as influências iniciais do afrobeat e do rock progressivo, marcantes nos primeiros anos da banda, abrem espaço para uma fase de ascendência mais brasileira. Claro que a banda não deixou de incluir no repertório composições de seus discos anteriores, que parte da plateia logo reconheceu, como as contagiantes “Jorge Botafogo” (do álbum “Piacó”, de 2015) e “Mulatu” (do EP “Tupi Novo Mundo”, de 2013, recém-relançado em vinil), que ganharam outros timbres, nos atuais arranjos.

Entre as novas composições, chama atenção “Iris”, cuja letra aborda uma temática bastante atual: as diferenças entre a visões de mundo da mulher e do homem. No show, essa canção marca, simbolicamente, as recentes chegadas da percussionista Chaya Vazquez e da vocalista Josi Lopes, que agora divide o centro do palco com os sopros de Henrique Staino (sax tenor e soprano), Lucas Freitas (sax barítono) e João Machala (trombone).

“Tem mineiro aqui, gente?”, brincou Josi, quase ao final do show, mas àquela altura a plateia paulistana já tinha sido conquistada pelos arranjos instrumentais da banda. Vale notar, aliás, que as crianças foram as primeiras a cair na dança. Pelo show que mostrou no palco do Sesc Jazz, a Iconili parece estar no caminho certo para ampliar ainda mais seu fã-clube. E assim desmente da melhor maneira a velha falácia de que a música instrumental só pode ser apreciada por poucos.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

Nublu Jazz: Neneh Cherry e Bebel Gilberto fecham oitava edição do festival

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                                                                          A cantora Neneh Cherry, no Nublu Jazz Festival

Numa noite dominada pelas mulheres, o Nublu Jazz Festival encerrou sua oitava edição, ontem, em São Paulo. A plateia que lotou a comedoria do Sesc Pompeia vibrou quando a cantora sueca Neneh Cherry (enteada do grande trompetista de jazz Don Cherry) homenageou Marielle Franco, a vereadora e ativista de direitos humanos assassinada dias atrás, no Rio de Janeiro. 

Carismática e elegante, Neneh ofereceu aos fãs de São Paulo o privilégio de conhecer em primeira mão o repertório inédito de seu próximo disco. Seu discurso é bem politizado, mas, curiosamente, algumas das canções são delicadas, realçadas por uma instrumentação pouco comum: harpa, piano acústico, teclados eletrônicos e percussão.


Já a cantora Bebel Gilberto, que abriu a noite, demonstrou coragem ao se lançar em uma apresentação bastante improvisada com três instrumentistas – o tecladista Ilhan Ersahin (criador do clube nova-iorquino que gerou o festival), o guitarrista Dave Harrington e o baterista Kenny Wollesen. Na prática, foram quase dois shows, já que entre as aparições viajandonas de Bebel, o trio mergulhou em improvisos instrumentais bem soltos, com um pé na vanguarda.

Swami Jr, Teco Cardoso e Bebê Kramer: trio inédito se apresenta no Sesc Pompeia

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                                                             Swami Jr, Teco Cardoso e Bebê Kramer / Fotos de divulgação 

Meses atrás, ao ser convidado pelo Sesc Pompeia a participar da série Encontros Instrumentais, o violonista e produtor paulistano Swami Jr. pensou que essa era uma oportunidade pela qual esperava há tempos. Finalmente, poderia se apresentar com dois músicos que admira: o acordeonista Bebê Kramer e o flautista e saxofonista Teco Cardoso.

“Conheço o Teco há uns 30 anos. Vivemos em São Paulo e temos quase a mesma idade, mas ainda não tínhamos tocado juntos”, comenta Swami, referindo-se ao conceituado instrumentista e arranjador, integrante dos grupos Pau Brasil e Vento em Madeira. O convite foi estendido ao gaúcho Bebê, músico e compositor que tem se destacado na cena instrumental, em parcerias com Yamandu Costa, Gabriel Grossi e Arismar do Espírito Santo, entre outros.

Assim que as agendas permitiram a definição das apresentações do inédito trio, por ironia do destino, Swami e Bebê se encontraram no Sesc Pompeia (em setembro). A convite do violonista Marco Pereira, eles participaram do show de lançamento do álbum “Dois Destinos”.

“Esse não valeu porque só tocamos duas músicas juntos”, diz Swami, argumentando que o casual encontro não diminuiu a vontade de tocar com esse trio de formação rara (violão de sete cordas, acordeom e flauta ou saxofone). “Teco e Bebê têm em comum esse traço universal. Eles são muito brasileiros, mas fazem esse diálogo com outros mundos musicais, algo que eu tento fazer também”, comenta o violonista e baixista, que também já trabalhou com cantores de alto quilate, como Omara Portuondo, Luciana Souza e Chico César.

Para Teco, esse encontro oferece um irresistível desafio: a chance de os três saírem de suas zonas de conforto. “Por mais que eu já tenha gravado ou tocado uma composição minha, vou ter que achar outra maneira diferente de tocá-la. Nunca toquei flauta com acordeom e violão de sete cordas antes”, explica.

Referindo-se à afinidade que tem com Swami, Teco acha que as concepções musicais de ambos refletem o caráter cosmopolita da capital paulista. “Pelo fato de São Paulo não cultivar um gênero predominante, como Recife tem o frevo ou o Rio está comprometido com o choro ou o samba, temos um olhar mais democrático. Aqui eu posso colocar uma salsa no meio de um maracatu e ninguém vai pegar no meu pé”.

Por outro lado, nem o fato de Bebê ter nascido na interiorana cidade de Vacaria (RS), nem o de pertencer a uma geração mais jovem, o impedem de se identificar com Swami e Teco. “Acho que a minha cabeça é parecida com a deles. Ouço muita música erudita, muito jazz, muito folclore de todos os lugares do mundo. Se a música é tão grande, por que eu deveria tocar uma coisa só?”, questiona o acordeonista gaúcho.

Entre as composições próprias que os três selecionaram para as duas noites estão o choro “Virou Fumaça” (de Swami), o chamamé “Xamã” (de Bebê) e o maracatu “Theozim na Flauta”, que Teco compôs especialmente para esse encontro. Com tantas afinidades e talentos, como não pensar que esse trio tem um promissor futuro à sua frente? 


(Texto para o programa do show, escrito a convite da equipe de programação do Sesc Pompeia)

Paulo Braga, André Vasconcellos e Cuca Teixeira: trio estreia no palco do Sesc Pompeia

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Três músicos de destaque na cena instrumental brasileira vão se encontrar pela primeira vez em um palco, no próximo final de semana, em São Paulo. A inédita reunião do pianista Paulo Braga com o baixista André Vasconcellos e o baterista Cuca Teixeira é uma iniciativa do projeto Encontros Instrumentais a série mensal de shows, que o Sesc Pompeia vem realizando desde o ano passado.

Tive o prazer de conversar com os três, por telefone, para escrever o texto que segue abaixo, a convite da equipe de programação do Sesc Pompeia. Paulo, André e Cuca me disseram que já se admiravam à distância e se mostraram bem animados com a oportunidade de tocarem juntos. Quem gosta de música instrumental ou de jazz sabe que esse tipo de encontro pode render boas surpresas.

 Encontros Instrumentais


No campo da música instrumental, os trios – especialmente os formados por piano, baixo e bateria – já são considerados clássicos. Desde a eclosão da bossa nova, no final dos anos 1950, trios como o Bossa 3 ou o Zimbo Trio serviram de veículos para a evolução da linguagem instrumental brasileira. Não é diferente no universo do jazz: do original Nat King Cole Trio ao contemporâneo The Bad Plus, muitos trios tem trazido inovações para esse gênero musical.

“Como o trio é uma formação reduzida, sobra mais espaço sonoro para ocupar. Outros caminhos se abrem”, comenta o brasiliense André Vasconcellos, talentoso contrabaixista e compositor que, depois de acompanhar mestres da MPB, como Djavan e Gilberto Gil, hoje integra a banda de Hamilton de Holanda. Animado com a oportunidade de tocar pela primeira vez com Paulo Braga e Cuca Teixeira, André aposta: “Sei que eles, músicos de altíssimo nível dos quais sou fã, costumam abrir muitos caminhos”.

Paulo também se declara estimulado por esse desafio. “Justamente porque ainda não tocamos juntos, esse pode ser um caminho para chegar a uma identidade única. O trio é uma formação tão clássica que o grande desafio é tentar não soar como algum trio conhecido”, observa o eclético pianista e compositor paulista, que já atuou como solista de orquestras, como a paulista Jazz Sinfônica ou a londrina Royal Philharmonic, assim como mantém há décadas a parceria com o vanguardista Arrigo Barnabé.

“O trio oferece muita liberdade para os músicos. No caso da bateria, sobra mais espaço para improvisar, o que eu gosto de fazer, particularmente”, admite o paulistano Cuca, que já percutiu seus pratos e tambores ao lado de estrelas da MPB, como Marina Lima e Maria Rita, assim como improvisou com mestres do jazz norte-americano, como o guitarrista George Benson ou o saxofonista Lee Konitz. 

A ideia de entrar num palco quase sem ensaiar certamente amedrontaria outros músicos, mas não os experientes integrantes desse trio. “A gente fala o mesmo idioma, a mesma língua musical. Cada um de nós traz seu vocabulário pessoal para uma conversa”, observa André, comparando os improvisos da música instrumental e do jazz a um bate-papo. “Quando seu parceiro improvisa, você presta atenção no que ele propõe, algo como uma reflexão musical, para também poder contribuir com seu ponto de vista”.

“A música instrumental é um idioma. Com ele a gente pode conversar sem abrir a boca”, concorda Cuca, que recorre a outra inusitada metáfora. “Ao se improvisar uma música, ela pode ser vista como um autódromo. Os músicos é que vão definir as tangências de cada curva. Ou seja, a música tem uma forma que serve de regra para os improvisos. Quem tem o domínio musical consegue percorrer esse trajeto de várias maneiras”.

A plateia do Sesc Pompeia pode se considerar privilegiada por acompanhar os primeiros encontros desse trio promissor. Tudo indica que a música instrumental brasileira acaba de ganhar mais um veículo possante, capaz de encarar suas curvas melódico-harmônicas, no ritmo certo, e com muita criatividade. 

ENCONTROS INSTRUMENTAIS No Sesc Pompeia (r. Clelia, 93, região oeste de São Paulo), dia 26/3 (sábado), às 21h, e dia 27/3 (domingo), às 19h. Ingressos: de R$ 9 a R$ 30. Mais informações no site do Sesc SP.

Jazz na Fábrica: Roscoe Mitchell e Anthony Braxton abrem série de CDs do Selo Sesc

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                                                                                  O saxofonista Roscoe Mitchell                        

Gravados ao vivo, em São Paulo, discos dos músicos norte-americanos Roscoe Mitchell e Anthony Braxton inauguram série do Selo Sesc dedicada a registros de concertos do Jazz na Fábrica –- o festival produzido pelo Sesc Pompeia, que já realizou cinco edições. Veteranos saxofonistas e compositores de Chicago, os dois também têm em comum o fato de serem associados à vertente do jazz de vanguarda, embora suas obras sejam bem diversas.

Um dos criadores do Art Ensemble of Chicago, o lendário coletivo de “free jazz” que adotou esse nome no final dos anos 1960, Mitchell se apresentou com ele por quatro décadas. Multi-instrumentista que domina toda a família dos saxofones, ainda na década de 1970 gravou e fez concertos-solos de sax – mesmo formato de suas apresentações no 3º Jazz na Fábrica, em 2013.


As quatro longas faixas do álbum “Sustain and Run” podem até assustar um ouvinte não-familiarizado com suas liberdades sonoras – não se trata de música para embalar reuniões festivas. Tocando um sax soprano ou um sopranino, Mitchell faz seu instrumento gemer, gritar, uivar, chiar, ranger. É preciso relaxar e se concentrar nos sons para poder fruir a expressividade desses solos.

Já a música de Anthony Braxton (na foto à esquerda) é mais conceitual, mais elaborada. Em vez de aderir ao “free jazz”, a exemplo de muitos de seus contemporâneos, ainda na década de 1960 ele se aproximou da música contemporânea de vanguarda. Desenvolveu novas formas de composição, inclusive utilizando inusitadas notações gráficas, sem abrir mão da liberdade da improvisação.


As faixas “Composition nº 366d” e “Composition nº 367b”, com mais de uma hora de duração cada, ocupam os dois CDs do álbum de Braxton, que toca sax alto, soprano e sopranino ao lado de Taylor Ho Bynum (trompete e flugelhorn), Ingrid Laubrock (sax soprano e tenor) e Mary Halvorson (guitarra). Sons acústicos e eletrônicos formam texturas repletas de surpresas e contrastes dinâmicos. Diferentemente do redundante universo da música pop, na música inventiva de Braxton tudo se move e se transforma, sem repetições. 

Esses CDs estão disponíveis nas lojas das unidades e no site do Sesc

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/02/2016)

 

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