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Milton Nascimento: DVD de 50 anos de carreira traz sucessos e melancolia

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Não é fácil resistir ao apelo de uma efeméride, ainda mais se tratando dos 50 anos de carreira de um artista do quilate de Milton Nascimento, grande compositor e intérprete de uma obra originalíssima que influencia outros músicos pelo mundo até hoje.

O DVD "Uma Travessia" (lançamento Universal), que registra o concerto comemorativo realizado no Rio, em novembro de 2012, oferece quase tudo o que se poderia esperar de um evento semelhante. Acompanhado por alguns dos melhores instrumentistas de Minas Gerais, Milton relembra 23 pérolas de seu repertório: de uma longa versão da triste “Cais” (parceria com Fernando Brant) à já clássica “Travessia”, seu primeiro sucesso.


Também não faltam participações especiais, como as do pianista Wagner Tiso e do cantor e compositor Lô Borges, parceiros de Milton que o acompanharam desde o início. Pena que em alguns momentos o show soe um tanto frio e arrastado. Por mais que tentem ser festivas, efemérides também carregam inevitáveis instantes de melancolia.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 21/12/2013)

6º Copafest: riqueza da música instrumental brasileira brilha em evento no Rio

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                                                                               O grupo instrumental Som Imaginário


Só por ter incluído em sua programação uma homenagem musical ao hoje quase esquecido maestro e arranjador paulista Erlon Chaves (1933-1974), o 6º CopaFest – que terminou na madrugada do último domingo, no salão do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro – já teria provado sua relevância cultural.

Assim como fez na edição de 2011, quando tirou o produtor e arranjador Lincoln Olivetti de um longo período de ostracismo, o CopaFest resgatou neste ano a original contribuição de um artista, que o preconceito racial e o moralismo quase extirparam da história da música popular brasileira, ainda nos anos 1970.

Durante o show-baile do sábado, o guitarrista e cantor Max de Castro (na foto acima) até poderia ter falado um pouco sobre o legado de Erlon Chaves, cuja obra certamente era desconhecida por parte da plateia. Max preferiu ser prático: antes mesmo de relembrar sucessos como “Cosa Nostra” ou “Eu Também Quero Mocotó” (de Jorge Ben), já tinha conquistado o salão com o suingue do maestro e pioneiro da black music brasileira.
 

À frente da afiada banda Esquerda Festiva, o elétrico guitarrista revisitou outros clássicos do repertório da Banda Veneno, veículo dos arranjos de Erlon, que misturam soul, jazz e a malandragem do samba, como “Vou Deitar e Rolar” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) e “De Noite na Cama” (Caetano Veloso). Não faltaram também arranjos da fase bossa nova do maestro, que trabalhou com Elis Regina e Wilson Simonal, representada por “Balanço Zona Sul” (Tito Madi). 

Dizendo-se emocionado por estar a uma quadra do lendário Beco das Garrafas, onde sua carreira emergiu de vez com a onda do samba-jazz, no início dos anos 1960, o veterano trombonista Raul de Souza (na foto acima com o baixista Glauco Solter) fechou a noite de sexta com inspiradas releituras instrumentais de “A Flor e o Espinho” (Nelson Cavaquinho) e “Céu e Mar” (Johnny Alf), entre outras.

Ainda nessa noite, a plateia também pôde se deliciar com a apresentação do octeto do pianista Tomás Improta, que recriou com muita sensibilidade pérolas da obra de Dorival Caymmi (1914-2008), como “O Mar”, “Rosa Morena” e “Você Não Sabe Amar”, incluindo a oportuna participação da cantora baiana Virgínia Rodrigues (na foto acima). Releituras tão belas, que merecem virar disco para serem apreciadas por um público mais amplo.

 
Na abertura do festival (31/10), foi emocionante ver o pianista mineiro Wagner Tiso novamente ao lado de seus antigos parceiros do grupo Som Imaginário, pioneiro nas fusões de rock progressivo, jazz e MPB, nos anos 1970. Clássicos da obra de Milton Nascimento, como “Milagre dos Peixes”, ou ainda a nostálgica “Casa no Campo” (de Tavito e Zé Rodrix), reviveram a trajetória do grupo, que hoje pode ser vista como uma seleção de craques da música instrumental, formada por Luís Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Nivaldo Ornelas (sax), Tavito (violão e voz) e o recém-chegado Victor Biglione (guitarra). 
  
Ainda na noite de estreia, a apresentação do Duo Elo, vencedor de um concurso de novos talentos promovido pelo festival, assim como a jovem banda Bondesom (na foto acima), que fechou o baile-show de sábado, mostraram também que o CopaFest está certíssimo ao olhar tanto para o futuro, como para o presente e o passado de nossa música. Aliás, nem poderia ser muito diferente, em um país como o Brasil, onde se cultiva diariamente uma das músicas instrumentais mais originais e criativas do mundo.

(Resenha publicada na edição online da “Folha de S. Paulo”, em 4/11/2013)


 

6º CopaFest: um tributo musical ao maestro Erlon Chaves por Max de Castro

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                                                                       O cantor e guitarrista carioca Max de Castro

Protagonista de um episódio polêmico que escancarou o racismo da sociedade brasileira no final da década de 1960, o maestro Erlon Chaves (1933-1974) será homenageado na sexta edição do CopaFest. Dedicado à música instrumental, esse evento reúne seis shows, de quinta a sábado, no salão Cristal do hotel Copacabana Palace, no Rio.

O tributo musical a Erlon Chaves – autor de arranjos gravados por expoentes da bossa nova e da MPB, como Wilson Simonal, Elis Regina, Alaíde Costa e Agostinho dos Santos, entre outros – foi idealizado pelo cantor e compositor Max de Castro. A coincidência de o maestro e líder da Banda Veneno ter morrido, vítima de um enfarte fatal, no mesmo dia em que Max completou dois anos de idade, é só um dos aspectos que o aproximaram do arranjador paulista.

“Ele e meu pai eram muito amigos”, conta Max, filho do cantor Wilson Simonal (1939-2000). “Eu me lembro de uma foto bem grande do Erlon, em nossa casa. Quando eu era pequeno, cheguei a pensar que ele fosse meu tio. Só fui entender a importância dele já na adolescência”, comenta o músico carioca.

Conceituado arranjador e compositor de trilhas sonoras para filmes e novelas de TV, Erlon viu sua carreira de sucesso despencar da noite para o dia, praticamente, durante o regime militar. Sua provocativa apresentação no Festival Internacional da Canção, no Rio, em 1970, quando cantou a debochada “Eu Também Quero Mocotó” (de Jorge Ben), acabou levando-o a ser detido pela polícia e interrogado, sob a acusação de obscenidade.

 
A insinuação sexual da letra da canção era quase uma brincadeira comparada à performance do maestro, que surgiu no palco fantasiado de marajá, acompanhado por 40 músicos e vocalistas. O clímax se deu com a entrada de duas garotas brancas, seminuas, que se esfregavam nele e o beijavam durante a apresentação. Houve até quem visse simulação de sexo oral, o que teria gerado protestos conservadores, incluindo os de algumas esposas de militares.

“Houve racismo, mas também um lado moralista bem típico tanto de ditaduras de direita como de esquerda. Certamente, o que detonou (as reações conservadoras) foi o fato de aquela ousadia ter partido de um homem negro”, comenta Max.

No baile-show que comandará no CopaFest, na noite deste sábado, o cantor e guitarrista vai lembrar a divertida “Eu Também Quero Mocotó”, assim como “Cosa Nostra”, outro sucesso da Banda Veneno, que era comandada por Erlon Chaves (em perfil, na foto acima), um dos precursores da black music com sotaque brasileiro.

“Erlon foi bastante influenciado pela música americana, especialmente pelo soul-jazz”, comenta Max, observando que um dos ídolos musicais do brasileiro era o hoje megaprodutor Quincy Jones. “Os dois têm características em comum na maneira de escrever os arranjos”, aponta.

O cantor e guitarrista diz ainda que não pretende fazer uma reconstituição fiel dos arranjos do maestro, até porque Erlon trabalhou tanto com orquestras e big bands, como com grupos instrumentais de vários formatos. “Será uma homenagem ao maestro, mas vamos tocar a música dele com a minha cara”, avisa.

Max revela também que está finalizando a mixagem de um novo álbum autoral, com lançamento previsto para 2014. “Além desse disco, provavelmente, também vou lançar outro projeto só com minhas parcerias com Bernardo Vilhena”, diz, referindo-se ao poeta e letrista carioca, que também assina a produção do CopaFest.

Entre as atrações desta edição do festival também se destacam, na quinta-feira, o pianista Wagner Tiso com o reativado grupo Som Imaginário e o Duo Elo. Na sexta, apresentam-se o quinteto do trombonista Raul de Souza e o tecladista Tomás Improta, que vai interpretar canções de Dorival Caymmi.

Mais informações sobre o evento, no site do 6º CopaFest.


FIGO 2013: Goiás entra com sucesso no circuito dos festivais de jazz e blues

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                                Wagner Tiso e Victor Biglione homenagearam o baixista goiano Bororó (à dir.)

“Nunca vi tanta música nesta cidade”, comentou, sorrindo, o pianista Diones Correntino durante sua apresentação, na última sexta-feira (16/8), em Goiânia. O quarteto desse talentoso instrumentista e compositor foi uma das 24 atrações do primeiro FIGO (Festival Internacional de Música em Goiás), que terminou no domingo (18/8).

O pianista não se referiu apenas à generosa quantidade de shows e concertos oferecidos pelo evento, todos com entrada franca tanto na capital como na simpática cidade de Pirenópolis. Como outros festivais mais abertos, o FIGO incentivou a diversidade, programando diferentes gêneros musicais: do jazz e do blues à música clássica, passando até pelo rap e pela moda de viola.
 
A noite de sexta começou em frente ao Teatro Goiânia, com a alta energia dos dançarinos da comunidade Kalunga, formada por remanescentes de quilombolas (na foto à dir.). Em seguida, já no palco, a cantora e pianista Elen Lara interpretou sucessos da bossa nova e da MPB, como “Estamos Aí” (de Mauricio Einhorn e Durval Ferreira) e “Verde” (Eduardo Gudin), além de canções próprias, segundo ela, com “vibe de música cristã”.

Bem acompanhado por Foka (saxofones), Bruno Rejan (baixo) e Guilherme Santana (bateria), Diones Correntino (na foto abaixo) também exibiu sua verve de compositor, no jazzístico samba “Café com Risadas” e no inventivo baião “Joca Ramiro”, inspirada por Guimarães Rosa. Dois temas extraídos do “Calendário do Som” (de Hermeto Pascoal) e uma suingada versão de “Aqui Ó” (Toninho Horta) também agradaram o público. 
 
Atração final da noite, o quinteto do trompetista norte-americano Leroy Jones na foto abaixo) deliciou a plateia goianiense com uma sessão de jazz tradicional bem ao estilo de New Orleans. No repertório de Jones, destaque para a dançante “I Found a New Baby” (Palmer & Williams) e a emotiva balada “In a Sentimental Mood” (Duke Ellington). Convidada especial do trompetista, a veterana cantora e atriz Topsy Chapman arrancou muitos sorrisos e aplausos, ao interpretar cantar o clássico “Summertime” (Gershwin & Heyward), canção da ópera negra "Porgy and Bess".

No sábado, o festival se transferiu para a cidade de Pirenópolis. A eclética programação, dividida em três palcos, começou ao ar livre, com o bumba-meu-boi do grupo Boi do Rosário. Em seguida, no Cine Teatro Pireneus, os MCs do grupo Black Cia exibiram seus raps, marcados por um enfático discurso antidrogas. Depois entrou a banda paulista Bodes & Elefantes, veículo para o trabalho autoral do tecladista Guilherme Granado, calcado em instrumentos eletrônicos, improvisos livres e toques de experimentalismo. 


Já no Teatro Sebastião Pompeu de Pina, o pianista Gilson Peranzzetta (na foto abaixo) exibiu belas composições próprias, em diferentes formações. Abriu o concerto com o divertido frevo “Lá Vai o Cara”, em solo de piano. Com a big band formada por integrantes da Orquestra de Sopros e Percussão do Cerrado, lembrou a romântica “Love Dance” (parceria com Ivan Lins). Já com a orquestra completa, regida por Cláudio Antunes, tocou “Obsession” (parceria com Dori Caymmi), que destacou o solo de trompete de Manassés Aragão.

A noite terminou com mais duas apresentações, no palco instalado no Largo do Rosário, no Centro Histórico. “Aqui jaz um jazz”, brincou um dos integrantes do Vida Seca, quarteto de percussão de Goiânia, que usa instrumentos construídos com sucata. Recursos teatrais e tiradas de humor também entram em cena, ao lado do repertório que mistura ritmos africanos e latinos com influências do pop e da música contemporânea. 

Atração mais esperada do sábado, a Soul Rebels, moderna banda de metais de New Orleans, conquistou logo a cumplicidade da plateia que abarrotou a rua do Rosário. Graças a seus arranjos dançantes calcados no hip hop, no soul e no funk, incluindo versões instrumentais de sucessos de figurões da música negra, como Jay-Z, Kanye West e Outkast, a Soul Rebels transformou o show em bailão-funk.

Outro grupo instrumental de Goiânia se destacou entre as atrações do domingo, no Teatro. Também conhecidos como Trio Cerrado, Dejan Cosic (teclados), Marcelo Maia (baixo) e Fred Valle (bateria) formam o Alpha Macacos (na foto abaixo), “power trio” que exibiu composições próprias e bem humoradas releituras de dois clássicos do jazz: “Well, You Needn’t” (de Thelonious Monk) e “Caravan” (Juan Tizol).

Ainda no teatro, em seguida entraram o pianista Wagner Tiso e o guitarrista Victor Biglione, que formam um dos duos mais harmônicos da música instrumental brasileira. Com o ecletismo de sempre, tocaram a erudita “Pavane” (de Fauré), o choro “Doce de Coco” (Jacob do Bandolim) e a jazzístico standard “Autumn Leaves”. Homenageado da noite, o conceituado baixista e produtor goiano Bororó juntou-se aos dois, mais ao final do concerto, para tocar composições de Tom Jobim e Edu Lobo ("Vento Bravo").


A noite de domingo, no Cine Teatro Pireneus, começou em altíssimo volume, com o metal do trio goiano Herectic. Mas a plateia só lotou essa sala durante a apresentação do bandolinista Hamilton de Holanda. Entre uma ou outra composição própria, ele exibiu todo seu imenso talento para o improviso, como na originais releituras de “O Que Será?” (Chico Buarque) e "Luiza" (Tom Jobim).

Como na véspera, os shows finais da noite ocuparam o palco do Largo do Rosário, que permite aos frequentadores assistir aos shows sentados nas mesas dos
restaurantes e bares da Rua do Lazer, ao ar livre. Popular banda de Goiânia, comandada pelo cantor e guitarrista André Mols, a TNY esquentou a plateia com versões de clássicos do blues e do soul, de Muddy Waters a Bill Withers.

A última atração do evento foi a veterana banda Blues Etílicos, com destaque para a guitarra e os vocais de Greg Wilson e a gaita de Flávio Guimarães (na foto à direita). Também familiar à plateia de Pirenópolis, a banda carioca, que acaba lançar sua própria marca de cerveja, divertiu os fãs com “Puro Malte”, canção com cara de jingle que intitula seu novo álbum, além de versões blueseiras para sucessos da MPB, como “Espelho Cristalino” (de Alceu Valença) e “Cotidiano nº 2” (Vinicius e Toquinho).

Com um saldo bastante positivo, evidenciado pelo interesse demonstrado pelas plateias de Goiânia e Pirenópolis pelos diversos gêneros musicais reunidos na programação, o estreante FIGO provou que Goiás está pronta para figurar no circuito dos festivais internacionais. Tomara que a próxima edição se realize e consiga superar todos os méritos da primeira.


 

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