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Eliane Elias: em tributo a Chet Baker, pianista e cantora aproxima-o da bossa nova

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Depois de gravar um álbum mais focado na música pop (“Light My Fire”, de 2012), a pianista e cantora Eliane Elias retorna ao universo do jazz, onde começou a construir sua carreira, ainda nos anos 1980. No CD “I Thought About You - A Tribute to Chet Baker” (lançamento da gravadora Universal), a paulista radicada nos EUA visita o repertório do cultuado trompetista, cantor e expoente do cool jazz.
 
Difícil não comparar este projeto ao de Luciana Souza, paulistana radicada nos EUA, que também lançou um tributo a Baker, no ano passado. Diferentemente de Luciana, que recriou com personalidade a atmosfera melancólica das gravações de Chet em seus últimos anos, Eliane parece ter se inspirado mais na fase inicial desse jazzista.

Suas versões para “Just Friends” e “That Old Feeling” soam leves, quase solares. A releitura de “This Can’t Be Love” resulta em jazz dançante à moda de Nat King Cole. Eliane ainda toma a liberdade de interpretar “There Will Never Be Another You” e “Let’s Get Lost” em ritmo de bossa nova. A “brazilianista” Diana Krall que se cuide.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/06/2013)

Luciana Souza: cantora recria a atmosfera solitária do jazz de Chet Baker

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                                                                                               Photo by Bob Wolfenson

É preciso um pouco de coragem e muito talento para gravar um álbum como “The Book of Chet” (lançamento Sunnyside/Universal), que acaba de sair no Brasil. Na contramão da histeria dançante que move grande parte da produção musical de hoje, Luciana Souza interpreta dez canções, algumas bem tristes, em versões tão lentas e minimalistas que chegam a causar estranhamento.

Mesmo intrigado, depois de algumas faixas, o ouvinte que se deixou levar pela sutileza das linhas melódicas e pela esparsas intervenções do trio que acompanha a cantora percebe que está encantado pela atmosfera de melancolia e beleza do álbum. Como em um universo paralelo, a sensação de tempo se dissolve.

As letras das canções, como “The Thrill Is Gone” (Henderson & Brown), “The Touch of Your Lips” (Noble) ou “You Go to My Head” (Gillespie & Coats), evocam dores amorosas e muita solidão, mas Luciana jamais perde a elegância, combinando silêncios e notas longas, sem apelar para exageros dramáticos.

É assim que ela, o guitarrista Larry Koonse, o baixista David Piltch e o baterista Jay Bellerose recriam, com muita personalidade, o universo sonoro do trompetista e cantor norte-americano Chet Baker (1929-1988), ícone do “cool jazz”. Em vários momentos, a sensação é quase a de escutar um quarteto, já que os vocais da cantora soam como outro instrumento.

Novos duos de voz e violão

Lançado no final de agosto, nos EUA, onde a paulistana Luciana Souza vive desde a década de 1990, “The Book of Chet” chegou ao mercado junto com “Duos III” (Sunnyside/Universal), o terceiro álbum da série em que ela interpreta clássicos da canção brasileira, no formato voz e violão. Ambos foram produzidos pelo norte-americano Larry Klein.

Nessas gravações, mais uma vez, Luciana tem a companhia dos grandes violonistas Marco Pereira e Romero Lubambo, em releituras de canções de diversas épocas: da triste “Mágoas de Caboclo” (de Cascata e Azevedo), que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves, ao bem sacado medley que une “Lamento Sertanejo” (Gilberto Gil e Dominguinhos) e “Maça do Rosto” (Djavan).

Mesmo ao interpretar algumas canções já gravadas quase à exaustão, Luciana oferece surpresas: como em “Dindi” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), clássico da era da bossa nova que ressurge em versão inovadora, com o violão “bluesy” de Lubambo.

Brilhantes também são os encontros de Luciana com o violonista e compositor Toninho Horta, que contribuiu com duas de suas canções mais belas e estranhas: “Beijo Partido” e “Pedra da Lua” (esta em parceria com o poeta Cacaso).

Assim como já foram indicados para o próximo prêmio Grammy, “The Book of Chet” e “Duos III” merecem frequentar as listas de melhores álbuns do ano. Têm tudo para agradar fãs do jazz ou da MPB.


(resenha publicada parcialmente na “Folha de S. Paulo”, em 26/12/02)

Jazzhus Montmartre: lendário clube de Copenhagen mantém viva a chama do jazz

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                     Mette Juul, Morten Ramsboll (baixo) e Gerard Presencer (flugelhorn) / Photos by Carlos Calado


A imagem do saxofonista Dexter Gordon (1923-1990) chama atenção na fachada do Jazzhus Montmartre, lendário clube de jazz de Copenhagen, que tive o prazer de conhecer na noite deste sábado.  Assim como Chet Baker , Stan Getz, e outros jazzistas norte-americanos auto-exilados na Europa durante os anos 1950 e 1960, Gordon foi um dos grandes responsáveis por esse pequeno clube dinamarquês ter se tornado conhecido internacionalmente.

Reinaugurado em 2010, no mesmo local em que funcionou durante o áureo período de 1959 a 1976 (na Store Regnegade, no centro de Copenhagen), o Jazzhus Montmartre inclui hoje um ótimo restaurante, com cardápio assinado pelo chef Alessandro Jacoponi,  que só serve comes e bebes até o início dos shows, a partir de 20h.

Quem se apresentou neste sábado foi  Mette Juul, correta cantora e violonista dinamarquesa, que mistura em seu repertório standards do jazz, como “The Nearness of You” e “You and the Night and the Music”, além de canções do universo pop, como “Be Cool”, de Joni Mitchell,  assumida influência em sua concepção musical. A seu lado, ela tinha um quarteto, com destaque para os improvisos do talentoso trompetista britânico Gerard Presencer.

Nas próximas semanas, apresentam-se na casa o pianista italiano Enrico Pieranunzi (de 27 a 29/9), a cantora norte-americana Gretchen Parlato (4 e 5/10), o saxofonista norte-americano Lee Konitz (18 a 19/10) e o trompetista brasileiro Claudio Roditi (24 e 25/10).

A seleção musical, que se ouve antes dos shows, não poderia mais mais adequada para um clube com o passado do Jazzhus Montmartre: muitas gravações históricas de Dexter Gordon.

Mais informações no site do clubewww.jazzhusmontmartre.dk

Luciana Souza: cantora e compositora, que vive nos EUA, fecha sua trilogia "Duos"

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Uma década atrás, já estabelecida nos EUA, ela lançou o disco “Brazilian Duos”, cantando clássicos da música brasileira, em português, acompanhada por três violonistas. Saudado pela crítica internacional e indicado ao prêmio Grammy, esse álbum permitiu que Luciana Souza firmasse de vez sua carreira na cena mundial do jazz. Em 2005, ela manteve esse formato, no CD “Duos II”, com o qual acumulou novos elogios e outra indicação ao Grammy.

No entanto, quando vinha se apresentar no Brasil, a cantora paulistana era questionada por seu repertório não incluir compositores brasileiros contemporâneos. “Como saí muito cedo do país, não tenho uma relação com a música brasileira de hoje”, ela reconhece, em entrevista ao "Valor", por telefone, de Los Angeles. “Tenho contato com alguns músicos brasileiros, recebo discos e sei mais ou menos o que acontece no país, mas, na hora de gravar, meu interesse é mesmo pelos clássicos”, admite.

É por isso que, dias antes de vir a São Paulo para gravar seu terceiro álbum da série “Duos” e fazer shows no Sesc Pompéia (em 10 e 11/3), Luciana não esconde uma ponta de desabafo. “Resolvi assumir que gosto de canções mais antigas e vou continuar a gravá-las. Vai ser legal fechar essa trilogia, finalmente, porque quando fiz o segundo ‘Duos’ já tinha o terceiro na cabeça. Cheguei a pensar em usar outros instrumentos, mas refleti melhor e voltei à ideia de cantar só com violão”.

Nas gravações de “Duos III”, Luciana terá outra vez a seu lado dois violonistas que a acompanharam nos primeiros discos da série. “Romero Lubambo é um grande parceiro meu, aqui nos Estados Unidos. E o Marco Pereira tem uma história pessoal comigo, somos amigos desde minha adolescência. A novidade desse disco é que também convidei o Toninho Horta. Vamos gravar ‘Pedra da Lua’, uma música dele, que é estranha e muito bonita”, comenta.

Como nos álbuns anteriores, Luciana vai reler clássicos da música brasileira de diversas épocas. Alguns deles ela aprendeu a cantar com seus pais – a letrista Tereza Souza e o violonista e compositor Walter Santos, expoentes da geração que cultivou a bossa nova durante a década de 1960, em São Paulo. Já nos anos 1980, os dois fundaram o Som da Gente, selo importante no segmento da música instrumental brasileira.
 
"Vou gravar uma canção linda, do repertório do Orlando Silva, que o meu pai cantava muito”, diz ela, referindo-se a “Mágoas de Caboclo” (Leonel Azevedo e J. Cascata). “Também vou cantar um medley, em ritmo de baião, que combina ‘Lamento Sertanejo’, de Gilberto Gil e Dominguinhos, com ‘Maçã do Rosto’, do Djavan. Tem outra ainda do Gil, ‘Eu Vim da Bahia’, que eu já canto por aqui”, revela.

Frequente no repertório de Luciana, Tom Jobim estará representado por três canções: “Chora Coração”, “Dindi” e “Ligia”. “Faz tempo que eu quero muito gravar essas músicas. Como ‘Ligia’, da qual já tentei, mas não consigo escapar”, diverte-se. “Tenho que gravá-la, é uma coisa de paixão. E vai ser com o Toninho Horta, que tem um suingue todo dele”.

Há três anos sem lançar discos, desde o álbum “Tide” (2009), Luciana prepara um retorno em dose dupla. “Duos III” tem lançamento previsto para 28 de agosto, nos EUA, pelo selo Sunnyside. Nesse mesmo dia sai também “The Book of Chet”, homenagem que ela fará ao cantor e trompetista Chet Baker (1929-1988). Nesse CD vão entrar conhecidos standards do repertório do jazzista, como “The Thrill is Gone” e “You Go To My Head”. 

“Ele cantava com uma tristeza absolutamente palpável. Quero evocar um pouco daquela maneira de cantar tão solitária e da intuição que ele tinha no fraseado”, revela Luciana, comentando que a afinidade do estilo cool de Baker com a estética da bossa nova também a estimula a realizar esse projeto. “Eu não parava de ouvir e cantar Chet Baker, na época em que estava cursando o mestrado. Essa é outra obsessão que também preciso tirar do meu organismo”, brinca a intérprete, que terá a seu lado talentosos músicos de jazz da Califórnia: Larry Koose (guitarra), David Piltch (contrabaixo) e Jay Bellerose (bateria).

Embora sua produção musical tenha diminuído, relativamente, nos últimos anos, Luciana não lamenta a mudança de ritmo na carreira, após se casar com o produtor Larry Klein. “Sem querer ser egoísta, acho que tive muita sorte por ter tido meu filho durante essa crise econômica. Como as oportunidades diminuíram para todos os artistas, tanto nos Estados Unidos como na Europa, foi muito bom poder ficar em casa, cuidando do meu filho, sem me sentir culpada por não estar trabalhando”, comenta, pontuando que, mesmo assim, faz cerca de 40 a 50 shows por ano.

“Durante esse período de hibernação, trabalhei com o Paul Simon, com o Herbie Hancock, gravei o ‘Tide’, fiz projetos lindos com música de câmera, que me fizeram crescer em outras áreas”, relembra. “Além disso, ao me casar, mudei de Nova York para Los Angeles, algo fundamental para mim. Em Nova York, havia a pressão diária de estar sempre fazendo e acontecendo. Tem uma hora em que você precisa se voltar para dentro”, diz, lembrando que também teve de lidar com a perda dos pais nesse período.

A morte de Walter e Tereza, três anos atrás, só aumentou sua vontade de homenageá-los. “Eu gostaria muito de fazer um tributo a meu pai, um disco com instrumentos de cordas, com grandes arranjadores. Já falei com Vince Mendoza, Johnny Mandel, Dori Caymmi, Oscar Castro Neves. Todos topam participar, mas um disco como esse custaria pelo menos uns 100 mil dólares e eu não tenho uma gravadora que possa bancar isso. A solução seria conseguir um patrocínio”, comenta.

Para os shows que fará em São Paulo, Luciana estará acompanhada por três conceituados nomes da nova geração da música instrumental brasileira: Fábio Torres (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Marcelo Mariano (baixo). No repertório, segundo ela, estarão várias faixas de seu último álbum, “Tide”, como o medley de sambas “Adeus América/Eu Quero Um Samba” (Haroldo Barbosa, Geraldo Jacques e Janet de Almeida) e “Chuva”, poema de Paulo Leminski que ela mesma musicou. 

Num momento em que muitos brasileiros emigrados retornam ao país, estimulados pela estabilidade econômica, Luciana diz que hoje vive outra fase.  “Já não sinto mais a nostalgia de antes. Voltar a viver no Brasil não cabe mais na minha vida, porque finquei raízes profundas nos Estados Unidos. Mas não preciso de endereço no Brasil, para me sentir brasileira. Hoje me sinto um espécie de diplomata, porque sou conhecida no exterior como uma cantora de jazz brasileira. O Brasil nunca vai sair de mim”.

(entrevista publicada no jornal “Valor Econômico”, edição de 29/2/2012)





 

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