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Wynton Marsalis: trompetista revela que suou para gravar choro de Pixinguinha

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                                         O trompetista e educador Wynton Marsalis, em ensaio no Sesc Consolação 

Para um músico de jazz que chegou a ser apontado pela revista “Time” como uma das 25 pessoas mais influentes da América, em meados dos anos 1990 (época em que travou bate-bocas com os trompetistas Miles Davis e Lester Bowie, que o tachavam de conservador), Wynton Marsalis parece estar em uma fase mais “low profile” ao desembarcar em São Paulo, na manhã da última terça-feira (18/6).

A convite do Sesc, o renomado trompetista e educador americano veio cumprir uma extensa série de concertos e atividades educativas à frente da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), da qual se tornou diretor artístico em 1991. Discutidas e planejadas por quase dois anos, as atividades desse projeto serão realizadas em oito unidades do Sesc, até dia 30/6.

“Estamos muitos felizes”, festejou Danilo Miranda, diretor regional do Sesc, ao abrir uma coletiva de imprensa, poucas horas depois, no 17.º andar do Sesc Paulista. “Percorrendo um itinerário que passa por regiões mais pobres da cidade de São Paulo, faremos esse vasto programa que será bastante importante, tanto do ponto de vista artístico, como do ponto de vista educativo”.

Uma rápida consulta à discografia e à agenda de turnês de Wynton mostra que ele tem dedicado mais tempo aos concertos, gravações e atividades educacionais da Jazz at Lincoln Center Orchestra do que à sua própria carreira de solista. Com o passar do tempo, o trompetista virtuose (o primeiro a conquistar, simultaneamente, prêmios Grammy nas áreas do jazz e da música clássica) cedeu espaço para o educador.

Segundo ele, a grande influência para seu envolvimento com a educação musical está na casa de sua própria família, na cidade de New Orleans (no estado da Louisiana, sul dos Estados Unidos), onde nasceu: seu pai, o pianista e educador Ellis Marsalis (hoje com 84 anos), que contribuiu ativamente para a formação de várias gerações de músicos locais.

“Vi meu pai lutando na comunidade por muitos anos, como poucos fizeram. Ele tem uma grande crença na força da música para transformar comunidades e pessoas. Aprendi com ele”, diz Wynton, que recentemente participou de um concerto em homenagem ao pai, na 50.ª edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival, ao lado de três irmãos: o saxofonista Branford, o trombonista Delfeayo e o baterista Jason, que também veio a São Paulo com a JLCO.

Perguntei a ele o que o jazz pode ensinar aos músicos, assim como aos ouvintes, em termos de filosofia de vida. “A arte é uma reencenação simbólica, toda ela. Você pode retornar aos desenhos das cavernas e constatar que eles são uma encenação simbólica”, respondeu, sugerindo que essa música representa, de algum modo, a convivência humana em uma sociedade.

“Quando as pessoas de uma plateia nos veem tocar, elas assistem a uma reencenação do tipo de comunicação que queremos estabelecer. A música nos força a fazer isso um com o outro. Trata-se de um compartilhamento, com certa liberdade, mas também com responsabilidade de um para o outro, inclusive na hora de decidirmos quanto tempo pode durar um solo improvisado”, explicou.

Ainda tratando de educação musical, Wynton contou um episódio saboroso, que marcou os primeiros anos de sua experiência como professor. Tinha cerca de 25 anos, quando um aluno adolescente, desanimado por ver seus erros serem apontados insistentemente, perguntou, com todo o respeito, se não poderia ensiná-lo a partir de aspectos positivos. “Eu não fazia isso por mal, mas porque foi dessa maneira que aprendi a tocar. Esse caso transformou a maneira como eu pensava que deveria ensinar”, admitiu o educador.

Mais divertido é o episódio relacionado ao álbum “Com Alma” (Selo Sesc, 2017), da Banda Mantiqueira, que o convidou a participar da gravação do encrencado choro “Segura Ele”, de Pixinguinha. Wynton revelou que só 
percebeu o quanto essa música é difícil de tocar já no estúdio, em Nova York, onde contou com a ajuda do violonista carioca Romero Lubambo, que também participou dessas gravações.  A cada nova tentativa frustrada de tocar um trecho, ele olhava para Lubambo, que apenas abria os braços, sem dizer nada. “Só duas horas mais tarde ele me disse que estava OK”, concluiu o americano, rindo. 

Claro que essa experiência um tanto frustrante para um músico tão tarimbado só reforçou a admiração que Wynton tem pela música brasileira. Um de seus compositores favoritos é o pernambucano Moacir Santos, cuja música, segundo ele, “é cheia de arte e de vida”. Essa admiração é compartilhada por Ted Nash, músico da JLCO, que também deu um depoimento pessoal durante a entrevista.


“Temos uma conexão incrível, que me faz pensar que o Brasil é como um primo para os Estados Unidos. Temos muitas similaridades em nosso passado: pessoas incríveis, problemas raciais e políticos. Eu sinto que a música pode ajudar a quebrar barreiras. Toda vez que venho ao Brasil, eu me sinto uma pessoa melhor ao voltar para casa. Este país é extraordinário”, disse o saxofonista e flautista.  

Já quase ao final da entrevista, não faltou uma pergunta sobre as críticas que Wynton costuma fazer ao rap e ao hip hop. “Meu problema com o hip hop tem a ver com o uso de certas palavras que não me agradam. Comecei a dizer isso ainda nos anos 1980. Eu sou da época do movimento pelos direitos civis, então voltar a se chamar pessoas de ‘negrinhos’ e ‘putas’ é algo que eu jamais aceitaria. Já mudei de posição sobre outras coisas, mas mantenho essa opinião há 30 anos”, afirmou o líder da JLCO.

Mais informações sobre a programação de Wynton Marsalis e Jazz at Lincoln Center Orchestra, no site do SESC SP



Wynton Marsalis: um ensaio aberto da Jazz at Lincoln Center Orchestra em São Paulo

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                                    Wynton Marsalis (ao centro, no fundo) e a Jazz at Lincoln Center Orchestra   

A longa fila em frente ao prédio do Sesc Consolação, em São Paulo, indicava a importância do evento. Com um ensaio aberto ao público da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), liderada pelo conceituado trompetista e educador musical Wynton Marsalis, começou na tarde de ontem (19/6) a extensa programação do projeto que trouxe essa orquestra nova-iorquina de jazz à capital paulista para compartilhar seus conhecimentos. 

Oito unidades do Sesc (três delas na área periférica da cidade) vão sediar durante 12 dias uma série de concertos, ensaios abertos, workshops, palestras e uma jam session. A maratona de eventos termina no dia 30/6 com um concerto gratuito da orquestra no Sesc Parque Dom Pedro II, incluindo participações de Hamilton de Holanda (bandolim), Nailor Proveta (clarinete e saxofones), Daniel D’Alcântara (trompete) e Ari Colares (percussão).  

Apreciadores desse gênero musical, estudantes de música e até alguns instrumentistas profissionais disputaram os ingressos gratuitos para o ensaio de ontem. Quem conseguiu entrar no teatro ouviu uma prévia do repertório que a orquestra nova-iorquina vai tocar por aqui, viu como Marsalis conduz um ensaio e até o ouviu destrinchar e burilar no trompete algumas frases de “Jump Did-Le-Ba”, encrencada composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do bebop. 

Boa parte da plateia vibrou ao ouvir o líder da JLCO anunciar a primeira música do ensaio: “África”, de John Coltrane (1926-1967), que ganhou um arranjo delicado, com solos do percussionista Ari Colares e da saxofonista Camille Thurman. Também uma talentosa vocalista, Camille, que está há poucos meses na orquestra, dividiu com o trombonista Chris Crenshaw os divertidos vocais em “scat” (maneira de cantar sem palavras, utilizando a voz como instrumento), na citada composição de Gillespie.  

Antes de a orquestra tocar “Coisa n.º 2”, de Moacir Santos (1926-2006), Marsalis (na foto ao lado) pediu a Nailor Proveta que falasse à plateia sobre a obra musical do grande compositor e maestro pernambucano. Vale lembrar que Moacir morou nos Estados Unidos por cerca de quatro décadas e só foi homenageado e aplaudido por plateias brasileiras, como merecia, já em seus últimos anos de vida. 

Bastante aplaudido também foi o solo de trompete de Daniel D’Alcântara, em “Epistrophy”, um dos temas mais conhecidos do originalíssimo compositor e pianista Thelonious Monk (1917-1982).  O arranjo assinado pelo trombonista Chris Crenshaw é bem mais suingado do que as versões gravadas por esse pioneiro do jazz moderno. 
  
Já ao anunciar “Brasilliance”, seção da “Latin American Suite”, de Duke Ellington (1899-1974), Marsalis foi logo avisando à plateia que essa composição não se baseia, essencialmente, na música brasileira. O que não impediu Proveta de inflamar a plateia com seu solo, ao citar “Lamento Sertanejo” (de Dominguinhos), em um frenético ritmo de baião puxado pela percussão de Colares. 

A programação de Wynton Marsalis e JLCO prossegue hoje (20/6), com o concerto gratuito “Vozes Visionárias: Mestres do Jazz”, às 17h, no Sesc Campo Limpo. Mais informações sobre outras apresentações e atividades desse projeto no site do SESC SP.


Banda Mantiqueira: novo disco da big band festeja 25 anos com Lubambo e Marsalis

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               Os saxofonistas Cássio Ferreira (esq. para dir.), Proveta, Josué dos Santos e Ubaldo Versolato  

Manter uma orquestra ativa durante 25 anos já é por si só uma proeza, mas os músicos da Banda Mantiqueira e seus fãs têm mais a comemorar com o lançamento do álbum "Com Alma". Basta ouvir algumas faixas para comprovar que a aventura iniciada por essa big band paulistana, em 1991, resultou em uma linguagem instrumental brasileira que não se fecha às enriquecedoras influências de outras tradições musicais.

“Nos últimos anos, conseguimos aprimorar uma concepção musical mais aberta, que promove um encontro da música popular brasileira com o jazz e a música clássica”, resume o clarinetista e saxofonista Nailor “Proveta” Azevedo, referindo-se ao período que sucedeu o lançamento de “Terra Amantiquira” (2005), o álbum anterior da orquestra.

Para quem sentiu falta de um novo disco da Banda Mantiqueira, na última década, o fundador e líder explica que vários de seus integrantes, assim como ele, têm dedicado mais tempo ao ensino musical, buscando transmitir a linguagem da banda às novas gerações. Paralelamente, a banda participou de projetos com talentosas intérpretes da canção brasileira, como Mônica Salmaso, Rosa Passos, Fabiana Cozza e Anaí Rosa.

“Passamos esses dez anos sem gravar outro disco, mas, por outro lado, a gente cresceu muito musicalmente. Tocar e conviver com outros músicos ajuda a amadurecer. Os projetos com essas cantoras, assim como nossas atividades pedagógicas, trouxeram mais experiência para os músicos da banda”, avalia Proveta.

“Com Alma” representa o fim de um ciclo musical na trajetória da Banda Mantiqueira. Por isso, segundo seu líder, a necessidade de revisitar no repertório do novo álbum um pouco dessa história. Criada no início dos anos 1990, em um apartamento do bairro paulistano de Bela Vista, onde Proveta morava com o trompetista Walmir Gil e os saxofonistas Cacá Malaquias e Ubaldo Versolato, a Banda Mantiqueira veio coroar as experiências desses músicos em formações anteriores, como a Banda Savana, a Banda Aquarius e a Sambop Brass.

Duas composições incluídas no álbum nasceram durante a fase inicial da banda. O frevo “Forrólins”, de Cacá Malaquias, é uma homenagem ao veterano saxofonista norte-americano Sonny Rollins. O arranjo de Proveta combina o contagiante ritmo do Nordeste brasileiro com fraseado e improvisos típicos do jazz. Também composto por Malaquias, o lírico “Chorinho pra Calazans” é dedicado ao artista plástico pernambucano J. Calazans. Se você sentir algo de impressionista no arranjo de Proveta, saiba que não é mera coincidência.

“Stanats”, composição que o pernambucano Moacir Santos (1926-2006) dedicou ao saxofonista norte-americano Stan Getz (1927-1991), foi arranjada por Proveta, em 1994, como uma homenagem ao nosso genial compositor e maestro que muitos brasileiros só descobriram neste século. “Foi incrível ter tocado esse arranjo para o Moacir, o homem que levou o ritmo afro-brasileiro para o jazz clássico, com o requinte da música clássica europeia”, comenta Proveta.

Padrinho da Banda Mantiqueira, o grande músico e compositor João Bosco também é homenageado com seu samba “De Frente Pro Crime”, em arranjo inédito de Proveta. Ao violão, em participação muito especial, surge o carioca Romero Lubambo, com o qual a banda já planejava fazer algo há tempos. Lubambo também é o solista na gravação de “Desafinado” (obra-prima de Tom Jobim e Newton Mendonça), em belíssimo e inédito arranjo de Edson José Alves, que ressalta a sofisticação harmônica da bossa nova e as influências da música clássica que Jobim assimilou em sua obra.

“Con Alma” – a composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do trompete e do jazz moderno, que inspirou o título deste álbum – ganhou cores de bossa nova e samba-canção, no arranjo de Edson José Alves. Além de contar com o violão de Lubambo, essa gravação destaca outro convidado muito especial: o trompetista norte-americano Wynton Marsalis.

O líder da Jazz at Lincoln Center Orchestra também participa da gravação de “Segura Ele”, clássico choro de Pixinguinha (1897-1973). “Quando convidei o Marsalis, disse a ele que essa música lembra um ragtime do Scott Joplin”, conta Proveta, que escreveu a primeira versão desse arranjo para a orquestra paulista Jazz Sinfônica, ainda na década passada.

“Sentimos a necessidade de revisitar a história da banda, para lembrar de encontros musicais que fizeram a diferença em nossas vidas”, comenta Proveta, sintetizando muito bem o conceito deste álbum, que tem tudo para repercutir tanto em nosso pais, como no exterior. Vivendo hoje uma fase de grande produção e primor artístico, a música instrumental brasileira reflete na original experiência dessa big band um exemplo a ser seguido pelas novas gerações.

Como outros admiradores da Banda Mantiqueira, cuja trajetória tive o prazer de acompanhar desde o início, posso declarar que escutá-la durante estes 25 anos também foi sempre algo muito especial.

(Texto para o encarte do disco "Com Alma", escrito a convite da Banda Mantiqueira)





Brasiljazzfest: saxofonista Miguel Zenón investiga a identidade do jazz latino

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Aos 38 anos, ele é considerado um dos músicos mais originais e bem preparados da cena do jazz contemporâneo. Atração do Brasiljazzfest, o saxofonista e compositor porto-riquenho Miguel Zenón - na foto acima - já se apresentou antes por aqui, em festivais de jazz realizados em Manaus (AM) e Ouro Preto (MG). Agora vai tocar pela primeira vez, com seu quarteto, em São Paulo (dia 28/3, no Auditório Ibirapuera) e Rio de Janeiro (dia 29/3, na Cidade das Artes).

Em entrevista ao “Valor”, Zenón revela que grande parte do repertório dessas apresentações será extraído de “Identities Are Changeable”, o nono álbum de sua sólida obra fonográfica, lançado pelo selo independente Miel Music, no final de 2014. Como em outros de seus discos, ele aborda diversas formas musicais e ritmos típicos de seu país, mas desta vez foi mais ambicioso.

“Esse projeto nasceu do meu interesse pela música de Porto Rico. Tem a ver com minhas raízes musicais, com a minha identidade como músico”, comenta. Ao ler um livro sobre a diáspora caribenha (“The Diaspora Strikes Back”, de Juan Flores, professor de Análise Sociocultural da Universidade de Nova York), teve a ideia de utilizar uma metodologia semelhante: entrevistou vários artistas porto-riquenhos, cujos relatos e histórias pessoais inspiraram a criação das músicas para o álbum.

Uma bolsa concedida pela Universidade Montclair (de Nova Jersey) permitiu que Zenón escrevesse as novas composições, contando com uma formação instrumental mais extensa do que a de seu costumeiro quarteto. “Graças a esse projeto eu pude experimentar coisas novas”, observa o músico, que já havia recebido uma bolsa da Fundação Guggenheim, em 2010, para realizar um projeto calcado na “plena”, gênero de música folclórica porto-riquenha.

Neste momento delicado, em que a discussão sobre o preconceito racial na sociedade norte-americana voltou a se acirrar a partir dos recentes assassinatos na cidade de Ferguson (no estado de Missouri), Zenón diz que nunca chegou a enfrentar discriminação racial, propriamente, mesmo sendo um músico latino em um universo como o do jazz, dominado por músicos negros e brancos.

“Eu não diria que já senti preconceito. Acho que existe mais uma espécie de estigma de ser um músico latino-americano de jazz, porque as pessoas costumam esperar que a sua música soe sofisticada de alguma maneira”, comenta o porto-riquenho. “Há uma longa história de colaborações entre os músicos de jazz e os músicos latino-americanos, como as experiências de Dizzy Gillespie e toda a coisa do chamado jazz latino, mas, em última instância, o que conta mesmo é como a sua música soa”.

Nascido e criado em San Juan, capital de Porto Rico, Zenón ingressou em 1996, na disputada Berklee School of Music, em Boston (EUA). Dois anos depois radicou-se em Nova York, onde prosseguiu seus estudos, cursando a Manhattan School of Music. Nessa época já chamava atenção como integrante do grupo do saxofonista David Sanchez, seu conterrâneo.

Nos primeiros anos em Nova York, também teve a chance de conviver com o saxofonista norte-americano Steve Coleman, um dos mais respeitados experimentadores do jazz contemporâneo. “Steve se tornou uma espécie de mentor para muitos músicos de minha geração. Sua concepção musical certamente exerceu uma forte influência sobre mim. Poder tocar com ele, assim como passar um tempo conversando com ele sobre música, fez uma grande diferença em minha concepção musical”, reconhece.

Foi em Nova York também que Zenón formou o quarteto com o qual tem gravado e se apresentado desde o início da década de 2000. “Eu e meu pianista, Luis Perdomo, tocamos juntos há cerca de 15 anos. Henry Cole, o baterista, toca comigo há uma década. Especialmente nos dias de hoje é muito difícil manter uma banda unida por tanto tempo. Acho que sou muito sortudo por poder tocar por tanto tempo com caras que gostam da minha música, pessoas com as quais eu também gosto de conviver fora do palco. Eles são a espinha dorsal do que eu faço”.

Apreciador da música brasileira, Zenón diz que está planejando uma surpresa para a plateia do Brasiljazzfest: uma versão de alguma de suas melodias brasileiras favoritas. “Como a maioria dos músicos de jazz, eu adoro a música brasileira. Além do fato de se tratar de uma música incrível, de um universo musical muito vasto e variado, também há toda uma base comum que eu percebo entre a música brasileira e a música do Caribe, até mesmo em comum com a música de Porto Rico. Sou um grande fã da música do Brasil”, declara.


Trinta anos de curadoria musical

O Brasiljazzfest estreia em São Paulo e Rio, ostentando um legado de 30 anos de eventos jazzísticos no país. Em 1985, as irmãs Monique e Sylvia Gardenberg produziram a primeira edição do Free Jazz Festival, evento que, nas décadas seguintes, assumiu os formatos do Tim Festival e do BMW Jazz Festival. Ao lado de Monique segue até hoje quase a mesma equipe de curadores: o jornalista Zuza Homem de Melo, o músico Zé Nogueira e o produtor Pedro Albuquerque (que substituiu Paulinho Albuquerque, seu pai, em 2006).

A atração principal é o trompetista Wynton Marsalis, que não tem se apresentado em palcos brasileiros há dez anos. Ele volta como líder da Jazz at Lincoln Center Orchestra, big band nova-iorquina com a qual fará uma apresentação no Rio (dia 27) e três em São Paulo (dias 28 e 29, na Sala São Paulo; também no dia 29, ao ar livre, no Parque do Ibirapuera). Segundo Marsalis, esses concertos vão celebrar a influência das tradições musicais das Américas sobre o jazz. 


Formado por conceituados veteranos do jazz moderno, o septeto The Cookers reúne Billy Harper (sax tenor) e David Weiss (trompete), ambos na foto ao lado, Bennie Maupin (saxofones, flauta e clarone), Charles Tolliver (trompete), Donald Brown (piano), Cecil McBee (contrabaixo) e Ralph Peterson (bateria). Com quatro discos lançados, o grupo promete um tributo ao trompetista Lee Morgan, morto tragicamente, aos 33 anos, em 1972.

Melodias encantadoras e muito lirismo estão garantidos nas noites que reúnem dois sofisticados pianistas: o norueguês Tord Gustavsen e o brasileiro André Mehmari. Como em suas apresentações no 1º BMW Jazz, em 2011,Gustavsen virá com seu trio, mas os parceiros mudaram: desta vez serão Sigurd Hole (contrabaixo) e Jarle Vespestad (bateria).

Grande talento da nova geração da música instrumental e do jazz produzido no Brasil, Mehmari também vai se apresentar com seu trio, que inclui Neymar Dias (contrabaixo) e Sérgio Reze (bateria). No repertório, destacam-se composições de Ernesto Nazareth, em versões extraídas do recente “Ouro Sobre Azul”, um dos melhores discos do gênero, em 2014.  

(texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana do jornal "Valor Econômico", em 27/3/2015)  

 

Hamilton de Holanda: em fase de alta produção, bandolinista lança três álbuns

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Se você ainda não conhece a música de Hamilton de Holanda, já está mais do que na hora. Esse bandolinista e compositor brasiliense, radicado no Rio de Janeiro, é hoje um dos mais criativos expoentes da música instrumental brasileira, reconhecido também em vários países da Europa e nos EUA, onde tem se apresentado. Hamilton costuma dizer que, para ser acessível sem perder a sofisticação, a música precisa ser simples. Um princípio estético que tem tudo a ver com sua personalidade.

Esta entrevista foi realizada, em Olinda (PE), durante a última edição do festival Mimo, onde Hamilton se apresentou ao lado do pianista italiano Stefano Bollani. 

Você tem lançado mais de um disco por ano e, nos últimos meses, saíram três novos álbuns seus: “O Que Será” (pelo selo ECM), com o pianista italiano Stefano Bollani; “Mundo de Pixinguinha” (selo Rob Digital), com diversos convidados; e “Trio” (selo Brasilianos), do seu grupo. Como você explica essa produção tão intensa?
 
Hamilton de Holanda - A vida é movimento. Eu me sinto num momento bem produtivo e não vou me podar, mesmo que isso possa até incomodar algumas pessoas. Já ouvi fãs reclamarem de não ter dinheiro para comprar todos os meus discos. Alguns dos meus CDs estão à venda em lojas ou no iTunes, mas outros estão em meu site, de graça. Daqui a dez ou vinte anos, quero poder olhar pra eles sem ficar pensando que poderiam ter ficado melhores. Quando termino um disco, costumo me desapegar dele. Tenho consciência de que fiz o melhor naquela época.

Como surgiu seu duo com o pianista Stefano Bollani?

HH - Quando eu morava na França, ganhei um disco do Bollani que tinha composições dele, bem diferentes e com harmonias muito bonitas. Na última faixa, ele cantava “Trem das Onze”, do Adoniran [Barbosa], em italiano. Aí pensei: um dia vou cruzar com esse cara e tocar com ele. Não deu outra: em 2009, fui tocar em um festival em Bolzano, na Itália, e participei de um show do Bollani. Tocamos uma do Baden [Powell] e uma do Egberto [Gismonti]. Desde então já fizemos mais de 50 shows juntos. Gosto muito de tocar com ele. Fora o grande musico que o Bollani é, além de todo o conhecimento que ele possui do instrumento, tem muito humor na música que ele faz.

Vocês sempre tocam o repertório desse disco nos shows?

HH - Nós até repetimos uma ou outra música, alguma dele, alguma do Pixinguinha, mas sempre tocamos outras diferentes. Assim o show sempre traz surpresas para o público, mas também gostamos de [criar] surpresas para a gente. “O Que Será” é a gravação do último show de um giro que demos pela Europa, no ano passado. Foi gravado em um festival na Antuérpia, que comemorou os 90 anos do gaitista Toots Thielemans, com umas 5 mil pessoas na plateia. Foi uma noite muito especial.

O álbum “O Que Será” foi lançado pelo ECM, um dos selos independentes mais cultuados na área do jazz e da música instrumental. Você também é fã dos discos do ECM? Como é que se deu esse contato?

 
HH - Sim. Todo cara, que gosta de jazz, gosta do “Koln Concert”, do Keith Jarrett, por exemplo. Ou dos discos do Egberto (Gismonti), do Naná (Vasconcelos) e do Jan Garbarek. O Bollani já tinha um disco lançado com o Chick Corea pela ECM – esse foi o nosso canal. Ele mandou a gravação para o Manfred Eischer [criador e diretor do selo], que adorou. Os dois foram para a Noruega e mixaram o disco em Oslo.

Em “Mundo de Pixinguinha” você toca em duos com um elenco internacional de convidados, como os pianistas cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa, o acordeonista francês Richard Galliano, o trompetista norte-americano Wynton Marsalis e o próprio Bollani, entre outros. Como foi a produção desse trabalho?

HH - O processo de criação desse disco foi mais coletivo, até porque envolveu muitos convidados. É um projeto meu, com o meu empresário, o Marcos Portinari, e a produtora Lu Araújo. A ideia surgiu em Brasília, na inauguração de uma exposição sobre o Pixinguinha. O projeto inicial era gravar com três pianistas, mas, de repente apareceu o Wynton, e gravamos o Mário Laginha, quando estive em Lisboa. Depois pensamos que também tínhamos que convidar músicos brasileiros, então entraram o [pianista] André Mehmari, a [flautista] Odette Ernest Dias e o [saxofonista e flautista] Carlos Malta. Foi um processo bem trabalhoso, mas muito divertido. A ideia é justamente expandir um pouco o universo da música do Pixinguinha.

Alguma surpresa durante as gravações? 

 
HH - Eles [os convidados estrangeiros] ficaram encantados. Quando estávamos tocando “Lamentos”, o Chucho [Valdés] parou no meio da gravação, emocionado. O [Richard] Galliano me disse que a música do Pixinguinha pode ser antiga, mas, além de popular, é uma música elaborada, o que permite que ela possa soar eterna, atemporal.

Você tem tocado e gravado em duos, com frequência. O que atrai você nesse formato instrumental? 

 
HH - Eu aprendi a tocar com o meu pai, em casa. Então, mesmo que eu não pense nisso, o duo sempre vai estar presente na minha vida. Tocar em duo é uma relação muito íntima. Tocar sozinho é a intimidade no máximo, mas é uma coisa muito solitária. O duo mantém essa intimidade, mas com alguém. Existe uma cumplicidade muito grande no duo. Tocar em duo também permite dividir a música com outra pessoa. Tenho isso em mim desde pequeno. Meu pai dizia que, se você aprender a tocar um instrumento, vai fazer muitos amigos na vida.

(Versão completa da entrevista publicada no “Guia Folha - Livros, Discos, Filmes”, em 26/10/2013) 


 

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