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Noa Stroeter: baixista do Caixa Cubo Trio exibe seu trabalho autoral no álbum "Prece"

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Conhecido na cena atual da música instrumental brasileira como contrabaixista do Caixa Cubo Trio, Noa Stroeter encara agora, com mais intensidade, o desafio do trabalho autoral. Em “Prece”, seu primeiro álbum solo, ele assina todas as composições e lidera um quinteto que inclui outros talentosos instrumentistas de São Paulo. 

“Essas músicas são meio autobiográficas, tentam contar algumas coisas que fazem parte da minha história”, revela o instrumentista paulistano, hoje com 32 anos. Seu interesse pela composição musical foi acentuado durante os seis anos em que frequentou como bolsista a graduação e o mestrado no Conservatório Real de Haia, na Holanda.

Além do contato mais próximo com a música clássica, viver na Europa lhe proporcionou um ponto de vista diferente do Brasil. “Essa experiência de poder olhar de longe o lugar onde nasci e cresci foi engrandecedora, porque na Europa nossa música é respeitada de uma maneira muito diferente comparada à que se encontra no Brasil. Perceber essa afinidade do povo europeu com a música brasileira me deu confiança para afirmar minhas raízes e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de encontrar o que é essa raiz em mim”, reflete Noa.

Constatar que a cultura brasileira é reverenciada na Europa, com um olhar focado principalmente na bossa nova e na batucada, trouxe um desafio ao compositor. “Perceber isso provocou em mim a necessidade de produzir um material que proponha uma visão diferente do músico e da música brasileira. A busca de como posso trazer essa característica para o meu trabalho foi e talvez ainda seja meu maior estímulo para criar", completa o compositor.

A ligação de Noa com o contrabaixista e produtor Rodolfo Stroeter – seu pai, que dividiu com ele a produção deste trabalho – também inspirou a faixa que dá título ao álbum. “Prece” começa com um emotivo solo de contrabaixo à capela, que evolui para a sensível melodia tocada pelos sopros. “É uma carta de amor, que se refere à benção de ser filho dele”, comenta Noa. Sentimental também é “Dinda”, bela composição do contrabaixista dedicada a seu avô paterno, que abre o disco.

Foi na Holanda que nasceu a lírica “Ornitorrinco e Tatu”, composição de Noa já gravada pelo grupo Batanga & Cia, em 2018. Idealizada originalmente para um quarteto de saxofones, ela foi adaptada para a nova formação. O compositor a criou pensando em seu irmão caçula, que tinha cinco anos na época. “Kim estava estudando os bichos, na escola, e criou junto com meu pai uma história em quadrinhos. Os heróis eram um ornitorrinco e um tatu”, relembra.

Já a romântica “Isis” traz uma surpresa para o ouvinte. Noa a dedica à sua companheira, cuja “envolvente variação de humor” (em suas palavras) transparece na estrutura da composição. A delicada melodia da introdução, tocada pela flauta, é seguida pelo característico ritmo de marcha-rancho, marcado pelo baterista Vitor Cabral. Bem popular na MPB dos anos 1950 e 1960, infelizmente, esse ritmo foi deixado de lado pelos compositores, com o passar do tempo.

Também não poderia faltar um samba-jazz, uma das referências musicais do Caixa Cubo Trio (vale lembrar que antes de lançar os álbuns “Misturada”, “Enigma” e “Saturno”, o grupo já havia gravado dois discos como duo). No contagiante “Beco das Garrafas”, o piano elétrico de Marcos Romera empresta uma sonoridade mais contemporânea à tradicional instrumentação do quinteto de jazz, com trompete, sax tenor, contrabaixo e bateria. Bem jazzístico também é “Veridiana”, tema em ritmo ternário, que destaca intervenções de Josué dos Santos, ao sax tenor, e Daniel D’Alcântara, ao flugelhorn.

Outra surpresa vem em “Varanda”, um bolero à Henri Mancini, um dos heróis musicais de Noa, inspirado na atmosfera boêmia de decadentes bares do centro de São Paulo. No saboroso arranjo, o ritmo de bolero se transforma em cha-cha-chá. Vale notar que o som volumoso do sax tenor e a surdina do trompete remetem a sonoridades das dançantes orquestras dos anos 1950.

Pergunte a Noa, como fiz, quais são suas maiores influências e vai receber uma lista um tanto inusitada. Ao lado de grandes compositores da música clássica, como Claude Debussy e Sergei Rachmaninnof, mestres da música brasileira, como Dorival Caymmi e Nelson Cavaquinho, ou ainda jazzistas do primeiro time, como Duke Ellington e Charles Mingus, poderão estar o pintor Pablo Picasso e o cineasta Martin Scorsese.

“Seja o que for aquilo que um artista procura em sua arte, o mais importante é a busca e o processo de afirmar sua própria voz, encontrar sua maneira de se expressar artisticamente. Nessa busca não tem atalhos nem fórmula mágica, ela vem conforme nos dedicamos todo dia a ela, com paciência e muito amor. É uma busca por viver uma vida da maneira mais artística possível”, reflete o músico.

Além do alto quilate da música autoral que Noa exibe neste álbum, ao ouvi-lo definir sua filosofia artística com toda essa sabedoria, não tenho dúvida alguma de que ele está no caminho certo.






Tuto Ferraz: os "clássicos" do baterista e compositor no Blue Note de São Paulo

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                                            O baterista Tuto Ferraz e o baixista Rui Barossi, no clube Blue Note SP

Foi assim, em preto e branco, que visualizei a apresentação do sexteto do baterista Tuto Ferraz, ontem (16/5), em São Paulo. Não só por estar no Blue Note, recém-inaugurada franquia do clube nova-iorquino, cujo nome remete à gravadora responsável por muito do que se produziu de melhor no jazz dos anos 1950 e 1960. Foi quase sempre em p&b, que fotógrafos que admiro, como William Claxton, Herman Leonard e Francis Wolff, retrataram essa música.


Seis anos atrás, ao lançar seu saboroso álbum “À Deriva”, Tuto me disse que o jazz produzido entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960 é o seu favorito. Além disso, suas composições têm um quê de clássicos da canção norte-americana, os chamados “standards”, que fazem parte do repertório dos jazzistas: melodias simples e cantáveis, que grudam em nossos ouvidos. Se você ouvir o valsante “Bom Dia” ou o samba “Chorando na Gafieira”, temas que a plateia do Blue Note paulistano aplaudiu calorosamente ontem, vai concordar comigo. 


Ao lado de outros cinco craques da cena instrumental de São Paulo (o pianista Pepe Cisneros, o saxofonista Josué dos Santos, o trompetista Bruno Belasco, o contrabaixista Rui Barossi e o guitarrista Agenor de Lorenzi), Tuto tocou grande parte do repertório do álbum “À Deriva”. Também exibiu um tema inédito, “Tango Russo”, que estará no álbum de jazz que ele promete gravar em breve. A amostra do que vem por aí deixou água na boca.


Tuto Ferraz: baterista e compositor faz jazz com temperos brasileiros

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                                                                                  Tuto Ferraz, em foto de Gabriela Ruffino

O baterista, compositor e band leader paulista Tuto Ferraz lança seu álbum "À Deriva" , nesta quarta-feira (19/3), no Ruella, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Abaixo reproduzo o texto que escrevi para a contracapa desse disco, que eu recomendo. Jazz de ótima qualidade com tempero brasileiro. 


Durante 12 anos o nome de Tuto Ferraz esteve associado ao da Grooveria, banda paulistana apreciada por suas versões dançantes de clássicos da MPB, exibidas em clubes e palcos de várias capitais brasileiras. Agora, o versátil baterista, produtor e band leader revela outro aspecto de sua personalidade musical: sete composições inéditas que comprovam sua afinidade com o jazz mais acústico.

“Tenho vários lados musicais, mas sou muito crítico comigo mesmo”, ele reconhece, ao explicar que só não gravou antes um disco como este por causa da autocrítica excessiva. “Eu também gosto de melodias e de tocar em andamentos mais lentos. Por isso adoraria ver este projeto de jazz se tornar meu prato principal, nos próximos anos”, comenta o baterista, que teve os primeiros contatos com esse gênero musical ainda na infância, estimulado pela variada discoteca de seu pai.

Neste álbum, além de contar com a participação do pianista Pepe Cisneros (seu parceiro desde a década de 1990, quando tocavam na banda Tumbao), Tuto tem a seu lado talentosos instrumentistas da nova geração: o guitarrista Agenor de Lorenzi, o saxofonista Josué dos Santos e os baixistas Sidiel Vieira e Zeli Silva. As sete faixas foram gravadas “ao vivo”, sem truques de edição, na própria casa-estúdio do líder, “com um quarto e três salas de gravação”. Mais ou menos como foram feitos grandes discos de jazz, no passado.

Por essas e outras, ao ouvir “À Deriva”, a delicada valsa-jazz que intitula este álbum, ou “Saudades”, uma emotiva balada levemente tingida de samba, não estranhe se você se sentir transportado para um estúdio de algum clássico selo de jazz, como o Blue Note ou o Prestige, onde brilharam décadas atrás músicos como Miles Davis, Bill Evans, John Coltrane, McCoy Tyner, Elvin Jones, Wayne Shorter, Dave Brubeck ou Oscar Peterson – influências que marcaram a formação jazzística do líder da Funky Jazz Machine.

“Sempre gostei do jazz mais antigo. Pra mim, o creme do creme do jazz é aquele do final dos anos 50, começo dos 60”, comenta Tuto, que mistura em sua composição “Big Band à la Bond” o balanço típico das orquestras de swing, que aprendeu a gostar ouvindo fitas cassete de seu pai, com as lembranças dos emocionantes filmes de James “007” Bond. Não é toa também que sua descontraída levada de bateria, no jazzístico tema “T-Funky”, emula os ritmos funkeados de New Orleans, a lendária capital do jazz tradicional.

Naturalmente, também não poderiam faltar neste álbum as influências da música brasileira. Elas estão presentes em “Triple Samba”, um inusitado samba em ritmo ternário, na leve e valsante “Bom Dia”, ou ainda em “Chorando na Gafieira”, um suingado samba-choro daqueles que grudam no ouvido. Essa é, aliás, uma característica das composições de Tuto: suas melodias são simples e cantáveis, como as dos clássicos standards da canção norte-americana que fazem parte dos repertórios dos jazzistas. 


Empolgado com suas composições, que deflagraram a nova fase de sua carreira, Tuto revela que a produção não parou. “Ano que vem tem outro disco”, anuncia. Pelo talento que ele exibe neste “À Deriva”, só podemos esperar que o próximo álbum saia logo.  

Daniel Maudonnet: pianista e compositor confirma talento em sua estreia em disco

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"Pescador", o primeiro álbum do pianista e compositor Daniel Maudonnet, é sintomático da brilhante fase que a música instrumental brasileira tem vivido nos últimos anos. À frente de um noneto formado por alguns dos melhores músicos de São Paulo, como o baixista Zé Alexandre Carvalho, o trompetista Daniel D’Alcântara e os saxofonistas Josué dos Santos e Vitor Alcântara, entre outros, Maudonnet estreia esbanjando maturidade.

O repertório do álbum é calcado em ritmos brasileiros. De ascendência jazzística, as sete composições e os arranjos são de autoria do próprio Maudonnet, que também assina a produção em parceria com o violonista Michael Ruzitschka. A delicada “Valsa da Solidão”, o vibrante afoxé “Mar Adentro”, a beleza da balada “Park Drive” e o sofisticado baião “Arraial da Ventania” são só algumas das evidências do talento desse jovem músico. 


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 25/5/2013)



 

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