Projeto B: quinteto combina referências do jazz de vanguarda e da música contemporânea
Marcadores: amílcar rodrigues, arnaldo antunes, claude debussy, György Ligeti, henrique alves, jazz, leonardo corrêa, mauricio caetano, música instrumental, projeto B, vanguarda, yvo ursini | author: Carlos CaladoÉ provável que você já os tenha ouvido, ao lado de intérpretes do pop nacional ou tocando com outros grupos instrumentais. Mas é como músicos do Projeto B que Yvo Ursini (guitarra), Leonardo Corrêa (saxofones), Amílcar Rodrigues (trompete), Henrique Alves (baixo) e Mauricio Caetano (bateria) se superam.
Criar uma obra musical de personalidade, combinando referências do jazz de vanguarda, do som instrumental brasileiro e da música erudita contemporânea não é para qualquer um. “Isso”, o quarto álbum do quinteto (lançamento Panela/Tratore), deve ser ouvido com atenção absoluta.
Não bastasse a qualidade do material próprio – como a alucinante “Labirinto” (de Corrêa) ou o quase funk “339” (Ursini), com um poema de Arnaldo Antunes que ele mesmo entoa –, o repertório inclui adaptações de peças de compositores contemporâneos, como György Ligeti (“Música Ricercata nº7”) ou Claude Debussy (“Des Pas Sur la Neige”). Difícil não sorrir ao escutar “Canção de Ninar para Pedro” (Corrêa), que simula um pesadelo.
(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos & Filmes", edição final, em 30/04/2016)
Miriam Maria: segundo álbum da cantora, "Rama", transporta o ouvinte para a selva
Marcadores: andré abujamra, chico césar, danilo de moraes, itamar assumpção, miriam maria, MPB, orquídeas do brasil, paulo césar pinheiro, paulo leminski, simone sou, vicente barreto | author: Carlos CaladoUma “viagem sonora”. É assim que a cantora paulista Miriam Maria (integrante do grupo Orquídeas do Brasil, formado nos anos 1990 para acompanhar Itamar Assumpção) sintetiza o espírito de “Rama” (lançamento do selo Pôr do Som), seu segundo disco solo. Muito bem produzido por ela, em parceria com a percussionista Simone Sou e os violonistas Chico César e Danilo Moraes, também presentes em várias faixas, esse álbum transmite tanto nas letras das canções como nos arranjos a sensação de se penetrar um Brasil profundo.
Intérprete de voz doce e segura, Miriam não busca resgatar sonoridades sertanejas, nem folclóricas. A percussão e os samples de Simone transportam o ouvinte para uma selva, em “Capitão do Mato” (de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro), assim como realçam a atmosfera sombria de “Moer Cana” (de Chico César). Emoldurada pelo guitarrista André Abujamra, mestre das trilhas sonoras, a faixa-bônus “Filho de Santa Maria” (Itamar Assumpção e Paulo Leminski) encerra essa viagem sonora, transformando-a em sonho.
(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos & Filmes", edição final, em 30/04/2016)
Nailor Proveta: três álbuns preciosos de um virtuose da música instrumental brasileira
Marcadores: choro, edson josé alves, instrumental, jazz, k-ximbinho, lea freire, Mauricio Carrilho, nailor proveta, pedro paes, pixinguinha, Teco Cardoso | author: Carlos CaladoO apelido Proveta, que virou nome artístico, surgiu durante a adolescência de Nailor Azevedo, nos anos 1970. O então precoce clarinetista e saxofonista, paulista da interiorana Leme, era chamado de “bebê de proveta” pelos colegas da capital, que já o consideravam um prodígio.
Diferentemente de tantos jovens talentos que se perdem pelo caminho, Proveta superou as melhores expectativas. Muito requisitado nos meios da música instrumental e da MPB, tornou-se compositor, arranjador e líder da conceituada Banda Mantiqueira. Eclético, também transita com facilidade pelo jazz e pela música clássica.
Quem conhece seu belíssimo álbum “Tocando para o Interior”, de 2007, vai logo notar que, em “Coreto no Leme” (lançamento independente), ele rebobina novamente imagens e sons de sua infância, resgatando a atmosfera dos coretos interioranos.
A sonoridade do Quarteto de Cordas Ensemble SP, presente na maioria das faixas desse disco, é essencial para traduzir a eclética concepção musical que Proveta exercita há décadas, em sua carreira. Para ele, a plenitude da música só pode ser apreciada quando se supera a limitadora divisão em gêneros, que separa o clássico do popular.
O repertório, quase todo composto pelo clarinetista, soa como uma coleção de emoções e sentimentos: a alegria da “Polca de Coreto”; a nostalgia do choro-habanera “De Manhã, Lembranças”; o romantismo da valsa “Ypê do Cerrado” (composição de Edson José Alves); a admiração revelada pela “Suíte Encontros”, na qual o clarinetista dialoga com as influências de Debussy, Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, entre outras.
A concisa discografia solo de Proveta acaba de ganhar mais dois títulos. O álbum “Velhos Companheiros de K-Ximbinho” (lançamento Maritaca) exibe inovadoras releituras de composições do cultuado clarinetista e saxofonista potiguar Sebastião “K-Ximbinho” de Barros (1917-1980).
Contando com participações de alguns craques da cena instrumental, com destaque para os flautistas Teco Cardoso (que assina a direção musical) e Lea Freire (responsável pela produção), esse trabalho deixa Proveta à vontade para exibir todo seu virtuosismo como solista.
Choros com contagiante sabor de gafieira, como “Velhos Companheiros” e “Sempre”, chamam atenção no repertório desse álbum, mas é em choros mais emotivos, de andamento lento, que Proveta se supera nos improvisos. Tratadas como baladas jazzísticas, as releituras de “Eu Quero É Sossego” e “Ternura” são simplesmente de arrepiar.
Já em “Brasileiro Saxofone - vol 2” (lançamento Acari), Proveta leva adiante a proposta do álbum lançado em 2009, no qual esboçou a trajetória do sax na música brasileira do século 20. Desta vez o repertório é mais contemporâneo ainda: o próprio Proveta e o saxofonista Pedro Paes – autor do belo choro “Mensageiro”, que abre o disco – compuseram a maioria das faixas.
Num projeto como este, dedicado ao saxofone, a trilogia composta por Proveta com o violonista Mauricio Carrilho, seu frequente parceiro, ganha um significado especial. Os choros “Meu Sax Sumiu”, “Meu Sax Voltou” e “Meu Sax Sorriu” nasceram a partir do verídico episódio do roubo e do resgate do instrumento favorito de Proveta. Um incidente triste que gerou choros radiantes.
(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes, edição de 30/4/2016)
Notas para turistas: voos da Copa Airlines permitem chegar a New Orleans via Panamá
Marcadores: Copa Airlines, jazz fest, louis armstrong, new orleans, New Orleans Convention and Visitors Bureau | author: Carlos Calado
Estátua de Louis Armstrong e mural, no aeroporto de New Orleans - Photo: Wally Gobetz
Já estive muitas vezes na cidade de New Orleans, na Louisiana, quase sempre para acompanhar o Jazz & Heritage Festival –- um dos melhores e maiores eventos musicais do mundo, que a população local chama apenas de Jazz Fest. Para chegar lá, já viajei por diversas companhias aéreas brasileiras ou norte-americanas, sempre fazendo conexão em alguma cidade dos estados da Flórida ou do Texas, já que não existe um voo direto de São Paulo para New Orleans.
Encarar as longas filas do setor de emigração, especialmente quando se desembarca em Dallas ou Houston, é um dos raros momentos desagradáveis, às vezes tensos, dessa viagem. Pela atitude de alguns oficiais um tanto mal humorados, já cheguei a pensar que eles prefeririam que ninguém entrasse em seu país, nem mesmo os turistas que estavam ali apenas para ouvir música e se divertirem, como eu.
Minha chegada nos Estados Unidos foi diferente, neste ano. Pela primeira vez passei pelo setor de imigração do próprio Aeroporto Internacional Louis Armstrong, em New Orleans. “Ah, você é do Brasil? De onde? São Paulo?”, foi logo perguntando o oficial. Depois de conferir meu passaporte e de mais algumas perguntas, ele disse que eu era bem vindo e desejou que eu me divertisse no Jazz Fest. Nada mais agradável para alguém chegando aos EUA do que ser recebido com a simpatia típica dos moradores de New Orleans.
Essa mudança de rotina se deve ao fato de eu ter viajado pela Copa Airlines, pela primeira vez. Desde o ano passado essa companhia panamenha está oferecendo voos para New Orleans -– partindo de várias cidades brasileiras, como São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre –- com escala na Cidade do Panamá. Outro detalhe interessante a considerar: os preços dos bilhetes da Copa Airlines costumam sair mais em conta do que os das companhias norte-americanas.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)
Já estive muitas vezes na cidade de New Orleans, na Louisiana, quase sempre para acompanhar o Jazz & Heritage Festival –- um dos melhores e maiores eventos musicais do mundo, que a população local chama apenas de Jazz Fest. Para chegar lá, já viajei por diversas companhias aéreas brasileiras ou norte-americanas, sempre fazendo conexão em alguma cidade dos estados da Flórida ou do Texas, já que não existe um voo direto de São Paulo para New Orleans.
Encarar as longas filas do setor de emigração, especialmente quando se desembarca em Dallas ou Houston, é um dos raros momentos desagradáveis, às vezes tensos, dessa viagem. Pela atitude de alguns oficiais um tanto mal humorados, já cheguei a pensar que eles prefeririam que ninguém entrasse em seu país, nem mesmo os turistas que estavam ali apenas para ouvir música e se divertirem, como eu.
Minha chegada nos Estados Unidos foi diferente, neste ano. Pela primeira vez passei pelo setor de imigração do próprio Aeroporto Internacional Louis Armstrong, em New Orleans. “Ah, você é do Brasil? De onde? São Paulo?”, foi logo perguntando o oficial. Depois de conferir meu passaporte e de mais algumas perguntas, ele disse que eu era bem vindo e desejou que eu me divertisse no Jazz Fest. Nada mais agradável para alguém chegando aos EUA do que ser recebido com a simpatia típica dos moradores de New Orleans.
Essa mudança de rotina se deve ao fato de eu ter viajado pela Copa Airlines, pela primeira vez. Desde o ano passado essa companhia panamenha está oferecendo voos para New Orleans -– partindo de várias cidades brasileiras, como São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre –- com escala na Cidade do Panamá. Outro detalhe interessante a considerar: os preços dos bilhetes da Copa Airlines costumam sair mais em conta do que os das companhias norte-americanas.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)
Notas para turistas: em New Orleans, Ace Hotel oferece violão e pickup nos quartos
Marcadores: Ace Hotel, blues, dicas de turismo, jazz, jazz fest, Josephine Estelle, new orleans, onde se hospedar em Nova Orleans, Three Keys, viagem, Warehouse District | author: Carlos Calado
Interior de um quarto do Ace Hotel, em New Orleans - Photo: Simon Watson
Já imaginou entrar em um quarto de hotel e encontrar um violão Martin novinho, esperando ser afinado e tocado? Ou então se deparar com um pick-up Music Hall (também conhecido como toca-discos ou vitrola, dependendo da sua faixa etária -- na foto abaixo), sobre um rack recheado de discos de vinil de jazz e blues?
Essas foram algumas das boas surpresas ao me hospedar no recém-inaugurado Ace Hotel, em New Orleans, durante o primeiro final de semana do Jazz & Heritage Festival 2016. A agitação constante no hall de entrada e a afluência de público para a programação de estreia do Three Keys (um espaço no hotel planejado para apresentações de música ao vivo) mostraram que o Ace já caiu no gosto de seus frequentadores.
Instalado em um edifício art decó de nove andares construído em 1928 e agora totalmente reformado, onde funcionava uma importadora de móveis, o Ace Hotel fica na descolada área central de Warehouse District. Oferece 234 quartos decorados em estilo vintage, em tons de abacate, cinza e berinjela, além de bar, restaurante e uma piscina na cobertura, com uma bela vista para a cidade.
Com preços razoáveis, o restaurante Josephine Estelle, que também serve o café da manhã (não incluído nas diárias do hotel), combina pratos da culinária italiana com toques da cozinha do sul dos Estados Unidos, assinados pelos chefs Andy Ticer e Michael Hudman.
Para quem se hospeda no Ace Hotel durante o New Orleans Jazz Fest, as vantagens de se ficar fora da disputada área turística do French Quarter são várias: preços de diárias mais em conta, menos barulho nas redondezas e maior facilidade para acessar outras área da cidade, já que as ruas do French Quarter costumam ficar bem congestionadas durante os dias do festival.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)
Já imaginou entrar em um quarto de hotel e encontrar um violão Martin novinho, esperando ser afinado e tocado? Ou então se deparar com um pick-up Music Hall (também conhecido como toca-discos ou vitrola, dependendo da sua faixa etária -- na foto abaixo), sobre um rack recheado de discos de vinil de jazz e blues?
Essas foram algumas das boas surpresas ao me hospedar no recém-inaugurado Ace Hotel, em New Orleans, durante o primeiro final de semana do Jazz & Heritage Festival 2016. A agitação constante no hall de entrada e a afluência de público para a programação de estreia do Three Keys (um espaço no hotel planejado para apresentações de música ao vivo) mostraram que o Ace já caiu no gosto de seus frequentadores.
Instalado em um edifício art decó de nove andares construído em 1928 e agora totalmente reformado, onde funcionava uma importadora de móveis, o Ace Hotel fica na descolada área central de Warehouse District. Oferece 234 quartos decorados em estilo vintage, em tons de abacate, cinza e berinjela, além de bar, restaurante e uma piscina na cobertura, com uma bela vista para a cidade.
Com preços razoáveis, o restaurante Josephine Estelle, que também serve o café da manhã (não incluído nas diárias do hotel), combina pratos da culinária italiana com toques da cozinha do sul dos Estados Unidos, assinados pelos chefs Andy Ticer e Michael Hudman.
Para quem se hospeda no Ace Hotel durante o New Orleans Jazz Fest, as vantagens de se ficar fora da disputada área turística do French Quarter são várias: preços de diárias mais em conta, menos barulho nas redondezas e maior facilidade para acessar outras área da cidade, já que as ruas do French Quarter costumam ficar bem congestionadas durante os dias do festival.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)
New Orleans Jazz & Heritage Festival 2016: Walter Wolfman toca no Brasil em maio
Marcadores: b.b. king, blues, Bourbon Festival Paraty, funk, joe krown, roadmasters, russell batiste, soul, walter wolfman washington | author: Carlos Calado
O cantor e guitarrista Walter Wolfman Washington
Um dos artistas que melhor representam a eclética cena musical de Nova Orleans virá ao Brasil em maio. O guitarrista e cantor Walter “Wolfman” Washington, 72, vai se apresentar em São Paulo (dia 19, no clube Bourbon Street), além de ser uma das atrações do Bourbon Festival Paraty (dia 21, no litoral fluminense).
Não foi à toa que, alguns anos atrás, a prefeitura de Nova Orleans instituiu o Dia Walter Wolfman Washington, que é comemorado em 30 de abril. Ele toca há décadas, regularmente, no alternativo Maple Leaf Bar, sempre aplaudido por plateias bem jovens. Em seus shows e discos exibe uma irresistível mistura de blues, funk e soul.
Foi o que se viu e ouviu também na apresentação de Washington, no New Orleans Jazz & Heritage Festival, no último final de semana. Ao lado de outros dois craques com os quais toca habitualmente, o organista Joe Krown e o baterista Russell Batiste, ele excitou a plateia da tenda de blues com seus vocais e improvisos carregados de suingue.
Também fez jus a seu codinome “Wolfman” (homem-lobo). Já quase ao final do show, Washington ergueu a guitarra e a tocou com os dentes, para o delírio dos fãs, como se estivesse destroçando o instrumento.
Em entrevista à Folha, o guitarrista diz que sua facilidade para transitar por vários gêneros da música negra tem tudo a ver com o ambiente de sua cidade natal. Se não tivesse nascido e crescido em Nova Orleans, provavelmente, sua música não seria a mesma.
“Já estive em muitos lugares do mundo e sei que Nova Orleans tem um ambiente, um espírito musical diferente. Aqui os músicos se comunicam de uma maneira mais intensa, até porque quase todos se conhecem”, comenta Washington.
Citando o “rei do blues” B.B. King (1925-2015), como músico que adotou como modelo durante sua formação musical, Washington diz que o blues se confunde com sua própria vida.
“O blues reflete as atribulações que enfrentamos. Para ser um músico de blues, você precisa encontrar uma maneira própria de explicar como se sente frente às dificuldades da vida”, comenta. “Dizem por aí que eu toco rhythm & blues [uma derivação mais pop e dançante desse gênero musical], mas eu me considero, antes de tudo, um músico de blues”.
Washington avisa que trará sua banda, The Roadmasters, que também o acompanhou ao Brasil em 2014, quando se apresentaram no Bourbon Street Fest, em São Paulo. “É sempre muito confortável estar com eles. Já tocamos juntos há mais de 20 anos”, conclui o guitarrista.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club. Texto publicado na "Folha de S.Paulo", em 27.04.2016)
Não foi à toa que, alguns anos atrás, a prefeitura de Nova Orleans instituiu o Dia Walter Wolfman Washington, que é comemorado em 30 de abril. Ele toca há décadas, regularmente, no alternativo Maple Leaf Bar, sempre aplaudido por plateias bem jovens. Em seus shows e discos exibe uma irresistível mistura de blues, funk e soul.
Foi o que se viu e ouviu também na apresentação de Washington, no New Orleans Jazz & Heritage Festival, no último final de semana. Ao lado de outros dois craques com os quais toca habitualmente, o organista Joe Krown e o baterista Russell Batiste, ele excitou a plateia da tenda de blues com seus vocais e improvisos carregados de suingue.
Também fez jus a seu codinome “Wolfman” (homem-lobo). Já quase ao final do show, Washington ergueu a guitarra e a tocou com os dentes, para o delírio dos fãs, como se estivesse destroçando o instrumento.
Em entrevista à Folha, o guitarrista diz que sua facilidade para transitar por vários gêneros da música negra tem tudo a ver com o ambiente de sua cidade natal. Se não tivesse nascido e crescido em Nova Orleans, provavelmente, sua música não seria a mesma.
“Já estive em muitos lugares do mundo e sei que Nova Orleans tem um ambiente, um espírito musical diferente. Aqui os músicos se comunicam de uma maneira mais intensa, até porque quase todos se conhecem”, comenta Washington.
Citando o “rei do blues” B.B. King (1925-2015), como músico que adotou como modelo durante sua formação musical, Washington diz que o blues se confunde com sua própria vida.
“O blues reflete as atribulações que enfrentamos. Para ser um músico de blues, você precisa encontrar uma maneira própria de explicar como se sente frente às dificuldades da vida”, comenta. “Dizem por aí que eu toco rhythm & blues [uma derivação mais pop e dançante desse gênero musical], mas eu me considero, antes de tudo, um músico de blues”.
Washington avisa que trará sua banda, The Roadmasters, que também o acompanhou ao Brasil em 2014, quando se apresentaram no Bourbon Street Fest, em São Paulo. “É sempre muito confortável estar com eles. Já tocamos juntos há mais de 20 anos”, conclui o guitarrista.
(Viagem realizada a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club. Texto publicado na "Folha de S.Paulo", em 27.04.2016)
New Orleans Jazz & Heritage Festival 2016: artistas homenagearam Prince
Marcadores: geri allen, Herbie Hancock, jack dejohnnette, Janelle Monáe, jazz, john mayall, Kermit Ruffins, Prince, ravi coltrane, Russell Malone, sharon jones, steely dan, wayne shorter | author: Carlos CaladoA repercussão da morte do cantor Prince marcou o primeiro final de semana do 47.º Jazz & Heritage Festival, em Nova Orleans. Bem ao estilo dessa cosmopolita cidade norte-americana, conhecida pelos funerais animados por bandas de rua, fãs homenagearam seu ídolo sem lágrimas, dançando e cantando sua música.
Foi assim na tarde do último sábado, durante os minutos que antecederam a apresentação do soulman Maxwell, no palco dedicado a atrações da black music. Um DJ tocou sucessos de Prince, como “Kiss” e “When Doves Cry”, festejados por boa parte da plateia.
Sharon Jones e Janelle Monáe, cantoras que chegaram a trabalhar com Prince, também o homenagearam durante seus shows no festival. Até mesmo músicos locais de outros gêneros, como o trompetista Kermit Ruffins e a banda de rock Gov`t Mule, renderam tributos ao cantor.
Atração principal da sexta-feira no palco dedicado à música pop, a veterana banda Steely Dan conquistou uma multidão de fãs de várias gerações com uma seleção de hits, como “Aja”, “Pretzel Logic” e “Black Friday”, todos com arranjos sofisticados e pinceladas jazzísticas.
Mas nem esses clássicos da dupla Donald Fagen & Walter Becker, nem os dançantes covers de James Brown e Jackson Five interpretados por Janelle Monáe, chegaram perto do impacto causado pelo show da carismática Sharon Jones, na Tenda Blues.
Lutando contra um câncer desde 2013, ela fez uma apresentação furiosa, cantando e dançando como se estivesse fazendo o último show de sua vida. Já ao se despedir, demonstrou confiança: “Tchau, Nova Orleans. Daqui a alguns anos a gente se vê de novo”.
Mais uma vez com uma programação repetitiva, a Tenda Jazz apresentou ao menos um ótimo concerto por dia. Na sexta, a pianista Geri Allen releu composições de Errol Garner, com o brilhante guitarrista Russell Malone a seu lado
No sábado, o baterista Jack DeJohnnette (na foto acima) exibiu seu novo trio com o saxofonista Ravi Coltrane e o baixista Matt Garrison, filhos de lendários jazzistas. Finalmente, o pianista Herbie Hancock e o saxofonista Wayne Shorter hipnotizaram a superlotada plateia com seus solos viajandões, no domingo.
Anunciado só na véspera para encerrar os shows de domingo, na Tenda Blues, o britânico John Mayall (na foto à direita) surpreendeu muitos que ainda não o conheciam. Aos 82 anos, esse influente blueseiro ainda canta e toca guitarra, gaita e piano com uma vitalidade impressionante.
(Viajei a convite do New Orleans Convention and Visitors Bureau, da Copa Airlines e do Bourbon Street Music Club)
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