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Sesc Jazz: 4.ª edição do festival amplia espaço para mulheres e música negra

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                                               A cantora e dançarina Dobet Gnahoré / Foto: Jean Goun - Divulgação

O mais extenso e diversificado dos festivais brasileiros de jazz e música instrumental está de volta, com destaque para vertentes da música negra que a diáspora africana semeou pelas Américas. A quarta edição do Sesc Jazz vai ser realizada de 5 a 23/10, em sete unidades do Sesc São Paulo: Pompeia (na capital), Guarulhos, Jundiaí, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto e São José dos Campos. 

As três semanas de programação oferecem 20 atrações internacionais e nacionais. A noite de estreia, no Sesc Pompeia, ficará por conta da Exploding Star Orchestra, de Chicago (EUA). Liderada pelo cornetista e compositor Rob Mazurek, essa formação instrumental reúne músicos norte-americanos e brasileiros, que produzem um jazz eletrônico e funkeado, com incursões pelo experimentalismo.

O continente africano está muito bem representado no elenco desta edição. De ascendência zulu, o pianista e compositor sul-africano Nduduzo Makhathini também é educador. Seus álbuns mais recentes, “Modes of Communication Letters From the Underworlds” (2020) e “In the Spirit of Ntu” (2022) foram lançados pelo cultuado selo Blue Note. No quinteto de Makhathini chama atenção o baterista nova-iorquino Nasheet Waits, um dos craques desse instrumento no jazz atual.

Congolês radicado na França, o pianista e compositor Ray Lema já se apresentou diversas vezes no Brasil desde a década de 1990. O ecletismo de sua obra musical costuma deixá-lo em uma situação delicada, quando alguém lhe pede que identifique sua música. “Na verdade, quando componho, é acima de tudo uma questão de amor: me apaixono por roqueiros, por reggaeros, por um baterista tradicional. Sempre fico constrangido com esse negócio de classificar minha música”, admite.

O fato de a cantora, percussionista e dançarina Dobet Gnahoré já ter sido comparada a grandes astros da música africana, como a cantora Miriam Makeba ou o trompetista Hugh Masekela, dá uma dimensão de seu talento. Nascida na Costa do Marfim, Dobet se mudou para a França, em 1999. Adepta do panafricanismo, ela canta em diversas línguas faladas no continente africano, como o bété (Costa do Marfim), o fon (Benin), o suaíli (Moçambique, Tanzânia e Quênia) e o wolof (Senegal e Mauritânia).

                                    O quarteto da flautista Nicole Mitchell (no centro) / Foto: Divulgação

Aliás, as mulheres, tanto instrumentistas como cantoras, ganharam mais espaço nesta edição do Sesc Jazz – iniciativa que merece aplausos. Também ligada à cena do jazz experimental de Chicago, a flautista e compositora Nicole Mitchell lidera o Black Earth Sway, quarteto feminino que reúne a tecladista Alexis Lombre, a baterista JoVia Armstrong e a percussionista e atriz Coco Elysses, que toca diddley bow (primitivo instrumento com uma corda, que antecedeu a guitarra).

Do continente europeu virão duas originais pianistas, compositoras e arranjadoras. A francesa Macha Gharibian, que também é cantora, mistura em suas composições influências da música pop e de canções do folclore da Armênia, o país de seus antepassados. A dinamarquesa Kathrine Windfeld combina energia e lirismo em seu jazz. Vai se apresentar aqui em dois formatos diferentes: com a mineira Big Band do Clube, no Pompeia e em Jundiaí; já em Ribeirão Preto, ela toca com seu quarteto.

Revelação da cena alternativa do jazz em Londres, o coletivo Kokoroko é liderado pela trompetista e vocalista Sheila Maurice-Grey. Depois de animar muitas plateias em clubes e festivais por cerca de quatro anos, essa banda britânica lançou em agosto seu primeiro álbum. “Could We Be More” mistura influências africanas e caribenhas, em gêneros musicais como o afrobeat, o highlife, o funk e a soul music.

Dois paulistas que vivem na Europa também estão na programação. A baterista, compositora e cantora Mariá Portugal (ex-integrante da banda Quartabê), que se mudou para a Alemanha dois anos atrás, mostra o repertório de seu álbum “Erosão”, lançado em 2021. Suas canções servem de ponto de partida para improvisos com instrumentos acústicos, que depois são manipulados com recursos eletrônicos.

Radicado na Escócia desde 2014, o guitarrista, cantor e compositor André Christovam tornou-se uma referência no universo do blues com sotaque brasileiro, ainda na década de 1990. Foi também um dos artistas responsáveis, em nosso país, por incentivar uma onda de interesse por essa tradicional raiz do jazz e da música negra norte-americana. Acompanhado por Albino Infantozzi (bateria) e Fábio Zaganim (baixo elétrico), ele promete uma retrospectiva de sua obra musical.

                                                        A cantora peruana Susana Baca / Foto: Divulgação

Nossos “hermanos” latino-americanos também estão representados no elenco deste Sesc Jazz. Pesquisadora da herança artística afro-latina e ex-ministra da cultura de seu país, a cantora Susana Baca é uma das grandes vozes negras deste continente. Em patamar de importância equivalente, a carioca Alaíde Costa vai dividir o palco com outra grande cantora que é sua conterrânea: mais jovem e com uma carreira musical de duas décadas, Ilessi ainda não desfruta do reconhecimento que merece.

Outros shows e projetos especiais são dedicados à música popular brasileira, como a comemoração dos 35 anos de lançamento do álbum “Quarteto Negro” (de 1987), que será reconstituído por três dos músicos participantes da gravação original: a cantora Zezé Motta, o percussionista Djalma Correa e o baixista Jorge Degas; o grande clarinetista Paulo Moura (1932-2010) será substituído por Ivan Sacerdote.

Já o tecladista e compositor Lelo Nazário, pioneiro na introdução de elementos de vanguarda na música instrumental brasileira, festeja seus 40 anos de carreira relendo algumas de suas composições mais significativas, ao lado de antigos parceiros em sua trajetória, como Teco Cardoso (sax e flautas), Nenê (bateria), Zeca Assumpção e Rodolfo Stroeter (baixo acústico e elétrico).

Dois veteranos músicos e compositores brasileiros vão receber homenagens. O show “Moderno e Eterno” é um tributo ao legado do pianista e original chorão paulista Laércio de Freitas, hoje com 81 anos. Dono de uma obra musical admirada internacionalmente, o percussionista catarinense Airto Moreira (com a mesma idade de Laércio) terá seu álbum “Fingers” executado na íntegra, com participação especial do violonista Filó Machado.

A música brasileira também está no centro de dois criativos projetos. O encontro da cantora Juçara Marçal e do guitarrista Lello Bezerra, entre outros brasileiros, com os franceses Nicolas Pointard (bateria) e Christophe Rocher (clarinete), do quarteto de câmara Nautilus Ensemble, foi batizado de Abajur. Já o projeto Tradição Improvisada reúne Thomas Rohrer (rabeca e sopros), Kiko Dinucci (guitarra) e Panda Gianfratti (percussão) com a cantora Dona Benedita, em homenagem a Nelson da Rabeca (1941-2022), mestre da cultura popular de Alagoas.

Finalmente, duas orquestras da Bahia oferecem às plateias do Sesc Jazz a oportunidade de mergulhar, ao vivo, na riqueza da música afro-brasileira. Liderada pelo maestro Ubiratan Marques, que a criou em 2009, a Orquestra Afrosinfônica combina sonoridades afro-brasileiras com a linguagem da música de concerto – daí o conceito de “afrossinfônico”, cunhado pelo próprio regente. Sua formação inclui instrumentos de sopro, metais, percussão e quatro vocalistas.

Foi o maestro, multi-instrumentista, compositor e arranjador Letieres Leite (morto precocemente em 2021), que fundou a Orkestra Rumpilezz, em Salvador, em 2006. O nome dessa big band afro-brasileira já revela suas origens e principal influência: os nomes do três tambores nos rituais do candomblé (rum, rumpi e lê) se fundem com os dois “zês“ da palavra jazz. Em seus concertos no festival, a Rumpilezz exibe o repertório de seu álbum “Moacir de Todos os Santos”, dedicado à obra do grande maestro e compositor pernambucano Moacir Santos (1926-2006).

Confira a programação completa do festival Sesc Jazz e compre seus ingressos no site do Sesc SP: https://sescjazz.sescsp.org.br/programacao/

Imprô: novo festival reúne adeptos da música experimental em São Paulo

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                                                       A baterista Mariá Portugal vai tocar na abertura do festival Imprô 

Os fãs de música experimental vão ter dois finais de semana repletos de atrações, em São Paulo. O festival Imprô estreia nesta sexta (6/9), às 21h, no Estúdio Bixiga, com uma programação que combina sessões de improvisação livre, oficinas e debates sobre o universo dessa vertente musical.

Na noite de abertura, a baterista Mariá Portugal comanda uma sessão de improvisação, em um quinteto que inclui a clarinetista Joana Queiroz (sua parceira na banda Quartabê), o pianista Paulo Braga, o contrabaixista Rui Barossi e o saxofonista Filipe Nader.

O programa é triplo na noite do sábado (7/9), que começa às 19h20 com os improvisos de Cadós Sanchez (que constrói seus instrumentos), Flavio Lazzarin (bateria eletrificada) e Flora Holderbaum (violino e voz).

Em seguida, a contrabaixista francesa Joëlle Leandre se apresenta pela primeira vez no país. Com uma longa trajetória na cena do free jazz e das experimentações sonoras, ela toca com Mariá Portugal e Thomas Rohrer. Joëlle também fará uma apresentação solo no domingo (8/9), às 17h.

A última atração deste sábado é o encontro da vocalista Juçara Marçal e do guitarrista Kiko Dinucci (parceiros na banda Metá Metá) com o baterista Mauricio Takara e o multi-instrumentista Thomas Rohrer.

A programação musical do Imprô segue até dia 14/9 (sábado), no Estúdio Bixiga, com sessões de improvisação livre em diversos formatos instrumentais. Entre os músicos convidados destacam-se a saxofonista dinamarquesa Mette Rasmussen (dia 13 e 14/9) e a saxofonista alemã Angelika Niescier (dia 14/9).

O festival termina com o Imprôzinho, programa dedicado ao público infantil: a 
performática carioca Bella exibe suas experimentações sonoras para crianças, no dia 15/9, às 15h, no Sesc 24 de Maio.

A programação do Imprô inclui também dois debates. No dia 7/9, no Lab Mundo Pensante, o tema é “A improvisação livre desde uma perspectiva negra”. Já no dia 14/9, organizadores de festivais do Brasil e da Europa voltados à música experimental conversam sobre suas experiências.

Mais detalhes no site do festival: www.improfestival.com.br


Quartabê: quinteto paulistano relê obra de Moacir Santos com muita liberdade

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Um quinteto que destaca quatro garotas instrumentistas já é algo raro nos meios da música brasileira, mas o que mais chama atenção no grupo Quartabê é sua atitude criativa. Joana Queiroz (sax tenor e clarinete), Maria Bastos (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria), Ana Sebastião (baixo) e Chicão (piano e teclados) relêem composições do cultuado maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006) com muita liberdade, sem medo de imprimir nelas diversas referências, do jazz de vanguarda ao pop.

O primeiro álbum do grupo, "Lição #1 Moacir” (lançamento independente), não tem nada a ver com “songbooks” ou tributos musicais cheios de reverências. A releitura da popular “Nanã - Coisa #5”, por exemplo, inclui um estridente solo de teclado e improvisos coletivos. Na encantadora “Suk-chá”, o arranjo usa palmas e vocais para hipnotizar o ouvinte e, quando este pensa que a faixa acabou, vem uma seção mais intensa. Aliás, surpresas não faltam no álbum de estreia desse quinteto, que por si só já é uma surpresa promissora. 

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 19/12/2015)




 

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